quinta-feira, 3 de abril de 2025

MULHER E FILOSOFIA POLÍTICA

 





“Uma das maiores contribuições das mulheres para a filosofia política é demonstrar que questões de gênero são problemas filosóficos”. Entrevista especial com Maria Cristina Müller e Adriana Delbó


O cânone filosófico e os currículos universitários devem ser revisados para que as filósofas deixem de constar somente como cota a ser preenchida nos departamentos. Patriarcalismo, preconceito e misoginia ainda são empecilhos, argumentam pesquisadoras

Por: Márcia Junges | 03 abril 2025

“Com certeza, uma mulher filósofa, por si mesma, ao apresentar suas ideias, desafia e expande as bases da própria filosofia e, por extensão, da filosofia política. Permitindo-me a ironia: ela pensa e, mais, ela diz o que pensa! Que assombro, existem mulheres pensadoras!” A provocação da Profa. Dra. Maria Cristina Müller é reverberada por outra filósofa brasileira, a Profa. Dra. Adriana Delbó: “Que as mulheres não usufruam dos princípios democráticos tanto explicados pela filosofia política, que elas não tenham a mesma liberdade que os homens, que elas não sejam nem sequer devidamente respeitadas e valorizadas são problemas que requerem muito mais do que reivindicações por representatividade.” As declarações fazem parte da entrevista que Maria Cristina e Adriana concederam, por e-mail, ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, aprofundando aspectos debatidos pela dupla no IHU Ideias de 6 de março, intitulado Compreendendo o nosso tempo. A contribuição das mulheres para a filosofia política.

Segundo Maria Cristina, talvez se possa dizer que “a maior contribuição das mulheres filósofas para a filosofia e para a filosofia política é a resistência advinda do exercício filosófico empreendido pelas mulheres; sendo a filosofia uma forma de aparecer e atuar no mundo”. Entretanto, este é um campo de disputas nada pacíficas, como adverte Adriana: “Desde quando homens e mulheres vivem igualmente em liberdade e gozam do mesmo modo de uma sociedade democrática?” E complementa: “Uma das maiores contribuições das mulheres para a filosofia política é demonstrar que questões de gênero são problemas filosóficos. Graças ao estudo de gênero por parte das mulheres na filosofia, a área do saber que cria e desconstrói conceitos, tudo o que fora atribuído a elas, tendo em vista os conceitos forjados para elas, pode ser revisto e, inclusive, ressignificado ou até mesmo anulado. Gênero não é um problema de mulheres, mas, não fôssemos nós nos implicarmos nisso, ele não estaria sendo tão pesquisado pela filosofia”.

Infelizmente, observa Maria Cristina, “um dos preconceitos que ainda persistem em relação às mulheres filósofas é a desqualificação dos temas sobre o feminismo como tema filosófico legítimo”, fruto de uma filosofia hegemônica que é “machista, racista e bastante preconceituosa com a filosofia não clássica. Se as mulheres estão estudando e produzindo fora do cânone, isso é avaliado como algo menor ou modismo”, acrescenta Adriana. Revisar os currículos é urgente, a fim de incluir filósofas em seus programas de ensino e bibliografias: isso sim é romper a conivência com o patriarcalismo, preconceito e misoginia, e não apenas “compor números e evitar a acusação de falta de equidade”.

Maria Cristina Müller é pós-doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás – UFG (2019). Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar (2010), cursou mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS (1998) e é graduada em Filosofia Licenciatura Plena pela Universidade de Passo Fundo – UPF (1995). É professora associada da Universidade Estadual de Londrina – UEL, onde atua no Departamento de Filosofia desde de 2000; é docente permanente do PPG em Filosofia da UEL na Linha de Pesquisa Ética e Filosofia Política. Participa do Núcleo de Sustentação do GT Filosofia Política Contemporânea da ANPOF, onde foi coordenadora no biênio 2016 e 2018, além de fundadora e coordenadora do Grupo de Estudos Hannah Arendt UEL e coordenadora do Grupo de Pesquisa Hannah Arendt e a filosofia política contemporânea, cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico – CNPq. Concentra suas pesquisas na área de Filosofia Política e Ética com ênfase nos estudos sobre Hannah Arendt. Desde 2018, incluiu nas suas investigações a temática acerca da presença da mulher na filosofia.

Adriana Delbó Lopes possui graduação (1997) em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC-Campinas (1997), onde também cursou mestrado (2000). É doutora em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP (2006). É professora associada III da Universidade Federal de Goiás – UFG. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Filosofia Política, atuando principalmente nos seguintes temas: Nietzsche, Agamben, Foucault, Butler, filosofias afro-brasileiras, cultura, política, feminismo, ensino de Filosofia. Coordena o projeto de pesquisa Nietzsche e as mulheres: uma leitura feminista da crítica nietzschiana aos ideais. De seus inúmeros artigos, destacamos Corpos femininos, demandas masculinas: ainda a crítica de Nietzsche à cultura dos ideais (In: PONCIANO, João; PETRY Isadora (org.). Meu caro Oswaldo Giacóia: quando o verdadeiro filósofo é o professor. Rio de Janeiro: Multifoco, 2024).

Confira a entrevista.

IHU – Em que aspectos a contribuição das mulheres para a filosofia política não é apenas uma questão de representar uma perspectiva de gênero, mas também de expandir e desafiar as bases da própria teoria política?

Maria Cristina Müller – A filosofia em geral, independentemente da temática, desde a Antiguidade, recebeu a contribuição das mulheres; do mesmo modo, inúmeras filósofas, desde muito tempo apresentam importantes aportes à subárea da filosofia política. Rosa Luxemburgo (1870-1919) (1) é um exemplo da contribuição das mulheres à teoria política. Ela escreveu sobre liberdade e democracia, nacionalismo e autodeterminação dos países, greve e espontaneidade das massas. No entanto, seus saberes nem sequer foram considerados e transmitidos pela história da filosofia.

As mulheres filósofas tratam de questões que desafiam o mundo em que se fazem presentes; abordam temas clássicos como as discussões da teoria do conhecimento e da metafísica, mas também temas da filosofia prática, como a ética, a política e a estética; ou podem ainda querer discutir a condição imposta à mulher. Christine de Pizan (1364-1430) (2), por exemplo, escreveu para as mulheres e as defendeu de ideias misóginas no fim da Idade Média, sem nos esquecer de que ela sustentou a família com seus escritos.

Com certeza, uma mulher filósofa, por si mesma, ao apresentar suas ideias, desafia e expande as bases da própria filosofia e, por extensão, da filosofia política. Permitindo-me a ironia: ela pensa e, mais, ela diz o que pensa! Que assombro, existem mulheres pensadoras!

Adriana Delbó – Quando a filosofia política trata da liberdade, isso diz da liberdade de qual gênero e em quais contextos? Quando essa área da filosofia trata da democracia, mesmo a democracia moderna, isso diz da democracia usufruída por quem? Quando ela trata do princípio de igualdade, ele é pensado a partir da igualdade entre quais pessoas, de quais gêneros, quais lugares e classes? Desde quando homens e mulheres vivem igualmente em liberdade e gozam do mesmo modo de uma sociedade democrática? Supondo que algumas mulheres consigam, quais são essas mulheres? A quais grupos e quais classes elas pertencem? A explicação da guerra ou a defesa do restabelecimento de paz são pensadas a partir de quais realidades, quais épocas e quais interesses? Que as mulheres não usufruam dos princípios democráticos tanto explicados pela filosofia política, que elas não tenham a mesma liberdade que os homens, que elas não sejam nem sequer devidamente respeitadas e valorizadas são problemas que requerem muito mais do que reivindicações por representatividade.

Se as mulheres na filosofia não enfrentarem a partir de suas pesquisas essas questões, será que a filosofia política deixará de ser assinada apenas por homens? O abismo entre a importância dos homens e do pensamento deles e o descaso para com o pensamento das mulheres naquilo que é discutido pela filosofia política diz de uma questão ontológica semelhante à que Sueli Carneiro (3) denuncia existir na invenção do “ser”, como uma categoria forjada por pessoas brancas e, consequentemente, a necessidade também de forjar o “não ser” (as pessoas não brancas). A seguir retomarei essa construção de Sueli Carneiro. Considero, no entanto, que a mesma análise vale para as distinções hierárquicas e excludentes entre homens e mulheres e para o quanto essas estão inscritas na filosofia política.

As mulheres (digo: a compreensão das mulheres; a leitura dos corpos e do seu funcionamento; as expectativas sobre elas; as atribuições para elas; as avaliações delas) foram inventadas pelos homens tendo como parâmetro único a autorreferência e as próprias demandas. O homem é o ser; a mulher, por sua vez, é aquilo que o homem não é; ela é, portanto, o não ser. É a falta. A mulher é uma delimitação masculina. E a própria necessidade de definição, delimitação, determinação não decorre da tentativa de controlar? A oposição entre força e fragilidade, racionalidade e sensibilidade, direito e obrigação, possibilidades e limitações, entre outras, tem como fonte a compreensão e a definição do feminino como o não masculino – a mulher –, algo realizado pela lente autorreferencial dos homens.

IHU – Nesse sentido, quais vocês consideram as maiores contribuições das mulheres para a filosofia política?

Maria Cristina Müller – Talvez possamos dizer que a maior contribuição das mulheres filósofas para a filosofia e para a filosofia política é a resistência advinda do exercício filosófico empreendido pelas mulheres; sendo a filosofia uma forma de aparecer e atuar no mundo. A sociedade patriarcal em que ainda vivemos discrimina e inferioriza a mulher consolidando uma identidade equivocada. A mulher foi impedida de acessar o espaço público e de exercer determinadas atividades, como a política; a mulher foi aprisionada no espaço privado e em atividades ligadas ao cuidado como a saúde e a educação; tais fatos povoam o imaginário simbólico e a linguagem comum até hoje, século XXI.

A filosofia é uma das atividades que foi apresentada como predominantemente de e para homens. Os currículos dos cursos de formação, a literatura da área, os manuais etc. transmitem a falsa ideia de que a filosofia foi feita apenas de filósofos; são ensinados e publicados filósofos como Platão, Aristóteles, Agostinho de Hipona, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Habermas, para citar alguns.

As filósofas são invisibilizadas, excluídas, silenciadas como se não tivessem contribuído com a história da filosofia. Olimpia de Gouges (1748-1793) (4) é um exemplo claro do silenciamento imposto às mulheres filósofas; ela escreveu sobre temas controversos para a sua época, tais como sobre os direitos das mulheres, crítica à escravidão e defesa dos desvalidos. Por isso foi condenada à pena da guilhotina.

É neste contexto de invisibilização que o filosofar das mulheres se transforma em resistência. E, deste modo, podemos dizer que a maior contribuição delas para a filosofia política é fazer filosofia e política.

Adriana Delbó – Uma das maiores contribuições das mulheres para a filosofia política é demonstrar que questões de gênero são problemas filosóficos. Graças ao estudo de gênero por parte das mulheres na filosofia, a área do saber que cria e desconstrói conceitos, tudo o que fora atribuído a elas, tendo em vista os conceitos forjados para elas, pode ser revisto e, inclusive, ressignificado ou até mesmo anulado. Gênero não é um problema de mulheres, mas, não fôssemos nós nos implicarmos nisso, ele não estaria sendo tão pesquisado pela filosofia.

A filósofa bell hooks (5) destaca a ideia de que “o pessoal é político” – ideia trazida pela segunda onda do feminismo, e em 1960 publicada num ensaio escrito pela feminista Carol Hanisch (6). Atribuir às mulheres a função do cuidado; ter a maternidade como algo compulsório; cobrar das mulheres determinados comportamentos e avaliá-las por determinados valores morais – diga-se de passagem, inventados por homens; alegar que o trabalho doméstico e educativo é algo muito mais feminino; dificultar o reconhecimento da capacidade das mulheres para assumirem poder em espaços públicos; autorizá-las a certos poderes (leia-se: capacidades) somente no espaço doméstico e dificultar poderes em outras instâncias; alegar que a sensibilidade é um aspecto feminino; associar força aos homens e fraqueza às mulheres; avaliar as mulheres pela beleza física; dar às mulheres remuneração mais baixa ou dificultar a progressão no trabalho são alguns dos problemas pelos quais passam as mulheres e que decorrem de problemas de gênero, que são culturais, políticos, ontológicos e filosóficos. Eles ainda precisam ser combatidos na esfera social e política, não obstante, estão fincados em compreensões, denominações e conceitos para o “feminino” e para tudo aquilo que é considerado “mulher”.

Destituição do funcionamento machista no modo de fazer filosofia

A oposição entre masculino e feminino em detrimento da mulher é resultado da filosofia feita apenas por homens. O questionamento a tudo isso só pode ser incluído na filosofia política se essa deixar de ser majoritariamente construída por mentalidades masculinas e deixar de responder a demandas exclusivamente masculinas. Caso contrário, o papel secundário e complementar escrito para as mulheres nunca será rasgado. A contribuição das mulheres para a filosofia política é destituir a soberania dos homens. E o nosso desafio é muito maior do que elaborar novos conceitos. Porque não é sempre que os conceitos têm efeitos. Há filosofias que permanecem sem serem lidas e sentidas. Precisamos destituir dentro e fora de nós o funcionamento machista que nem sempre percebemos no nosso modo de fazer filosofia e de nos relacionarmos dentro dos espaços onde a filosofia é feita. Precisamos nos transformar em algo que deixe de ser a mulher dos homens.

IHU – Quais pensadoras e suas ideias destacariam como basilares em uma filosofia política que brota de um outro registro analítico sobre as estruturas e dinâmicas do poder, do Estado, da justiça e da liberdade?

Maria Cristina Müller – Acima, apresentei três exemplos de filósofas que contribuíram para a filosofia política, mas temos muitas outras; cada uma delas é um destaque em si mesma, o que torna difícil responder à pergunta. Contudo, sem preterir nenhuma das filósofas, destaco Hannah Arendt (1906-1975) (7) como uma filósofa (mesmo que ela mesma recusava tal denominação) imprescindível para a filosofia política e como uma pensadora que desafia o modo comum de filosofar e a tradição da filosofia política; e, por isto mesmo, uma filósofa genuína. Para Arendt, a reflexão é posterior à experiência; em entrevista concedida à Günter Gaus em 1964, disse: “Não acredito que possa existir nenhum processo de pensamento sem experiência pessoal. Todo pensamento é um pensamento posterior, isto é, uma reflexão sobre algum fato ou assunto”. A partir de sua experiência no mundo, sentia-se impelida a compreendê-lo e, como pensadora, produzia reflexões materializadas em textos, artigos, livros, palestras etc.

Arendt foi pioneira em muitos espaços ocupados tradicionalmente por homens. Foi a primeira mulher a proferir a aula inaugural da Universidade Notre Dame/EUA em novembro de 1950. Em 1953, foi a primeira mulher convidada a ministrar os Seminários de Crítica Christian Gauss na Universidade de Princeton/EUA. Quando Arendt profere as palestras, há na audiência muitos homens da universidade e do Instituto para Estudos Avançados e eles expressam a satisfação e o entusiasmo em ouvir uma mulher palestrando nos seminários. Mas na cerimônia de encerramento e em carta a Kurt Blumenfeld, Arendt expressa seu aborrecimento por ter sido atribuída a ela a condição de “mulher símbolo” ou “mulher de exceção”, o que ela rejeitou com veemência. Na cerimônia Arendt explicou o que significa ser um judeu de exceção (sentir-se um ser humano excepcional e como uma exceção ao povo judeu), respondendo criticamente, por essa via, ao equívoco do papel que lhe foi atribuído. Em 1959, a Universidade de Princeton a convida para ser professora plena na instituição. A universidade apresenta, para a aprovação de Arendt, o release sobre sua contratação, que seria publicado no New York Times, em que expressava que ela seria a primeira mulher com aquele status junto à universidade. Arendt reitera a mesma crítica feita em 1953 e ameaça rejeitar o cargo se o papel de mulher símbolo não fosse retirado do release. Ela não queria ser uma exceção, recusava a distinção em relação às mulheres “comuns”. Segundo a biógrafa de Arendt, Elizabeth Young-Bruehl, ela era feminini generis a seu modo, uma pessoa, como todas as outras, capaz de reflexão e pensamento próprio, independente, livre e isso parece que os homens à sua época não queriam admitir; talvez a pergunta que deveria ter sido feita é porque a universidade nunca havia indicado uma mulher como professora plena.

