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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Simone Weil Carta a um Religioso

 



(aulas de filosofia da religião 2009)

 

Síntese: Paolo Cugini

 

 

Quando leio o catecismo do Concílio de Trento me parece de não ter nada em comum com a religião que ali está exposta. Quando leio o Novo Testamento, os místicos, a liturgia, quando vejo celebrar a missa, sinto como uma espécie de certeza que esta fé é a minha, ou mais precisamente o seria sem a distância que a minha imperfeição põe entre ela e mim... farei o elenco de um certo número de pensamentos que habitam em mim a anos  (pelo menos alguns deles) e são de obstáculos entre mim e a Igreja.

 

1. Se assumirmos o momento da história anterior a Cristo e suficientemente distante dele – por exemplo distante cinco séculos -, se além disso não levamos em conta aquilo que aconteceu depois, naquele momento Israel é menos participe de Deus e das verdades divinas de muitos povos circunvizinhos (Índia, Egito, Grécia, China). De fato, a verdade essencial sobre Deus é que Ele é bom. Crê que Deus possa ordenar aos homens atos atrozes de injustiça e de crueldade é o erro maior que podemos cometer falando dele.

Na Ilíade, Zeus não ordena nenhuma crueldade. Segundo os gregos, seus intercessores habitam em cada desgraçado que implora piedade. Iavé é o Deus dos exércitos. A história dos hebreus demonstram que não se trata apenas de astros, mas também dos guerreiros de Israel. Heródoto cita numerosos povos helênicos e asiáticos, mas destes só um tinha um Zeus dos exércitos. Esta blasfêmia era desconhecida a todos os outros. Os livros dos mortos dos egípcios, que tem pelo menos 3 mil anos – mas provavelmente muito mais -, é encharcado de caridade evangélica...

Os hebreus, que por quatro séculos viveram em contato com a civilidade egípcia, se recusaram de adotar este espírito de doçura. Eles queriam o poder... Isso deixaria crer que Israel aprendeu a verdade mais essencial sobre Deus (ou seja, que Deus é bom antes de ser poderoso) das tradições estrangeiras – caldeia, persa ou grega – e graça ao exílio.

 

3- A prova que o conteúdo do cristianismo existia antes de Cristo é que depois dele não aconteceram mudanças muito relevantes no comportamento dos homens.

 

9- Quando o Cristo disse: “Ensinai a todas as nações e levais a elas o anúncio” ordenava de levar um anúncio e não uma teologia... A Igreja levou demais frutos errados para que não tinha acontecido um erro no começo. A Europa foi desenraizada espiritualmente, cortada daquela antiguidade na qual todos os elementos da nossa civilidade tem origem; e, a partir do século XVI partiu para desenraizar os outros continentes.

Depois de vinte séculos, o cristianismo não se difundiu praticamente além da raça branca; o catolicismo é ainda mais limitado. A América ficou dezesseis séculos sem ouvir falar de Cristo e os seus povos foram destruídos entre as mais horríveis crueldades antes de ter o tempo de conhecê-lo. O zelo dos missionários não cristianizou a África, a Ásia e a Oceania, mas levou estas terras debaixo do domínio frio, cruel e massacrador da raça branca que acabou com tudo.

 

10- A ação missionária assim como é conduzida de fato (sobretudo depois da condenação da política dos jesuítas na China no século XVII) é errada, a não ser em alguns casos particulares. Os missionários, também se mártires, são acompanhados muito perto pelos canhões e pelas naves de guerra pra ser verdadeiros testemunhos do Cordeiro.

 

11- A religião Católica contém explicitamente verdades que outras religiões contém de forma implícita... As diferentes tradições religiosas autenticas são diferentes reflexos da mesma verdade, e talvez em igual medida preciosos.  Mas disso ninguém se dá conta, porque cada um vive uma só dessas tradições e percebe as outras do externo. Então uma religião se conhece só do interno, como os católicos justamente não se cansam de repetir aos não-crentes.

 

25- As lágrimas de um santo em situação de autêntica contemplação são sobrenaturais... A cruz sozinha me basta. Pra mim a prova, a coisa verdadeiramente milagrosa é a perfeita beleza das narrações da paixão, junto com algumas palavras fulgurantes de Isaías: “Injuriado, maltratado, não abria a sua boca”, e de São Paulo: “não considerou a igualdade com Deus como privilégio...ele se esvaziou... se fez obediente até a morte, a morte de cruz...”, “foi feito maldição”. É isso que me obriga crer.

Sem a condenação lançada pelo Concílio, a indiferença sobre os milagres não seria pra mim nenhum obstáculo, do momento em que a cruz produz sobre mim o mesmo efeito que sobre outros a ressurreição.

 

26- Os mistérios da fé não são um objeto pela inteligência enquanto faculdade que permite de agarrar ou de negar. Não pertence à ordem da verdade, mas a uma ordem superior. A única parte da alma capaz de um contato real com eles é a faculdade do amor sobrenatural. Só esta é então capaz de uma adesão a estes mistérios.

A tarefa das outras faculdades da alma, começando com a inteligência, é somente aquela de reconhecer que aquilo com o qual o amor sobrenatural entra em contato é real, que tais realidades são superiores aos objetos que elas podem captar; é de calar não apenas o amor sobrenatural acorda de modo atual na alma.

A virtude da caridade é o exercício do amor sobrenatural. A virtude da fé é a subordinação de todas as faculdades da alma à faculdade de amor sobrenatural. A virtude da esperança é uma orientação rumo a transformação depois da qual ela será inteiramente e exclusivamente amor. Para se subordinar à faculdade de amor as outras faculdades devem encontrar-se cada uma o próprio bem; de forma especial a inteligência, que é a mais preciosa depois do amor. E as coisas estão certamente assim. Quando a inteligência volta a exercitar-se de novo, depois de ter feito silencia para consentir o amor de invadir toda a alma, se encontra possuir mais luz do que antes, uma maior atitude a captar os objetos, as verdades que cabem a ele.

Não só isso: eu acho que este silêncio constitui pela inteligência uma educação que não tem comparação e permite a ela de captar verdades que de outra forma ficariam escondidas para sempre. Existem verdades que ficam ao alcance da inteligência, que ela pode colher, mas só depois de ter passado em silêncio através do intelegível.

A inteligência pode conhecer as vantagens dessa subordinação ao amor somente por experiência, a coisas feitas. Antes, não tem nenhum pressentimento. Não tem inicialmente nenhum motivo razoável de aceitar essa subordinação. Assim esta subordinação é algo sobrenatural, que só Deus opera.

O primeiro silêncio, longo apenas um instante, que se produz através de toda a alma em prol do amor sobrenatural é a semente jogada pelo Semeador, é o grão de mostarda quase invisível que um dia se tornará a Arvore da Cruz.

 

27- Ás prescrições das quais a Igreja pensou de contornar os mistérios da fé, em particular as suas condenações, se deve uma atitude permanente incondicionada de respeitosa atenção, mas não uma adesão. A adesão da inteligência não é mais devida à algo de qualquer. Porque não é mais de alguma forma algo de voluntário. Só a atenção é voluntária. Portanto só ela é matéria de obrigação.

 

28- Em matéria de fé, a jurisdição da Igreja é boa enquanto impõe à inteligência uma certa disciplina da atenção... mas ela é totalmente errada se impede a inteligência, na busca das verdades que a ela pertence, de utilizar com uma liberdade total da luz difundida na alma mediante a contemplação amorosa. A liberdade total no próprio âmbito é essencial à inteligência. A inteligência deve se exercer em total liberdade, senão deve calar. No seu âmbito a Igreja não tem nenhum direito de jurisdição, e portanto são ilegítimas, em particular, todas as “definições” nas quais se trata de provas.

No cristianismo até no começo existe um mal-estar da inteligência. Tal mal-estar é devido à maneira na qual a Igreja concebeu o seu poder jurisdicional, em particular o uso da formula “anathema sit”. Sempre que tiver o mal-estar da inteligência existe opressão do indivíduo da parte do social, que tende a tornar-se totalitário. No século XIII, sobretudo, a Igreja estabeleceu um começo de totalitarismo. Assim ela não é alheia de responsabilidade nos atuais acontecimentos. Os partidos totalitários se formaram por efeito de um mecanismo análogo ao uso da fórmula “anathema sit”. Esta fórmula e o uso que foi feito dela impedem a Igreja de ser Católica a não ser pelo nome.

 

29- Antes do Cristianismo, em Israel e fora de Israel, o número indeterminado de homens talvez foram longe tão quanto os santos cristãos no amor e no conhecimento de Deus, o mesmo vale, depois de Cristo, por aquela parte da humanidade que foram da Igreja Católica (“infiéis”, “heréticos”, “não-crentes”). E mais em geral é duvidoso que depois o Cristo tinha sido mais amor e o maior conhecimento de Deus na cristandade que em certos países não cristãos, como a Índia.

 

32- Se poderia formular um postulado: é falsa cada concepção de Deus incompatível como um movimento de caridade pura.

São verdadeiras em diferentes graus todas as outras. O amor e o conhecimento de Deus não são realmente separáveis, porque no Eclesiástico é dito: “O Senhor deu a sabedoria àqueles que o ama” (1,8).

 

35- A compreensão do cristianismo é quase impossível por causa do profundo mistério que envolve a história dos primeiros tempos.   

sábado, 29 de junho de 2024

Simone Weil ,Opressão e liberdade

 






editora: EDUSC ,2001

Síntese:  Paolo Cugini

                                                        1

                           Perspectivas  Vamos para  a  Revolução  Proletária?

 

     É chegado o momento, há muito previsto, em que o capitalismo está a ponto de ver seu desenvolvimento interrompido por limites. De qualquer maneira que interpretemos o fenômeno da acumulação, está claro o capitalismo significa essencialmente expansão econômica e que a expansão capitalista não está mais longe do momento em que se chocará contra os próprios limites da superfície terrestre.   (p.11)

    Quando um erro de quantidade atinge tais proporções, é possível acreditar se trata de um erro referente à qualidade, ou, em outras palavras, à própria natureza do regime cujas condições de existência se quer definir.   (p.15)

O outro fenômeno fundamental de nossa época, quero dizer, o fascismo, também não cabe mais facilmente que o estado russo nos esquemas do marxismo clássico.  (p.17)

 

                                                                  4

                      Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social      

    Se considerarmos outros aspectos da opressão capitalista, aparecem outras dificuldades ainda mais temíveis, ou, melhor dizendo, a mesma dificuldade, iluminada por uma luz mais crua. A força que possui a burguesia para explorar e oprimir reside nos próprios fundamentos de nossa vida social, e não pode ser anulada por nenhuma transformação jurídica e política. Essa força é, primeiro e essencialmente, o próprio regime da produção moderna, a saber, a grande indústria.  (p.59)

 

      Constatar que o regime capitalista esmaga milhões homens, isso não permite senão condená-lo moralmente; o quer constitui a condenação histórica do regime é o fato de que, depois de ter tornado possível o progresso da produção, ele o impede. A tarefa das revoluções essencialmente na emancipação não dos homens, mas das forças produtivas. Na verdade, está claro que, desde que estas tenham atingido um desenvolvimento suficiente para que a produção possa cumprir às causas de pouco esforço, as duas tarefas coincidem; e Marx supunha que tal é o caso na nossa época. Foi essa suposição que lhe permitiu estabelecer um acordo indispensável a sua tranqüilidade moral entre suas aspirações idealistas e sua concepção materialista da história.

 

            A seus olhos, a técnica atual, uma vez liberada das formas capitalistas da economia, pode dar aos homens desde já, bastante descanso para lhes permitir um desenvolvimento harmonioso de suas faculdades, e em consequência fazer desaparecer numa certa medida uma especialização degradante estabelecida pelo capitalismo; e sobretudo ulterior da técnica deve avaliar ainda mais a cada dia o peso da necessidade material, e por uma consequência imediata o da submissão social, até que a humanidade atinja uma estado propriamente paradisíaco, em que a produção mais abundante custaria um esforço insignificante, em que a antiga maldição do trabalho seria superada, enfim ,onde seria reencontrada a felicidade de Adão e Eva antes de seu pecado.   (p.61 62)

     O termo “religião” pode surpreender quando se trata de Marx; mas acreditar que nossa vontade converge com uma vontade misteriosa que estaria em ação no mundo e nos ajudaria a vencer, e pensar religiosamente, é acreditar na Providência. Aliás, o próprio vocabulário de Marx o prova, uma vez que contem expressões quase místicas, tais como “missão histórica do proletariado”. Essa religião das forças produtivas em nome da quais gerações de empresários esmagou as massas trabalhadoras sem o menor remorso constitui igualmente um fator de opressão no interior do movimento socialista; todas as religiões fazem do homem um simples instrumento de Providência e também o socialismo põe os homens a serviço do progresso histórico, isto é, do progresso da produção.  (p.64)

      Mas se o estado atual da técnica não basta para liberar os trabalhadores, pode–se ao menos razoavelmente esperar que ele esteja destinado a um desenvolvimento ilimitado  ,que não implicaria um crescimento ilimitado do rendimento do trabalho? É o que todo mundo admite, tanto entre os capitalistas quanto os socialistas, e sem o menor estudo prévio da questão; basta que o rendimento do esforço humano tenha aumentado de uma maneira inaudita séculos para que espere que esse crescimento prossiga no mesmo ritmo.   (p.66)

                                                   Análise da Opressão         

       Trata-se, em uma suma, de conhecer o que liga a opressão em geral e cada forma de opressão em particular ao regime de produção; dito de outra forma, de chegar a perceber o mecanismo da opressão, a compreender em virtude do que talvez ela pudesse teoricamente desaparecer.  (p.77)

      As causas da evolução social não devem ser mais procuradas em outra parte que não nos esforços quotidianos dos homens considerados como indivíduos. Esses esforços não se dirigem certamente para um lugar qualquer; eles dependem para cada um, do temperamento, da educação, da rotina, dos costumes, dos preconceitos, das necessidades naturais ou adquiridas do ambiente, e sobretudo, de uma maneira geral, da natureza humana, termo que, apesar de ser difícil de definir não é provavelmente vazio de sentido. Mas dada a adversidade indefinida dos indivíduos, Dado sobretudo que a natureza humana comporta entre outras coisas o poder de inovar, de criar, de superar-se , esse tecido de esforços incoerentes produziria qualquer coisa em termo de organização social, se ao acaso esse domínio não encontrasse limitado pelas condições de existência às quais toda sociedade deve se conformar sobre pena ser ou subjugada ou aniquilada. Essas condições de existência são mais freqüentemente pelos homens q elas submetem; elas agem não impondo aos esforços de cada um uma um direção determinada, mas condenando a serem ineficazes todos os esforços dirigidos nos caminhos que elas interditam.  (p.79-80)  

 

       Dentre todas as formas de organização que a história nos apresenta, muito mais raras são aquelas que aparecem como verdadeiramente livres de opressão: além disso, elas são muito mal conhecidas. Todas correspondem a um nível extremamente baixo da produção, tão baixo que, nelas, a divisão do trabalho é quase desconhecida, a não ser entre os sexos, e cada família não produz mais que uma necessidade de consumir. É claro, aliás, que uma tal condição material exclui forçosamente a opressão, uma vez que cada homem,obrigado a se alimentar sozinho, está incessantemente  às voltas com a natureza exterior; mesmo a guerra nesse estágio, é guerra de pilhagem e extermínio ,não de conquista porque faltam os meios para segurar a conquista e sobre tudo para tirar partido dela. O que é surpreendente não é que a opressão apareça somente a partir das formas mais elevadas da economia, é que ela sempre as acompanhe. Assim sendo, uma economia realmente primitiva e as formas econômicas mais desenvolvidas, não a somente diferença de grau, mas também de natureza.   (p.83)

 

    A opressão procede exclusivamente das condições objetivas. A primeira delas é a existência de privilégios; e não são as leis ou os decretos dos homens que determinam os privilégios, nem os títulos de propriedades; é a própria natureza das coisas. Algumas circunstâncias, quem correspondem em duvidas a etapas inevitáveis do desenvolvimento humano, fazem surgir forças que se interpõem entre os homens comuns e suas próprias condições de existência, entre o esforço e o futuro do esforço, e que são por sua própria existência, monopólio de alguns pelo fato que não podem ser repartidos entre todos; desde então esses privilegiados, embora dependam e a igualdade perece.  (p.85)

