J Martins Fontes, , São Paulo, 2003
Síntese Paolo Cugini
I. Os Primeiros Filósofos
Segundo a tradição, filosofia grega teve início em 585 a.C. e chegou ao fim em 520 d.C. Originou - se quando Tales de Mileto, o primeiro filósofo grego, previu um eclipse do Sol. Terminou quando o imperador cristão Justiniano proibiu o ensino da filosofia pagã na Universidade de Atenas. Tal tradição é uma simplificação: os gregos cultivavam pensamentos filosóficos desde antes de 585 a.C., e o édito de Justiniano, qualquer que tenha sido seu propósito, não impôs um fim abrupto á filosofia pagã. Todavia, as datas tradicionais mantêm-se como linhas demarcatórias convenientes e memorizáveis á trajetória da filosofia antiga.
Os mil anos compreendidos nessa trajetória dividem-se em três períodos de extensão distinta. De início, temos os anos verdes, que vão de 585 a.C. até, aproximadamente, 400 a.C., quando uma sucessão de indivíduos inexperientes e geniais estabeleceu o escopo e determinou os problemas da filosofia, começando a desenvolver-lhe a equipagem conceitual e a montar sua estrutura.Seguiu-se, então, o período das escolas - de Platão e Aristóteles,dos epicuristas, dos estóicos e dos céticos -, no qual elaborados sistemas de pensamento foram formulados e submetidos a um infatigável exercício de critica. Esse segundo período chegou ao fim em aproximadamente 100ª, C. O extenso terceiro período foi marcado, sobretudo, pela erudição e pelo sincretismo: os pensadores posteriores estudaram com afinco os escritos de seus predecessores, produziram comentários e interpretações, e procuraram extrair um sistema diferente coerente e unificado de pensamento que incluísse tudo o que havia de melhor nas antigas doutrinas das escolas. (p. 9 e10)
Tales foi, portanto, o primeiro pysicos, o primeiro “estudante da natureza” ou “filósofo natural”. As obras por escrito dos primeiros pensadores frequentemente traziam o título sobre a Natureza (Peri Pbyseos); e, embora tais títulos tenham sido atribuídos não pelos autores, mas por estudiosos posteriores, eram amplamente adequados.Pois, de modo geral, o empenho dos primeiros filósofos era no sentido de revelar toda a verdade “sobre a natureza”: descrever, organizar e explicar o universo e todos os seus componentes.Tal iniciativa envolvia, em uma extremidade da escala, observações detalhadas de numerosos fenômenos naturais – os eclipses e os movimentos dos corpos celestes, o trovão, a chuva, o granizo, o vento e os fenômenos “meteorológicos” em geral, os minerais, as plantas, os animais – sua procriação,crescimento, alimentação e morte – e, por fim, o homem - os aspectos biológicos, psicológicos, sociais, políticos,culturais e intelectuais da vida humana. Poderíamos, justificadamente, classificar tudo isso como “ciência”; deveríamos considerar os pré-socráticos como os primeiros investigadores de questões se tornariam objetos de estudo específicos da astronomia, da física, da química, da zoologia, da botânica, da psicologia etc. Na outra extremidade da escala, a iniciativa pré-socrática envolvia indagações muito mais amplas e obviamente mais “filosóficas”: existiria um início do universo? Em caso afirmativo, como teria sido esse início? Por que ele se move e se desenvolve da maneira que o faz? Qual, em termos mais genéricos, é a natureza e a unidade do universo? E o que podemos esperar conhecer a respeito dele? Nem todos os pré-socráticos fizeram todas essas perguntas e nem todos escreveram em termos tão abrangentes “sobre a natureza”. Todos, porém escreveram inseridos nessa estruturas geral, e todos são igualmente dignos do título honorífico de pbysicos. Se hoje deveríamos denominá-los filósofos ou cientistas, ou ambos, é uma questão totalmente irrelevante. A sucessão dos pbysikoi que compõem os heróis deste livro não esgota o universo dos aventureiros intelectuais da Grécia antiga – na verdade, não foram os únicos pensadores a se debruçar sobre a pysiologia. Os poetas didáticos do período por vezes mergulhavam na filosófica. Os dramaturgos do século V indicam um interesse disseminado por questões filosóficas: o trágico Eurípides demonstra uma aguda percepção da especulação pré-socrática, enquanto o comediógrafo Aristófanes irá parodiar conceitos filosóficos e científicos. Os grandes historiadores, Heródoto e Tucídides, são influenciados pelo pensamento filosófico. Muito dentre os primeiros escritos médicos associados ao nome de Hipócrates são totalmente pré-socráticos em suas preocupações. Na segunda metade do século V, os chamados “sofistas”- homens como Protágoras, Górgias e Hípias -, que professavam ensinar a retórica, a virtude e o êxito prático, estiveram intimamente vinculado á tradição filosófica. Assim, uma historiada pbysiologia pré-socrática não é uma história da origem do pensamento grego em sua totalidade. Não obstante, como percebeu Aristóteles, os pré-socráticos são os mais importantes influentes representantes do período primitivo: foram eles que deram início á filosofia, que preparam o terreno para Platão e para as grandes escolas filosóficas das gerações subseqüentes. A filosofia pré- socrática não passou a existir ex niilo. As relações comerciais e políticas entre Jônia e o Oriente próximo trouxeram em seu bojo vínculos culturais. Nem todos os observadores aprovavam tais ligações.
Os habitantes de Cólofon, segundo Filarco, era originalmente praticantes de um modo de vida austero, porém, travarem laços de amizade e aliança com os lídios,voltaram-se para a luxúria, deixando crescer os cabelos e enfeitando-os com ornamentos de ouro. Xenófanes o mesmo:
Aprendendo imprestáveis delicadezas dos lídios, enquanto livres do odioso despotismo, iam á praça da cidade envergando túnicas purpúreas em número total não inferior a um milhar, arrogantes, exibindo elegantes penteados, encharcados no perfume de ungüentos artificiais. (Ateneu, Deipnosofistas, 526A)
Contudo, efeminação não foi á única contribuição lídia. Existem claros indícios de contato entre a cerâmica e escultura Jônias, por um lado, e a arte lídia, por outro. A linguagem lídia exerceu alguma influência sobre a poesia Jônia. E os estudiosos, tanto os modernos como os antigos, supõem haver existido, igualmente, vínculos entre o pensamento grego primitivo e os interesses intelectuais dos impérios do Oriente.
Avançada astronomia dos babilônicos, por exemplo, certamente deve ser ter-se feito conhecer nas costas da Ásia Menor, estimulando os Jônios a empreenderem seu próprio estudo da astronomia. O conhecimento do eclipse solar por Tales, em 585 a.C., deve ter derivado de conhecimentos de origem babilônia. Outras partes, mais especulativos, do pensamento pré-socrático encontram certos de paralelo em textos orientais. Além disso, havia o contato com o Egito. Até mesmo os gregos julgariam, mais tarde, que sua filosofia devia muito á terra dos faraós. Mas, embora dificilmente se possa negar a existência de alguma fecundação oriental, os paralelos comprovados são surpreendentemente escassos e imprecisos. Mais importante ainda: muitos dos traços mais característicos e significativos do pensamento grego não possui qualquer antecedente conhecido nas culturas orientais.
Os filósofos gregos tiveram também predecessores gregos. Os poetas mais antigos escreveram sobre a natureza e as origens do universo, histórias de como Zeus desposara a Terra e criara o mundo da natureza e produzindo relatos míticos da raça humana. Existem similaridades entre determinados aspectos desses contos primitivos e certas partes dos escritos dos primeiros filósofos. Aristóteles, porém, estabeleceu uma rígida demarcação entre o que as diferenças são bem mais acentuadas e bem mais significativas do que as semelhantes.
Da mesma forma que os primeiros pensadores procuravam descobrir a origem do universo, os estudiosos que viriam mais tarde investigaram as origens dessas primeiras idéias sobre o universo. Seria tolice afirmar que os pré-socráticos deram inicio a algo inteiramente novo e totalmente inédito na história do esforço intelectual humano. Mas é também verdade que a contribuição das melhores pesquisas acadêmicas é notadamente limitada no que se refere á identificação de antecedentes legítimos. Parece razoável concluir que Mileto, nos primórdios do século VI a.C., assistiu ao nascimento da ciência e da filosofia. Tal conclusão não atribui nenhum talento sobrenatural a Tales e seus colegas. Ela meramente supõe terem sido eles homens de gênio.
II. A Primeira Filosofia
Em que consistiu o gênio desses homens? Quais as características que definem a nova disciplina? Três fatores em particular distinguem os pysikoi de seus predecessores. (p. 17)
Em primeiro lugar, e muito simplesmente, os pré-socráticos inventaram a própria idéia de ciência e filosofia. Descobriram aquela maneira especial de olhar para o mundo como algo ordenado e inteligível, cuja história obedecia a um desenvolvimento explicável, sendo suas diferentes partes organizadas em algum sistema compreensível. O mundo não era uma reunião aleatória de partes, tampouco sua história uma série arbitrária de eventos. Menos ainda era uma série de eventos determinados pela vontade – ou capricho – dos deuses. Os pré-socráticos não eram, até onde podemos inferir, ateus: facultaram a participação dos deuses em seu admirável mundo novo, e alguns deles buscaram produzir uma teologia aprimorada, racionalizada, em lugar das divindades antropomórficas do panteão olímpico.Entretanto,retiraram aos deuses alguns dos atributos tradicionais.O trovão foi explicado cientificamente, em termos naturalistas – deixou de ser o ruído produzido por um Zeus ameaçador. Íris era a deusa do arco-íris, mas Xenófanes insistia em que ela, ou o arco-íris, nada mais era na realidade do que uma nuvem multicolorida. Mais importante, os deuses pré-socráticos – a exemplo dos deuses de Aristóteles e mesmo daquele Platão arquiteísta – não interferem com o mundo natural.
O mundo obedece a uma ordem sem ser governado pelo divino. Sua ordem é intrínseca: os princípios internos da natureza são suficientes para explicar-lhe a estrutura e a história. Pois os acontecimentos que forma a história do mundo não são meros eventos brutos, para serem registrados e admirados. São eventos estruturados que se encaixam e se interligam mutuamente. E os padrões de suas interligações fornecem o relato verdadeiramente explicativo do mundo. ( p.18)
As explicações pré-socráticas são marcadas por uma série de características. São elas, conforme, internas: explicam o universo a partir de dentro, em termos das próprias características que o constituem, sem apelar para intervenções arbitrárias oriundas de fora. São sistemáticas: explicam a soma total dos eventos naturais empregando mesmo termos e os mesmos métodos.Assim, os princípios gerais em cujos termos buscam elucidar as origens do mundo são também aplicados ás explicações dadas a terremotos,tempestades de granizo, eclipse, enfermidades ou nascimento monstruosos, Finalmente,as aplicações pré-socráticas são econômicas: empregam poucos termos, exigem poucas operações e assume poucas “incógnitas”. Anaxímenes, por exemplo, imaginou explicar tudo em termos de um único elemento material (o ar) e um par de operações coordenadas (rarefação e condensação). O mundo natural exibe uma extraordinária multiplicidade de fenômenos e eventos. A multiplicidade deve ser reduzida á ordem, e a ordem tornada simples – pois esse é o caminho para a inteligibilidade. Os pré-socráticos experimentaram a forma mais extremada de simplicidade. Se suas tentativas por vezes parecem resíveis quando comparadas ás elaboradas estruturas da ciência moderna, não obstante um mesmo anseio de inspira as incursões antigas e modernas – o anseio de explicar o máximo possível com o mínimo de termos possível. ( p.19)
A formação de conceitos, e o conseqüente desenvolvimento de um vocabulário técnico, é um constante corolário do esforço científico. Permitam-me ilustrar rapidamente a questão mediante quatro exemplos fundamentais. Primeiro, há o conceito do universo ou do próprio mundo. O termo grego é kosmos, de onde se originam os nossos “cosmos” e “cosmologia”. Certamente foi empregado por Heráclito e talvez pelos primeiros filósofos milesios.
É bastante notável que esses pensadores tenham sentido necessidade de uma palavra para designar o universo – tudo, o mundo todo. A conversação usual e os assuntos cotidianos não exigem que falemos sobre tudo ou que formemos o conceito de uma totalidade ou universo de todas as coisas. Muito mais digno de nota, todavia, é a escolha da palavra kosmos para designar o universo. O substantivo kosmos deriva de um verbo cujo significado é “ordenar”, arranjar”, “comandar” – é utilizado por Homero em referência aos generais gregos comandando suas tropas para a batalha.um arranjo dotado de beleza: o termo kosmos, no grego comum significava não apenas ordenação, como também um adorno (daí o termo moderno “cosméticos”),algo que embeleza e é agradável de se contemplar.
Os cosmos é o universo, a totalidade das coisas. Mas é também o universo ordenado e o universo elegante. O conceito do cosmos apresenta um aspecto estético. ( costuma-se dizer que é isso, inclusive, o que o torna caracteristicamente grego.) Mas também, e a nossa maneira mais importante, tem um aspecto essencialmente científico: o cosmos é, necessariamente, ordenado – e portanto deve ser, em principio,explicável.
O segundo termo é pbysis, ou “natureza”. Os pré-socráticos, conforme mencionei, seriam mais tarde considerados pbysikoi, e suas obras receberiam o título geral de Peri Pbyseos. Eles próprios empregavam o termo pbysis: está presente em vários dentre os fragmentos de Heráclito,sendo plausível supor que também tenha sido empregado pelos milésios.
O termo deriva de um verbo cujo significado é “crescer”. A importância do conceito de natureza reside parcialmente no fato de introduzir uma clara distinção entre o mundo natural e o artificial, entre as coisas que se “desenvolvem” e aquelas que foram fabricadas. Mesas, carroças e arados (possivelmente as sociedades, as leis e a justiça) são artefatos: foram fabricadas por projetistas (nestes casos projetistas humanos) e não são naturais. Não possuem natureza, uma vez que não se desenvolvem. Árvores, plantas e serpentes (e talvez também a chuva, as nuvens e montanhas), por outro lado, não foram fabricadas: não são artefatos, mas objetos naturais – crescem, possuem uma natureza. Todavia, a distinção entre o natural e o artificial (em grego, entre pbysis e tecbne) não esgota o significado do conceito de natureza.
