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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

CURSO DE FENOMENOLOGIA E HERMENÊUTICA: EMENTA E OBJETIVOS

 




MEC – Ministério da educação

Ementa: A relação entre a fenomenologia e a Filosofia Moderna; principais movimentos da fenomenologia: Fenomenologia Husserliana, Fenomenologia Existencial, Fenomenologia da Percepção;

CONCEITOS CENTRAIS: a epoché e a redução, intencionalidade, consciência, mundo da Vida, intersubjetividade, temporalidade; Hermenêutica; O processo da compreensão e interpretação; hermenêutica como modo de investigação; Hermenêutica filosófica; Hermenêutica teológica, crítica e exegese; o círculo hermenêutico.

Objetivo Geral:

Apresentar o método e os conceitos centrais da fenomenologia no contexto cultural em que nasceu, analisando também as principais correntes da fenomenologia contemporânea. Mostras a ligação entre fenomenologia e hermenêutica, considerando o desenvolvimento contemporâneo dos estudos de hermenêutica em vários setores da cultura.

Objetivos Específicos:

·         A crise do pensamento metafisico moderno e o nascimento da fenomenologia.

·         A fenomenologia existencial: a escola alemã e a escola francesa. Identidade e diferenças entre as duas escolas

·         A Friedrich Schleiermacher e o nascimento da hermenêutica como teoria geral da compreensão.

·         Desenvolvimento da hermenêutica na filosofia contemporânea: Heidegger, Gadamer e Vattimo.

 

 

Minha proposta dentro as indicações do MEC.

Objetivos principais

  • Compreensão da experiência vivida: Capacitar o aluno a descrever fenômenos da consciência a partir da percepção individual, sem interferências externas ou pressupostos dogmáticos.
  • Domínio do método fenomenológico: Aprender a técnica de "desvelar" o sentido do que se mostra para chegar à essência (eidética) das coisas.
  • Desenvolvimento da capacidade interpretativa: Estudar a hermenêutica como teoria da interpretação, focando na contextualização e no significado de símbolos e da linguagem.
  • Integração entre ser e sentido: Explorar a relação entre o sujeito e o mundo, especialmente através do conceito de Dasein (ser-no-mundo) de Heidegger, onde a compreensão é vista como uma condição humana fundamental. 

Competências e habilidades

  1. Leitura e exegese de autores clássicos: Aprofundar o conhecimento em pensadores como Edmund Husserl (intencionalidade e consciência), Martin Heidegger (ontologia e hermenêutica) e Hans-Georg Gadamer (hermenêutica filosófica).
  2. Aplicação metodológica: Utilizar a fenomenologia e a hermenêutica como base para pesquisas em áreas como educação e religião.
  3. Reflexão sobre a Subjetividade: reconhecer o papel da subjetividade e da intersubjetividade na construção da realidade social e do conhecimento

 

sábado, 31 de janeiro de 2026

CALENDÁRIO E BIBLIOGRAFIA DO CURSO DE FENOMENOLOGIA E HERMENÊUTICA 2026

 



 

 

FEVEREIRO

13: Introdução ao curso. Contesto histórico e cultural na base do surgimento da fenomenologia.

20: Husserl e a sua escola (primeira parte).

27: Husserl e a sua escola (segunda parte).

 

MARÇO

6:   Fenomenologia francesa: Bergson, Péguy 

13: Fenomenologia alemã: realista, existencialista (Scheler, Jaspers). Influência da fenomenologia em algumas correntes contemporânea: historicismo, desconstrucionismo, estruturalismo. 

20: O pensamento fenomenologico de Jean Luc Marion

27: Primeira prova.

 

ABRIL

3: Feriado: Sexta Feira Santa

10: Introdução a hermenêutica. 

17: Segunda Prova

24: Schleiermacher e o desenvolvimento da hermenêutica bíblica 

 

MAIO

1 Feriado

8: Indicações de hermenêutica bíblica. Hermenêutica e historicismo: Dilthey.  

15: Verdade e método de Gadamer

22:  Terceira Prova

29: Hermenêutica e pós-moderno em Heidegger e Vattimo. Análise da hermenêutica filosófica na atualidade: Ricoeur

 

JUNHO

5: Participação de um evento cultural da Faculdade Católica. 

12: Quarta Prova

 

BIBLIOGRAFIA

 

A. FENOMENOLOGIA

1. Obras Fundamentais

Edmund Husserl: Idéias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica – Editora Ideias & Letras, 2006.

Edmund Husserl: A ideia de fenomenologia. Cinco lições. Vozes, 2020.

Martin Heidegger: Ser e Tempo – Editora Vozes, 2006 (Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback).

Maurice Merleau-Ponty: Fenomenologia da Percepção – Editora Martins Fontes, 1994.

Jean-Paul Sartre: O Ser e o Nada – Editora Vozes, 1997.

Charles Pèguy: Note conjointe. Paris, 1910. 

Jean Luc Marion: O visível e o revelado- Loyola: São Paulo, 2010.

 

2. Introduções e Comentários

Jean-François Lyotard: A Fenomenologia – Edições 70, 1999.

Dan Zahavi: Fenomenologia para Iniciantes – Editora Vozes, 2019.

Antonio Balbino Marçal Lima (Org.): Ensaios sobre a fenomenologia: Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty – Editora Editus, 2014.

 Angela Ales Bello: Introdução à Fenomenologia (Ed. EDUSC), que explora a conexão entre Husserl e a psicologia.


3. Aplicações e Interseções

Alfred Schütz: Fenomenologia e Relações Sociais – Editora Zahar, 1979.

Maria Aparecida Viggiani Bicudo: Fenomenologia: confrontos e avanços – Editora Cortez, 2000.

 

B. HERMENÊUTICA

Hans-Georg Gadamer. Verdade e Método: Traços Fundamentais de uma Hermenêutica Filosófica (Wahrheit und Methode), de Editora: Vozes, 2014.

Friedrich Schleiermacher. Hermenêutica: arte e técnica da interpretação. Editora: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.

