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terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Médio-Platonismo: a transição metafísica da antiguidade

 




Paolo Cugini (org.)

 

1. Introdução e Contexto Histórico

O médio-platonismo representa uma das fases mais dinâmicas e transformadoras da história da filosofia ocidental. Estendendo-se aproximadamente do século I a.C. ao século III d.C. (culminando com o surgimento do neoplatonismo de Plotino), este período marca o renascimento do dogmatismo platônico após séculos de dominação do ceticismo na Academia de Atenas.

A transição decisiva começou com Antíoco de Ascalão (c. 130 – 68 a.C.), que rompeu com a vertente cética de Fílon de Larissa e defendeu que as doutrinas centrais de Platão poderiam ser conhecidas com certeza. Antíoco realizou uma síntese eclética, incorporando elementos da física e da lógica estoica, além da ética aristotélica, alegando que estas eram, na verdade, desdobramentos legítimos do pensamento platônico original. Esse ecletismo inicial pavimentou o caminho para uma reinterpretação radical de Platão.

2. Núcleos teóricos e metafísicos

Ao contrário do ceticismo anterior, o médio-platonismo focou intensamente na transcendência e na teologia. Os filósofos deste período transformaram o universo platônico em uma estrutura hierárquica e teocêntrica, baseada em três pilares fundamentais:

As Ideias como pensamentos de Deus

Uma das maiores inovações do médio-platonismo foi a interiorização das Formas ou Ideias platônicas. Em vez de existirem em um reino independente e abstrato (o 'Hiperurânio'), as Formas foram reinterpretadas como os pensamentos eternos de uma Mente Suprema (o Nous ou Deus). Essa mudança resolveu o problema da relação entre o Criador e os modelos da criação, unificando a metafísica platônica com a teologia.

A Hierarquia Divina (Os Três Deuses)

Para preservar a pureza e a transcendência absoluta do Deus Supremo, os médio-platônicos desenvolveram uma estrutura teológica em múltiplos níveis. Numênio de Apameia, por exemplo, formulou uma teoria de três deuses: o Primeiro Deus (o Pai, intelecto puro e estático), o Segundo Deus (o Demiurgo, princípio criador que olha para as Ideias e atua sobre a matéria) e o Terceiro Deus (o Cosmo ou a Alma do Mundo, a manifestação física da ordem divina).

A demonologia e a mediação

Dada a imensa distância metafísica entre o Deus Supremo e o mundo material, a demonologia ganhou enorme importância. Figuras como Plutarco de Queroneia expandiram o conceito platônico de 'daimones' (seres intermediários). Os demônios habitavam o espaço sublunar e atuavam como mensageiros, guardiões e executores da providência divina, preenchendo o vazio entre o mortal e o imortal.

O Problema da matéria e do mal

Os médio-platônicos oscilavam entre duas visões sobre a origem do mal. Uma vertente, influenciada pelo estoicismo, via a matéria como passiva e o mal como uma mera privação do bem ou consequência necessária da finitude. Outra vertente, mais dualista (representada por Plutarco e Numênio), defendia a existência de uma Alma do Mundo irracional ou de um princípio material intrinsecamente caótico e rebelde à ordem divina, gerando uma tensão cosmológica eterna.

3. Principais Pensadores

O movimento não foi homogêneo, mas sim uma constelação de filósofos que compartilhavam pressupostos semelhantes, operando em centros culturais como Alexandria, Atenas e Roma.

Fílon de Alexandria (c. 20 a.C. – 50 d.C.) – O grande filósofo judeu de Alexandria utilizou as ferramentas conceituais do médio-platonismo para alegorizar e interpretar as Escrituras Hebraicas. Fílon identificou as Ideias platônicas com os pensamentos de Deus e introduziu o conceito de Logos como o intermediário supremo e a razão divina manifesta na criação.

Plutarco de Queroneia (c. 46 – 120 d.C.) – Mais conhecido como biógrafo, Plutarco foi um prolífico filósofo platônico. Ele enfatizou a bondade e a transcendência de Deus, adotou uma visão fortemente dualista da alma e da matéria, e popularizou uma complexa estrutura demonológica.

Alcino (século II d.C.) – Autor do 'Didaskalikos' (Manual do Platonismo), Alcino forneceu uma das sínteses mais completas do médio-platonismo dogmático. Ele integrou sistematicamente categorias aristotélicas na lógica e na física platônicas, estruturando a teologia em torno de um Intelecto Primeiro e Inefável.

Numênio de Apameia (século II d.C.) – Filósofo de origem síria que radicalizou a herança pitagórica no seio do platonismo. Numênio defendeu a necessidade de retornar às fontes orientais da sabedoria e exerceu uma influência direta e profunda sobre Plotino, estabelecendo as bases metafísicas da emanação.

4. Ética: A Assimilação a Deus

A ética médio-platônica abandonou o ideal estoico de 'viver de acordo com a natureza' e adotou como fim supremo a fórmula do diálogo Teeteto de Platão: 'tornar-se tão semelhante a Deus quanto possível' (homoiosis theo).

Esse processo de assimilação exigia uma purificação das paixões (apatheia ou metriopatheia) e o cultivo das virtudes intelectuais e morais. A filosofia deixou de ser apenas um exercício dialético para se transformar em um caminho espiritual de salvação e contemplação mística, preparando a alma para a sua libertação do cárcere corpóreo.

5. O Impacto no cristianismo primitivo e a Patrística

O médio-platonismo foi a ponte filosófica fundamental para o desenvolvimento da teologia cristã. Os primeiros Padres da Igreja — como Justino Mártir, Clemente de Alexandria e Orígenes — encontraram no médio-platonismo o vocabulário e o arcabouço metafísico necessários para intelectualizar a fé cristã diante do mundo pagão.

A doutrina do Logos de Fílon auxiliou na formulação da cristologia do Evangelho de João e nos debates trinitários subsequentes. A concepção de um Deus uno, transcendente e criador por meio de Seus pensamentos eternos permitiu que o Cristianismo dialogasse com a alta cultura filosófica do Império Romano, moldando de forma definitiva a ortodoxia cristã ocidental e oriental.

6. Conclusão

Embora muitas vezes obscurecido pelo brilho sistemático do neoplatonismo posterior, o médio-platonismo foi o verdadeiro laboratório conceitual da Antiguidade Tardia. Ao transformar o platonismo de uma busca investigativa em uma teologia da transcendência, este período redefiniu o curso da filosofia e estabeleceu as fundações metafísicas que sustentaram o pensamento medieval por mais de um milênio.

terça-feira, 6 de maio de 2025

O MÉDIO-PLATONISMO E A REDESCOBERTA DA METAFÍSICA PLATÔNICA

 



Giovanni Reale, História da filosofia antiga

Síntese: Paolo Cugini


 

Gênese, características e expoentes do médio-platonismo

 

As ultimas vicissitudes da Academia e as origens do médio-platonismo

 

Enquanto em Atenas, a Academia morria, fora de Atenas, precisamente em Alexandria, Platonismo com características em grande parte diversas com relação ao dogmatismo ecletico-estoicizante de Antíoco e ganhava terreno.

