Paulus, , São Paulo, 2006
Síntese: Paolo Cugini
Digitação: Jaciara Souza Pereira
(CAPÍTULO 2)
O QUE ENTEDEMOS POR “FILOSOFIA ANTIGA” E O QUE TAL FILOSOFIA PODE SIGNIFICAR PARA NÓS HOJE
Mas em que sentido exatamente somos “gregos” sob muitos e significativos pontos de vistas?
Compreenderemos a importância de uma pergunta como esta se prestarmos atenção á seguinte circunstancia: que a identidade cultural dos indivíduos e da coletividade é feita, em grande parte, de traços paulatinamente absorvidos sem nenhuma ideia de sua natureza ou origem, pelo simples fato de que se os “respira”.
Costuma-se dizer, e com razão, que estes traços são compostos, em grande medida, de atalhos e simplificações, de automatismos em que conseqüência dos quais tendemos a racionar de determinado modo (a partir do qual nos descobrimos não apenas “ocidentais”, mas também italianos, ligúrios, genovesses e assim por diante, e notamos as visíveis diferenças de forma mentis). A forma mentis é sem dúvida uma configuração que normalmente é absorvida, recebida e interiorizada de modo inconsciente. Daí o desejo compreensível de buscar as próprias raízes, a necessidade de saber quem somos e porque “somos feitos” assim. Ora, parece que gregas são, justamente, muitas das coordenadas essenciais desta cultura ocidental que, a esta altura, e segundo todas as aparências, venceu a concorrência e se impôs em nível planetário como uma cultura de referência. (p.31 e 32)
Basta, com efeito, uma breve reflexão para constatar que nós, ocidentais, fomos – e somos – “gregos” sob muitos pontos de vista bastante relevantes, e que as grandes linhas do nosso modo médio de pensar, de nos representar a nós mesmos e até de conceber e organizar a nossa vida em sociedade se assemelham num grau impressionante aquelas que foram elaboradas na Grécia até mesmo antes de Platão.
A propósito, limitar-me-ei a lembrar que os gregos - particularmente os gregos da Jônia e depois da Ática, especialmente entre os séculos VII-V a.C. – tiveram a ventura de “apostar” alto
• na razão;
• nas formas geométricas (dos edifícios monumentais assim como da escritura stoichedon ([Isto é, com caracteres alinhados ao modo de um tabuleiro de xadrez. Cf. a fig. 1 do Índice de Ilustrações no do volume). De múltiplas incisões, para não falar de como eles rapidamente chegaram a representar as posições das estrelas e o movimento dos planetas);
• nas technai(1º[O termo costuma ser simplesmente traduzido como “artes”, mas seria apropriado falar de “profissões” e “ofícios” (neste caso seria ainda mais apropriado falar de “competências e especializadas”, ou melhor, de “noções de competência especializada”]). ( basta pensar no altíssimo nível alcançado pelas artes figurativas);
• na ciência (não esqueçamos de que a ideia de um saber público, coletivo e de acumulação progressiva, com especialistas e especializações, e, além de tudo, grande prestigio, é algo já bem estabelecido no fim do século V a.C., estabelecido de uma vez por todas, estabelecido “em nome” da humanidade!);
• no pluralismo, também ideológico (pense-se na época da Sofística e na modesta relevância das formas de controle ideológico das crenças por parte do poder político grego);
• nas instituições civis (recordemos alguns elementos da vida pública ateniense dos séculos V e IV: rodízio anual em muitos cargos públicos, amplo recurso aos tribunais populares, com o recurso conexo a expedientes impecáveis para assegurar que a nomeação dos dikastai aos colégios judicantes individuais 11([No curso do século IV a.C., a crescente demanda de correção neste campo deu lugar á concepção de um apropriado e genialíssimo dispositivo em pedra, denominado Kleroterion (“selecionador”, “instrumento que permite escolher de modo casual”), do qual felizmente salvou-se um exemplar (cf. 2 do Índice de ilustrações), e que Aristóteles descreve em detalhes no cap. 64 de sua Constituição dos Atenienses. Neste caso, significativo não é apenas o fato de que se tenha sabido pensar e criar uma “máquina” de primeira ordem, mas ainda mais que se tenha podido conceber a exigência de confiar a seleção dos dicastas (os juízes populares)a uma máquina.]) fosse rigorosamente casual, para garantir a confidencialidade do voto por eles emitido12([para este fim foram produzidos os psphoi em bronze (literalmente “seixos”, porquanto numa primeira fase usavam-se pedregulhos ou, como alternativa, sementes), dos quais alguns exemplares foram preservados (cf. a fig. 3 do Índice de Ilustrações). Cada dicastas recebia um pequeno cilindro cheio e outro vazio e em seguida os depositava nas urnas apropriadas segurando-os entre o polegar e o indicador.isto bastava, porque as partes não tinham como saber se o dicastas estava se pronunciando contra ou a favor do acusado. No que se refere á par condicio (condição de paridade ou igualdade entre as partes em juízo), basta recordar que a clepsidra (cf. a fig. 4 do Índice de Ilustrações) era utilizada para oferecer a acusador e acusado o mesmo “espaço” de argumentação para as respectivas teses.]) e a própria paridade de condições entre defesa e acusação, pelo menos durante o tempo destinado á defesa das respectivas teses);
• na relativa marginalização do mundo divino (era até mesmo possível rir-se dos deuses; em suma, pode-se dizer que a incidência de prescrição religiosas sobre a vida cotidiana era relativamente baixa). (p. 32, 33 e 34)
Não devemos deixar passar esta oportunidade sem mencionar as primeiras – e por vezes um tanto curiosas – atestações do termo “filosofia”, que são as seguintes:
*A mais antiga aparece no fr. 35 de Heráclito: “são tantas as coisas que o homem philosophos (isto é, amante da sabedoria) tem necessidade de saber”. Por vezes duvidou-se de que Heráclito já pudesse estar fazendo uso de um termo tão característico, mas a desconfiança carece de fundamento sólido. No tempo de Heráclito a passagem da philein ten sophian (“amar a sabedoria”) e philos tes sophias einai (“ser amante da saberia”) a philosophos já havia ocorrido, como atestam outras fontes (tardias) que dão conta de que Pitágoras – apenas um pouco mais antigo que Heráclito – foi o primeiro a chamar-se e considerar-se filósofo;
*Em Heródoto (I30.2) encontramos o rei Creso, que, dirigindo-se a Sólon, declara que este, philosopheon (filosofando,com atitude filosófica), teria viajado para muitos países theories henekem, para ver, para saber, isto é, com interesses eminetemente cognitivos. O episódio é irreal porquanto Sólon morreu muitos anos antes que Creso se tornasse rei da Lídia (território da Ásia Menor próximo ás mais prósperas cidades costeiras da Grécia). Assim, se, com referência a Sólon, o termo é anacrônico, ele não se encontra totalmente fora de lugar em sua utilização por Creso, uma que este ao mesmo esteve em relação direta com Tales. Daí a pergunta: no ambiente de Tales já se falava de philosoplein? Heródoto, por sua vez, escreve em torno de 450-440 a.C., época em o termo seguramente já seria de uso corrente (pois de outro modo ele não lhe viria á mente). Mas em que acepção – ou em quais acepções – ele estaria sendo usado naqueles tempos?