Emilio Betti. A Teoria Geral da Interpretação, Editora: Publicações têm variado, mas artigos e trechos da obra estão disponíveis em repositórios acadêmicos.

Paul Ricoeur. O Conflito das Interpretações: Ensaios de Hermenêutica, Editora: Summus, 1978.

PALMER, Richard E. Hermenêutica Editora: Edições 70, 1986.

VATTIMO,Gianni. Oltre l'interpretazione, Laterza, Roma-Bari, 1994.



Obras Brasileiras de Referência

DUQUE-ESTRADA, Paulo Cesar. Direito e método: a metodologia jurídica à luz da hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer.), Editora Dialética, 2021

FIGUEIREDO, Virginia de Araújo. A palavra e a mordaça: ensaios de filosofia, psicanálise e literatura.  Editora: Editora UFMG, 2005.

LAWRENCE SCHMIDT, K. Hermenêutica. Vozes, 2012. 

 

quinta-feira, 13 de março de 2025

Desconstrução: a proposta de Jacques Deridda (1930-2004)

 



Síntese: Paolo Cugini


O termo refere-se a abordagens para entender a relação entre texto e significado. Foi originado pelo filósofo Jacques Derrida, que o definiu como um afastamento das ideias do platonismo de formas e essências "verdadeiras" que têm precedência sobre as aparências, ao invés de considerar a função complexa e em constante mudança da linguagem, tornando ideias estáticas e idealistas de é inadequado.  

A desconstrução, em vez disso, enfatiza a mera aparência da linguagem tanto na fala quanto na escrita, ou sugere pelo menos que a essência, como é chamada, deve ser encontrada em sua aparência, enquanto ela mesma é "indecidível" e as experiências cotidianas não podem ser avaliadas empiricamente para encontrar a realidade da linguagem. 

A desconstrução argumenta que a linguagem, especialmente em conceitos idealistas como verdade e justiça, é irredutivelmente complexa, instável e difícil de determinar, tornando as ideias de linguagem fluidas e abrangentes mais adequadas à crítica desconstrutiva. Desde a década de 1980, essas propostas de fluidez da linguagem, em vez de serem idealmente estáticas e discerníveis, inspiraram uma série de estudos nas ciências humanas, incluindo as disciplinas do direito, antropologia, historiografia, linguística, sociolinguística, psicanálise, estudos LGBT e feminismo. A desconstrução também inspirou o desconstrutivismo na arquitetura e continua sendo importante na arte, na música e na crítica literária. 

É um conceito elaborado por Deridda, como uma crítica de pressupostos dos conceitos filosóficos, onde ocorrem muitas dúvidas devido ao grau de dificuldade oferecido pela matéria. 

Visão geral

O livro de 1967 de Jacques Derrida, Of Grammatology (De Gramatologia) , introduziu a maioria das ideias influentes na desconstrução.  Derrida publicou uma série de outras obras diretamente relevantes para o conceito de desconstrução, como Différance, Fala e Fenômenos e Escrita e Diferença. 

Segundo Derrida, e inspirando-se na obra de Ferdinand de Saussure, a linguagem como sistema de signos e palavras só tem sentido pelo contraste entre esses signos.  Como Richard Rorty afirma, "palavras têm significado apenas por causa de efeitos de contraste com outras palavras ... pode - por ser a expressão não mediada de algo não linguístico (por exemplo, uma emoção, uma observação sentida, um objeto físico, uma ideia, uma forma platônica )". Como consequência, o significado nunca está presente, mas é adiado para outros signos. Derrida refere-se a isso - em sua opinião, equivocada - a crença de que há um significado auto-suficiente e não adiado como metafísica da presença. Um conceito, então, deve ser entendido no contexto de seu oposto: por exemplo, a palavra "ser" não tem significado sem contraste com a palavra "nada".

Além disso, Derrida afirma que "numa oposição filosófica clássica não estamos lidando com a coexistência pacífica de um vis-à-vis, mas sim com uma hierarquia violenta. Um dos dois termos governa o outro (axiologicamente, logicamente, etc.), ou tem a vantagem": significado sobre significante; inteligível sobre o sensível; fala sobre escrita; atividade sobre passividade, etc. 

A primeira tarefa da desconstrução é, segundo Derrida, encontrar e derrubar essas oposições dentro do(s) texto(s); mas o objetivo final da desconstrução não é superar todas as oposições, pois se supõe que elas são estruturalmente necessárias para produzir sentido - as oposições simplesmente não podem ser suspensas de uma vez por todas, pois a hierarquia das oposições duais sempre se restabelece (porque é necessário ao significado). A desconstrução, diz Derrida, apenas aponta para a necessidade de uma análise interminável que possa explicitar as decisões e hierarquias intrínsecas a todos os textos.   

Derrida argumenta ainda que não basta expor e desconstruir o modo como as oposições funcionam e então parar por aí em uma posição niilista ou cínica, "impedindo assim qualquer meio de intervir efetivamente no campo".  Para ser efetiva, a desconstrução precisa criar novos termos, não para sintetizar os conceitos em oposição, mas para marcar sua diferença e eterna interação. Isso explica por que Derrida sempre propõe novos termos em sua desconstrução, não como um jogo livre, mas pela necessidade de análise. Derrida chamou esses indecidíveis - isto é, unidades de simulacro - propriedades verbais "falsas" (nominais ou semânticas) que não podem mais ser incluídas na oposição filosófica (binária). Em vez de, "resistindo e organizando-os" — sem jamais constituir um terceiro termo ou deixar espaço para uma solução na forma de uma dialética hegeliana. 

Influências

As teorias de Derrida sobre a desconstrução foram influenciadas pelo trabalho de linguistas como Saussure Ferdinando (cujos escritos sobre semiótica também se tornaram uma pedra angular do estruturalismo em meados do século XX) e teóricos literários como Roland Barthes (cujos trabalhos foram uma investigação da fins lógicos do pensamento estruturalista). As visões de Derrida sobre a desconstrução se opuseram às teorias de estruturalistas como o teórico psicanalítico Jacques Lacan e o antropólogo Claude Lévi-Strauss. No entanto, Derrida resistiu às tentativas de rotular seu trabalho como “pós-estruturalista ”.

