Volume II, ORDEM E HISTÓRIA
Síntese: Paolo Cugini
Humanidade e história
O salto no ser, o evento histórico que rompe a capacidade do antigo mito cosmológico e estabelece a ordem do homem em sua imediação sob a autoridade de Deus- é preciso reconhecer -, ocorre duas vezes na história da humanidade, praticamente ao mesmo tempo, no Oriente Próximo e nas civilizações egéias vizinhas. Pag. (75).
Os principais fenômenos que suscitam dificuldades são quatro:
(1) O salto no ser, quando ocorre, transforma a sucessão das sociedades precedentes no tempo num passado da humanidade.
(2) O salto no ser, embora adquira uma nova verdade sobre a ordem, não adquire toda a verdade, nem estabelece uma ordem última da humanidade. O esforço pela verdade da ordem prossegue novo nível histórico. As repetições do salto no ser corrigirão a noção inicial e a complementarão com novas descobertas; e a ordem da existência humana, por mais profundamente afetada pela nova verdade, permanece a ordem de uma pluralidade de sociedades concretas. Com a descoberta de seu passado, a humanidade não chegou ao fim de sua história, mas se tornou consciente do horizonte aberto de seu futuro.
(3) O salto inicial no ser, a ruptura com a ordem do mito, ocorre numa pluralidade de casos paralelos, em Israel e na Hélade, na China e na Índia, em cada caso sendo seguido por sua própria história inerente de repetições no novo nível da existência.
(4) Os saltos paralelos no ser diferem amplamente com respeito ao radicalismo de sua ruptura em relação ao mito cosmológico e também com respeito à abrangência e à penetração de seu avanço rumo à verdade sobre a ordem do ser. As ocorrências paralelas não são de uma mesma classe. Pags. (77-78).
Desde Hesíodo até Platão, quando o salto no ser alcançou a aletheia, a verdade da existência, o antigo mito torna-se o pseudos, a falsidade ou mentira, a inverdade da existência na qual os antepassados viviam. Pag. (79)
As fases de verdade crescente, portanto, eram claramente distinguidas na Hélade, e a transação do mito à filosofia foi compreendida, ao mesmo no Górgias de Platão, como uma época histórica. Entretanto, uma teologia da história comparável à do Dêutero-Isaías só apareceu no período helenístico. Panécio (c. 180- 110 a .C.) desenvolveu a chamada theologia tripartita, ou seja, a classificação das figuras divinas nos deuses físicos dos filósofos, nos deuses políticos da teologia civil e nos deuses míticos dos poetas. E seu pupilo Posidônio (c. 130- 50 a .C.), então, constitui uma teologia da história na qual a humanidade original, por meio da participação de sue Logos na força criativa divina, tinha uma concepção pura do deus único, invisível e irrepresentável, enquanto a diversificação nos tipos impuros da theologia tripartita era a conseqüência da diversificação da humanidade numa multiplicidade de povos. Dessa impureza da diversificação, a humanidade tinha porém de recuperar a primitiva compreensão da verdade, uma tarefa que foi executada de modo representativo pelos filósofos estóicos. Pags. (82-83).
Hélade e história
1. Questões preliminares
Numa primeira abordagem, certamente, não há dúvida de que na Grécia, como se torna manifesto à luz mais plena da história após 800 a .C., encontramos múltiplas polis divididas pelas rivalidades e envolvidas em guerras freqüentes, às vezes de uma forma tão atroz que se chega a considerar uma prova de humanidade se apenas metade da população de uma cidade é massacrada. Mas esse estrato da ordem grega, embora seja bastante concreta, certamente não é a estrutura completa da sociedade grega. A história da Grécia não se dissolve nas histórias das polis individualmente e de suas guerras, e um estudo dos tipos da ordem da polis e de sua simbolização não poderia ser considerado um tratamento adequado da ordem grega. Pois acima da ordem das polis surge, reconhecivelmente, o senso de pertencer a uma sociedade comum mais ampla. Pag. (102).
A filosofia, como uma experiência e uma simbolização da ordem universalmente válida, surge da órbita da polis. Esse fenômeno, agora, é um reminiscente do “êxodo de Israel para fora de si mesmo” que aparece no Dêutero-Isaías, ou seja, do processo no qual o componente universalista na experiência do reino de deus se separa da tentativa de realizar o reino nas instituições de uma sociedade concreta.
Tanto o helenismo como a cristandade devem ser compreendidos, ao que parece, como a operação contínua, na escala imperial, das forças ordenadoras para as quais Israel e a Hélade, as sociedades concretas de sua origem, mostraram-se excessivamente estreitas. Pag. (103).