É certo, que, a partir da segunda metade do século I a.C., o platonismo de maneira lenta, mas progressiva e constante, continuou a difundir-se e a fazer crescer a sua própria consciência e incidência ate culminar na grande síntese plotiniana que amadurecer no cristão.

Ora, a grande síntese plotiniana (e a corrente de pensamento por ela gerada) foi denominada, e justamente, “neoplatonismo”.

O platonismo desse período, tem características que estão, por assim dizer, a meio caminho do antigo platonismo de Platão e dos seus imediatos sucessores e o neoplatonismo de Plotino e dos seus seguidores. Portanto, o terreno médio-platonismo, que significa, justamente, platonismo que está no meio entre o velho e o novo, deve ser considerado, justificado e perfeitamente adequado.

 

Características gerais do médio-platonismo

 

a)    O traço mais típico do médio platonismo, vale dizer, o traço que constitui o mínimo denominador comum do pensamento de todos os seus expoentes, que sem exceção no que, remetendo-nos a conhecida imagem platônica, poderemos chamar de retomada da segunda navegação com a recuperação das suas posições essenciais, assim como das principais, conseqüências que deles decorreram. O medio-platonismo, em suma, recupera o supra-sensível o imaterial e os transcendentes e rompem nitidamente e as pontes com o materialismo dominante há muito tempo. O fundamento do sensível e do corpóreo é novamente indicado como supra-sensível e no imaterial, ou melhor, no incorpóreo, e a componente metafisico-teologica da filosofia (justamente no sentido platônico- aristotélico) não só é recuperada, mas até mesmo posta em primeiro plano.

b)    Conseqüência lógica dessa segunda navegação foi à reproposição da teoria das idéias, que, como sabemos, representa o êxito mais significativo daquela. Os médio-platônicos, antes, não só retomaram essa doutrina, mas (pelo menos alguns deles) a retomaram a fundo, buscando entregar a posição assumida por Platão com a posição aristotélica. Albino e o seu circulo, consideram as idéias no seu aspecto transcendentes como pensamentos de Deus (o mundo inteligível é identificado com atividade e com o conteúdo da suprema inteligência), e no seu aspecto imanente como formas das coisas. A transformação da teoria das idéias seguiu-se pó lógica conseqüência, uma paralela transformação da concepção de toda a estrutura do mundo incorpóreo, com conquistas que claramente anunciam o neoplatonismo.

c)     O texto que os médio-platônicos consideram ponto de referencia e do qual extraíam o esquema para o pensamento da doutrina platônica foi Timeu. Com efeito, na difícil tarefa de reduzir a filosofia platônica e sistema e na tentativa de fazer uma síntese dela, O Timeu era o dialogo que oferecia a trama mais solida. É interessante observar, a propósito disso, que os médios platônicos seguiram preferentemente um método oposto ao dos peripateticos dessa época (de Andrônico e Alexandre): de fato os primeiros consideraram que o melhor modo de conhecer Platão era compendiá-lo; os segundos, ao invés consideram que o melhor modo de compreender Aristóteles era comentá-lo. Assim enquanto o comentário prevaleceu quase exclusivamente entre os aristotélicos, o compêndio, como parece, prevaleceu entre os médio-platônicos, embora muitos tenham sido especialmente no século II d.C., os comentários dedicados aos diálogos platônicos,

d)             A “doutrina dos princípios” do Platão esotérico, ou seja, a doutrina do Uno e da Díade é retomada em parte, mas permaneceu mais como plano de fundo.

e)           O sentimento religioso que, em alguns, beirou o verdadeiro misticismo, levou os medio-platonicos a dar um notável relevo à doutrina dos Demônios, tão antiga quanto o pensamento grego. A acentuação da transigência de Deus e do divino com relação ao homem e ao mundo físico tornava necessários “mediadores”, e, justamente como mediadores entre Deus e o homem os médio-platônicos valeram-se dos demônios. Ademais, valeram-se deles também para justificar as crenças pagãs. Enfim, os fortes interesses religiosos levaram alguns a reavaliar a sapiência oriental em geral e, como se encontra nos escritos de Plutarco, em particular a egípcia.

f)             Também para os médio-platônicos, assim como para os filósofos da era precedente, o problema ético permanece predominante, mas foi reproposto e fundado de modo novo. Para toda a escola helenística a palavra de ordem tinha sido: “Segue a natureza (physis)”, e essa natureza tinha sido entendida de modo materialista e imanentista. A nova palavra de ordem dos medios-platonicos foi ao invés. “Segue a Deus”, “imita a Deus”. A redescoberta da transcendência devia, logicamente, modificar pouco a pouco toda a visão da vida proposta pela ética helenística. Justamente na assimilação ao divino transcendente e incorpóreo os médio-platônicos, concorde mente, reconheceram a autentica cifra da vida moral.

g)          A recuperação da dimensão da transcendência, com todos os corolários a ela conexos em todos os níveis, constituem uma linha de demarcação bem precisa entre o dogmatismo de Antíoco e o médio-platônismo. Portanto, o médio-platonismo nasceu, não de Antíoco, mas, ao contrario, de uma inversão da mentalidade que ensinava a filosofia de Antíoco.

 

A importância histórica e teorética e os limites do médio-platônismo

A importância do médio-platônismo, por longo tempo desconhecida, mostra-e imediatamente. Sem o movimento médio-platônico o neoplatonismo seria praticamente inexplicável. Plotino, as suas lições, comentou fundamentalmente textos médio-platônicos e textos peripatéticos influenciados pelo médio-platônismo; ademais, extraio dos médio-platônicos não só alguns problemas fundamentais, mas também as soluções relativas.

O médio-platônismo, ademais, é importante também para a compreensão do primeiro pensamento cristão, ou seja, da primeira patrística, a qual, anteriormente do neoplatonismo, extraiu daquelas, correntes as categorias de pensamento com as quais tentou fundar filosoficamente a fé.

Um fato deve ser observado a este respeito: assim como o neoplatomismo, depois de Plotino, será utilizado paralelamente pelos filósofos pagãos em favor do paganismo e pelos pensadores cristãos em favor do cristianismo assim também aconteceu, embora em medida reduziram utilizando categorias médio-platôncias, enquanto, paralelamente, os cristãos, como se disse, deduziram do médio-platônismo os instrumentos para elaborar teoreticamente a própria visão do mundo e da vida.

O médio-platônismo representa, portanto, um dos elos da união essenciais na história do pensamento ocidental.

 

A metafísica do médio-platônismo

 

O ser incorpóreo, Deus e a sua transcendência

 

Já acenamos mais de uma vez a descoberta do incorpóreo e da transcendência e a conseqüente nova concepção da realidade que dela deriva, e agora devemos examinar a maneira pela qual tal redescoberta efetuou-se. É evidente que a recuperação do incorpóreo devia comportar, em primeiro lugar, uma nova concepção de Deus e do divino, e que tal concepção devia confrontar-se sobre tudo com as concepções dos estóicos, que eram muito mais refinadas.