 

     De uma maneira geral, entre seres humanos, as relações de dominação e de submissão não sendo jamais plenamente aceitáveis, constituem sempre de um desequilíbrio sem remédio e que se agrava perpetuamente; assim ocorre mesmo no domínio da vida privada, onde o amor, por exemplo destrói todo o equilíbrio da alma desde que procure subordinar-se a seu objeto ou subordiná-lo. Mas ai pelo menos nada de exterior de opõe a que a razão volte a por ordem estabelecendo a liberdade e a igualdade; enquanto que as relações sociais, na media em que os próprios procedimentos, do trabalho e do combate excluem a igualdade. Parecem fazer pesar a loucura sobre os homens como uma fatalidade exterior. Pois pelo fato que não há jamais poder, mais uma corrida pelo poder, mas essa corrida é sem fim, sem limite, sem medida, também não há limite medidas nem para os esforços que ela exige; aqueles que a ela entrega, obrigado a fazer sempre mais que os rivais, quem para seu lado se esforçam para fazer mais que aqueles, devem sacrificar não somente a existência de escravos, mas se sua própria e de seus seres mais caros; é assim que Agamenon imolando sua filha revive nos capitalistas que, para manter seus privilégios, aceitam sem remorsos guerras capazes de arrebatar-lhe seus filhos.  (p.89)

      Assim, a corrida pelo poder submete todo mundo, tanto os poderosos como os fracos. Marx o percebeu bem no que se referem ao sistema capitalista.   (p.89)

       A lei de todas as atividades que dominam a existência social é, ao contrario exceção feita às sociedades primitivas -,que cada uma nela sacrifique uma vida humana, em si e em outrem, por coisas não constituem senão meios de viver melhor.Esse sacrifício se reveste de formas diversas, mas tudo se resume a questão do poder. O poder, por definição, não constitui senão um meio; ou, para dizer melhor, possuir um poder consiste em possuir meios de ação que ultrapassam a força tão restrita da qual o individua dispõe a sim mesmo. Mas a busca do poder, até pelo fato que é essencialmente impotente para apoderar-se de seu objetivo, exclui qualquer consideração de fim, e, por uma inversão inevitável, chega a ocupar o lugar de todos os fins. É essa inversão de relação entre o meio e o fim, é essa loucura fundamental que dá conta de tudo aquilo que há se insensato e de sangrento ao longo de toda história. A história humana é a história da escravidão que faz dos homens ,tanto opressores quanto oprimidos ,simples joguetes de instrumentos de dominação que eles próprios fabricam ,e sujeita assim a humanidade viva a ser a coisas das coisas insertas .

    Assim, não são os homens, mas as coisas, que dão a essa corrida vertiginosa ao poder seu limite e suas leis. Os desejos dos homens são impotentes para regulá-la.  (p.91)

   Um estudo científico da história deveria começar pela análise das reações exercidas a casa instante pelo poder sobre as condições que fixam objetivamente seus limites; e um esboço hipotético do jogo dessas reações é indispensável para guiar tal análise, aliás difícil demais diante de nossas possibilidades atuais. Algumas dessas reações são cocientes e desejadas.Todo poder se esforça conscientemente, na medida de seus meios, medida determinada pela organização social ,para melhorar em seu próprio domínio a produção e o controle; a história fornece inúmeros exemplos disso ,desde os faraós até os nossos dias, e é nisso que se apóia a noção de despotismo esclarecido.Em compensação, todo poder se esforça também, e sempre conscientemente,para destruir entre os rivais os meios de produzir e de administrar ,e é da parte deles o objeto de uma tentativa análoga . Assim, a luta pelo poder é ao mesmo tempo construtiva e destrutiva, e lava a ou um progresso ou a uma decadência econômica conforme vença a construção ou a destruição; e fica claro que uma determinada civilização a destruição se operará tanto maior quanto mais difícil for a um poder ampliar-se sem se chocar com poderes rivais de força quase igual. Mas às conseqüências indiretas do exercício do poder tem muito mais importância do que os esforços conscientes dos poderosos. Todo poder,pelo próprio fato de que se exerce ,estende até o limite do possível as relações sociais sobre as quais repousa; assim, poder militar multiplica as guerras, o capital comercial multiplica as trocas. (p.95 e 96)

                       Quadro Teórico de uma Sociedade Livre 

 

      E, no entanto, nada no mundo pode impedir o homem de se sentir nascido para a liberdade. Jamais, o que quer que aconteça, ele pode aceitar a servidão; pois ele pensa. Ele nunca deixou de sonhar uma liberdade sem limites, seja como uma felicidade passada da qual um castigo o teria privado, seja como uma felicidade futura que lhe seria devida por uma espécie de pacto por uma providencia misteriosa. O comunismo imaginado por Marx é uma forma mais recente desse sonho. Esse sonho sempre foi útil, como todos os outros, ou, se pôde consolar, senão como um ópio; é tempo se sonhar a renunciar a liberdade, e decidir-se e concebê-la.

    É a liberdade perfeita que é preciso esforçar-se para imaginar claramente, não na esperança de atingi-la, mas na esperança de atingir uma liberdade menos imperfeita do que nossa atual condição; pois o melhor só é concebível pelo perfeito. Não podemos senão guiarmos por um ideal. O ideal é tão irrealizável quanto o sonho, mas, diferentemente do sonho, ele tem relação com a realidade; ele permite, a titulo de limite , classificar situações reais ou realizáveis na ordem do menor para o maior valor. A liberdade perfeita não pode ser concebida como consistindo simplesmente na desaparição dessa necessidade cuja pressão sofremos permanentemente; enquanto o homem viver, ou seja, enquanto constituir um ínfimo fragmento desse universo impiedoso, a pressão da necessidade jamais enfraquecerá por um instante.  (p.108)

 

      A verdadeira liberdade não se define por uma relação entre o desejo e a satisfação, mas por uma relação entra o pensamento e a ação; seria completamente livre o homem cujas relações procedessem todas de um julgamento prévio concernindo ao fim que ele se propõe e ao encadeamento dos meios próprios para levar a esse fim. Pouco importa que as ações em sim mesma sejam leves ou dolorosas, e pouco importa se sejam coroadas de sucesso; a dor e o fracasso pode tornar o homem infeliz, mas não pode humilhá-lo enquanto é ele mesmo de sua própria faculdade de agir. E dispor de suas próprias ações não significa de modo algum agir de arbitrariamente, ser chamadas de livres. Todo julgamento se faz sobre uma situação objetiva, e, em conseqüência, por uma trama de necessidades. O homem não pode em nenhum caso deixar de estar oprimido de todos os lados por uma necessidade absolutamente inflexível; mas como ele pensa, tem a escolha de ceder cegamente ao aguilhão pelo qual ele impede do exterior, ou se conformar à representação que dela ele forja para si; e é nisso que consiste a oposição não são, de resto, senão limites ideais nos quais se move a vida humana  sem jamais poder atingir nenhum, sob pena de não ser mais a vida. Um seria completamente escravo se todos os seus gestos procedessem de uma outra fonte que não seu pensamento ou seja, das reações irracionais do corpo, ou do pensamento de outrem; o homem primitivo esfomeado cujo os avanços são todos provocados pelos espasmos que lhe torcem as entranhas, o escravo humano perpetuamente voltado para as ordens de uma vigia munida pelo açoite, o operário moderno que trabalha na linha de montagem, todos se aproximam dessa condição miserável.  (p.109 e 110)       

      Mas existe ainda um outro fator de servidão: é a existência, para cada um ,dos outros homens. E, se repararmos bem, esse é mesmo o único fator de servidão; só o homem pode dominar o homem. Mesmo os primitivos não seriam escravos da natureza se não atribuíssem a ela seres imaginários análogos ao homem, e cujas vontades são ,aliás,interpretadas por homens. Nesse caso, como em todos os outros é o mundo exterior que é a fonte do poder; mas se por trás de fontes infinitas da natureza não houvesse, seja por ficção, seja na realidade, vontades divinas ou humanas, a natureza poderia destruir o homem, não humilhá-lo. A matéria pode desmentir as previsões e arruinar os esforços, mas nem por isso deixa de ser inerte, feita para ser concebida e manipulada do exterior; porem não se pode jamais penetrar ou manipular de fora o pensamento humano. Na medida em que a sorte de um homem depende de outros homens, sua vida própria vida escapa não somente às suas mãos, mas também à sua inteligência; o julgamento e a revolução não têm mais nada a que se aplicar ou a ameaçar; e a alma cai em abismos sem fundos de desejos e de temor, pois não há limites para as satisfações e para os sofrimentos quem um homem pode receber de outros homens. Essa dependência aviltante não é só dos oprimidos, mas da mesma forma ,embora de maneiras diferentes ,dos oprimidos e dos poderosos. Como um poderoso não vive senão de seus escravos, a existência de um mundo inflexível lhe escapa quase inteiramente; suas ordens lhe parecem conter em si mesma uma eficácia misteriosa; a ele jamais é capaz, para falar propriamente, de querer, mas é arrebatado por desejos aos quais jamais a visão clara da necessidade vem impor um limite. Como ele não concebe outro método de ação senão comandar ,quando acontece , frequentemente nos sonhos; e os medos são então ainda mais aterradores, porque ele sente continuamente sobre si ameaça de seus rivais. Quanto aos escravos, eles lutam continuamente com a matéria; só que sua sorte depende não dessa matéria que eles agitam, mas de senhores aos caprichos dos quais não se pode impor nem lei nem limites.  (p.121 e 122)    

        Da mesma forma que o homem não é feito para ser o joguete de uma natureza cega, ele também não é feito para ser o joguete das coletividades cegas quem foram com seus semelhantes; mas para deixar de estar entregue à sociedade tão passivamente quanto uma gota de água no mar, seria preciso que ele pudesse conhecê-la e agir sobre ela. Em todos os domínios, é verdade, as forças coletivas ultrapassam infinitamente as forças individuais, assim não se pode mais facilmente conceber um individuo dispondo mesmo de uma porção de vida coletiva do que uma linha se esticando com o acréscimo de um ponto. Essa é ao menos uma aparência, mas na realidade a uma exceção e só uma, a saber, o domínio do pensamento. No que concerne ao pensamento, a relação é invertida; ai o individuo supera a coletividade mais do que qualquer outra coisa, pois o pensamento só se forma num espírito  que se encontra só diante de si mesmo; as coletividades não pensam.  (p.123)  

      Numa sociedade fundada sobre opressão, não são somente os fracos, mas também os mais poderosos que estão subjugados às exigências cegas da vida coletiva, e há uma diminuição do coração e do espírito tanto entre como entre outros, ainda que de modo diferente; ora, se comparar duas camadas sociais opressivas tais como, por exemplo, os cidadãos de Atenas e burocracia soviética, encontra-se uma distancia pelo menos tão grande quanto entre um de nossos operários qualificados e o escravo grego.Quanto as condições segundo as quais o pensamento tem mais ou menos espaço no exercício do poder, seria fácil obedecê-las conforme o grau de complicação e extensão das questões, o caráter geral das dificuldades a resolver e as repartições das funções. Assim, os membros de uma sociedade opressiva não se distinguem somente conformar um lugar mais alto ou mais baixo em que se encontram instalados no mecanismo social, mas também pelo caráter mai consciente ou passivo de suas relações com ele, e essa segunda distinção, mais importante que a primeira, não tem ligação direta com ela. Quanto à influencia que os homens encarregados das funções sociais submetidas  à direção de sua própria inteligência podem exercer sobre a  sociedade da qual fazem parte, ela depende, certamente, da natureza e da importância dessas funções;        (p.123)      

           Se as análises precedentes estão corretas, a civilização mais plenamente humana seria aquela que tivesse por um centro o trabalho manual, aquela que o trabalho manual constituísse o verdadeiro valor. Não se trata de nada parecido com a religião da produção que reinava da América durante o período de prosperidade, que reina na Rússia desde o plano qüinqüenal; pois essa religião tem por objetivo verdadeiro o produto verdadeiro o produto do trabalho manual deve se tornar o mais alto valor, mas por sua relação com homem o que executa; ele não deve ser objeto de horas ou recompensas, mas construir para cada ser humano aquilo de que ele tem necessidade essencialmente para que sua vida tenha por si mesma um sentido e um valor a seus próprios olhos.  (p.130) 

        O pensamento é a sua suprema dignidade do homem; mas ele se exerce no vazio e em consequência apenas em aparência, quando não penetra seu objeto, ou qual só pode ser o universo. Ora, o que proporciona  às especulações abstratas dos sábios essa relação com o universo,que é a única que lhes dá um valor concreto ,é o fato que elas são diretas ou indiretamente aplicáveis. Hoje em dia, é verdade, suas próprias especulações as tornam estranhas; aqueles que elaboram ou estudam essas especulações fazem-no sem pensar em seu valor teórico.  (p.131)

       Jamais o individuo esteve tão completamente entregue a uma coletividade cega, e jamais os homens foram mais incapazes não somente de submeter suas ações e seus pensamentos, mas até mesmo de pensar. Os termos “opressores” e “oprimidos”, a noção de classes, tudo isso está bem perto de perder qualquer significado, de tão evidentes que são a impotência e a angustia de todos os homens e diante da maquina social, transformada uma maquina de partir corações, de engasgar os espíritos, uma maquina de fabricar inconsciência, tolice, corrupção, leviandade e sobretudo vertigem. A causa desse doloroso estado de coisas é bem clara. Vivemos num mundo em que nada está na medida do homem; há uma desproporção monstruosa entre o corpo do homem, o espírito do homem e as coisas que constituem atualmente os elementos da vida humana; tudo é desequilíbrio.  (p.135)  

     Tantas mudanças profundas operam-se quase sem o sabermos, e no entanto vivemos um período em que até o eixo do sistema social está, por assim dizer, em vias de se deslocar. No decorrer de todo florescimento do regime industrial a vida social encontrou-se orientada do sentido da construção. O equipamento industrial do planeta era por excelência o terreno sobre o qual se dava a luta pelo poder. Fazer crescer um empresa mais rápido que suas rivais, e isso com seus próprios recursos, tal era em geral o fim da atividade econômica. A poupança era a regra da vida econômica; restringia-se ao máximo o consumo não somente dos operários, mas também dos capitalistas, e de uma maneira geral, todos os gastos que tendessem a outra coisa que não o equipamento industrial. Os governos tinham antes de tudo por missão preservar a paz civil e internacional. Os burgueses tinham a sensação que seria assim indefinidamente para a maior felicidade da humanidade; mas não podia ser assim definidamente. Hoje em dia, a luta pelo poder, guardando numa certa medida a aparência das mesmas formas, mudou completamente de natureza.  (p.142)    

      A única possibilidade de salvação consistiria numa cooperação metódica de todos, poderosos e fracos, em vista de uma descentralização progressiva da vida social; mas o absurdo de uma tal idéia salta imediatamente aos olhos .Tal cooperação não pode se imaginar mesmo em sonho numa civilização que repousa sobre a rivalidade, a luta, a guerra. Fora de tal cooperação, em impossível interromper a tendência cega da maquina social em direção a uma centralização crescente, até a própria maquina trave brutalmente e voe em pedaços. Que pode pesar os desejos e votos daqueles que não estão nos postos de comando, enquanto que, reduzidos a impotência mais trágica, eles são os simples joguetes de forças cegas e brutais?  (p.148)

                          

                                                        Conclusão

 

Que será realmente que parecerá e o que subsistirá da civilização atual? Em que condições, em que sentido a história se desenrolará daqui pra frente? Essas questões são insolúveis. O que sabemos de antemão é que a vida será tão menos desumana quanto maior for a capacidade individual de pensar e agir. A civilização atual, da qual nossos descendentes recolherão sem duvida alguns fragmentos de herança, carrega, nós o sentimos bem, os meios de esmagar o homem; mas ela contem também, ao menos em germe, os meios de libertá-lo. Há em nossa ciência, apesar de todos as obscuridades  que induz de nova escolástica, clarões admiráveis, partes límpidas de luminosas ,procedimentos perfeitamente metódicos do espírito. Em nossa técnica também há germes de libertação do trabalho. Não sem duvida, como se acredita comumente, do lado das máquinas automáticas; estas mostram-se apropriadas, do ponto de vista puramente técnico ,para desincumbir os homens daquilo quem o trabalho pode ter de maquinal e de inconsciente, mas em compensação elas estão indissoluvelmente ligadas a uma organização de economia centralizada ao excesso, e por consequência muito opressiva. (p.151)

 

 

                                                           5

                                                  Fragmentos 

                                                   (1933-1838)

 

                                                           I

 

         A situação em que nos encontramos é de uma gravidade sem precedente. O proletariado mais avançado, melhor organizado do mundo não somente foi vencido, mas capitulou sem resistência. É a segunda vez em vinte anos. Durante a guerra, nossos antepassados ainda puderam esperar que o proletariado russo,com seu magnífico levante ,fosse despertar os operários europeus. Para nós, nada permite formar uma opinião semelhante; nenhum sinal anuncia em parte alguma uma vitoria capaz compensar o esmagamento sem combate dos operários alemães. Jamais talvez, desde que existe um movimento operário, a relação de força foi tão desfavorável ao proletariado quando hoje ,cinqüenta anos depois da morte de Marx.