Influência de Nietzsche

A motivação de Derrida para desenvolver a crítica desconstrutiva, sugerindo a fluidez da linguagem sobre as formas estáticas, foi em grande parte inspirada na filosofia de Nietzsche, começando com sua interpretação de Orfeu. Em Alvorada, Nietzsche anuncia que "Todas as coisas que vivem por muito tempo são gradualmente tão saturadas de razão que sua origem na desrazão se torna assim improvável. Quase toda história precisa de uma origem não impressiona nossos sentimentos como paradoxal e desenfreadamente ofensiva?  no fundo, contradizem constantemente?". 

O ponto de Nietzsche em A Alvorada é que estando no final da história moderna, os pensadores modernos sabem demais para continuar sendo enganados por uma compreensão ilusória da razão satisfatoriamente completa. Meras propostas de raciocínio, lógica, filosofar e ciência elevados não são mais apenas suficientes como estradas reais para a verdade. Nietzsche desconsidera o platonismo para revisualizar a história do Ocidente como a história autoperpetuante de uma série de movimentos políticos, ou seja, uma manifestação da vontade de poder, que no fundo não têm maior ou menor pretensão à verdade em nenhum sentido numênico (absoluto). Ao chamar nossa atenção para o fato de ter assumido o papel de Orfeu, o homem do subsolo, em oposição dialética a Platão, Nietzsche espera nos sensibilizar para o contexto político e cultural e as influências políticas que impactam a autoria. 

Onde Nietzsche não alcançou a desconstrução, como Derrida a vê, é que ele perdeu a oportunidade de explorar ainda mais a vontade de poder como mais do que uma manifestação da operação socio -politicamente efetiva da escrita que Platão caracterizou, indo além da penúltima reavaliação de Nietzsche de todos os valores ocidentais , ao máximo, que é a ênfase no "papel da escrita na produção do conhecimento".


Desconstrução segundo Derrida

Etimologia

O uso original de Derrida da palavra "desconstrução" foi uma tradução de Destruktion , um conceito da obra de Martin Heidegger que Derrida procurou aplicar à leitura textual. O termo de Heidegger referia-se a um processo de exploração das categorias e conceitos que a tradição impôs a uma palavra e a história por detrás deles. 

Preocupações filosóficas básicas

As preocupações de Derrida fluem de uma consideração de várias questões: 

1. Um desejo de contribuir para a reavaliação de todos os valores ocidentais, uma reavaliação construída sobre a crítica kantiana da razão pura do século XVIII , e transportada para o século XIX, em suas implicações mais radicais, por Kierkegaard e Nietzsche .

2. Uma afirmação de que os textos sobrevivem a seus autores e se tornam parte de um conjunto de hábitos culturais iguais, senão superando, a importância da intenção autoral.

3. Uma reavaliação de certas dialéticas clássicas ocidentais: poesia versus filosofia, razão versus revelação, estrutura versus criatividade, episteme versus techne etc. 

Para tanto, Derrida segue uma longa linhagem de filósofos modernos, que olham para trás, para Platão e sua influência na tradição metafísica ocidental.   Como Nietzsche, Derrida suspeita de Platão de dissimulação a serviço de um projeto político, ou seja, a educação, por meio de reflexões críticas, de uma classe de cidadãos mais estrategicamente posicionados para influenciar a polis. No entanto, como Nietzsche, Derrida não está satisfeito apenas com tal interpretação política de Platão, por causa do dilema particular em que os humanos modernos se encontram. Suas reflexões platônicas são inseparavelmente parte de sua crítica da modernidade, daí a tentativa de ser algo além do moderno, por causa desse sentido nietzschiano de que o moderno se perdeu e se atolou no niilismo. 

Différance

Différance é a observação de que os significados das palavras vêm de sua sincronia com outras palavras dentro da língua e sua diacronia entre as definições contemporâneas e históricas de uma palavra. Compreender a linguagem, segundo Derrida, requer uma compreensão de ambos os pontos de vista da análise linguística. O foco na diacronia levou a acusações contra Derrida de se envolver na falácia etimológica. 

Há uma declaração de Derrida – em um ensaio sobre Rousseau em Da Gramatologia – que tem sido de grande interesse para seus oponentes.  É a afirmação de que "não há texto externo" (il n'y a pas de hors-texte),  que muitas vezes é mal traduzida como "não há nada fora do texto". O erro de tradução é frequentemente usado para sugerir que Derrida acredita que nada existe além de palavras. Michel Foucault, por exemplo, atribuiu erroneamente a Derrida a frase muito diferente "Il n'y a rien en dehors du texte" para esse propósito. De acordo com Derrida, sua afirmação simplesmente se refere à inevitabilidade do contexto que está no cerne da différance. 

Por exemplo, a palavra "casa" deriva seu significado mais em função de como ela difere de "galpão", "mansão", "hotel", "edifício", etc. (Forma de Conteúdo, que Louis Hjelmslev distinguiu de Forma de Expressão) do que como a palavra "casa" pode estar ligada a uma certa imagem de uma casa tradicional (ou seja, a relação entre significado e significante), sendo cada termo estabelecido em determinação recíproca com os demais termos do que por uma descrição ou definição ostensiva: quando podemos falar de uma “casa” ou de uma “mansão” ou de um “galpão”? O mesmo pode ser dito sobre os verbos, em todas as línguas do mundo: quando devemos parar de dizer "andar" e começar a dizer "correr"? O mesmo acontece, é claro, com os adjetivos: quando devemos parar de dizer "amarelo" e começar a dizer "laranja", ou trocar "passado" por "presente"? Não apenas as diferenças topológicas entre as palavras são relevantes aqui, mas as diferenças entre o que é significado também são cobertas pela différance. 

Assim, o significado completo é sempre "diferencial" e adiado na linguagem; nunca há um momento em que o significado seja completo e total. Um exemplo simples consistiria em procurar uma determinada palavra em um dicionário e, em seguida, procurar as palavras encontradas na definição dessa palavra, etc., também comparando com dicionários mais antigos. Tal processo nunca terminaria. 