A marcada afirmação da transcendência de Deus devia comportar, como conseqüência, a negação da possibilidade para o homem de captar e determinar a essência de Deus, e, portanto, a negação da possibilidade de exprimi-la com palavras. Essa doutrina da incognoscibilidade e da inefabilidade de Deus, que encontramos em filo de Alexandria, é afirmada por alguns médio-platônicos, sobre tudo por Albino de modo muito claro.Os médio-platônicos não chegaram, como, ao invés, alguns neoplatônicos, a ponto de pôr Deus também acima da inteligência, A maioria deles considerou que Deus coincide com a suprema inteligência.

Portanto, a metafísica platônica é retomada junto com aas conquistas a ela aportadas por Aristóteles, o qual, ao absoluto entendido como idéia inteligível, substituirá o absoluto entendido como suprema inteligência. Antes, essas conquistas foram ulteriormente enriquecidas pelos médio-platônicos com uma verdadeira tentativa de mediação e de supremação das antíteses subsistentes, em matéria de ontologia, entre posição platônica e aristotélica.

As idéias como pensamento de Deus e a distinção entre inteligíveis primeiros ou idéias transcendentes e inteligíveis segundos ou formas imanentes às coisas

Filo chegou à doutrina das idéias como pensamentos divinos através do conceito bíblico de criação, e mediante dos conceitos dos logos, também este ligado ao conceito bíblico da sapiência ou da palavra criadora de Deus, mas do que através das doutrinas helenísticas.

Em Albino, ao invés, a formulação da doutrina sobre a qual refletimos é feita com categorias extraídas exclusivamente do pensamento grego, e, portanto, de maneira parcialmente inédita.

Dada a grande importância dessas doutrinas na historia posterior tanto do pensamento grego como do pensamento cristão, é, oportuno expô-la de maneira pormenorizada. Para compreendê-la a fundo, é necessário remeter-se as posições de Platão e de Aristóteles, que, sobre esta questão, como sabemos, encontravam-se em antítese.

Platão estabelecera como Absoluto o mundo das idéias, ou seja, o Inteligível, e o situara acima da mente e da inteligência (o Demiurgo, que é inteligência, refere-se às idéias como a entidades que o transcedendos ponto de vista ontológico e axiológico). Aristóteles, ao invés, estabelecera como absoluto a inteligência entendida como pensamento de si mesmo (pensamento de pensamento), imanentizara as idéias do sensível, transformando-as em “formas” intrínsecas às coisas, e sustentara que só dessa maneira a intuição eidética da Platão podia sustentar-se.

Com efeito, as maiores partes das aporias da metafísica platônica, como vimos o volume II, dependiam, mais que dos motivos aduzidos por Aristóteles, do fato de ter posto as idéias cima da inteligência demiurgica. Por sua vez, umas série de aporias da ontologia aristotélicas dependiam de ter situado as idéias muito abaixo da inteligência divina, mudando-as, justamente, em “formas” imanentes e introduzindo-as na matéria. O “lugar das formas”, por conseqüência, só podia ser o intelecto humano enquanto as abstrai e as pensa, e não o intelecto divino que si pensa em si mesmo.

Ora, os médio-platônicos deram-se conta de que possível mediar às diferentes visões dos dois filósofos, corrigindo uma com a outra e integrado-as reciprocamente, Podiam-se admitir as conquistas aristotélicas e afirmar que o primeiro principio é pensamento.; mas poder-se-ia igualmente manter o platônico mundo das idéias, fazendo deste o conteúdo daquele. O Deus aristotélico é pensamento que pensa a si mesmo, mas os pensamentos de deus que pensa em si mesmo são, necessariamente, eternos e imutáveis, são os eternos paradigmas e a regar de todas as coisas: são, justamente, e o que Platão chama as idéias.

Assim concebidas, as idéias transcendentes e as formas imanentes não só excluem-se mutuamente, mas as primeiras surgem como fundamentos causas, as segundas, ao invés, conseqüências e efeitos. As formas imanentes às coisas individuais são as imagens ou reflexos das idéias impressos pelo Demiurgo na matéria, Albino, chama coerentemente, as idéias consideradas como pensamentos divinos de “inteligíveis primeiros” e as formas imanentes às coisas de “inteligíveis segundo”.

A doutrina das idéias como pensamentos divinos e a conexa distinção entre inteligíveis primeiro e inteligíveis segundo imanentes representam, provavelmente, a mas feliz das tentativas de síntese entre Platão e Aristóteles efetuam até aquele momento e uma conquista essencial, da qual Plotino se beneficiará amplamente.

 

A hierarquia do divino: rumo à da doutrina das hipóstases.

Uma tendência comum a muitos méido-platônicos, expressa de modo claro já pelos mais antigos dentre eles, é a de piro nous (ou seja, a mente ou intelecto) como superior à psyché (ou seja, a alma).

Essa doutrina (com antecedentes em Platão e em Aristóteles) tem um significado antiomaterialista e antiestóico nos médio-platônicos. Diferenciando claramente o intelecto da alma e pondo-o como superior a ela, queria-se romper definitivamente as pontes com o imanentismo.

É claro que, por essa via, dever-se-ia caminhar para uma doutrina que antecipava as hipóstases plotinoana. Antes lidas em certas óticas, não poucas passagens de filósofos médio-platônicos, parecem, até mesmo conter, pelo menos um núcleo, todas as três hipóstases plotiniana, que são: o Uno, Nous e a alma.

A identificação desse enfoque, que deriva da mediação entre a aristotélica metafísica da inteligência e a platônica doutrina das idéias, explica, como já observamos acima, a razão pela qual as doutrinas pitagorizantes do Uno e da Díade do Platão esotérico permaneceram na sombra. De fato, explicadas as origens das idéias como pensamentos do intelecto divino, a Mônada e a Díade, que tinha sido introduzidas por Platão justamente para poder deduzir o mundo ideal, vinham a perder o seu originário significado e a sua importância.

 

A cosmologia médio-platônico e a origem do cosmo 

O coso sensível, apara os médio-platônismo, não é uma pura emanação ou um epigenômeno do supra-sensível. Para ser explicado, ele requer “três princípios”, ou seja, além de Deus e da idéias, um “terceiro princípio”, constituído pela matéria.

A matéria é entendida seja na linha do timeu platônico, seja na linhada conquistas aristotélicas ulteriores. Conseqüentemente, são retomadas as celebres imagens e expressões platônicas, como por exemplo “nutriz”, “matriz”, “espacialidade”, passadas porém pelo filtro aristotélicos de “substrato” e de “potencialidade”.

A gênese do cosmo é interpretada segundo o esquema do timeu, ou seja, como uma operação de Demiurgo que impõe ordem à desordem da matéria, com base no paradigma das idéias.