Diálogo e diversidade

Hannah Arendt foi excluída da sociedade em que vivia por ser judia, tornou-se apátrida e pária, mas uma pária consciente; ofereceu, como resistência a atuação e a reflexão política que engrandece o ser humano como ser que é do mundo. Arendt buscou compreender o mundo e, talvez, por compreendê-lo, tenha aprendido a amá-lo; sendo o amor mundi o tema unificador das obras de Arendt.

No texto A crise na educação (1958), Arendt expõe que é o amor que protege os recém-chegados no mundo, ao mesmo tempo que os impele para a suplantação do mundo que está velho. Amor como a ideia grega de philanthropia, como partilhar o mundo com os outros seres humanos. É neste sentido que o próprio mundo só se forma nos espaços de diálogo entre os seres humanos em toda sua diversidade, da mesma forma que a própria humanidade do ser humano aparece no espaço do entre-os-seres humanos preservado pelo diálogo.

Adriana Delbó – Muitas filósofas poderiam ser lembradas. Por questão de tempo, farei aqui o destaque de apenas duas de fora do cânone.

1 Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (1957-) (8), filósofa nigeriana. Ela contribui para a compreensão da invenção das mulheres como categoria hierarquizadora, com efeitos opressores para elas mesmas. Ela explica como na cultura iorubá a introdução do gênero é responsabilidade do processo colonizador do Ocidente. Antes disso, as hierarquias tinham como critério a longevidade. O poder era conquistado conforme as pessoas iam ficando mais velhas. Portanto, a distinção física entre homem e mulher não tinha peso para tais relações. Junto com tantos outros problemas da colonização, a leitura ocidental do corpo transportou a hierarquia entre homem e mulher. Portanto, dar destaque para a distinção de gênero é uma forma de criar o gênero e, a partir dele, hierarquizar. A filósofa Aline Matos da Rocha (9) é a mulher precursora dos estudos e das traduções de Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí no Brasil.

2 Sueli Carneiro (1950-), filósofa brasileira, paulista. Ao problematizar o quanto pessoas negras são compreendidas, vistas e tratadas como inferiores, Sueli Carneiro explica o racismo como decorrência de uma ontologia. A ideia de “ser” é obra da filosofia europeia branca. O “não ser” é uma exigência subsequente, porque, afinal, a compreensão do que é “ser” teve como condição a compreensão do que é o “não ser”. Mas, afinal, quem é o “ser” e quem é o “não ser”? Tais diferenciações foram elaboradas a partir de quais pessoas, em quais épocas, quais povos e a partir de quais demandas? Sueli Carneiro explica que “ser” é uma autointitulação, obra da filosofia feita por quem definiu o “ser” a partir de si. Na lógica excludente desta filosofia, todas as pessoas não brancas pertencem à categoria do “não ser”. Como os problemas políticos e sociais enfrentados até hoje por todas as pessoas não brancas estariam desassociados da ontologia produzida pela filosofia hegemônica?

IHU – Qual é a importância de pensadoras como Arendt, Butler (10) e outras para a filosofia política? Que ideias centrais destacariam e como elas tensionam o cânone filosófico?

Maria Cristina Müller – Hannah Arendt busca compreender o mundo que intentou modificar a dignidade da pessoa humana; ela constrói uma crítica à moderna alienação do mundo e à prevalência do privado e do social em detrimento do domínio público-político, na qual a ação é substituída pelo comportamento e pelo consumo. Arendt mostra como a política foi derrotada pela urgência das necessidades da vida e como o advento do social sobre o político levou ao enfraquecimento e declínio do domínio público. No entanto, busca pelo sentido da política mesmo quando tudo parecia um completo sem sentido. Ousa criticar a tradição do pensamento político e moral e seus cânones, pois não foram suficientes para impedir os horrores produzidos em pleno século XX, bem como para compreender os acontecimentos. Reflete sem guias (sem corrimão), de modo original, gosta do debate e responde às objeções aos seus escritos desde que lhe fossem dirigidas com o objetivo de refletir e não de atacar ou destruir. Demonstra que os seres humanos, como seres natais e iniciadores, podem trazer a novidade ao mundo, podem agir no espaço público e modificar o que está dado.

Os escritos de Arendt e sua atuação no mundo estão imbricados e essa compreensão permite entender sua insistência de que, mesmo em tempos sombrios, pode-se esperar que alguma luz seja lançada; mesmo esses tempos sombrios podem ser iluminados pela luz que advém da ação e do discurso daqueles que resistem e ousam aparecer no mundo público para trazer a novidade, não se submetendo ao que está estabelecido como certo e aos processos que estão em andamento. Há esperança quando se entende que os seres humanos são iniciadores, seres natais que podem criar e recriar o mundo, pois são capazes de ação e liberdade. É impressionante como os escritos de Arendt continuam a responder questões do contemporâneo comprovando sua importância e atualidade.

Judith Butler e Lélia Gonzales

Judith Butler (1956-) apresenta uma importante reflexão sobre performatividade contribuindo para a crítica às identidades binárias de gênero impostas pela concepção tradicional. Butler entende que a identidade de gênero é performativa, uma representação que acontece no espaço público das relações; é moldado por normas que podem ser subvertidas e reconfiguradas, por este motivo uma questão também política; se há singularidade nas identidades humanas que performam no espaço público em relação a outras singularidades, também há singularidade no gênero, não podendo este estar restrito ao binarismo.

Destaco ainda Lélia Gonzales (1935-1994) (11), intelectual negra brasileira, defensora do feminismo afro-latino-americano. Lélia Gonzales busca a recuperação da resistência e insurgência contra os poderes estabelecidos, assumindo como sua marca a urgência de se combater o racismo. Ela entende que o racismo na América Latina “reproduz e perpetua a crença de que as classificações e os valores da cultura ocidental branca são os únicos verdadeiros e universais”.

Adriana Delbó – Deixarei a resposta sobre a importância de Arendt para a profa. Maria Cristina Müller responder, tendo em vista ela ser uma exímia estudiosa desta filósofa. Quanto a importância de Judith Butler para a filosofia política, destaco o resultado da genealogia que ela realiza nas categorias de gênero, a partir dos mais distintos campos discursivos. Butler explica que a ontologia está na base da política, porque ela e o discurso político são intrínsecos. A ideia de que o sexo de uma pessoa é natural e o gênero é culturalmente construído cai por terra, porque Butler nos mostra que até mesmo a determinação do sexo é uma interpretação e é socialmente demarcada. A partir de como o corpo é lido, o sexo determinado dirá o que a pessoa deve ser, que nome terá, que roupa deverá vestir, quais comportamentos serão adequados, quais desejos serão aceitos, como será avaliada, o que para ela será permitido ou proibido, quais profissões serão adequadas, quais relacionamentos serão aceitos, como será avaliada etc. O sexo é o início da imposição social e desde então ocorrem os limites na produção de identidades.

Práticas significantes e criadoras

Para Butler, a política se faz nas práticas significantes que são criadoras, regulamentadoras e desregulamentadoras da identidade. Sendo assim, até mesmo a produção da sexualidade é uma resposta, é inconsciente e é atravessada por práticas político-sociais. O gênero, por sua vez, é uma performance operacionalizada desde o nascimento, tendo em vista o poder da sociedade na nomeação, na produção de expectativas, nas mais variadas instâncias da educação, nas cobranças, na moralidade que avalia, premia ou pune etc. Assim, Butler nos mostra o quanto ao feminismo ainda se faz necessária a ruptura com o binário oposicional, porque ele é a primeira força limitadoras de vidas. A divisão sexo-gênero, que sempre amparou as bases fundantes da teoria e da política feministas, não se sustenta depois da obra de Butler. Assim, o gênero é uma produção política e uma questão para a filosofia política.

IHU – Por que o reconhecimento da importância e da colaboração das mulheres continua sendo tão difícil de ser assumido e considerado na filosofia?

Maria Cristina Müller – A filosofia como área do conhecimento tem mais de 2.500 anos; seus alicerces foram construídos em uma sociedade patriarcal em que as mulheres, em geral, nem sequer tinham direito à educação formal. Por séculos, o espaço destinado a elas era o privado; contudo, algumas receberam conhecimento e educação: além disto, algumas puderam transmitir seus conhecimentos publicamente, como foi caso de Hipátia de Alexandria (12) (viveu aproximadamente até 415 d.C), estudiosa de Platão e Aristóteles, escreveu várias obras como Comentário a aritmética de Diofanto e Corpus astronômico. Paradoxalmente ao fato da existência de mulheres filósofas desde a Antiguidade clássica, são escassos os registros, as referências e os estudos sobre elas.

A ausência de registros reflete-se diretamente no desconhecimento da contribuição da mulher à filosofia ao longo da história e na falta de transmissão dos saberes das mulheres filósofas. O dizer da mulher não é conservado, não há permanência. A invisibilidade parece ser uma das grandes dificuldades, não a ausência de filósofas. Soma-se a isto a dificuldade em reconhecer a autoridade do dizer do sexo feminino.

O não reconhecimento do dizer das mulheres evidencia o grande simbolismo da negação do dizer da mulher, isto é, menosprezar, desqualificar ou invalidar o discurso da mulher é negar a autoridade do dizer do sexo feminino e, concomitantemente, inferiorizá-la. No meio acadêmico a superação desta dificuldade parece muito mais complexa e difícil uma vez que, teoricamente, o critério nesse meio é a autoridade intelectual. No entanto, o predomínio é do imaginário simbólico e da reprodução do status quo da sociedade que inferioriza e objetifica a mulher.

Adriana Delbó – A filosofia hegemônica é machista, racista e bastante preconceituosa com a filosofia não clássica. Se as mulheres estão estudando e produzindo fora do cânone, isso é avaliado como algo menor ou modismo. Mas há também uma questão emocional, que é também política. Qual a capacidade psíquica e o interesse para ler e ouvir aquilo que está sendo produzido pelas mulheres e que não diz respeito apenas ao que os filósofos mais consagrados produziram? Quem dá valor? É bastante recente que as mulheres possam escrever e publicar. Mas há ouvidos e leitores para tanto? Do mesmo modo que em reuniões nos espaços de trabalho, câmeras ainda sejam desligadas, pessoas ainda saiam das salas quando uma mulher pede a palavra e alterar o tom de voz para falar com as mulheres ainda seja corriqueiro, há a recusa em se considerar o que as mulheres produzem. A “machulência” ainda impera e aconselha: “Deixe que falem e que escrevam, mas nem vamos considerar nem levar adiante!”

 

IHU – Quais preconceitos e limites que ainda persistem em relação às mulheres filósofas?

Maria Cristina Müller – Um dos preconceitos que ainda persistem em relação às mulheres filósofas é a desqualificação dos temas sobre o feminismo como tema filosófico legítimo. A crítica ao sexismo e a misoginia, a reivindicação dos direitos das mulheres, a problematização do acesso da mulher a cultura etc., são rotuladas como agenda feminista e não filosófica; como se a preocupação com tais temáticas fossem algum tipo de insubordinação, reclamação desmesurada e exclusividade do sexo feminino e que, portanto, não cabem na filosofia.

Adriana Delbó – Compreensões arraigadas e não pensadas não se alteram. Nem sequer a mentalidade de uma filósofa ou de um filósofo é alterada se não estiver aberta ao exercício (constante e livre da autodefesa) do pensamento. Como tal exercício não é garantido nem sequer para quem está na filosofia desde há muito tempo, ainda é comum a defesa de que a filosofia trata de temas que são universais, de que tudo aquilo que pertence ao universo das mulheres, das pessoas trans e das pessoas negras não é universal, mas particular, e, portanto, questões não filosóficas.

Ocorre que, como se sabe, as mulheres nunca estiveram totalmente ausentes da filosofia, apesar de todo o desprezo para com elas e toda a diminuição e visão interessada lançada sobre elas. Atualmente muitas mulheres não aceitam mais estudar apenas temas e problemas que foram definidos como universais por mentalidades masculinas. Mas tais mentalidades (em corpos de mulheres ou de homens) ainda prevalecem e avaliam esses “novos” problemas como modismo, que em breve passará ou não terá resultado significativo para a produção filosófica.

“Dóceis e solidárias”

A produção intelectual acadêmica não necessariamente significa alteração dos espaços onde ela ocorre, porque se modos de sentir, de pensar e de funcionar não passaram por alterações, o modo de avaliar segue o mesmo. Portanto, das mulheres na filosofia ainda se espera que tratem de temas universais determinados por compreensões masculinas e, junto a isso, ainda deveriam estar dóceis e solidárias, com “a sensibilidade e a generosidade femininas”, exercendo atividades de serviços e de ajuda, quase nunca assumidos pelos homens – por exemplo, organizando o lanche das reuniões de colegiado e, na falta de um técnico administrativo (ou de uma técnica administrativa), a redação da ata.

Ainda é isso que se espera de nós. E sempre que não correspondemos a tais expectativas, somos e seremos mal avaliadas, porque os critérios de avaliação não mudaram. As avaliações, por sua vez, criam a imagem, a verdade a partir da qual somos tratadas. Para as pessoas mais conservadoras, nossa imagem não é agradável. Junto a isso, ainda ocupamos a filosofia com temas avaliados como não filosóficos?! Então, os descontentes e temerosos esperneiam, às vezes em silêncio, mas sempre atuando a partir dos preconceitos, que podem até serem velados, mas nem por isso sem efeito.

IHU – Por outro lado, sabemos que há avanços em relação ao passado acerca da inserção feminina na Filosofia e a conquista de espaços na academia. O que destacariam nesse sentido em termos de graduação e pós-graduação?

Maria Cristina Müller – Não havia até pouco tempo atrás o reconhecimento dos temas dos feminismos como área de pesquisa filosófica; alguns ainda torcem o nariz para a temática. Somente em 2016 e 2018, há um avanço das discussões no Brasil, quando foi criado o Grupo de Trabalho Filosofia e Gênero na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia – ANPOF. A partir daí vivemos um momento de grandes discussões sobre a temática acerca dos saberes das filósofas; discussões tratadas por mulheres filósofas. Foram criados grupos, laboratórios e centros de pesquisas sobre mulheres filósofas, principalmente nas universidades por todo o país. Para citar alguns destes grupos, podemos apresentar: a Rede Brasileira de Mulheres Filósofas, que divulga trabalhos de filósofas, promove sua participação em fóruns, debates e, por meio da publicação de postagens em redes sociais, implementa a visibilidade das produções filosóficas das mulheres; e o blog Mulheres na Filosofia, que desenvolve um trabalho sistemático sobre as filósofas.

Na ANPOF, além do GT Filosofia e Gênero também foi criado o GT Mulheres na História da Filosofia. Alguns protocolos e cartilhas foram construídos para colaborar com a prevenção da violência de gênero e do assédio e muitos PPGs em Filosofia os adotaram. O trabalho está repercutindo, pois os estudantes do Ensino Médio estão chegando às graduações com conhecimento sobre as filósofas bem maior dos que chegavam uma década atrás.

Adriana Delbó – Tem ocorrido acréscimos de temas, de problemas, de bibliografias e de pesquisas na graduação e na pós-graduação. Na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia – ANPOF há um concurso para o prêmio filósofa, o que garante que pós-graduandas tenham suas pesquisas avaliadas e selecionadas. Há grupos de trabalho da ANPOF que só pelo nome dizem da valorização das mulheres na filosofia – GT Edith Stein e o círculo de Gotinga; GT Filosofia e Gênero (desde há mais ou menos oito anos); GT Mulheres na História da Filosofia; GT Raça, Gênero e Classe. Há cinco anos há a Rede Brasileira de Mulheres Filósofas que faz a divulgação de eventos, artigos e de tantas outras produções de mulheres na filosofia, bem como organiza atividades entre elas.

IHU – A abertura do cânone com a inclusão de mais mulheres nos currículos de Filosofia é uma discussão que ganhou corpo nos últimos anos. Como veem essa revisão e reparação em nível brasileiro e internacional?

Maria Cristina Müller – Uma das vias de superação das dificuldades oriundas da restrição da presença da mulher na filosofia parece estar localizada no reconhecimento definitivo da autoridade do pensamento das mulheres filósofas e a necessidade de transmiti-lo. A invisibilidade do dizer das mulheres filósofas não pode prevalecer, pois sem a memória das mulheres filósofas e das suas produções estamos fadados, enquanto humanidade, a perder a profundidade; a filosofia recebeu a contribuição de muitas mulheres filósofas. Negar esta contribuição, invisibilizando-a, é perder a profundidade da própria filosofia.