Metafísica da presença

Derrida descreve a tarefa da desconstrução como a identificação da metafísica da presença, ou logocentrismo na filosofia ocidental. A metafísica da presença é o desejo de acesso imediato ao significado, o privilégio da presença sobre a ausência. Isso significa que há um viés assumido em certas oposições binárias onde um lado é colocado em uma posição sobre o outro, como o bem sobre o mal, a fala sobre a palavra escrita, o masculino sobre o feminino. Derrida escreve,

Sem dúvida, Aristóteles pensa o tempo a partir da ousia como parousia a partir do agora, do ponto, etc. E ainda assim se poderia organizar toda uma leitura que repetiria no texto de Aristóteles tanto essa limitação quanto seu oposto. 

Para Derrida, o viés central do logocentrismo era o agora ser colocado como mais importante do que o futuro ou o passado. Esse argumento baseia-se em grande parte no trabalho anterior de Heidegger, que, em Ser e Tempo, afirmou que a atitude teórica da pura presença é parasita de um envolvimento mais originário com o mundo em conceitos de Heidegger como Griffbereit ("pronto à mão") e Mitsein ("Ser-com") 

Desconstrução e dialética

No procedimento de desconstrução, uma das principais preocupações de Derrida é não cair na dialética de Hegel, onde essas oposições seriam reduzidas a contradições em uma dialética que tem por finalidade resolvê-la em uma síntese.  A presença da dialética hegeliana foi enorme na vida intelectual da França durante a segunda metade do século XX, com a influência de Kojève e Hyppolite, mas também com o impacto da dialética baseada na contradição desenvolvida pelos marxistas, e incluindo o existencialismo de Sartre, etc. Isso explica a preocupação de Derrida em sempre distinguir seu procedimento do de Hegel, já que o hegelianismo acredita que as oposições binárias produziriam uma síntese, enquanto Derrida via as oposições binárias como incapazes de desmoronar em uma síntese livre da contradição original. 

Dificuldade de definição

Existem problemas na definição de desconstrução. Derrida afirmou que todos os seus ensaios eram tentativas de definir o que é desconstrução e que a desconstrução seria complexa e difícil de explicar, uma vez que critica ativamente a própria linguagem, instrumento necessário para explicar a definição de "desconstrução".

Descrições "negativas" de Derrida

Derrida tem sido mais aberto com descrições negativas ( apofáticas ) do que com descrições positivas de desconstrução. Quando questionado por Toshihiko Izutsu sobre algumas considerações preliminares sobre como traduzir "desconstrução" em japonês, a fim de pelo menos evitar o uso de um termo japonês contrário ao significado real de desconstrução, Derrida começou sua resposta dizendo que tal pergunta equivale a "o que é desconstrução? não, ou melhor, não deveria ser".

Derrida afirma que a desconstrução não é uma análise, uma crítica ou um método no sentido tradicional em que a filosofia entende esses termos. Nessas descrições negativas da desconstrução, Derrida procura "multiplicar os indicadores de advertência e deixar de lado todos os conceitos filosóficos tradicionais". Isso não significa que a desconstrução não tenha absolutamente nada em comum com uma análise, uma crítica ou um método, pois enquanto Derrida distancia a desconstrução desses termos, ele reafirma “a necessidade de retornar a eles, pelo menos sob rasuras”. 

A necessidade de Derrida de retornar a um termo sob rasura significa que, embora esses termos sejam problemáticos, devemos usá-los até que possam ser efetivamente reformulados ou substituídos. A relevância da tradição da teologia negativa (teologia apofática) para a preferência de Derrida por descrições negativas da desconstrução é a noção de que uma descrição positiva da desconstrução sobredeterminaria a ideia de desconstrução e fecharia a abertura que Derrida deseja preservar para a desconstrução. Se Derrida definisse positivamente a desconstrução – como, por exemplo, uma crítica – então isso tornaria o conceito de crítica imune à própria desconstrução. Alguma nova filosofia, além da desconstrução, seria, então, necessária para abranger a noção de crítica. 

Não é um método

Derrida afirma que "A desconstrução não é um método, e não pode ser transformado em um".  Isso ocorre porque a desconstrução não é uma operação mecânica. Derrida adverte contra considerar a desconstrução como uma operação mecânica, quando afirma que "é verdade que em certos círculos (universitários ou culturais, especialmente nos Estados Unidos) a 'metáfora' técnica e metodológica que parece necessariamente ligada à própria palavra 'desconstrução ' foi capaz de seduzir ou desencaminhar".   O comentarista Richard Beardsworth explica que:

Derrida tem o cuidado de evitar esse termo [método] porque carrega conotações de uma forma processual de julgamento. Um pensador com um método já decidiu como proceder, é incapaz de se entregar à questão do pensamento em mãos, é um funcionário dos critérios que estruturam seus gestos conceituais. Para Derrida [...] isso é a própria irresponsabilidade. Assim, falar de um método em relação à desconstrução, especialmente em suas implicações ético-políticas, pareceria ir diretamente contra a corrente da aventura filosófica de Derrida. 

Beardsworth explica aqui que seria irresponsável empreender uma desconstrução com um conjunto completo de regras que só precisam ser aplicadas como método ao objeto da desconstrução, pois esse entendimento reduziria a desconstrução a uma tese do leitor de que o texto é então feito caber. Seria um ato de leitura irresponsável, pois se torna um procedimento prejudicial que só encontra o que se propõe a encontrar. 