        Que resta Marx, cinqüenta anos depois de sua morte? Sua doutrina não é destrutível; qualquer pode procurá-la em suas obras e assimilá-la, repensando-a; e embora vulguem hoje em dia, com o nome de marxismo, algumas formas ressecadas d e desprovidas de significação real, alguns militantes remontam às fontes. Mas, embora as análises de Marx tenham um valor que não pode parecer, o objeto dessas analises, a saber a sociedade contemporânea e Marx, não é mais .O marxismo não pode viver a não ser com uma condição: que o precioso instrumento que constitui o método marxista passe de geração em geração  sem se enferrujar, cada geração servindo-se dele para definir o mundo em que vive.  (p.155 e 156)

  

                                                                          

                                                             6

                                  Exame crítico das idéias de Revolução de Progresso*   

 

            Tem-se uma idéia estranha da revolução examinando a coisa de perto. Aliás, dizer que há uma idéia já é muito. Em que os revolucionários acreditam poder reconhecer o momento que haverá revolução? Na instalação no governo de um certo grupo? Na violação da legalidade? Em algumas estatizações? Na emigração maciça dos burgueses? Na promulgação de um decreto suprindo a propriedade privada? Tudo isso não está claro. Mas enfim resta que se espere, sob o nome da revolução, um momento em que os últimos serão os primeiros, onde os valores negados ou rebaixados pelo regime atual surgirão em primeiro plano, onde os escravos, aliás sem abandonar sua tarefas, serão os únicos cidadãos, onde as funções sociais votadas hoje à submissão, à obediência e ao silêncio  terão em primeiro lugar o direito à palavra e à deliberação em todas as questões de interesse  público. Não se trata de profecias religiosas. Apresenta-se um tal futuro como correspondendo ao curso normal da história. Mesmo que a tenhamos estudado, permanecemos penetrados pela lembrança vaga dos manuais da escola primárias e das cronologias.   (p. 171)     

 

 

                                                                  7

                                   Meditação sobre a obediência e a liberdade

 

       A submissão do maior número ao menor, esse fato fundamental de quase toda organização social ,nunca deixou de surpreender a todos aqueles que refletem um pouco. Vemos, na natureza, os maiores pesos vencerem os menores pesos, certamente, por uma experiência quotidiana, que o homem não é um simples fragmento da natureza, que o que há mais elevado no homem, a vontade, a inteligência, a fé, produz todos os dias uma espécie de milagre. Mas não é disso que se trata. A necessidade impiedosa que manteve e que mantém de joelhos as massas de escravos, as massas de pobre, as massas de subordinados, nada  tem espiritual; ela é análoga a tudo que há de brutal na natureza. E no entanto ela se exerce aparentemente em virtude de leis contrárias às da natureza. Como se, na balança social, o grama superasse o quilo.   (p.175)

       Uma vez que a maioria obedece, e obedece até se deixar impor o sofrimento e a morte, enquanto a minoria comanda, é que não é verdade que a minoria seja uma força. A maioria, seja o que for que a imaginação nos leve a acreditar, é uma fraqueza. A fraqueza está do lado em que se tem fome, onde os homens se esgotam, suplicam,  tremem, não do lado em que se vive bem, onde concedem graças, onde se fazem ameaças. O povo não é submisso apesar de ser a maioria, mas porque é a maioria.

       A contradição talvez não seja senão aparente. Sem duvida, em toda ocasião ,aqueles que ordenam são menos numerosos dos que os que obedecem. Mas precisamente porque são poucos numerosos, eles formam um conjunto. Os outros, precisamente porque são muitos numerosos, são um mais um ,e assim por diante. Assim o poder de uma ínfima minoria repousa, apesar de tudo ,sobre a força do numero. Essa minoria supera em muito, em números cada um daqueles que compõe o rebanho da minoria .Não se deve concluir disso que a organização das massas inverteria a relação; pois ela é impossível .Não se pode estabelecer coesão senão entre uma pequena quantidade de homem. Alem disso, não há mais do que justaposição de indivíduos, isto é,fraqueza.

     Há, entretanto, momentos em que não é bem assim. Em alguns momentos da história, um grande sopro passa sobre as massas; sua respiração, suas palavras, seus movimentos se confundem. Então nada lhe resiste. Os poderosos, por sua vez, conhecem afinal o que é sentir-se só e desarmado; e eles tremem.    (p.178)

      A força social não funciona sem mentira. Assim, tudo o que há demais alto na vida humana, todo esforço de pensamento, todo esforço de amor é corrosivo para a ordem. O pensamento pode também, com toda a razão, ser difamado como revolucionário, de como. Pelo fato de que constrói sem acessar uma escala de valores “que não é deste mundo”, ele é inimigo das forças que dominam a sociedade. Mas ele não é mais favorável às iniciativas que tentem a subverter ou transformar a sociedade, e que, antes mesmo de ter tido sucesso devem necessariamente implicar, entre aqueles que a essa se dedicam, a submissão do maior numero ao menor, o desprezo dos privilegiados pela massa anônima e a manipulação da mentira. O gênio, o amor, a santidade merecem plenamente a acusação que muitas vezes é feita de tender a destruir tudo aquilo e nada construir no lugar. Quanto àqueles que querem pensar, amar e transpor em toda a pureza para a ação política aquilo que lhes inspiram seu espírito e seu coração, eles não podem senão parecer degolados, abandonados pelos seus, difamados após sua morte pela história, como se aconteceu com os Gracos.

   A ordem social, embora necessária, é essencialmente má, qualquer que seja. Não se pode acusar aqueles que ela esmaga de miná-la tanto quanto podem; quando eles se resignam, não é por virtude, mas, ao contrário ,é pelo efeito de uma humilhação que extingue neles as virtudes viris. Não se pode também aqueles que à organizam de defendê-la  nem representá-los, como formando uma conjuração contra o bem geral. As lutas entre cidadãos não resultem de uma falta de compreensão ou de boa vontade; elas tem a ver com a natureza das coisas, e não podem ser apaziguadas, mas apenas abafadas pelo constrangimento. Para qualquer um que ame a liberdade, não é desejável que aqueles desapareçam, mas somente que permaneçam aquém de um certo limite de violência.   (p.181 e 182)

 

 

                                                               9

                                                         Fragmentos

                                                       (Londres, 1943)

 

                                                                  I

 

           O verdadeiro caminho existe. Platão e muitos outros percorreram. Mas ele não está aberto senão àqueles que, reconhecendo-se incapazes de encontrá-lo, não e procuram mais, e no entanto não deixam de desejá-lo acima de qualquer coisa. Àqueles é conceito nutrir-se de um bem que, estando situado fora desse mundo, não está submetido a nenhuma influencia social. É o pão transcendente  de que se trata no texto original do Pai-Nosso.   (p.194)

         A contradição essencial da condição humana é que o homem está submetido à força, e deseja a justiça. Ele está submetido à necessidade, e deseja o bem. Não é só seu corpo que está assim submetido, mas também todos os seus pensamentos; e no entanto o próprio ser do homem consiste em está voltado para  o bem. É por isso que acreditamos que há uma unidade entre a necessidade e o bem. Alguns acham que o pensamento do homem concernente ao bem possui aqui o mais alto grau de força. São aqueles que chamamos de idealistas. Eles se enganam duplamente, primeiro porque esses pensamentos não têm força, e depois porque eles não correspondem ao bem. Eles são influenciados pela força; de modo que essa atitude é finalmente uma réplica menos energética da atitude contrária. Outros acreditam que a força é por si mesma orientada para o bem. São idólatras. Eis aí a crença de todos os materialistas que não caem no estado de indiferença. Eles também se enganam duplamente primeiro, a força é estranha e indiferente ao bem, depois ela não é sempre de por toda parte mais forte. Só podem escapar desses erros aqueles que recorrem ao pensamento incompreensível de que uma unidade entre a necessidade e o bem, ou, em outras palavras entre a realidade e o bem ,fora deste mundo. Aqueles acreditam também que alguma dessa unidade se comunica com os que voltam para ela sua atenção e seu desejo. Pensamento ainda mais incompreensível, mas experimentalmente verificado.   (p.197)

        Os fatos mostram que quase sempre os pensamentos dos homens são moldados, como pensava Marx, pelas mentiras da moral social. Quase sempre, mas não sempre. Isso também é certo. Há vinte e cinco séculos, alguns filósofos gregos, cujo nomes mesmo são desconhecidos, afirmam que a escravidão é absolutamente contrária à razão e à natureza. Tanto as flutuações da moral conformes os tempos e os países  são evidentes, como também é evidente que a moral que procede diretamente da mística é uma, idêntica, inalterável. Podemos verificá-lo considerando o Egito, a Grécia, a Índia, a China, o budismo, a tradição mulçumana, o cristianismo, e o folclore de todos os países. Essa moral é inalterável porque é um reflexo do bem absoluto que está situado fora deste mundo. É verdade que todas as religiões, sem exceção, fizeram misturas impuras dessa moral e da moral social, com dosagens variáveis. Nem por isso ela constitui a prova experimental, aqui embaixo, de que o bem puro é transcendente é real; em outros termos, a prova experimental da existência de Deus.    (p.198)    

Simone Weil, O enraizamento

 


 


                                                   

 

Síntese: Paolo Cugini

                                                              1

                                             As necessidades da alma

           O objeto da obrigação, na área de coisas humanas, é sempre o ser humano como tal. Há obrigação para com todo ser humano, pelo simples fato de ele ser um ser humano, sem que nenhuma outra condição precise intervir, mesmo que ele não reconhecesse nenhuma.

           Esta obrigação é eterna. Ela corresponde ao destino eterno do ser humano. Só o ser humano tem um destino eterno. As coletividades humanas não o têm. Então, não há para com elas, obrigações diretas que sejam eternas. Só é eterno o dever para com ser humano como tal.

           Esta obrigação é incondicionada. Se está fundada sobre alguma coisa, essa alguma coisa não pertence a nosso mundo. No nosso mundo, ela não está fundada sobre nada. É a única obrigação relativa às coisas humanas que não está submetida a nenhuma condição.

           Esta obrigação tem não um fundamento, e sim, uma verificação no acordo da consciência universal.              (p.09)

           É, portanto, uma obrigação eterna para com o ser humano não o deixar passar fome, quando se tem ocasião de socorrê-lo. Sendo esta obrigação a mais evidente, ela deve servir de modelo para estabelecer a lista dos deveres eternos para com todo ser humano. Para ser estabelecida com todo o rigor, esta lista deve proceder deste primeiro exemplo por analogia.            (p.10)

           Em conseqüência, a lista das obrigações para com o ser humano deve corresponder à lista daquelas necessidades humanas que são vitais, análogas à fome.

           Entre essas necessidades, algumas são físicas, como a própria fome. São bastante fáceis de enumerar. Concernem à proteção contra a violência, moradia, roupas, calor, higiene, cuidados em caso de doença.              (p.10-11)

           O homem precisa, não de arroz ou de batatas, mas de comida; não de madeira ou carvão, mas de aquecimento. Igualmente para as necessidades da alma, é preciso reconhecer as satisfações diferentes, mas equivalentes, respondendo às mesmas necessidades. É preciso também distinguir dos alimentos da alma os venenos que, de tempos em tempos, podem dar a ilusão de fazer às vezes de alimento.

           A ausência de tal estudo força os governos, quando têm boas intenções, a agitarem-se cegas.       

                                                       A ordem

           A primeira necessidade da alma, a que está mais próxima de seu destino eterno, é a ordem, ou seja, um tecido de ralações sociais tal que ninguém seja coagido a violar obrigações rigorosas para se executar outras obrigações.             (p.13-14)

                                                     A liberdade

         Um alimento indispensável à alma humana é a liberdade. A liberdade, no sentido concreto da palavra, consiste numa possibilidade de escolha. Trata-se, evidentemente, de uma possibilidade real. Em toda a parte em que a vida coletiva, é inevitável que regras, impostas pela utilidade coletiva, limitem a escolha.   

                                                             A obediência

            A obediência é uma necessidade vital da alma humana. É de duas espécies: obediência a regras estabelecidas e obediência a seres humanos vistos como chefe. Supõe o consentimento, não para com cada uma das ordens recebidas, mas sim um consentimento concedido de uma vez por todas, sob a única reserva, se for o caso, das exigências da consciência.                (p.17)

           Sendo a obediência um alimento necessário à alma, todo aquele que está definitivamente privado dela está doente. Assim, toda coletividade regida por um chefe soberano que não é responsável por ninguém encontra-se entre as mãos de um doente.           (p.18)                                         

          Mil sinais mostram que os homens de nossa época tinham, há muito tempo, fome de obediência. Mas aproveitou-se isso para lhe dar a escravidão.            (p.18) 

                                                     A responsabilidade

           A iniciativa e a responsabilidade, o sentimento de ser útil e até mesmo indispensável, são necessidades vitais da alma humana.

           A privação completa a esse respeito é o caso do desempregado, mesmo que seja socorrido de forma a poder comer, vestir-se e morar. Ele não é nada na vida econômica, e o voto que constitui sua parte na vida econômica, e o voto que constitui sua parte na vida política não tem sentido para ele.