Parece que a filosofia tem uma tarefa a realizar: reconhecer, preservar e transmitir o legado das mulheres filósofas. Vejam: a tarefa é política! Como cumprir esta tarefa? Pesquisando, escrevendo sobre elas, incluindo seus textos nas bibliografias dos currículos, ministrando aulas sobre suas filosofias. Deste modo, a revisão e reparação é o caminho. Este movimento é mundial; em alguns países já iniciou na década de 1980. A americana Mary Ellen Whaithe, no fim da década de 1980 início de 1990, listou na obra em quatro volumes intitulada A History of Women Philosophers, onde ela listou as 118 filósofas desde a Antiguidade clássica. Hoje sabemos que o número é ainda maior.

Adriana Delbó – Revisão e reparação urgente e ainda muito deficitária. As instituições de ensino que ainda não estão revendo seus currículos para incluir neles a produção das mulheres na filosofia estão sendo coniventes com o patriarcalismo, com o preconceito e a misoginia, a despeito de toda defesa que provavelmente devem fazer de princípios republicanos, e apesar de todo o vocabulário comumente acionado nos projetos pedagógicos dos cursos, tais como: “formação para a autonomia”, “formação para a cidadania”, “exercício da reflexão e do pensamento crítico”, “exercício da democracia”, “reflexão crítica da realidade”.

As mulheres sabem que, muitas vezes, são convidadas para eventos e publicações para compor números e evitar a acusação de falta de equidade. Porém, mais do que saber quantas são as mulheres que aparecem, é necessário garantir que a produção das mulheres seja lida, estudada e, portanto, valorizada do ponto de vista intelectual e filosófico.

IHU – Como analisam a crescente procura das mulheres nesse campo que foi, por longo período, majoritariamente masculino?

Maria Cristina Müller – Hoje as mulheres predominam nas mais diversas áreas; na educação, os índices se repetem; no estado do Paraná, por exemplo, nos cursos de graduação, 57,2% do corpo estudantil é formado por alunas, chegando a 57,8% no mestrado e 53,4% no doutorado. No entanto, a realidade na área da Filosofia não é a mesma. Conforme a professora Carolina Araújo (UFRJ) (13) revela, apenas 28% das pessoas que estudam filosofia nas graduações no Brasil são mulheres; na pós-graduação em Filosofia apenas 27% são mulheres; ao analisar o corpo docente dos PPGs este percentual cai para 20%.

Como exposto acima, há um forte movimento no Brasil, na última década, impulsionando a presença das mulheres na filosofia de modo mais direto e como pauta prioritária. Este movimento começa a colher frutos, como o que estão a observar no PPGFIL na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Esta colheita é real e permanecerá.

Na década de 1990, estudar uma filósofa era algo raro na área da filosofia; Hannah Arendt figurou, por muito tempo, como uma das poucas filósofas estudadas na pós-graduação na área, com dissertações e teses defendidas. No entanto, os pioneiros relatam, e eu me incluo, que antes de iniciarem suas comunicações e palestras sobre a filósofa, precisavam justificá-la como pertencente à área. Hoje isto soa ridículo.

Os preconceitos parecem que estão sendo superados, ao menos com a consideração de algumas filósofas e com a temática do feminismo; muitos outros preconceitos ainda precisam ser vencidos, como é o caso da violência contra a mulher e o assédio moral e sexual. Estamos no caminho certo e precisamos nos manter vigilantes. Deste modo, a preocupação do IHU com o tema das mulheres filósofas é louvável e merece todo nosso respeito.

Adriana Delbó – A crescente procura de mulheres pelas pesquisas de mulheres e sobre mulheres se deve à compreensão de que não é mais admissível a exclusão delas, nem a exclusão escancarada nem a dissimulada. A tradição filosófica até pouco tempo atrás quase não assumia nem sequer a produção de Simone de Beauvoir (14) e de Hannah Arendt e, quando muito, incluía apenas esses dois nomes. Em algumas instituições nem elas são estudadas. O reconhecimento de que as mulheres fazem parte da filosofia durante todo o seu percurso histórico já é fruto de pesquisas de mulheres. Não é razoável esperarmos que aqueles que estão acomodados e satisfeitos mexerão nas estruturas que os acomodam e os satisfazem. Não só alterar o cenário, mas sobretudo o funcionamento da filosofia excludente são “coisas de mulher”.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Maria Cristina Müller – É preciso construir muitos espaços de reflexão e discussão sobre a mulher. Talvez se possa alterar o imaginário simbólico e a linguagem comum que justificam e naturalizam a inferiorização da mulher e que, ao mesmo tempo, que constroem uma identidade deturpada do sexo feminino.

Adriana Delbó – Quero acrescentar a atenção que precisamos ter quanto ao modo de sermos e de nos relacionarmos dentro e fora das instituições. Penso que o modo como aparecemos e nos sentimos no mundo é o que mais diz sobre a construção de si ou da nossa infeliz inalterabilidade. Como expus acima, as pesquisas estão saindo do padrão conservador que a filosofia há muito se manteve. No entanto, considero que o modo de se relacionar se dê ainda nos moldes masculinos.

Na filosofia, apontar a falta ainda é o principal resultado das avaliações. O falocentrismo é muito atuante em vários tipos de corpos, a despeito do gênero e da pesquisa realizada e da cadeira ocupada nas universidades. “Falta isso”, “falta aquilo”, “não fez isso”, “não fez aquilo”, “não é bom o suficiente”. Alguém que se autointitula bom está sempre avaliando para informar sobre aquilo que falta no outro. Isso não é algo tipicamente falocêntrico?

O exibicionismo e as disputas ainda prevalecem nas relações. Apontar o dedo e dizer o que a outra deve fazer são atitudes comuns. A crueldade é naturalizada. Por isso, avalio que os modos de conquistas de lugares e de reconhecimentos são absolutamente masculinos. Se a compreensão do poder é masculina, como poderiam ser diferentes as maneiras de ocupar lugares de poder (digo: de lugar, de fala, de escrita e de outras elaborações)? Há muito a ser desaprendido.

Notas

(1) Rosa Luxemburgo (1870-1919): filósofa e economista marxista polonesa-alemã. Tornou-se mundialmente conhecida pela militância revolucionária ligada à Social-Democracia da Polônia (SDKP), ao Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e ao Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD). Participou da fundação do grupo de tendência marxista do SPD, que viria a se tornar mais tarde o Partido Comunista da Alemanha (KPD).

(2) Christine de Pizan (1364-1430): poetisa e filósofa italiana que viveu na França durante a primeira metade do século XV. Era conhecida por criticar a misoginia presente no meio literário da época, predominantemente masculino, e defender o papel vital das mulheres na sociedade. Foi a primeira mulher francesa de letras a viver do seu trabalho.

(3) Sueli Carneiro (1950-): filósofa, escritora e ativista antirracismo do movimento social negro brasileiro. É fundadora e atual diretora do Geledés — Instituto da Mulher Negra e considerada uma das principais autoras do feminismo negro no Brasil. Possui doutorado em Educação (na área de Filosofia da Educação) pela Universidade de São Paulo USP. Foi a primeira mulher negra a receber o título de doutora honoris causa da Universidade de Brasília.

(4) Olimpia de Gouges (1748-1793): dramaturga, ativista política, feminista e abolicionista francesa de importante atuação na Revolução Francesa. Os escritos feministas de sua autoria alcançaram enorme audiência. Foi uma defensora da democracia e dos direitos das mulheres. Na sua obra Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã de setembro de 1791, opôs-se ao patriarcado da época e ao modo pelo qual a relação entre homem e mulher se expressava na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, durante a Revolução Francesa. Devido aos seus escritos e atitudes pioneiras, foi guilhotinada.

(5) bell hooks (1952-2021): autora, professora, teórica feminista, artista e ativista antirracista estadunidense. hooks publicou mais de trinta livros e numerosos artigos acadêmicos, apareceu em vários filmes e documentários, e participou de várias palestras públicas. Sua obra incide principalmente sobre a interseccionalidade de raça, capitalismo e gênero, e aquilo que hooks descreve como a capacidade destes para produzir e perpetuar sistemas de opressão e dominação de classe. hooks teve uma perspectiva pós-moderna e foi influenciada pela pedagogia crítica de Paulo Freire. Em 2014, fundou o The bell hooks Institute com sede no Berea College, em Berea, Kentucky.

(6) Carol Hanisch: jornalista e ativista do feminismo radical. Formada em Jornalismo pela Universidade Drake, se voluntariou, em 1965, no Movimento de Direito Civil do Mississippi onde percebeu a força da união em lutas de minorias contra a opressão. É fundadora do grupo New York Radical Women, também editou o livro Redstockings, Feminist Revolution, publicado em 1975 e criou a revista Meeting Ground, um impresso que circulou de 1978 até 1992. Uma de suas ações mais importantes foi o protesto contra o concurso Miss América em 1968. Carol foi uma das quatro mulheres que interrompeu o processo. A tensão criada atraiu muita atenção para o Movimento de Libertação da Mulher. Hanisch participou também de diversas outras lutas, tais como as contra o racismo, o apartheid na África do Sul e o imperialismo americano. Seu slogan mais conhecido é o “Pessoal é Político” (The Personal is Political) em um ensaio com o mesmo nome publicado em 1969.

(7) Hannah Arendt (1906-1975): filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século XX. A privação de direitos e perseguição de pessoas de origem judaica ocorrida na Alemanha a partir de 1933, assim como o seu breve encarceramento nesse mesmo ano, forçaram Arendt a emigrar. O regime nazista retirou-lhe a nacionalidade em 1937, o que a tornou apátrida até conseguir a nacionalidade norte-americana em 1951. Trabalhou como jornalista e professora universitária e publicou obras importantes sobre filosofia política. Contudo, recusava ser classificada como “filósofa” e também se distanciava do termo “filosofia política”; preferia que suas publicações fossem classificadas dentro da “teoria política”.

(8) Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (1957): pesquisadora oxunista nigeriana e professora associada de sociologia na Universidade Stony Brook. Frequentou a Universidade de Ibadan e a Universidade da Califórnia em Berkeley. A autora estabelece duras críticas ao feminismo, em especial em sua obra A invenção das mulheres. Sua importante contribuição no campo da sociologia de gênero está pautada na análise da sociedade yorubá, propondo o oxunismo no lugar do feminismo como um caminho de superação dos papéis de gênero coloniais. Sua tese de doutoramento de 1993 verteu-se em livro em 1997, com o título A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero, ganhou o prêmio da American Sociological Association de 1998 por distinção na categoria de gênero e sexualidade. No livro, ela oferece uma crítica pós-colonial e para além das imposições do predomínio ocidental, pautada nos Estudos Africanos.

(9) Aline Matos da Rocha: doutora em Metafísica pela Universidade de Brasília – UnB, na linha de pesquisa Ontologias Contemporâneas (2023), com tese de doutorado vencedora do Prêmio CAPES de Tese como a melhor tese na área de Filosofia de 2024. Mestra em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás – UFG, na linha de pesquisa Ética e Filosofia Política (2018). Especialista em Ensino de Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas – UFPel (2024). Graduada em Filosofia com habilitação em licenciatura e bacharel pela Universidade de Brasília – UnB (2014-2015). Licenciada em Sociologia pelo Centro Universitário Internacional – UNINTER (2023). É pós-doutoranda no PPG em Metafísica da UnB, com Bolsa Prêmio Capes de Tese (Edital n. 04/2024) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Desde a graduação, desenvolve pesquisas articulando conhecimentos das áreas de Filosofia, Filosofia Africana. Dentre os temas de investigação acadêmica, interessa-se por Ensino de Filosofia; Filosofia Africana; Metafísica; Ontologias Contemporâneas; Ética e Filosofia Política; Filosofia da Educação; Educação das Relações Étnico-raciais; Sociologia do Conhecimento; As interseções entre Raça, Gênero e Classe em interfaces com a Filosofia e Sociologia. Integra o Núcleo de Estudos de Filosofia Africana Exu do Absurdo (NEFA) da UnB na linha de pesquisa Filosofia Africana e Educação, e também integra o GT de Filosofia e Raça da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF).

(10) Judith Butler (1956-): filósofa pós-estruturalista de origem estadunidense, tendo composto umas das principais teorias contemporâneas do feminismo e teoria queer. Butler também escreve sobre filosofia política e ética. Atualmente, ocupa o cargo de professora do departamento de retórica e literatura comparada da Universidade da Califórnia em Berkeley. Desde 2006, ocupa o posto honorificamente intitulado “Hannah Arendt” na European Graduate School. Butler é uma pessoa não binária, que em inglês usa os pronomes “they/them”.

(11) Lélia Gonzales (1935-1994): intelectual, autora, ativista, professora, filósofa e antropóloga brasileira. É uma referência nos estudos e debates de gênero, raça e classe no Brasil, América Latina e pelo mundo, sendo considerada uma das principais autoras do feminismo negro no país. Ademais, foi pioneira em pesquisas sobre Cultura Negra no Brasil e cofundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro (IPCN-RJ) e do Movimento Negro Unificado (MNU). Lélia teve uma importante presença tanto na academia quanto no mundo político, tendo circulado por diversos espaços. Seus trabalhos abordaram perspectivas interseccionais quando o conceito em si ainda não tinha sido criado, atuando contra o sexismo e o racismo na sociedade e cunhando conceitos como o de “amefricanidade” e “pretuguês”.

(12) Hipátia de Alexandria (351/370-415): filósofa neoplatônica do Egito romano. Foi a primeira mulher documentada como tendo sido matemática. Como chefe da escola platônica em Alexandria, também lecionou filosofia e astronomia. Como neoplatonista, pertencia à tradição matemática da Academia de Atenas, representada por Eudoxo de Cnido, e era da escola intelectual do pensador Plotino, que a incentivou a estudar Lógica e Matemática, no lugar de se dedicar à investigação empírica, e a estudar Direito, em vez de ciências da natureza. De acordo com a única fonte contemporânea, Hipátia foi assassinada por uma multidão de cristãos depois de ser acusada de exacerbar um conflito entre duas figuras proeminentes em Alexandria: o governador Orestes e o bispo de Alexandria, Cirilo de Alexandria.

(13) Carolina Araújo: professora titular do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro permanente do PPG de Lógica e Metafísica (PPGLM-UFRJ), pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), Cientista do Nosso Estado (FAPERJ), diretora da Cátedra Quantas Filósofas? no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE). Possui graduação em Filosofia pela UFRJ (1998), mestrado em Filosofia pela UFRJ (2000), doutorado em Filosofia pela UFRJ (2005) e pós-doutorado em Filosofia pela University of Ottawa (2012), onde também esteve como professor visitante (2020). Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Filosofia Antiga, Metafilosofia e Mulheres na Filosofia. É membro do Comitê Editorial da International Plato Society e representante da América Latina na Diretoria da International Society for Socratic Studies. Foi vice-presidente (2014-2017) e presidente (2017-2021) da Associação Latino-Americana de Filosofia Antiga. É membro e coadministradora da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas e coeditora da Enciclopédia Mulheres na Filosofia.

(14) Simone de Beauvoir (1908-1986): escritora, intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa. Embora não se considerasse uma filósofa, Beauvoir teve uma influência significativa tanto no existencialismo feminista quanto na teoria feminista. Escreveu romances, contos, ensaios, biografias, autobiografia e monografias sobre filosofia, política e questões sociais. Ela é conhecida por seu tratado O Segundo Sexo, de 1949, uma análise detalhada da opressão das mulheres e um tratado fundamental do feminismo contemporâneo, além de seus romances A Convidada e Os Mandarins. Ela lecionou em várias instituições escolares no período entre 1931 e 1943. Nos anos 1940 integrava um círculo de filósofos literatos que conferiam ao existencialismo um aspecto literário, sendo que seus livros enfocavam os elementos mais importantes da filosofia existencialista.

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/650249-uma-das-maiores-contribuicoes-das-mulheres-para-a-filosofia-politica-e-demonstrar-que-questoes-de-genero-sao-problemas-filosoficos-entrevista-especial-com-maria-cristina-mueller-e-adriana-delbo 


Hermenêutica entre Romanos e escolástica

 



Hermenêutica Juris na Civilização Romana 

Na civilização romana desenvolveu-se a hermenêutica jurídica, que teve início no século XII. Tábuas do século V a.C., que continham as regras nas quais a primeira civilização se baseou romano. Mas o conjunto de leis mais importante é o de Justiniano, o Corpus juris. civil. 