Em um determinado sentido, o termo “natureza”designa a soma de objetos e eventos naturais; nesse sentido, discorrer “Sobre a Natureza” significa aborda o mundo natural em sua totalidade – physis e kosmos passam a ser exatamente a mesma coisa. Em outro sentido, porém, e mais importantes, o termo se presta para denotar algo existente em cada objeto natural: no primeiro fragmento de Heráclito, o termo physis designa não o cosmos como todo, mas, antes, um princípio existente em cada parte natural do cosmos.Quando os pré-socráticos investigavam a “natureza”, estavam investigando a “natureza das coisas”.( p. 20, 21 e22)
A natureza é um princípio e origem de desenvolvimento. A nação de princípio e origem coloca-nos diante de um terceiro termo pré-socrático: arché. A palavra, somos informados, foi primeiramente empregada por Anaximandro. É um termo de difícil tradução. Seu verbo cognato tanto pode significar “começar”, “iniciar”, como também “reger”, “dirigir”. Uma arché é, portanto, um único ou origem, também uma regra ou princípio diretor. (Arché, na verdade, é um termo grego usual para designar um cargo ou magistratura.) Os autores que escrevem sobre filosofia antiga freqüentemente empregam a palavra “princípio”ou a expressão “princípio originário”como tradução de arché, prática esta que também adotarei. Trata-se de um termo apropriado, contanto que o eleitor tenha em mente a etimologia da palavra: um princípio é um principium ou um início. (p.22 e 23)
O quarto de meus exemplos ilustrativos é o conceito de logos. O termo logos é tradução ainda mais difícil do que o arché. É cognato do verbo legein, que normalmente significa “enunciar” ou “afirmar”. Assim, um logos é por vezes enunciado ou afirmação. Quando Heráclito inicia seu livro com uma referência a “este logos” provavelmente se refere apenas a “este enunciado” ou “este relato”: meu logos é simplesmente aquilo que pretendo afirmar. O termo, contudo, possui também um significado mais rico. Apresentar um logos ou um relato de algo é explicá-lo, dizer por que é assim; de modo que um logos freqüentemente é uma razão. Quando Platão afirma que um homem inteligente é capaz de apresentar um logos das coisas, quer dizer que um homem inteligente é capaz de descrever coisas, mas sim que é capaz de explicar ou apresentar a razão das coisas. Por conseguinte, por uma transferência inteligível, o termo logos passa a ser empregado para designar a faculdade através da qual apresentamos razões, isto é razão humana. Nesse sentido, o logos podem ser contratado com a percepção, de modo que Parmênides, por exemplo, pode instar seus leitores a que comprovem seu argumento não através dos sentidos, mas através do logos, da razão. (O termo “lógica” deriva, em última análise, desse sentido do termo logos, por via do termo grego ulterior logike.) Não se pode dizer que os pré-socráticos tenham estabelecido um sentido único e claro para o termo logos, ou que tenha criado conceito de razão ou de racionalidade.Contudo, o uso que fizeram do termo constitui o primeiro passo rumo ao estabelecimento de um conceito fundamental para a ciência e a filosofia. (p 23 e 24)
O termo logos conduz-me ao terceiro dos três grandes feitos dos pré-socráticos. Refiro-me á sua ênfase ao uso da razão, á racionalidade e ao raciocínio, á argumentação e á evidência. Os pré-socráticos não eram dogmáticos – o que equivale a dizer que não se contentavam com o mero enunciado. Determinado a explicar, tanto quanto a descrever, o mundo da natureza, eram profundamente cônscios de que as explicações exigiam a apresentação das razões. Isso é evidente mesmo nos mais antigos pensadores pré-socráticos e mesmo quando suas afirmações parecem mais estranhas e menos justificadas. Presume-se que Tales sustenta-se que todas as coisas possuem “almas” ou são dotadas de vida. Não se limitou meramente a enunciar essa insólita doutrina: argumentou em favor dela apelando para o caso do ímã. Eis aqui uma pedra – o que poderia parecer mais desprovido de vida? Todavia, o ímã tem o poder de mover outras coisas: atrai limalhas de ferro, que se deslocam em direção a ele sem a intervenção de nenhum puxão ou empurrão externos. Ora, é um traço perceptível das coisas vivas serem capazes de produzir movimento. (Posteriormente, Aristóteles admitiria como uma das características que definem as coisas dotadas de “almas”, ou vivas, o fato de possuírem tal força motora.) Com base nisso, Tales conclui que o ímã, a despeito das aparências, tem uma alma. O argumento pode não parecer muito convincente: por certo não acreditamos que os ímãs tenham vida e tampouco consideraríamos os poderes de atração de uma pedra como indicio de vida. Todavia, o ponto que me parece relevante não é que os pré-socráticos apresentavam bons argumentos, mas simplesmente que apresentavam argumentos. Nos pensadores da segunda fase pré-socrática, esse amor pela argumentação é mais evidente e mais pronunciado. Neles, co efeito, a argumentação ganha o lugar de único veículo da verdade, enquanto a percepção é tida como fundamentalmente ilusória. Os escritos Parmênides, Melisso e Zenão nada mais são do que argumentos encadeados. (p. 23 e 24)
Qual será, então, o fundamento da afirmativa de que os pré-socráticos foram defensores da razão e da racionalidade? O fundamento é o seguinte: eles apresentavam em favor de suas doutrinas. Não emitiam pronunciamentos ex cathedra. Isso talvez pareça um feito irrelevante. Não é. Ao contrario, é a realização mais relevante e mais digna de louvor dentre as três que relacionei. Os que duvidam do fato deveriam refletir sobre a máxima de George Berkeley, o filósofo irlandês do século XVIII: “Todo homem tem opiniões, mas poucos são os que pensam”. (p. 27)
III. As Fontes Documentais
Reunidas, as obras completas dos pensadores pré-socráticos formariam uma impressionante fileira nas estantes das bibliotecas. De todas essas obras, nenhuma sobreviveu intacta para que pudéssemos lê-la. Algumas perduraram por, pelo menos, um milênio, haja vista que o estudioso Simplício, que trabalhou em Atenas no século sexto d.C.; teve o privilégio de consultar textos de Parmênides, Melisso, Zenão, Anaxágoras, Diógenes de Apolônia e outros. O próprio Simplício, porém, observa ser o livro de Parmênides uma raridade, e não é difícil imaginar que, por essa época, muitas outras obras pré-socráticas estivessem efetivamente desaparecidas. (p. 27 e 28)
Além das referências e relatos posteriores, contamos ainda com alguns fragmentos efetivos das obras originais dos pré-socráticos. O termo “fragmento” talvez sugira um pedacinho de papel, arrancado de um livro pré-socrático e que tenha sobrevivido ou tempo por algum acaso do destino. Tal sugestão é inadequada aqui, onde a palavra “fragmento” é empregada em uma acepção mais abrangentes: refere-se a passagens de escritos dos próprios pré-socráticos – palavras,expressões,frases, parágrafos – que foram preservados como citações nos escritos de autores posteriores. Esses “fragmentos” constituem nosso mais preciso testemunho ás idéias dos pré-socráticos. Sua quantidade e sua extensão variam largamente de um pensador a outro. Por vezes são breves e esparsos. Em alguns casos possuímos suficientes fragmentos para formar uma idéia razoavelmente precisa da obra original. Quanto mais completos os fragmentos, menos precisamos nos apoiar no material doxográfico. Contudo, mesmo nos casos mais favoráveis, as doxografias têm sua importância: oferecem evidências indiretas onde há falta de evidências diretas e constituem uma inestimável contribuição para a interpretação dos próprios fragmentos. (p. 29)
Sinopses
I
A filosofia grega teve início com os três homens de Mileto. Tales foi um ativo homem público e possivelmente também um geômetra. Sua contribuição para a filosofia é incerta: dizem que teria argumentado que os ímãs “possuem alma” (que são dotados de vida) e que tudo está pleno de deuses. Sugeriu que a terra flutuava em um vasto colchão de água – ou que tudo é formado da água, que a água é o “princípio material” ou arcbe de tudo. Se chegou a aprofundar sua investigação “sobre a natureza” é algo que desconhecemos.
ANAXIMANDRO foi certamente um physios consumado, e com certeza falou a respeito do princípio ou arché de todas as coisas naturais. Contudo, não identificou esse princípio básico com nenhuma espécie familiar de matéria: a arché era descrita simplesmente como o “infinito” - infinito em extensão e também indefinido em características. Desse infinito os elementos do mundo – terra, ar, água etc. – eram gerados mediante um processo no qual as nações gêmeas de quente e frio desempenhavam certo papel. Os elementos gerados transgridem os limites uns dos outros e devem, no curso do tempo, reparar a “injustiça” que praticaram. (podemos pensar nas transgressões alternantes do verão e inverno, do quente e seco e frio e úmido.) O mundo, portanto, é governado por uma lei. Anaximandro produziu também um detalhado registro de fenômenos naturais. As duas particularidades mais notáveis de seu estudo residem na biologia (onde especulou acerca das origens da humanidade) e na astronomia (onde desenvolveu uma engenhosa descrição do sistema celeste sugeriu que a terra se mantém fixa no lugar, desprovida de sustentação, no meio do universo por ser eqüidistante de cada parte do céu que a circunda).
ANAXÍMENES é um pálido reflexo de Anaximandro. Também produziu um detalhado estudo da natureza, no qual se aventurou a corrigir Anaximandro em determinados pontos; também propôs uma cosmogonia. Sua arcbe era infinita, tal como a de Anaximandro, mas não indeterminada: tratava-sedo ar infinito. Anaxímenes sustentava que um par de operações – rarefação e condensação – eram suficientes para o genes de todas as coisas conhecidas do mundo a partir do ar primordial e subjacente. Uma tradição diferente foi inaugurada por PITÁGORAS, cuja reputação relacionava-se com sua vasta erudição. Não parece, contudo, ter-se ocupado particularmente da natureza. Seu interesse residia na alma: sustentava que a alma é imortal e que passa por uma seqüência de encarnações em diferentes espécies de criaturas (o que mais tarde veio a ser conhecido como a teoria da “metempsicose”). Além disso, esse processo – bem como toda a história do mundo – é infinito e imutável, com as mesmas coisas se repetindo em ciclos de eterna recorrência. A teoria da metempsicose sugeria que todas as criaturas são fundamentalmente a mesma em espécie, porquanto são hospedeiras das mesmas almas: Pitágoras provavelmente fez disso o fundamento de determinadas recomendações dietéticas.Pitágoras foi também uma figura política de certa importância; seus discípulos seguiam um “modo de vida pitagórico” e formavam uma espécie de sociedade secreta. O que quer que tenha feito além disso nos é desconhecido. Os estudiosos atualmente se mostram céticos, de modo geral, com respeito á antiga tradição que associa o filósofo a diversas descobertas matemáticas e musicais. ALCMEÃO estava vinculado ao circulo pitagórico. Sustentava ser a alma imortal e apresentou uma nova argumentação em favor dessa crença. Era médico e nutria interesse pela natureza, especialmente pela natureza humana – especulou, por exemplo, acerca da estrutura e do funcionamento dos órgãos dos sentidos. Parece ter advogado que todas as coisas – ou ao menos todas as coisas no âmbito da vida humana – devem ser explicadas em termos de pares de opostos: quente e frio, claro e escuro, úmido e seco etc.
O poeta XENÓFANES tinha algum conhecimento sobre Pitágoras e seus demais predecessores pré-socráticos. De sua parte, dedicou-se a algumas inquirições com respeito á natureza, ainda que não tenha especulado “sobre a Natureza” com a abrangência que caracterizou os milésios. É possível que tenha sustentado ser a terra a arché material das coisas. Todavia, suas idéias mais originais estão relacionadas a outras questões. Refletindo sobre as pretensões da nova ciência dos physikoi, foi levado a ponderar acerca dos possíveis limites do conhecimento humano. A tradição ulterior afirmar ter sido ele um cético, e um determinado fragmento dá mostras, efetivamente, de defender uma posição altamente cética; outros textos, no entanto, sugerem ter sido Xenófanes um gradualista:o conhecimento é sem dúvida difícil de ser alcançado, mas não é algo inacessível a todo e qualquer esforço.
A segunda afirmação de originalidade em Xenófanes jaz no campo da teologia natural. Criticou os deuses imorais de Homero e dos poetas; mais genericamente, considerou as crenças religiosas tradicionais infundadas e tolas. Em lugar dessa insensatez, propôs uma teologia racional. As tradições posteriores atribuem a ele um sistema altamente articulado:a tradição pode exagerar, mas os fragmentos atestam que Xenófanes acreditava em um deus único, um deus moral e imóvel, todo-sapiente e todo-poderoso. Tampouco se tratava de um deus antropomórfico: era, antes, uma força abstrata e impessoal; não um deus do panteão olímpico, mas um deus aclimatado ao novo mundo dos filósofos Jônios.
A principal figura da primeira fase da filosofia pré-socrática é HERÁCLITO. Sob determinados aspectos, é pensador desconcertantes, cujos escritos granjearam-lhe desde cedo uma reputação de obscuridade. Nem toda obra dele era inovadora ou enigmática. Heráclito manteve-se na tradição Jônica, fazendo do fogo a arché do universo e apresentando um estudo da natureza e do mundo natural. Tal estudo incluía uma astronomia e fazia extenso uso de “exalações”, mas seguia o modelo milésio – a exemplo Anaximandro, Heráclito enfatizava que o universo da natureza era governado por leis. Tinha também o que se poderia denominar, um lado pitagórico: os fragmentos deixam transparecer um interesse pela alma e pela psicologia humana, e alguns deles sugerem a existência da alma após a morte. Apresentou alguns conceitos morais e políticos que talvez guardem relação com isso. Heráclito ainda, a exemplo de Xenófanes, criticou as práticas religiosas legadas pela tradição e propôs ao mundo um deus novo e mais cientifico, ora identificado com fogo cósmico. É, novamente a exemplo de Xenófanes, refletiu sobre a possibilidade do conhecimento: considerava que o conhecimento referente á natureza das coisas não era de fácil aquisição, que a maioria de seus contemporâneos era ignorante e tola, que a maioria de seus predecessores havia sido arrogante e mal-orientado. Acreditava, porém, que ele sim havia alcançado a verdade e presumia que o livro da natureza poderia ser lido pelos homens, contanto que estes fizessem um uso adequado de seus sentidos e seu entendimento.
A novidade de Heráclito reside naquilo que podemos denominar suas doutrinas metafísicas. Aqui, três características merecem destaque. Antes de mais nada, ele rechaçou a cosmologia: os milésios haviam produzido narrativas sobre as origens do mundo; Heráclito sustentava que o mundo sempre existira o que não havia origem cosmogônica alguma a ser narrada. Em segundo lugar (sua mais célebre noção), afirmava que “tudo flui”: o mundo e seus componentes se encontram em um estado de incessante fluir. Mais que isso, as coisas dependem desse fluxo para sua continuidade e identidade, pois se o rio deixar de fluir, deixará de ser um rio. Por fim – muito estranhamente – Heráclito acreditava na unidade dos opostos. O caminho que leva para o alto é o mesmo que conduz para baixo, e, modo geral, as coisas existentes são caracterizadas por pares de propriedades opostas, cuja conflituada coexistência é essencial para a manutenção de ambas. A verdade fundamental acerca da natureza é a seguinte: o mundo é uma eterna e sempre mutável transformação do fogo, com todos os seus diferentes conteúdos unidos e mantidos em conjunto por uma razão em consonância com a qual tudo acontece e que constitui o substrato e a explicação da natureza como um todo.
II
Os primeiros filósofos haviam dado os claudicantes passos iniciais na estrada rumo á ciência. As sugestões céticas de Xenófanes talvez tivessem lançado uma pequena sombra sobre suas investigações, porém o sol de Heráclito não tardou em dissipá-la. Na segunda fase da filosofia, uma nuvem mais densa e escura avultou: ameaçou expulsar toda a luz da ciência empírica e deve ter parecido quase impenetrável. Foi uma nuvem soprada de Eléia – de Parmênides, Melisso e Zenão. Próprio PARMÊNIDES, em verdade, escreveu um tanto extensamente sobre a natureza. Desenvolveu um novo sistema invocando dois princípios ou archai e discorreu detalhadamente sobre biologia e astronomia. (Foi o primeiro grego a afirmar que a terra era esférica e, possivelmente, também o primeiro a identificar a estrela vespertina e a matutina.) Mas o discurso sobre a natureza ocupava a segunda metade de grande poema, que descrevia o Caminho da Opinião e que se confessava a si mesmo falso e “enganoso”. A primeira parte do poema era um guia para o Caminho da Verdade, o que conduzia por um estranho e árido território.
Parmênides começou por considerar os possíveis alvos de investigação: podemos investigar acerca daquilo que existe ou acerca daquilo que não existe. Na verdade, porém, a segunda possibilidade não é legítima – uma vez que não se pode pensar sobre, e portanto não se pode investigar, o não-existente. De sorte que todo alvo de investigação deve ter existência. Mas tudo o que existe deve, como Parmênides passa a argumentar, possuir um determinado corpo de propriedades:deve ser não-gerado e imperecível (do contrário passaria, em algum momento, a não existir – mas isso é impossível); deve ser contínuo – sem hiatos especiais ou temporais; deve ser inteiramente imutável – não pode deslocar-se, desenvolver-se ou diminuir; e deve ser delimitado ou finito, assim como uma esfera. A razão – a capacidade lógica da dedução inelutável – demonstra que a realidade, aquilo que existe, deve necessariamente ser assim: se a percepção sensorial indica um mundo de qualidade diferente, tanto pior para a percepção sensorial.