                                                            A igualdade

         A igualdade é uma necessidade vital da alma humana. Consiste no reconhecimento público, geral, efetivo, expresso realmente pelas instituições e costumes, de que a mesma quantidade de respeito e de atenções é devida a todo ser humano, porque o respeito é devido ao ser humano como tal e não tem graus.            (p.19)

           Poe conseqüências, as diferenças inevitáveis entre os homens jamais devem ter o significado de uma diferença no grau de respeito. Para que não sejam sentidas como tendo esse significado, é preciso um certo equilíbrio entre o igualdade e a desigualdade.                (p.19-20)

           A igualdade e tanto maior quanto as diferentes condições humanas são vistas como sendo, não mais ou menos uma do que a outra, mas simplesmente outras. Que a profissão de mineiros e a de ministro seja simplesmente duas vocações diferentes, como as de poeta e matemático. Que as durezas materiais ligadas à condição de mineiro sejam consideradas em honra dos que as sofrem.            (p.22)

                                                              A hierarquia  

           A hierarquia é uma necessidade vital da alma humana. Ela é constituída por uma cesta veneração, um certo devotamento para com os superiores, considerados não em suas pessoas nem no poder que exercem, mas como símbolos. Aquilo de que são símbolos é essa área que se encontra acima de todo homem e cuja expressão neste mundo é constituída pelas obrigações de cada homem para com seus semelhantes. Verdadeira hierarquia supõe que os superiores tenham consciência dessa função de símbolo e saibam que ela é o único objeto legítimo do devotamento de seus subordinados. A verdadeira hierarquia tem como efeito levar cada um a se instalar moralmente no lugar que ocupa.              (p.22-23)          

                                                                   A honra   

           A honra é uma necessidade vital da alma humana. O respeito devido a casa ser humano como tal, mesmo que seja efetivamente concedido, não basta para satisfazer essa necessidade; pois ela é idêntica para todos e imutável; ao passo que a honra tem relação com um ser humano considerado, não simplesmente como tal, mas em seu meio social. Essa necessidade é plenamente satisfeita, se cada uma das coletividades das quais um ser humano é membro lhe oferecem uma participação em uma tradição de grandeza encerrada em seu passado e publicamente reconhecida fora.             (p.23)                 

            Toda opressão cria uma penúria a respeito da necessidade de honra, pois as tradições de grandeza possuídas pelos oprimidos não são reconhecidas, por falta de prestígio social.           (p.23)

                                                       O castigo

           O castigo é uma necessidade vital da alma humana. Ele é de duas espécies, disciplinar e penal. Os da primeira espécie oferecem uma segurança contra os desfalecimentos, com os quais a luta seria extenuante demais se não houvesse um apoio exterior. Mas o castigo mais indispensável à alma é o do crime. Pelo crime um homem coloca a si próprio fora da rede de obrigações eternas que vincula cada ser humano a todos os outros. Não pode ser reintegrado a não ser pelo castigo, plenamente se houver consentimento de sua parte, se não imperfeitamente. Assim como a única maneira de demonstrar respeito àquele que passa fome é dar-lhe de comer, também o único meio de demonstrar respeito àquele que se colocou fora da lei é reintegrá-lo na lei submetendo ao castigo que ela prescreve.           (p.24)

           A desconsideração pela política, a leviandade dos magistrados, o regime das prisões, a desclassificação definitiva dos cadastros na política; a escala das penas que prevê uma punição muito mais cruel para dez roubos minúsculos do que para uma violação ou certos assassinatos, e que chega a prever punições para o simples acidente, tudo isso impede que exista entre nós o que quer que seja que mereça o nome de castigo.               (p.25)

                                                     A liberdade de opinião 

           A liberdade de opinião e a liberdade de associação são geralmente mencionadas juntas. É um erro. Salvo no caso dos agrupamentos naturais, a associação não é uma necessidade, e sim um expediente da vida prática.             (p.26)

           Ao contrário, a liberdade de expressão total, ilimitada, para toda opinião qualquer que seja, sem nenhuma restrição nem reserva, é uma necessidade absoluta para a inteligência. Por conseqüência, é uma necessidade da alma, pois quando a inteligência não está à vontade, toda alma está doente. A natureza e os limites da satisfação correspondem a essa necessidade estão inscritos na própria estrutura das diferentes faculdades da alma. Pois uma mesma coisa pode ser limitada e ilimitada, como se pode prolongar indefinidamente o comprimento de um retângulo sem que ele deixe de se limitado na largura.                   (p.26)

           Mas a posição dos imbecis e dos covardes não deixava de estar em vasta medida em conformidade com a razão. Os escritores têm uma maneira admissível de jogar nos dois quadros. Nunca tanto quanto na nossa época pretenderam o papel de diretores de consciência e o exercem. De fato, durante os anos que precederam a guerra, ninguém lhos disputou exceto os cientistas. O lugar outrora ocupado pelos padres era detido por físicos e romancistas, o que basta para medir o valor de nosso progresso. Mas se alguém pedia contas aos escritores da orientação de sua influência, refugiavam-se com indignação por trás do privilégio sagrado da arte pela arte.         (p.28)

          Alem disso, a própria necessidade de liberdade, tão essencial à inteligência, exige uma proteção contra a sugestão, a propaganda, a influência por obsessão. São modos de coerção, uma coerção particular, que o medo ou a dor física não acompanham, mas não deixa de ser uma violência. A técnica moderna fornece-lhe instrumentos extremamente eficazes. Essa coerção, por sua natureza, é coletiva, e as almas humanas são suas vitimas.                       (p.29)                

           De mesmo modo, pode haver repressão contra a imprensa, os programas radiofônicos, e qualquer outra coisa parecida, não somente por atentado as princípios de moralidade publicamente reconhecidos, mas pela baixeza do tom e do pensamento, o mau gosto, a vulgaridade, por uma atmosfera sorrateiramente corruptora.                (p.29)

           Muito pelo contrário, a proteção da liberdade de pensar exige que seja proibido por lei a um grupo de expressar uma opinião. Por que quando um grupo se põe a ter opiniões, tende inevitavelmente a impô-las a seus membros. Cedo ou tarde, os indivíduos se encontram impedidos, com um grau de rigor maior ou menor, sobre um número de problemas mais ou menos considerável, de expressar opiniões opostas às do grupo, a não ser que saiam dele. Mas a ruptura com um grupo do qual se é membro acarreta sempre sofrimentos, pelo menos um sofrimento sentimental. E na medida em que o risco, a possibilidade de sofrimento, são elementos saudáveis de necessários da ação, na mesma medida são coisas nocivas no exercício da inteligência. Um temor, mesmo leve, provoca sempre seja abaixamento, seja enrijecimento, segundo o grau de coragem, e não é preciso mais para falsear o instrumento de precisão extremamente delicado e frágil que a inteligência constitui. Mesmo a amizade a esse respeito é uma grande perigo. A inteligência é derrotada logo que a expressão dos pensamentos é precedida, explícita ou implicitamente, da palavrinha “nós”. E quando a luz da inteligência se obscurece, ao fim de um tempo bastante curto o amor pelo bem se perde.

           A solução prática imediata é a abolição dos partidos políticos.              (p.30)

                                                                A segurança    

           A segurança é uma necessidade essencial da alma. A segurança significa que a alma não está sob o peso do medo ou do terror, exceto pelo efeito de um concurso de circunstâncias acidentais e por momentos raros e curtos. O medo ou terror, como estado de alma duradouro, são venenos quase mortais, que a causa seja a possibilidade do desemprego, ou a repressão policial, ou a repressão de um conquistador estrangeiro, ou a espera de uma invasão provável, ou qualquer outra desgraça que parece ultrapassar as forças humanas.           (p.35)                              

                                                            O risco

          O risco é uma necessidade essencial da alma. A ausência de risco suscita uma espécie de tédio que paralisa de modo diferente do medo, mas quase tanto. Aliás há situações que, implicando uma angústia difusa sem riscos precisos, comunicam as duas doenças simultaneamente.           (p.36)

            A proteção dos homens contra o medo e o terror, não implica a supressão do risco; implica ao contrario a presença permanente de uma certa quantidade de riscos em todos os aspectos da vida social; pois a ausência de risco enfraquece a coragem a ponto de deixar a alma, se for o caso, sem a menos proteção interna contra  medo. É preciso somente que o risco se apresente em condições tais que não se transforme em sentimento de fatalidade.               (p.36)

                                                         A propriedade privada

           A propriedade privada é uma necessidade vital da alma. A alma fica isolada, perdida, se não estiver no meio de objetos que sejam para ela como um prolongamento dos membros do corpo. Todo homem é insensivelmente levado a se apropriar pelo pensamento de tudo o que usou por muito tempo e continuamente para o trabalho, o prazer ou as necessidades da vida. Assim um jardineiro, ao fim de certo tempo, sente que o jardim é dele. Mas onde o sentimento de apropriação não coincide com a propriedade jurídica, o homem e continuamente ameaçado por separações muito dolorosas.

           Se a propriedade privada for reconhecida como uma necessidade, isso implica para todos à possibilidade de possuir outra coisa alem dos objetos de consumo corrente.            (p.37)

                                                          A verdade     

          A necessidade de verdade é mais sagrada do que qualquer outra. No entanto, jamais é mencionada. Fica-se com medo de ler quando se percebeu uma vez a quantidade e a enormidade das falsidades materiais expostas sem vergonha, mesmo nos livros dos autores mais reputados. Lê-se então como se beberia a água de um poço duvidoso.                 (p.38-39)

            Não há nenhuma possibilidade de satisfazer num povo a necessidade de verdade, se não se puder achar para este fim homens que amem a verdade.               (p.41)                                          

    

                                                                          2

                                                  O desenraizamento

           O enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana. É uma das mais difíceis de definir. Um ser humano tem raiz por sua participação real, ativa e natural na exigência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro. Participação natural, ou seja, ocasionada automaticamente pelo lugar, nascimento, profissão, meio. Cada ser humano precisa ter múltiplas raízes. Precisa receber a quase totalidade de sua vida normal, intelectual, espiritual, por intermédio dos meios dos quais faz parte naturalmente.                  (p.43)

             Há desenraizamento todas as vezes que há conquista militar, e nesse sentido a conquista é quase sempre um mal.                 (p.44)

             Mesmo sem conquista militar, o poder do dinheiro e a dominação econômica podem impor uma influência estrangeira a ponto de provocar a doença do desenraizamento.            (p.44)

             O dinheiro destrói as raízes e toda parte onde penetra, substituindo todos os móbiles pelo desejo de ganhar. Vence sem dificuldades todos os outros móbiles porque pede um esforço de atenção muito menor. Nada é tão clara e tão simples quanto uma cifra.                (p.44)

                                                       Desenraizamento operário 

           Há uma condição social inteira e perpetuamente suspensa ao dinheiro, é o salário, sobretudo desde que o salário por peça obriga cada operário a manter a atenção sempre fixa no cálculo do dinheiro. É nesta condição social que a doença do desenraizamento é mais aguda.                 (p.44)

             O segundo fator de desenraizamento é a instalação como é concebida hoje. O Renascimento provocou em toda parte um corte entre as pessoas cultas e a massa; mas ao separar a cultura da tradição nacional, ela mergulhava pelo menos na tradição grega. Desde então, os laços com as tradições nacionais não foram reatados, mas a Grécia foi esquecida. Disso se resultou uma cultura que se desenvolveu num meio restrito, separado do mundo, uma atmosfera confinada, uma cultura consideravelmente orientada para a técnica e influenciada por ela, muito tingida de pragmatismo, extremamente fragmentada pela especialização, completamente desprovida ao mesmo tempo de contato com esse universo e de abertura para outro mundo.

             Em nossos dias, um homem pode pertencer aos meios, ditos cultos, por um lado sem ter nenhuma concepção a respeito do destino humano, por outro lado sem saber, por exemplo, que todas as constelações não são visíveis em todas as estações.             (p.45)

             O que se chama hoje instruir as massas é pegar essa cultura moderna, elaborada num meio tão fechado, tão doentio, tão diferente à verdade, tirar-lhe tudo o que ela ainda possa conter de outro puro, operação que se chama vulgarização, e enfornar o resíduo tal e qual na memória dos infelizes que desejam aprender, como se enfia comida pela goela de pássaros.

             Aliás, o desejo de aprender por aprender, o desejo de verdade tornou-se raríssimo.      (p.46)

             O desenraizamento é de longe a doença mais perigosa das sociedades humanas, pois multiplica-se a si mesmo. Seres verdadeiramente desenraizados não têm senão dois comportamentos possíveis: ou caem numa inércia da alma quase equivalente à morte, como a maior parte dos escravos no tempo do Império Romano, ou se jogam numa atividade que tende sempre desenraizar, frequentemente pelos métodos mais violentos, aqueles que ainda não o estão ou não o estão senão em parte.               (p.47)

           Quem é desenraizado desenraiza. Quem é enraizado não desenraiza.          (p.47)

           Nesta situação quase desesperada, não se pode encontrar socorro aqui em baixo senão nas ilhotas de passado mantidas vivas na superfície da terra.        (p.50)

           O amor pelo passado não tem nada haver com a orientação política reacionária. Com todas as atividades humanas, a revolução extrai toda sua selva de uma tradição.           (p.50)                                               

         Há vários séculos, os homens de raça branca vêm destruindo o passado toda parte, estupidamente, cegamente, em sua terra e fora dela. Se em alguns aspectos houve, contudo progresso verdadeiro durante esse período, não é por causa dessa raiva, mas apesar dela, sob a impulsão do pouco de passado mantido vivo.

           O passado destruído jamais retorna. A destruição do passado é talvez o maior crime. Hoje, a preservação do pouco a que resta deveria tornar-se quase uma idéia fixa. É preciso para como o desenraizamento terrível que os métodos coloniais dos europeus sempre produzem, mesmo sobre formas menos cruéis. É preciso abster-se, após a vitória, de punir o inimigo vencido, desenraizando-o ainda mais; desde que não é possível nem desejável exterminá-lo, agravar sua loucura seria mais louco do que ele. É preciso também ter em vista, antes de tudo, em toda inovação política, jurídica ou técnica susceptível de repercussões sociais, um arranjo que permita aos seres humanos retomar suas raízes.             (p.51)

            Só a J.O.C. [Juventude Operária Cristã] se dedicou à desgraça da adolescência operária; a existência de tal organização é talvez o único sinal certo de que o cristianismo não morreu entre nós.            (p.61)

            A formação de uma juventude operária deve ultrapassar a formação puramente profissional. Ela deve, evidentemente, comportar uma educação, com a formação de toda juventude; e para isso é desejável que o aprendizado não se faça nas escolas, onde sempre se faz mal, e sim esteja mergulhado não se pode mais confiá-lo às fábricas. Devem-se fazer esforços de invenção. Seria preciso algo que combinasse as vantagens da escola profissional, as do aprendizado na fábrica, as do canteiro de obras de companheiros do tipo atual, e muitas outras coisas mais.

          Mas a formação de uma juventude operária, sobretudo num país como a França, implica também uma instrução, uma participação em uma cultura intelectual. É preciso que elas se sintam em casa num mundo do pensamento.

          Que a participação, e que cultura? É um debate que dura há muito tempo. Em certos meios, antigamente, falava-se muito de cultura operária. Outros diziam que não há cultura operária ou não operária, mas cultura simplesmente. Esta observação teve como efeito, em suma, fazer conceder aos operários mais inteligentes e mais ávidos de aprender o tratamento que se concede aos secundaristas semi-idiotas. As coisas puderam às vezes passar-se um pouco melhor, mas globalmente está bem aí o principio da vulgarização, tal como é compreendida em nossa época. A palavra é tão medonha quanto à coisa. Quando se tiver algo quase satisfatório a designar, será preciso achar outra palavra.            

          Certo, e verdade é una, mas o erro é múltiplo; em toda cultura, salvo no caso de perfeição, que para o homem não é senão um caso limite há mistura de verdade e de erro. Se nossa cultura estivesse próxima da perfeição, estaria situada acima das classes sociais. Mas como é medíocre, é em ampla medida uma cultura de intelectuais burgueses, e mais particularmente, há algum tempo, uma cultura de intelectuais funcionários públicos.            (p.63)       

           O que torna nossa cultura tão difícil e comunicar ao povo, não é que ela seja alta demais, é que é baixa demais. Adota-se um remédio singular abaixando-a ainda mais antes de lha fornecer-me pedaços.     (p.63)        

           Há dois obstáculos que tornam difícil o acesso do povo à cultura. Um é a falta de tempo e de forças. O povo tem pouco lazer a consagrar a um esforço intelectual; e a fadiga põe um limite à intensidade do esforço.         (p.64)      

           Esse obstáculo não tem nenhuma importância. Ao menos não teria nenhuma, se não se cometesse o erro de lhe atribuir importância. A verdade ilumina a alma da proporção de sua pureza e não de alguma espécie de quantidade. Não é a quantidade de metal que importa, mas o grau de liga. Nessa área, um pouco de ouro puro vale muito outro puro. Um pouco de verdade pura vale tanto quanto muita verdade pura. Do mesmo modo, uma estátua grega perfeita contém tanta beleza quanto duas estátuas gregas perfeitas.                (p.64)

           Os obstáculos materiais – falta de lazer, fadiga, falta de talento natural, doença, dor física – atrapalham na aquisição dos elementos inferiores ou médios da cultura, não na dos bens mais preciosos que ela encerra.      

           O segundo obstáculo à cultura operária é que à condição operária, como qualquer outra, corresponde uma disposição particular da sensibilidade. Por conseqüência, há algo de estrangeiro no que foi elaborado por outros e para outros.

           O remédio para isso é um esforço de tradução. Não de vulgarização, mas de tradução, o que é bem diferente.

