Paolo Cugini (org.)
A descoberta da essência do homem
Que é o homem? A resposta socrática é inequívoca: o homem é a sua alma, uma vez que é a alma que o distingue de todas as outras coisas.
Ninguém antes de Sócrates entendeu por alma aquilo que Sócrates entendeu e, depois de Sócrates, todo o Ocidente. A alma, para Sócrates, coincide com a nossa consciência pensante e operante, com a nossa razão e com a sede da nossa atividade pensante e eticamente operante.
Para Sócrates a alma é o eu consciente, é a personalidade intelectual e moral, a vida do homem adquire o seu justo sentido só agora, “Sócrates criou a tradição moral e intelectual da qual a Europa passou a viver a partir de então”.
3. Especificações e documentos relativos á nova concepção sacrática de “psyché”
Toda a doutrina socrática pode ser resumida nessas proposições convergentes: “conhecer a si mesmo” e “cuidar de si mesmo”. E conhecer “a si mesmo” não quer dizer conhecer o próprio nome nem o próprio corpo, mas examinar-se interiormente e conhecer a própria alma, assim como cuidar de si mesmo não quer dizer cuidar do próprio corpo, mas da própria alma. Ensinar a conhecer e a cuidar de si mesmos é a tarefa suprema da qual Sócrates considera ter sido investido por Deus.
4. O novo significado da “Arete” e a revolução da tábua de valores
Sócrates pode determinar em que consiste a areté humana: ela não pode ser senão o que permite á alma ser boa, isto é, ser aquilo que pela sua natureza ela deve ser senão o que permite á alma ser boa, isto é, ser aquilo que pela sua natureza ela deve ser. Cultivar a areté significara tornar a alma ótima, realizar plenamente o eu espiritual, alcançar o fim próprio do homem interior e, com isso, também a felicidade.
Mas que é a virtude?
A resposta de Sócrates é bem conhecida: a virtude é “ciência” ou “conhecimento”, e o contrario da virtude, isto é, o vicio é privação de ciência e de conhecimento, vale dizer, “ignorância”. Se o homem distingue-se pela sua alma, e se a alma é o seu consciente e inteligente, então a areté, ou seja, aquilo que atualiza plenamente essa consciência e inteligência, não pode ser senão a ciência e o conhecimento.
O valor supremo para os homens é, portanto, o conhecimento, a nítida superioridade hierárquica da alma com relação ao corpo e a identificação do verdadeiro homem com a alma e não mais com o corpo, comportava o deslocamento para segundo plano, senão a anulação, dos valores físicos e exteriores, e a conseqüente ascensão ao primeiro plano dos valores interiores da alma e, em particular, do valor da ciência que supera a todos.
5. Os “paradoxos” da ética socrática
A tese socrática da indentidade entre virtude e ciência implicava, em primeiro lugar, a unificação das virtudes tradicionais, como a sapiência, a justiça, a sabedoria, a temperança, a fortaleza em uma só e única virtude, justamente porque, sendo virtudes, cada uma e todas se reduzem essencialmente ao conhecimento. Ademais, ela implicava a redução do vício, que é o contrário da virtude, á ignorância, que é o contrário do conhecimento; e implicava, enfim, a conclusão de que quem faz o mal (que é ignorância) o faz, justamente, só por ignorância e não porque queria o mal sabendo que é mal.
Sócrates, diante da virtude e da vida moral do homem, faz exatamente o que os pré-socráticos fizeram diante da natureza tenta submeter ao domínio da razão a vida humana, assim como aqueles tinham submetido o mundo o mundo externo ao domínio da razão humana. Para ele, a virtude ela deve se algo motivado racionalmente, justificado e fundado no plano do conhecimento. E, neste sentido, ele diz que a virtude é conhecimento. Evidentemente, não qualquer conhecimento, mas a mais elevada e sublime ciência: a ciência do que é o homem e do que é bom e útil ao homem.
Mas difícil pode parecer a justificação do segundo principio: o homem só quer o bem e não o mal, e quem faz o mal o faz involuntariamente, o que quer dizer que ninguém peca voluntariamente.