MELISSO reescreveu o sistema parmenideano em prosa simples. Mas foi também um pensador original. Em primeiro lugar, elaborou alguns novos argumentos em favor das antigas posições de Parmênides – de modo mais notável, argumentou que a existência de um vazio não era logicamente possível, que o mundo era, por conseguinte, repleto ou um plenum, e que o movimento através de plenum era positivamente impossível. Em segundo lugar, divergiu de seu mestre em dois pontos importantes. Pois, enquanto o mundo de Parmênides era finito, Melisso advogava que tudo quanto existe deve estender-se indefinidamente em todas as direções. Daí, inferiu ainda, pode haver no máximo uma coisa existente. Melisso também apresentou um argumento explicito para demonstrar ser ilusória a percepção dos sentidos e que o mundo difere radicalmente do modo como se apresenta aos nossos sentidos.
ZENÃO não produziu nenhuma filosofia sistemática. Elaborou uma série de argumentos (quarenta no total, somos informados), cada um dos quais concluindo que a pluralidade é paradoxal: se admitimos a existência de mais de uma coisa, fatalmente cairemos em contradições. Dois dos quarenta argumentos chegaram até nós: neles, Zenão argumenta que se mais de uma coisa existe, estas devem ser ao mesmo tempo grandes e pequenas, e que se existe de uma coisa, estas deverão ser ao mesmo tempo um número limitado e ilimitado. Zenão idealizou também quatro célebres argumentos comprovando a impossibilidade do movimento: não está claro se estes devem ser relacionados entre os quarenta argumentos contra a pluralidade.
Os paradoxos propostos por Zenão são, a um só tempo, divertidos e sérios. Seus argumentos podem parecer, á primeira vista, meramente jocosos; porém todos envolvem conceitos – notadamente o conceito de infinidade – que continuam a intrigar e pôr á prova os filósofos. É difícil determinar o objetivo do próprio Zenão em idealizar seus paradoxos. Platão o considerava um defensor do monismo eleático: Melisso argumentara que existia uma única coisa e Zenão negava a existência de mais de uma – dois lados da mesma moeda. Outros suspeitam que Zenão fosse um niilista intelectual.
III
A terceira fase da filosofia pré-socrática pode ser mais bem compreendida como uma reação contra a posição parmenidiana. Estivessem os eleáticos corretos, a ciência seria impossível. Os pós-eleáticos buscaram, de maneiras diferentes, fazer justiças á força dos argumentos de Parmênides, ao mesmo tempo que se reservaram o direito de trilhar as sendas da ciência. O período produziu três figuras de monta (Empédocles, Anaxágoras e Demócrito) e alguns interessantes personagens secundários.
EMPÉDOCLES prometeu a seus leitores o conhecimento e, com este, alguns estranhos poderes. Insistia, contrariando os eleáticos, em que os sentidos, se adequadamente empregados, constituíam rotas para o conhecimento. Concordava com Parmênides em que nada podia realmente passar a existir ou parecer, e concordava com Melisso quanto á impossibilidade da existência de vazios. O universo era pleno de substâncias eterna. Não obstante, argumentava Empédocles, o movimento era possível e, por conseguinte, também a mudança; pois as substâncias podiam mover-se e misturar-se entre si, promovendo com isso as mudanças por nós observadas.
Os elementos materiais básicos do universo, segundo Empédocles, era quatro: terra, ar, fogo e água. Tudo no mundo é formado a partir dessas quatro “raízes” ou elementos. Além deles, havia duas forças opostas, o amor e a discórdia, ou atração e repulsão, cujas operações recebiam ajuda das forças naturais dos próprios elementos ou manifestavam-se nelas e governavam, sem intenção ou providência, através das forças do acaso e da necessidade. As forças determinavam o desenvolvimento do universo, desenvolvimento este que era cíclico e eterno. No conflito travado entre o amor e a discórdia cada guerreiro exercia periodicamente o domínio: sob o domínio do amor, todos os elementos se reuniam numa unidade esfera homogênea. Á medida que a discórdia tornava a ganhar forças, a esfera se rompia, os elementos se afastavam e (ao cabo de uma complexa sucessão de estágios) nosso mundo familiar passava a ser articulado. Depois o processo se revertia: do mundo articulado, através de múltiplos estágios, de volta novamente á esfera homogênea. As infinitas alternâncias entre esfera e mundo, mundo e esfera marcam a história eterna e imutável do universo.
Boa parte do poema sobre a Natureza, de Empédocles, oferecia uma detalhada descrição do mundo articulado em que vivemos. Um traço notável, porém, era sua exposição das diversas monstruosidades que, acreditava ele, tiveram origem em um estágio primevo da historia cósmica, antes que o mundo alcançasse o presente estado. A descrição do mundo presente era pródiga – cobria cada tema desde a astronomia até a zoologia. Extensas descrições da estruturas ocular e do mecanismo da respiração chegaram até nós. A principal originalidade de Empédocles reside, aqui, mesmo em questões de detalhe do que em uma noção genérica e unificadora. Acreditava o filósofo que todas as coisas sempre liberam “emoções”, e que são todas perfuradas por canais ou poros de diversas formas e tamanhos. Tais emoções e poros constituem os conceitos explicativos fundamentais de Empédocles: o fato de as emoções se adaptarem ou deixarem de se adaptar a poros de um tipo particular é responsável pelas reações físico-químicas,pelos fenômenos biológicos e psicológicos – pela percepção,pelo magnetismo ou pela esterilidade das mulas.
Além do poema sobre a natureza, Empédocles escreveu uma obra posteriormente intitulada purificações. O enredo do poema era a história da Queda: originalmente, os espíritos usufruíam uma vida de bem-aventurança; depois erraram (o erro não é especificado, porém normalmente presume-se tratar-se de um derramamento de sangue); e sua punição é uma seqüência de encarnações mortais. Todos nós somos aqueles espíritos decaídos, vestidos temporariamente, e em caráter punitivo, em carne humana. Os animais e algumas plantas são também espíritos decaídos. (O próprio Empédocles, afirma ele, já foi um arbusto, um pássaro e um peixe. Agora, porém, atingiu o acme do ciclo encarnatório – não apenas é um humano, mas um vidente e um deus.) Para Empédocles, assim como para Pitágoras, a metempsicose tinha implicações morais:os animais (e determinadas plantas)são nossos semelhantes; ingeri-los, portanto, é canibalismo, devendo ser insistentemente evitado. A Queda foi trágica e nossa vida aqui é penosa; o futuro, contudo, é luminoso: se seguirmos o conselho de Empédocles também a nós é facultado aspirar por nos tornar convivas á mesa dos deuses.
É alvo de muita controvérsia a questão da coerência entre as Purificações e Sobre a Natureza, o que é agravado pela impossibilidade de se atribuir com segurança muitos dos fragmentos a cada poema. Os dois poemas provavelmente diferiam muito em espírito e conteúdo. Certamente, porém, adotavam as mesmas idéias gerais. Quer tenham ou não guardado uma estreita coerência entre si, parece claro que os comentaristas antigos – e talvez o próprio Empédocles – consideravam nos como partes irmãs de um único sistema místico-científico.
Empédocles é por vezes chamado de pitagórico, e suas doutrinas têm filiações pitagóricas. Os seguidores de Pitágoras em pouco tempo cindiram-se em dois grupos, os aforistas e os cientistas. Os aforistas exerceram pouco apelo á nossa atenção: ao que parece, acreditavam que a sabedoria – referindo-se, com isso, á sabedoria de Pitágoras – podia ser apreendida em ditos gnômicos e não tinham o menor desejo de investigar ou racionalizar. Seus aforismos eram, na maioria, de cunho religioso ou ritualístico – relacionavam-secom dietas alimentares, sacrifícios ou sepultamentos: no geral são extravagantes ou ingênuos. Os cientistas enveredaram por diferentes facções; contudo, tinham como denominar comum a crença na importância científica e filosófica da matemática. Não eram, eles próprios, matemáticos técnicos, mas defendiam a hipótese de que o mundo era, em certo sentido, fundamentalmente composto por números; os números ou, antes, os princípios dos números, eram os princípios de todas as coisas. Uma visão desse tipo pode facilmente degenerar em contra-senso; pode também representar a percepção de que a ciência é, essencialmente, matemática aplicada. No caso dos pitagóricos, o bom senso e o contra-senso se fizeram presentes em idêntica proporção.
O único pitagórico a ter alguma expressão é FILOLAU (pois HÍPASO é pouco mais que um nome). Sendo genuínos os fragmentos remanescentes (e sua autenticidade não raro tem sido posta em duvida), tudo indica que Filolau estava buscando produzir uma versão pitagórica da ciência natural, uma versão que fosse impermeável ás objeções aleáticas.
Filolau sustenta que pouco podemos conhecer acerca do mundo. Podemos perceber, todavia, que deve ter sido formado a partir de duas espécies de coisas - as coisas ilimitadas e os limitadores. (Grosso modo, trata-se dos elementos materiais e das formas: um lago, por exemplo, consiste em matéria ilimitada, a água, determinada por um limitador, sua forma.) Algo – não podemos precisar o quê – se fez necessário para harmonizar os limitadores e as coisas ilimitadas, a fim de que o mundo fosse gerado. Até aqui, o esquema é essencialmente milésio na forma. Os elementos pitagóricos aparecem quando Filolau introduz números: o mundo quando gerado é determinados por números, no sentido em que é descritível em termos quantitativos – de outro modo não se poderia fazer conhecer a nós. Com base nesse alicerce, Filolau esperava erigir a estrutura da ciência natural. Poucos detalhes de suas doutrinas encontram-se registrados; sabemos, no entanto, que tinha teorias no campo da biologia, incluindo um relato acerca da natureza das enfermidades, e que abraçou a teoria da “contraterra” (um outro planeta, equilibrando a terra e elevando os corpos celestes para o número perfeito, dez). Além disso, expressou uma opinião quanto a natureza e ao futuro da alma. Tal como Empédocles, ANAXÁGORAS aceitava os argumentos eleáticos quanto a impossibilidade da geração e da dissolução, porém mantinha que o movimento, não obstante, era possível e, por conseguinte, que a transformação podia ter lugar no mundo. Ainda como Empédocles, acreditava que nossas faculdades, se empregadas adequadamente, poderiam resultar em informações fidedignas sobre o mundo natural. Contudo, em sua concepção da natureza das coisas diferiu fundamentalmente de Empédocles. Anaxágoras acreditava que toda substância ou matéria era eterna: não possuía ele nenhuma teoria envolvendo matérias básicas, ou “elementos”. Como o demonstrara Parmênides, nada pode provir do nada. Por conseguinte, tudo sempre existiu. No início, “todas as coisas estavam reunidas” em um ilimitado turbilhão gasoso, estágio no qual tudo estava presente e nada era claro. (Por “tudo” Anaxágoras provavelmente se referia a “todas as matérias e todas as qualidades” – matérias como a terra, o ouro, a carne e o queijo; qualidades, elas próprias concebidas como matérias, como o quente e o frio, o doce e o amargo.) O cosmos teria se formado quando as matérias e as coisas gradativamente foram se separando dessa massa indiferenciada. E aqui deparamos com duas doutrinas mais originais e influentes de Anaxágoras.
Primeiro, advogava que a força cosmogônica primordial era a mente. A mente, dizia, muito embora diferenciada de todas as demais coisas e não misturada com elas, a tudo permeava por tudo era responsável. Os pensadores posteriores enxergaram nisso um grande salto adiante: Anaxágoras, acreditavam eles, percebera que o universo obedecia ao plano de um engenhoso arquiteto. Em seguida, porém , apontaram faltas em Anaxágoras, queixando-se de que não invocara a mente no nível de explicações científicas específicas – nesse particular, mantivera-se satisfeito com as explicações jônicas correntes em termos de forças materiais.Em todo caso, não se sabe até que ponto a mente em Anaxágoras era considerada uma faculdade pessoal e planificadora que tivesse determinado a história do mundo de forma benévola ou, no mínimo, intencional: talvez se tratasse de uma força impessoal, comparável ao amor e á discórdia de Empédocles.
A segunda inovação de Anaxágoras está relacionada a sua concepção dos elementos. Á medida que os elementos se separam, nenhum é jamais inteiramente segregado, nenhuma matéria pura jamais é criada. Com efeito, cada quantidade de matéria contém sempre uma porção de todas as outras matérias. O que denominamos “ouro” não é totalmente áureo: “ouro”, antes, é o nome que damos a grandes quantidades de que são predominantemente ouro. Os fundamentos de Anaxágoras para sustentar essa doutrina são motivo de controvérsia; duas de suas conseqüências são claras. O próprio Anaxágoras inferiu a primeira conseqüência: não existe uma parcela mínima de matéria, seja de que espécie for – por menor que seja uma fração de ouro que se tome, existirá sempre outra menor, pois que dentro dessa fração de ouro existe uma porção de, digamos, sangue – e esse sangue conterá, por sua vez, uma porção menor de ouro. A segunda conseqüência não está presente de maneira explícita nos fragmentos: as matérias não podem consistir em partículas ou estarem “dentro” umas das outras da mesma forma como diferentes qualidades de sementes podem está misturadas em um março; antes, a doutrina de Anaxágoras demanda que as matérias sejam misturadas de forma completa – que estejam ligadas através de algo mais semelhantes a uma combinação química do que a uma justaposição física.
As idéias de Anaxágoras foram amplamente adotadas por ARQUELAU, que estava para ele assim como Anaxímenes estava para Anaximandro. Todavia, Arquelau tem a reputação de ser o primeiro filósofo a refletir acerca da ética: sustentava – não mais sabemos em que bases – que as qualidades morais eram convencionais, não naturais.
Com o decorrer do tempo, a física de Anaxágoras provou-se infértil. Influência bem mais determinante exerceram as doutrinas de LEUCIPO e DEMÓGRITO, os dois atomistas. Ambos contestaram Parmênides cabalmente, ao negarem que aquilo que inexiste não é menos real do que aquilo de fato existe. O que enexiste não pode ser objeto de consideração pela mente – com efeito, muito paradoxalmente, sustentavam que aquilo inexiste é vácuo, espaço vazio. O que existe são corpos, as coisas que ocupam espaço e que se movem pelo vazio. O vácuo é infinito em extensão e os corpos são infinitos em número. Os corpos, no sentido correto, são atômicos ou indivisíveis. Os atomistas argumentavam que existiriam necessariamente corpos indivisíveis, pois imaginavam que a suposição de que os corpos pudessem ser divididos ad infinitum conduzia a um paradoxo. Tais indivisíveis são muito pequenos, sólidos e desprovidos de quaisquer “qualidades”: têm tamanho, forma e ductilidade ou solidez, as chamadas qualidades “primárias”, mas carecem das qualidades “secundarias” – cor, odor, gosto etc. Os átomos existe eternamente e são imutáveis. Até esse ponto, cada átomo é uma entidade parmenidiana. Todavia, os átomos se movem – com efeito, movem-se constantemente e têm se movido por toda a eternidade.
O s movimentos dão origem ao mundo. Pois os átomos por vezes colidem e ao fim de algumas colisões, unem-se aos outros, quando os ganchos de determinado átomo casualmente se prendem nos aros de algum outro. Dessa forma, os corpos compostos, por fim, são criados. Tudo acontece por um acaso mecânico; contudo, dados um espaço e um tempo infinitos, é perfeitamente cabível esperar que a complexa estrutura do mundo á nossa volta, em alguma parte e em algum momento, seja formada.