Não é uma crítica

Derrida afirma que a desconstrução não é uma crítica no sentido kantiano.  Isso ocorre porque Kant define o termo crítica como o oposto do dogmatismo. Para Derrida, não é possível escapar da terminologia dogmática da linguagem que usamos para realizar uma crítica pura no sentido kantiano. A linguagem é dogmática porque é inescapavelmente metafísica. Derrida argumenta que a linguagem é inescapavelmente metafísica porque é composta de significantes que se referem apenas ao que os transcende – o significado. Além disso, Derrida pergunta retoricamente "A ideia de conhecimento e de aquisição de conhecimento não é em si metafísica?". Com isso, Derrida quer dizer que todas as alegações de saber algo envolvem necessariamente uma afirmação do tipo metafísico de que algo é o caso em algum lugar. Para Derrida, o conceito de neutralidade é suspeito e o dogmatismo está, portanto, envolvido em tudo até certo ponto. A desconstrução pode desafiar um dogmatismo particular e, portanto, dessedmentar o dogmatismo em geral, mas não pode escapar de todo o dogmatismo de uma só vez. 

Não é uma análise

Derrida afirma que a desconstrução não é uma análise no sentido tradicional.  Isso porque a possibilidade de análise se baseia na possibilidade de desmembrar o texto que está sendo analisado em partes componentes elementares. Derrida argumenta que não há unidades de significado auto-suficientes em um texto, porque palavras ou frases individuais em um texto só podem ser compreendidas adequadamente em termos de como elas se encaixam na estrutura maior do texto e da própria linguagem.

Não é pós-estruturalista

Derrida afirma que seu uso da palavra desconstrução ocorreu primeiro em um contexto em que o " estruturalismo era dominante" e o significado de desconstrução está dentro desse contexto. Derrida afirma que a desconstrução é um "gesto antiestruturalista" porque "[s]estruturas deveriam ser desfeitas, decompostas, desedimentadas". Ao mesmo tempo, a desconstrução é também um "gesto estruturalista" porque se preocupa com a estrutura dos textos. Assim, a desconstrução envolve "uma certa atenção às estruturas"  e tenta "entender como um 'conjunto' foi constituído".  

Como um gesto estruturalista e antiestruturalista, a desconstrução está ligada ao que Derrida chama de " A problemática estrutural para Derrida é a tensão entre gênese, aquilo que está "no modo essencial de criação ou movimento", e estrutura: "sistemas, ou complexos, ou configurações estáticas".  Um exemplo de gênese seriam as idéias sensoriais das quais o conhecimento é então derivado na epistemologia empírica. Um exemplo de estrutura seria uma oposição binária como bem e mal onde o significado de cada elemento é estabelecido, pelo menos em parte, por meio de sua relação com o outro elemento. 

É por essa razão que Derrida distancia seu uso do termo desconstrução do pós-estruturalismo, termo que sugeriria que a filosofia poderia simplesmente ir além do estruturalismo. Derrida afirma que "o motivo da desconstrução foi associado ao pós-estruturalismo, mas que esse termo era "uma palavra desconhecida na França até seu 'retorno' dos Estados Unidos".  Em sua desconstrução de Edmund Husserl, Derrida realmente defende a contaminação das origens puras pelas estruturas da linguagem e da temporalidade. Manfred Frank chegou a se referir ao trabalho de Derrida como "neoestruturalismo", identificando um "desgosto pelos conceitos metafísicos de dominação e sistema".



Livros de Deridda Em português

Gramatologia, 1967 (São Paulo : Perspectiva, 1973)

Estrutura, Signo e Jogo no Discurso das Ciências Humanas, 1972. 

Margens da Filosofia, 1972 (Campinas : Papirus, 1991)

Escritura e a diferença, 1979 (São Paulo : Perspectiva, 1971)

Heidegger e a Questão do Espírito, 1990. São Paulo. Papirus.

Do espírito, 1990 (Campinas : Papirus, 1990)

Paixões, 1993 (Campinas : Papirus, 1995)

Salvo o nome, 1993 (Campinas: Papirus, 1995)

A voz e o fenômeno, 1993 (Rio de Janeiro : Jorge Zahar)

Espectros de Marx, 1993 (Rio de Janeiro : Relume-Dumar, 1994)

A Farmácia de Platão. São Paulo. Iluminuras.

Força de Lei, 1994 (São Paulo: Martins Fontes, 2007)

O Animal que Logo Sou, 2002 São Paulo: Unesp.


quinta-feira, 6 de março de 2025

Tempo e duração em Henri Bergson (1859-1941)

 



«Uma hora não é apenas uma hora, é um vaso cheio de perfumes, sons, projetos, climas.»


Da confusão entre intuição e inteligência, nasceu um mal-entendido sobre a natureza do tempo. A inteligência, que sempre visou fins práticos, concebe o tempo, assim como a ciência, como uma série de instantes interligados e mensuráveis: ela tem uma visão espacializada do tempo, como se em um filme cinematográfico se tentasse apreender a ficção do movimento a partir de cada quadro individual e não de seu fluxo e deslizamento em uma unidade indistinta.

Assim, para o tempo não há instantes isolados, mas sim um fluxo contínuo deles que não pode ser quebrado, pois são vivenciados em sua duração real na consciência de cada pessoa, onde os estados psíquicos não se sucedem, mas coexistem. O tempo da ciência é, portanto, diferente do tempo real que cada um de nós vivência em nossa própria consciência. O exemplo do cubo de açúcar que se dissolve em um copo de água é famoso: a física calculará o tempo que o açúcar levará para se dissolver segundo um procedimento analítico que vai do instante inicial ao final de solvatação e esse tempo assim calculado será definido como simbolicamente igual para todos os tempos que for medido nas mesmas condições: enquanto o tempo experimentado pela minha consciência será muito diferente, pois não levará em conta o tempo espacializado e objetivado da física, mas sim minhas condições psicológicas de intolerância ou calma: esse será o tempo verdadeiro para mim.


Memória

É nessa concepção de tempo que Bergson baseia sua interpretação da memória em sua obra "Matéria e Memória". David Hume já havia abordado esse problema, concebendo a memória como a persistência atenuada da percepção inicial, um pouco como uma mola que continua a vibrar sob a pressão do primeiro impulso. Bergson, no entanto, observa que, de acordo com a ciência médico-psicológica, essa relação entre percepção e memória não é encontrada. Então deve haver uma relação diferente entre percepção e memória. Ele acredita que a percepção é um recorte de uma imagem parcial da realidade percebida que dura o instante da percepção e é então superada por outras percepções, cortes, da realidade. 