Sócrates considera, que não é possível conhecer o bem sem fazê-lo. O conhecimento do bem, para Sócrates, não é só condição necessária, mas também suficiente para ser virtuoso. Na ação moral, ou seja, no exercício da virtude, a vontade (do bem) tem um peso e uma relevância pelo menos tão importante quanto o conhecimento do bem. Essa ilimitada confiança na razão e na inteligência e o destaque quase nulo dado á vontade é, exatamente, o que mereceu a acusação de intelectualismo á ética socrática. Sócrates, em suma, tem, diante do espírito humano, aquelas mesmas visões unilaterais que tem Parmênides diante do ser.
6. Autodomínio, liberdade interior e autarquia
É praticamente revelador o conceito de “autodomínio”, chamado expressamente de “o bem mais excelente para os homens”. A criação do conceito, com o relativo termo, enkráteia (grego) remonta certamente a Sócrates. A enkráteia é domínio de si nos estados de prazer e dor, nas fadigas, no movimento dos impulsos e das paixões. Numa palavra, ela é domínio sobre a própria animalidade. Sócrates identificou expressamente a liberdade com a enkráteia.
Em conexão com esses conceitos de enkráteia e eleuthería, Sócrates deve ter desenvolvido também o conceito de autarquia ou seja, de autonomia da virtude e do homem virtuoso.
No conceito de autarquia, existem duas notas características: a) a autonomia com relação ás necessidades e aos impulsos físicos pelo controle da razão (da psyché) e b) o fato de bastar só razão (a psyché) para alcançar a felicidade. O autodomínio (enkráteia) é domínio não da vontade, mas da razão e do conhecimento sobre os impulsos sensíveis; a liberdade (eleuthería) não é o livre-arbítrio, a liberdade do querer, ma as liberdade do logos, ou seja, a capacidade da razão de impor as próprias instancias da animalidade humana. E a autarquia, como independência das necessidades animais, é, também ela, auto-suficiência do logos humanos, esses conceitos nascem da mesma matriz da qual nasce a doutrina da virtude-ciência e da onipotência da ciência, e carrega a mesma marca.
7. O prazer, o útil e a felicidade
Sócrates, para levar os ouvintes a admitir os seus paradoxos éticos, move-se a partir da convicção comum a todos e que ninguém na realidade contesta (isto, é que o bem e o prazer são a mesma coisa), e, partindo dessa premissa, sobre a qual de fato todos concordam demonstra que, em todo caso, não é abandono ao prazer como tal que pode dar a felicidade, mas sim um perspicaz cálculo do prazer, uma sábia mensuração do prazer que, adequadamente, o saiba discriminar e dosar: tudo depende do uso que se faça deles: se o prazer é submetido á disciplina da enkráteia e da ciência, é algo positivo. É certo, porém, que a felicidade não depende do prazer como tal.
O útil de que fala Sócrates é sempre o útil da alma, é o útil do corpo só lhe interessa em função do útil da alma. A felicidade não é dada nem pelos bens exteriores nem pelos bens do corpo, mas pelos bens da alma, ou seja, pelo aperfeiçoamento da alma mediante a virtude, que é conhecimento e ciência. Aperfeiçoar a alma com a virtude significa, atuar a sua mais autentica natureza, ser plenamente si mesmo, realizar o plano acordo de si consigo, e é exatamente isso que leva a ser feliz. A felicidade é inteiramente interiorizada, desligada daquilo que vem de fora e ate o que vem do corpo, e posta na alma do homem, e, portanto, consignada ao pleno domínio do homem. A felicidade não depende das coisas e da sorte, mas do logos humano e da interior formação que com o logos o homem pode se dar.
8. A amizade
Com Sócrates teve início também a reflexão filosófica sobre a amizade. O amigo verdadeiro é, indubitavelmente, um bem grandíssimo para os homens, e para conquistar bons amigos o homem não deve economizar qualquer sacrifício.
Mas qual é o amigo verdadeiro? É, ao invés, o homem virtuoso: o homem que é capaz de bastar-se a si mesmo que tem domínio de si e que possui as qualidades daí decorrentes, a condição primeira para conquistar amigos bons é a de nos tornarmos bons nós mesmos: de fato, só quem é bom pode ser amigo de quem é bom, também a amizade é remetida a dimensão da psyché e fundada sobre a areté.