Demócrito foi um cientista entusiástico e prolífico. Escreveu sobre uma ampla variedade de tópicos e, no mínimo em alguns casos, buscou aplicar seu atomismo a detalhadas explicações cientificas. Os melhores exemplos disso estão contidos em sua exposição da percepção e dos objetos da percepção. Pouco restou desse escrito científico. Talvez a porção mais interessante de seu trabalho fosse aquela que tratava da antropologia – a história e a descrição da raça humana enquanto objeto sociocultural. Demócrito discutiu, entre outros assuntos, as origens da religião e a natureza da linguagem. Suas observações nesse campo são quase inteiramente especulativas (e guardam pouco vínculo com o atomismo), porém suas especulações inauguraram uma longa tradição na antropologia teórica.
De maior interesse, sob um prisma filosófico, são as opiniões de Demócrito acerca a possibilidade do conhecimento humano. A despeito de suas ambições científicas, tudo indica que nutria uma forma extremada de ceticismo. Suas razoes para tanto são em grande parte desconhecidas, mas algumas delas, ao menos, guardavam estreita ligação com seu atomismo. As únicas coisas reais são os átomos e o vazio, e nem o vácuo nem os átomos podem ser coloridos. Portanto, as cores – e todas as demais propriedades secundárias – são ilusórias. Portanto, o mundo é muito diferente do modo como nossos sentidos o percebem, os nossos sentidos são fundamentalmente enganosos. Mas se dermos crédito a nossos sentidos, como poderemos dizer o que quer que seja sobre a estrutura da realidade? A teoria atomista propriamente dita, embora uma construção largamente apriorística, pressupunha ao que parece legitimidade da percepção dos sentidos e angariou adeptos em função de sua capacidade de explicar os fenômenos da percepção. Se o atomismo está correto, a percepção é ilusória; mas se a percepção é ilusória por que abraçar o atomismo? Demócrito estava cônscio dessa contradição. O modo como buscou solucioná-lo é algo que desconhecemos.
Por fim, Demócrito escreveu extensamente sobre questões de moral e filosofia política. Alguns estudiosos procuraram encontrar conexões entre sua ética e seu atomismo, mas provavelmente não existe nenhuma. Outros procuraram identificar um sistema moral por detrás dos fragmentos. É patente que Demócrito foi uma espécie de hedonista: o objetivo da vida é o contentamento, ou a imperturbabilidade, o que de alguma forma equivale á satisfação e ao prazer. Os prazeres democriteanos, todavia, são, de maneira geral, um tanto áridos e severos, de natureza mental mais do que física: Demócrito estava longe de ser o defensor de uma vida despreocupada. Talvez seja um equívoco procurar por algo mais sistemático do que isso nos fragmentos. Estes são apresentados como máximas ou aforismos, e não é próprio dos aforismos traduzirem um pensamento sistematizado. Quanto ás máximas, algumas são sensatas, outras divertidas, outras banais e outras, extravagantes – constituem, de fato, uma típica reunião de aforismos moralistas. O último dos pré-socrático, DIÓGENES de Apolônia, não foi um gênio original, sendo freqüentemente descrito, com certa justiça, como um eclético.Sua abordagem da natureza era, sob vários aspectos, próxima aquela dos primeiros milésios: adotou uma arché única, no seu caso o ar, e derivou desta o mundo através da rarefação e da condensação. Explicou os diversos fenômenos naturais mediante referências a esse elemento primordial e suas múltiplas transformações. Adotou também a mente cosmogônica de Anaxágoras. No sistema de Diógenes, contudo, a mente era identificado com o ar eterno e todo-sapiente, a força que controla e rege o universo. Diógenes seguramente sustentava que o mundo obedecia a um plano eficaz. Se pode reivindicar originalidade á sua física, esta deve residir em sua tentativa de justificar a proposição de um único elemento ou arché subjacente: a menos que todas as coisas fossem fundamentalmente a mesma, argumentava ele, as mudanças que observamos no mundo não poderiam processar-se.
O mais notável fragmento da obra de Diógenes é uma detalhada descrição dos vasos sanguíneos do corpo humano. Nesse caso, podemos ler em primeira instância aquilo que no caso dos demais pré-socráticos apenas conhecemos indiretamente: uma tentativa de descrever, com detalhes científicos, a estruturas e a organização do mundo físico.
Os pré-socráticos eram filósofos, e seu interesse estava voltado para as questões mais genéricas acerca da natureza e das origens do universo. Contudo, eram também cientistas. As abstrações de seu pensamento cosmogônico são complementadas e completadas pelos detalhes concretos de suas descrições e explicações particulares. Nesse sentido, foram os precursores de Aristóteles – e, através dele, da ciência e da filosofia modernas. (p. 41, 42, 43, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51,52, 53, 54, 55, 56 e 57)
Parte I
1. Os Precursores
Salve, ó filhas de Zeus, assegurai um doce canto e celebrai a sagrada raça dos imortais que existem para sempre, os que nasceram da Terra e do Céu estrelada e da Noite escura, e aqueles que o Mar salgado criou. Dizei como no princípio os deuses e a terra passaram a existir, e os rios e o ilimitado mar de impetuosa vagas, e os astros fulgurantes e o amplo céu acima, e dizei como dividiram eles sua fortuna e repartiram suas honras e como no principio conquistaram o Olímpo de muitas sendas. Revelai-o, ó, Musas, que tendes vossa morada no Olimpo, desde o principio, e dizei qual dentre eles foi o primogênito. Dentre todos, primeiro veio o Caos; seguido-se a Terra de amplo seio, morada perene e segura de todos os imortais que guardam as alturas do nevado Olimpo, e o nevoento Tártaro nos recessos do chão de largos caminhos, e o Amor, o mais formoso dentre os deuses imortais, o que aos membros distende, por quem todos os homens e todos os deuses vêem seus pensamentos e suas prudentes decisões vencidos em seus peitos. Do Caos nasceram a negra Escuridão e a Noite; e da Noite nasceram o Eter e o Dia aos quais ela concebeu e pariu depois de unir-se em amor com a Escuridão. Primeiro pariu a Terra, igual em extensão a si mesma, o Céu estrelado, para que a encobrisse por inteiro e para que pudesse existir uma morada perene e segura para os bem-aventurados deuses. E pariu as altas Montanhas, os graciosos refúgios das deuses – das Ninfas que habitam as montanhas arbóreas. E pariu ainda a infatigável profundeza de impetuosas vagas, o Mar, desprovido de amor desejável; e depois deitou-se com o Céu e pariu o Oceano de profundos torvelinhos e Coio e Crio e Hipérion e Jápeto e Téia e Réia e Justiça e Memória e Febe, coroada de ouro, e a amorosa Tétis. E depois deles, o mais jovem, o voluntário Crono, nasceu, o mais terrível dentre sua prole; que a seu vigoroso pai odiava. (p. 64)
(Hesíodo, Teogonia, 104-138)
- Os deuses sempre existiram: até hoje eles jamais deixaram de estar presentes; e essas coisas estão sempre.
-Mas dizem que o Caos foi a primeira divindade a nascer.
- Como seria isso possível? Não existia coisa alguma de onde pudesse vir e lugar nenhum aonde pudesse ir se tivesse sido o primeiro.
- Quer dizer que coisa alguma veio em primeiro lugar? – Não, tampouco coisa alguma em segundo, por Zeus, das coisas sobre as quais estamos falando agora: elas sempre existiram.(p. 65)
(Diógenes Laércio, Vidas dos Filósofos III, 10)
2. Tales
Tales é tido como o primeiro a introduz o estudo da natureza entre os gregos: embora muitos outros tenham-no precedido, como o admite o próprio Teofrasto, ele os sobrepujou de longe, a ponto de eclipsar todos os seus predecessores. Dizem, porém, que não deixou nada sob forma escrita, á exceção da chamada Astronomia Náutica. (p. 71)
(Simplício, Comentário á Física, 23.29-33)
Útil conselho fora emitido, mesmo antes da destruição da Jônia, por Tales, um milésio cuja família era originária da Fenícia: ele exortou os jônios a estabelecerem um conselho geral único, afirmado que ele deveria estar sediado em Téos, que o centro da Jônia, e que as outras cidades deveriam prosseguir sendo habitadas, mas que deveriam ser tratadas como se fossem da mesma jurisdição. (P.72)
(Heródoto, Histórias I, 170.3)
Quando Creso chegou ao rio Hális – segundo se conta -, fez cruzar seu exército através das pontes ali existentes; segundo a maioria dos gregos, todavia, foi Tales de Mileto quem passou o exército para ele. Pois contam que Creso estava em apuros, sem saber como o exército haveria de transpor o rio, porquanto tais pontes pontes ainda não existiam á época, e que Tales, que se encontrava no acampamento, fez com que o rio que corria á esquerda do exército corresse também pela direita, o que logrou da seguinte maneira: começando a montante do acampamento, fez cavar um canal profundo ao canal profundo ao qual deu a forma de uma lua crescente, de sorte que o rio contornasse por trás o local onde acampava o exército, sendo desviado de seu curso original pelo canal, e então, tendo ultrapassado o acampamento, retornasse novamente ao curso original. Assim, tão logo estava dividido, o rio tornou-se vadeável em ambos os braços. (p. 72)
(Ibid. I, 75.4-5)
Equivaliam-se as forças na guerra [entre os lídios e os persas], até que, no sexto ano, teve lugar um confronto no qual, depois de travada a batalha, subitamente o dia transformou-se em noite. Tal reviravolta durante o dia fora predita aos jônios por Tales de Mileto, que determinara como seu termo o ano exato em que o fenômenos efetivamente ocorreu. (p. 73)
(Ibid. I, 74.2)
Dizem alguns que [a terra] repousa sobre a água. Esta, em verdade, é a mais antiga doutrina que nos foi transmitida, e conta-se que foi proposta por Tales de Mileto, que considerava que a terra repousa porque pode flutuar como uma tora ou algo congênere (pois nenhuma dessas coisas pode repousar no ar, mas lhes é dado repousar na água) – como se o mesmo argumento não fosse válido tanto para a água que sustém a terra como para a própria terra. (p. 73)
(Aristóteles, Sobre os Céus, 294ª28-34)
A maior parte dos primeiros filósofos considerava como princípios de todas as coisas exclusivamente aquelas de natureza material. Pois dizem eles que o elemento é o princípio originário das coisas que existem é aquilo de que todas são constituídas, do qual primeiro se originam e em que por fim se dissolvem, permanecendo sua substância e alterando-se suas propriedades... Deverá existir alguma natureza – quer uma ou mais de uma – da qual as outras coisas se originam, ela mesma mantendo-se preservadas. Todavia, no que tange ao numero e á forma dessa espécie de princípio, nem todos pensam de maneira idêntica. Tales, o fundador desse tipo de filosofia, afirma tratar-se da água (pois isso declara que a terra repousa sobre a água). Talvez tenha sido levado a essa concepção ao observar que o nutrimento de todas as coisas é úmido e que o próprio calor disso vive (sendo aquilo de provém algo o seu princípio originário) – chegou á sua concepção tanto por essa razão como pelo fato de as sementes de todas as coisas apresentarem uma natureza úmida, e a água é o princípio natural das coisas úmidas. (p. 74)
(Aristóteles, Metafísica, 983b6-11, 17-27)
Dizem alguns que <a alma> está misturada no universo todo. Talvez seja por essa razão que Tales supunha estar tudo pleno de deuses. (p.74)
(Aristóteles, Sobre a Alma, 411a7-8)
Tales, a julgar pelo que contém, aparentemente acreditava ser a alma algo que produz movimento, uma vez tendo dito que o ímã possui alma porque é capaz de deslocar o ferro. (p.74)
(Ibid., 405a19-21)
Dizem ter sido Tales o primeiro a demonstrar que um circulo é bisseccionado por seu diâmetro. (p. 75)
(Proclo, Comentário a Euclides, 157. 10-11)
Devemos ao velho Tales vários descobertas e, em particular, esse teorema; pois dizem ter sido ele o primeiro a reconhecer e a postular que todo triângulo isósceles os ângulos da base (p.75)
(Ibid., 250.20-251.2)
Esse teorema demonstra que quando duas linhas retas interceptam uma á outra, os ângulos formados no vértice são idênticos – o que, segundo Eudemo, foi o primeiro descoberto por Tales. (p.75) (Ibid., 299.1-4)
Em sua história da Geometria, Eudemo atribui esse teorema [o de que são iguais dois triângulos que tenham um lado igual e dois ângulos iguais] a Tales; pois afirma que deve ter feito uso do mesmo no procedimento por meio do qual dizem ter ele determinado a distância entre navios em alto-mar. (p.75) (Ibid., 352.14-18)
O pai de Tales (segundoHeródoto, Dúris e Demócrito)foi Exâmias, e sua mãe, Cleobulina, da família de Tales ( de origem fenícia, os mais nobres dos descendentes de Cadmo e Agenor). <Foi um dos Sete Sábios>, segundo Platão, e o primeiro a quem se atribuiu o título de Sábio – durante o ar-contado de Demásias em Atenas [582-580 a.C.], período no qual, segundo Demétrio de Faleron, em sua Relação dos Arcontes, os Sete Sábios foram de fato designados. Foi inscrito como cidadão de Mileto quando ali chegou juntamente com Neileu, que fora expulso da Fenícia – embora a maior parte das autoridades afirme que era um milésio nativo e de renomada família.
Ao dar por encerradas suas atividades políticas, voltou-se á especulação científica. De acordo com alguns, não legou nenhuma obra escrita; isso porque a Astronomia Náutica a ele atribuída consta ser de autoria de Foco de Samos. Contudo, Calímaco reputa-o como o descobridor da Ursa Menor e escreve o seguinte em seus Iambos:
E atribui-se a ele ter mensurado as pequenas estrelas da Ursa Maior que orientam as dos fenícios.
De acordo com outros, escreveu somente duas obras, Do Solstício Do Equinócio,*julgando que todo o mais era incognoscível*.
É tido por alguns como o primeiro a estudar a astronomia e a ter predito eclipses solares e os solstícios, como afirma Eudemo em sua História da Astronomia – razão pela qual é merecedor da admiração de Xenófanes e Heródoto. Heráclito e Demócrito também testemunham em seu favor. Alguns (dentre os quais o poeta Coérilo) dizem ter sido ele o primeiro a postular a imortalidadeda alma. Foi o primeiro a descobrir o intervalo entre um solstício e o seguinte, e o primeiro, segundo alguns a postular que a dimensão do sol corresponde a uma septingentésima vingésima parte <da órbita solar, da mesma forma como a dimensão da lua equivale a sua septingentésima vigésima parte> da órbita lunar. Foi o primeiro a determinar o último dia do mês como sendo o trigésimo. E o primeiro, segundo alguns, a discorrer sobre a natureza.
Aristóteles e Hípias dão conta de que atribuía alma a coisas inertes também, tomado o ímã e o âmbar como indícios desse fato.
Panfila afirma que teria aprendido a geometria com os egípcios e que foi o primeiro a inscrever um triângulo retângulo em um circo, tarefa para a qual teria sacrificada um boi. (Outros, incluindo Apolodoro, o calculista, atribuem o feito Pitágoras, que desenvolvel ao máximo as descobertas que Calímaco, em Iambos, atribui a Euforbo, o frígio – por exemplo, “escalenos e triângulos” e aquilo que pertence ao estudo da geometria.)
Também imagina-se que tenha emitido excelente conselhos em questões políticas. Por exemplo, quando os enviados de Creso procuraram os milésios para afirmar uma aliança, Tales impediu a concretização desse intento – o que salvou a cidade quando Ciro chegou ao poder. Entretanto, ele próprio assevera, como relata Heráclides, que vivia uma vida solitária como cidadão comum. Dizem alguns que se casou e teve um filho, Cibisto; outros afirmam que permaneceu celibatário, tendo adotado, porém, o filho da irmã – de sorte que ao ser indagado por que não tinha filhos, respondia: “porque amo as crianças.” Dizem também que quando sua mãe insistia em que se casasse, replicava: “É muito cedo”;e que então, quando a mãe tornou a insistir, tendo ele já ultrapassado a flor da idade, respondeu: “É tarde demais.” Jerônimo de Rodes, no segundo livro de sua abra Miscelâneas, afirma que, desejando demonstrar como é fácil ficar rico, previu que se avizinhava uma boa colheita de olivas, contratou prensadores de oliva e angariou uma extraordinária soma em dinheiro.