A ciência grega da ordem era de fato muito mais que uma teoria da melhor pólis. A própria concepção de uma pólis paradigmática era, mas mãos de Platão e Aristóteles, um instrumento de crítica a ser usada contra a realidade nada paradigmática da cena política circundante. Sua elaboração de uma ciência da ordem era um ato político consciente, praticado numa situação concreta de desordem. Além disso, a necessidade de firmar as fundações empíricas do diagnóstico da desordem, assim como a autocompreensão de seu próprio ato de oposição forçaram os filósofos a analisar a situação com base em sua gênese histórica. A criação de um paradigma da ordem, sustentando como um modelo de ação em oposição à ordem estabelecida da sociedade, teria sido, com efeito, uma realização estranha, e talvez até ininteligível, a não ser que uma filosofia do declínio e da regeneração histórica da ordem viesse a constituir o seu suporte e a dotasse de sentido. Portanto, a ciência integral da ordem compreende tanto uma ciência da ordem paradigmática como uma ciência do curso efetivo não paradigmático da sociedade na história. E as construções paradigmáticas tinham de fazer sentido com respeito ao passado recordado que ingressou como o presente no qual foram criadas. A consciência da situação histórica, portanto, era uma parte essencial da experiência grega da ordem, e o alcance da ordem que será apropriadamente designada como grega deve ser determinada, por conseguinte, pela memória da história contínua que os pensadores do período clássico aplicaram em sua situação, assim como na compreensão de seu próprio lugar nela. Pag. (107).
2. A consciência helênica da história
1 Características gerais
Se a memória for aceita como guia, a história da sociedade grega se estende por um período aproximadamente igual ao da historia paralela de Israel, com sua memória do êxodo de Abraão saindo da Ur dos caldeus. Pag. (108).
O conteúdo da memória helênica é, portanto, inseparável do processo histórico de seu crescimento.
Na esteirada invasão do século XII, formou-se no continente grego algo como um vácuo cultural, quando os depositários da civilização micênica foram forçados a emigrar, em grandes grupos – presumivelmente incluindo o estrato social e culturalmente dominante –, para as ilhas e a área costeira da Anatólia. No século IX a.C., uma nova Grécia começou a surgir. O renascimento começou nas pólis da Ásia Menor, onde os “Filhos de Iavan” se tornaram vizinhos dos “Filhos de Ashkenaz” (Gn 10). Nesta área fronteira de emigração originariam-se as epopéias de Homero, que daí começaram a difundir sua influência ao longo das ilhas e do continente, fornecendo aos gregos em recuperação a consciência de um passado comum. O empreendimento federativo pan-aqueu contra Tróia tornou-se o símbolo vivo de um vínculo cultural pan-helênico, e, precariamente, até mesmo um vínculo político. Além disso, uma vez que a guerra dos homens era ao mesmo tempo uma guerra dos deuses, épicos proporcionaram uma mitologia comum onde quer que tenham se difundindo, criando assim um contrapeso à diversificação das divindades locais e seus cultos. Neste aspecto, a função dos deuses homéricos – embora não os próprios deuses- pode ser comparada ao sumodeísmo egípcio, com sua interpretação dos vários deuses do sol do Egito como aspectos do deus único que adquiriu supremacia política. E, por fim, a linguagem das epopéias era um fator unificador na mediada em que compensava a diversificação dos dialetos. Da área oriental, então, a recuperação grega expandiu-se pelo mundo helênico e, por meio da expansão, criou-o. Homero era um Anatólio ou grego insulano, o primeiro de uma linhagem brilhante. As cidades costeiras e as ilhas vizinhas eram a região onde a cultura pré-helênica sobrevivente e a cultura asiática se encontravam; a partir dessa região focal, a mistura vital difundia-se ao longo do semicírculo das ilhas para o oeste da terra firme grega e ainda para a Sicília e o sul da Itália. Pelo lado de fora, esse vasto semicírculo era cercado a leste pelos lídios, persas e fenícios, ao sul pelos egípcios, e ao sudeste e oeste pelos cartagineses e etruscos. Pag. (109).
2 Heródoto
As historiai eram as investigações empreendidas por Heródoto com o propósito de preservar de modo geral as ta genomena, as recordações ou tradições, e de preservar especificamente as tradições relacionadas à pré-história do grande conflito entre os helenos e os bárbaros nas Guerras Persas (1.5). no momento, interessa-nos não a riqueza de detalhes das Histórias, mas o método usado por Heródoto para extrair de sua fontes o que ele considerava a verdade dos eventos. Dois exemplos ilustrarão o problema. Pag. (111).