9. A política
Sócrates não teve simpatia pela política militante, antes, sentiu por ela forte aversão, foi perseguido pelos democratas e pelos oligarcas e, pelas mesmas razoes, ou seja, porque jamais hesitou em criticar os malfeitos de uns e de outros; antes, por opor-se á injustiça, chegou mesmo a pôr em risco a própria vida.
Todavia, o seu ensinamento esteve bem longe de ser apolítico. O horizonte socrático foi o da polis grega e, mais ainda, o da polis ateniense:
Não há duvida de que ele tendia a formação de homem que do modo melhor pudessem ocupar-se da coisa pública; que o verdadeiro político, para Sócrates, não podia ser senão o homem perfeito moralmente, ou seja, político devia ser político na dimensão da alma e capaz de cuidar das almas dos outros.
10. A evolução da não-violência
A arma da sua revolução não-violenta foi a persunsão: não só diante dos homens, mas igualmente diante do Estado.
A posição de Sócrates diante do problema teológico
A primeira acusação dirigida contra Sócrates no processo, refere-se exatamente á atitude aberrante que o filosofo manteve tenazmente por toda a sua vida diante da crença oficial nos Deuses, trata-se de uma acusação de heresia por que Sócrates rejeitava a religião de Estado? Porque repugnava-lhe profundamente o sufocante antropomorfismo, físico ou moral, do qual estava penetrada.
Sócrates considerava absurdo também o antropomorfismo moral, e negava que aos deuses pudessem ser atribuídos paixões, sentimentos e costumes humanos.
Diante do problema de Deus, em última análise, Sócrates reencontra a mesma dificuldade já encontrada a propósito do problema da alma: e como na definição da alma, não podendo dizer o que ela é ontologicamente, defini-a em função das suas operações, assim também procedeu ao falar de Deus e do divino. Ela extraiu de Anaxágoras e de Diógenes de Apolônia (e, talvez, também de Arquelau) a noção de Deus como inteligência ordenadora, libertando-a, contudo, dos pressupostos físicos sobre os quais se fundava naqueles filósofos, e centrou o seu discurso sobre as obras de Deus, substituindo ás motivações físico-ontolóogicas, motivações de caráter prioritariamente ético ou, em todo o caso, de origem tipicamente moral.
Deus como Iinteligência finalizadora e como Providência
Uma passagem afirma ter ouvido pessoalmente entre Sócrates e Aristodemo, é uma verdadeira demonstração da existência de Deus, centrada nos seguintes conceitos: 1) o que não é simples obra do acaso, mas é constituído para alcançar um objetivo e um fim, postula uma inteligência que o tenha produzido propositadamente; 2) em particular, se observarmos o homem, notamos que cada um e todos os seus órgãos são finalizados de modo a não poderem ser explicados senão como obra de uma inteligência (uma inteligência que, expressamente, quis esta obra); 3) contra este raciocínio não vale objetar que não se vê essa inteligência, enquanto se vêem os artífices junto com suas obras: de fato, também a nossa alma, ou seja, a nossa inteligência, não se vê, entretanto, ninguém afirmaria que por isso não fazemos nada com a reflexão, mas tudo por acaso; 4) ademais, é possível estabelecer, com base nos privilégios que os homens têm com relação a todos os outros seres (estrutura física mais perfeita e, sobretudo, a posse da alma, ou seja, a inteligência), que o artífice divino cuida do homem de modo particular; 5) uma ultima confirmação dessa tese é extraída por Xenofonte da mântica (e essa é provavelmente um acréscimo pessoal).
Duas características revelam os traços típicos do socratismo: em primeiro lugar, o nexo é instituído entre Deus e a psyche, ou seja, entre Inteligência divina e inteligência humana; em segundo lugar, o forte antropocentrismo (todas as provas a favor a favor do finalismo são extraídas da estrutura do corpo, enquanto está ausente qualquer consideração de tipo cosmológico; o homem é visto como a mais conspícua obra de Deus e como o ser do qual ele mais cuida).