A memória, por outro lado, é o acúmulo, a sobreposição de lembranças, duradouras e sempre inteiramente presentes, independentemente da consciência que se tenha, e cuja dimensão temporal não é o instante, como nas percepções, mas a duração real.


A coisa toda pode ser representada como um cone invertido:


a intersecção da ponta com o plano representa o presente;

a ponta do cone é o instante de percepção da realidade;

a base do cone é o passado onde está a memória.

Assim como a base (memória) e a ponta (percepção) do cone formam um todo, assim também a relação entre a percepção da realidade (matéria) e a memória (espírito): a suposta diferenciação entre espírito e matéria torna-se agora um todo.


Evolução criativa

Essa diferenciação contínua no desenvolvimento da vida ao longo de várias linhas evolutivas, por exemplo, ao longo da linha orgânico-inorgânica, explica a evolução das formas vivas. Quando somos crianças, explica Bergson, nosso desenvolvimento futuro é caracterizado por um número impreciso de tendências: pensamos de vez em quando, à medida que crescemos, que seremos bombeiros, jornalistas, exploradores, etc., mas no final apenas um desses caminhos se tornará realidade. A mesma coisa acontece na natureza: no início, muitos caminhos evolutivos se desenrolam, alguns deles são bloqueados, e outros, em vez disso, continuam, e a força, o impulso criativo que estava na linha de desenvolvimento que parou, continua, flui junto e dá força às linhas que continuam a evoluir com um "impulso vital". É como dizer que, dos macacos antropoides, o chimpanzé representa uma linha evolutiva que inicialmente continuou sua evolução, depois parou, enquanto o impulso vital que levou ao Homo sapiens continuou em outra direção.


A metafísica

Enquanto as formas vegetais cessaram, os microrganismos cessaram sua evolução, o homem é o único que continua em seu impulso criativo, não tanto em nível biológico, mas em sua atividade cultural. Ele continua modificando a realidade seguindo aquele impulso criativo que estava na origem de sua evolução e assumindo em si sua força inicial. 


O homem, não um criador do nada, mas um subcriador, pois não dá existência a realidades que antes não existiam, mas cria formas onde expressa realidades antes inexistentes de forma original, transfigurando-as com sua invenção, com a arte, com a ciência, com a mesma filosofia que pode "criar" um novo sentido para a vida do homem, trazendo-lhe felicidade. Toda a civilização humana é o resultado do impulso criativo do homem.


A liberdade

Em sua última obra, As Duas Fontes da Moral e da Religião, Bergson amplia os temas centrais de seu pensamento dando-lhes uma perspectiva ética universal. Assim como na evolução criativa, também nas sociedades humanas acontece que alguns ficam bloqueados e fixados em sociedades fechadas e conservadoras, expressões do egoísmo individual: estas, no entanto, podem ser libertadas e abertas por uma sociedade de homens livres e criativos que se interpenetram. Com emoção criativa darão vida a uma “simpatia” (sun pathos, um sentimento conjunto), a uma unidade indiferenciada de paixões internas, para romper, “como uma carga de cavalaria”, o círculo de ferro daquelas sociedades que querem bloquear o ímpeto vital da civilização humana.


Essas sociedades estão agora sob o olhar de Bergson, que testemunha as perseguições antissemitas nazistas no gueto de Paris e das quais ele, vindo de uma família judia, conseguiu escapar, a convite dos próprios alemães, convertendo-se ao catolicismo. Em vez disso, ele esconderá seu desejo de conversão espiritual, tornado público em seu testamento, e, em solidariedade aos franceses mais perseguidos, fará de sua morte com eles um último ato de liberdade.


«Minhas reflexões me aproximaram cada vez mais do catolicismo, no qual vejo a completude do judaísmo. Eu teria me convertido se não tivesse visto a formidável onda de antissemitismo que está se espalhando pelo mundo há vários anos. Eu queria permanecer entre aqueles que amanhã serão perseguidos. Mas espero que um padre católico queira vir e rezar no meu funeral, se o Cardeal Arcebispo de Paris autorizar. Caso esta autorização não seja concedida, será necessário chamar um rabino, mas sem esconder dele ou de terceiros minha adesão moral ao catolicismo, bem como o desejo por mim manifestado de contar com as orações de um padre católico.


Fonte: Wikipedia 


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

DICIONÁRIO FENOMENOLOGICO

 





REDUÇÃO

Principal ato do método fenomenológico de Husserl, pelo qual sofro uma modificação de meu ser em minha relação com o mundo. 

Três formas de redução:

1. Conversão reflexiva, que é redução psicologia

2. Variação eidética, que é redução á essência

3. Epoché transcendental: é a neutralização da tese do mundo. 


TRANSCENDÊNCIA

Sinônimo fenomenológico de exterioridade. ´transcendente um objeto cujo objetivo intencional vai me permitir constituir em unidade de sentido para mim.


TRANSCENDENTAL

Designa o próprio ego, a subjetividade, bem mais do que as meras condições de possibilidade da experiencia e sua forma aperceptiva primaria (a priori). É igualmente transcendental a atitude do ego que operou a redução e a modificou seu olhar sobre o mundo. 


DOAÇÃO

Processo pelo qual um objeto ou uma vivência advém a minha consciência, que então lhe dá sentido. Enquanto constituição sublinha a atividade de apropriação do objeto pelo sujeito, doação conjuga passividade e atividade: o objeto me é dado nele mesmo.


EIDETICO

Qualifica a intuição e a variação. Eidética: teoria das essências, não abstratas e separadas do sensível, mas dadas elas mesmas de forma intuitiva a partir de uma intuição sensível. Pela variação analiso os traços de um objeto e lhe recolho a essência, eliminando o contingente e retendo o necessário. 


ÉPOCHÉ

O gesto inaugural definitivo e incessante, da suspenção como interrupção do curso dos pensamentos e das atividades. Requisito absoluto e prejudicial da redução. 