• De alcance limitado é uma passagem de Tucídides. Este, no assim chamado Epitáfio de Péricles (II 40. 1),escreve: “Com efeito, (nós ateniense) philokaloumen, amamos o belo, mas sem exagerar, e philosophomen, mas sem criar na lassidão”. Assim, de acordo com Tucídides, Péricles já fazia uso do termo, ou ao menos o teria usado para dirigir-se ao público num contexto solene e grave. Disto se infere que, ainda segundo o testemunho de Tecídides, por volta de 431, o termo já era suficientemente conhecido para ser utilizado sem risco de incompreensão. E se a expressão “filosofamos”pôde ser escolhida para transmitir a ideia de um modo de viver do qual os ateninses (ou pelo menos uma elite considerável) se orgulhavam, portanto num sentido necessariamente pouco definido, capaz de evocar uma vasta gama de comportamentos, isto quer dizer que o termo já conhecia um largo uso, não servindo somente para indicar um ramo especifico do saber;
• O termo aflora de novo em Górgias, Encômio a Helena,§13. Neste caso o contexto já é mais amplo e definido. Helena argumenta que a persuasão combinada co logos (neste caso logos deveria significar simplesmente “palavra”) é tão potente, que é mister torna-se competente em pelos menos três âmbitos: em primeiro lugar “nos logoi dos meteorólogos” (as teorias dignas de crédito dos especialistas nos fenômenos naturais, especialmente os astronômicos, portanto aquelas provenientes dos intelectuais da Jônia e dos outros que posteriormente desenvolveram este tipo de saber), em segundo lugar naquelas “competições < verbais, que se tornam> vinculantes em virtude dos logoi”( isto é, as batalhas oratórias nos tribunais e nas assembléias públicas), e, em terceiro lugar, “nas disputas dos discursos dos filósofos”, em outros termos, o fluxo de teorias filosóficas não raro em grande contraste entre si. Górgias alude manifestamente a filósofos profissionais que na época já competiam para corroborar teorias tão irredutivelmente diversas, que não era possível acolher uma sem rejeitar a outra. Gostaríamos de saber quando ele escreveu seu Encômio a Helena (provavelmente nalgum momento posterior a 427 a. C.); em todo caso, a alusão a disputa envolvendo não poucos cultores de um tipo de saber já comumente dominado de “filosofia” é inequívoca, e estima-se que tais discussões se referissem, na época, sobretudo ás teorias de Parmênides, que com efeito foram defendidas vigorosamente por Zenão e Melisso, profundamente repensadas por Empédocles, Anaxágoras e Demócrito, atraíram uma atenção não superficial da parte de diversos outros intelectuais e foram até objeto de uma pungente paródia de autoria do mesmo Górgias, em seu tratado Do que não é (ou Do não-ser);
• Do termo se encontram traços, por fim, em Hipócrates, cujo tratado De Vetere Medicina já estava em circulação no mínimo depois de 450 e antes (provavelmente várias décadas antes) de 390 a.C. Lemos, no início do capítulo 20, que “os médicos e sofistas sustentam que não se pode entender de medicina se não se sabe o que é o homem” e que “o logos (pensamento) deles vai na direção da filosofia (es philosophian, isto é, conduz á filosofia), como no caso de Empédocles e outros que escreveram tratados sobre a natureza(¹³[O texto adota a expressão Peri phusios: formulação arcaica que, no grego “normalizado”, torna-se Peri phuseos (sobre a normalização ortográfica cf. o Glossário]). <precisando> o que é o homem em sua origem, como ele foi gerado e do que é feito”. Esta é uma referência inequívoca ao típico tratado de filosofia, comumente intitulado (como fazemos nós) Peri physeos (“Sobre a Natureza”), e a alguns dos termos recorrentes neste tipo de escritos, e não se tem a impressão de que o autor inove ao tratar estes livros como filosóficos. Daí deduz-se que na época a categoria de filósofos já estava configurada, e que os estudos de cunho naturalístico já vinham sendo percebidos como filosóficos, a despeito da especificidade de certas temáticas particulares.
Neste sentido é secundário que, segundo uma fonte tardia, Zenão de Eléia tenha ou não tenha escrito, entre outros, um livro intitulado Contra os Filósofos (Pros tous philosophous). Nos tempos de Zenão (a época de Péricles) o termo já devia ser bem conhecido, e numa acepção bastante próxima áquela que ainda hoje se usa. Por outro lado, é verossímil que ele estivesse em circulação, pelo menos entre uma elite restrita, antes mesmo das guerras persas. (p.37, 38, 39 e 40)
(CAPÍTULO 4)
AS CÓPIAS, AS FALSIFICAÇÕES, OS CORPORA, A FILOLOGIA ALEXANDRINA
Se depois pensamos no período helenístico, época não somente de grandes bibliotecas e de uma cultura policêntrica, mas, também, de uma difusão em larga escala da cultura escrita, não é difícil chegar á conclusão de que, naquele período, a oferta de cópias de um mesmo texto deve ter conhecido uma dilatação decididamente notável.
Indícios convincentes deste procedimento são dados, de um lado, pela multiplicação das falsificações, vale dizer, o nascimento de um autêntico mercado antiquário de textos e subprodutos relativos, e, de outro lado, pelo início da produção de edições “críticas”, isto é, pelo trabalho de intelectuais de alto nível em cima de textos particularmente prestigiosos (como, por exemplo, os poemas homéricos) já no século III a.C., com o objetivo de distinguir entre cópias melhores e piores, assim como entre originais e possíveis atribuições e redações enganosas ou mesmo edições e paráfrases: uma atividade de comparação entre muitos exemplares que conduzia á fixação de um contexto confiável, corrigido. Neste período, passou-se, portanto, da mera execução de transcrições caligráficas á pesquisa de erros, repetições, omissões, soluções improvisadas (cunhas) ou da possível incorporação de notas que em outros exemplares figuravam á margem, fora do texto.
A difusão da escrita e da cultura – e, portanto, a presença de uma variedades de exemplares de um mesmo escrito realizados por copistas mais ou menos competentes e diligentes – comportou, assim, fenômenos tão diversos quanto a constituição de bibliotecas cada vez mais vastas, a presença de cópias também sensivelmente diversas umas das outras, e a própria introdução de não poucas falsificações no mercado livreiro, especialmente quando não apenas Homero, Hesíodo e os poetas mais antigos, mas também uma vasta gama de obras célebres dos séculos V E IV começaram a ser estimadas com base em seu valor autoral, tornando-se clássicas, cobiçadas, um ornamento na casa de um intelectual ou das pessoas abastadas da época.
Deste contexto derivaram três fenômenos diversos: a produção de “falsificações autênticas”, os rudimentos do que conhecemos como filologia e a produção de vastos corpora.
(A) A eclosão de uma vasta produção de falsificações (os assim chamados apócrifos, ou melhor, pseudepígrafos). (p. 50 e 51)
(B) A difusão de cópias, com o previsível acúmulo de erros na passagem de um exemplar a outro, fez surgir também a exigência de preparar edições “críticas” dos textos (especialmente na Alexandria dos Ptolomeus). (p.53)
(C) A difusão dos textos literários deu origem, ainda, á preparação de “cópias completas” das obras de determinados autor (p. ex., Demócrito, Hipócrates, Platão, Xenofonte, Aristóteles, Teofrasto, os oradores áticos etc.) ou – no caso dos poetas trágicos e cômicos – de coleções das obras consideradas mais importantes, selecionadas tanto em função do ensinamento que continham quanto de suas potencialidades de comercialização. Do mesmo modo, a demanda por exemplares em que figurasse tão ordenadamente quanto possível toda a série de obras atribuídas a determinado intelectual de renome ou ao menos uma seleção de seus escritos mais importantes – portanto, um verdadeiro corpus – estava intimamente ligada á afirmação da cultura helenística e áquela sua demanda por modalidades “incrementadas” de acesso ao saber que já foi apontada mais acima.