O “daimónion” de Sócrates
Na acusação principal movida contra Sócrates afirma-se que Sócrates introduzia “novas daimonia”, que os acusadores entendiam como novas “divindades”. A terminologia indica de modo claro que os acusadores referiam-se ao fato de Sócrates, repetidamente, ter afirmado que advertida em si, em determinadas circunstancia, um fenômeno divino e sobrenatural, que ele chamava de (grego palavra). É claro que o daimónion era considerado por Sócrates uma espécie de divina revelação a ele concedida, é preciso observar que daimónion é neutro e, portanto não indica um demônio-pessoa, ou seja, um ser pessoal mas um fato ou evento ou fenômeno divino:
O daimónion foi entendido por Sócrates como um fato extraordinário e de natureza sobre-humana. Para compreendê-lo, é indispensável ligá-lo a dois fatores: em primeiro lugar, á religiosidade socrática, que foi de excepcional intensidade; em segundo lugar, á concepção socrática do Deus-providencia. Tratava-se, ao seu ver, de um particularismo sinal com o qual, a ele que tendia com todas as suas forças ao bem, em certas ocasiões, a Divindade providente indicava a via justa.
Que revela. Exatamente, a voz divina? Em primeiro lugar, deve-se observar que o daimónion não tem nada a ver com o âmbito das verdades filosóficas: a “voz divina” não revela absolutamente a Sócrates a “sabedoria humana”. Ademais, por estranho que possa parecer, Sócrates não liga imediatamente ao daimónion nem mesmo a sua convicção de ter recebido dos deuses, como especial missão, a tarefa de exortar os atenienses a cuidar da alma e da virtude. O sinal divino amiúde impedia fazer determinadas ações e o fato de não fazer aquelas ações resultava posteriormente em grande vantagem o daimónion, com as suas proibições, tronava manifesto Sócrates exatamente aquilo quer os deuses tinham reservado para si, e que ás vezes revelavam mediante os oráculos.
Relação entre a teologia e a ética de Sócrates
A ética socrática não é teônoma e, portanto, não tira a sua validez do fato de ser um mandamento ou um querer divino; esta, ao invés, funda-se, de maneira totalmente autônoma, sobre aquela que, para Sócrates, constitui a essência do homem, ou seja, a psyché. Vimos também que a ética manteve-se autônoma mesmo diante da questão da imortalidade da alma: os valores morais impõem-se por si, prescindindo do fato de a alma durar ou não depois da morte do corpo.
Os valores morais não são criados e impostos pela divindade, mas são valores supremos, porque são os valores do espírito e, assim sendo, sã reconhecidos também pela divindade. Portanto explica-se bem que Deus, mesmo não sendo autor dos valores morais, seja protetor deles. Em suma, os valores morais não são tais porque queridos por Deus, mas pela sua intrínseca, objetiva perfeição, recebem de Deus a máxima consideração. O que significa, como alguém justamente observou, que Sócrates, em certo sentido, reconhece os valores morais importância final a realidade cósmica, a divindade não se preocupe em geral com todos os homens, mas só do homem virtuoso cuide da modo particular.
Em nenhum texto de que dispomos se acena, ao invés, a um interesse e um cuidado dos Deuses por todos os homens individualmente, e menos ainda a um cuidado dos Deuses pelo homem individual que caminhe fora da reta via, em vista de reconduzi-lo. Ora, a Divindade intervém só a favor do individuo que encarna a virtude, porque atraída, por assim dizer, pelo caráter absoluto do valor que ele encanar. Se assim é, se a adivindade ocupa-se de modo especial do individuo não enquanto não enquanto homem individual, mas enquanto bom, é também verdade o inverso: é verdade que o homem não tem necessidade da ajuda divindade para ser bom.
Função protrética do método dialógico
Da alma, da alma individual, só se cuida com o dia-logo, ou seja, com o logos que, procedendo por pergunta e resposta, envolve efetivamente mestre e discípulo numa experiência espiritual única de pesquisa em comum da verdade. Ao “discurso longo” de efeito, que é monólogo fechado, substitui-se o “discurso breve”, como o chama Sócrates, que é, justamente, o dialogo aberto, sempre pronto a dobrar-se ás exigências mais profundas daquelas que, juntos, buscam e põem em confronto, por assim dizer, alma com alma. E compreende-se, conseqüentemente, que, nesse dialogo, para a voz dos poetas não havia mais lugar: para Sócrates, chamar em causa o testemunho dos poetas nas discussões filosóficas tinha o efeito de uma voz totalmente estranha, em total falta de sintonia com a razão da qual o dialogo nasce e do qual se alimenta.