Considerava a água o princípio originário de todas as coisas e acreditava que o mundo é dotado de uma alma e pleno de espírito. Dizem que descobriu as estações do ano e dividiu-as em 365 dias.
Ninguém ensinou-lhe coisa alguma, muito embora tenha ido ao Egito e passado algum tempo com os sacerdotes do lugar. Diz Jerônimo que mediu efetivamente as pirâmides a partir de suas sombras, ao observar o momento em que <nossas sombras> apresentam comprimento idêntico á nossa altura. Segundo Minies, viveu com Trasíbulo, o governante de Mileto.
Existe um celebre episodio sobre um trípode descoberto pelos pescadores e enviado aos Sábios pela gente de Mileto. Conta-se que alguns rapazes da Jônia adquiriram uma rede de alguns pescadores milésios. Ao ser içado o trípode, verificou-se uma disputa, até que os milésios enviaram-no a Delfos. O deus proferiu o seguinte oráculo:
Ó, filhos de Mileto, indagais a Apolo sobre um trípode?
Pois declaro que pertence o trípode áquele que é o primeiro em sabedoria.
Assim, eles entregaram a Tales. Este, porém, o entregou a outro dos Sábios, e assim foi passado adiante até dar em Sólon, que declarou que o primeiro em sabedoria era o deus, enviando o trípode a Delfos.[Segue-se uma série de diferentes versões do episódios do trípode.]
Em sua obra Vidas, Hermipo atribui a Tales aquilo que outros dizem de Sócrates. Tales costumava dizer, contar-se, que era grato á Fortuna por três coisas: primeiro, por ter nascido um humano e não um animal; segundo, por ter nascido um homem e não uma mulher; terceiro, por ter nascido um grego e não um estrangeiro.
Dizem que teria sido tirado de casa por uma mulher idosa para observar as estrelas e caiu numa vala: ao gritar por socorro, a mulher respondeu-lhe: “Imaginas poderconhecer o que existe nos céus, ó Tales, quando não consegues enxergar o que vai adiante de teus pés? Timon também o conhece como astrônomo, louvando-o em suas Sátiras com as seguintes palavras:
Assim foi Tales dos Sete Sábios, um astrônomos sábio.
Lóbo de Argos diz que seus escritos se estenderam a duzentas linhas e que em sua estátua estava inscrito o seguinte epigrama:
Este é Tales, filho da jônia Mileto e que revelou um astrônomo, o mais eminente de todos em sabedoria.
Acrescenta que seu poema inclui os seguintes versos:
Não são muitas as palavras que exibem uma opinião sensata:
Procura pela coisa sabia,
Saiba escolher bem,
Pois com isso travará as infatigáveis línguas dos tagarelas.
Os aforismos seguintes são atribuídos a ele. Dentre as coisas existentes, a divindade é a mais antiga – porquanto é não-gerada. O mundo é a mais bela – porquanto é criação da divindade. O espaço é a maior – porquanto a tudo abraça. A mente é a mais ágil – porquanto corre através de tudo. A necessidade é a mais forte – porquanto a todo controla. O tempo é o mais sábio – porquanto a tudo desvenda. Disse que a morte em nada difere da vida. “Então por que você não morre?”, indagou-lhe alguém. “Por que não faz a menor diferença”, respondeu. Ao ser inquirido sobre o que veio primeiro, o dia ou a noite, respondeu: “A noite veio primeiro – através de um dia.” Ao ser indagado se um homem pode furtar-se ao olhar dos deuses se comete uma ação reprovável, respondeu: “Nem mesmo se ele pensar em cometer uma ação reprovável.” Um adúltero perguntou-lhe se deveria jurar não ter cometido adultério. Respondeu ele: “O perjúrio não é pior que o adultério.” Quando indagado sobre o que é difícil, respondeu: “Conhecer a si mesmo”; o que é fácil : ”Dar conselho a outrem”; o é mai agradável: “O sucesso”; o que é divino: “O que não tem início nem fim.” Quando lhe indagaram qual coisa mais estranha que já vira, respondeu: “Um velho tirano.” Como conseguimos suportar mais facilmente o infortúnio? – Se virmos nossos inimigos em condição pior. Como podemos viver de maneira melhor e mais justa? – Se nós próprios não fizermos aquilo que reprovamos nos outros. Quem é feliz? – Aquele que tem um corpo saudável, uma alma fecunda e uma natureza educável. Ele diz que devemos lembrar-nos de nossos amigos, tanto os presentes como os ausentes, e que não devemos embelezar nossas faces, mas exibir belezas em nossas práticas. “Não enriquecer por meios liícitos”, diz ele, “e não permita que as palavras o distanciem daqueles que mereceram sua confiança”. “Epere de seus filhos as mesmas alegrias que deu a seus pais.”
Disse que o Nilo transborda quando suas correntes são atingidas pelos ventos etésios que sopram em sentido contrário.
Em Crônicas, Apolodoro diz que Tales nasceu no primeiro ano da trigésima nona olimpíada [624 a.C.] Morreu aos 78 anos (ou, segundo Sosícrates, aos 90); pois morreu por ocasião da qüinquagésima oitava olimpíada [548-545 a.C.],tendo vivido durante o reinado de Creso, aquém logrou transportar para a margem oposta do Hális sem se valer de uma ponte, desviando o curso do rio.
Outros homens de nome Tales existiram – cinco, segundo Demétrio de Magnésia em seus Homônimos: um orador de Cálatis, dono de um estilo pobre; um pintor de Sícion, de grande talento; o terceiro é muito antigo,contemporâneo de Hesíodo, Homero e Licurgo; o quarto é mencionado por Duris em sua obra Sobre a Pintura; o quinto,mais recente e obscuro, é mencionado por Dionísio em seus Ensaios Críticos.
Morreu o Sábio de calor, de sede e de fraqueza enquanto assistia a um torneio de ginástica. Era, por esse tempo, um homem avançado em anos. Em seu túmulo lê-se a inscrição.
Seu túmulo é modesto, sua fama eleva-se aos céus: contemplai o sepulcro do sábio e engenhoso Tales.
No primeiro livro de meus Epigramas ou Poemas em Todas as Métricas, há um epigrama dedicado a ele:
Quando, certa vez, assistia um torneio de ginástica, ó Zeus do Sol, roubaste Tales, ó Sábio, do estádio. Louvo-te por o teres levado para junto de ti; pois que o velho homem não mais podia enxergar, da terra as estrelas.
A máxima “Conhece-te a ti mesmo” é de autoria dele, muito embora, em suas Sucessões, Antístenes diz ser de Femone e que Quílon apropriou-se dela. (P. 76,77, 78, 79, 80 e 81)
(Diógenes Laércio, Vidas dos Filósofos I, 22-28, 33-40)
3. Anaximandro
Anaximandro de Mileto, um discípulo de Tales, foi o primeiro homem audaz o bastante para desenhar o mundo habitado sobre uma tábua; depois dele, Hecateu de Mileto, um grande viajante, tornou-o mais preciso, de sorte a merecer grande admiração.
(Agatêmero, Geografia I,i)
Anaximandro foi um discípulo de Tales – Anaximandro, filho de Praxíades, um milésio. Dela originam-se os céus e os mundos que neles existem. É eterna, não envelhece e abarca todos os mundos. Menciona ele o tempo, uma vez que a geração, a existência e a dissolução são determinadas.
Anaximandro dizia que o infinito é o princípio e o elemento das coisas existentes, sendo o primeiro a referir-se a ele pelo nome de princípio. Além disso, há um eterno movimento através do qual os céus se originam.
A terra está suspensa, sem que coisa alguma a sustente, repousando ali onde está em razão da equivalência de suas distâncias com relação a tudo. Sua forma é redonda, circula, como um pilar de pedra. Quanto a suas superfícies, estamos colocados sobre uma delas, enquanto a outra encontra-se no lado oposto. Os corpos celestes são criados como círculos de fogo, separados do fogo no mundo e envoltos pelo ar. Existem certos canais tubulares, ou respiradouros, através dos quais os corpos celestes fazem sua aparição;por conseguinte, dão-se os eclipses quando os respiradouros são obstruídos, enquanto a lua aparece ora crescendo, ora minguando, segundo os canais estejam obstruídos ou abertos. O círculo solar é sete vezes maior <do que a terra e o círculo> lunar <dezoito vezes maior>. O sol se localiza á maior altura, com os círculos das estrelas fixas mais baixo.
Os animais são gerados <a partir da unidade> evaporada pelo sol. Os seres humanos assemelhavam-se originalmente a outra espécie animal, a saber, o peixe. Os ventos são gerados quando os vapores mais sutis do ar se separam, se reúnem e se põem em movimento. A chuva provém do vapor que se eleva das coisas que estão sob o sol. O relâmpago se dá quando o vento se Põe em ação e rompe as nuvens. (p.83 e 84)
Nasceu ele no terceiro ano da quadragésima segunda olimpíada [610/609 a.C.].
(Hipólito, Refutação de Todas as Heresias I, vi 1-7)
Anaximandro, companheiro de Tales, afirma ser o infinito a causa universal da gênese da dissolução do universo. A partir dele, diz Anaximandro, foram separados os céus, bem como todos os mundos em geral, infinitos em número. Postulou que a dissolução e, muito anteriormente, a gênese datam de tempos imemoriais, com as mesmas coisas sendo sempre renovadas.
Afirma que a conformação da Terra é cilíndrica e que sua profundidade equivale a um terço da largura. Diz ele que, na gênese deste mundo, aquilo que, a partir do eterno, é produtivo do calor e do frio se separou, e dele uma esfera de chamas se formou ao redor do ar que cicunda a terra, como a casca em torno da arvore. Quando a esfera se rompeu e foi confinada em alguns círculos, o sol, a lua e as estrelas passaram a existir.
Ademais, diz ele que os seres humanos originalmente nasceram de animais de uma espécie diferente, tendo em vista que os outros animais desde cedo conseguem cuidar de si mesmos, ao passo que os seres humanos são os únicos que requerem um longo período de cuidados; por essa razão, tivesse sido esta sua forma original, não teriam sobrevivido. (p.85)
([Plutarco], Miscelâneas, fragmento 179.2, em Eusébio, Preparação para o Evangelho I, vii16)
Anaximandro de Mileto afirma considerar que da água e da terra esquecidas surgiram os peixes, os animais muito semelhantes aos peixes, que os seres humanos neles cresceram e que os embriões foram mantidos em seu interior até a puberdade, quando então os animais semelhantes aos peixes se romperem, deixando emergir os homens e as mulheres já aptos a cuidarem de si mesmos. (p. 86) (Censoriano, Dos Aniversários IV, 7)
Os descendentes da antiga Helena efetivamente oferecem sacrifícios a Poseidon, o Ancestral, acreditando terem os homens se originado da substância úmida – tal como o crêem os sírios. Por essa razão reverenciam eles o peixe, como sendo da mesma espécie e da mesma criação que eles próprios. Nesse particular, sua filosofia é mais adequada que a de Anaximandro. Porquanto este assevera não que peixes e homens vieram ao mundo em ambientes idênticos, mas que, de início, surgiu o homem dentro do peixe e que ali foi alimentado – como os tubarões -, somente emergindo e ganhando a terra quando já apto a cuidar de si mesmo. Assim, da mesma forma como o fogo consome a matéria a partir da qual foi gerado (na sua própria mãe e pai, como disse o poeta que inseriu as núpcias de Ceix nos poemas de Hesíodo), assim Anaximandro, tendo declarado serem os peixes a um só tempo pais e mães dos homens, clama para que não nos alimentos deles. (p. 86)
(Plutarco, Questões de Convivas, 730DF)
Afirmam alguns que [a terra] repousa onde está razão da equivalência (como, entre os antigos, Anaximandro). Pois não há motivo algum para que aquilo que esteja situado no centro e a igual distância das extremidades deva se mover para cima em lugar de se mover para baixo ou para os lados. Não poderá, contudo, mover-se em direções apostas ao mesmo tempo. Portanto, repousa necessariamente ali onde está. (87)
(Aristóteles, Sobre os Céus, 295b11-16)
Dentre os que sustentam a existência de um princípio originário único, movente e infinito, Anaximandro, filho de Praxíades, um milésio, sucessor e discípulo de Tales, afirmou ser o infinito o princípio e o elemento das coisas existentes. Foi ele o primeiro a introduzir o vocábulo “princípio”. Afirma tratar-se não da água, tampouco de nenhum outro dos chamados elementos, mas de alguma natureza infinita, diferente, de onde se originam todos os céus e os mundos neles contidos. E as coisas das quais se originam as coisas existentes são igualmente as coisas em que elas são dissolvidas, consoante com o que deve ser.Porquanto devem prestar contas e reparação umas ás outras por suas injustiças, conforme a sentença do tempo[12 B1] (ele se pronuncia a esse respeito com palavras um tanto poéticas). É patente que observou a transformação recíprocas dos quatros elementos e não desejou fixar nenhum deles como a matéria subjacente, elegando em vez disso algo á parte. Ele atribui a geração das coisas não á transformação do elemento, mas á separação dos contrários através do eterno movimento. (p. 87 e 88)
(Simplício, Comentário á Física, 24.13-25)
É com razão que fazem todos [do infinito] um princípio; pois que não é possível a existência deste para propósito nenhum, tampouco ter algum poder exceto o de um princípio. Pois que tudo é ou um princípio ou procedente de um princípio. Para o infinito, no entanto, não há princípio algum – pois que se houvesse, teria um limite. Também é não-gerado e indestrutível, caracterizando-se, portanto, como um princípio. Pois que aquilo que é gerado necessariamente há de ter um fim, e existe um fim a toda destruição. Por conseguinte, conforme digo, aquilo que não tem princípio algum além de si próprio é considerado o princípio de todo o resto e o que a tudo governa... E é também o divino; pois que é imortal e imperecível, como postula Anaximandro e a maior parte dos cientistas da natureza.
A crença na existência de algo infinito advém precipuamente de cinco considerações: do tempo (uma vez que é infinito), da divisão de grandezas (os matemáticos efetivamente fazem o uso do infinito); e ainda porque a geração e a destruição deixarão de existir a menos que exista algo infinito do qual aquilo que ganha existência é subtraído; e também porque aquilo que é finito é invariavelmente limitado por algo,de sorte que não pode haver um limite [último] se uma coisa deve estar sempre limitada por outra; por fim, e mais importante, existe algo que representa um enigma para todos sem distinção: por não se esgotarem em pensamento,os números parecem ser infinitos, da mesma forma como as grandezas matemáticas e a região exterior aos céus. Contudo, se a região exterior é infinita, também o corpo e os mundos parecem infinitos – pois por que deveriam estar aqui e não alhures no vácuo? Por conseguinte, se o corpo se encontra em alguma parte, está em toda parte. Outrossim, sendo infinitos o vácuo e o espaço, também o corpo deve ser infinito – porquanto não há distinção, para as coisas eternas, entre ser possível e ser real.(p.88 e 89)
(Aristóteles, Física, 203b6-11, 13-30)
4. Anaximandro
Anaxímenes, filho de Euristrato, era também milésio. Afirmava que o ar infinito é o princípio originário do qual provém tudo quanto caminha para a existência, que já existe e que virá a existir, bem como os deuses e as divindades, ao passo que todo o resto provém dos entes por ele gerados. A forma do ar é a seguinte: quando mais uniformemente distribuído ele é invisível, mas se torna perceptível pela ação do calor, do frio, da umidade e do movimento. Encontra-se sempre em movimento; pois as coisas que se transformam não se transformariam caso ele não estivesse em movimento. Pois no momento em que é condensado ou rarefeito seu aspecto se modifica: ao dissolver-se em uma condição mais sutil transforma-se em fogo; os ventos, por sua vez, são ar condensado, enquanto as nuvens são produzidas a partir do ar por meio da compreensão. Ao condensar-se ainda mais, forma-se a água; quando mais condensado ainda, forma-se terra, e quando condensado ao mais alto grau, transforma-se em pedras. Assim, os fatores de maior influência na geração das coisas são opostos – frio e calor.