A demanda por corpora deste tipo marcou de modo particular o período que vai do século I a.C. ao I d. C., e é interessante observar que personagens contemporâneas como Cícero e Tito Lívio já fazem uso do termo corpus para indicar o conjunto das leis romanas (assim fazendo, com toda a verossimilhança, eles aludem a “antecedentes” daquele imponente Corpus iuris civilis que encontrará sua configuração “definitiva” no tempo do imperador Justiniano, portanto no início do século VI, ainda que o nome Corpus iuris civilis somente tenha adquirido essa forma durante o Medievo latino). (p.55)
Permanece o fato de que a tradição (certamente em parte devido a combinações fortuitas de circunstâncias), em relação á qual quase nunca é estranha a afirmação, no curso dos séculos, de uma hierarquia de relevância atinente áquilo que merece ser transmitido e, portanto, recopiado, é ao mesmo tempo herança e imposição, fonte e vínculo: no caso dos trágicos e cômicos do século V, por exemplo, ninguém particularmente decidiu que apenas sete tragédias de Ésquilo e de Sófocles podiam ser lidas por inteiro, que se podia ler muito de Aristófanes e pouquíssimo de Cratino – este estado de coisas foi apenas o resultado de uma práxis dominante nos centros de alta cultura da época alexandrina. Analogamente, nos casos de Platão, Antístenes, Euclides ou Carnéades, não fomos nós que decidimos que se deve investir muitíssimo no estudo das obras do primeiro e infinitamente menos no estudo dos escritos dos outros três filósofos, e se não temos dificuldades em avaliar a escolha em favor de Platão, bem podemos duvidar de que a penalização dos outros três autores seja igualmente justificada: estamos mesmo seguros de que dedicar as energias adequadas também á leitura destas obras seria apenas e simplesmente uma perda de tempo? (p.57 e 58)
(CAPÍTULO 5)
DO PAPIRO AO CÓDICE MEDIEVAL E ÁS PRIMEIRAS EDIÇÕES IMPRESSAS
5.1. Confecção e utilização do rolo de papiro
O recurso ao papiro como suporte material da palavra escrita parece remontar ao terceiro milênio antes de Cristo, tendo sido uma invenção egípcia. Por sua vez, o nome byblos ou biblos, não raro usado entre os gregos como denominação alternativa de пᾀпvροҁ (papyros), assim como também o derivado byblíon, nos fala da cidade fenícia de byblos e de uma época anterior á própria ascensão da civilização helênica.
Na Grécia, o uso de recorrer, como suporte para a escritura, ao papiro importado e confeccionado em forma de rolos, em substituição ás peles de carneiro curtidas ou ás pequenas e bem mais lábeis tabulas de cera (para não falar das inscrições em pedra), como antes se costumava fazer, tornou-se normativo no decorrer do século V a.C. (P.59 e 60)
Entretanto, no que diz respeito aos mais exemplares de papiros gregos efetivamente preservados, nenhum documento remota a uma época anterior a Aristóteles: a segunda metade do século IV, período no qual é datado, entre outros, o papiro de Deverni (sobre o qual se falará mais adiante). (p.60)
O ato de escrever devia requerer um tempo de execução bastante longa, dada a exigência de estar sempre passando o texto a limpo tão precisamente quanto possível. Por isso, era bastante comum a prática do ditado, com o que dificilmente acontecia de serem os autores a escrever seus próprios textos. Mesmo no caso dos contratos e sua lavratura devia ser normal o recurso ao graphéus (em latim, scriba), isto é, ao calígrafo. (p.62)
Vale a pena observar que o mundo medieval continuou a fazer uso do papiro, ainda que um modo não exclusivo (ele foi sendo progressivamente substituído pelo pergaminho). (p. 67)
5.2 A contribuição dos papiros (e da papirologia) para o conhecimento do mundo clássico
O papiro apresentava alguns problemas de conservação, atinentes tanto ao suporte material quanto, sobretudo, aos sinais gráficos, dado que mesmo as tintas utilizadas eram de origem vegetal. Em conseqüência, com o passar do tempo, a umidade era com freqüência capaz de comprometer sua legibilidade, e era possível que os textos se tornassem ilegíveis depois de apenas um século ou um pouco mais. (p.68)
Com respeito aos códices em pergaminho medievais, aos quais devemos a maior parte dos textos ainda legíveis (p. ex., todo Platão, bons 90% de Aristóteles, todo Plotino), os papiros nos permitem ter acesso não apenas a uma notável variedade de outros textos de que os códices não dão noticia – no vasto mostruário de exemplares de obras dos autores mais diversos se destacam, entre outros, a magistral Athenaion politeia (Constituição dos Atenienses) de Aristóteles e uma quantidade de textos epicuristas, grande parte das comédias de Menandro e muitos textos poéticos do antigo Píndrado _, mas também a grande número de unidades textuais que já conhecemos por meio dos próprios códices.) (p.69)
Vale lembrar que muitos textos gregos – particularmente vários textos filosóficos e técnico-científicos – foram parar na Ásia Menor, tendo sido traduzidos para diversas línguas (especialmente em siríaco, persiano e árabe), sendo por esta via redescobertos no Ocidente a partir do século XII (a propósito v. o próximo parágrafo).
Outrossim, o nosso patrimônio de textos gregos deve muitíssimo também ao período em que o Ocidente empreendeu uma memorável iniciativa de pesquisa daquilo que não figurava nas bibliotecas monásticas e episcopais.
O ponto de partida deste movimento foi a retomada da demanda de cultura: um crescendo que começou a manifestar-se no século XI, se consolidou com a criação e o notório estabelecimento das primeiras universidades no século XII e dali continuou quase sem interrupção até os nossos dias. Com afeitos, esta demanda não poderia deixar de configurar-se, num primeiro momento, como uma “fome” renovada de textos antigos.
Dela deriva, para começar a multiplicação dos códices tardo-medievais, o valor agregado constituído pela “moda” dos códices ilustrados que ainda hoje admiramos e o impulso definitivo num processo de conservação doravante não apenas seletiva dos textos gregos e latinos: a demanda era tal, que comportava a reprodução (e o estudo) sistemática de tudo aquilo de que paulatinamente se ia tomando conhecimento, incentivando a inspeção das bibliotecas monásticas e redescobertas de não poucas obras que se acreditava perdidas (costuma-se lembrar a este respeito o entusiasmo com que Petrarca empreendeu e fez empreender pesquisas a muitos de seus correspondentes, encomendou e executou cópias com o intento de remover os erros materiais que encontrava, foi pródigo na elaboração de comentários e ergueu uma imponente biblioteca pessoal que chegou a abrigar um Homero e um Platão, mesmo lamentando ser “surdo” para a “voz” deles, a Vox Graeca).
Um outro efeito, da difusão renovada da leitura foi o melhoramento das soluções gráficas: em primeiro lugar a introdução do espaço entre as palavras (inicialmente por obra monges irlandeses dos séculos VII-VIII), depois dos parágrafos e das letras capitulares (eventualmente desenhadas), a multiplicação de títulos e subtítulos, a introdução de legendas contínuas no alto de cada página e o desenvolvimento da “paginação” (numeração dos quaterniones, habitualmente efetuada por meio das letras do alfabeto).([²º Antes do ano Mil consolidou-se também, em ambiente bizantino, a escrita minúscula grega, “concebida para economizar mais espaços do que tempo, e não obstante acuradíssima no registro obrigatório até dos sinais diacríticos – apóstrofos, espíritos e acentos” (segundo PASCUCCI em Ifondamenti della filologia clássica, Florença, Sansoni, ²1962,p. 65). (84 e 85)
Deu-se também que, na primeira metade do século XII, e precisamente na Silícia subtraída á dominação árabe e na Espanha parcialmente “reconquistada”, os intelectuais de língua latina vieram a tomar conhecimento da existência, em tradução árabe, de muitas obras a eles inacessíveis, criando as condições para empreender sua sistemática retradução para o latim (daí a expressão “traduções árabe-latinas”).
O fenômeno verificou-se antes de tudo na região de Toledo, onde se destaca, entre os tradutores, a figura de Geraldo de Cremona, e logo depois em Palermo. É digno de nota o fato de que as primeiras traduções do árabe efetuadas em Toledo realizaram-se, segundo parece, através de outros filtros lingüísticos (o espanhol e o hebraico), ao passo que em Palermo traduziu-se diretamente do árabe.