EVIDÊNCIA

Nome fenomenológico da verdade, de tipo intuitivo.


INTENCIONALIDADE

Ato e estrutura fundamental da consciência pelo qual essa cessa de ser uma interioridade fechada nela mesma para se abrir aos objetos do mundo visados. Conhecida sobre a expressão técnica de “correlação noético-noemática” a estrutura intencional tem igualmente a virtude de reabsorver a oposição estéril do sujeito e do objeto.




quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

HUSSERL PERANTE A HISTÓRIA DA FILOSOFIA

 






Paolo Cugini

1. O impulso cartesiano

Encontramos na filosofia de H. dois grandes motivos metódicos que remontam a Descartes:

A realização de uma crítica geral de tudo quanto parece se impor a nós de maneira demasiada evidente como os preconceitos;

A ideia de uma reforma de todos os saberes pela descoberta do seu fundamento único no sujeito seguro de si mesmo


a. Da dúvida à epoché

H. prossegue na dúvida metódica realizada por Descartes, mas lhe se dissocia em quatro pontos:

• da negação da suspensão: a epoché coloca entre aspas a verdade atribuída aos sentidos, enquanto D. as rejeitava totalmente.

• Em D. a dúvida é provisória, enquanto em H. é definitiva;

• De uma motivação natural a outra transcendental. Enquanto D. dúvida de tudo enquanto a epoché se atém apenas à minha determinação voluntária;

• Em D. o ego permanece isento de todo questionamento. Com a epoché mesmo o eu encontra-se submetido à suspensão de sua realidade.


b. Do ego cogito ao ego transcendental

I. Uma filosofia voltada para o sujeito. A busca do fundamento não mais fora da realidade, mas a partir do sujeito. D. vê no cogito aquilo que especifica a pessoa: não podemos ser sem pensar. H. inventa uma cientificidade que repousa sobre a subjetividade de um sujeito singular, detentor de uma verdade absoluta situada em sua intuição interna.

II. A radicalização husserliana. O fundamento de H. é o ego transcendental e ele também está submetido a epoché. 


2. A referência ao transcendental kantiano 


a. Pontos de proximidade. 


H. considera a fenomenologia como idealismo transcendental:

• Idealismo: Kant e Husserl definem o conhecimento como atividade de um sujeito dirigida a um objeto ao qual o primeiro confere o seu sentido. Isso quer dizer que conhecer supõe uma capacidade a priori do espírito de encontrar coisas que se tornam para ele objetos conhecidos. 


• Transcendental.  Busca de estruturas primárias apriorísticas da subjetividade.



b. De um transcendental ao outro. 

a) O subjetivismo kantiano. Na perspectiva kantiana o sujeito se torna o centro do processo do conhecimento, a detrimento do objeto. Pelo Contrário H. insiste no fato de que a coisa se dá ela mesma a mim. 


b) Das estruturas apriorísticas do sujeito ao ego como individuo concreto. Em Kant transcendental se opõe a empírico. Na fenomenologia o ego transcendental constitui um objeto que lhe é dado em uma experiencia ela mesma transcendental. Na fenomenologia o ego transcendental corresponde á originalidade da experiencia sensível: o ego transcendental é o individuo concreto. 


3. A ancoragem empirista

a. A ambivalência da relação da fenomenologia com o empirismo

a) Uma crítica radical. O empirismo é o cavalo de batalha contra o qual Husserl constrói sua análise das vivências gerais da consciência. Segundo Husserl não atingimos a generalidade de uma vivência ou de uma categoria pela generalização do fato, mas estabelecendo, desde o começo, uma estrutura apriorística e ideal da experiencia. 


b) A gênese sensível da idealidade. A partir do 1920 H. analisa o processo de surgimento do ideal a partir da experiencia concreta do sujeito. 


b. O empirismo transcendental

a) Não dualidade da consciência e do corpo. A corporeidade vem encarnar uma consciência transcendental cuja dinâmica concreta se encontra restituída: seus gestos corporais, seus hábitos, sua práxis, sua passividade, sua afetividade. Não mais se opõe uma consciência pensante a um corpo receptáculo, mas é a totalidade unitária do corpo e do espírito que simplesmente se dá, em sua qualidade carnal unitária. 


b) Não oposição entre idealidade e realismo: sujeito transcendental e mundo sensível na fenomenologia se ordenam um ao outro na descoberta de seu copertencimento carnal. A correlação do a priori da subjetividade e daquele do mundo encontra sua unidade originaria na carne, entendida como movimento originário da encarnação. 


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

O MUNDO DA VIDA NA ANALISE FENOMENOLOGICA

 




Paolo Cugini

É o mundo no qual nós vivemos. É o mundo em que estamos familiarizados e não colocamos em questão. 

O mundo da vida foi esquecido e reprimido pela ciência. Apesar disso, a ciência está fundada no mundo da vida.

A fenomenologia não é hostil a ciência. Husserl questiona a inclinação científico-natural para o cientismo e para o objetivismo.

Cientismo: somente a ciência define o que pode ser considerado como real e efetivo. A realidade efetiva é idêntica àquilo que se deixa conceber e descrever pelas ciências naturais. 

A classificação entre qualidades primarias e secundarias foi radicalizada de maneira consequente no correr do tempo. Logo se colocou em dúvida tudo aquilo que em geral aparece. A aparição enquanto tal foi vista como subjetiva e a ciência tinha de superar justamente essa aparição, em caráter fenomenal, ela precisava aceder a um lugar por detrás desse caráter, a fim de conhecer lá o modo essencial verdadeiro das coisas. 

O mundo em que vivemos é totalmente diferente do mundo das ciências naturais. Para os cientistas só o mundo descrito pelas ciências naturais é o autêntico mundo, o outro é subjetivo. 

A realidade efetiva matemática não é a verdadeira realidade efetiva, mas ao contrário, ela é o resultado de uma idealização ulterior e cheia de preconceitos. 

Objetivismo: A realidade efetiva subsiste no sentido absoluto independentemente da subjetividade, de toda e qualquer interpretação e da comunidade histórica, que nós respectivamente formamos. 