A Terra é plana e flutua no ar; da mesma forma o Sol, a Lua e os demais corpos celestes todos ígneos, flutuam no ar em razão de sua forma plana. Os corpos celestes originaram-se da Terra ergueu-se o vapor que, rarefeito, produziu o fogo; e do fogo elevado ás alturas formaram-se os corpos celestes. Existem, igualmente, algumas substâncias terrenas na região dos corpos celestes, que orbitam em companhia destes. Afirma ele que os corpos celestes deslocam não por debaixo da Terra, como supunham alguns, mas em torno da Terra – da mesma forma como um gorro de feltro em torno da cabeça. E o Sol se esconde não porque está passando por sob a Terra, mas por estar encoberto pelas regiões mais elevadas da Terra, e em razão de sua maior distância em relação a nós. Os corpos celestes não nos aquecem em decorrência de sua grande distância.
Os ventos são gerados quando o ar é condensado e impelido em movimento. Á medida que o ar vai-se aglomerando e ganhando progressivamente densidade, são geradas as nuvens e dessa forma ele se transforma em água. O granizo se forma quando a água despejada das nuvens se solidifica, e a chuva, quando essas mesmas coisas se solidificam em uma forma mais aquosa. O relâmpago ocorre quando as nuvens se partem pela força dos ventos: pois quando se partem, apresenta-se um clarão brilhante e ígneo. Os arco-íris são gerados quando os raios solares se derramam sobre o ar compactado; os terremotos, quando a Terra sofre consideráveis alterações pelo aquecimento e o resfriamento.
Essas são as doutrinas de Anaxímenes. Que floresceu no primeiro ano da quiquagéssima oitava olimpíada [548/547 a.C.]. (P.91, 92 e 93)
(Hipólito, Refutação de Todas as Heresias I, vii 1-9)
Anaxímenes, Anaxágoras e Demócrito dizem que a forma plana [da Terra] é o que a mantém fixa no lugar. Pois ela não corta o ar que está por debaixo dela, mas sim o cobre como uma tampa. É possível observar tal comportamento nos corpos planos – que não se deslocam facilmente sequer pela ação dos ventos, em razão de sua existência. Afirmam eles que em função da forma plana, a Terra se comporta de maneira idêntica em relação ao ar que se encontra por debaixo dela (o qual, desprovido de espaço suficiente para deslocar, permanece como uma massa imóvel na região inferior), tal como a água em uma clepsidra. (p.93) (Aristóteles, Sobre os Céus, 294b13-21)
Ou deveríamos nós, como pensava o velho Anaxímenes, tratar o quente e o frio não como substâncias, mais sim como propriedades comuns da matéria que sobrevém mediante transformações? Pois afirma ele que a matéria que é concentrada e condensada é fria, ao passo que aquela que é rarefeita e frouxa (esse é o termo que emprega) é quente. [13 B 1] portanto, não é despropositado dizer que o homem exala tanto o quente como o frio de sua boca; pois o hálito é resfriado ao ser comprimido e condensado pelos lábios, mas, quando a boca está relaxada e o hálito é exalado, torna-se quente em decorrência de sua rarefação. (p. 93 e 94)
(Plutarco, O Frio Primordial, 947 F)
Anaxímenes, filho de Euristrato, um milésio, asseverava ser o ar o principio originário de todas as coisas existentes; pois que tudo provém do ar nele torna a se dissolver. Por exemplo, nossas almas, diz ele, sendo ar nos mantém unidos, e a respiração e o ar compreendem o mundo (“ar” e “respiração” são empregados no mesmo sentido).[B 2] (P.94)
([Plutarco], Sobre as Idéias Cientificas dos Filósofos, 876AB)
5. Pitágoras
Temos mais informações acerca de Pitágoras – sua vida, sua personalidade, suas idéias – do que de qualquer outro filósofo pré-socrático. Pois a escola de pensamento á qual deu nome perdurou por mais de um milênio, e diversas obras dos últimos pitagóricos chegaram a nossas mãos. Sob vários aspectos, todavia, Pitágoras é o mais obscuro e desconcertante dentre todos os primeiros pensadores.
O próprio Pitágoras não chegou a dar forma escrita a suas idéias, tampouco o fizeram seus primeiros seguidores. (Tal é a moderna visão ortodoxa; contudo, como veremos, havia discordâncias entre os antigos com referência a esse ponto.) No século V verificou-se uma cisão entre os pitagóricos, cada grupo reivindicando para si a condição de legítimo herdeiro do mestre. Posteriormente, no século IV, as histórias do pitagorismo e do platonismo ganharam uma estreita vinculação e, como resultado, os registros da filosofia pitagórica tornaram-se impregnados de elementos platônicos. Numa fase ainda mais tardia, diversos documentos pitagóricos foram produzidos e posto em circulação, atribuindo ao próprio Pitágoras, retroativamente, idéias filosóficas de um período mais recente. É difícil penetrar esse emaranhado e descobrir o Pitágoras original.
Não tardaram em se avolumar lendas em torno de seu nome. Se buscarmos desembaraçar os porcos fios de verdade da histórica, chegaremos á conclusão de que Pitágoras nasceu na ilha de Samos, por volta de 570 a.C. Cerca de trinta anos mais tarde deixou a ilha, que era governada na ocasião pelo ilustrado tirano Polícrates, e emergiu para Crotona, no sul da Itália. Há indícios de que se tenha tonado uma figura destacada na vida política de Crotona e que tenha suscitado uma certa hostilidade entre os cidadãos. O certo é que foi posteriormente forçado a abandonar a cidade:estabeleceu-se na cidade vizinha de Metaponto, onde morreu.
O presente capítulo reproduz os mais importantes dentre os textos antigos que fazem referência a Pitágoras e descreve as poucas doutrinas que podem ser atribuídas a ele com alguma segurança. Em capítulos subseqüentes trataremos do pitagorismo do século V, além de Hípaso e Filolau, os únicos pitagóricos pré-socráticos acerca dos quais contamos com alguma evidência substancial. Pitágoras é mencionado por Xenófanes, Heráclito, Íon e (talvez ) Empédoces: (p.95 e 96)
Quanto a [Pitágoras] ter sido diferentes pessoas em épocas diferentes, Xenófanes presta testemunho em uma elegia que tem início com o verso:
Buscarei abordar agora um outro tema e indicar o caminho...
O que diz a respeito de Pitágoras é o seguinte:
E certa vez em que passava por um cãozinho que estava sendo açoitado
Contam que se apiedou do animal e pronunciou as seguintes palavras:
“porém, não lhe batam; porque é a alma de um estimado
Amigo –
Eu o reconheci ao ouvir seu labrido”.[21 B 7] (P. 96)
(Diógenes Laércio, Vidas dos Filósofos VIII, 36)
[Heráclito] era singularmente arrogante e desdenhoso, o que, a propósito, é patente em seu próprio tratado, no qual afirma:
Muita erudição não confere bom senso – de outra forma o teria conferido a Hesíodo e Pitágoras, bem como Xenófanes e Hecateu.[22 B 40] (P.96 e 97)
(Ibid.IX, 1)
Dizem alguns que Pitágoras não legou para a posterioridade uma única obra escrita. Pois estão equivocados; de qualquer modo, Heráclito, o cientista natural, com propriedade e veemência desfaz o equívoco ao afirmar:
Ptágoras, filho de Mnesarco, praticou a investigação mais do que qualquer outro homem e, fazendo uma seleção desses escritos, forjou uma sabedoria própria – muito estudo, falso saber [22 B 129] (P.97)
(Ibid.VIII, 6)
Em suas Tríades, Íon de Quios afirma que Pitágoras escreveu algumas coisas, tendo-as atribuído a Orfeu. (P.97)
(Ibid.VIII, 8)
Diz Íon de Quios sobre [Ferécides]:
Ele, portanto, distinguindo-se na coragem e também na honra, mesmo depois que a morte usufrui em sua alma uma vida deleitosa –
Se, de fato, Pitágoras é verdadeiramente sábio, e alguém que acima de todos os homens aprendeu e adquiriu conhecimento [36 B 4] (P. 97)
( Ibid.I, 120)
Empédocles também dá testemunho disso quando diz de [Pitágoras]:
Entre ele havia um homem de extraordinário saber, que conquistara a riqueza máxima da inteligência, um mestre excepcional versado em toda espécie de obra sábia. Pois quando reunia todas as forças de seu pensamento facilmente enxergava cada uma e todas as coisas em dez ou vinte gerações humanas. [ 31 B 129] (p.97)
(Porfírio, Vida de Pitágoras, 30)
Pitágoras é mencionado pelo historiador do século V, Heródoto:
Segundo ouvi dizerem os gregos que habitam o Helesponto e o mar Negro, esse Sálmoxis era um mortal e viveu como escravo em Samos – foi escavo de Pitágoras, o filho de Mnesarco. Depois ganhou sua liberdade e acumulou uma grande soma em dinheiro e, vez assim aquinhoado, regressou ao seu país natal. Todavia, uma vez que os trácios tinham uma vida miserável e eram um tanto néscios, Sálmoxis, que conhecia o modo de viver dos jônios e hábitos mais civilizados do que aqueles dos trácios (afinal de contas, havia associado com os gregos – e com Pitágoras, que, de modo algum, foi o menos expressivo dentre os sábios gregos), fez erguer um salão onde oferecia banquetes e festejava os cidadãos mais proeminentes. E ensinava que nem ele nem seus convivas e nem tampouco nenhum de seus descendentes jamais morreriam, mas que chegariam a uma terra onde viveriam para sempre, senhores de toda sorte de benesses. No local onde fez e anunciou o que relatei, fez construir uma câmara subterrânea.Quando a câmara ficou pronta, desapareceu do convívio com os trácios, descendo para a câmara subterrânea e ali permanecendo durante três anos. Sua falta foi sentida e pratearam-no como se estivesse morto. Porém, no quarto ano apareceu para os trácios – e, dessa forma, as palavras de Sálmoxis pareceram plausíveis a eles. É o que afirmam ter ele feito. Quanto ao homem e sua câmara subterrânea, nem desacredito da história nem deposito nela grande fé – e creio que Sálmoxis tenha vivido muitos anos antes de Pitágoras.(p.98)
(Heródoto, Histórias IV, 95-96)
Platão menciona Pitágoras uma única vez:
Ora, mas se Homero não prestou serviços públicos, conta-se que tenha presidido, durante sua vida, a educação particular de alunos que amavam sua companhia e que transmitiram a seus descendentes um modo de vida homérico – a exemplo de Pitágoras, que, de sua parte, foi particularmente alvo de afeição por conta disso e cujos sucessores ainda hoje mencionam um modo de vida pitagórico pelo qual parecem sobressair em relação aos outros homens? (p. 98 e 99)
(Platão, República, 600AB)
Isócrates, o orador, que foi contemporâneo de Platão, oferece o seguinte relato:
Não suo o único nem o primeiro homem a ter observado [a natureza pia dos egípcios]: muitos, assim no presente como no passado, fizeram isso, incluindo Pitágoras de Samos, que foi para o Egito e estudou com os egípcios. Foi ele o primeiro a trazer a filosofia para a Grécia, e seu interesse concentrava-se em particular, de modo mais manifesto do que qualquer outra pessoa, em questões relacionadas a sacrifícios e purificações rituais, considerando que mesmo que tal não lhe granjeasse vantagem alguma por parte dos deuses, ao menos lhe traria uma elevada reputação entre os homens. E foi o que aconteceu. Pois de tal modo sobrepujou aos demais em reputação que todos os jovens varões desejaram ser seus discípulos, enquanto aos mais idosos comprazia mais ver seus filhos em companhia dele do que cuidando de seus próprios interesses. Tampouco podemos nós desconsiderar tal julgamento; pois que mesmo hoje em dia aqueles que afirmam ser discípulos dele recebem por seu silêncio maior admiração do que os que contam com a mais alta reputação por sua oratória. (p. 99)
(Isócrates, Busíris, 28-29)
Algumas das lendas envolvendo Pitágoras foram reunidas por Aristóteles em sua obra perdida Sobre os Pitagóricos. A seguir, uma amostra significativa:
Pitágoras, o filho de Mnesarco, primeiramente estudou matemática e os números, mas depois também se deixou levar pelos milagres operados por Ferécides. Quando, em Meta-ponto, um navio cargueiro se aproximava do porto e a população orava para que a embarcação atracasse com segurança, em razão de sua carga, ergueu-se ele e proferiu: “vereis que essa nau carrega um cadáver”. De outra feita, em Caulônia, conforme as palavras de Aristóles, <previu o aparecimento da ursa branca; e Aristóteles> em seus escritos sobre ele narra diversos episódios, incluindo aquele sobre a víbora da Toscana que o ferroou de volta e matou. Predisse, ainda, aos pitagóricos a contenda que estava a caminho – motivo que o levou a deixar Metaponto sem ter sido notado por ninguém. E enquanto atravessava o rio Casas em companhia de outros, ouviu uma voz sobre-humana dizer “Salve, Pitágoras” – e os que ali se encontravam foram tomados pelo assombro. E certa ocasião apareceu igualmente em Crotona e Metaponto no mesmo dia e no mesmo horário. De certa feita, quando ocupava um assento no teatro, ergueu-se, segundo conta Aristótels, e expôs á platéia sua coxa, que era forjada em ouro. Contam-se diversos episódios paradoxais a seu respeito; porém, como não pretendo ser um mero transcritor, basta de Pitágoras. (p. 99 e 100) (Apolônio, Histórias Maravilhosas, 6)
Um vasto corpo de ensinamentos veio a ser atribuído a Pitágoras. Dividem-se eles em duas categorias, a matemático-metafísica e a moral – nas palavras do poeta Calímaco, Pitágoras
Foi o primeiro a traçar triângulos e polígonos, a *bisseccionar* o círculo – e a ensinar aos homens a abstinência das coisas vivas. (p. 100) (Iambos, fragmento 191.60-62, Pfeiffer)
A maior parte dos estudiosos modernos são justificadamente céticos quanto a essas atribuições, e seu ceticismo nada tem de recente. O melhor comentário da Antiguidade sobre as doutrinas de Pitágoras pode ser encontrado em uma passagem de Porfírio:
Pitágoras angariou uma grande reputação: conquistou muitos seguidores na própria cidade de Crotana ( tanto homens como mulheres, uma das quais, Tenao, alcançou alguma notoriedade), e muito do território estrangeiro próximo, tanto reis como nobres.Ninguém pode precisar com segurança o que dizia aqueles que o acompanhavam; pois que estes guardavam um silêncio fora do comum. Entretanto, tornou-se bastante conhecido de todos que dizia, primeiro, ser a alma imortal;em seguida, que esta se transfigura em outras espécies animais; e, ainda, que há períodos em que tudo aquilo que já aconteceu torna a acontecer, não havendo coisa alguma inteiramente nova; e que todas as coisas vivas deveriam ser consideradas como pertencentes a uma única espécie.Pitágoras parece ter sido o primeiro a introduzir tais doutrinas na Grécia. (p.101) ( Porfírio, Vida de Pitágoras, 19)
A teoria da metempsicose, ou da transmigração da alma, é implicitamente atribuída a Pitágoras por Xenófanes no texto acima citado. Heródoto também faz menção a ela:
Foram os egípcios os primeiros a enunciar a idéia de que a alma é imortal e que, quando o corpo morre, ela se instala em outro animal que naquele momento esteja vindo á luz; e depois de já haver percorrido todas as criaturas da terra, do mar e do ar, torna a entrar no corpo de um homem que naquele momento esteja vindo á luz; e nesse ciclo dispende a alma três mil anos. Alguns dos gregos – uns mais cedo, outros mais tarde – enunciam essa idéia como sendo de sua própria autoria: conheço seus nomes, mas abstenho-me de mencioná-lo (p.101 e 102) (Heródoto, História II, 123)
Os nomes que Heródoto esquivamente se abstém de mencionar teriam incluído o de Pitágoras. Duas passagens ulteriores merecem ser citados, ainda que pertençam ao material legendário.