 

A demonologia médio-platônica

O forte relevo dado à transcendência do Deus supremo, como já observamos, comportava a necessidade de conceber o divino e o supra-sensível de modo hierárquico. Mas junto à concepção hierárquico de caráter metafísico e ontológico acima examinada, delinea-se, no âmbito do médio-platônico, uma segunda concepção hierárquica di divino de caráter propriamente místico-religioso, estreitamente ligado ao politeísmo pagão, a qual, mais uma vez, encontra preciosos pontos de ligação em Platão.

A hierarquia di divino, sob este aspecto, configura-se da seguinte maneira:

1)      deus supremo

2)      deuses secundários

3)      Demônios

Os deuses secundários são tanto as divindades incorpóreas e, portanto, invisíveis, como as divindades visíveis, tais como os astros, e são todas elas, a titulo diverso, potenciais subordinadas ao Deus supremo.

Os Demônios são inferiores aos Deuses, mas superiores aos homens. Eles são, portanto, uma natureza que pode ser chamada de “intermediária”.

A demonologia, como já acenamos, reponde a uma problemática religiosa, mais que filosófica, Deus e os Deuses não podem “misturar-se com os homens” nem “ter comércio” com eles, por motivo da sua eminência. Portanto é necessário introduzir entes que tivessem a função de mediadores, seja para executar e pôr em ato a vontade dos Deuses no mundo e entre os homens (mediadores de cima para baixo), seja para ligar, na medida do possível, os homens aos Deuses (mediadores de baixo para cima).

 

A antropologia e a ética do médio-platônismo

 

O fim do homem e a assimilação a Deus

A tese que, exprime, o fundamento e a têmpera espiritual da ética médio-platôncia é a que indica fim supremo do homem na assimilação a Deus e ao divino. O principio deriva de Platão, o qual, como vimos, o formulara de modo explicito; mas a especulação médio-platônica ele é aprofundado e enriquecido com corolários inéditos, como veremos. Em particular, deve-se observar que o supremo imperativo. “Segue a Deus” apresenta-se como a programática inversão do principio comum a todas as grandes filosofias helenísticas. ‘segue a natureza”. O novo principio, olhando bem, exprime a ruptura dos horizontes materialistas daquela ética e a total recuperação do horizonte espiritualista.

Se o supremo bem é a contemplação do Deus supremo, o intelecto primeiro, é claro que, nessa contemplação, justamente o Deus segundo ou Intelecto segundo (o Intelecto do céu) alcança a sua perfeição paradigmática, pelas razões das quais falamos ao tratar da doutrina albiniana das “hipóstases”. É esta, justamente a virtude do intelecto segundo (contemplação de Deus sumo ou intelecto primeiro), que é objeto de imitação por partes dos homens. Dito com outros termos: o fim supremo do homem é fazer, na medida e que é capaz, o que, de modo perfeito, faz o intelecto segundo ou Deus segundo: contemplar o absoluto e fazer dele a regra suprema.

 

A natureza espiritual do homem e a concepção dualista de alma e corpo

Essa concepção do fim supremo do homem como “assimilação a Deus” implica, obviamente, uma refundição espiritualista da antropologia, e, precisamente, uma reafirmação da presença do homem da dimensão incorpórea. Assim é energicamente sustentada a incorpore idade da alma, e o socrático “cuidado da alma” platonicamente entendido volta a se impor.

A alma provem de deus primeiro, e, por isso, é imaterial e incorpórea e destinada a retornar a esfera do divino da qual provem, na medida em que tenha sabido purificar-se através dos supremos conhecimentos.

A este propósito é preciso observar que alguns médio-platônicos, os que alguns estudiosos chamam de ortodoxos, sustentam a necessidade de retornar à concepção puramente da alma, julgando depreciativamente a psicologia aristotélica.

Um ultimo ponto deve ser observado a respeite disso: a afirmação da liberdade da alma, a qual, como se repete com a celebre doutrina platônica, “não tem senhores”, estando as suas escolhas básicas isentas da necessidade. Os médio-platônicos, por conseqüência, polemiza contra a doutrina estóica do fato,e, embora aceitando algumas das suas instancias, conseguem conciliar liberdade e necessidade.

 

A tábua dos valores e a virtude

O médio-platônismo (e em particular a escola de Gaio) retoma a tabua dos valores que Platão fixara na sua última obra, ou seja, as leis, contrapondo-a a redução estóica de todos os valores a um só, e reinterpretando alguns dogmas estóicos segundo essa tábua.

Apuleio, por exemplo, subdivide “os bens” em dois grandes gêneros: 1) os bens divinos e 2 os bens humanos.Ele divide, depois, cada um desses gêneros de bens em duas espécies: 1 a) Deus, 1 b) a virtude, 2 a) as boas qualidade do nosso corpo, 2 b) a posse de riquezas, de poder semelhantes. Os dos segundo gênero só são bens se e na medida em que são subordinados aos primeiros, e são usados segundo a razão.

A virtude suprema do homem é a virtude é a virtude contemplativa, da qual depende, justamente, a “assimilação de Deus”.

Todavia, os médio platônicos não hesitam em abrir espaço também para as virtudes éticas, acolhendo, portanto, as conquistas aristotélicas, e considerando-as como as virtudes relativas às partes não adicionais da alma e como realização do “justo meio” entre excesso e falta e, portanto, como realização da “justa medida”.

A verdadeira felicidade não depende dos bens humanos, mas do divinos: são esses, com efeito, e só eles que tornam a alma digna de voltar a ser companheira dos deuses, e, cm eles, a “contemplar a planície da verdade”.

 

A ética médio-platônico e a ética estóica

Sublinhou-se amiúde o caráter eclético da médio-platônica, que, junto com as conquistas platônicas, não hesitam em acolher as aristotélicas, assim como as do Pórtico. Com efeito, como prova de tal afirmação, poderíamos apresentar vários documentos. Todavia, não foi adequadamente observado o fato de só raramente os médio-platônicos acolherem conquistas posteriores a Platão que constem com o espírito platônico. De fato, na maior parte dos casos, eles repensam e refundam as novas conquistas segundo o espírito platônico.

Assim por exemplo, Albino demonstra expressamente que o celebre dogma estóico segundo o qual “só o que é moralmente bom é bem” e a conseqüente redução de todos os valores restantes a “indiferentes”, equivale à doutrina platônica segundo o qual o bem supremo consiste “no conhecimento da primeira causa” e que só este “é bem divino”, enquanto todos os outros são a penas “bens por participação”, ou seja, “bens humanos”,e todas aquelas coisas que são “separada da primeira causa” são males.

Também o dogma estóico segundo o qual “a virtude basta a si mesma”, enquanto contem em si a razão da felicidade, é considerado por Albino perfeitamente platônico.