O resultado foi não apenas a redescoberta de muitíssimos textos, mas uma espécie de progresso – e inicialmente irrefreável – entusiasmo da comunidade científica, especialmente a parisiense, por Aristóteles (além de toda uma série de comentários árabes), muito mais do que por outros autores. O fenômeno – que, como é sabido, suscitou num primeiro momento uma tenaz resistência da parte da ortodoxia católica ([²³ Houve numerosos pronunciamentos por parte das autoridades eclesiásticas entre 1210 e 1270; recorde-se, entre outras, as disputas em torno do Averroísmo.]) – se explica quando se considera que o velho Aristóteles acabou sendo o portador de um saber a um só tempo acessível aos intelectuais da época e sensivelmente mais avançado, mais articulado, melhor estruturado e mais “sólido”. No contato com o pensamento grego, o standard cultural da época acabou por revelar-se obsoleto, o que não deixou de gerar um incrível desconcerto e impor - literalmente impor – a adoção imediata em larga escala do novo standard e de uma linguagem aristotelizante observável até em intelectuais contrários a esta tendência, como Boaventura de Bagnoregio.
Enquanto isso, como consequência da quarta cruzada (1202-1204) e dos cerca de vinte anos em que Constantinopla tornou-se um Império latino do Oriente, os contatos entre Bizâncio e o mundo latino foram retomados. Este reencontros gerou fortes demanda por originais em língua grega, com o início de uma época em que se multiplicaram as traduções executadas diretamente de exemplares gregos. Neste contexto, merece particular destaque o dominicano Guilherme de Moerbecke, que, trabalhando em estreito contato com Tomás de Aquino, traduziu a quase totalidade do Corpus Aristotelicum (além de uma série de comentários gregos a Aristóteles e outros autores) entre 1240 e 1270.
Foi assim que os centros de cultura superior do ocidente latino voltaram, um após outro, a se apropriar de um patrimônio que permanecera inacessível por uns bons sete ou oito séculos, a ler também o grego e a ativar uma grande demanda de exemplares que correspondem ao grosso dos códices medievais gregos que chegaram até nós, constituindo, portanto, um ponto de chegada para a sucessão das cópias e um ponto de partida além do qual é raro conseguir remontar no que se refere á pesquisa de exemplares antigos (com efeito, os códices anteriores ao ano mil constituem uma tão minguada quanto preciosa minoria). (p.88 e 89)
5. 7. A passagem ás edições impressas
A outra fase decisiva desse longo processo inicia-se, enfim, com o aparecimento das obras impressas. (p.89)
(PARTE III)
A CONTRIBUIÇÃO DA CRÍTICA TEXTUAL E DA FILOLOGIA
6.2. Uma série de operações preliminares: da recensio ao stemma codicum
Estas operações dizem respeito somente ao caso em que a unidade textual especifica encontra-se disponível em mais de um exemplar (mais de um códice, ou mesmo alguns códices e um papiro). Este caso requer, antes de tudo, a recensio, vale dizer, a inventariação dos “testemunhos”, com a pesquisa conexa de indicadores sobre a origem e dotação de cada exemplar, ou seja, a pesquisa do contexto no qual ele tornou forma (e isto também pode, com efeito, ser deveras iluminativo). Para este fim é de grande ajuda: a) a pesquisa poleográfica, isto é, a possibilidade de estabelecer que, dado o tipo de escrita verificado, determinado documento deve remontar áquela época, cultura e sociedade cujas práticas de escrituras correspondem ao “testemunho” examinado, b) a pesquisa diplomática e sobre a “cultura material” do documento, que permite igualmente compreender muitas coisas sobre a época de produção, os critérios de confecção e redação do texto e, eventualmente, sobre o tipo de destinação originalmente previsto para ele.
Por sua vez, a recensio permite proceder a uma outra operação preliminar também de grande importância: a assim chamada eliminatio codicun descriptorum, através de uma primeira forma de collatio, isto é, de confronto entre os exemplares disponíveis (conferir, a propósito, a expressão agostiniana aliquem multorum codicum vetustiorum collatione confutare) ([²C. Faust. 32,16 (“refutar o oponente com base no confronto entre muitos códices antigos”]). Em busca das afinidades e diferenças verificáveis entre um e outro. (p.101)
(CAPÍTULLO 8)
OUTROS TIPOS DE ARMADILHAS DO TEXTO ANTIGO: ENTRE A FILOLOGIA E A HISTORIOGRAFIA FILOSÓFICA
Um grande filólogo italiano, Giorgio Pasquali, viu-se obrigado a escrever que, especialmente quando se lida com papiros avariados, “não se está certo de haver bem lido uma letra se antes não se adivinhou a palavra, e de haver bem lido a palavra se antes não se tem uma ideia geral da frase”. Com efeito, o sentido – ou significado – de um texto é algo a que se chega seja procedendo do exame das partes ao exame do todo, seja procedendo na direção contrária (do universal ao particular), sempre com um máximo de disciplina, porque de outro modo existe sempre o risco de descambar do saber para a ilusão do saber. (p. 137)
O conjunto de referências cronológicas, biográficas e textuais fio recond8uzido ao âmbito de uma hierarquia bem definida de relevância (os filósofos importantíssimos, os importantes, os secundários e aqueles a respeito dos quais talvez seja suficiente meramente saber que existiram), com a qual dir-se-ia estarmos de acordo desde sempre.
Aqui, apenas um pergunta: quem fixou esta hirearquia? Até que ponto estamos protegidos de possíveis erros de perspectivas? (p. 138)
Passemos, para finalizar, a um outro tipo de problemática: os textos doxográficos e apotegmáticos. Por doxografia se entende a resenha das teorias (doxai, opiniões) que foram propagadas por um ou mais intelectuais sobre temas específicos. Por apoftegma (ou gnome, ou chreia: expressões não propriamente equivalentes, mas de significados afins, como resto é explicado no Glossário ao fim do volume) se entende a máxima, a frase pitoresca, a anedota. No caso dos filósofos “desafortunados” (isto é, aqueles a respeito dos quais temos muita informação de segunda mão, mas poucos fragmentos) não é raro que as fontes nos ofereçam, ás vezes em abundância, doxai ou apotegmas e outros tipos de breves excerpta. (p.148 e 149)
(PARTE IV)
OS GRANDES “COMPILADORES” E OS PRINCIPAIS TEXTOS DE “SEGUNDO NÍVEL”
(CAPÍTULO 9)
OS PRINCIPAIS CORPORA
ɩ DE TEXTOS FILOSÓFICOS GREGOS (LATINOS)
Dos corpora (e de suas histórias peculiares) dependem, em suma, elementos importantes daquela tradição filosófica fundamental que hoje chamamos “a filosofia antiga”. Daí a importância de examinar ao menos alguns deles com uma lente de aumento apropriada. (p. 153)
9. 1. O Corpus Democriteum
O mais antigo filósofo a ter tido a honra de um corpus todo dedicado a si foi, ao que parece, Demócrito. Á publicação de um Demócrito Completo parece ter-se dedicado um certo Trasilo de Alexandria, personagem para nós quase desconhecido. (p.153 e 154)
Se Trasilo, por sua vez, foi capaz de preparar o Platão Completo que depois veio a chegar até nós, quer dizer, aquela que logo transformou-se na edição de referência, se ele soube distinguir bastante bem entre as obras autênticas e espúrias de Platão (o que veremos melhor daqui a pouco), deveria poder ser tido como medianamente confiável também ao atribuir certas obras a Demócrito e considerar espúrias outras tantas. (p.154)
9. 2. O Corpus Platonicum
A outra grande façanha de Trasilo, a realização do Corpus Platonicum, teve uma sorte bem diferente, pois, como todos sabem, este Corpus foi preservado por inteiro. (p. 157)