Heráclides do ponto relata que [Pitágoras] conta de si mesmo o seguinte episódio: veio outrora ao mundo como Atalides e foi considerado o filho de Hermes. Hermes convidou-o a escolher tudo aquilo que desejasse, exceto a imortalidade; assim, pediu ele que, vivo ou morto, pudesse recordar de tudo quanto lhe acontecera. Assim, quando em vida recordava-se de tudo e quando morria guardava a mesma memória. Algum tempo mais tarde veio a ser Euforbo e foi ferido por Menelau. Euforbo costumava contar que no passado fora Atalides e que adquirira de Hermes o dom da recordação, além de aprender sobre a circulação de sua alma – como ela havia circulado, por que plantas e animais havia passado, o que sua alma sofrera no Hades e o que experimentavam outras almas. Quando morreu Euforbo, sua alma transmigrou para Hermotimo, que, por sua vez, quais dar uma prova, de modo que foi para Brânquidas, entrou no templo de Apolo e apontou para o escudo dedicado por Menelau (dizia que Menelau havia dedicado o escudo do Apolo em seu regresso marítimo de Tróia); o escudo, por aquela ocasião, já estava deteriorado e tudo o que restara era o ornamento de marfim. Quando Hermotimo morreu, tornou-se Pirro, o pescador délio; e novamente lembrou-se de tudo – que primeiro fora Atalides, depois Euforbo, depois Hermotimo e então Pirro. Quando Pirro morreu, tornou-se Pitágoras e recordava-se de tudo o que acabo de relatar.(p.102) (Diógenes Laércio, Vidas dos Filósofos VIII, 4-5)
Pitágoras acreditava na metempsicose e considerava a ingestão de carne algo abominável, afirmando que as almas de todos os animais instalam-se em diferentes animais após a morte. Ele próprio costumava dizer que recordava ter sido, nos tempos troianos, Euforbo, filho de Panto, que foi morto por Menelau. Dizem que certa ocasião em que se encontrava em Argos avistou um escudo dos espólios de Tróia preso á parede e se desfez em lágrimas. Quando os argivos indagaram-lhe o motivo de tal emoção, respondeu que aquele escudo fora utilizado por ele próprio em Tróia quando era Euforbo. Os argivos não lhe deram crédito, julgando que tivesse perdido a razão, mas Pitágoras afirmou que providenciaria um autêntico sinal que comprovasse suas palavras: na parte interior do escudo estava escrito,em letras arcaicas, o nome EUFORBO. Dada a natureza extraordinária de sua afirmação, insistiram eles em que o escudo fosse removido – e resultou que na parte interior de fato encontrava-se a tal inscrição. (p.103) (Diodoro, História Universal X, vi 1-3)
A teoria da transmigração foi posteriormente adotada por Empédocles: outros textos serão encontrados no capítulo dedicado a ele.
A idéia da eterna recorrência teve uma larga difusão no pensamento helênico subseqüente. É atribuída aos “pitagóricos” em uma passagem de Simplício:
Também os pitagóricos eram efeitos a dizer que numericamente as mesmas coisas se repetem de modo indefinido. Será proveitoso reproduzir uma passagem do terceiro livro da Física de Eudemo, no qual ele parafraseia as doutrinas desses filósofos:
Poderíamos perguntar-nos se é ou não verdade que um mesmo momento possa se repetir, como asseveram alguns. Atualmente dizemos que as coisas são “as mesmas” de diferentes maneiras: as coisas semelhantes em gênero recorrem claramente – por exemplo, o verão e o inverno e as demais estações e períodos; também os movimentos recorrem de maneira idêntica – porquanto o sol completa os solstícios e os equinócios e os outros movimentos. Mas se formos dar crédito aos pitagóricos e sustentar que as coisas idênticas em número costumam recorrer – que você estará sentado aqui e eu falarei com você, segurando esse bastão, e assim por diante com respeito a todo o resto -, então é plausível supor que mesmo momento também há de recorrer.(p.103 e 104) ( Simplício, Comentário á Física, 732.23-33)
A eterna recorrência, tal como a metempsicose, será encontrada novamente com referência a Empédocles.
7. Xenófanes
Escreveu em versos, tanto elegíacos como iâmbicos, contra Hesíodo e Homero, censurando-os pelo que haviam dito dos deuses. Também recitava seus próprio poemas. Conta-se que teria discordado de Tales e Pitágoras e que teria investido contra Epimênides. Viveu até uma idade avançada, como ele mesmo conta:
Ora por sessenta e sete anos tem meu pensamento se disseminado pelo solo da Grécia; e desde meu nascimento outros vinte e cinco devem ser acrescentados a estes se é que consigo me pronunciar com fidelidade sobre essas questões. [21 B 8] (P.109 e 110) ( Diógines Laércio, Vidas dos Filósofos IX, 18)
Segundo alguns, Xenófanes assume essa posição cética, asseverando que tudo é inapreensível, quando escreve: E homem algum jamais testemunhou a clara verdade, e ninguém tampouco poderá conhecer acerca dos deuses e acerca de tudo quanto falo; pois ainda que efetivamente consiga expressar-se com toda verdade , não obstante, ele próprio não se dera conta de tal; todavia a crença reina em toda parte. [B 34] (P.110)
(Sexto Empírio, Contra os Matemáticos XII, 49)
Amônio usou como preâmbulo de suas observações, como de hálito, um verso de Xenófanes:
Que se acredite nessas coisas como análogas á verdade, [B 35] convidando-nos a declarar e dizer aquilo em que acreditávamos.(p.110) (Plutarco, Questões de Convivas, 746B)
Nenhuma terminação comparativa em –on apresenta um penúltimo úpsilon; portanto o glusson [´mais doce] de Xenófanes é digno de nota:
Não tivesse a divindade feito o louro mel, consideraríamos o figo bem mais doce. [B 3838] (P.111) (Herodiano, Das Singularidades da Linguagem, 946.22-24)
Xenófanes:
Não foi desde o início que os deuses revelaram tudo aos mortais, mas no devido tempo, através da investigação, eles aprimoram suas descobertas. [B 18] (P.111)
(Estobeu, Antologia I, viii 2)
[Os mitos dos teólogos e poetas] estão coalhados de blasfêmias; esta é a razão por que Xenófanes, ao criticar Homero e Hesíodo, diz:
Aos deuses atribuíram Homero e Hesíodo tudo quanto entre os homens é vergonhoso e digno de censura – roubo, adultério e logro mútuo. [B 11] (P. 111) (Sexto Empírico, Contra os Matemáticos IX, 193)
Xenófanes de Cólofon, insistindo em que deus é único e incorpóreo, diz:
Existe um deus, maior entre os deuses e os homens, e que não se assemelha aos mortais nem na forma nem em pensamento. [B 23]
E ainda:
Os mortais, no entanto, imaginam que os deuses passam pelo nascimento, e que possuem as vestes, a fala e as formas como as deles.[B 14]
E ainda: mas se as vacas, os cavalos e os leões tivessem mãos ou conseguissem desenhar com suas mãos e fazer as coisas que os homens podem fazer, os cavalos desenhariam seus deuses com formas eqüinas, as vacas com formas bovinas, e dariam a seus corpos formas semelhantes ás suas próprias.[B15] (P.112)
(Clemente, Miscelâneas V, xiv 109.1-3)
Acreditam os gregos que os deuses não apenas são dotados de formas humanas como também de sentimentos humanos: da mesma forma que cada raça representa as formas divinas como semelhantes ás suas próprias, como diz Xenófanes de Cólofon (os etíopes fazendo-os escuros e de narizes achatados, os trácios, ruivos e de olhos azuis), também inventam-lhes almas semelhantes ás suas próprias. (p.112)
(Clemente, Miscelâneas VII, iv 22.1:cf B 16)
Se existe o divino, trata-se de uma coisa viva; em sendo vivo, enxerga – pois
Enxerga como um todo, pensa como um todo , ouve como um todo.[B 24]
Em enxergando, enxerga tanto as coisas brancas como as pretas. (p.113)
(Sexto Empírico,Contra os Matemáticos IX, 144)
Diz Teofrasto que Xenófanes de Cólofon, o instrutor de Parmênides, supunha que o princípio originário, ou universo existente, era único, nem finito nem infinito, nem mutável nem imutável. Teofrasto admite que a relação de suas doutrinas pertence a uma investigação diversa do estudo da natureza; porquanto Xenófanes dizia que tal universo único era a divindade.Demonstra o caráter único da divindade baseando-se no fato de ser ela a mais poderosa entre todas as coisas; pois que se mais de uma houvesse, diz ele, todas teriam de possuir idêntico poder, porém a mais poderosa e melhor entre todas as coisas é a divindade.Demonstrou que ela é não-gerada, baseando-se no fato deque aquilo que é gerado deve sê-lo quer a partir daquilo que lhe é semelhante,quer do que lhe é dessemelhante; contudo, as coisas semelhantes, diz ele, não podem ser afetadas mutuamente ( porquanto não é mais conveniente que aquilo que é semelhante deva gerar do que ser gerado pelo que lhe é semelhante) e se é gerada a partir do que lhe é dessemelhante, então aquilo que é seria gerado a partir do que não é. Dessa forma, demonstrou que a divindade é não-gerada e eterna. Não é infinita nem finita, pois é o não-existente que é infinito (não possuindo nenhum começo, meio e fim), ao passo que é muitas coisas finitas, limitadas umas pelas outras. Ele rechaça a mudança e a imutabilidade de forma semelhante: é aquilo que não existe que é imutável ( pois que nada além nele se transforma e em nada se transforma ele), ao passo que é muitas coisas que se transformam (pois que uma coisa se transforma em outra). Por conseguinte, quando afirma que a divindade permanece no mesmo estado e não se modifica – permanece sempre no mesmo estado, sem se modificar ao mínimo, tampouco lhe é conveniente mover-se ora para cá, ora para acolá [B26]
- não está querendo dizer que se mantém em repouso dado o caráter estacionário que é o oposto da mudança e da imobilidade. Segundo Nicolau de Damasco em sua obra Sobre os Deuses, Xenófanes sustenta que o princípio originário é finito e esférico. Todavia, é evidente, a partir do que expus, que ele demonstra não ser nem infinito nem finito. ([Alexandre supõe que] é finito e esférico porque [Xenófanes] afirma que é semelhante em todas as direções.) E diz que seu pensamento abarca todas as coisas, quando escreve:
Mas sem esforços a tudo ele governa com seu pensamento.[B 25] (P.113 E 114)
(Simplício, Comentário á Física, 22.26-23.20)
Porfírio afirma que Xenófanes sustentava serem o seco e o úmido – isto é, a terra e a água – princípio originários, e cita um exemplo que indica ‘isso:
Tudo quanto se desenvolve e é gerado é terra e água. [B 29] (p. 114)
(Filópono, Comentário á Física, 125.27-30)
Xenófanes, segundo alguns, sustenta que tudo originou-se da terra:
Porquanto todas as coisas provêm da terra e na terra tudo encontra seu termo. [B27]
...o poeta Homero advoga que tudo originou-se de duas coisas, terra e água... e, segundo alguns, Xenófanes de Cólofon concorda com ele. Pois que afirma:
Pois todos fomos criados da terra e da água. [B 33] (P.114)
(Sexto Empírico, Contra os Matemáticos X, 313-314)
Xenófanes em Sobre a Natureza:
O mar é a fonte da água e a fonte dos ventos; pois nem nas nuvens <teria a força dos ventos se originando, bafejando para fora>a partir do interior, sem o vasto oceano, nem as correntes dos rios nem a água das chuvas que se derramam pelo ar; mas é o vasto oceano que gera as nuvens, os ventos e os rios. [B 30] (p.115)
(Escólio de Genebra sobre Homero, Ilíada XXI, 196)
Xenófanes considera que a terra não se encontra suspensa, mas que desce ad infinitum; pois afirma:
Da terra, este, o limite superior, é visto aos nossos pés próximo ao ar; mas abaixo, ela prossegue rumo ao infinito.[B 28] (p. 115)
(Aquíles, Introdução a Arato, 4)
Dever-se-ia compreender o sol como “transitando acima”, visto que passa sempre por sobre a Terra – como penso que Xenófanes de Cólofon também afirma:
E o sol, passando acima e aquecendo a terra...[B311] (P.115)
(Heráclito, Questõess Homéricas, 44.5)
Diz Xenófanes:
E em certas grutas [speatessi] a água goteja...[B 37]
Porém, a forma ocorre. (p.115)
(Herodiano, Das Singularidades da Liguagem, 936.18-20)
Lembremos que Xenófanes descreve o arco-íris em seus hexâmetros da seguinte maneira:
O que os homens chamam de Arco-íris é também uma nuvem, púrpura, escarlate e amarela para ser contemplada. [B32] (P.115)
(Eustátio, Comentário á Ilíada XI, 24)
Diz ele que nada é gerado ou destruído ou se transforma, e que o universo é uno e imutável. Também afirma que a divindade é eterna, única e homogênea em todos os sentidos, além de limitada, esférica e possível de percepção em todas as suas partes.
O Sol é gerado diariamente a partir de pequenas centelhas que se congregam. A Terra é infinita e não circunda nem pelo ar nem pelos céus. Existe um número infinito de sóis e luas. Tudo é criado a partir da Terra.
Disse ele que o mar é salgado porque diversas misturas fluem conjuntamente nele. (Metrodoro sustenta que é salgado porque é filtrado na terra, porém Xenófanes considera que a terra mistura-se com o mar.) Afirma que a terra, com o tempo, é dissolvida pela umidade, reivindicando como prova o fato de as conchas serem encontradas na parte intermediária do solo e sobre as montanhas; diz também que nas pedreiras de Siracusa encontraram-se impressões de peixes e algas, em Paros a impressão de uma folha de louro a grande profundidade na rocha, e em Malta formas de todas as criaturas marítimas. Afirma que foram formadas muito tempo atrás, quando tudo estava coberto de lama – as impressões secaram na lama. Todos os homens são destruídos quando a terra é precipitada para o mar transformando-se em lama; eles então começam a renascer – e é este o fundamento de todos os mundos. (115 e 116)
(Hipólito, Refutação de Todas as Heresias I, xiv 2-6)
13. O Pitagorismo do Século V
Os seguidores de Pitágoras na Itália meridional aparentemente se organizaram em sociedades secretas – uma espécie de franco-maçonaria. Eram praticantes de um certo tipo de vida comunitária; pois
[Pitágoras], segundo Timeu, foi o primeiro a dizer que os haveres de amigos devem ser mantidos em comum e que amizade é sinônimo de igualdade. E seus Discípulos contribuíam, com seus bens, para um fundo comum.(p.225)
( Diógenes Laércio, Vidas dos Filósofos XIII, 10)
Naquela época, nas regiões da Itália então conhecidas como Magma Grécia, os locais de reunião dos pitagóricos foram incendiados, seguindo-se uma turbulência estrutural generalizada – um evento previsível, uma vez que os líderes de cada pólis haviam sido, inadvertidamente assassinados. As cidades gregas dessas regiões viram-se tomadas por carnificinas, revoluções e tumultos de toda espécie. (p.225 e 226)
(Políbio, Histórias II, xxxix 1-3)
Eram duas as modalidades de sua filosofia; pois que havia duas espécie de estudiosos que a praticavam, os aforistas e os cientistas.Os aforistas tinham permissão do outro grupo para serem pitagóricos, mas não permitiam que os cientistas fossem pitagóricos, alegando que os estudo destes inspiravam-se não em Pitágoras, mas em Hípaso. (Dizem alguns que Hípaso era natural de Crotona e outros que vinha de Metaponto.)