A primeira atividade da hermenêutica jurídica em Roma foi praticada pelos pontífices e por isso são chamados pontifícios, os que eram sacerdotes da religião romana. Na hermenêutica jurídica romana, vale a pena lembrar Sexto Pompônio, segundo o qual interpretar a lei não é menos importante do que estabelecer as regras. Em sua obra, o Digest, é possível identificar diferentes hermenêuticas do direito: 

  1. a interpretação autêntica, isto é, o sentido pretendido pelo legislador, 
  2. a interpretação jurisprudencial, isto é, a aplicação a casos específicos,
  3.  a interpretação doutrinária, isto é, o valor científica ou moral da própria lei. 

Portanto, existem várias teorias sobre o que diz respeito ao objeto da hermenêutica jurídica. Para alguns o objeto do processo interpretativo é o conteúdo objetivo da norma, para outros é antes o pensamento do legislador, que é aquele que deve tentar reconstruir a lei em com a maior precisão possível. Finalmente, há o problema da aplicação, o que significa a necessidade de compreender um texto ou uma regra em referência ao momento, tempo e circunstâncias em que são interpretadas.

Os quatro sentidos da Escritura na Escolástica

O pensamento hermenêutico escolástico é desenvolvido por Bonaventura da Bagnoreggio e de Tomás de Aquino. 

Segundo Boaventura, a Bíblia tem as mesmas características fundamentos da natureza, que é tornada muda pelo pecado e, portanto, para a salvação foi outro livro é necessário. Esses caracteres são largura, comprimento, altura e profundidade, onde a largura está nas partes da Bíblia, o comprimento nas eras históricas que abrange, a altura nas hierarquias eclesiástica, angélica e divina, para alcançando o céu, profundidade no significado místico. Outra distinção é entre o vários significados: significado alegórico que tem a tarefa de ensinar o que se deve acreditar (sentido de fé), o sentido tropológico, que diz o que deve ser feito (sentido de caridade), e sentido anagógico, que designa a meta a ser alcançada (sentido de esperança).

Segundo Thomas, que tende a eliminar qualquer dúvida naqueles que pensam que por trás do significado múltiplo das Escrituras esconde confusão, enfatiza Deus, autor da A Sagrada Escritura é a autora dos diferentes significados. Thomas aceita os quatro sentidos de sua contemporâneos: 

  1. sentido literal (Jerusalém é a cidade histórica), 
  2. sentido alegórico (Jerusalém é a igreja), 
  3. senso moral (Jerusalém é a alma), 
  4. senso anagógico (Jerusalém é a cidade celestial).

 Esses sentidos são reduzidos a dois: 

  1. o sentido literal (sentido histórico, etiológico e analógico) e
  2.  sentido espiritual (alegórico, moral e anagógico).


RETORNAR AOS ANTIGOS. HUMANISMO E O RENASCIMENTO DIANTE DOS PROBLEMAS DA CRÍTICA E INTERPRETAÇÃO TEXTUAL

O renascimento dos Studia humanitatis e o problema da distância tempestade O Humanismo, desde o início, visa promover o crescimento de todas as capacidades do homem, através de um caminho educacional diferente da época anterior. É o período em que a teologia, que havia sido dominante na Idade Média, foi substituída pela estudos humanísticos, através do estudo de ciências literárias, filosóficas, científicas e obras artísticas do passado, com a crença de que o homem pode encontrar nelas modelos para enfrentar as transformações do momento, sentindo-se assim contemporâneo do homem anteriores e têm novas orientações em diferentes esferas da vida.

O humanista italiano por excelência é Francesco Petrarca, que iniciou um importante processo de pesquisa e edição de textos clássicos, desenvolvendo assim uma atividade filológica, em que se pode sentir a distância temporal entre o autor do texto e seu intérprete. Esse estava ainda mais consciente do fato de que os escolásticos podiam conceber o latim como sua própria linguagem, o humanista, ao contrário, era muito claro sobre a distância que o separava dos modelos antigos e tinha a convicção de ficar fora daquele mundo que queria interpretar. 

Portanto é verdade que o humanista foi em busca e redescoberta do mundo antiga, mas tentou preservar sua linguagem, seu espírito e sua dimensão histórica. Portanto, pode-se dizer que o Humanismo vê a recuperação de modelos antigos, que conhecemos ele se sentia herdeiro, e o desenvolvimento de novas formas de vida, inspiradas na antiguidade, mas adaptadas para a civilização moderna.


terça-feira, 1 de abril de 2025

O MUNDO DA PÓLIS de ERIC VOEGELIN

 





Volume II, ORDEM E HISTÓRIA

 Síntese: Paolo Cugini

 

Humanidade e história

 

O salto no ser, o evento histórico que rompe a capacidade do antigo mito cosmológico e estabelece a ordem do homem em sua imediação sob a autoridade de Deus- é preciso reconhecer -, ocorre duas vezes na história da humanidade, praticamente ao mesmo tempo, no Oriente Próximo e nas civilizações egéias vizinhas. Pag. (75).

Os principais fenômenos que suscitam dificuldades são quatro:

(1)             O salto no ser, quando ocorre, transforma a sucessão das sociedades precedentes no tempo num passado da humanidade.

(2)             O salto no ser, embora adquira uma nova verdade sobre a ordem, não adquire toda a verdade, nem estabelece uma ordem última da humanidade. O esforço pela verdade da ordem prossegue novo nível histórico. As repetições do salto no ser corrigirão a noção inicial e a complementarão com novas descobertas; e a ordem da existência humana, por mais profundamente afetada pela nova verdade, permanece a ordem de uma pluralidade de sociedades concretas. Com a descoberta de seu passado, a humanidade não chegou ao fim de sua história, mas se tornou consciente do horizonte aberto de seu futuro.

(3)             O salto inicial no ser, a ruptura com a ordem do mito, ocorre numa pluralidade de casos paralelos, em Israel e na Hélade, na China e na Índia, em cada caso sendo seguido por sua própria história inerente de repetições no novo nível da existência.

(4)             Os saltos paralelos no ser diferem amplamente com respeito ao radicalismo de sua ruptura em relação ao mito cosmológico e também com respeito à abrangência e à penetração de seu avanço rumo à verdade sobre a ordem do ser. As ocorrências paralelas não são de uma mesma classe. Pags. (77-78).

Desde Hesíodo até Platão, quando o salto no ser alcançou a aletheia, a verdade da existência, o antigo mito torna-se o pseudos, a falsidade ou mentira, a inverdade da existência na qual os antepassados viviam. Pag. (79)

As fases de verdade crescente, portanto, eram claramente distinguidas na Hélade, e a transação do mito à filosofia foi compreendida, ao mesmo no Górgias de Platão, como uma época histórica. Entretanto, uma teologia da história comparável à do Dêutero-Isaías só apareceu no período helenístico. Panécio (c. 180- 110 a .C.) desenvolveu a chamada theologia tripartita, ou seja, a classificação das figuras divinas nos deuses físicos dos filósofos, nos deuses políticos da teologia civil e nos deuses míticos dos poetas. E seu pupilo Posidônio (c. 130- 50 a .C.), então, constitui uma teologia da história na qual a humanidade original, por meio da participação de sue Logos na força criativa divina, tinha uma concepção pura do deus único, invisível e irrepresentável, enquanto a diversificação nos tipos impuros da theologia tripartita era a conseqüência da diversificação da humanidade numa multiplicidade de povos. Dessa impureza da diversificação, a humanidade tinha porém de recuperar a primitiva compreensão da verdade, uma tarefa que foi executada de modo representativo pelos filósofos estóicos. Pags. (82-83).

 

Hélade e história

 

1. Questões preliminares

Numa primeira abordagem, certamente, não há dúvida de que na Grécia, como se torna manifesto à luz mais plena da história após 800 a .C., encontramos múltiplas polis divididas pelas rivalidades e envolvidas em guerras freqüentes, às vezes de uma forma tão atroz que se chega a considerar uma prova de humanidade se apenas metade da população de uma cidade é massacrada. Mas esse estrato da ordem grega, embora seja bastante concreta, certamente não é a estrutura completa da sociedade grega. A história da Grécia não se dissolve nas histórias das polis individualmente e de suas guerras, e um estudo dos tipos da ordem da polis e de sua simbolização não poderia ser considerado um tratamento adequado da ordem grega. Pois acima da ordem das polis surge, reconhecivelmente, o senso de pertencer a uma sociedade comum mais ampla. Pag. (102).

A filosofia, como uma experiência e uma simbolização da ordem universalmente válida, surge da órbita da polis. Esse fenômeno, agora, é um reminiscente do “êxodo de Israel para fora de si mesmo” que aparece no Dêutero-Isaías, ou seja, do processo no qual o componente universalista na experiência do reino de deus se separa da tentativa de realizar o reino nas instituições de uma sociedade concreta.

Tanto o helenismo como a cristandade devem ser compreendidos, ao que parece, como a operação contínua, na escala imperial, das forças ordenadoras para as quais Israel e a Hélade, as sociedades concretas de sua origem, mostraram-se excessivamente estreitas. Pag. (103).

A ciência grega da ordem era de fato muito mais que uma teoria da melhor pólis. A própria concepção de uma pólis paradigmática era, mas mãos de Platão e Aristóteles, um instrumento de crítica a ser usada contra a realidade nada paradigmática da cena política circundante. Sua elaboração de uma ciência da ordem era um ato político consciente, praticado numa situação concreta de desordem. Além disso, a necessidade de firmar as fundações empíricas do diagnóstico da desordem, assim como a autocompreensão de seu próprio ato de oposição forçaram os filósofos a analisar a situação com base em sua gênese histórica. A criação de um paradigma da ordem, sustentando como um modelo de ação em oposição à  ordem estabelecida da sociedade, teria sido, com efeito, uma realização estranha, e talvez até ininteligível, a não ser que uma filosofia do declínio e da regeneração histórica da ordem viesse a constituir o seu suporte e a dotasse de sentido. Portanto, a ciência integral da ordem compreende tanto uma ciência da ordem paradigmática como uma ciência do curso efetivo não paradigmático da sociedade na história. E as construções paradigmáticas tinham de fazer sentido com respeito ao passado recordado que ingressou como o presente no qual foram criadas. A consciência da situação histórica, portanto, era uma parte essencial da experiência grega da ordem, e o alcance da ordem que será apropriadamente designada como grega deve ser determinada, por conseguinte, pela memória da história contínua que os pensadores do período clássico aplicaram em sua situação, assim como na compreensão de seu próprio lugar nela. Pag. (107).


2. A consciência helênica da história

1 Características gerais

Se a memória for aceita como guia, a história da sociedade grega se estende por um período aproximadamente igual ao da historia paralela de Israel, com sua memória do êxodo de Abraão saindo da Ur dos caldeus. Pag. (108).

O conteúdo da memória helênica é, portanto, inseparável do processo histórico de seu crescimento.

Na esteirada invasão do século XII, formou-se no continente grego algo como um vácuo cultural, quando os depositários da civilização micênica foram forçados a emigrar, em grandes grupos – presumivelmente incluindo o estrato social e culturalmente dominante –, para as ilhas e a área costeira da Anatólia. No século IX a.C., uma nova Grécia começou a surgir. O renascimento começou nas pólis da Ásia Menor, onde os “Filhos de Iavan” se tornaram vizinhos dos “Filhos de Ashkenaz” (Gn 10). Nesta área fronteira de emigração originariam-se as epopéias de Homero, que daí começaram a difundir sua influência ao longo das ilhas e do continente, fornecendo aos gregos em recuperação a consciência de um passado comum. O empreendimento federativo pan-aqueu contra Tróia tornou-se o símbolo vivo de um vínculo cultural pan-helênico, e, precariamente, até mesmo um vínculo político. Além disso, uma vez que a guerra dos homens era ao mesmo tempo uma guerra dos deuses, épicos proporcionaram uma mitologia comum onde quer que tenham se difundindo, criando assim um contrapeso à diversificação das divindades locais e seus cultos. Neste aspecto, a função dos deuses homéricos – embora não os próprios deuses- pode ser comparada ao sumodeísmo egípcio, com sua interpretação dos vários deuses do sol do Egito como aspectos do deus único que adquiriu supremacia política. E, por fim, a linguagem das epopéias era um fator unificador na mediada em que compensava a diversificação dos dialetos. Da área oriental, então, a recuperação grega expandiu-se pelo mundo helênico e, por meio da expansão, criou-o. Homero era um Anatólio ou grego insulano, o primeiro de uma linhagem brilhante. As cidades costeiras e as ilhas vizinhas eram a região onde a cultura pré-helênica sobrevivente e a cultura asiática se encontravam; a partir dessa região focal, a mistura vital difundia-se ao longo do semicírculo das ilhas para o oeste da terra firme grega e ainda para a Sicília e o sul da Itália. Pelo lado de fora, esse vasto semicírculo era cercado a leste pelos lídios, persas e fenícios, ao sul pelos egípcios, e ao sudeste e oeste pelos cartagineses e etruscos. Pag. (109).

2 Heródoto

As historiai eram as investigações empreendidas por Heródoto com o propósito de preservar de modo geral as ta genomena, as recordações ou tradições, e de preservar especificamente as tradições relacionadas à pré-história do grande conflito entre os helenos e os bárbaros nas Guerras Persas (1.5). no momento, interessa-nos não a riqueza de detalhes das Histórias, mas o método usado por Heródoto para extrair de sua fontes o que ele considerava a verdade dos eventos. Dois exemplos ilustrarão o problema. Pag. (111).

Os dois exemplos serão suficientes para nossos propósitos. Aparentemente, Heródoto, a fim de transformar suas fontes em história, empregou e desenvolveu um método que já era amplamente aplicado na área fronteiriça das civilizações grega e asiática. No relato dos sábios persas, uma cronologia dos eventos foi derivado de alguns mitos gregos; os fatos foram um tanto alterados de modo a favorecer o que hoje chamamos de “interesse nacional”; e uma historia razoável surgiu por meio da aplicação do senso comum e da prudência elementar. No caso da história de Helena recebida dos egípcios, vamos que Heródoto orgulhosamente aproveita o auxilio, ao desenvolver um argumento do tipo asiático a fim de justificar sua preferência pela historia egípcia contra Homero. Pag. (113).

O método é de interesse em vários aspectos. Quando Heródoto considerou os mythoi em seu valor nominal como fontes históricas, atribui-se um amplo panorama do início da história grega, com suas relações com o Egito, a Fenícia e Creta – um panorama que, em seu todo, era historicamente verdadeiro. E embora os métodos desenvolvidos pelos historiadores e arqueólogos modernos para propósitos de usar os mitos e os épicos como guias da realidade histórica tenham se tornado infinitivamente mais cautelosos, refinados e complicados, e usualmente conduzam a resultados largamente diferentes quanto aos detalhes, o principio do procedimento ainda é aquele seguido por Heródoto. Continuamos a pressupor que uma concentração dos mitos numa dada área geográfica indica acontecimentos históricos nessa área – e supomos que uma escavação trará resultados importantes. Quando Homero escolhe o nome Fênix para o preceptor de Aquiles, ou o nome Egípcio para o senhor que faz o primeiro proferimento na assembléia em Ítaca, presumimos que a civilização micênica tinha conexões com a Fenícia e o Egito que tornavam tais escolhas inteligíveis para o ouvinte. E, inversamente, quando, de acordo com as informações de Heródoto, os sacerdotes egípcios haviam desenvolvido um longo relato sobre Helena no Egito e a haviam inserido em algum lugar de sua história, presumimos que tinham um conhecimento íntimo de vários ciclos do épico grego e que setes haviam causado impressão sobre eles.