É importante lembrar que, pelo menos no Ocidente Latino, de todo o Corpus Platonicum apenas o Timeu esteve acessível durante todo o período que vai da época de Agostinho (IV-V séculos) até aproximadamente o ano de 1150. Depois, até o fim do século XIV¹, ([¹Com efeito, data do século XII a afortunada tradução de outros dois diálogos do grego para o latim, por obra de Henrico Aristipo. A propósito, conferir A. CARLINI, Studio sulla tradizione ântica e medieval Del Fedone (Roma, Edizioni del’ Ateneo, 1972). Sobre o conjunto da intricada história que levou á constituição e transmissão do Corpus Platonicum do fim do século III a.C. aos nossos dias, cf.Y LAFRANCE, Pour interpréter Platon, II, La ligne, in République VI, 509d-511e; Le texte et son histoire (Montréal, Bellarmin, 1995), pp. 19-254.) a série de diálogos conhecidos incluía o Menon e o Fédon, ao passo que a preservação do conjunto dos diálogos que hoje podemos ler foi levada a cabo em ambiente bizantino.² ([²”No curso do século IX, na época que por vezes tem sido lembrada como o primeiro Renascimento Bizantino, todo o corpus tetralógico antigo das obras de Platão foi transmitido ou recomposto em pelo menos três diferentes iniciativas editorias, cada uma das quais, dada a extensão deste mesmo corpus, foi fisicamente distribuída em dois temos distintos. Posteriormente, os dois temos que compunham cada uma das edições do século IX não mais foram recopiados juntos, dando origem a tradições separadas (...). o primeiro temo de um dos corpora do século IX, documentado, principalmente, mas não unicamente, pelo códice Bodleianus Clarkianus 39 (sigla B), composto em 895 pelo calígrafo João e sob encomenda de Areta, continha as primeiras seis tetralogias dos diálogos, abrangendo até o Ménon”: assim escreve Ernesto BERTI em Osservazioni filologiche Allá versione Del Filebo di Marsilio Ficino, in // Filebo di Platone e La sua fortuna (Atas do congresso de Nápoles, 4-6 de novembro de 1993), editado por p. COSENZA (Nápoles, D’ Auria, 1996), na p. 131 e SS.). também da área lingüística grega que provém o mais antigo manuscrito integralmente preservado, o “Codex Bodleianus-Clarkianus 39” (de 895), onde foram preservadas as primeiras seis tetralogias. Assim, neste caso específico, o aporte dos papiros é relativamente marginal.³ ([³A primeira seção do Corpus dei papiri filosofici greci e latini (obra mencionada no cap. 5), dedicada aos autores “conhecidos”, foi concluída em 2002 e consta de cinco volumes. Os fragmentos dos diálogos platônicos figuram no vol. I. 1***(N-P). (P. 157 e 158)
9. 3. O Corpus Aristotelicum
O ainda mais importante Corpus Aristotelicum é, em comparação, bem menos representativo que o platônico, porque inclui quase somente as assim chamadas Pragmateiai (πραγµαtεīαί) , estudos especializados exclusivamente dedicados a uma exposição a mais completa possível de tema ou disciplina cientifica particular (a ética, a retórica, a física, a astronomia, o movimento dos animais, a modalidade de reprodução das várias espécies etc.) e uma boa dose de outras obras que, se acredita, não podem ser de autoria do Estagiario. (p.163 e 164)
No que diz respeito aos critérios seguidos por Andrônico na constituição do corpus, há motivos para acreditar que ele tenha se dedicado a acentuar a correspondência entre títulos e setores disciplinares, não só valorizando, mas também acentuando uma opção que já era a de Aristóteles. Quer dizer, presume-se que ele tenha em muitos casos “reunidos” escritos de temas afins e introduzido por si mesmo alguns títulos. De outro lado, é seguro que tenha sido ele a definir a disposição dos tratados, principiando, segundo o uso helenístico, pela lógica (talvez também atribuindo aos livros de lógica o titulo abrangente de Organon: “instrumento”, aparato doutrinal propedêutico a todos os outros gêneros de saber) e prosseguindo com os tratados de física e ética.
Uma opção como esta não implicou unicamente uma reorganização dos escritos, acabando também por conferir ao conjunto uma fortíssima impressão de sistematicidade e unidade, a ponto de tornar quase imperceptíveis os indícios – que não obstante persistem - de flexibilidade e mobilidade do edifício doutrinal resultante. O procedimento não deixou de falsear intensamente o modo pelo qual Aristóteles foi depois recebido por dois milênios inteiros, e de fato este tipo de pré-compreensão só pôde ser colocado em dúvida, e não sem encontrar tenazes resistências, no decorrr do século XX.
O fruto mais espetacular do tipo de intervenção devida a Andrônico foi, segundo parece, a constituição da obra que chegou até nós como a Metafísica de Aristóteles: na realidade trata se de uma espécie de “fichário” (ou “pasta”) no qual foi reagrupado (difícil dizer se também ajustado) certo número de breves tratados de temas afins que dificilmente teriam sido dispostos pelo autor na ordem em que ora os encontramos. Ademais, também o termo “metafísica” (tᾀµεtᾀ tᾀφvᵅ ɩќ α) ([ ¹6Transliteração fonética: ta metá ta fusiká (ou fysiká). É possível que tenha sido “inventado” por Andrônico com o propósito de sugerir a ideia de que os temas ali tratados “transcendem” aqueles confrontados em uma outra das obras mais significativas do mestre, a Física ( tᾀφɩќᾀ), isto é, para sugerir a idéia de que eles vêm logicamente “depois”, “além” dos temas tratados na Física, colocando-se, em suma, num outro nível. Na verdade, Aristóteles refere-se a eles em termos de “filosofia primeira” (prote philosophia); não obstante, é possível entender por isso que o “primeira”e o “depois” dependem do ponto de vista: “primeira”se se procede do universal ao particular; “depois” – ou “posterior (á física)” – se, passando a níveis cada vez mais altos de abstração, se ascende primeiro a considerações de espaços, tempo, infinito e outras estruturas que já transcendem a especificidade dos vários tipos de objetos vivos dos quais é feito o nosso mundo e, depois, procedendo para mais além, a categorias ainda mais universais como substâncias, causa primeira, motor imóvel, ser enquanto ser, quer dizer, as próprias “verdades que nas matemáticas são chamadas de exiomas” (conforme se lê em Met. IV 3, 1005ª 19-20), e particularmente o princípio da não-contradição. O termo em si, feliz a ponto de vir a nomear toda uma disciplina, faz sua primeira aparição ocasional num texto de Basílio de Cesaréia (século IV d. C.) e permanece desconhecido dos latinos. Os mais antigos manuscritos do Corpus Aristotelicun nos quais aparece o texto da obra acompanhado do referido título remontam com efeito a épocas muito posteriores (séc. X) (P.167 e 168)
9. 4. O Corpus Theophrasteum
Não é certo que Andrônico de Rhodes possa também ter organizado um Corpus Theophrasteun análogo ao aristotélico, mas o fato é pelo menos verossímil. Com efeito, Diógenes Laércio não se limita a propor o elenco detalhado das obras de Teofrasto, entes identificando, á guisa de prefácio, uma espécie de corpo das obras principais (109 títulos, equivalentes – assim nos diz – a 290 livros), e depois mencionando outras três listas (mais uma boa centena de títulos, quase todos correspondentes a um livro cada um ) e, enfim, precisando: “ao todo são 232.808 linhas de texto” (V42-50). Um cômputo tão exato como este não pode deixar de referir-se a um verdadeiro corpus, conferindo, ademais, uma credibilidade especial ao elenco de obras proposto.
Entretanto, a imponente produção de Teofrasto não foi preservada. A sucessão das cópias nos permite ter pleno acesso tão-somente a uns poucos de seus muitíssimos escritos: particularmente á Historia plantarum (um substancioso tratado de botânica) e aos Caracteres, uma obra que gozou de um prestigio excepcional até o século XIX. De outro escritos existem fragmentos, não raro bastante extensos. (p. 172 e 173)
9.5. O corpus Chrysippeum
Ainda mais catastrófica pode ser dita a situação relativa a um outro personagem de relevo, que não por acaso é relativamente pouco conhecido: Crisipo de Solis, terceiro escolarca da escola estóica, vivo entre 280 e 205 a.C. (p.174)
9.6. O Corpus Plotinianum
Sempre no âmbito da mais pretigiosa tradição filosófica grega destaca-se um corpus ulterior que também continua acessível: o conjunto das obras de Plotino.