           Não tornar verdades, já excessivamente pobres, constituída na cultura dos intelectuais, para as degradar, mutilar, esvaziar de seu sabor, mas simplesmente expressá-las, em sua plenitude, por meio de uma linguagem que, segundo a expressão da Pascal, as torne sensíveis ao coração, para pessoas cuja sensibilidade se acha modelada pela condição operária.

          A arte de transpor as verdades é uma das mais essenciais e das menos conhecidas. O que a torna difícil, é que, para a praticar, é preciso ter-se colocado no centro de uma verdade, tê-la possuído em sua nudez, por trás da forma particular sob a qual ela se encontra por acaso exposta.

           De resto, a transposição é um critério para uma verdade. O que não pode ser transposto mão é uma verdade; do mesmo modo que o que não muda de aparência segundo o ponto de vista não é um objeto sólido, mas uma ilusão de ótica. No pensamento também há um espaço de três dimensões.               (p.65)

           A cultura é um instrumento manejado por professores para fabricar professores que por sua vez fabricarão professores.

           Entre todas as formas atuais da doença do desenraizamento, o desenraizamento da cultura não é o menos alarmante. A primeira conseqüência dessa doença é geralmente, em todas as áreas, que estando às relações cortadas cada coisa é vista como uma finalidade e si. O desenraizamento engendra a idolatria.          (p.66)

           Há um terceiro obstáculo à cultura operária; é a escravidão. O pensamento é por essência livre e soberano, quando se exerce realmente. Ser livre e soberano, na qualidade de ser presente, durante uma hora ou duas, e escravo o resto do dia, é um dilaceramento tão pungente que é quase impossível não renunciar, para se subtrair a isso, às formas mais altas do pensamento.

          Se fossem realizadas reformas eficazes, esse obstáculo desapareceria pouco a pouco. Bem mais do que isso, a lembrança da escravidão recente e os restos da escravidão desaparecendo seriam um estimulante poderoso para o pensamento no decurso da liberação.          (p.68)

          Em resumo, a supressão da condição proletária, que é definida antes de tudo pelo desenraizamento, reduz-se à tarefa de constituir uma produção industrial e uma cultura do espírito em que os operários estejam e sintam em casa.

          Evidentemente, os próprios operários teriam grande parte em tal construção. Mas pela natureza das coisas, essa parte iria aumentando à medida que se realizasse sua libertação real. Ela está inevitavelmente no mínimo enquanto os operários estiverem sob a dominação da desgraça.         (p.69)

                                            O desenraizamento camponês  

           O problema de desenraizamento camponês não é menos grave que o desenraizamento operário. Embora a doença esteja menos avançada, tem algo de ainda mais escandaloso; pois é contra a natureza que a terra seja cultivada por serem desenraizados. É preciso conceder a mesma atenção aos dois problemas.            (p.74)

            O desenraizamento camponês foi, no decurso dos últimos anos, um perigo tão mortal para o país quanto o desenvolvimento operário. Um dos sintomas mais graves foi, há sete ou oito anos, o despovoamento do campo prosseguindo em plena crise de desemprego.          

            É evidente que o despovoamento do campo, no limite, desemboca na morte social. Pode-se dizer que ela não irá até lá. Mas nada se sabe a esse respeito. Até aqui, não se percebe nada que seja susceptível de pará-lo.     

            A respeito desse fenômeno. Há duas coisas a notar.

            Uma é que os brancos o transportam a toda a parte aonde vão. A doença atingiu mesmo a África negra, que no entanto era sem duvida há milhares de anos um continente feito de vilarejos. Essas pessoas ao menos, quando não se vinha massacrá-las, torturá-las ou reduzi-las à escravidão, sabiam viver felizes na sua terra. Nosso contato está a fazê-los perder essa capacidade. Isso poderia fazer duvidar se mesmos os negros da África, embora os mais primitivos entre os colonizados, não tinham no fim das contas mais a nos ensinar a aprender de nós. Nossos benefícios para com eles parecem-se com os do financista para com o sapateiro. Nada no mundo compensa a perda da alegria no trabalho.  

             A outra observação a fazer é que os recursos, ilimitados na aparência, do Estado totalitário, são imponentes contra esse mal. Houve a esse respeito, na Alemanha, confissões oficiais, formais, varias vezes repetidas. Num sentido, tanto melhor, pois isso dá uma possibilidade de fazer melhor do que eles.           (p.76-77)

             O complexo de inferioridade nos campos é tamanho que se vêem camponeses milionários achar natural serem tratados por pequenos burgueses aposentados com uma arrogância de colonialistas para com indígenas. É preciso que um complexo de inferioridade seja fortíssimo para não ser apagado pelo dinheiro.              (p.77)

             A necessidade de enraizamento, nos camponeses, tem primeiro a forma da sede de propriedade. É verdadeiramente uma sede para eles, uma sede saudável e natural.                (p.78)

             A ciência deve ser apresentada aos camponeses e aos operários de maneiras muito diferente. Para os operários, é natural que tudo esteja dominado pela mecânica. Para os camponeses, tudo deveria ter por centro o maravilhoso circuito pelo qual a energia solar, tendo descido até às plantas, fixada pela clorofila, concentrada nas sementes e nos frutos, entra no homem que come ou bebe, passa para seus músculos e se gasta para trabalhar a terra. Tudo o que se relaciona com a ciência pode disposto em torno desse circuito, pois a noção de energia está no centro de tudo. O pensamento desse circuito, se penetrasse no espírito dos camponeses, envolveria de poesia o trabalho.           (p.82)

             De maneira geral, toda a introdução, nos vilarejos, deveria ter por objeto essencial aumentar a sensibilidade à beleza do mundo, à beleza na natureza. Os turistas, é verdade, descobriam que os camponeses não se interessam pelas paisagens. Mas quando se compartilha com camponesas jornadas de trabalho esgotantes, que é o único procedimento para conversar com ele francamente, ouvem-se alguns lamentar que seu trabalho seja duro demais para deixá-los gozar as belezas da natureza.           (p.82)

           A primeira condição para um reenraizamento moral do campesinato país é que a profissão de professor primário rural seja algo distinto, específico, cuja formação seja não só parcialmente, mas totalmente diferente de formação de um professor primário das cidades. É absurdo no mais alto grau fabricar num mesmo molde professores para Beleville ou para um pequeno vilarejo. É um dos numerosos absurdos de uma época cujo caráter dominante é a burrice.

           A segunda condição é que os professores primários rurais conheçam os camponeses e não os desprezam, o que não se obterá simplesmente recrutando-os no campesinato.             (p.83)

           Seria muito proveitoso também que as Igrejas fizessem da condição de padre ou pastor de vilarejo alguma coisa específica. É um escândalo ver quanto, num vilarejo francês inteiramente católico, a religião pode estar ausente da vida diária, reservada a algumas horas do domingo, quando se pensa em com quanta predileção. Assim como as estrelas e o sol dos quais fala o professor moram nos cadernos e livros e não têm nenhuma relação com o céu, assim também a vinha, o trigo, as ovelhas as quais se faz menção domingo na igreja nada têm em comum com a vinha, o trigo, as ovelhas que se encontram nos campos e aos quais se dá todos os dias um pouco de sua vida. Os camponeses cristãos estão desenraizados também em sua vida religiosa.               (p.84)

            A única atitude ao mesmo tempo legítima e praticamente possível que o ensino público possa ter, na França, para com o cristianismo, consiste em vê-lo como um tesouro do pensamento humano entre tantos outros. É absurdo no mais alto grau que um aluno francês no fim dos estudos secundários tenha tomado conhecimento de poemas da Idade Média, de Polyeucte, de Athalie, de Phèdre, de pascal, de Lamartine, de doutrinas filosóficas impregnadas de cristianismo como as de Descartes e de Kant, da Divina Comédia ou do Paradise Lost, e que jamais aberto a Bíblia.           (p.86)

            Bastaria dizer aos futuros professores primários e aos futuros professores: a religião teve em todos os tempos e em todos países, salvo muito recentemente em alguns lugares da Europa, um papel dominante no desenvolvimento da cultura, do pensamento, da civilização humana. Uma instrução na qual jamais se trata de religião é um absurdo. Por outro lado, assim como em história se fala muito da França aos pequenos franceses, é natural que se estando na Europa, se falar de religião, se trate antes de tudo de cristianismo.

             Por conseguinte, seria preciso incluir no ensino de todos os graus, para as crianças já um pouco crescidas, cursos, que se poderiam etiquetar, por exemplo, história religiosa. Far-se-ia as crianças lerem passagens de Escrituras, e acima de tudo os Evangelhos. Comentar-se-ia no próprio espírito do texto, como sempre de deve fazer.               (p.86)           

              Nossa época tem como missão própria, como vocação a constituição de uma civilização fundada sobre a espiritualidade do trabalho. Os pensamentos que se relaciona ao pressentimento dessa vocação, e que estão esparsos em Rousseau, George Sand, Tolstoi, Proudhon, Marx, nas encíclicas dos papas, e em outros lugares, são os únicos pensamentos originais do nosso tempo, os únicos que não tenhamos tomado emprestados dos gregos. É porque não estivemos à altura desta grande coisa que estava crescendo dentro de nós que nos jogamos no abismo dos sistemas totalitários. Mas se a Alemanha for vencida, talvez nossa derrota não seja definitiva. Talvez ainda tenhamos uma oportunidade. Não se pode pensar nisso sem angústia; se a tivemos, medíocres como somos, como faremos para não a perder?  

           Essa vocação é a única coisa suficientemente grande para propor aos povos em vez do ídolo totalitário. Se não for proposta de maneira a fazer sentir sua grandeza, eles permaneceram no poder do ídolo, ele será somente pintado de vermelho em vez de marrom. Se se propuser aos homens escolher entre a manteiga, uma fatalidade misteriosa constrange-os contra sua vontade a escolher os canhões. A manteiga está por demais desprovida de poesia – a menos quando se tem manteiga, pois ele assume uma espécie de poesia quando falta. A preferência que se tem por ela é inconfessável.             (p.90)

           A forma contemporânea da grandeza autêntica é uma civilização constituída pela espiritualidade do trabalho. É um pensamento que se pode destacar sem correr o risco de nenhuma desunião. A palavra espiritualidade não implica nenhuma filiação particular. Os próprios comunistas, na atmosfera atual, sem dúvida não a repeliriam. Seria fácil aliás encontrar em Marx citações que se referem toda à acusação de falta de espiritualidade lançada à sociedade capitalista; o que implica que ela deve existir na sociedade nova. Os conservadores não ousariam repelir essa fórmula. Os meios radicais, laicos, maçons, também não. Os cristãos adotá-la-iam alegremente. Ela poderia suscitar a unanimidade.         (p.91)

                                                   Desenraizamento e nação

          Uma outra espécie de desenraizamento ainda deve ser estudada por um conhecimento sumário de nossa principal doença. É o desenraizamento que se poderia chamar geográfico, ou seja, em relação às coletividades que correspondem a territórios. O próprio sentido dessas coletividades quase desapareceu, exceto por uma única, a nação. Mas há, houve muitas outras. Algumas menores, todas pequenas às vezes: cidade ou conjunto de vilarejos, província, região; outras englobando várias nações; outras englobando vários pedaços de nações.    

            Somente a nação; substituiu tudo isso. A nação, ou seja o Estado; pois não se pode achar outra definição para a palavra nação senão o conjunto dos territórios que reconhecem a autoridade de um mesmo Estado. Pode-se dizer que na nossa época o dinheiro e o Estado tinham substituído todos os outros vínculos.          (p.92-93)

            Não haverá movimento operário saudável se ele não encontrar à sua disposição uma doutrina designando um lugar à noção de pátria, e um lugar determinado, ou seja, limitado. Aliás, necessidade não é mais evidente para os meios operários senão porque o problema da pátria vem sendo ai discutido há muito tempo. Mas é uma necessidade comum a todo país. É inadmissível que a palavra que hoje retorna quase continuamente acoplada à de dever quase nunca tenha sido objeto de algum estudo. Em geral, não se acha para citar a esse respeito senão a uma pagina medíocre de Renan.

           A nação é um fato recente. Na Idade Média a fidelidade ia para o senhor, ou cidade, ou para ambos, e além para meios territoriais que não eram muitos distintos. O sentimento que chamamos patriotismo já existia, num grau por vezes muito intenso; seu objeto é que não era territorialmente definido. O sentimento recobria segundo as circunstâncias áreas de terra variáveis.               (p.96)

           Salvo erro, a noção de Estado como objeto de fidelidade apareceu, pela primeira vez na França e na Europa, com Richelieu. Antes dele podia-se falar, num tom de dedicação religiosa, do bem público, do país, do rei, do senhor. Ele foi o primeiro que adotou o princípio que todo aquele que exerce uma função pública deve toda sua fidelidade, no exercício dessa função, não ao público, não ao rei, mas ao Estado e nada mais. Seria difícil definir o Estado de uma maneira rigorosa. Mas não é infelizmente possível duvidar de que essa palavra designe uma realidade.               (p.107)

           Mas quando a igreja cometeu o erro irreparável de associar sua sorte à das instituições monárquicas, ela cortou-se da vida pública. Nada podia servir melhor às aspirações totalitárias do Estado. Devia resultar daí o sistema laico, prelúdio à adoração confessada do Estado como acontece hoje.

           Os cristãos estão sem defesa contra o espírito laico. Pois ou eles se entregam inteiramente a uma ação política, uma ação de partido, para recolocar e poder temporal entre as mãos de um clero, ou dos seguidores de um clero; ou então se resignam a ser eles mesmos irreligiosos em toda a parte profanos de sua própria vida, o que é geralmente o caso hoje em dia, num grau muito mais alto do que os próprios interessados têm consciência. Nos dois casos é abandonada a função própria da religião, que consiste em impregnar de luz toda vida profana, pública e privada, sem jamais a dominar de nenhuma forma        (p.111)

           Se o Estado matou moralmente tudo o que era, territorialmente falando, menor do que ele, transformou também as fronteiras territoriais em muros de prisão para encerrar os pensamentos. Quando se olha a história de perto, e fora dos manuais, fica-se estupefato de ver quando certas épocas quase desprovidas de meios materiais de comunicação ultrapassavam a nossa em riqueza, variedade, fecundidade, intensidade de vida nas trocas de pensamentos através dos mais vastos territórios. É o caso da Idade média, da Antiguidade pré-romana, período imediatamente anterior aos tempos históricos. Em nossos dias, como o rádio, a aviação, o desenvolvimento dos transportes de toda espécie, a tipografia, a imprensa, o fenômeno moderno da nação encerra em pequenos compartimentos separados mesmo numa coisa tão naturalmente universal quanto a ciência. As fronteiras, evidentemente, não são intransponíveis; mas assim como para viajar é preciso passar por uma infinidade de formalidades aborrecidas e penosas, do mesmo modo todo contato com um pensamento estrangeiro, em qualquer área, demanda um esforço mental para passar a fronteira. É um esforço considerável, e muitas pessoas não consentem em fazê-lo. Mesmo para aqueles que o fazem, o fato de um esforço seria indispensável impede que vínculos orgânicos possam ser estabelecidos por cima das fronteiras.

           É verdade que existem Igrejas e partidos internacionais. Mas quanto às Igrejas, apresentam o escândalo intolerável de padres fiéis perdidos a Deus ao mesmo tempo, com os mesmos ritos, as mesmas palavras, e, é preciso supô-lo, um grau igual de fé e de pureza de coração, a vitória militar para um ou outro de dois campos inimigos. Esse escândalo vem de longe; mas em nosso século a vida religiosa está mais subordinada à da nação do que jamais esteve. Quanto aos partidos, ou não são internacionais senão por ficção, ou internacionalismo toma aí a forma da subordinação total em uma certa nação.            (p.115)

           A fidelidade implica por uma filiação religiosa conta igualmente muito pouco, por singular que isso seja, na vida moderna. Apesar de diferenças evidentes e consideráveis, um efeito em sentido análogo é produzido pelo sistema inglês da Igreja nacional e pelo sistema francês da separação das Igrejas e do Estado. Somente o segundo parece mais destruidor.