Em segundo lugar, o método revela uma ampla destruição do mito por uma mitologia racionalista. Pelos textos de Heródoto, a nova psicologia parece ter sua origem na fronteira asiática; e isso lançaria uma luz interessante sobre ao menos uma das fontes do racionalismo que prevalecia em Atenas, na esteira das Guerras Persas, na época em que Heródoto estabeleceu-se temporariamente na cidade. Por destruição racionalista referimo-nos ao desenvolvimento da coordenação desapaixonada de meios e fins como o modelo da ação correta, em oposição inevitável à participação na ordem de Zeus e de Têmis como no modelo homérico. A destrutividade aparece, portanto, de modo mais patente no argumento de Heródoto contra a confiabilidade histórica de Homero. A história de que os trianos não queiram entregar Helena não podia ser verdadeira, pois ninguém teria sido tão desatinado a ponto de permitir a ruína da cidade por tal motivo. A profunda preocupação de Homero com a etiologia da desordem, sua análise sutil que tentava explicar precisamente por que tal desatino ocorrera estavam aparentemente perdidas em Heródoto.

Em terceiro lugar, à luz da reflexão precedente, o método possui interesse como um sintoma da decadência da civilização helênica. Heródoto conhecia muito bem não só o seu Homero, mas era também, em geral, um dos homens mais amplamente informados e educados de sua época. Se Heródoto não fosse mais capaz de entender Homero, impõe-se a questão: quem poderia? Apenas uma geração antes, Ésquilo ainda se movia no nível espiritual de Homero; considerando-se o fato de que, apenas algumas décadas mais tarde, Heródoto era um ator muito admirado e popular em Atenas, o declínio espiritual e intelectual deve ter sido tão rápido quanto terrível. A questão é de grande interesse virtude dos posteriores ataques de Platão a Homero. Se a interpretação herodotiana era representativa de uma tendência geral, se quase todos leram Homero desse modo, ao menos parte do ataque de Platão seria dirigido não tanto contra Homero, mas contra a maneira como ele havia sido interpretado. A noção de Homero como o “educador da Hélade” passará por alguns estudos mais minuciosos nos séculos V e IV. Pags. (113-114).

A racionalidade estrita de uma luta por poder, sem preocupação com a ordem da sociedade helênica, tornou-se de fato o modelo de ação na prática política. Em conformidade com a propensão de seu tempo, Tucídides queria interpretar a história grega desde seus primeiros tempos como um processo que conduziria ao conflito de sua própria época. Pag. (115).

 


Premissas Filológicas e outras “Ferramentas de Trabalho” de Lívio ROSSETTI

 

 



Paulus, , São Paulo, 2006

Síntese: Paolo Cugini

Digitação: Jaciara Souza Pereira


                             (CAPÍTULO 2)

O QUE ENTEDEMOS POR “FILOSOFIA  ANTIGA”  E O QUE TAL FILOSOFIA  PODE SIGNIFICAR PARA NÓS HOJE    

Mas em que sentido exatamente somos “gregos” sob muitos e significativos pontos de vistas?

Compreenderemos a importância de uma pergunta como esta se prestarmos atenção á seguinte circunstancia: que a identidade cultural dos indivíduos e da coletividade é feita, em grande parte, de traços paulatinamente absorvidos sem nenhuma ideia de sua natureza ou origem, pelo simples fato de que se os “respira”.

Costuma-se dizer, e com razão, que estes traços são compostos, em grande medida, de atalhos e simplificações, de automatismos em que conseqüência dos quais tendemos a racionar de determinado modo (a partir do qual nos descobrimos não apenas “ocidentais”, mas também italianos, ligúrios, genovesses e assim por diante,  e notamos as visíveis diferenças de forma mentis). A forma mentis é sem dúvida uma configuração que normalmente é absorvida, recebida e interiorizada de modo inconsciente. Daí o desejo compreensível de buscar as próprias raízes, a necessidade de saber quem somos e porque “somos feitos” assim. Ora, parece que gregas são, justamente, muitas das coordenadas essenciais desta cultura ocidental que, a esta altura, e segundo todas as aparências, venceu a concorrência e se impôs em nível planetário como uma cultura de referência. (p.31 e 32)

Basta, com efeito, uma breve reflexão para constatar que nós, ocidentais, fomos – e somos – “gregos” sob muitos pontos de vista bastante relevantes, e que as grandes linhas do nosso modo médio de pensar, de nos representar a nós mesmos e até de conceber e organizar a nossa vida em sociedade se assemelham num grau impressionante aquelas que foram elaboradas na Grécia até mesmo antes de Platão. 

A propósito, limitar-me-ei a lembrar que os gregos  - particularmente os gregos da Jônia e depois da Ática, especialmente entre os séculos VII-V a.C. – tiveram a ventura de “apostar” alto

na razão;

nas formas geométricas (dos edifícios monumentais assim como da escritura stoichedon ([Isto é, com caracteres alinhados ao modo de um tabuleiro de xadrez. Cf. a fig. 1 do Índice de Ilustrações no do volume). De múltiplas incisões, para não falar de como eles rapidamente chegaram a representar as posições das estrelas e o movimento dos planetas);

nas technai(1º[O termo costuma ser simplesmente traduzido como “artes”, mas seria apropriado falar de “profissões” e “ofícios” (neste caso seria ainda mais apropriado falar de “competências e especializadas”, ou melhor, de “noções de competência especializada”]). ( basta pensar no altíssimo nível alcançado pelas artes figurativas);

na ciência (não esqueçamos de que a ideia de um saber público, coletivo e de acumulação progressiva, com especialistas e especializações, e, além de tudo, grande prestigio, é algo já bem estabelecido no fim do século V a.C., estabelecido de uma vez por todas, estabelecido “em nome” da humanidade!);

no pluralismo, também ideológico (pense-se na época da Sofística e na modesta relevância das formas de controle ideológico das crenças por parte do poder político grego);

nas instituições civis (recordemos alguns elementos da vida pública ateniense dos séculos V e IV: rodízio anual em muitos cargos públicos, amplo recurso aos tribunais populares, com o recurso conexo a expedientes impecáveis para assegurar que a nomeação dos dikastai aos colégios judicantes individuais 11([No curso do século IV a.C., a crescente demanda de correção neste campo deu lugar á concepção de um apropriado e genialíssimo dispositivo em pedra, denominado Kleroterion (“selecionador”, “instrumento que permite escolher de modo casual”), do qual felizmente salvou-se um exemplar (cf. 2 do Índice  de ilustrações), e que Aristóteles descreve em detalhes no cap. 64 de sua Constituição dos Atenienses. Neste caso, significativo não é apenas o fato de que se tenha sabido pensar e criar uma “máquina” de primeira ordem, mas ainda mais que se tenha podido conceber a exigência de confiar a seleção dos dicastas (os juízes populares)a uma máquina.]) fosse rigorosamente casual, para garantir a confidencialidade do voto por eles emitido12([para este fim foram produzidos os psphoi em bronze (literalmente “seixos”, porquanto numa primeira fase usavam-se pedregulhos ou, como alternativa, sementes), dos quais alguns exemplares foram preservados (cf. a fig. 3 do Índice de Ilustrações). Cada dicastas recebia um pequeno cilindro cheio e outro vazio e em seguida os depositava   nas urnas apropriadas segurando-os entre o polegar e o indicador.isto bastava, porque as partes não tinham como saber se o dicastas estava se pronunciando contra ou a favor do acusado. No que se refere á par condicio (condição de paridade ou igualdade entre as partes em juízo), basta recordar que a clepsidra (cf. a fig. 4 do Índice de Ilustrações) era utilizada para oferecer a acusador e acusado o mesmo “espaço” de argumentação para as respectivas teses.]) e a própria paridade de condições entre defesa e acusação, pelo menos durante o tempo destinado á defesa das respectivas teses);

na relativa marginalização do mundo divino (era até mesmo possível rir-se dos deuses; em suma, pode-se dizer que a incidência de prescrição religiosas sobre a vida cotidiana era relativamente baixa). (p. 32, 33 e 34)

Não devemos deixar passar esta oportunidade sem mencionar as primeiras – e por vezes um tanto curiosas – atestações do termo “filosofia”, que são as seguintes: 

*A mais antiga aparece no fr. 35 de Heráclito: “são tantas as coisas que o homem philosophos (isto é, amante da sabedoria) tem necessidade de saber”. Por vezes duvidou-se de que Heráclito já pudesse estar fazendo uso de um termo tão característico, mas a desconfiança carece de fundamento sólido. No tempo de Heráclito a passagem da philein ten sophian (“amar a sabedoria”) e philos tes sophias einai (“ser amante da saberia”) a philosophos já havia ocorrido, como atestam outras fontes (tardias) que dão conta de que Pitágoras – apenas um pouco mais antigo que Heráclito – foi o primeiro a chamar-se e considerar-se filósofo;

*Em Heródoto (I30.2) encontramos o rei Creso, que, dirigindo-se a Sólon, declara que este, philosopheon (filosofando,com atitude filosófica), teria viajado para muitos países theories henekem, para ver, para saber, isto é, com interesses eminetemente cognitivos. O episódio é irreal porquanto Sólon morreu muitos anos antes que Creso se tornasse rei da Lídia (território da Ásia Menor próximo ás mais prósperas cidades costeiras da Grécia). Assim, se, com referência a Sólon, o termo é anacrônico, ele não se encontra totalmente fora de lugar em sua utilização por Creso, uma que este ao mesmo esteve em relação direta com Tales. Daí a pergunta: no ambiente de Tales já se falava de philosoplein? Heródoto, por sua vez, escreve em torno de 450-440 a.C., época em o termo seguramente já seria de uso corrente (pois de outro modo ele não lhe viria á mente). Mas em que acepção – ou em quais acepções – ele estaria sendo usado naqueles tempos?

De alcance limitado é uma passagem de Tucídides. Este, no assim chamado Epitáfio de Péricles (II 40. 1),escreve: “Com efeito, (nós ateniense) philokaloumen, amamos o belo, mas sem exagerar, e philosophomen, mas sem criar na lassidão”. Assim, de acordo com Tucídides, Péricles já fazia uso do termo, ou ao menos o teria usado para dirigir-se ao público num contexto solene e grave. Disto se infere que, ainda segundo o testemunho de Tecídides, por volta de 431, o termo já era suficientemente conhecido para ser utilizado sem risco de incompreensão. E se a expressão “filosofamos”pôde ser escolhida para transmitir a ideia de um modo de viver do qual os ateninses (ou pelo menos uma elite considerável) se orgulhavam, portanto num sentido necessariamente pouco definido, capaz de evocar uma vasta gama de comportamentos, isto quer dizer que o termo já conhecia um largo uso, não servindo somente para indicar um ramo especifico do saber;

O termo aflora de novo em Górgias, Encômio a Helena,§13. Neste caso o contexto já é mais amplo e definido. Helena argumenta que a persuasão combinada co logos (neste caso logos deveria significar simplesmente “palavra”) é tão potente, que é mister torna-se competente em pelos menos três âmbitos: em primeiro lugar “nos logoi dos meteorólogos” (as teorias dignas de crédito dos especialistas nos fenômenos naturais, especialmente os astronômicos, portanto aquelas provenientes dos intelectuais da Jônia e dos outros que posteriormente desenvolveram este tipo de saber), em segundo lugar naquelas “competições < verbais, que se tornam> vinculantes em virtude dos logoi”( isto é, as batalhas oratórias nos tribunais e nas assembléias públicas), e, em terceiro lugar, “nas disputas dos discursos dos filósofos”, em outros termos, o fluxo de teorias filosóficas não raro em grande contraste entre si. Górgias alude manifestamente a filósofos profissionais que na época já competiam para corroborar teorias tão irredutivelmente diversas, que não era possível acolher uma sem rejeitar a outra. Gostaríamos de saber quando ele escreveu seu Encômio a Helena (provavelmente nalgum momento posterior a 427 a. C.); em todo caso, a alusão a disputa envolvendo não poucos cultores de um tipo de saber já comumente dominado  de “filosofia” é inequívoca, e estima-se que tais discussões se referissem, na época, sobretudo ás teorias de Parmênides, que com efeito foram defendidas vigorosamente por Zenão e Melisso, profundamente repensadas por Empédocles, Anaxágoras e Demócrito, atraíram uma atenção não superficial da parte de diversos outros intelectuais e foram até objeto de uma pungente paródia de autoria do mesmo Górgias, em seu tratado Do que não é (ou Do não-ser); 

Do termo se encontram traços, por fim, em Hipócrates, cujo tratado De Vetere  Medicina já estava em circulação no mínimo depois de 450 e antes (provavelmente várias décadas antes) de 390 a.C. Lemos, no início do capítulo 20, que “os médicos e sofistas sustentam que não se pode entender de medicina se não se sabe o que é o homem” e que “o logos (pensamento) deles vai na direção da filosofia (es philosophian, isto é, conduz á filosofia), como no caso de Empédocles e outros que escreveram tratados sobre a natureza(¹³[O texto adota a expressão Peri phusios: formulação arcaica que, no grego “normalizado”, torna-se Peri phuseos (sobre a normalização ortográfica cf. o Glossário]). <precisando> o que é o homem em sua origem, como ele foi gerado e do que é feito”. Esta é uma referência inequívoca ao típico tratado de filosofia, comumente intitulado (como fazemos nós) Peri physeos (“Sobre a Natureza”), e a alguns dos termos recorrentes neste tipo de escritos, e não se tem a impressão de que o autor inove ao tratar estes livros como filosóficos. Daí deduz-se que na época a categoria de filósofos já estava configurada, e que os estudos de cunho naturalístico já vinham sendo percebidos como filosóficos, a despeito  da especificidade de certas temáticas particulares.

Neste sentido é secundário que, segundo uma fonte tardia, Zenão de Eléia tenha ou não tenha escrito, entre outros, um livro intitulado Contra os Filósofos (Pros tous philosophous). Nos tempos de Zenão (a época de Péricles) o termo já devia ser bem conhecido, e numa acepção bastante próxima áquela que ainda hoje se usa. Por outro lado, é verossímil que ele estivesse em circulação, pelo menos entre uma elite restrita, antes mesmo das guerras persas. (p.37, 38, 39 e 40) 


(CAPÍTULO 4)

AS CÓPIAS, AS FALSIFICAÇÕES, OS CORPORA, A FILOLOGIA ALEXANDRINA

Se depois pensamos no período helenístico, época não somente de grandes bibliotecas e de uma cultura policêntrica, mas, também, de uma difusão em larga escala da cultura escrita, não é difícil chegar á conclusão de que, naquele período, a oferta de cópias de um mesmo texto deve ter conhecido uma dilatação decididamente notável. 

Indícios convincentes deste procedimento são dados, de um lado, pela multiplicação das falsificações, vale dizer, o nascimento de um autêntico mercado antiquário de textos e subprodutos relativos, e, de outro lado, pelo início da produção de edições “críticas”, isto é, pelo trabalho de intelectuais de alto nível em cima de textos particularmente prestigiosos (como, por exemplo, os poemas homéricos) já no século III a.C., com o objetivo de distinguir entre cópias melhores e piores, assim como entre originais e possíveis atribuições e redações enganosas ou mesmo edições e paráfrases: uma atividade de comparação entre muitos exemplares que conduzia á fixação de um contexto confiável, corrigido. Neste período, passou-se, portanto, da mera execução de transcrições caligráficas á pesquisa de erros, repetições, omissões, soluções improvisadas (cunhas) ou da possível incorporação de notas que em outros exemplares figuravam á margem, fora do texto.

A difusão da escrita e da cultura – e, portanto, a presença de uma variedades de exemplares de um mesmo escrito realizados por copistas mais ou menos competentes e diligentes – comportou, assim, fenômenos tão diversos quanto a constituição de bibliotecas cada vez mais vastas, a presença de cópias também sensivelmente diversas umas das outras, e a própria introdução de não poucas falsificações no mercado livreiro, especialmente quando não apenas Homero, Hesíodo e os poetas mais antigos, mas também uma vasta gama de obras célebres dos séculos  V E IV começaram a ser estimadas com base em seu valor autoral, tornando-se clássicas, cobiçadas, um ornamento na casa de um intelectual ou das pessoas abastadas da época.

Deste contexto derivaram três fenômenos diversos: a produção de “falsificações autênticas”, os rudimentos do que conhecemos como filologia e a produção de vastos corpora. 