Os dois exemplos serão suficientes para nossos propósitos. Aparentemente, Heródoto, a fim de transformar suas fontes em história, empregou e desenvolveu um método que já era amplamente aplicado na área fronteiriça das civilizações grega e asiática. No relato dos sábios persas, uma cronologia dos eventos foi derivado de alguns mitos gregos; os fatos foram um tanto alterados de modo a favorecer o que hoje chamamos de “interesse nacional”; e uma historia razoável surgiu por meio da aplicação do senso comum e da prudência elementar. No caso da história de Helena recebida dos egípcios, vamos que Heródoto orgulhosamente aproveita o auxilio, ao desenvolver um argumento do tipo asiático a fim de justificar sua preferência pela historia egípcia contra Homero. Pag. (113).
O método é de interesse em vários aspectos. Quando Heródoto considerou os mythoi em seu valor nominal como fontes históricas, atribui-se um amplo panorama do início da história grega, com suas relações com o Egito, a Fenícia e Creta – um panorama que, em seu todo, era historicamente verdadeiro. E embora os métodos desenvolvidos pelos historiadores e arqueólogos modernos para propósitos de usar os mitos e os épicos como guias da realidade histórica tenham se tornado infinitivamente mais cautelosos, refinados e complicados, e usualmente conduzam a resultados largamente diferentes quanto aos detalhes, o principio do procedimento ainda é aquele seguido por Heródoto. Continuamos a pressupor que uma concentração dos mitos numa dada área geográfica indica acontecimentos históricos nessa área – e supomos que uma escavação trará resultados importantes. Quando Homero escolhe o nome Fênix para o preceptor de Aquiles, ou o nome Egípcio para o senhor que faz o primeiro proferimento na assembléia em Ítaca, presumimos que a civilização micênica tinha conexões com a Fenícia e o Egito que tornavam tais escolhas inteligíveis para o ouvinte. E, inversamente, quando, de acordo com as informações de Heródoto, os sacerdotes egípcios haviam desenvolvido um longo relato sobre Helena no Egito e a haviam inserido em algum lugar de sua história, presumimos que tinham um conhecimento íntimo de vários ciclos do épico grego e que setes haviam causado impressão sobre eles.
Em segundo lugar, o método revela uma ampla destruição do mito por uma mitologia racionalista. Pelos textos de Heródoto, a nova psicologia parece ter sua origem na fronteira asiática; e isso lançaria uma luz interessante sobre ao menos uma das fontes do racionalismo que prevalecia em Atenas, na esteira das Guerras Persas, na época em que Heródoto estabeleceu-se temporariamente na cidade. Por destruição racionalista referimo-nos ao desenvolvimento da coordenação desapaixonada de meios e fins como o modelo da ação correta, em oposição inevitável à participação na ordem de Zeus e de Têmis como no modelo homérico. A destrutividade aparece, portanto, de modo mais patente no argumento de Heródoto contra a confiabilidade histórica de Homero. A história de que os trianos não queiram entregar Helena não podia ser verdadeira, pois ninguém teria sido tão desatinado a ponto de permitir a ruína da cidade por tal motivo. A profunda preocupação de Homero com a etiologia da desordem, sua análise sutil que tentava explicar precisamente por que tal desatino ocorrera estavam aparentemente perdidas em Heródoto.
Em terceiro lugar, à luz da reflexão precedente, o método possui interesse como um sintoma da decadência da civilização helênica. Heródoto conhecia muito bem não só o seu Homero, mas era também, em geral, um dos homens mais amplamente informados e educados de sua época. Se Heródoto não fosse mais capaz de entender Homero, impõe-se a questão: quem poderia? Apenas uma geração antes, Ésquilo ainda se movia no nível espiritual de Homero; considerando-se o fato de que, apenas algumas décadas mais tarde, Heródoto era um ator muito admirado e popular em Atenas, o declínio espiritual e intelectual deve ter sido tão rápido quanto terrível. A questão é de grande interesse virtude dos posteriores ataques de Platão a Homero. Se a interpretação herodotiana era representativa de uma tendência geral, se quase todos leram Homero desse modo, ao menos parte do ataque de Platão seria dirigido não tanto contra Homero, mas contra a maneira como ele havia sido interpretado. A noção de Homero como o “educador da Hélade” passará por alguns estudos mais minuciosos nos séculos V e IV. Pags. (113-114).
A racionalidade estrita de uma luta por poder, sem preocupação com a ordem da sociedade helênica, tornou-se de fato o modelo de ação na prática política. Em conformidade com a propensão de seu tempo, Tucídides queria interpretar a história grega desde seus primeiros tempos como um processo que conduziria ao conflito de sua própria época. Pag. (115).
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