           A religião foi proclamada uma questão privada. Segundo os hábitos de espírito atuais, isso não quer dizer que ela reside no segredo da alma, nesse lugar profundamente escondido onde nem mesmo a consciência de cada um penetra. Isso quer dizer que ela é questão de escolha, de opinião, de gosto, quase de fantasia, algo como a escolha de um partido político ou mesmo como a escolha de uma gravata; ou ainda que ela é uma questão de família, de educação, de meio. Tendo-se tornado uma coisa privada, perde o caráter obrigatório reservado às coisas públicas, e por conseqüência não tem mais direito inconteste à fidelidade.                  (p.117)

           Numerosas expressões reveladoras mostram que é assim. Quantas vezes, por exemplo, não se ouve repetir este lugar-comum: “Católicos, protestantes, judeus ou livres pensadores, somos todos franceses”, exatamente como se diria: “Marselheses, lioneses, ou parisienses, somos todos franceses”. Em textos emanados do papa, pode-se ler. “Não só do ponto de vista cristão, mas mais geralmente do ponto de vista humano...”; como se o ponto de vista cristão, que ou não tem nenhum sentido, ou então pretende envolver todas as coisas nesse mundo e no outro, tivesse um grau de generalidade menor do que o ponto de vista humano. Não se pode conceber uma confissão de falência mais terrível. Eis como se pegam os “ anathema sit”. No fim das contas, a religião, degradada à posição de questão privada, reduz-se à escolha de um lugar onde ir passar na hora ou duas, domingo de manhã.

            O que é cômico nisso é que a religião, ou seja, a relação do homem com Deus, não é vista hoje como uma coisa sagrada demais para a intervenção de qualquer autoridade externa, mas é posta no número de coisas que o Estado deixa à fantasia de cada um, como sendo de pouca importância quanto aos assuntos públicos. Ao menos foi assim foi num passado recente. Essa é a significação atual da palavra “tolerância”.             (p.118)

             Acusa-se frequentemente a Antiguidade de não ter sabido reconhecer senão os valores coletivos. Na realidade, esse erro foi cometido pelos romanos, que eram ateus, e pelos hebreus; e por estes, somente até o exílio na Babilônia. Mas se não temos razão ao atribuir esse erro à Antiguidade pré-cristã, também não temos razão ao não reconhecer que o cometemos continuamente, corrompidos como estamos pela dupla tradição romana e hebraica, que prevalece quase sempre em nós sobre a inspiração cristã pura. 

              Os cristãos  hoje estão embaraçados por reconhecer que, se der à palavra pátria o sentido mais forte possível, um sentido completo, um cristão não tem senão uma pátria que está situada fora deste mundo. “Constituí-vos tesouros no céu... pois lá onde está o tesouro de um homem, estará também seu coração”. É, portanto proibido ter o coração na terra.

              Os cristãos hoje não gostam de fazer a pergunta sobre os diretos respectivos, sobre seu coração, de Deus e de seu país. Os bispos terminaram um de seus protestos mais corajosos dizendo que recusavam a escolher entre Deus e a Alemanha. E por que se recusam? Sempre se podem produzir circunstâncias implicando uma escolha a fazer entre Deus e qualquer coisa terrestre, e a escolha nunca deve ser duvidosa. Mas os bispos franceses teriam usado a mesma linguagem. A popularidade de Joana d’Arc no decurso do ultimo quarto século não geral algo completamente são; era um recurso cômodo para esquecer que há uma diferença entra a França e Deus. Contudo essa covardia interior frente ao prestígio da idéia de pátria não tornou a patriotismo mais enérgico. A estátua de Joana d’ Arc estava colocada de maneira a atrair os olhares, em todas as igrejas do país, durante esses dias horrendos em que os franceses abandonaram a França.                (p.123)              

              Numa alma cristã, a presença da virtude pagã do patriotismo é um solvente. Ela passou de Roma às nossas mãos sem ter sido batizada. Coisa estranha, os bárbaros, ou aqueles que assim eram chamados, foram batizados quase em dificuldade no momento das invasões; mas a herança da Roma antiga jamais o foi, sem dúvida porque não podia sê-lo, e isso apesar do Império Romano ter feito do cristianismo uma religião de Estado.

             Seria difícil aliás imaginar uma injúria mais cruel. Quanto aos bárbaros, não é surpreendente que os godos tenham entrado facilmente no cristianismo, se, como acreditavam seus contemporâneos, eles eram do sangue desses getas, os trácios mais justos, que Heródoto chamava os imortalizadores por causa da intensidade de sua fé na vida eterna. A herança desses bárbaros misturou-se ao espírito cristão para formar um produto único, inimitável, perfeitamente homogêneo que foi denominado cavalaria. Mas entre o espírito de Roma como a mulher sentada sobre a besta, a mulher grávida dos nomes da blasfêmia.

              O renascimento foi uma ressurreição do espírito grego, depois do espírito romano. Foi só nessa segunda etapa que ele agiu como um solvente do cristianismo. Foi durante essa segunda etapa que nasceu a forma moderna da nacionalidade, a forma moderna do patriotismo.               (p.131-132)

              O centro da contradição inerente ao patriotismo é que a pátria é uma coisa limitada cuja exigência é ilimitada. No momento do perigo extremo, ela pede tudo. Por que se concederia tudo a uma coisa limitada? Por outro lado, não estar resolvido a lhe dar tudo em caso de necessidade, abandoná-la completamente, pois sua conservação não pode ser assegurada por menos. Assim, parece que se está sempre ou aquém ou além do que se lhe deve, e se for além, por reação volta-se mais tarde tanto mais ninguém.

              A contradição é só aparente. Ou mais exatamente ela é real, mais vista na sua verdade ele se reduz a uma dessas contradições fundamentais da situação humana, que é preciso reconhecer aceitar, e usar como estribo para subir além do que é humano. Jamais neste universo há igualdade de dimensões entre uma obrigação e seu objeto. A obrigação é um infinito, seu objeto não o é. Esta contradição pesa sobre a vida cotidiana de todos os homens, se exceção, inclusive aqueles que seriam completamente incapazes de formulá-la mesmo confusamente. Todos os procedimentos que os homens acreditaram ter encontrado para sair delas são mentiras.

              Uma delas consiste em só reconhecer obrigações para com o que não deste mundo. Uma variedade desse procedimento constitui falsa mística, a falsa contemplação. Uma outra é a prática das boas obras realizadas num certo espírito, “pelo amor de Deus”, como se diz, não sendo os infelizes socorridos senão a matéria da ação, uma ocasião anônima de testemunhar benevolência a Deus. Em ambos os casos há mentira, pois “aquele que não ama seu irmão que ele vê, como amaria a Deus que não vê?) É somente através das coisas e dos seres daqui de baixo que o amor humano pode penetrar até o que mora do outro lado.

               Um outro procedimento consiste em admitir que há aqui embaixo um ou vários objetos encerrados esse absoluto, esse infinito, essa perfeição que estão essencialmente vinculados à obrigação como tal. É a mentira da idolatria.

               O terceiro procedimento consiste em negar toda obrigação. Não se pode provar por uma demonstração do tipo geométrico que é um erro, pois a obrigação é de uma ordem de certeza muito superior àquela em que residem as provas. De fato, essa negação é impossível. Constitui um suicídio espiritual. E o homem é feito de tal modo que nele a morte espiritual é acompanhada por doenças psicológicas elas mesmas mortais. De fato, o instinto de conservação impede que a alma faça mais do que aproximar de tal estado; de fato ele o reconhece. Não há homem que não faça às vezes julgamentos sobre o bem e o mal, ao menos para censurar o outro.

               É preciso aceitar a situação que nos cabe e que nos submete a obrigações absolutas para com coisas relativas, limitadas é imperfeitas. Para discriminar quais são essas coisas e como se podem compor suas exigências para conosco, é preciso só ver claramente no que consiste sua relação com o bem.

               Para a pátria, as noções de enraizamento, de meio vital, bastam para este fim. Elas não precisam ser estabelecidas por provas, pois há alguns anos são verificadas experimentalmente. Como há meios de cultura para certos animais microscópicos, terrenos indispensáveis pata certas plantas, do mesmo modo há uma certa parte da alma em cada um e certas maneiras de pensar e de agir circulando de uns para os outros que não podem existir senão no meio nacional e desaparecerem quando um país é destruído.                (p.145-146)                                                                                              

              Pode-se amar a França pela glória que parece assegurar-lhe uma existência ampla no tempo e no espaço. Ou então pode-se amá-la como uma coisa que, sendo terrestre, pode se destruída, e cujo valor é muito mais sensível. 

              São dois amores distintos; talvez, provavelmente, incompatíveis, embora a linguagem os misture. Aqueles cujo coração é feito para experimentar o segundo podem, pela força do hábito, empregar a linguagem que não corresponde senão ao primeiro.                           

            Só o segundo é legítimo para um cristão, pois só ele tem a cor da humildade cristã. Só ele pertence à espécie de amor que pode receber o nome de caridade. Não se acredite que este amor possa somente ter por objeto um país infeliz.

              A felicidade é um objeto para compaixão pela mesma razão que a infelicidade, porque é terrestre, ou seja, incompleta, frágil, e passageira. De resto sempre há infelizmente na vida de um país um certo grau de infelicidade.

             Não se acredite também que tal amor correria o risco de ignorar ou de negligenciar o que há de grandeza autêntica e pura no passado, no presente e nas aspirações da França. Muito pelo contrario. A compaixão é tanto mais terna, tanto mais pungente, quanto mais se discerne o bem no ser que é seu objeto, e ela dispõe a discernir o bem. Quando um cristão representa para sim mesmo Cristo na cruz, a compaixão nele não é diminuída pelo pensamento de perfeição, nem inversamente. Mas por outro lado, tal amor pode ter os olhos abertos para as injustiças, as crueldades, os erros, as mentiras, os crimes, as vergonhas, contidos no passado, presente e nos apetites do país, sem dissimulação nem reticência, e sem ser por isso diminuído; ele se torna somente mais um doloroso. Para a compaixão, o próprio crime é uma razão, não de se afastar, mas de se apaixonar, para compartilhar, não a culpa, mas a vergonha. Os crimes dos homens não diminuíram a compaixão de cristo. Assim a compaixão tem os olhos abertos para o bem e o mal e encontra em ambos razões de amar. É o único amor aqui em baixo que é verdadeiro e justo.                 (p,158-159)

              Os sentimentos pessoais desempenham nos grandes acontecimentos do mundo um papel que nunca se discerne em toda sua extensão. O fato de que haja ou não amizade entre dois homens, entre dois meios humanos, pode em certos casos ser decisivo para o destino do gênero humano.

             É absolutamente compreensível. Uma verdade nunca aparece a não ser no espírito de um ser humano particular. Como ele a comunicará? Se tentar expô-la, não será ouvido; pois os outros, não conhecendo essa verdade, não a reconhecerão como tal; não saberão que o que ela está dizendo é verdade; não lhe prestarão atenção suficiente para se aparecerem disso; pois não terão nenhum motivo para realizar esse esforço de atenção.                              

           Mas a amizade, a admiração, a simpatia, ou qualquer outro sentimento benevolente os disporia naturalmente a um certo grau de atenção. Um homem quem tem algo novo a dizer – pois para os lugares-comuns nenhuma atenção é necessária – não pode ser o início ouvido senão pelos que o amam.

             Assim a circulação das verdades entre os homens depende inteiramente do estado dos sentimentos; e é assim para todas as espécies de verdades.

             Nos exilados que não esquecem seu país – e aqueles que o esquecem são perdidos – o coração está irresistivelmente voltado para a pátria infeliz que há poucos recursos afetivos para a amizade para com o país onde se mora. Essa amizade não pode verdadeiramente germinar e crescer no seu coração se não exercerem uma espécie de violência. Mas essa violência é uma obrigação.

             Os franceses que estão em Londres não tem obrigação mais imperiosa para com o povo francês, que vive com os olhos voltados para eles, do que fazer que haja entre eles mesmos a elite dos ingleses uma amizade real, viva, calorosa, íntima, eficaz.

             Fora da utilidade estratégica, outras considerações ainda devem ter lugar na escolha das ações. Elas tem ainda muito mais importância, mas vêm em segundo lugar, porque a utilidade estratégica é uma condição para que a ação seja real; onde ela está ausente, há agitação, não ação, e a virtude indireta da ação, que lhe dá o valor principal, está ausente ao mesmo tempo.             (p.188)

              Um avaro não é um avaro quando começa a amealhar. É estimulado de início, sem dúvida, pelo pensamento dos prazeres que se conseguem com dinheiro. Mas os esforços e as privações que ele se impõe cada dia produzem um treinamento. Quando o sacrifício supera de longe o impulso inicial, o tesouro, objeto do sacrifício, torna-se para ele um fim em si, e ele subordina-lhe sua própria pessoa. A mania do colecionador repousa sobre um mecanismo análogo. Poder-se-ia citar uma quantidade de outros exemplos.

              Assim quando os sacrifícios feitos a um objeto superam de longe um impulso que os causou, resulta daí, para com esse objeto, ou um movimento de repulsão, ou um apego de uma espécie nova e mais intensa, alheio ao impulso primeiro.

              No segundo caso, há bem ou mal segundo a natureza do objeto.

              Se no caso do doente há frequentemente repulsão, é porque esse gênero de esforço está privado de futuro; nada de exterior responde à acumulação interior de fadiga. O avaro, quanto a ele, vê crescer se tesouro.

              Há aliás também situações, combinações de caracteres, tais que um doente numa família inspira ao contrário um apego fanático. Estudando suficientemente tudo isso, poder-se-ia sem dúvida discernir as leis.

              Mas mesmo um conhecimento sumário desses fenômenos pode fornecer-nos regras as leis.

              Mas mesmo um conhecimento sumário desses fenômenos pode fornecer-nos regras práticas.

              Para evitar o efeito de repulsão, é preciso prever o esgotamento possível dos móbiles; é preciso de período em período dar a autoridade da expressão oficial a móbiles novos para as mesmas ações, móbiles respondendo ao que terá podido germinar espontaneamente no íntimo dos corações.

              É preciso sobretudo velar para que o mecanismo de transferência que vincula a avaro ao tesouro funcione de maneira a produzir bem ou não mal; evitar ou em todo caso reduzir ao escrito mínimo todo o mal que poderia assim ser suscitado.              (p.191-192)

             Uma das verdades fundamentais do cristianismo é que um progresso para uma imperfeição menos não é produzido pelo desejo de uma menor imperfeição. Só o desejo da perfeição tem a virtude de destruir na alma uma parte do mal que a macula. Daí o mandamento de Cristo: “sede perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito”

             Quanto mais a linguagem humana está longe da beleza divina, tanto mais as faculdades sensíveis e intelectuais dos homens estão longe da verdade, tanto mais as necessidades da vida social estão longe da justiça. Por conseqüência, não é possível que a política não precise de esforços de invenção criadora tanto a arte e a ciência.

             É por isso que a quase totalidade das opiniões políticas e das discussões em que elas se opõem é tão alheia à política quanto o choque das opiniões estéticas nas cervejarias de Montparnasse é alheio à arte. O político no caso como artista no outro não podem encontrar aí senão um certo estimulante, que deve ser tomado em dose muito pequena.

            Quase nunca se vê a política como uma arte de espécie tão elevada. Mas é porque se está acostumado há séculos a vê-la simplesmente, ou em todo caso principalmente, como a técnica da aquisição e da conservação do poder.

            Ora, o poder não é um fim. Por natureza, por essência, por definição, ele constitui exclusivamente um meio. Ele é para a política o que é um piano para a composição musical. Um compositor que precisa de um piano para a invenção das melodias ficará embaraçado se estiver num vilarejo onde não haja nenhum. Mas se lhe arranjarem um, é preciso então que componha.

             Infelizes que somos, confundiríamos a fabricação de um piano com a composição de uma sonata.

             Um método de educação não é grande coisa se não tiver como inspiração como a concepção de uma certa perfeição humana. Quando se trata da educação de um povo, essa concepção deve ser a de uma civilização. Não se deve procurá-la no passado, que só contem o imperfeito. Muito menos ainda em nossos sonhos de futuro, que são por necessidade tão medíocres quanto nós mesmos, e por conseqüência de muito longe inferiores ao passado. É preciso procurar a inspiração de tal educação, como o próprio método, entre as verdades eternamente inscritas na natureza das coisas.