A história relativa á constituição do Corpus Plotinianum é simples e linear. Plotino privilegiou a comunicação oral e só começou a colocar por escrito a sustância do seu ensinamento depois dos 50 anos de idade, em tratados cuja estrutura sugere modalidades típicas de comunicação oral (moderadamente esotérica), quer dizer, lições dirigidas a uma freguesia regular de alunos.
Com sua morte, um discípulo fiel, de nome Porfírio, organizou um “Plotino Completo” pouco depois do ano 300 d. C., constituindo um corpus de 54 obras divididas em seis “enéadas” (grupos de nove), prefaciado de uma exaustiva Vita Plotini. O corpus inteiro foi preservado, e nenhum indício permite pensar que algum escrito de Plotino tenha sido deixado de fora da compilação. Em compensação, há motivos para acreditar que Porfírio tenha feito intervenções ocasionais com o objetivo de “extrair” mais de determinados tratados (conseguindo, por exemplo, tirar três tratados “diferentes” de um escrito visivelmente unitário), com o objetivo de atingir o quorum desejado de 54 unidades textuais. De resto, ao distribuir os tratados em seis enéadas ele dá mostras de privilegiar as afinidades temáticas verificáveis entre eles. Porfírio até admite explicitamente o procedimento, tendo ainda o cuidado de indicar, no prefácio, em que ordem os vários tratados foram efetivamente compostos por seu autor. (p. 176)
(CAPÍTULO 10)
ALGUMAS COLETÂNEAS PRIMÁRIAS DE FRAGMENTOS E TESTEMUNHOS
10. 1 Os fragmentos dos filósofos pré-socraticos
(A) Convém iniciar precisando que, sob a qualificação de “pré-socráticos” (eventualmente “pré-platônicos”), ([²³ Quando se fala em “pré-platônicos” faz-se referência sobretudo ao fato de que, na imensa maioria dos casos, a filosofia anterior a Platão foi consignada em textos não conservados por inteiro (com as exceções de Antifonte, Górgias, Hipócrates e dos Dissoi logoi); secundariamente á imponente virada que Platão soube imprimir na filosofia também do ponto de vista das suas premissas de organização (dando vida a uma verdadeira instituição escolar). Não se contra unicamente o filão “naturalista”, mas, a bem dizer, uma gama mais do que abrangente de posições profundamente diversas. O termo foi posto em circulação não por Diels (sobre isso ver mais abaixo), como com freqüência se diz, mas por Zeller nos primeiros dois temos da sua monumental obra A filosofia dos gregos em seu desenvolvimento histórico.([²4 Die Philosophie der Griechen in ihrer geschichtlichen Entwicklung dargestellt, cuja publicação foi iniciada em Tubinagem em 1845, para depois prosseguir em Leipzig e dar lugar a uma longa série de edições frequentemente revistas e ampliadas (a 7.ª em 1921-1923; reimp. Hildesheim, Olms, 1963, 5350 páginas). Em 1932 Rodolfo Mondolfo iniciou a publicação de uma edição italiana ainda mais imponente da obra, em muitos volumes – até 1974 foram publicados, com a contribuição de outros estudiosos italianos, uma dezena deles, o que não obstante corresponde a menos da metade do original -, sistematicamente acompanhados de notas de atualização sobre os desenvolvimentos ulteriores da pesquisa especializada.]) (p. 179 e 180)
Assim, com freqüência nos encontramos na presença de intelectuais multifacetados, que revelam um gosto pronunciado pelo cultivo de um bom número de especializações não necessariamente coordenadas entre si. Por isso, aquilo que nós chamamos de filosofia com freqüência não é senão uma de suas áreas de competência, e muitas vezes ocorre que o filósofo do século V não revela uma consciência suficientemente nítida da especificidade do seu saber filosófico. (p.182)
As nossas fontes de informações são via de regra constituídas por autores – gregos (e bizantinos), árabes ou, mais raramente, siríacos e hebraicos - que inseriram em seus textos informações, paráfrases ou verdadeiras citações de textos que remontam (ou são reconduzíveis) aos séculos VI ou V a.C., não necessariamente acompanhadas do cuidado de indicar o autor e a obra citados, e ás vezes errando na atribuição da paternidade destes excerpta mais ou menos ocasionais. (p. 183)
Perguntemo-nos agora o que “funciona”como texto, atualmente, em matéria de pré-socráticos, quer dizer, que livros devemos procurar para encontrar a documentação de base. (p. 185)
Neste âmbito, o lugar de honra sem dúvida pertence á assim chamada “Diels-Kranz”. Trata-se de uma celebérrima coletânea de fragmentos com a qual é virtualmente inevitável “travar contato”, para, depois, eventualmente ir além. (p. 186)
10. 2. Socratis et Socraticorum Reliquiae
Se os Versokratiker chegam a abranger os escritos produzidos pelos sofistas até o fim do século V a.C., além de Demócrito e alguns dos seus discípulos, uma outra obra muito mais recente faz algo de análogo em relação aos testemunhos sobre Sócrates de um lado, e, de outro, aos testemunhos e fragmentos relativos aos assim chamados “Socráticos menores” (sem levar em conta, portanto, as obras de Platão e Xenofonte, reproduzidas em seus respectivos corpora), além de tudo aquilo que diz respeito aos seguidores de alguns destes (os cínicos, os cirenaicos, os megáricos e os adeptos da assim chamada escola elide-eretreica) ([³7 De fato, também Fédon de Hélide fundou uma pequena escola, á qual, em torno de 310-300 a. C., Menedemo de Erétria imprimiu uma nova marca e ulterior vitalidade.]).
Trata-se da Socratis et Socraticorum Reliquiae, uma vasta coletânea de fontes organizada por G. GIANNANTONI, que foi publicada em 1990, em Nápoles, pela Bibliópolis, sendo imediatamente acolhida como uma obra de referencia imprescindível.
Com efeito, as SSR (assim se convenciona abreviar o título da nova coletânea em 4 volumes) não se limita a preencher uma lacuna de primeira ordem; ale, disso, ela está configurada em notável continuidade em relação a Diels-Kranz, de tal modo que apenas uns poucos personagens menores da primeira metade do século IV a.C. – Os discípulos de Górgias e alguns outros intelectuais da época não pertencentes ao filão socrático-platônico – são deixados de fora seja uma, seja da outra, edição. Assim, a combinação das duas obras dá lugar, em relação ao período indicado, a um conjunto decididamente valioso. (p. 192 e 193
10. 3. Acadêmicos e Peripatéticos
Um outro grande “capítulo” relativo aos fragmentos é aquele concerne aos discílulos diretos de Platão e de Aristóteles.