A filosofia dos aforistas consiste em aforismos não-comprovados e não-debatidos que regulam a ação do indivíduo segundo determinados preceitos, e busca preservar os outros ensinamentos transmitidos [por Pitágoras] na qualidade de doutrinas divinas. Não pretendem dizer coisa alguma de novo, tampouco consideram que devam dizer o que quer que seja, mas sustentam que são mais aptos ao saber aqueles dentre seus membros que aprenderam maior número de aforismos.
O conjunto desses chamados aforismos divide-se em três tipos: alguns deles endicam o que vem a ser determinada coisa; outros, qual a expressão máxima de determinada coisa, e outros como se deve ou não proceder.
Aqueles que indicam o que vem a ser determinada coisa são da seguinte espécie: Quais são as Ilhas dos Bem-Aventurados? O sol e a lua. – O que vem a ser o oráculo de Delfos? – O tetractys, ou a harmonia na qual cantam as sereias.
Os que tratam da expressão máxima de determinada coisa: O que é o mais justo? – O sacrifício. – O que é o mais sábio? – o número (e, em segundo lugar, aquilo que atribui nomes as coisas). Qual a mais sábia de nossas criações? – A medicina. – O que há de mais primoroso?- A harmonia. – O que é mais poderoso? – A sabedoria. – Qual o bem maior? – A felicidade. – Qual o dito mais verdadeiro? – Que os homens são infortunados ...
Os aforismos indicando como se deve ou não proceder são da seguinte espécie: o individuo deve procriar (pois deve deixar servidores dos deuses em seu lugar); o indivíduo deve calçar primeiro o pé direito; não se deve caminha pelas estradas principais, mergulhar coisas nas fontes ou banhar-se em balneários públicos (porquanto em todos esses casos não se pode saber se os demais companheiros são puros). E há outros como:não se deve ajudar quem quer que seja a livrar-se de um fardo (pois não devemos tornar-nos promotores da indolência), mas ajudá-lo a arca com seu fardo. Não se deve copular visando a procriação com uma mulher que esteja usando ouro. Não se deve falar no escuro. As libações aos deuses devem ser vertidas pela parte do cálice mais próxima ao cabo – para melhor selar o juramento e para que ninguém venha a beber do mesmo lugar. Não se deve exibir a imagem de um deus como um selo no anel, a fim de que esta não venha a ser profanada; pois é uma imagem que se deve erguer no lar. Não se deve mover ação penal contra a própria esposa; pois ela uma suplicante (eis por que nas cerimônias nupciais as mulheres são conduzidas a partir do interior da casa e pela mão direita). Não se deve dar conselhos que não sejam para o bem de quem recebe; pois aconselhar é sagrado. O trabalho é benéfico; os prazeres de toda espécie são perniciosos; pois aqueles que vêm em busca de punição devem ser punidos. É preciso oferecer sacrifícios e adentrar os templos com os pés descalços. Não se deve virar para o lado no interior de um templo; pois não se deve tratar os deuses como digressões. É benéfico submeter-se a jejus, receber ferimentos na fronte e depois morrer: o oposto é mau. As almas humanas se instalam em todos os animais, exceto naqueles aos quais é lícito sacrificar; eis por que se deve ingerir tão-somente os animais sacrificais próprios a serem ingeridos e nenhum outro animal. Alguns dos aforismos são dessa natureza. Os mais abrangentes, todavia, estão relacionados aos sacrifícios em ocasiões diversas, ao modo como devem ser oferecidos, ás demais formas de honrar-se os deuses, á nossa retirada desta vida, e ao sepultamento e como devemos ser sepultados. Em alguns casos é acrescida uma explicação – por exemplo, que é preciso procriar para deixar um servo dos deuses em nosso lugar. Outros aforismos, porém, não trazem explicação alguma. Quanto aos acréscimos, alguns serão considerados como atribuídos de maneira natural, outros como sendo artificiais – por exemplo, quando se diz que não se deve despedaçar o pão, por ser desvantajoso com respeito a nosso julgamento no Hades. As explicações con-jecturiais acrescidas a tais aforismos não são pitagóricas, mas provêm de certos indivíduos alheios ao círculo que empreendem sofisticadas tentativas de apresentar-lhe razões conjectuais. Por exemplo, no caso que acabamos de mencionar (por que não se deve despedaçar o pão), alguns alegam que não se deve partir aquilo que promove a reunião das pessoas (nos idos antigos, após a introdução do costume estrangeiro, todos amigos reuniram-se em torno de uma única fatia de pão), outros, que não se deve fazer um tal juramento no início, despedaçando e esfarelando o pão.
Por sua vez, todos os aforismos que tratam de como se deve ou não proceder estão concentrados no divino, sendo o divino sua fonte. Em seu conjunto, o modo de vida que pregam é organizado com vistas á obediência ao divino. É esse o fundamento lógico de sua filosofia. Pois consideram um despropósito que os homens busquem o bem em outra fonte que não os deuses: é como se alguém vivesse em uma monarquia e prestasse serviço a algum subalterno entre os cidadãos, ignorando o soberano de todos – os que, segundo eles, é exatamente o que fazem os homens. Pois, uma vez que a divindade existe e reina soberanamente sobre tudo quanto há, é evidente que devemos pedir pelo bem ao soberano; pois todos oferecem boas coisas áquelas a quem amam e em quem se comprazem, e o oposto áqueles perante os quais apresentam disposição contrária. (p.235,236,237,238 e 239)
(Iâmblico, Sobre o Modo de Vida dos Pitagóricos, 81-87)
[Os egípcios] não trazem objetos de lã para dentro de seus templos e tampouco são sepultados com eles: tal atitude afronta o sagrado. Nesse sentido, estão de acordo com aqueles que são chamados órficos e pitagóricos. Pois que constitui uma afronta ao sagrado, para os partícipes desses rituais, serem sepultados em vestes de lã. Existe uma narrativa sacra que conta a esse respeito. (p.239)
(Heródoto, Histórias II 81)
Pois a maior parte das pessoas presumia que o vocábulo “favas” estivesse sendo empregado, como normalmente o é, em referência ao vegetal. Porém aqueles que se debruçaram mais atentamente e de forma mais investigativa sobre os poemas de Empédocles asseveram que na passagem referindo o termo “favas” significa os testículos: eram eles denominados favas, de maneira velada e simbólica, ao estilo pitagórico, por serem os causadores da gestação [o termo grego kuein, “gestar”, é elegoricamente relacionado a kuamos] e imprimirem o ímpeto para a reprodução humana. No referido verso, portanto, não pretende Empédocles que os indivíduos se abstenham da ingestão de favas, mas dos excessos nos prazeres carnais.
Também Plutarco, que desfruta considerável autoridade em questões eruditas, afirma, no livro primeiro de seu Sobre Homero, que Aristóteles escreveu exatamente o mesmo acerca dos pitagóricos – a saber, que não se abstinham de alimentar-se de animais (exceto algumas espécies de carnes). Considerando que tal revelação é motivo de surpresa, transcrevo as palavras do próprio Plutarco.
Aristóteles afirma que os pitagóricos abstêm de estranhas, coração, águas-vivas e algumas outras coisas dessa espécie, mas que se alimentam do restante:
(A água-viva é uma criatura marinha a qual denominamos ouriço-do-mar.) Em seu escrito Questões de Convivas, no entanto, afirma Plutarco que os pitagóricos igualmente se abstem dos salmonídeos. (p.240 e 241)
(Aulo Gélio, Noites Áticas IV, xi 1-13)
Á mesma época que [Leucipo e Demócrito] e anteriormente a eles, os chamados pitagóricos dedicaram-se á matemática: foram eles os primeiros a fazer uso dela, e tendo sido formados nessa disciplina, a imaginar que seus princípios fossem os princípios de todas as coisas existentes. Uma vez que os números são por natureza os primeiros dentre esses princípios, e uma vez que julgaram perceber nos números diversas semelhanças com as coisas existentes e que são geradas ( bem mais do que fogo, na terra e na água) – por exemplo, que tal modificação de números é a justiça, tal outra alma e a razão, tal outra oportunidade, e assim por diante para tudo quanto há (também observaram que as modificações e proporções de harmonias dependem de números ): como, portanto, todas as outras coisas se lhes afigurassem como tendo sido moldadas, em sua natureza, em bases numéricas, enquanto os números pareciam ser as primeiras coisas de toda a natureza, imaginaram eles que os elementos dos números fossem os elementos de tudo quanto existe, e que o firmamento fosse, por inteiro, harmonia e número. Tudo quanto nos números e harmonias era concorde com as propriedades e as partes dos céus e com a totalidade do mundo criado, foi por eles reunido e organizado em um sistema; e se alguma lacuna se fizesse notar algures não tardavam em suprimi-la com acréscimos, de tal modo que o conjunto de sua teoria resultasse coerente. Por exemplo, uma vez que o número dez é tido como perfeito e que abarca a totalidade da natureza dos números, advogam eles que os corpos que transitam pelos céus são em número de dez; e uma vez que tão-somente nove são visíveis, conceberam, pois, a contraterra como sendo o décimo.
Já apresentei um registro mais detalhado dessas questões em outra parte: meu propósito aqui é compreender, também no caso dos pitagóricos, quais os pricípios originários por eles postulados e como estes se coadunam com as causas que descrevi. Também eles crêem, evidentemente, ser o número um princípio originário quer enquanto matéria para as coisas existentes, quer enquanto suas propriedades e estados; sustentam que os elementos do número são o ímpar e o par, um destes sendo finito e o outro infinito; que o número 1 é derivado de ambos os elementos (pois é ao mesmo tempo par e ímpar) e que os números derivam do número 1; e que o firmamento inteiro, como já disse, são números.
Outros membros da mesma escola afirmam que os princípios são em número de dez e que se apresentam em pares coordenados: limite-infinito, ímpar-par, unidade-quantidade, direito-esquerdo, masculino-feminino, repouso-movimento, retilíneo-curvilíneo, luz-trevas, bem-mal, quadrado-retangular...O modo como [tais princípios] se relacionam aos tipos de causa que descrevi não é indicado de maneira clara por eles. Aparentemente, contudo, dispõem os elementos sob a égide da matéria; pois afirmam que são inerentes ás substâncias que a partir deles são compostas e moldadas. (p. 242, 243 e244)
(Aristóteles, Metafísica, 985b23-98ª26, 986b4-8)
Eudemo, o proprietário, atribui aos pitagóricos a descoberta desse teorema (o de que os ângulos internos de todo triângulo equivalem a dois ângulos retos), e afirma que demonstram da seguinte maneira sua proposição: seja ABC um triângulo e seja traçado o seguimento DE passando por A, paralelamente a BC.Então, uma vez que BC e DE são paralelos, os ângulos alternos são equivalentes; assim DAB é igual a ABC e EAC a ACB. Seja acrescido BAC em comum. Então, os ângulos DAB, BAC e CAE, i.e., os ângulos DAB e BAE, dois ângulos retos, equivalem aos três ângulos dos triângulos ABC. Portanto os três ângulos do triângulo equivalem a dois ângulos retos. (p.244)
(Proclo, Comentário a Euclides, 379.1-16)
O mais célebre elemento da matemática pitagórica é o teorema ainda hoje conhecido como teorema de Pitágoras:
“Emum triângulo o quadrado da hipotenusa equivale á soma dos quadrados dos catetos”: a darmos ouvidos áqueles que se comprazem em recordar a antiga história relacionada ao tema, veremos que atribuem esse teorema a Pitágoras, afirmando que teria sacrificado um boi por ocasião de sua descoberta. (p.245)
(Ibid.,426. 1-9)
Fica claro a partir disso que a afirmação de que [os corpos celestes] produzem uma harmonia enquanto se movem, sendo concordes os seus sons, constitui uma teoria interessante e engenhosa, todavia falsa. Alguns imaginam que quando corpos de tal dimensão se movem devem necessariamente produzir um som, uma vez que tal se verifica com os corpos em nosso meio, ainda que desprovidos da mesma magnitude e que não se movem com tal velocidade. Quando o Sol e a Lua, e também os astros de mesmo número e volume, movem-se com velocidade, é impossível que não produzam um som de extraordinária magnitude. A partir desse postulado, e supondo que suas velocidades, a julgar por suas distâncias, estão na mesma proporção que os acordes, afirmam eles que uma vez que os corpos celestes se movem em círculo, produzem eles um som harmônico. Considerando que parece injustificável que não ouçamos tal som, atribuem eles a causa disso ao fato de que o ruído nos acompanha desde o instante de nosso nascimento, de sorte que não pode ser identificado por referência ao seu contrario, o silêncio (pois que o som e o silêncio são discriminados por referência mútua). O homem, assim, se encontra em idêntica condição aos ferreiros, cujo hábito torna-os impermeáveis ao som. (p.245 e 246) (Aristóteles, Sobre os Céus, 290b12-29)
Todos quantos são tidos como responsáveis por uma significativa contribuição á [filosofia natural] dedicaram-se ao estudo do infinito e todos o postulam como uma espécie de princípio originário das coisas existentes. Alguns, tal como os pitagóricos e Platão, fazem dele um princípio em si, presumindo que o infinito existe em si enquanto uma substância e não como atributo de alguma outra coisa. Os pitagóricos situam-no entre os objetos perceptíveis (pois não sustentam a separação dos números), e afirmam que o espaço exterior aos céus é infinito.(p. 246)
(Aristóteles,Física, 203 a1-8)
Também os pitagóricos afirmavam a existência do vazio e que este penetra os céus oriundos do sopro infinito, como se os céus efetivamente aspirassem o vazio que diferencia os entes naturais, sendo uma espécie de separação e distinção entre coisas contíguas. Sustentam eles que tal ocorre primeiramente entre os números; pois o vazio diferencia-lhes a natureza. (p. 246)
( Ibid., 213b22-27)
No livro quarto de sua Física, Aristóteles escreveu:
Também os pitagóricos afirmavam a existência do vazio e que este penetra os céus oriundo do sopro infinito, como se os céus o aspirassem.
E no livro primeiro de sua obra Sobre a Filosofia de Pitágoras, escreveu que o céu é uno e que do infinito absorve o tempo, o sopro e o vazio que diferencia eternamente os lugares de cada coisa. (p. 246 e 247)
(Estobeu, Antologia I, xviii 1C)
O que sustentam os pitagóricos parece ter o mesmo significado. Pois alguns deles asseveravam que as partículas de poeira no ar são alma, enquanto outros, que aquilo que as move é alma. Já explicamos como podemos percebê-las em incessante movimento, ainda que reine a mais completa tranqüilidade. (p.247)
( AristóteleS, Sobre a Alma, 404 a16-20)
Os aforistas e os cientistas parecem encontrar um ponto de convergência no campo do misticismo numérico. Alguns pitagóricos entrelinham-se no jogo dos números com extravagante detalhismo
Nem sequer determinaram eles de que forma os números são a causa das substâncias e de sua existência. Serão eles limites (tal como o são os pontos das grandezas especiais)? – Eis como Eurito determinou qual número corresponde a cada coisa (este é o número do homem, aquele é o número do cavalo) – moldou ele as formas de plantas com pequenas pedras, da mesma forma como as pessoas dispõem números em quadrados e retâgulos. (p. 247)
(Aristóteles, Metafísica, 1092b8-13)
O centro da neurologia era ocupado pelo tetráctis ou “conjuntode quatro”, consistindo nos quatro primeiros números, cuja soma equivale á dezena. O dez é o número perfeito: nele estão contidas as importantes proporções musicais, e pode ser disposto de modo a formar um triângulo perfeito:
Os pitagóricos supostamente juravam
Em nome daquele que á nossa geração transmitiu o tetráctis, fonte das raízes da natureza em incessante fluxo. (p.247 e248)
(Iamblico, Sobre o Modo de Vida dos pitagóricos, 162)
Nenhum comentário:
Postar um comentário