             Eis, sobre esse assunto, algumas indicações.

             Quatro obstáculos sobretudo nos separam de uma forma de civilização susceptível de valer alguma coisa. Nossa concepção falsa de grandeza; a degradação do sentimento da justiça; nossa idolatria do dinheiro; e a ausência em nós de inspiração religiosa. Podes-se expressar na primeira pessoa do plural, sem nenhuma hesitação, pois é duvidoso que no instante presente um único ser humano na superfície do globo terrestre escape a esse quádruplo desvio, e mais duvidoso ainda que haja um único na raça branca. Mas se houver alguns, como é preciso esperar apesar de tudo, estão escondidos.           (p.198)

              Para discernir uma crueldade, é preciso levar em conta as circunstâncias, as significações variáveis vinculadas aos atos e às palavras, da linguagem simbólica própria de cada maio; mas uma vez que uma ação foi indubitavelmente reconhecida como uma crueldade, quaisquer que sejam o lugar e a data, ela é horrível.

              A superstição moderna do progresso é um subproduto da mentira pela qual se fez do cristianismo a religião romana oficial; ela está ligada à destruição dos tesouros espirituais dos países conquistados por Roma, à dissimulação da perfeita continuidade entre esses tesouros e o cristianismo, a uma concepção histórica da Redenção, que faz dela uma operação temporal e não eterna. O pensamento do progresso foi mais tarde laicizado; é hoje o veneno de nossa época. Colocando que a desumanidade era no século XIV uma coisa boa e grande, mas um horror no século XX, podia-se impedir um garoto do século XX, amante de leituras históricas, de dizer o mesmo :“Sinto em mim mesmo que agora a época em que a humanidade era uma virtude acabou e que a época da desumanidade retorna”? Quem proíbe de imaginar uma sucessão em vez de uma linha contínua? O dogma de progresso desonra o bem fazendo-o uma questão de moda.

              É aliás somente porque o espírito histórico consiste em crer na palavra dos assassinos que esse dogma parece responder tão bem aos fatos. Quando por momentos o horror consegue romper a insensibilidade espessa de um leitor de Tito Lívio, ele diz: “Eram os costumes da época”. Ora sente-se à evidência nos historiadores gregos que a brutalidade dos romanos horrorizou a paralisou os contemporâneos exatamente como faz a dos alemães.         (p.207-208)

              Não há outro procedimento para o conhecimento do coração humano senão o estudo da história juntamente com a experiência da vida, de tal maneira que elas se esclarecem mutuamente. Tem-se a obrigação de fornecer esse alimento aos espíritos dos adolescentes e dos homens. Mas é preciso que seja um alimento de verdade. É preciso não só que os fatos sejam exatos tanto quanto se possa controlá-los, mas também que eles sejam mostrados em sua perspectiva verdadeira relativamente ao bem e ao mal.

             A história é um tecido de baixeza e de crueldades em que algumas gotas de pureza brilham de longe em longe. Se é assim, o primeiro porque há pouca pureza entre os homens; em seguida porque a maior parte desse pouco está permanece escondida. É preciso procurar-se se puder testemunhos indiretos. As igrejas românticas, o canto gregoriano só pôde surgir entre populações em que havia muito mais pureza do que houve nos séculos seguintes.           (p.209-210)                                                    

            A transmissão da falsa grandeza através dos séculos não é particular da história. É uma lei geral. Governa também por exemplo as letras e as artes. Há uma certa dominação do talento literário sobre os séculos que corresponde à dominação do talento político no espaço; são dominações de mesma natureza, igualmente temporais, pertencendo igualmente ao campo da matéria e da força, igualmente baixas. Então podem ser um objeto de negociação e de troca.            (p.210)

            Não somente no ensino da história, é em todos os estudos propostos às crianças que o bem é desprezado, e uma vez homens, não encontramos nos alimentos oferecidos a seu espírito senão motivos para se endurecerem nesse desprezo.

           É evidente, uma verdade que passou a estado de lugar-comum entre as crianças e os homens, que ao talento não tem nada a ver com a moralidade. Ora, só se propõe à admiração das crianças e dos homens o talento em todas as áreas. Em todas a manifestações do talento, quaisquer que sejam, eles vêem exibir-se com impudência a ausência das virtudes que se lhes recomenda praticar. Que se pode concluir daí, senão que a virtude é própria da mediocridade? Esta persuasão penetrou tão fundo que a própria palavra virtude é agora ridícula, ela que antigamente era tão cheia de sentido, como também as palavras honestidade e bondade. Os ingleses estão mais perto do passado do que os outros países; assim não há hoje nenhuma palavra na língua francesa para traduzir good e wicked.

           Como uma criança que ver glorificar nas lições de história a crueldade e a ambição; nas de literatura e egoísmo, o bagulho, a vaidade, a sede de fazer barulho; nas de ciências todas as descobertas que transformaram as vidas dos homens, sem que se leve em conta o método da descoberta nem o efeito da transformação; como aprenderia ela a admirar o bem? Tudo aquilo que tenta ir contra essa corrente tão geral, por exemplo os elogios de Pauster, soa falso. Na atmosfera da falsa grandeza, é inútil querer reencontrar a verdadeira. É preciso desprezar a falsa grandeza.

           É verdade que o talento não tem vínculo com a moralidade; mas é porque não há grandeza no talento. É falso que não haja vínculos entre a perfeita beleza, a perfeita  verdade, a perfeita justiça; há mais do que vínculos, há uma unidade misteriosa, pois o bem é uno.

           Há um ponto de grandeza em que o gênio criador de beleza, o gênio revelador de verdade, o heroísmo e a santidade são indiscerníveis. Já, à aproximação desse ponto, vêem-se as grandezas tender a se confundir. Não se pode discernir em Giotto o gênio do pintor e o espírito franciscano; nem nos quadros e poemas da seita Zen na China o gênio do pintor ou do poeta e o estado de iluminação mística; nem, quando Velasquez põe na tela reis e mendigos, o gênio do pintor e o amor candente e imparcial que transpassa o fundo das almas. A Ilíada, as tragédias de Ésquilo e as de Sófocles têm a merca evidente de que os poetas que fizeram isso estavam no estado de santidade. Do ponto de vista puramente poético, sem levar mais nada em conta, é infinitamente proferível ter composto o Cântico de São Francisco de Assis, essa jóia de beleza perfeita, de que toda obra de Victor Hugo. Racine escreveu uma única obra de toda literatura francesa que passa se posta ao lado das grandes obras-primas gregas no momento em que sua alma era trabalhada pela conversão. Estava longe da santidade quando escreveu suas outras peças, mas também não se encontra ai essa beleza dilacerante. Uma tragédia como King lear é futuro direto do puro espírito de amor. A santidade irradia nas igrejas românticas e no canto gregoriano. Monteverdi, Bach, Mozart foram esses puros em sua vida como em sua obra.                             (p.211-212)

           Um missionário que persuade um polinésio a abandonar suas tradições ancestrais, tão poéticas e tão belas, sobre a criação do mundo, pelas do Gênesis, impregnadas de uma poesia muito semelhante, esse missionário extrai sua força persuasiva da consciência que tem de sua superioridade de homem branco, consciência findada sobre a ciência. Ele é no entanto pessoalmente estrangeiro à ciência tanto quando o polinésio, pois todo aquele que não é especialista lhe é completamente estrangeiro. O Gênesis ainda lhe é mais estrangeiro. Um professor primário de vilarejo que zomba do padre, e cuja atitude dissuade as crianças de irem à missa, extrai sua força persuasiva da consciência que ele tem de sua superioridade de homem moderno sobre um dogma da Idade Média, consciência fundada sobre a ciência. No entanto, relativamente a suas possibilidades de controle, a teoria de Einstein é pelo menos pouco tão pouco fundada e tão contrária ao bom senso quanto a tradição cristã referente à concepção e nascimento de Cristo.              (p.215)

           A igreja do século XIII tinha cristo; mas tinha a Inquisição. A ciência do século XX não tem Inquisição; mas também não tem cristo, nem nada equivalente.          (p.216)                                                            

           Ainda uma vez, não é o adolescente abandonado, miserável vagabundo, de alma faminta, que é justo acusar, mas aqueles que lhe deram mentira para comer. E aqueles que lhe deram mentira para comer eram nossos predecessores aos quais nos assemelhamos.

           Na catástrofe de nosso tempo, os algozes e as vítimas são, uns e outros, antes de tudo os portadores involuntários de um testemunho sobre a atroz miséria no fundo da qual jazemos.

          Para ter o direito de punir os culpados, seria necessário primeiro nos purificarmos de ser crime, contido sob toda sorte de disfarces em nossa própria alma. Mas se tivermos sucesso nessa operação, uma vez que ela estiver cumprida não teremos mais nenhum desejo de punir, e se acreditarmos ser obrigados a fazê-lo, fá-lo-emos o menos possível com extrema dor.                 (p.217)

          Não há senão uma escolha a fazer. Ou é preciso perceber e ação no universo, ao lado da força, outro princípio, ou é preciso reconhecer a força como senhora única e soberana das relações humanas também.      (p.217-218)

          Durante os últimos séculos, sentiu-se confusamente a contradição entre a ciência e o humanismo, ainda que não se tenha nunca tido a coragem intelectual de olhá-la de frente. Sem a ter primeiro exposto aos olhares, tentou-se resolvê-la. Esta improbidade de inteligência é sempre punida com erro.

          O utilitarismo foi o fruto de uma dessas tentativas. É a suposição de um maravilhoso pequeno mecanismo mediante o qual a força, entretanto nas esfera das relações humanas, se torna produtora automática de justiça.

          O liberalismo econômico dos burgueses do século XIX repousa inteiramente sobre a crença em tal mecanismo. A única restrição era que, para ter a propriedade de ser produtora automática de justiça, a força deve ter a forma do dinheiro, com exclusão de todo uso seja das armas seja do poder político.

          O marxismo não é senão a crença num mecanismo desse gênero. Aí, a força é batizada de história; tem como forma de luta de classe; a justiça é relegada a um futuro que deve ser precedido de uma espécie de catástrofe apocalíptica.       (p.218)

          A força não é uma maquina de criar automaticamente justiça. É um mecanismo cego de onde saem o acaso, indiferentemente, os efeitos justos ou injustos, mas, pelo jogo das possibilidades, quase sempre injustos. A passagem do tempo não conta; não aumenta no funcionamento desse mecanismo a proporção ínfima dos efeitos por acaso conforme a justiça.

          Se a força for absolutamente soberana, a justiça é absolutamente irreal. Mas ele não o é. Sabemo-lo experimentalmente. Ela é real no íntimo do coração dos homens. A estrutura de um coração humana é uma realidade entre as realidades desse universo, assim como a trajetória de um astro

          Não se está no pode de um homem excluir absolutamente toda espécie de justiça dos fins que ele destina as suas ações. Nem mesmo dos nazistas o conseguiram. Se fosse possível a homens, eles sem dúvida tê-lo-iam conseguido.          (p.219)

          Para os cristãos, a incompatibilidade absoluta entre o espírito da religião e o espírito da religião e o espírito da ciência, quem tem ambos sua adesão, instala permanentemente na alma um mal-estar surdo e inconfessado. Ele pode ser quase insensível; é segundo os casos mais ou menos sensíveis; é, evidentemente, quase sempre inconfessado. Impede a coesão interna. Opõe-se a que a luz cristã impregne todos os pensamentos. Por um efeito indireto de sua presença contínua, os cristãos mais fervorosos fazem a toda hora de sua vida julgamentos, opiniões, em que se acham aplicados sem seu conhecimento critérios contrários ao espírito do cristianismo. Mas a conseqüência mais funesta desse mal-estar é impossibilitar que se exerça em sua plenitude a virtude de probidade intelectual.

          O fenômeno moderno da irreligiosidade do povo explica-se quase inteiramente pela incompatibilidade do povo explica-se quase inteiramente pela incompatibilidade entre a ciência e a religião. Desenvolveu-se quando se começou a instalar o povo das cidades num universo artificial, cristalização da ciência. Na Rússia, a transformação foi apresentada por uma propaganda que, para desenraizar e fé, se apoiava quase inteiramente sobre o espírito da ciência e da técnica. Em toda parte, depois que o povo das cidades se tornou irreligioso, o povo do campo, tornado influenciável por ser complexo de inferioridade para com as cidades, foi atrás, ainda que em menos grau.

           Pelo próprio fato da deserção das igrejas pelo povo, a religião foi automaticamente situada à direita, tornou-se uma coisa burguesa, uma coisa de conformistas. Pois de fato uma religião instituída é obrigada a se apoiar-se naqueles que vão há igreja. Não se pode apoiar naqueles que ficam fora. É verdade que mesmo antes dessa deserção, o servilismo do clero para com os poderes temporais levou-o cometer faltas graves. Mas elas teriam sido reparáveis sem essa deserção. Se provocam essa deserção por um lado, foi por um lado muito pequeno. Foi quase unicamente a ciência que esvaziou as igrejas.

           Se uma parte da burguesia foi menos perturbada em sua piedade pela ciência do que foi a classe operária, é primeiro por que ela tinha um contato menos permanente e menos carnal com as aplicações da ciência. Mas é sobretudo porque não tinha fé. Quem não tem fé não pode perdê-la. Salvo algumas exceções, a prática da religião era para ela uma convivência. A concepção científica do mundo não impede de observar as conveniências.

          Assim o cristianismo é de fato, com exceção de alguns focos de luz, uma conveniência relativa aos interesses daqueles que exploram o povo.

          Não é portanto espantoso que ele tenha um lugar tão medíocre, neste momento, na luta contra a forma atual do mal.

          Tanto mais que, mesmo nos meios, nos corações em que a vida religiosa é sincera e intensa, ela tem quase sempre no próprio centro um princípio de impureza por insuficiência do espírito de verdade. A existência da ciência dá má consciência aos cristãos. Poucos dentre eles ousam ter certeza que, se começassem do zero e se considerassem todos os problemas abolindo toda preferência, num espírito de exame absolutamente imparcial, o dogma cristão lhes apareceria como sendo manifesta e totalmente a verdade.

           Essa incerteza deveria afrouxar seus vínculos como a religião; não é assim, e o que impede que seja assim é que a vida religiosa lhe fornecem algo que precisam. Eles mesmos sentem mais ou menos confusamente que estão apegados à religião por uma necessidade e a do bem. Deus dá-se ao homem gratuitamente e mais ainda, mas o homem não deve desejar receber. Ele deve dar-se totalmente, incondicionalmente, e pelo único motivo que depois de ter errado de ilusão em ilusão na busca ininterrupta do bem, ele tem certeza de ter discernido a verdade voltando-se para Deus.          (p, 222, 223 e 224)

           A maioria dos que vão para o cristianismo, ou que, tendo nascido nele e nunca o tendo deixado, se apegam a ele com um movimento verdadeiramente sincero e fervoroso, são impedidos e depois mantidos por uma necessidade do coração. Não poderiam privar-se de religião. Ao menos não poderiam privar-se sem que resultasse para eles espécie de degradação. Ora, para que o sentimento religioso proceda do espírito de verdade, é preciso estar totalmente pronto para abandonar sua religião, a ponto de perder assim toda razão de viver, no caso em que ela fosse algo que não a verdade. Somente nesta disposição de espírito se pode discernir se há verdade nela ou não. De outro modo não se ousa nem mesmo colocar o problema com rigor.

          Deus não deve ser para o coração humano uma razão de viver como é o tesouro para o avaro.           (p.225-226)         

          O pragmatismo invadiu e maculou mesmo a concepção da fé.

          Se o espírito de verdade está quase ausente na vida religiosa, seria singular que estivesse presente na vida profana. Seria o desmoronamento de uma hierarquia eterna. Mas não é assim.

          Os sábios exigem do público que ele conceda à ciência esse respeito religioso que é devido à verdade, e o público acreditam neles. Mas é enganado. A ciência não é um futuro do Espírito de verdade, e isso é evidente quando se presta atenção.