Permanece a componente intelectualista também na ética médio-platônica. Albino afirma que a virtude é voluntária, mas não o vício:

E dado que, se existe algo dependente de nós e sem senhor, isso é a virtude (não deveria de fato , ser louvado o moralmente bom se proviesse da natureza ou de algum divino destino), a virtude é voluntária e consiste num impulso ardente, nobre, durável: do fato de a virtude ser voluntária e consiste num impulso ardente, nobre, durável: do fato de a virtude ser voluntária, segue-se a involuntariedade do vício. Quem, de fato, aconselharia voluntariamente ter na parte mais bela e mais valiosa de si mesmo o pior dos males? Se, de fato, alguém aspira ao mal, em primeiro lugar, o faz acreditando aspirar não ao mal, mas ao bem; e se alguém recorre ao mal, tal pessoa está absolutamente enganada na sua intenção de afastar um mal maior através de um mal menor, e desse modo resultará involuntário o recurso ao mal; é impossível, de fato, que alguém aspire ao mal, querendo encontrar o próprio mal, e não pela esperança de um bem ou por temor de mal maior.

Afirmar que a virtude é “voluntária” e que, ao invés, o vício, que é o seu contrario, “involuntário” e, evidentemente, contraditório. É claro que a hipoteca do intelectualismo socrático desempenha, mais uma vez, um papel determinante. O discurso de Filo com as suas bíblicas implicações, no que se refere a toda a área de temática moral, não foi minimamente acolhido pela cultura dos gregos.

sexta-feira, 21 de julho de 2023

O MÉDIO-PLATONISMO - ANTOLOGIA

 





O MÉDIO-PLATONISMO E A REDESCOBERTA DA METAFÍSICA PLATÔNICA.

 

I. GÊNESE, CARACTERISTICAS E EXPOENTES DO MÉDIO-PLATONISMO.

 

As últimas vicissitudes da Academia e as origens do médio-platonismo.

 

Fui – como de costume – ó Bruto, ouvir Antíoco junto com Parco Pisão no ginásio chamado Ptolomeu, e estavam conosco o meu irmão Quinto, Tito Pompônio e Lúcio Cícero, que por parentesco é meu sobrinho por parte de pai, mas por afeto me é caro como um irmão. Combinamos fazer um passeio vespertino pela Academia, sobretudo porque tal lugar naquela hora tinha pouca gente. Portanto, encontramos-nos todos na casa de Pisão na hora marcada. Dali percorremos conversando os seis estádios que existem partindo da porta Dípilo. Quando chegamos à região da Academia com toda justiça celebrada, havia justamente a solidão que nós desejávamos. Então Pisão disse: “Devo atribuir a um fenômeno natural ou a um erro o fato de que, quando chagamos aos lugares que sabemos terem sido freqüentados por homens dignos de memória, sentimos uma impressão maior do que quando ouvimos falar das suas ações ou lemos alguns dos seus escritos? Por exemplo, agora estou emocionado. Vem-me à mente Platão que, segundo se nos diz, foi o primeiro que costumava discutir aqui, e aqueles pequenos jardins perto daqui não só me fazem recordá-lo, mas parece que o põem diante dos meus olhos. Aqui estiveram Espêusipo, Xenócrates, aqui esteve o escolarca Pólemon, que se sentava justamente naquele lugar que ali vemos [...][1].

 

II. A METAFÍSICA DO MÉDIO-PLATONISMO.

 

O ser incorpóreo, Deus e a sua transcendência.

 

[...] Vai-se divagando de emanações de Deus e de transformações tais que Deus se dissolveria em fogo com todo o universo e depois, novamente, se contrairia, aqui embaixo, e se distenderia pouco a pouco em terra, mar, vento, animais, e entraria nas formas pavorosas dos viventes e das plantas: tudo isso, até mesmo ouvi-lo, é impiedade![2]

E ainda:

Não é verossímil nem conveniente, como afirmam alguns filósofos, que Deus se encontre misturado com alguma matéria sujeita a todas as afecções e com coisas que sofrem inumeráveis formas de necessidade, causalidade e mudança[3].

Deus, reafirma Plutarco, é transcendente no sentido em que Ele é a realidade imaterial e imutável, sempre idêntica a si:

Mas Deus, em si mesmo, está muito longe da terra, incontaminado, incorruptível, puro de toda matéria que sofre destruição e morte[4].

 

[...]