(A) A eclosão de uma vasta produção de falsificações (os assim chamados apócrifos, ou melhor, pseudepígrafos). (p. 50 e 51)

(B) A difusão de cópias, com o previsível acúmulo de erros na passagem de um exemplar a outro, fez surgir também a exigência de preparar edições “críticas” dos textos (especialmente na Alexandria dos Ptolomeus). (p.53)

(C) A difusão dos textos literários deu origem, ainda, á preparação de “cópias completas” das obras de determinados autor (p. ex., Demócrito, Hipócrates, Platão, Xenofonte, Aristóteles, Teofrasto, os oradores áticos etc.) ou – no caso dos poetas trágicos e cômicos – de coleções das obras consideradas mais importantes, selecionadas tanto em função do ensinamento que continham quanto de suas potencialidades de comercialização. Do mesmo modo, a demanda por exemplares em que figurasse tão ordenadamente quanto possível toda a série de obras atribuídas a determinado intelectual de renome ou ao menos uma seleção de seus escritos mais importantes – portanto, um verdadeiro corpus – estava intimamente ligada á afirmação da cultura helenística e áquela sua demanda por modalidades “incrementadas” de acesso ao saber que já foi apontada mais acima.

A demanda por corpora deste tipo marcou de modo particular o período que vai do século I a.C. ao I d. C., e é interessante observar que personagens contemporâneas como Cícero e Tito Lívio já fazem uso do termo corpus para indicar o conjunto das leis romanas (assim fazendo, com toda a verossimilhança, eles aludem a “antecedentes”  daquele imponente Corpus iuris civilis que encontrará sua configuração “definitiva” no tempo do imperador Justiniano, portanto no início do século VI, ainda que o nome Corpus iuris civilis somente tenha adquirido essa forma durante o Medievo latino). (p.55)

Permanece o fato de que a tradição (certamente em parte devido a combinações fortuitas de circunstâncias), em relação á qual quase nunca é estranha a afirmação, no curso dos séculos, de uma hierarquia de relevância atinente áquilo que merece ser transmitido e, portanto, recopiado, é ao mesmo tempo herança e imposição, fonte e vínculo: no caso dos trágicos e cômicos do século V, por exemplo, ninguém particularmente decidiu que  apenas sete tragédias de Ésquilo e de Sófocles podiam ser lidas por inteiro, que se podia ler muito de Aristófanes e pouquíssimo de Cratino – este estado de coisas foi apenas o resultado de uma práxis dominante nos centros de alta cultura da época alexandrina. Analogamente, nos casos de Platão, Antístenes, Euclides ou Carnéades, não fomos nós que decidimos que se deve investir muitíssimo no estudo das obras do primeiro e infinitamente menos no estudo dos escritos dos outros três filósofos, e se não temos dificuldades em avaliar a escolha em favor de Platão, bem podemos duvidar de que a penalização dos outros três autores seja igualmente justificada: estamos mesmo seguros de que dedicar as energias adequadas também á leitura destas obras seria apenas e simplesmente uma perda de tempo? (p.57 e 58)

(CAPÍTULO 5)

DO PAPIRO AO CÓDICE MEDIEVAL E ÁS PRIMEIRAS EDIÇÕES IMPRESSAS

5.1. Confecção e utilização do rolo de papiro

O recurso ao papiro como suporte material da palavra escrita parece remontar ao terceiro milênio antes de Cristo, tendo sido uma invenção egípcia. Por sua vez, o nome byblos ou biblos, não raro usado entre os gregos como denominação alternativa de пᾀпvροҁ (papyros), assim como também o derivado byblíon, nos fala da cidade fenícia de byblos e de uma época anterior á própria ascensão da civilização helênica.

Na Grécia, o uso de recorrer, como suporte para a escritura, ao papiro importado e confeccionado em forma de rolos, em substituição ás peles de carneiro curtidas ou ás pequenas e bem mais lábeis tabulas de cera (para não falar das inscrições em pedra), como antes se costumava fazer, tornou-se normativo no decorrer do século V a.C. (P.59 e 60)

Entretanto, no que diz respeito aos mais exemplares de papiros gregos efetivamente preservados, nenhum documento remota a uma época anterior a Aristóteles: a segunda metade do século IV, período no qual é datado, entre outros, o papiro de Deverni (sobre o qual se falará mais adiante). (p.60)

O ato de escrever devia requerer um tempo de execução bastante longa, dada a exigência de estar sempre passando o texto a limpo tão precisamente quanto possível. Por isso, era bastante comum a prática do ditado, com o que dificilmente acontecia de serem os autores a escrever seus próprios textos. Mesmo no caso dos contratos e sua lavratura devia ser normal o recurso ao graphéus (em latim, scriba), isto é, ao calígrafo. (p.62)

Vale a pena observar que o mundo medieval continuou a fazer uso do papiro, ainda que um modo não exclusivo (ele foi sendo progressivamente substituído pelo pergaminho). (p. 67)

5.2 A contribuição dos papiros (e da papirologia) para o conhecimento do mundo clássico

O papiro apresentava alguns problemas de conservação, atinentes tanto ao suporte material quanto, sobretudo, aos sinais gráficos, dado que mesmo as tintas utilizadas eram de origem vegetal. Em conseqüência, com o passar do tempo, a umidade era com freqüência capaz de comprometer sua legibilidade, e era possível que os textos se tornassem ilegíveis depois de apenas um século ou um pouco mais. (p.68)

Com respeito aos códices em pergaminho medievais, aos quais devemos a maior parte dos textos ainda legíveis (p. ex., todo Platão, bons 90% de Aristóteles, todo Plotino), os papiros nos permitem ter acesso não apenas a uma notável variedade de outros textos de que os códices não dão noticia – no vasto mostruário de exemplares de obras dos autores mais diversos se destacam, entre outros, a magistral Athenaion politeia (Constituição dos Atenienses) de Aristóteles e uma quantidade de textos epicuristas, grande parte das comédias de Menandro e muitos textos poéticos do antigo Píndrado _, mas também a grande número de unidades textuais que já conhecemos por meio dos próprios códices.) (p.69)

Vale lembrar que muitos textos gregos – particularmente vários textos filosóficos e técnico-científicos – foram parar na Ásia Menor, tendo sido traduzidos para diversas línguas (especialmente em siríaco, persiano e árabe), sendo por esta via redescobertos no Ocidente a partir do século XII (a propósito v. o próximo parágrafo).

Outrossim, o nosso patrimônio de textos gregos deve muitíssimo também ao período em que o Ocidente empreendeu uma memorável iniciativa de pesquisa daquilo que não figurava nas bibliotecas monásticas e episcopais.

O ponto de partida deste movimento foi a retomada da demanda de cultura: um crescendo que começou a manifestar-se no século XI, se consolidou com a criação e o notório estabelecimento das primeiras universidades no século XII e dali continuou quase sem interrupção até os nossos dias. Com afeitos, esta demanda não poderia deixar de configurar-se, num primeiro momento, como uma “fome” renovada de textos antigos.

Dela deriva, para começar a multiplicação dos códices tardo-medievais, o valor agregado constituído pela “moda” dos códices ilustrados que ainda hoje admiramos e o impulso definitivo num processo de conservação doravante não apenas seletiva dos textos gregos e latinos: a demanda era tal, que comportava a reprodução (e o estudo) sistemática de tudo aquilo de que paulatinamente se ia tomando conhecimento, incentivando a inspeção das bibliotecas monásticas e redescobertas de não poucas obras que se acreditava perdidas (costuma-se lembrar a este respeito o entusiasmo com que Petrarca empreendeu e fez empreender pesquisas a muitos de seus correspondentes, encomendou e executou cópias com o intento de remover os erros materiais que encontrava, foi pródigo na elaboração de comentários e ergueu uma imponente biblioteca pessoal que chegou a abrigar um Homero e um Platão, mesmo lamentando ser “surdo” para a “voz” deles, a Vox Graeca). 

Um outro efeito, da difusão renovada da leitura foi o melhoramento das soluções gráficas: em primeiro lugar a introdução do espaço entre as palavras (inicialmente por obra monges irlandeses dos séculos VII-VIII), depois dos parágrafos e das letras capitulares (eventualmente desenhadas), a multiplicação de títulos e subtítulos, a introdução de legendas contínuas no alto de cada página e o desenvolvimento da “paginação” (numeração dos quaterniones, habitualmente efetuada por meio das letras do alfabeto).([²º Antes do ano Mil consolidou-se também, em ambiente bizantino, a escrita minúscula grega, “concebida para economizar mais espaços do que tempo, e não obstante acuradíssima no registro obrigatório até dos sinais diacríticos – apóstrofos, espíritos e acentos” (segundo PASCUCCI  em Ifondamenti della filologia clássica, Florença, Sansoni, ²1962,p. 65). (84 e 85)

Deu-se também que, na primeira metade do século XII, e precisamente na Silícia subtraída á dominação árabe e na Espanha parcialmente “reconquistada”, os intelectuais de língua latina vieram a tomar conhecimento da existência, em tradução árabe, de muitas obras a eles inacessíveis, criando as condições para empreender sua sistemática retradução para o latim (daí a expressão “traduções árabe-latinas”).

O fenômeno verificou-se antes de tudo na região de Toledo, onde se destaca, entre os tradutores, a figura de Geraldo de Cremona, e logo depois em Palermo. É digno de nota o fato de que as primeiras traduções do árabe efetuadas em Toledo realizaram-se, segundo parece, através de outros filtros lingüísticos (o espanhol e o hebraico), ao passo que em Palermo traduziu-se diretamente do árabe.

O resultado foi não apenas a redescoberta de muitíssimos textos, mas uma espécie de progresso – e inicialmente irrefreável – entusiasmo da comunidade científica, especialmente a parisiense, por Aristóteles (além de toda uma série de comentários árabes), muito mais do que por outros autores. O fenômeno – que, como é sabido, suscitou num primeiro momento uma tenaz resistência da parte da ortodoxia católica ([²³ Houve numerosos pronunciamentos por parte das autoridades eclesiásticas entre 1210 e 1270; recorde-se, entre outras, as disputas em torno do Averroísmo.]) – se explica quando se considera que o velho Aristóteles acabou sendo o portador de um saber a um só tempo acessível aos intelectuais da época e sensivelmente mais avançado, mais articulado, melhor estruturado e mais “sólido”. No contato com o pensamento grego, o standard cultural da época acabou por revelar-se obsoleto, o que não deixou de gerar um incrível desconcerto e impor -  literalmente impor – a adoção imediata em larga escala do novo standard e de uma linguagem aristotelizante  observável até em intelectuais contrários a esta tendência, como Boaventura de Bagnoregio. 

Enquanto isso, como consequência da quarta cruzada (1202-1204) e dos cerca de vinte anos em que Constantinopla tornou-se um Império latino do Oriente, os contatos entre Bizâncio e o mundo latino foram retomados. Este reencontros gerou fortes demanda  por originais em língua grega, com o início de uma época em que se multiplicaram as traduções executadas diretamente de exemplares gregos. Neste contexto, merece particular destaque o dominicano Guilherme de Moerbecke, que, trabalhando em estreito contato com Tomás de Aquino, traduziu a quase totalidade do Corpus Aristotelicum (além de uma série de comentários gregos a Aristóteles e outros autores) entre 1240 e 1270.

Foi assim que os centros de cultura superior do ocidente latino voltaram, um após outro, a se apropriar de um patrimônio que permanecera inacessível por uns bons sete ou oito séculos, a ler também o grego e a ativar uma grande demanda de exemplares que correspondem ao grosso dos códices medievais gregos que chegaram até nós, constituindo, portanto, um ponto de chegada para a sucessão das cópias e um ponto de partida além do qual é raro conseguir remontar no que se refere á pesquisa de exemplares antigos (com efeito, os códices anteriores ao ano mil constituem uma tão minguada quanto preciosa minoria). (p.88 e 89)

                                   5. 7. A  passagem ás edições impressas

A outra fase decisiva desse longo processo inicia-se, enfim, com o aparecimento das obras impressas. (p.89)

                                                               (PARTE III)

                         A CONTRIBUIÇÃO DA CRÍTICA TEXTUAL E DA FILOLOGIA

6.2. Uma série de operações preliminares: da recensio ao stemma codicum

Estas operações dizem respeito somente ao caso em que a unidade textual especifica encontra-se disponível em mais de um exemplar (mais de um códice, ou mesmo alguns códices e um papiro). Este caso requer, antes de tudo, a recensio,  vale dizer, a inventariação dos “testemunhos”, com a pesquisa conexa de indicadores sobre a origem e dotação de cada exemplar, ou seja, a pesquisa do contexto no qual ele tornou forma (e isto também pode, com efeito, ser deveras iluminativo).  Para este fim é de grande ajuda: a) a pesquisa poleográfica, isto é, a possibilidade de estabelecer que, dado o tipo de escrita verificado, determinado documento deve remontar áquela época, cultura e sociedade cujas práticas de escrituras correspondem ao “testemunho” examinado, b) a pesquisa diplomática e sobre a “cultura material” do documento, que permite igualmente compreender muitas coisas sobre a época de produção, os critérios de confecção e redação do texto e, eventualmente, sobre o tipo de destinação originalmente previsto para ele.

Por sua vez, a recensio permite proceder a uma outra  operação preliminar também de grande importância: a assim chamada eliminatio codicun descriptorum, através de uma primeira forma de collatio, isto é, de confronto entre os exemplares disponíveis (conferir, a propósito, a expressão agostiniana aliquem multorum codicum vetustiorum collatione confutare) ([²C. Faust. 32,16 (“refutar o oponente com base no confronto entre muitos códices antigos”]). Em busca das afinidades e diferenças verificáveis entre um e outro. (p.101)

                                                       (CAPÍTULLO 8)

OUTROS TIPOS DE ARMADILHAS DO TEXTO ANTIGO: ENTRE A FILOLOGIA E A HISTORIOGRAFIA  FILOSÓFICA

Um grande filólogo italiano, Giorgio Pasquali, viu-se obrigado a escrever que, especialmente quando se lida com papiros avariados, “não se está certo de haver bem lido uma letra se antes não se adivinhou a palavra, e de haver bem lido a palavra se antes não se tem uma ideia geral da frase”. Com efeito, o sentido – ou significado – de um texto é algo a que se chega seja procedendo do exame das partes ao exame do todo, seja procedendo na direção contrária (do universal ao particular), sempre com um máximo de disciplina, porque de outro modo existe sempre o risco de descambar do saber para a ilusão do saber. (p. 137)

O conjunto de referências cronológicas, biográficas e textuais fio recond8uzido ao âmbito de uma hierarquia bem definida de relevância (os filósofos importantíssimos, os importantes, os secundários e aqueles a respeito dos quais talvez seja suficiente meramente saber que existiram), com a qual dir-se-ia estarmos de acordo desde sempre.