         Pois o esforço da pesquisa científica, tal como foi compreendida desde o século XVI até nossos dias, não pode ter por móbile o amor pela verdade.

         Há ai um critério cuja aplicação é universal e segura; ele consiste para apreciar uma coisa qualquer, em tentar discernir a proporção do bem contida, não na própria coisa, e não mais. A fala de Cristo sobre as árvores e os frutos o garante.

         Só Deus, é verdade, discerne os móbiles no íntimo dos corações. Mas a concepção que domina uma atividade, concepção que geralmente não é secreta, é compatível com certos móbiles e não com outros; há aqueles que ela exclui por necessidade, pela natureza das coisas.          (p.227)

         O amor real e puro deseja sempre antes de tudo permanecer inteiro na verdade, qualquer que seja, incondicionalmente. Toda outra espécie de amor deseja antes de tudo satisfações, e por esse fato é princípio de erro e de mentira. O amor real e puro é por si mesmo espírito de verdade. É o Espírito Santo. A palavra grega que se traduz por espírito significa literalmente sopro ígneo, sopro misturado a fogo, e designava, na Antiguidade, a noção que a ciência designa hoje pela palavra energia. O que nós traduzimos como “espírito de verdade” significa a energia da verdade, a verdade como força agente. O amor puro é essa força agente, o amor que não quer a nenhum preço, em nenhum caso, nem mentira nem erro.

          Para que esse amor fosse o móbile do sábio em seu esforço esgotante de pesquisa, seria preciso que ele tivesse algo a amar. Seria preciso que a concepção que ele tem do objeto de seu estudo encerrasse um bem. Ora acontece o contrário. Desde o renascimento – mais exatamente, desde a segunda metade do Renascimento – a própria concepção da ciência é a de um estudo cujo objeto está colocado fora do bem e do mal, sobre tudo fora do bem, considerado sem nenhuma relação com o bem. A ciência só estuda os fatos como tais e os próprios matemáticos vêem as relações matemáticas como fatos do espírito. Os fatos, a força, a matéria, isolados, considerados em si mesmos, sem relação com mais nada, não há nada aí que um pensamento humano possa amar.            (p.229)

         Sofremos realmente da doença da idolatria; ela é tão profunda que retira dos cristãos a faculdade do testemunho da verdade. Nenhum diálogo que surdos pode aproximar-se em força cômica do debate e espírito moderno e da Igreja. Os descrentes escolhem para de eles fazer argumentos contra a fé cristã, em nome do espírito científico, verdades que constituem indireta ou mesmo diretamente provas manifestadas da fé. Os cristãos nunca se apercebem disso, e esforçar-se francamente, como má consciência, como uma falta aflita de probidade intelectual, por negar essas verdades. Sua cegueira é o castigo pelo crime de idolatria.       (p.234)

         O espírito de verdade está hoje quase ausente da religião, na ciência de todo o pensamento. Os males atrozes no meio dos quais debatemos, sem nem mesmo chegar a experimentar todo seu trágico, vêm inteiramente daí. “Este espírito de mentira e de erro – da queda dos reis funesto mensageiro”, de que falava Racine, hoje não é maia monopólio dos soberanos. Entende-se a todas as classes da população; abarca nações inteiras e coloca-se em delírio.

         O remédio é fazer voltar a descer o espírito de verdade entre nós, primeiro na religião e na ciência; o que implica em que elas se reconciliem.

         O espírito de verdade pode residir na ciência sob a condição de que o móbile do sábio seja o amor pelo objeto que é a matéria do seu estudo. Esse objeto é o universo no qual vivemos. Que se pode amar nele, senão sua beleza? A verdadeira definição da ciência é que ela é o estudo da beleza do mundo.

         Logo que se pensa nisso é evidente, a matéria, a força cega não são o objeto da ciência. O pensamento não pode atingi-las; fogem dele. O pensamento do sábio só atinge relações que apreendem matéria e força numa rede invisível, impalpável e inalterável de ordem e de harmonia. “A rede do céu é vasta, diz Lao-Tsé; sua malhas são largas; no entanto nada passa através delas”.

         Como o pensamento humano teria por objeto outra coisa que não pensamento? Esta é uma dificuldade tão conhecida na teoria do conhecimento que se renuncia a considerá-la, é deixada de lado como um lugar-comum. Mas há uma resposta. É que o objeto do pensamento humano é, também ele, pensamento. O sábio tem por fim a união de seu próprio espírito com a sabedoria misteriosa eternamente inscrita no universo. Por conseguinte como haveria oposição ou mesmo separação entre o espírito da ciência e o da religião? A investigação científica não é senão uma forma da contemplação religiosa.

         Era exatamente o caso da Grécia. O que se passou então depois? O que aconteceu para que essa ciência que, quando a espada romana o derrubou, tinha o espírito religioso por essência, tenha despertado materialista ao sair de sua longa letargia? Que acontecimento surgira no intervalo?

        Produzira-se uma manifestação na religião. Não se trata de advento do cristianismo. O cristianismo original, tal como está ainda presente para nós no Novo Testamento, e sobretudo nos Evangelhos, era, como a religião antiga dos Mistérios, perfeitamente apto a ser a inspiração central de uma ciência perfeitamente rigorosa. Mas o cristianismo sofreu uma transformação, provavelmente vinculada à sua passagem à posição de religião romana oficial.

        Após sua transformação, o pensamento cristão, exceto alguns raros místicos sempre expostos ao perigo de serem condenados, não admite outra noção da Providência divina senão a de uma Providência pessoal.

        Essa noção encontra-se no Evangelho, pois Deus é aí chamado pai. Mas a noção de uma Providência impessoal, e num sentido quase análoga a um mecanismo, também se encontra aí. “Tornai-vos os filhos de vosso Pai, aquele dos céus; pois ele faz levantar o sol sobre os maus e os bons, e faz cair a chuva sobre os justos e os injustos... Sede portanto perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.” (Mateus, 5, 45.)

        Assim é a imparcialidade cega da matéria inerte, é essa regularidade impiedosa da ordem do mundo, absolutamente indiferente à qualidade dos homens, e por isso tão frequentemente acusada de injustiça – é isso que é proposto como modelo de perfeição à alma humana. É um pensamento de tal profundidade que não somos nem mesmo hoje capazes de apreendê-lo; o cristianismo contemporâneo perdeu-o completamente.

       Todas asa parábolas sobre a semente respondem à noção de uma previdência impessoal. A graça cai de Deus como todos os seres; o ela se torna neles depende do que eles são; lá ela penetra realmente, os frutos que traz são o efeito de um processo análogo a um mecanismo, e que, como um mecanismo, tem lugar na duração. A virtude de paciência, ou para traduzir mais exatamente a palavra grega, de espera imóvel, é relativa a essa necessidade da duração.

        A não-intervenção de Deus na operação da graça é expressa tão claramente quanto possível: “O reino de Deus é como se um homem jogar um grão na terra, depois dormir e velas noite e dia, e o grão germina e cresce sem que ele saiba como. Automaticamente a terra traz o fruto; primeiro o caule, depois a espiga, depois a plenitude do grão na espiga.” (Marcos, 4, 26.)          (p.235,236 e 237)

       Poder-se-ia encontrar nos Evangelhos, embora eles só nos tenham transmitido uma pequena parte dos ensinamentos de Cristo, o que se poderia chamar uma física sobrenatural da alma humana. Como toda doutrina científica, ela só contém coisas claramente inteligíveis e experimentalmente verificáveis. Somente a verificação é constituída pela marcha para a perfeição, e por conseqüência é preciso crer na palavra dos que a realizaram. Mas nós acreditamos na palavra, e sem controle, dos sábios que nos dizem o que se passa em seus laboratórios, ainda que ignoremos se eles amam a verdade. Seria mais justo crer na palavra dos santos, ao menos daqueles que são autênticos, pois é certo que amam perfeitamente a verdade.          (p.240)

       O único fato sobrenatural aqui embaixo é a própria santidade e o que se aproxima dela; é o fato de que os mandamentos divinos se tornam, naqueles que amam Deus, um móbile, uma força agente, uma energia motriz, no sentido literal, como a gasolina num automóvel. Se três passos são miraculosos; são-no igualmente, quer sejam executados sobre o solo ou sobre a água. Somente se forem executados sobre o solo nada de extraordinário aparece.          (p.241)

       Os poderes exercidos por Cristo constituíam, não uma prova, mas um elo no encadeamento de uma demonstração. Eram o sinal seguro de que Cristo estava situado fora da humanidade comum, entre aqueles que se deram ao bem ou ao mal. Eles não indicavam qual dos dois. Mas discriminação era fácil de fazer pela perfeição manifesta de Cristo, a pureza de sua vida, a perfeita beleza de suas palavras, e o fato de que ele exercia seus poderes somente para atos de compaixão. Disso resultava somente que era um santo. Mas aqueles que estavam certo de que ele era um santo, quando o ouviam afirmar que era o filho de Deus, podiam hesitar sobre o sentido de suas palavras, mas eram obrigados a crer que elas encerravam uma verdade. Pois um santo, quando diz tais coisas, não pode nem mentir nem enganar-se. Nós também somos obrigados a crer tudo o que Cristo disse, salvo no que podemos supor uma má transcrição; e o que constituía força da prova é a beleza. Quando o que está em questão é o bem, a beleza é uma prova rigorosa e certa; e mesmo não pode haver nenhuma outra. É absolutamente impossível que haja alguma outra.         (p.242)        

           A fé na Providência consiste em estar certo de que o universo na sua totalidade é conforme a vontade de Deus não somente no primeiro sentido, mas também no segundo; ou seja, que neste universo o bom vence o mal. Não se pode tratar senão do universo na sua totalidade, pois nas coisas particulares não podemos infelizmente duvidar de que haja mal. Assim o objeto dessa certeza é a disposição eterna e universal constituindo o fundamento da ordem invariável do mundo. A providência divina jamais aparece de outra forma, salvo erro, nem nos textos sagrados da China, da Índia e da Grécia, nem nos Evangelhos.

           Mas quando a religião cristã foi oficialmente adotada pelo Império Romano, pôs-se na sombra o aspecto impessoal de Deus e da Providência divina. Fez-se de Deus um duplo do Imperador. A operação foi facilitada pela corrente judaica da qual o cristianismo, pelo fato de sua origem histórica, não pudera purificar-se. Jeová, nos textos anteriores ao exílio, tem com os hebreus a relação jurídica de um senhor com escravos. Eles eram escravos do Faraó; Jeová tendo-os tirado as mãos do Faraó, sucedeu-lhe nos direitos. São sua propriedade, e ele domina-os como qualquer homem domina seus escravos, salvo que dispõe de uma escolha maior de recompensas e castigos. Ordena-lhes indiferentemente o bem ou o mal, mas muito mais frequentemente o mal, e nos dois casos eles não têm senão que obedecer. Pouco importa que sejam mantidos na obediência pelos móbiles mais vis, desde que as ordens sejam executadas.

           Tal concepção estava precisamente à altura do coração e da inteligência dos romanos.         (p.245)

            Esta concepção é a de uma submissão incondicionada, total, mas concedida unicamente à legitimidade, sem nenhuma consideração pelo poder nem pelas possibilidades de prosperidade ou de desgraça, de recompensa ou castigo. É exatamente a mesma concepção que a obediência ao superior nas ordens monásticas. Um rei obedecido assim era realmente uma imagem de Deus para seus súditos, como um prior de convento para seus religiosos, não por uma ilusão que o teria feito parecer divino, mas unicamente pelo efeito de uma convenção que se acreditava divinamente retificada. Era um respeito religioso absolutamente desprovido de idolatria. A mesma concepção de senhoria legítima era transposta, abaixo do rei, de cima baixo da hierarquia social. Toda a vida pública ficava assim impregnada da virtude religiosa de obediência, como a de um convento beneditino de boa época.           (p.246)

            O Evangelho, é verdade, está cheio de comparações tiradas da escravidão. Mas na boca de Cristo essa palavra é uma astúcia do amor. Os escravos são os homens que quiseram de todo seu coração dar-se a Deus como escravos. E, embora isso seja um Don realizado num instante e de uma vez por todas, na seqüência esses escravos não param um segundo de suplicar a Deus que consinta em mantê-los na escravidão.          (p.250)

            A inspiração verdadeiramente cristã felizmente conservada pela mística. Mas fora da mística pura, a idolatria romana maculou tudo. Idolatria, pois é o modo de adoração, não o nome atribuído ao objeto, que separa a idolatria da religião. Se um cristão adora Deus com um coração disposto como o coração de um pagão de Roma na homenagem prestada ao imperador, esse cristão também é idólatra.          (p.250)

            Na tradição mística da Igreja católica, um dos objetos principais das purificações através das quais a alma deve passar é a abolição total da concepção romana de Deus. Enquanto sobrar um traço disso, a união de amor impossível.

           Mas o esplendor dos místicos foi impotente para aniquilar essa concepção na Igreja como ela estava aniquilada em sua alma, porque a igreja precisava dela como o império precisara. Precisava dela para sua dominação temporal. De modo que a divisão do poder em poder espiritual e temporal, de que se fala tão frequentemente a propósito da Idade Média, é coisa mais complexa do que se pensa. A obediência ao rei segundo a concepção espanhola clássica é uma coisa infinitamente mais religiosa e mais pura do que do que a obediência a uma Igreja armada com a Inquisição e propondo uma concepção escravagista de Deus, como foi a ampla medida o caso no século XIII. Pode ser que, por exemplo no século XIII em Aragão, o rei tenha sido detentor de uma autoridade realmente espiritual, e a Igreja de uma autoridade realmente temporal. Como quer que seja, o espírito romano de imperialismo e de dominação jamais abandonou suficientemente a igreja para que ela abolisse a concepção romana de Deus.

           Em conseqüência, a concepção da Providência tornou-se irreconhecível. É um gritante a ponto de aturdir o pensamento. Os mistérios autênticos da fé são também absurdos, mas de um absurdo que ilumina o pensamento e o faz produzir em abundância verdades evidentes à inteligência. Os outros absurdos são talvez mistérios diabólicos. Ambos se encontram mesclados no pensamento cristão corrente como o trigo e o joio.

           A concepção da Providência que corresponde ao Deus do tipo romano é uma intervenção pessoal de Deus no universo para ajudar certos meios em vista de fins particulares. Admite-se que a ordem do mundo, deixada a si mesma e sem intervenção particular de Deus em tal lugar, tal instante para tal fim, poderia produzir efeitos não adequados à vontade de Deus. Admite-se que Deus pratica as intervenções, destinadas a corrigir o jogo da causalidade, então elas mesmas submetidas à causalidade. Deus viola a ordem do mundo para fazer surgir aí, não o que ele quer produzir, mas causas que trarão como efeito o que ele quer produzir.             (p.251-252)

           A concepção absurda da Providência como intervenção pessoal e particular de Deus para fins particulares é incompatível como a verdadeira fé.         (p.254-253)

           Os homens que ignoram o verdadeiro bem desobedecem a Deus neste sentido de que não lhe obedecem como convém a uma criatura pensante, por um consentimento do pensamento. Mas seus corpos e alma estão absolutamente submetidos às leis dos mecanismos que regem soberanamente a matéria física e psíquica. A matéria física e psíquica neles obedece perfeitamente; são perfeitamente obedientes enquanto matéria, e não são outra coisa, se não possuírem nem desejarem a luz sobrenatural, a única que eleva o homem acima da matéria. É por isso que o mal que eles nos fazem deve ser acolhido como o mal que nos faz a matéria inerte. Além da compaixão que convém conceder a um pensamento humano perdido e doente, eles devem ser amados como deve ser amada a matéria inerte, enquanto partes da ordem perfeitamente bela do universo.             (p.261)

           Em todo caso todas as tradições religiosas da Antiguidade, incluindo a Antigo Testamento, fazem remontar os ofícios a um ensinamento direto de Deus. A maioria afirma que Deus se encarnou para essa missão pedagógica. Os egípcios por exemplo, pensavam que a encarnação de Osíris tivera por objeto simultaneamente esse ensinamento prático e a Redenção pela Paixão.          (p.267)                                    

 

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