É importante lembrar que toda objetividade, toda explicação, toda formação conceitual e teórica pressupõe a perspectiva de primeira pessoa como seu fundamento constante. 

É mera ilusão a crença em que a ciência teria a oferecer uma descrição absoluta da realidade efetiva, livre de toda e qualquer perspectiva conceitual e empírica. 

A ciência se enraíza no mundo da vida.

Pela fenomenologia a ciência não é simplesmente uma coletânea de sentenças bem fundamentadas e sistematicamente ligadas. A ciência é exercida pelos homens, ela significa uma determinada relação com o mundo, um determinado posicionamento teórico em relação ao mundo, e esse posicionamento não caiu do céu, ele tem seus pressupostos determinados e sua origem determinada: ela forma uma tradição, uma determinada tradição cultural. 

Mérito da fenomenologia: tornar compreensível a cientificidade mesma, a racionalidade e a práxis científicas por meio de uma análise detalhada das formas de intencionalidade do sujeito que conhece. 


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

AS COISAS MESMAS

 





Paolo Cugini


A fenomenologia gostaria de retornar às coisas mesmas. Nossa investigação deve ser crítica e não dogmática, deve ter aversão a preconceitos metafísicos e científicos. Ela deveria ser determinada pelo que se encontra faticamente diante de nós e não por aquilo que se precisa esperar a partir do nosso ponto de vista teórico. 

Heidegger: rigor científico não pode ser identificado com exatidão matemática. 

É preciso deixar que as coisas mesmas falem. 

Por isso, è preciso reformular a pergunta: O que é X? na pergunta: como X pode ser reduzido à física, à química, à neurofisiologia...? 

Só enquanto um fenômeno pode ser reduzido se alcança com certeza uma posição sobre se ele de fato existe. 

Somente uma explicação reducionista da consciência pode nos comunicar a intelecção factual do tipo da essência e da consciência.


A EPOCHÉ FENOMENOLÓGICA E A REDUÇÃO




 Paolo Cugini


Epoché: 

a. suspender, neutralizar um determinado posicionamento dogmático em relação ao mundo, a fim de dirigir o olhar expressa e diretamente para o fenomenologicamente dado, para os objetos e como exatamente eles aparecem. Só desta maneira o ser do mundo se monstra acessível. 

b. Possibilitar uma investigação do mundo que possa desentranhar seu sentido propriamente dito.

c. Designação para a nossa suspensão do posicionamento metafisico ingênuo e pode ser considerada como a porta de entrada da filosofia.


Redução transcendental: a epoché é condição de possibilidade da redução.

Tanto a epoché quanto a redução podem ser consideradas como momentos de uma reflexão transcendental, que nos liberta do nosso dogmatismo natural e que nos traz a consciência a nossa própria parcela constitutiva. 

O posicionamento fenomenológico nos torna conscientes da dação do objeto. Mas nós mesmo também despontamos como aqueles para os quais os objetos aparecem. Epoché e redução não nos sequestram e nos levam para além do mundo e de deus objetos, mas elas nos permitem precisamente sondá-los de uma maneira nova e surpreendente, em sua aparição ou manifestação para a consciência. 

Heidegger: a existência humana é caracterizada por sua tendencia para o autoconhecimento e para a auto objetivação: nós tendemos a deixar que nossa autocompreensão seja marcada e configurada por nossa compreensão do objeto. 

As mesmas categorias que nós usamos para a descrição e explicação de objetos e eventos intramundanos, nós também empregamos para a compreensão de nós mesmos. 

A fenomenologia pode ser designada como um desafio para a luta feito contra esse auto esquecimento nivelador.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

O SIGNIFICADO DA PERSPECTIVA DA PRIMEIRA PESSOA NA FENOMENOLOGIA

 



Paolo Cugini: Aulas de fenomenologia



Esta atenção da fenomenologia pela primeira pessoa deriva do respeito das condições e possibilidade da experiencia e do conhecimento enquanto tais. 

A primeira pessoa é um pressuposto indispensável para compreender as condições principais do conhecimento, da verdade, do sentido, do significado. 

Compreender a historicidade, a temporalidade da subjetividade era fundamental para entender a investigação exaustiva dos fenômenos. 

Antes de todo fenômeno, todo aparecer de um objeto sempre apresenta um aparecer de algo para alguém. 

Pela compreensão de qualquer tipo de objeto é preciso levar em conta a subjetividade.

A fenomenologia nos torna atentos para o aparecer do objeto e do correlato subjetivo de sua aparição e, com isso, do modo da intencionalidade, que está em obra e deixa aparecer o objeto, tal como respectivamente o caso.

Quando investigamos objetos, nós também nos mostramos a nós mesmos como aqueles, para os quais os objetos aparecem. 

Por isso podemos dizer que o interesse da fenomenologia está voltado para a consciência, precisamente porque ela forma o âmbito no qual o mundo aparece.

Com sua análise do fenômeno a fenomenologia gostaria de pensar além da dicotomia sujeito-objeto, a fim de investigar o nexo entre o mundo e a subjetividade. 

O mundo aparece, e a estrutura da sua aparição é condicionada e possibilitada pelo sujeito que só tem como ser compreendido em sua relação com o mundo. 

O sujeito só tem como ser compreendido em sua relação com o mundo e nós só podemos dar sentido ao mundo na medida em que ele aparece a um sujeito e é compreendido por ele. 

Husserl: a realidade efetiva não é algo meramente subsistente em si, que existiria de maneira completamente independente de todo e qualquer contexto de experiencia, de toda e qualquer rede conceitual. 

A realidade efetiva constitui um nexo de validade e de significado, que necessita da subjetividade, de uma perspectiva empírica e conceitual para se manifestar e desdobrar. 

Husserl: não é possível falar de uma realidade efetiva absoluta.


Antropologia filosófica indígena: descolonização epistêmica e a ontologia do Bem Viver

    Paolo Cugini   A antropologia filosófica indígena é uma chave conceitual para contestar o racismo epistêmico eurocêntrico. Ao contrário ...