No caso da primeira geração de “acadêmicos”, a situação deve ser dita, salvo poucas exceções, como semicatastrófica, tendo em vista observar-se em muitos casos uma extraordinária penúria de textos autógrafos e o fato de, por essa razão, terem os estudiosos de contentar-se com as evidências indiretas. (p. 196)
Ainda mais articulado é o quadro relativo á primeira geração de aristotélicos, uma vez que temos acesso a algumas obras inteiras não apenas de Teofrasto, mas também de Aristoxeno de Taranto (foram preservados uma boa parte dos seus Elementos de Harmonia e um trecho substancial dos seus Elementos de rítmica). De resto, não pouco foi preservado também de Eudemo de Rodes, cujos escritos incluíam uma Geometrikè historìa, uma Arithmetikè historìa e uma Astrologikè historìa (através destes textos nos chegaram, além de outras coisas, contribuições de primeira ordem á história da matemática). Também muito prolífico deve ter sido Estradão de Lampsaco, distinguindo-se por cultivar uma notável variedade de temas (cf. o elenco das suas obras em Dióg. Laérc. V 59-60, onde se especifica que seus escritos tinham ao todo 332. 420 linhas de texto: muito mais do que o Corpus Theophrasteum)
De modo geral, nos vemos ás voltas com personalidades decerto um tanto achatadas pelo modelo aristotélico (p. ex., quando tratam de lógica e metafísica), mas, ao mesmo tempo, impregnadas da vocação enciclopédica do mestre, com interesse que não raro extrapolam o campo especifico da filosofia. (p.198)
Epicuro e seguidores. Neste caso, a situação das fontes deve muitíssimo aos papiros de Herculano. Como a vila herculanense em que foram descobertos os papiros hospedou por pelo menos um século (até o ano de 79 d.C., quando tudo foi destruído pela erupção do Vesúvio), um grupo de fervorosos epicuristas orbitando em torno da figura de Filodemo de Gandara, as novidades que vêm de Herculano quase sempre dizem respeito ao mestre (Epicuro) e a uns bons três séculos de vida da escola do “Jardim”, incluindo, assim, também um longo cortejo de personagens menores. Com efeito, de Herculano afloraram muitos escritos, in primis de autoria de Filodemo, mas também um ou outro do próprio Epicuro (entre outros, muitas cartas que se reputa serem autêntica. (p. 199 e 200)
A situação das fontes relativas aos fundadores e primeiros mestres da Stoa já é mais estável, apresentando, não obstante, também as suas limitações. (p. 201)
(CAPÍTULO 11)
AS HISTÓRIAS DA FILOSOFIA
COMPILADAS PELOS ANTIGOS
Como veio se formando esta organização de conjunto, esta hierarquia de relevância que mais tarde vem a dirigir a interpretação? E como foi preservado aquele vasto e indefinido fluxo de informações paralelas que são comumente utilizadas para enquadrar os inúmeros aportes e delinear uma história da filosofia dos gregos e dos latinos? Há talvez motivo para se suspeitar que o peso específico atribuído aos autores individuais tenha acabado por ser proporcional á massa das obras efetivamente conservadas, mais isso por efeito de fatores amiúde casuais? Quem e quando se começou a ordenar todos estes personagens, livros, teorias e disputas de escolas, fazendo enfim emergir o grande Filósofo a quem se deve evitar confundir com a turba de meros epígonos? (p. 210)
Podemos, assim, identificar pelo menos cinco tipos de aportes bem definidos á antiga historiografia filosófica:
__ excursos destinados a distanciar o autor de posições por ele não compartilhadas, com apresentação e o enquadramento sintético de determinadas teorias, a apreciação de algumas das suas qualidades e as razões que justificam seu distanciamento em relação a elas (este é, grosso modo, o modelo aritotéles);
__ estudos monográficos centrados sobre um autor individual, as vezes com uma feição marcadamente biográfica. (p. 211)
__ Obras voltadas á ordenação da grande quantidade de nomes conhecidos, associando um mínimo de informações em torno de cada um dos filósofos mencionados e, nalgons casos. (p. 211)
__ investigações voltadas para o registro e classificação das dòxai (“opiniões”) emitidas pelos vários filósofos a respeito de vasta gama de questões particulares, de modo a realizar ainda algo semelhante a uma vasta planilha ou prospecto, sem nenhuma pressa de entrar no mérito da questão através de juízos de valor pessoais, porém buscando ir pelo menos um pouquinho mais fundo (modelo ciceroniano);
_ complicações de pretensões muito mais modestas, concebidas quase unicamente como coletâneas de notícias variadas a respeito de autores, sem um interesse especial por suas doutrinas e privilegiando, ao contrário, as anedotas e outras informações miúdas ou banais (modelo laerciano).
Estas contribuições, justamente em virtude da sua notável variedade, constituem um autêntico recurso de enquadramento da personalidade cultural dos diversos autores, de suas obras, do contexto em que se deu atividade e do próprio significado do seu pensamento. (p.211 e 212)
11. 4. As Sucessões dos filósofos, de Rodes a Herculano
Depois da morte de Aristóteles, Eudemo deve ter-se estabelecido em sua cidade natal, onde tomou forma uma minúscula, porém efetiva e relativamente longeva ramificação da escola peripatética. Neste contexto, no início do século II a. C. dois obscuros rodésios de extração peripatética, Antístenes e Sosícrates, devem ter inaugurado o uso de redigir compilações intituladas Sucessões dos Filósofos (φɩᶲλοσÓᶲωv ᵟɩαᵟοxαí).([Transcricão fonética: Filoófon diadochái.]). Algo de análogo veio a escrever depois, no século I, um tal Alexandre, talvez de Mileto, que é comumente identificado pela alcunha de “Poliístor”, e também Nícias de Nicéia e Jasão de Nissa, todos personagens ainda bastante desconhecidos.
Destas obras sabe-se quase somente que foram escritas e que conheceram em sua época considerável difusão. Com efeito, afora o caso de Alexandre Poliístor (do qual trata amplamente Laércio em seu estudo sobre Pitágoras, em VIII 24-36), são poucos os fragmentos conservados, e de escassa consistência. Não obstante, há motivos para se acreditar que, á diferença das análises aprofundas propostas por aqueles autênticos cultores da historiografia que foram Teofrasto e Eudemo, os autores de Diadochai ofereciam visões panorâmicas destinadas quase unicamente a delinear uma espécie de árvore genealógica das várias escolas filosóficas e a propor algumas minúsculas notícias informativas associadas a cada um dos personagens identificados, com meros acenos a respeito de suas doutrinas.
A maior preocupação destes autores – e o maior motivo de interesse pela obra deles – foi justamente colocar um pouco de ordem nas notícias relativas a muitas dezenas de intelectuais afiliados ás várias escolas (de modo a estabelecer com um mínimo de precisão quem foi discípulo de quem), mencionar pelo menos alguma coisa a respeito de cada personagem e desse modo torná-lo reconhecível, isto é, afastando o perigo de que se pudesse confundi-lo com os outros. Quando, por exemplo, Diógenes Laércio precisa que existiram outros quatro Sócrates, outros seis Xenofontes, outros dezenove Teodoros (além do Teodoro de Cirene normalmente conhecido como “cirenaico” e mais ainda como “ateu”), outros quatro Platões e assim por diante – tendo em cada caso o cuidado de associar um mínimo de dados a cada um dos homônimos identificados – é verossímil que ele baseie seus dados em pesquisas empreendidas pelos próprios autores de Sucessões. É também possível que Laércio se atenha ao modelo das Sucessões (ás quais declara expressamente estar citando em diversas ocasiões) seja ao propor, no início de sua obra (I 13-19), um breve panorâmica, seja, mais em geral, no que concerne ao uso de apresentar uma miscelânea de notícias e enedotas heterogêneas a respeito da cada filósofo tomado em consideração.
Intui-se, decerto, a importância destes dados (que os estudiosos da Antiguidade Clássica costumava chamar de “prosopográficos” ([A propósito ver o Glossário]). Para orientar-se no mar intenso de notícias, para estabelecer a cronologia e, entre outras coisas, para poupar-se de algumas confusões de identidade indesejáveis. (p. 226 e 227)
Filodemo redigiu uma vasta Syntaxis ton philosophon (“Ordenamento dos filósofos”), da qual salvaram-se amplas seções relativas aos acadêmicos (o chamado Academicorum Index Herculanensis) e estóicos (o chamado Stoicoru, Index Herculanesis), além de seções muito mais breves dedicadas a outras escolas. (p. 228)
11. 5. Cícero
Em filosofia, Cícero foi, como se diz, um eclético. Seja como for, a linha de pensamento que ele alcança traçar passa através de confrontos sistemáticos com a tradição grega, da qual se mostra seja bom conhecedor, seja um divulgador eficaz para os leitores de sua própria língua.