As finalidades do método dialogo socrático são, fundamentalmente, de natureza ética e educativa e só em segundo lugar e mediatamente de natureza lógica e gnosiológica. A dialética socrática tem em vista a exortação á virtude, o convencimento do homem de que a alma e o cuidado da alma são o Maximo bem para o homem, a purificação da alma provando-a a fundo com perguntas e respostas, para libertá-la dos erros e dispô-la á verdade.
2. O não-saber socrático
Sócrates parte constantemente da afirmação de não-saber, pondo-se diante do interlocutor na posição de quem tem tudo a aprender, mais que na posição de quem tem a ensinar.
1. A ironia socrática
Ironia significa, em geral, dissimulação e, indica o jogo múltiplo e variado de disfarces e fingimentos que Sócrates punha em ato para forças o interlocutor a dar conta si nas suas dissimulações, ele finge ate mesmo assumir pessoalmente idéias e métodos do interlocutor (especialmente se este é homem de cultura e, em particular, se é sofista), para engrandecê-los ao limite da caricatura, ou para invertê-los com a mesma lógica que lhes é própria e fixá-los na contradição.
A máscara da ignorância assumida por Sócrates era sempre o meio mais eficaz para desmascarar o aparente saber dos outros e revelar-lhes a sua radical ignorância. Mas era também ela que, no modo mais eficaz, ajudava aqueles que, com plena disponibilidade, confiavam-se ao magistério socrático e aceitavam dar conta de si.
4. Confutção ( elenchos) e maiêutica
O primeiro momento da ironia era, por assim dizer, a pars destruens, isto é, o momento em que Sócrates levava aquela com quem dialogava a reconhecer a própria presunção de saber e, portanto, a própria ignorância. É claro que os medíocres deviam reagir negativamente essa confutaçao, produzia-se neles uma crise que derivava, de um lado, de um improviso ofuscamento daquilo que antes consideravam seguro, e, de outro, da falta de novas certezas ás quais se agarrar. E dado que a soberba impedia-os de admitir que não sabiam efetivamente, acusavam Sócrates de confundir-lhes as idéias e entorpecê-los. Daqui a acusação contra Sócrates de ser um semeador de dúvidas e, portanto, um corruptor.
Mas se sobre os medíocres, que não admitiam reconhecer-se ignorantes, era este o efeito que produziam a confutação, outro êxito ela produzia sobre os melhores. Enquanto existem na alma falsas opiniões e falsas certezas, é possível alcançar a verdade; porém, eliminadas aquelas, a alma fica purificada e pronta para alcançar, se dela está grávida, a verdade.
E assim passamos ao segundo momento do método irônico. Dissemos que, para Sócrates, a alma só alcançar a verdade “se dela estar grávida”. Mas como a mulher que está grávida no corpo tem necessidade do obstetra para dar á luz, assim o discípulo que tem a alma grávida da verdade tem necessidade de uma espécie de obstetra espiritual, que ajude esta verdade a vir á luz, e esta é, justamente socrática.
Arte de obstetra dirigida á psyché, eis como Sócrates define a sua arte irônico-maiêutica, e não se poderia fazê-lo de melhor maneira, nem se poderia representar melhor o papel central da alma na dialética socrática.
2. Sócrates fundador da lógica?
O método dialógico socrático tem, com efeito, um fim essencialmente ético-pedagógico e até mesmo religioso, e a peculiar valência lógica, que ele inegavelmente tem, não é posta por Sócrates em primeiro plano. Sócrates abriu o caminho que devia levar á descoberta do conceito e da definição e, antes ainda, á descoberta da essência (do eidos platônico), e exerceu também um notável impulso nessa direção, mas não estabeleceu a estrutura do conceito e da definição, tendo-lhe faltado todos os instrumentos necessários para isto, os quais, como já dissemos, foram descobertos posteriormente.
A mesma observação vale a propósito da indução, que Sócrates certamente aplicou largamente, mas não a individuou em nível teórico e, portanto, não a teorizou de modo reflexo. Sócrates foi uma excelente mente lógica, mas não elaborou uma lógica em nível teórico, na sua dialética encontram-se os germes que levarão a futuras e importantes descobertas lógicas, mas não descobertas lógicas conscientemente formuladas.