Aqui, apenas um pergunta: quem fixou esta hirearquia? Até que ponto estamos protegidos de possíveis erros de perspectivas? (p. 138)

Passemos, para finalizar, a um outro tipo de problemática: os textos doxográficos  e apotegmáticos. Por doxografia se entende a resenha das teorias (doxai, opiniões) que foram propagadas por um ou mais intelectuais sobre temas específicos. Por apoftegma (ou gnome, ou chreia: expressões não propriamente equivalentes, mas de significados afins, como resto é explicado no Glossário ao fim do volume) se entende a máxima,  a frase pitoresca, a anedota. No caso dos filósofos “desafortunados” (isto é, aqueles a respeito dos quais temos muita informação de segunda mão, mas poucos fragmentos) não é raro que as fontes nos ofereçam, ás vezes em abundância, doxai ou apotegmas e outros tipos de breves excerpta. (p.148 e 149)

                                                               (PARTE IV)

OS GRANDES “COMPILADORES” E OS PRINCIPAIS TEXTOS DE “SEGUNDO NÍVEL”

                                                             (CAPÍTULO 9)

                                                     OS PRINCIPAIS CORPORA

ɩ                                        DE TEXTOS FILOSÓFICOS GREGOS (LATINOS)   

Dos corpora (e de suas histórias peculiares) dependem, em suma, elementos importantes daquela tradição filosófica fundamental que hoje chamamos “a filosofia antiga”. Daí a importância de examinar ao menos alguns deles com uma lente de aumento apropriada. (p. 153)

                                                                    9. 1. O Corpus Democriteum

O mais antigo filósofo a ter tido a honra de um corpus todo dedicado a si foi, ao que parece, Demócrito. Á publicação de um Demócrito Completo parece ter-se dedicado um certo Trasilo de Alexandria, personagem para nós quase desconhecido. (p.153 e 154)

Se Trasilo, por sua vez, foi capaz de preparar o Platão Completo que depois veio a chegar até nós, quer dizer, aquela que logo transformou-se na edição de referência, se ele soube distinguir bastante bem entre as obras autênticas e espúrias de Platão (o que veremos melhor daqui a pouco), deveria poder ser tido como medianamente confiável também ao atribuir certas obras a Demócrito e considerar espúrias outras tantas. (p.154)

                                                                  9. 2. O Corpus Platonicum

A outra grande façanha de Trasilo,  a realização do Corpus Platonicum, teve uma sorte bem diferente, pois, como todos sabem, este Corpus foi preservado por inteiro. (p. 157)

É importante lembrar que, pelo menos no Ocidente Latino, de todo o Corpus Platonicum apenas o Timeu esteve acessível durante todo o período que vai da época de Agostinho (IV-V séculos) até aproximadamente o ano de 1150. Depois, até o fim do século XIV¹, ([¹Com efeito, data do século XII a afortunada tradução de outros dois diálogos do grego para o latim, por obra de Henrico Aristipo. A propósito, conferir A. CARLINI, Studio sulla tradizione ântica e medieval Del Fedone (Roma, Edizioni del’ Ateneo, 1972). Sobre o conjunto da intricada história que levou á constituição e transmissão do Corpus Platonicum do fim do século III a.C. aos nossos dias, cf.Y LAFRANCE, Pour interpréter Platon, II, La ligne, in République VI, 509d-511e; Le texte et son histoire (Montréal, Bellarmin, 1995), pp. 19-254.) a série de diálogos conhecidos incluía o Menon e o Fédon, ao passo que a preservação do conjunto dos diálogos que hoje podemos ler foi levada a cabo em ambiente bizantino.² ([²”No curso do século IX, na época que por vezes tem sido lembrada como o primeiro Renascimento Bizantino, todo o corpus tetralógico antigo das obras de Platão foi transmitido ou recomposto em pelo menos três diferentes iniciativas editorias, cada uma das quais, dada a extensão deste mesmo corpus, foi fisicamente distribuída em dois temos distintos. Posteriormente, os dois temos que compunham cada uma das edições do século IX não mais foram recopiados juntos, dando origem a tradições separadas (...). o primeiro temo de um dos corpora do século IX, documentado, principalmente, mas não unicamente, pelo códice Bodleianus Clarkianus 39 (sigla B), composto em 895 pelo calígrafo João e sob encomenda de Areta, continha as primeiras seis tetralogias dos diálogos, abrangendo até o Ménon”: assim escreve Ernesto BERTI em Osservazioni filologiche Allá versione Del Filebo di Marsilio Ficino, in // Filebo di Platone e La sua fortuna (Atas do congresso de Nápoles, 4-6 de novembro de 1993), editado por p. COSENZA (Nápoles, D’ Auria, 1996), na p. 131 e SS.). também da área lingüística grega que provém o mais antigo manuscrito integralmente preservado, o “Codex  Bodleianus-Clarkianus 39” (de 895), onde foram preservadas as primeiras seis tetralogias. Assim, neste caso específico, o aporte dos papiros é relativamente marginal.³ ([³A primeira seção do Corpus dei papiri filosofici greci e latini (obra mencionada no cap. 5), dedicada aos autores “conhecidos”, foi concluída em 2002 e consta de cinco volumes. Os fragmentos dos diálogos platônicos figuram no vol. I. 1***(N-P). (P. 157 e 158)

                                         9. 3. O Corpus Aristotelicum        

O ainda mais importante Corpus Aristotelicum é, em comparação, bem menos representativo que o platônico, porque inclui quase somente as assim chamadas Pragmateiai (πραγµαtεīαί) , estudos especializados exclusivamente dedicados a uma exposição a mais completa possível de tema ou disciplina cientifica particular (a ética, a retórica, a física, a astronomia, o movimento dos animais, a modalidade de reprodução das várias espécies etc.) e uma boa dose de outras obras que, se acredita, não podem ser de autoria do Estagiario. (p.163 e 164)

No que diz respeito aos critérios seguidos por Andrônico na constituição do corpus, há motivos para acreditar que ele tenha se dedicado a acentuar a correspondência entre títulos e setores disciplinares, não só valorizando, mas também acentuando uma opção que já era a de Aristóteles. Quer dizer, presume-se que ele tenha em muitos casos “reunidos” escritos de temas afins e introduzido por si mesmo alguns títulos. De outro lado, é seguro que tenha sido ele a definir a disposição dos tratados, principiando, segundo o uso helenístico, pela lógica (talvez também atribuindo aos livros de lógica o titulo abrangente de Organon: “instrumento”, aparato doutrinal propedêutico a todos os outros gêneros de saber) e prosseguindo com os tratados de física e ética.

Uma opção como esta não implicou unicamente uma reorganização dos escritos, acabando também por conferir ao conjunto uma fortíssima impressão de sistematicidade e unidade, a ponto de tornar quase imperceptíveis os indícios – que não obstante persistem  -  de flexibilidade e mobilidade do edifício doutrinal resultante. O procedimento não deixou de falsear intensamente o modo pelo qual Aristóteles foi depois recebido por dois milênios inteiros, e de fato este tipo de pré-compreensão  só pôde ser colocado em dúvida, e não sem encontrar tenazes resistências, no decorrr do século XX.

O fruto mais espetacular do tipo de intervenção devida a Andrônico foi, segundo parece, a constituição da obra que chegou até nós como a Metafísica de Aristóteles: na realidade trata se de uma espécie de “fichário” (ou “pasta”) no qual foi reagrupado (difícil dizer se também ajustado) certo número de breves tratados de temas afins que dificilmente teriam sido dispostos pelo autor na ordem em que ora os encontramos. Ademais, também o termo “metafísica” (tᾀµεtᾀ tᾀφvᵅ ɩќ α) ([ ¹6Transliteração fonética: ta metá ta fusiká (ou fysiká). É possível que tenha sido “inventado” por Andrônico com o propósito de sugerir a ideia de que os temas ali tratados “transcendem” aqueles confrontados em uma outra das obras mais significativas do mestre, a Física ( tᾀφɩќᾀ), isto é, para sugerir a idéia de que eles vêm logicamente “depois”, “além” dos temas tratados na Física, colocando-se, em suma, num outro nível. Na verdade, Aristóteles refere-se a eles em termos de “filosofia primeira” (prote philosophia); não obstante, é possível entender por isso que o “primeira”e o “depois” dependem do ponto de vista: “primeira”se se procede do universal ao particular; “depois” – ou “posterior  (á física)” – se, passando a níveis cada vez mais altos de abstração, se ascende primeiro a considerações de espaços, tempo, infinito e outras estruturas que já transcendem a especificidade dos vários tipos de objetos vivos dos quais é feito o nosso mundo e, depois, procedendo para mais além, a categorias ainda mais universais como substâncias, causa primeira, motor imóvel, ser enquanto ser, quer dizer, as próprias “verdades que nas matemáticas são chamadas de exiomas” (conforme se lê em Met. IV 3, 1005ª 19-20), e particularmente o princípio da não-contradição. O termo em si, feliz a ponto de vir a nomear toda uma disciplina, faz sua primeira aparição  ocasional num texto de Basílio de Cesaréia (século IV d. C.) e permanece desconhecido dos latinos. Os mais antigos manuscritos do Corpus Aristotelicun nos quais aparece o texto da obra acompanhado do referido título remontam com efeito  a épocas muito posteriores (séc. X) (P.167 e 168)

 9. 4. O Corpus Theophrasteum 

Não é certo que Andrônico de Rhodes possa também ter organizado um Corpus Theophrasteun análogo ao aristotélico, mas o fato é pelo menos verossímil. Com efeito, Diógenes Laércio não se limita a propor o elenco detalhado das obras de Teofrasto, entes identificando, á guisa de prefácio, uma espécie de corpo das obras principais (109 títulos, equivalentes – assim nos diz – a 290 livros), e depois mencionando outras três listas  (mais uma boa centena de títulos, quase todos correspondentes a um livro cada um ) e, enfim, precisando: “ao todo são 232.808 linhas de texto” (V42-50). Um cômputo tão exato como este não pode deixar de referir-se a um verdadeiro corpus, conferindo, ademais, uma credibilidade especial ao elenco de obras proposto.

Entretanto, a imponente produção de Teofrasto não foi preservada. A sucessão das cópias nos permite ter pleno acesso tão-somente a uns poucos de seus muitíssimos escritos: particularmente á Historia plantarum (um substancioso tratado de botânica) e aos Caracteres, uma obra que gozou de um prestigio excepcional até  o século XIX. De outro escritos existem fragmentos, não raro bastante extensos. (p. 172 e 173)

9.5. O corpus Chrysippeum

Ainda mais catastrófica pode ser dita a situação relativa a um outro personagem de relevo, que não por acaso é relativamente pouco conhecido: Crisipo de Solis, terceiro escolarca da escola estóica, vivo entre 280 e 205 a.C. (p.174)

9.6. O Corpus Plotinianum

Sempre no âmbito da mais pretigiosa tradição filosófica grega destaca-se um corpus ulterior que também continua acessível: o conjunto das obras de Plotino.

A história relativa á constituição do Corpus Plotinianum é simples e linear. Plotino privilegiou a comunicação oral e só começou a colocar por escrito a sustância do seu ensinamento depois dos 50 anos de idade, em tratados cuja estrutura sugere modalidades típicas de comunicação oral (moderadamente esotérica), quer dizer, lições dirigidas a uma freguesia regular de alunos.

Com sua morte, um discípulo fiel, de nome Porfírio, organizou um “Plotino Completo” pouco depois do ano 300 d. C., constituindo um corpus de 54 obras divididas em seis “enéadas” (grupos de nove), prefaciado de uma exaustiva Vita Plotini. O corpus inteiro foi preservado, e nenhum indício permite pensar que algum escrito de Plotino tenha sido deixado de fora da compilação. Em compensação, há motivos para acreditar que Porfírio tenha feito intervenções ocasionais com o objetivo de “extrair” mais de determinados tratados (conseguindo, por exemplo, tirar três tratados “diferentes” de um escrito visivelmente unitário), com o objetivo de atingir o quorum desejado de 54 unidades textuais. De resto, ao distribuir os tratados em seis enéadas ele dá mostras de privilegiar as afinidades temáticas verificáveis entre eles. Porfírio até admite explicitamente o procedimento, tendo ainda o cuidado de indicar, no prefácio, em que ordem os vários tratados foram efetivamente compostos por seu autor. (p. 176)

                                                           (CAPÍTULO 10)

   ALGUMAS COLETÂNEAS PRIMÁRIAS DE FRAGMENTOS E TESTEMUNHOS

10. 1 Os fragmentos dos filósofos pré-socraticos

(A) Convém iniciar precisando que, sob a qualificação de “pré-socráticos” (eventualmente “pré-platônicos”), ([²³ Quando se fala em “pré-platônicos” faz-se referência sobretudo ao fato de que, na imensa maioria dos casos, a filosofia anterior a Platão foi consignada em textos não conservados por inteiro (com as exceções de Antifonte, Górgias, Hipócrates e dos Dissoi logoi); secundariamente á imponente virada que Platão soube imprimir na filosofia também do ponto de vista das suas premissas de organização (dando vida a uma verdadeira instituição escolar). Não se contra unicamente o filão “naturalista”, mas, a bem dizer, uma gama mais do que abrangente de posições profundamente diversas. O termo foi posto em circulação não por Diels (sobre isso ver mais abaixo), como com freqüência se diz, mas por Zeller nos primeiros dois temos da sua monumental obra A filosofia dos gregos em seu desenvolvimento histórico.([²4 Die Philosophie der Griechen in ihrer geschichtlichen Entwicklung dargestellt, cuja publicação foi iniciada em Tubinagem em 1845, para depois prosseguir em Leipzig e dar lugar a uma longa série de edições frequentemente  revistas e ampliadas (a 7.ª em 1921-1923; reimp. Hildesheim, Olms, 1963, 5350 páginas). Em 1932 Rodolfo Mondolfo iniciou a publicação de uma edição italiana ainda mais imponente da obra, em muitos volumes – até 1974 foram publicados, com a contribuição de outros estudiosos italianos, uma dezena deles, o que não obstante corresponde a menos da metade do original -, sistematicamente acompanhados de notas de atualização sobre os desenvolvimentos ulteriores da pesquisa especializada.]) (p. 179 e 180)

Assim, com freqüência nos encontramos na presença de intelectuais multifacetados, que revelam um gosto pronunciado pelo cultivo de um bom número de especializações não necessariamente coordenadas entre si. Por isso, aquilo que nós chamamos de filosofia com freqüência não é senão uma de suas áreas de competência, e muitas vezes ocorre que o filósofo do século V não revela uma consciência suficientemente nítida da especificidade do seu saber filosófico. (p.182)

As nossas fontes de informações são via de regra constituídas por autores – gregos (e bizantinos), árabes ou, mais raramente, siríacos e hebraicos -  que inseriram em seus textos informações, paráfrases ou verdadeiras citações de textos que remontam (ou são reconduzíveis) aos séculos VI ou V a.C., não necessariamente acompanhadas do cuidado de indicar o autor e a obra citados, e ás vezes errando na atribuição da paternidade destes excerpta mais ou menos ocasionais. (p. 183)

Perguntemo-nos agora o que “funciona”como texto, atualmente, em matéria de pré-socráticos, quer dizer, que livros devemos procurar para encontrar a documentação de base. (p. 185)

Neste âmbito, o lugar de honra sem dúvida pertence á assim chamada “Diels-Kranz”. Trata-se de uma celebérrima coletânea de fragmentos com a qual é virtualmente inevitável “travar contato”, para, depois, eventualmente ir além. (p. 186)

10. 2. Socratis  et Socraticorum Reliquiae

Se os Versokratiker chegam a abranger os escritos produzidos pelos sofistas até o fim do século V a.C., além de Demócrito e alguns dos seus discípulos, uma outra obra muito mais recente faz algo de análogo em relação aos testemunhos sobre Sócrates de um lado, e, de outro, aos testemunhos e fragmentos relativos aos assim chamados “Socráticos  menores” (sem levar em conta, portanto, as obras de Platão e Xenofonte, reproduzidas em seus respectivos corpora), além de tudo aquilo que diz respeito aos seguidores de alguns destes (os cínicos, os cirenaicos, os megáricos e os adeptos da assim chamada escola elide-eretreica) ([³7 De fato, também Fédon de Hélide fundou uma pequena escola, á qual, em torno de 310-300 a. C., Menedemo de Erétria imprimiu uma nova marca e ulterior vitalidade.]).

Trata-se da Socratis et Socraticorum Reliquiae, uma vasta coletânea de fontes organizada por G. GIANNANTONI, que foi publicada em 1990, em Nápoles, pela Bibliópolis, sendo imediatamente acolhida como uma obra de referencia imprescindível.

Com efeito, as SSR (assim se convenciona abreviar o título da nova coletânea em 4 volumes) não se limita a preencher uma lacuna de primeira ordem; ale, disso, ela está configurada em notável continuidade em relação a Diels-Kranz, de tal modo que apenas uns poucos personagens menores da primeira metade do século IV a.C. – Os discípulos de Górgias e alguns outros intelectuais da época não pertencentes ao filão socrático-platônico – são deixados de fora seja uma, seja da outra, edição. Assim, a combinação das duas obras dá lugar, em relação ao período indicado, a um conjunto decididamente valioso. (p. 192 e 193

10. 3. Acadêmicos e Peripatéticos

Um outro grande “capítulo” relativo aos fragmentos é aquele concerne aos discílulos diretos de Platão e de Aristóteles.