Em quase todas as suas obras filosóficas, Cícero empreende um amplo confronto, sempre crítico, com a tradição anterior. Estudos de certa consciência – e não raro bem argumentados – sobre as teorias de determinados filósofos, especialmente do período pós-aristotélico (estóicos, epicuristas e céticos) figuram, em particular, no De natura deorum, nas Tusculanae disputationes, nas Academicae, nos Paradoxa stoicorum e no De finibus bonorum et malorum (especialmente no livro IV), e em menor medida nos outros tratados. Não por acaso estas obras são até hoje utilizadas como fontes eletivas para a reconstrução de momentos em nada secundários daquela filosofia helenística sobre a qual com tanta freqüência se registra forte cerâmica de fontes primárias. (p. 229)
11. 6. A historiografia filosófica dos primeiros séculos da nossa era
Aproximadamente entre a metade do século I e a metade do século III de nossa era verificamos a existências de grande número de intelectuais muito diferentes entre si, com a presença de não poucas figuras assaz desconhecidas sob o aspectos da biografia e da atividade desenvolvida, afora alguns poucos escritos. Sua produção especifica aparece num período em que eles já têm ás costas uma história complexa e plurissecular. Contudo, muitos dão mostras de certa incapacidade para denominar intelectualmente a profunda especulativa das teorias sobre as quais têm ocasião de falar. Também neste caso, a gama de fontes a que temos acesso é muito diversificada. (p. 230)
(A) A série se inicia com Plutarco de Queronéia, o conhecidíssimo (e fervoroso) polígrafo que viveu aproximadamente entre 50 e 120 d. C. (p. 230)
(B) Ao lado destas obras autênticas, o Corpus Plutarcheum nos transmitiu outros dois escritos de nível bem mais modesto e de interesse puramente documental: trata-se de complicações doxográficas ([Escritos que tratam das doxai, as opiniões (as teses, as teorias)dos filósofos.]) tidas como posteriores em apenas umas poucas décadas aos escritos autênticos, e que se inserem no quadro das muitas epítomes de Teofrasto. Estamos falando das Stromata ([O título Σtᵖωᶸαtᵉɩc (ouΣτωμτα, donde o termo latino Stromata), atestado por Clemente, Pseudo- Plutarco e Orígines, alude a miscelâneas, obras comparáveis a tapetes coloridos (v. L Alfonsi, Sul titulo “Stromati”, “Sileno” 1, 1975. Pp.175-176). E de uma complicação ulterior, conhecida como Epitomé do pseudo-Plutarco – que se acredita propusesse meros excertos dos Placita Philosophorum de Aécio, um obscuro contemporâneo do próprio Plutarco cuja complicação é conhecida apenas por esta via - , além da Historia philosopha que nos foi transmitida como obra de Galeno (sobre este, ver mais adiante), mas que deve ser atribuída a algum outro compilador não identificado. (p. 230 e 231)
(B) Em seguida temos Clemente de Alexandria (aprox. 150-215), com o qual já nos transferimos para a área de influência cristã. A Clemente se deve uma miscelânea mais vasta preservada por inteiro, chamada Stromata, na qual figuram as mais diversas excursões historiográficas. Entre estas, verifica-se uma quantidade surpreendente de citações de autores como Xenófanes, Heréclito e Epicarmo, mais alguns pequenos informativos ocasionalmente dignos de atenção. (p.231)
(D) Aproximadamente a esta mesma época devem remontar ás celebérrimas Vidas dos filósofos (apenas os gregos) de Diógines Laércio, um autor sobre o qual não é possível saber quase nada de preciso. (p. 232)
(E) Uma circunstância digna de nota é a seguinte: Laércio cita dezenas e dezenas de vezes as obras de Favorino de Arles (primeira metade do século II a. C.), um outro infatigável compilador de informações raras. De Favorino ele utiliza, particularmente, as Lembranças (Apomnemoneumata), uma vasta coleção de notícias (não necessariamente meras anedotas) concentradas propriamente sobre os filósofos. (p. 234)
(F) Relevante é também a vasta obra de Galeno de Pérgamo (aprox. 130-200 d. C.), cujos escritos incluem um De Placitis Hippocratis et Platonis. (p. 234)
(G) Em meados do fim do século II também tem sido datada a obra de Sexto Empírico, um autor que, como fonte de conhecimento da filosofia grega, sai-se bastante bem na comparação com as Physikon doxai de Teofrasto e os amplos escrutínios oferecidos por Cícero e Galeno. (p. 234)
(H) Aproximadamente ao mesmo período remontam os Deipnosofistas ([7² taipnosophistái, “O banquete dos sofistas”.]) de Ateneu, imponente miscelânea inserida numa funcional moldura narrativa e impregnada de citações de autores clássicos, dentre as quais se destacam diversas “fichas” e citações relativas a muitos pré-socráticos. (p. 236)
(I) Passemos agora aos anos 230-240, época á qual remota, verossimilmente, as Vidas dos Sofistas de Filóstrato (mais precisamente, Flávio Filóstrato, de Lemnos). A obra, também em grego, foi conservada por inteiro. (p. 237)
(J) Também ao século III remota a Refutação de todas as heresias, devida a um expoente da patrística grega, Hipólito de Roma. Seu texto inclui, no livro VII, excursos de considerável amplitude e relativa organicidade sobre Empédocles, os pitagóricos e Heráclito. (p.237 e 238)
(K) No âmbito do neoplatonismo, temos de um lado passagens ocasionais em vários autores (sobretudo Plotino) e do outro lado uma série de comentários a Aristóteles e mais raramente a Platão: ver mais abaixo. Ainda vale lembrar que Eunápio de Sardes (segunda metade do século IV d. C.) escreveu as Vidas dos filósofos e sofistas, obra centrada nos próprios filósofos neoplatônicos, e que um papiro da mesma época nos propõe um bom elenco de filósofos gregos iniciando a partir de Tales. Quando passa ao tratamento dos filósofos dos séculos IV-III, o papiro (disponível no volume 1* do já citado Corpus dei papiri filosofici greci e latini) introduz um interessante reagrupamento dos autores por escolas. (p. 238)
(CAPÍTULO 13)
MODOS DIVERSOS DE FAZER HISTÓRIA
DA FILOSOFIA (ANTIGA)
O que está em jogo são os padrões que o estudioso determina como ponto de chegada razoável de sua investigação, os quais dificilmente são postos em discussão. (p. 274)
(A) A mais tradicional é sem dúvida a abordagem doxográfica, entendida como uma tentativa de verificar quais teses foram efetivamente sustentadas por um dado autor. (p. 274)
(B) Fale-se em abordagem sistêmica quando o estudioso se lança na tentativa de penetrar o pensamento determinado filósofo nele distinguindo um sistema estruturado e interdependente, em relação ao qual prevalece a exigência de dispor e redispor os elementos de um conjunto que é não apenas complexo e articulado, mas que também tem um elevado percentual de interdependência entre os enunciados, em busca de uma ordem capaz de prestar contas dos componentes individuais, estabelecendo no processo o lugar que cabe a cada um deles.
Um risco típico deste tipo de abordagem é o de não manter a distinção entre sistema filosófico virtual e edifício conceitual empírico. (p. 276)
(C) Estritamente complementar em relação á abordagem sistêmica é a abordagem “processual” da reflexão filosófica, quer dizer, aquele tipo de investigação que se propõe a pôr em foco não tanto o ponto de equilíbrio ou o arranjo de um sistema agora já estabilizado, mas a sua gênese, os estímulos e resistências que presidiram á sua configuração, os condicionamentos ambientais que podem ter concorrido para configurar os resultados da reflexão, além dos rastros de um percurso que se desenrola no tempo, com reconsiderações e correções de rota talvez devidas ao diálogo com os contemporâneos. (p. 278)
(D) Em seguida temos, pelo menos desde meados do século passado, uma bem estabelecida formulação analítica das investigações em história da filosofia, que parte, sim, da abordagem sistêmica, mas claramente com a intenção de privilegiar a pesquisa de indicadores sobre a sustentabilidade dos percursos argumentativos. (p. 282)
(E) Enfim, temos a abordagem comunicacional, que se propõe a prestar a atenção adequada ao modo pelo qual determinada idéia é concretamente apresentada e abonada, assim, ao papel que podem ter os fatores não propriamente filosóficos na configuração empírica de um ponto de doutrina consignada em determinadas páginas. (p. 283)
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