Trata-se, ao contrário, de um modo, antes, do modo mais completo, em si e para si, de volver-se a deus e saudá-lo: pronunciar esta sílaba já significa instalar-se na inteligência do ser divino. Explico-me: deus, como para acolher cada um de nós no ato de nos aproximar daquele lugar, dirige-nos aquela sua advertência: “Conhece-te a ti mesmo”, que é muito mais do que o costumeiro “Salve”. E nós, em troca, confessamos a deus: “Tu és – EI”, e assim pronunciamos o apelativo preciso, verídico e único que somente a ele se adapta. Na verdade, a nós homens não compete, rigorosamente falando, o ser. Toda mortal é, na verdade, a natureza, introduzida como é, entre o nascer e o morrer; ela oferece apenas um fantasma e uma aparência, frágil e lânguida, de si. Quando fixas a tua mente com a intenção de captá-la, é como se apertasses a água com a mão. Quanto mais a constranges e tentas recolhê-la, tanto mais os próprios dedos que a encerram fazem-na escorrer e perder-se. Do mesmo modo, também a razão insegura, por sua vez, sujeita a plena clareza de todas as coisas às várias influências e à mudança: ela fica desiludida, quer se volte para o seu nascer, quer para o seu perecer, pois nunca conseguirá captar nada de estável, nada que exista realmente. “Certo, não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”, como diz Heráclito, nem, portanto, se pode entrar duas vezes, na mesma situação, uma substância mortal. Ao contrário, súbitas e rápidas mudanças “distendem-na e de novo a contraem” ou, melhor, não “de novo”, não “mais tarde”, mas “ao mesmo tempo” ela se constitui e perece, “entra e sai”. De onde se segue que tal substância mortal não leva a termo na via da existência tudo o que nela entra no devir, pelo simples fato de que justamente esse devir não conhece nunca trégua ou repouso. Assim, do germe, numa transformação incessante, ela produz o embrião, depois o fato e depois a criança, em seguida, o adolescente, o jovem, e depois o homem, o ancião, o velho, destruindo pouco a pouco os estágios precedentes do desenvolvimento e das diferentes idades, para dar lugar às que se seguem. Entretanto nós – ó, que coisa mais ridícula! – não tememos senão uma só morte, enquanto, na realidade, sofremos e sofreremos infinitas mortes! Porque, não só “a morte do fogo – no dizer de Heráclito – nasce do ar, e a morte do ar nasce pela água”, mas isso é muito mais claro no nosso caso: o homem maduro morre quando nasce o velho; e o jovem morreu para dar lugar ao homem maduro; e assim a criança para dar lugar ao jovem; e o feto para a criança. O homem de ontem é morto pelo homem de hoje; e o homem de hoje morre pelo homem de amanhã. Ninguém persevera, ninguém é uno; mas nós nos tornamos uma multidão: em torno a não sei que fantasma, em torno a um substrato comum de argila a matéria circula e se esvai. De resto, como é que, supondo perseverar numa identidade, alegramo-nos agora com coisas diferentes das que antes nos alegravam? Como é que objetos contrários suscitam ora amor, ora ódio, ora admiração, ora lástima? Por que usamos palavras sempre diferentes e estamos sujeitos a diferentes sentimentos? Por que não são nunca iguais em nós nem o aspecto, nem a figura, nem o pensamento? Sem mudanca, com efeito, não se explicam esses estados constantemente diferentes; e quem muda, portanto, não é mais o mesmo. Mas se alguém não é o mesmo, simplesmente não é, mas se torna sempre novo e diferente do diferente de antes, justamente pelo fato de mudar. Erram os nossos sentidos, por ignorância do ser real, ao dar ser ao que apenas aparece. Mas, então, que é o ser real? O eterno, Aquele que não nasce. Aquele que não morre. Aquele no qual nem sequer um instante de tempo pode introduzir mudança. Algo que se move e que aparece simultâneo com a matéria em movimento; algo que flui perpétua e irresistivelmente, como um vaso de nascimento e de morte: eis o tempo! Até mesmo as palavras habituais, o “depois”, o “antes”, o “será”, o “acontece” são a espontânea confissão do nosso não-ser. De fato, é ingênuo e absurdo dizer “é” de alguma coisa que ainda não entrou no ser, ou de alguma coisa que já cessou de ser. As nossas expressões habituais, sobre as quais se fundam, ademais, a nossa noção do tempo, isto é, “existe”, “é presente”, “agora”, diluem-se todas quando o raciocínio se aprofunda nelas. O presente, de fato, distanciado como é, necessariamente, do futuro e do passado, dissipa-se como um raio para os que querem captá-lo. Mas se a natureza medida encontra-se na mesma relação com o tempo que a mede, nada existe nela que seja estável, nada que seja existente; antes, tudo está sujeito às vicissitudes do nascimento e da morte, sob o comum ritmo do tempo. De modo que, dizer do Ser verdadeiro, “ele foi” ou “ele será” é quase um sacrilégio. Tais determinações, na verdade, são flexões e alterações do que não nasceu para permanecer no ser. Mas deus (seria preciso dize-lo?) “e”; é, digo, não já segundo do o ritmo do tempo, mas no eterno, que é imóvel, atemporal, sem vicissitudes; e não admite nem antes, nem depois, nem futuro, nem passado, nem idade de velhice ou de juventude. Não, Ele é uno e na unidade do presente preenche o “sempre”: o que nesse sentido existe realmente, o “é” unicamente: não advém, não será, não começou, não acabará[5].

 

Além das causas eficientes, não podem existir senão as incorpóreas; de fato, os corpos são passivos e mutáveis e não se encontram sempre nas mesmas e idênticas condições, nem são fixos e imutáveis, e logo se descobre que são passivos também quando parece que neles existe uma atividade; assim, pois, como existe algo de puramente passivo, assim também é preciso que exista algo de absolutamente ativo; e isso não poderia ser outra coisa senão o incorpóreo[6].

Deus não tem partes porque não existe nada antes dele; de fato, a parte e aquilo do que as coisas são feitas existem antes daquilo de que são partes; com efeito, a superfície existe antes do sólido e a linha antes da superfície; não tendo, pois, partes, é imóvel seja no que diz respeito ao movimento espacial, seja no que diz respeito ao qualitativo. Se, de fato, mudasse, isso aconteceria ou por si mesmo ou por outro: se fosse por outro, mudaria ou para pior ou para melhor: ambas as possibilidades são, contudo, absurdas. Daí resulta também que ele é incorpóreo. Isso também se demonstra com os seguintes argumentos: se Deus tivesse corpo, seria constituído de matéria e de forma; todo corpo é, com efeito, um composto de matéria e da forma que lhe é imanente; esse composto é semelhante às Idéias e participa delas de um modo difícil de explicar; é absurdo, então que Deus seja feito de matéria e de forma: não seria, com efeito, simples e originário. Conseqüentemente é incorpóreo. E ainda: se fosse corpo, seria feito de matéria, portanto, seria ou fogo, ou água, ou terra, ou ar ou qualquer coisa derivada desses elementos; mas nenhum desses tem caráter de princípio. Ademais, seria posterior à matéria, se de mataria fosse feito: dado o absurdo dessas conclusões, é necessário concebê-lo como incorpóreo: de fato, se é corpo, é corruptível e gerado e mutável: mas cada um desses atributos é absurdo com relação a ele[7].

 

Segundo Platão existem duas realidades – que nós chamamos essências [= substâncias] – das quais todas as coisas e o próprio mundo derivam: a primeira é captada apenas com o pensamento, a segunda pode cair sob os sentidos. Mas a primeira, que é captada com os olhos da mente, encontra-se sempre na mesma condição, igual e semelhante a si própria, como a que verdadeiramente é: a segunda, ao invés, como afirma Platão, nasce e morre, e é captada pela opinião sensível e não-racional. E como a primeira é considerada o verdadeiro ser, a segunda não é verdadeiro ser. A primeira substância ou essência é o primeiro Deus e a mente e a forma  das coisas, e também a alma delas, a segunda substância é tudo o que recebe uma forma e que se gera e tem origem do modelo da substância superior, que pode mudar e transformar-se confluindo e escorrendo com a água dos rios[8].

 

É inefável e captável apenas com o intelecto, como se disse, pois não é nem gênero, nem espécie, nem diferença específica e nem mesmo, por outro lado, lhe compete qualquer especificação, nem má (porque não é lícito dizer isso), nem boa (pois ele seria bom por participação em alguma coisa, e especificamente na bondade); nem é indiferente (porque isso não corresponde à sua noção). Nem se lhe atribui qualidade (porque não tem nada a ver com qualidades e é perfeito independentemente da qualidade), nem é sem qualidade (porque não é privado de qualidades que com ele possam competir). Não é parte de alguma coisa, nem tem partes como um todo, nem por conseqüência, é igual a qualquer coisa, nem diferente; nada, com efeito, se lhe acrescenta por força da qual possa ser separado das outras coisas; nem move, nem é movido[9].

 

As Idéias como pensamento de Deus e a distinção entre inteligíveis primeiros ou Idéias transcendentes e inteligíveis segundos ou formas imanentes às coisas.

Dado que [...] o primeiro Intelecto é excelsamente belo, é necessário que também o seu inteligível seja excelsamente belo, mas em nada mais belo que Ele; portanto, pensa a si mesmo, e os pensamentos de si mesmo e esta sua atividade é, justamente, a Idéia[10].