No caso da primeira geração de “acadêmicos”, a situação deve ser dita, salvo poucas exceções, como semicatastrófica, tendo em vista observar-se em muitos casos uma extraordinária penúria de textos autógrafos  e o fato de, por essa razão, terem os estudiosos de contentar-se com as evidências indiretas. (p. 196)

Ainda mais articulado é o quadro relativo á primeira geração de aristotélicos, uma vez que temos acesso a algumas obras inteiras não apenas de Teofrasto, mas também de Aristoxeno de Taranto (foram preservados uma boa parte dos seus Elementos de Harmonia e um trecho substancial dos seus Elementos de rítmica). De resto, não pouco foi preservado também de Eudemo de Rodes, cujos escritos incluíam uma Geometrikè historìa, uma Arithmetikè historìa e uma Astrologikè historìa (através destes textos nos chegaram, além de outras coisas, contribuições de primeira ordem á história da matemática). Também muito prolífico deve ter sido Estradão de Lampsaco, distinguindo-se por cultivar uma notável variedade de temas (cf. o elenco das suas obras em Dióg. Laérc. V 59-60, onde se especifica que seus escritos tinham ao todo 332. 420 linhas de texto: muito mais do que o Corpus Theophrasteum)

De modo geral, nos vemos ás voltas com personalidades decerto um tanto achatadas pelo modelo aristotélico (p. ex., quando tratam de lógica e metafísica), mas, ao mesmo tempo, impregnadas da vocação enciclopédica do mestre, com interesse que não raro extrapolam o campo especifico da filosofia. (p.198)

Epicuro e seguidores. Neste caso, a situação das fontes deve muitíssimo aos papiros de Herculano. Como a vila herculanense em que foram descobertos os papiros hospedou por pelo menos um século (até o ano de 79 d.C., quando tudo foi destruído pela erupção do Vesúvio), um grupo de fervorosos epicuristas orbitando em torno da figura de Filodemo de Gandara, as novidades que vêm de Herculano quase sempre dizem respeito  ao mestre (Epicuro) e a uns bons três séculos de vida da escola do “Jardim”, incluindo, assim, também um longo cortejo de personagens menores. Com efeito, de Herculano afloraram muitos escritos, in primis de autoria de Filodemo, mas também um ou outro do próprio Epicuro (entre outros, muitas cartas que se reputa serem autêntica. (p. 199 e 200)

A situação das fontes relativas aos fundadores e primeiros mestres da Stoa já é mais estável, apresentando, não obstante, também as suas limitações. (p. 201)

                                                             (CAPÍTULO 11)

                                          AS HISTÓRIAS DA FILOSOFIA

                                      COMPILADAS PELOS ANTIGOS

Como veio se formando esta organização de conjunto, esta hierarquia de relevância que mais tarde vem a dirigir a interpretação? E como foi preservado aquele vasto e indefinido fluxo de informações paralelas que são comumente utilizadas para enquadrar os inúmeros aportes e delinear uma história da filosofia dos gregos e dos latinos? Há talvez motivo para se suspeitar que o peso específico atribuído aos autores individuais tenha acabado por ser proporcional á massa das obras efetivamente conservadas, mais isso por efeito de fatores amiúde casuais? Quem e quando se começou a ordenar todos estes personagens, livros, teorias e disputas de escolas, fazendo enfim emergir o grande Filósofo a quem se deve evitar confundir com a turba de meros epígonos? (p. 210)

Podemos, assim, identificar pelo menos cinco tipos de aportes bem definidos á antiga historiografia filosófica:

__ excursos destinados a distanciar o autor de posições por ele não compartilhadas, com apresentação e o enquadramento sintético de determinadas teorias, a apreciação de algumas das suas qualidades e as razões que justificam  seu distanciamento em relação a elas  (este é, grosso modo, o modelo aritotéles);

__ estudos monográficos centrados sobre um autor individual, as vezes com uma feição marcadamente biográfica. (p. 211)

__ Obras voltadas á ordenação da grande quantidade de nomes conhecidos, associando um mínimo de informações em torno de cada um dos filósofos mencionados e, nalgons casos. (p. 211)   

__ investigações voltadas para o registro e classificação das dòxai (“opiniões”) emitidas pelos vários filósofos a respeito de vasta gama de questões particulares, de modo a realizar ainda algo semelhante a uma vasta planilha ou prospecto, sem nenhuma pressa de entrar no mérito da questão através de juízos de valor pessoais, porém buscando ir pelo menos um pouquinho mais fundo (modelo ciceroniano); 

_ complicações de pretensões muito mais modestas, concebidas quase unicamente como coletâneas de notícias variadas a respeito de autores, sem um interesse especial por suas doutrinas e privilegiando, ao contrário, as anedotas e outras informações miúdas ou banais (modelo laerciano).

Estas contribuições, justamente em virtude da sua notável variedade, constituem um autêntico recurso de enquadramento da personalidade cultural dos diversos autores, de suas obras, do contexto em que se deu atividade e do próprio significado do seu pensamento. (p.211 e 212)

11. 4. As Sucessões dos filósofos, de Rodes a Herculano

Depois da morte de Aristóteles, Eudemo deve ter-se estabelecido em sua cidade natal, onde tomou forma uma minúscula, porém efetiva e relativamente longeva ramificação da escola peripatética. Neste contexto, no início do século II a. C. dois obscuros rodésios de extração peripatética, Antístenes e Sosícrates, devem ter inaugurado o uso de redigir compilações intituladas Sucessões dos Filósofos (φɩᶲλοσÓᶲωv   ᵟɩαᵟοxαí).([Transcricão fonética: Filoófon diadochái.]). Algo de análogo veio a escrever depois, no século I, um tal Alexandre, talvez de Mileto, que é comumente identificado pela alcunha de “Poliístor”, e também Nícias de Nicéia e Jasão de Nissa, todos personagens ainda bastante desconhecidos. 

Destas obras sabe-se quase somente que foram escritas e que conheceram em sua época considerável difusão. Com efeito, afora o caso de Alexandre Poliístor (do qual trata amplamente Laércio em seu estudo sobre Pitágoras, em VIII 24-36), são poucos os fragmentos conservados, e de escassa consistência. Não obstante, há motivos para se acreditar que, á diferença das análises aprofundas propostas por aqueles autênticos cultores da historiografia que foram Teofrasto e Eudemo, os autores de Diadochai ofereciam visões panorâmicas destinadas quase unicamente a delinear uma espécie de árvore genealógica das várias escolas filosóficas e a propor algumas minúsculas notícias informativas associadas a cada um dos personagens identificados, com meros acenos a respeito de suas doutrinas.

A maior preocupação destes autores – e o maior motivo de interesse pela obra deles – foi justamente colocar um pouco de ordem nas notícias relativas a muitas dezenas de intelectuais afiliados ás várias escolas (de modo a estabelecer com um mínimo de precisão quem foi discípulo de quem), mencionar pelo menos alguma coisa a respeito de cada personagem e desse modo torná-lo reconhecível, isto é, afastando o perigo de que se pudesse confundi-lo com os outros. Quando, por exemplo, Diógenes Laércio precisa que existiram outros quatro Sócrates, outros seis Xenofontes, outros dezenove Teodoros (além do Teodoro de Cirene normalmente conhecido como “cirenaico” e mais ainda como “ateu”), outros quatro Platões e assim por diante – tendo em cada caso o cuidado de associar um mínimo de dados a cada um dos homônimos identificados – é verossímil que ele baseie seus dados em pesquisas empreendidas pelos próprios autores de Sucessões. É também possível que Laércio se atenha ao modelo das Sucessões (ás quais declara expressamente estar citando em diversas ocasiões) seja ao propor, no início de sua obra (I 13-19), um breve panorâmica, seja, mais em geral, no que concerne ao uso de apresentar uma miscelânea de notícias e enedotas heterogêneas a respeito da cada filósofo tomado em consideração. 

Intui-se, decerto, a importância destes dados (que os estudiosos da Antiguidade Clássica costumava chamar de “prosopográficos” ([A propósito ver o Glossário]). Para orientar-se no mar intenso de notícias, para estabelecer a cronologia e, entre outras coisas, para poupar-se de algumas confusões de identidade indesejáveis. (p. 226 e 227)

Filodemo redigiu uma vasta Syntaxis ton philosophon (“Ordenamento dos filósofos”), da qual salvaram-se amplas seções relativas aos acadêmicos (o chamado Academicorum Index Herculanensis) e estóicos (o chamado Stoicoru, Index Herculanesis), além de seções muito mais breves dedicadas a outras escolas. (p. 228)

11. 5. Cícero

Em filosofia, Cícero foi, como se diz, um eclético. Seja como for, a linha de pensamento que ele alcança traçar passa através de confrontos sistemáticos com a tradição grega, da qual se mostra seja bom conhecedor, seja um divulgador eficaz para os leitores de sua própria língua. 

Em quase todas as suas obras filosóficas, Cícero empreende um amplo confronto, sempre crítico, com a tradição anterior. Estudos de certa consciência – e não raro bem argumentados – sobre as teorias de determinados filósofos, especialmente do período pós-aristotélico (estóicos, epicuristas e céticos) figuram, em particular, no De natura deorum, nas Tusculanae disputationes, nas Academicae, nos Paradoxa stoicorum e no De finibus bonorum et malorum (especialmente no livro IV), e em menor medida nos outros tratados. Não por acaso estas obras são até hoje utilizadas como fontes eletivas para a reconstrução de momentos em nada secundários daquela filosofia helenística sobre a qual com tanta freqüência se registra forte cerâmica de fontes primárias. (p. 229)

11. 6. A historiografia filosófica dos primeiros séculos da nossa era

Aproximadamente entre a metade do século I e a metade do século III de nossa era verificamos a existências de grande número de intelectuais muito diferentes entre si, com a presença de não poucas figuras assaz desconhecidas sob o aspectos da biografia e da atividade desenvolvida, afora alguns poucos escritos. Sua produção especifica aparece num período em que eles já têm ás costas uma história complexa e plurissecular. Contudo, muitos dão mostras de certa incapacidade para denominar intelectualmente a profunda especulativa das teorias sobre as quais têm ocasião de falar. Também neste caso, a gama de fontes a que temos acesso é muito diversificada. (p. 230)

(A) A série se inicia com Plutarco de Queronéia, o conhecidíssimo (e fervoroso) polígrafo que viveu aproximadamente entre 50 e 120 d. C. (p. 230)

(B) Ao lado destas obras autênticas, o Corpus Plutarcheum nos transmitiu outros dois escritos de nível bem mais modesto e de interesse puramente documental: trata-se de complicações doxográficas ([Escritos que tratam das doxai, as opiniões (as teses, as teorias)dos filósofos.]) tidas como posteriores em apenas umas poucas décadas aos escritos autênticos, e que se inserem no quadro das muitas epítomes de Teofrasto. Estamos falando das Stromata ([O título Σtᵖωᶸαtᵉɩc (ouΣτωμτα, donde o termo latino Stromata), atestado por Clemente, Pseudo- Plutarco e Orígines, alude a miscelâneas, obras comparáveis a tapetes coloridos (v. L Alfonsi, Sul titulo “Stromati”, “Sileno” 1, 1975. Pp.175-176). E de uma complicação ulterior, conhecida como Epitomé do pseudo-Plutarco – que se acredita propusesse meros excertos dos Placita Philosophorum de Aécio, um obscuro contemporâneo do próprio Plutarco cuja complicação é conhecida apenas por esta via - , além da Historia philosopha que nos foi transmitida como obra de Galeno (sobre este, ver mais adiante), mas que deve ser atribuída a algum outro compilador não identificado. (p. 230 e 231)

(B) Em seguida temos Clemente de Alexandria (aprox. 150-215), com o qual já nos transferimos para a área de influência cristã. A Clemente se deve uma miscelânea mais vasta preservada por inteiro, chamada Stromata, na qual figuram as mais diversas excursões historiográficas. Entre estas, verifica-se uma quantidade surpreendente de citações de autores como Xenófanes, Heréclito e Epicarmo, mais alguns pequenos informativos ocasionalmente dignos de atenção. (p.231)

(D) Aproximadamente a esta mesma época devem remontar ás celebérrimas Vidas dos filósofos (apenas os gregos) de Diógines Laércio, um autor sobre o qual não é possível saber quase nada de preciso. (p. 232)

(E) Uma circunstância digna de nota é a seguinte: Laércio cita dezenas e dezenas de vezes as obras de Favorino de Arles (primeira metade do século II a. C.), um outro infatigável compilador de informações raras. De Favorino ele utiliza, particularmente, as Lembranças (Apomnemoneumata), uma vasta coleção de notícias (não necessariamente meras anedotas) concentradas propriamente sobre os filósofos. (p. 234)

(F) Relevante é também a vasta obra de Galeno de Pérgamo (aprox. 130-200 d. C.), cujos escritos incluem um De Placitis Hippocratis et Platonis.  (p. 234)

(G) Em meados do fim do século II também tem sido datada a obra de Sexto Empírico, um autor que, como fonte de conhecimento da filosofia grega, sai-se bastante bem na comparação com as Physikon doxai de Teofrasto e os amplos escrutínios oferecidos por Cícero e Galeno. (p. 234)

(H) Aproximadamente ao mesmo período remontam os Deipnosofistas ([7² taipnosophistái, “O banquete dos sofistas”.]) de Ateneu, imponente miscelânea inserida numa funcional moldura narrativa e impregnada de citações de autores clássicos, dentre as quais se destacam diversas “fichas” e citações relativas a muitos pré-socráticos. (p. 236)

(I) Passemos agora aos anos 230-240, época á qual remota, verossimilmente, as Vidas dos Sofistas de Filóstrato (mais precisamente, Flávio Filóstrato, de Lemnos). A obra, também em grego, foi conservada por inteiro. (p. 237)

(J) Também ao século III remota a Refutação de todas as heresias, devida a um expoente da patrística grega, Hipólito de Roma. Seu texto inclui, no livro VII, excursos de considerável amplitude e relativa organicidade sobre Empédocles, os pitagóricos e Heráclito. (p.237 e 238)

(K) No âmbito do neoplatonismo, temos de um lado passagens ocasionais em vários autores (sobretudo Plotino) e do outro lado uma série de comentários a Aristóteles e mais raramente a Platão: ver mais abaixo. Ainda vale lembrar que Eunápio de Sardes (segunda metade do século IV d. C.) escreveu as Vidas dos filósofos e sofistas, obra centrada nos próprios filósofos neoplatônicos, e que um papiro da mesma época nos propõe um bom elenco de filósofos gregos iniciando a partir de Tales. Quando passa ao tratamento dos filósofos dos séculos IV-III, o papiro (disponível no volume 1* do já citado Corpus dei papiri filosofici greci e latini) introduz um interessante reagrupamento dos autores por escolas. (p. 238)

                                              (CAPÍTULO 13)

                            MODOS DIVERSOS DE FAZER HISTÓRIA

                                     DA FILOSOFIA (ANTIGA)

O que está em jogo são os padrões que o estudioso determina como ponto de chegada razoável de sua investigação, os quais dificilmente são postos em discussão. (p. 274)

(A) A mais tradicional é sem dúvida a abordagem doxográfica, entendida como uma tentativa de verificar quais teses foram efetivamente sustentadas por um dado autor. (p. 274)

(B) Fale-se em abordagem sistêmica quando o estudioso se lança na tentativa de penetrar o pensamento determinado filósofo nele distinguindo um sistema estruturado e interdependente, em relação ao qual prevalece a exigência de dispor e redispor os elementos de um conjunto que é não apenas complexo e articulado, mas que também tem um elevado percentual de interdependência entre os enunciados, em busca de uma ordem capaz de prestar contas dos componentes individuais, estabelecendo no processo o lugar que cabe a cada um deles.

Um risco típico deste tipo de abordagem é o de não manter a distinção entre sistema filosófico virtual e edifício conceitual empírico. (p. 276)

(C) Estritamente complementar em relação á abordagem sistêmica é a abordagem “processual” da reflexão filosófica, quer dizer, aquele tipo de investigação que se propõe a pôr em foco não tanto o ponto de equilíbrio ou o arranjo de um sistema agora já estabilizado, mas a sua gênese, os estímulos e resistências  que presidiram á sua configuração, os condicionamentos ambientais que podem ter concorrido para configurar os resultados da reflexão, além dos rastros de um percurso que se desenrola no tempo, com reconsiderações e correções de rota talvez devidas ao diálogo com os contemporâneos. (p. 278)

(D) Em seguida temos, pelo menos desde meados do século passado, uma bem estabelecida formulação analítica das investigações em história da filosofia, que parte, sim, da abordagem sistêmica, mas claramente com a intenção de privilegiar a pesquisa de indicadores sobre a sustentabilidade dos percursos argumentativos. (p. 282)

(E) Enfim, temos a abordagem comunicacional, que se propõe a prestar a atenção adequada ao modo pelo qual determinada idéia é concretamente apresentada e abonada, assim, ao papel que podem ter os fatores não propriamente filosóficos na configuração empírica de um ponto de doutrina consignada em determinadas páginas. (p. 283)                      

MULHER E FILOSOFIA POLÍTICA

  “Uma das maiores contribuições das mulheres para a filosofia política é demonstrar que questões de gênero são problemas filosóficos”. Entr...