 

Que as Idéias existam é provado com os seguintes argumentos: se Deus é um intelecto ou qualquer coisa pensante, então tem pensamentos e esses pensamentos são eternos e imutáveis; mas se isso é assim, existem Idéias. E se a matéria é, por sua própria natureza, sem medida, é necessário que encontre medida em algum outro, melhor e imaterial; mas a antecedente é verdadeira, portanto, também a conseqüente o é. Mas se é assim, então as Idéias existem como medidas imateriais[11].

 

A hierarquia do divino: rumo à da doutrina das hipóstases.

 

Dado que o Intelecto é melhor que a alma e, do intelecto em potência, é melhor o que em ato pensa todas as coisas juntas e sempre, e mais excelente do que esta é a causa dele e o que pode estar acima dele, tal é o primeiro Deus, que é a causa da eterna atividade do intelecto de todo o céu. Ele o faz mover-se, permanecendo ele mesmo imóvel, como faz o sol com relação à vista, quando esta o olha, e como o objeto do desejo move o desejo, permanecendo imóvel; assim, justamente, também esse intelecto moverá o intelecto de todo o céu. Porque o primeiro intelecto é excelsamente belo, mas em nada mais belo que ele: portanto, pensa a si mesmo e os seus pensamentos, e esta sua atividade é, justamente, a Idéia. Ademais o primeiro Deus é eterno, inefável, perfeito em si, isto é, sem qualquer necessidade, eternamente realizado, isto é, eternamente perfeito, inteiramente realizado, isto é, inteiramente perfeito: é divindade, substancialidade, verdade, proporção, bem. Digo isso não pretendendo separar essas coisas, mas pretendendo pensar, mediante elas, uma unidade. É bem porque beneficia toda coisa enquanto é possível a ela, sendo causa de todo bem; é belo porque por sua natureza é perfeito e proporcionado; é verdade porque é princípio de toda verdade, como o sol é princípio de toda luz; é pai porque é causa de toda e ordena o intelecto do céu e a alma do mundo em relação a si mesmo e às suas intelecções. Segundo a sua vontade, de fato, preencheu todas as coisas de si mesmo e, tendo despertado a alma do mundo e tendo-a voltado para si mesmo, é causa do seu intelecto. Esse intelecto, ordenado pelo pai, ordena toda a natureza nesse mundo[12]. 

 

A cosmologia médio-platônica: a matéria e a origem do cosmo.

 

Ela é, pois, chamada por Platão de matriz impressionável, receptáculo, nutriz, mãe, espaço, substrato não-perceptível pela sensação e captável apenas por meio de um raciocínio bastardo. Ela tem a propriedade de receber tudo o que nasce, tendo a função de uma nutriz ao carregar e receber todas as figuras, mas é por si sem forma, sem qualidade e sem figura; embora sendo modelada e marcada por essas figuras como uma matriz impressionável que assume essas figuras, ela não possui em si nenhuma figura nem qualidade. De fato, não seria algo apto a receber marcas e formas variadas, se não fosse privada de qualidade e daquelas figuras que ela acolhe; vemos, com efeito, que também os que preparam com óleo ungüentos perfumados, usam o óleo inodor e os que querem plasmar formas com cera e argila, lixam e tornam esses materiais o quanto possível privados de qualquer figura. Portanto, é necessário que também a matéria, que tudo acolhe, se deve receber as formas em toda a sua extensão, não tenha em si qualquer natureza delas, mas seja sem qualidade e sem forma, para poder acolher, justamente, as formas; sendo tal, não é nem corpo, nem incorpóreo, mas é corpo em potência, como dizemos que o bronze é estátua em potência, enquanto se tornará estátua quando tiver recebido a forma[13].

 

Platão observa que a matéria deve ser ingênua e incorruptível, que não é nem fogo, nem água, nem qualquer outro dos princípios ou elementos originários, mas entre todos é primeira, capaz de receber forma e de receber figura e, ademais, bruta e privada de qualificações formais: é o Deus artífice que a conforma na sua totalidade. Platão a considera infinita: de fato, o que é infinito não tem um limite determinado para a sua grandeza e, portanto, dado que a matéria é privada de termo, pode-se, justamente, considerá-la ilimitada. Mas Platão não admite nem que seja corpórea nem incorpórea, não a considera, com efeito, um corpo, porque nenhum corpo pode ser privado de forma; ademais, não se pode dizer que é sem corpo, porque nada do que é incorpóreo pode apresentar um corpo, enquanto potencialmente e racionalmente lhe parece ser corpo, e é por isso que ela não é captável nem só com o tato, nem só com a conjetura racional. De fato, os corpos se conhecem em virtude de sua evidência com um raciocínio que é congênere, enquanto o que é privado de matéria corpórea é captado com os raciocínios. Portanto, a característica dessa matéria se capta com uma conjetura espúria e como que ambígua[14].

 

Quando Platão diz que o mundo é gerado, não se deve entendê-lo no sentido em que houve um tempo no qual o mundo não existia, mas que o mundo está sempre em devir e manifesta um princípio mais originário do que o seu ser. E também a alma do mundo, que é eterna, nem mesmo a esta deus cria, mas a ordena; e diz-se que a cria no seguinte sentido: despertando e voltando para si  intelecto dela e a ela mesma como de uma letargia e de um sono profundo, para que, olhando para os inteligíveis de Deus, acolha as Idéias e as formas, olhando para os pensamentos dele[15].

 

A demonologia médio-platônica.

 

Platão, Pitágoras, Xenócrates, Crísipo, seguidores dos primitivos escritores de coisas sagradas, afirmam que os Demônios são dotados de força sobre-humana, antes, superam de muito, por extensão de potência, a nossa natureza, mas não possuem o elemento divino puro e incontaminado, mas participam, ao mesmo tempo, de uma dupla sorte, enquanto reúnem natureza espiritual e sensação corpórea, na qual acolhem prazer e trabalho; e tal elemento misto é, justamente, a fonte da perturbação[16].

 

III. A ANTROPOLOGIA E A ÉTICA DO MÉDIO-PLATONISMO

 

O fim supremo do homem e a assimilação a Deus.

 

Platão, em conseqüência de todas essas coisas, põe como fim o assimilar-se a Deus enquanto possível; esta doutrina é tratada de vários modos. Às vezes, de fato, diz que o assimilar-se a Deus é ser sábios, justos e santos, como no Teeteto; por isso é preciso também tentar fugir daqui para o alto, o quanto antes possível; a fuga é, com efeito, o assimilar-se a Deus enquanto possível. O assimilar-se é o tornar-se justo e santo com o pensamento, às vezes apenas o ser justo, como no último livro da República: não está nunca ignorado pelos deuses aquele que deseje ser justo e, ocupando-se da virtude, enquanto possível ao homem, queira assimilar-se a Deus. No Fédon, depois, diz que o assimilar-se a Deus é tornar-se ao mesmo tempo temperantes e justos, mais ou menos como se segue: “Portanto, serão os mais felizes e afortunados e irão para os melhores lugares, os que praticam a virtude comum e a própria do bom cidadão, a que chamamos temperanças e justiça”. Às vezes diz que o fim é assimilar-se a Deus, às vezes que é segui-lo, como quando afirma: “Deus, segundo a antiga tradição, princípio e fim etc.”. Às vezes diz as duas coisas, como quando afirma: “A alma que segue a Deus e que se assimila a ele etc.”. O bem é o principio do que convém fazer e também disso afirma-se que vem de Deus; portanto o fim que se segue ao princípio é assimilar-se a Deus, ao Deus celeste, evidentemente, e não, por Zeus, ao supraceleste, o qual não tem virtude, mas é melhor do que esta; por isso pode-se dizer que a infelicidade é uma má disposição da divindade interior, a felicidade, uma boa disposição. Podemos chegar a ser semelhantes a Deus, se tivermos uma natureza adaptada, costumes, uma educação e uma vida segundo as leis e, sobretudo, se usarmos a razão, o ensinamento e a tradição das doutrinas, de modo a manter-nos afastados da maioria das coisas humanas e de modo a estar sempre voltados às coisas inteligíveis. Se queremos ser iniciados nos conhecimentos mais elevados, a preparação e a purificação do demônio que existe em nós deverão acontecer através da música, da aritmética, da astronomia e da geometria, e deveremos nos ocupar também do corpo com a ginástica, a qual adestra e bem dispõe os corpos à guerra e à paz[17].

 

Procedendo ordenadamente, é preciso falar agora, sumariamente, das coisas ditas por Platão relativas à ética. Ele considerava que o bem mais valoroso e maio não fosse fácil de encontrar e, tendo-o encontrado, não seria prudente oferecê-lo a todos. Certamente pouquíssimos e seletos discípulos tornou participantes da sua lição sobre o Bem. Ademais, examinando acuradamente as suas obras, pode-se ver que Platão pôs o nosso bem na ciência e na contemplação do primeiro bem, que pode ser chamado Deus primeiro intelecto[18].

 

A natureza espiritual do homem e a concepção dualista de alma e corpo.

 

A parte imersa e presa nos movimentos do corpo é chamada alma; quanto à parte incorruptível, a maioria a chama intelecto e a crêem interior a si mesmos, como os reflexos num espelho; mas os que julgam melhor a chamam Demônio, como a parte que lhes é exterior[19].

 

Sobre o fato, Platão pensa, aproximadamente, essas coisas. Diz que tudo está submetido ao fato, mas que nem tudo é predestinado. Com efeito, o fato é como uma lei e não estabelece, por exemplo, que uma pessoa fará determinada coisa, que outra sofrerá outra coisa: isso, com efeito, iria ao infinito, pois infinito é o número dos seres vivos e infinito o número das coisas que lhes acontecem; ademais, o que está em nosso poder não estaria mais e não existiriam louvores, lástimas e qualquer outra coisa do gênero; o fato estabelece, ao invés, que se uma alma escolhe uma vida  faz certas coisas, se lhes seguirão outras. A alma é, pois, sem senhor e dela dependem o fazer e o não fazer e isso não está submetido ao vínculo; as conseqüências das suas ações, ao invés, se cumprirão segundo o destino. Por exemplo: ao fato de Paris raptar Helena, fato que depende dele, seguir-se-á que os gregos farão guerra por Helena. Assim, com efeito, também Apolo predisse a Laio: “Se gerares um filho, este te matará”. Na lei divina estão contidos Laio e o fato de que ele gere um filho, mas só o que se segue a isso é predestinado[20]. 

 

A tábua dos valores e a virtude.

 

Ele pensava que todas as coisas chamadas boas pelos homens tinham esse nome pela sua participação, de certo modo, no primeiro e mais valoroso bem, do mesmo modo que as coisas doces e quentes têm esse nome pela sua participação no primeiro doce e no primeiro quente. Só o nosso intelecto e a nossa razão podem chegar a assimilar-se ao bem; por isso também o nosso bem é belo, nobre, divino, amável, proporcionando e chamado com nomes dignos do divino. Dentre os que a maioria chama bens, por exemplo, a saúde, a beleza, a força, a riqueza e as outras coisas afins, nenhum em si é um bem, se não é usado virtuosamente; de fato, separados da virtude, estão apenas no nível da matéria e tornam-se males para os que os usam sem consideração; algumas vezes Platão os chama também de bens mortais [= bens por participação][21].

 

A ética médio-platônica e a ética estóica.

 

O que possui a ciência da qual falamos é o mais afortunado e feliz, contudo não pelas honras que, sendo tal, receberá, nem pelas recompensas, mas mesmo que devesse permanecer desconhecido a todos os homens e lhe acontecessem os que são chamados males, por exemplo, a perda de todos os homens os direitos, o exílio, a morte. Ao invés, quem, sem ter essa ciência, possui todos os que são chamados bens, como a riqueza, o poder real, a saúde do corpo, o vigor, a beleza, em nada é mais feliz[22].

 



[1] Cícero, De finibus, V, 1, 1-2.

[2] Plutarco, De E ap. Delph., 393 e.

[3] Plutarco, Ad. Princ. iner., 781 e.

[4] Plutarco, De Is. et Osir., 382 f. Sobre as relações entre Plutarco e o estoicismo uma boa contribuição foi dada por D. Babut, Plutarque et lê stoïcisme, Paris 1969 (para o tema específico que estamos tratando cf. pp. 453ss.).

[5] Plutarco, De E ap. delph., 392 a-393 b.

[6] Albino, Didascálico.

[7] Albino, Didascálico, X, 7-8.

[8] Apuleio, De Platone, I, 193. Deve-se notar que, embora de passagem, Apuleio, pouco antes (190), define Deus como “incorporeus, unus” e “απεριμετρος”, ou seja infinito, usando um termo grego inusitado, que tem um paralelo semelhante (embora não idêntico), por exemplo, em Filo de Alexandria (cf., por exemplo, Sacrif., 59, onde é usado o termo aperigrajoV).

[9] Albino, Didascálico, X, 4.

[10] Albino, Didascálico, X, 3.

[11] Albino, Didascálico, IX, 3.

[12] Albino, Didascálico, X, 2-3; ver também a passagem reportada mais adiante, p. 305.

[13] Albino, Didascálico, VIII, 2-3.

[14] Apuleio, De Platone, II, 191s.

[15] Albino, Didascálico, XIV, 3.

[16] Plutarco, De Is. et Osir., 360 d-e. Cf. Apuleio, De deo Socratis, 147s.

[17] Albino, Didascálico, XXVIII, 1-4.

[18] Albino, Didascálico, XIII, 1.

[19] Plutarco, De gênio Socratis, 391 e; cf. também De facie, 943 a.

[20] Albino, Didascálico, XXVI, 1-2. Sobre esses temas ver também Ps.-Plutarco, De fato, 5.

[21] Albino, Didascálico, XXVII, 2; cf. também o resto do capítulo.

[22] Albino, Didascálico, XXVII, 5.

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