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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

ANTOLOGIA: A DIALÉTICA SOCRÁTICA

 





     Nícias – Ó Lisímaco, parece-me que conheces a Sócrates somente através de seu pai, e que jamais o encontraste, senão quando criança, nas ocasiões em que, acompanhando o pai entre o povo, possas tê-lo encontrado, ou num templo ou nalguma outra reunião. Mas, depois de adulto, não o encontraste nunca, pelo que vejo.


    Lisímaco – E por que, Nícias?


    Nícias – Porque, ao que me parece, não sabes que qualquer um que se aproxime dele e ponha-se com ele a raciocinar, qualquer que seja o assunto a tratar, arrastado na espiral do discurso, é inevitavelmente constrangido a ir adiante, até que chegue a dar conta de si, e  a dizer de que modo vive e de que modo viveu; e, uma vez chegado a isto, Sócrates não o deixa mais, enquanto não tiver discernido muito bem cada palavra. Eu tenho o hábito de frequentá-lo e sei que nisso ninguém lhe escapa, como sei muito bem que nem mesmo eu lhe escaparei. Porque, ó Lisímaco, tenho prazer em estar com ele, e penso que não é mal que haja alguém que nos recorde que não temos vivido e não vivemos como se deveria, pois somos inevitavelmente induzidos a ser mais atentos com relação ao futuro, quando não nos subtraiamos a semelhantes provas, e, segundo o dito de Sólon, nos mostremos dispostos e consideremos justo dever continuar a aprender enquanto vivemos, e não creiamos que com a velhice devamos necessariamente perder também o juízo. Para mim, em todo caso, não é coisa nova nem desagradável o fato de ser posto á prova por Sócrates; e já o sabia há muito que, estando Sócrates presente, o discurso giraria não sobre os jovens, mas sobre nós mesmos [...] (Platão, Laques, 187 d- 188 b).


   Só Deus é sapiente, e isto ele quis dizer no seu oráculo: que pouco ou nada vale a sapiência do homem; e, afirmando que Sócrates é sapiente, não quis, creio, referir-se propriamente a mim, Sócrates, mas apenas usar o, meu nome como um exemplo; como se tivesse querido dizer o seguinte: “Os homens, entre vós é sapientíssimo aquele que, como Sócrates, tenha reconhecido quem na verdade, a sua sapiência não tem nenhum valor” (Platão, Apologia de Sócrates, 23 a-b).


    Se alguém crê dizer alguma coisa sobre questões em torno as quais não diz nada que tenha sentido, sobre estes eles [i.é, Sócrates e os seguidores do método socrático] o interrogam. Depois analisam com facilidade as suas opiniões, enquanto opiniões de alguém privado de rigor no pensamento: com o discurso as reúnem e as confrontam entre si, e assim em seguida demonstram que elas, ao mesmo tempo, a respeito dos mesmos assuntos, com relação às mesmas coisas, segundo os mesmos ponto de vista, estão todas em oposição entre si. E aqueles, assistindo a tudo isso, experimentam em descontentamento com eles mesmos, fazem-se mais dóceis diante dos outros, e assim libertam-se de todas as enraizadas e orgulhosas opiniões que tinham sobre si, e esta é entre todas a libertação mais doce para quem a assiste e a mais estavelmente fundada para quem passa por ela. Pensam, com efeito, [...] os autores desta purificação, de maneira análoga ao que dizem os médicos do corpo, isto é, que um corpo não pode gozar do alimento que se lhe oferece  antes de se eliminarem dele os impedimentos internos; exatamente a mesma coisa aqueles purificadores chegaram a pensar da alma, isto é, que ela não desfrutará dos conhecimentos a ela fornecidos antes que alguém, exercitando a confutação, reduza á vergonha de si o confutado, tirando as opiniões que cortam a via aos conhecimentos e purificando-a totalmente de modo a saber somente o que sabe e nada mais [...]. Por todas estas coisas [...] nós devemos afirmar que a confutação é a maior, a fundamental purificação, e quem não foi beneficiado por ela, seja ele o Grande Rei, só pode ser considerado como maculado pelas mais graves impurezas e privado de educação, e até mesmo um bruto, justamente naquelas coisas com relação ás quais qualquer um que verdadeiramente quisesse ser um homem feliz. Acreditava estar purificado e  embelezado da maneira mais plena (Platão, Sofista, 230 b-e).

Sócrates – Tu sentes as dores, caro Teeteto: sinal de que não estás vazio, mas pleno.


 Teeteto – Não sei, ó Sócrates: digo-te só aquilo que experimento.


  Sócrates – Meu caro amigo, e não ouviste dizer que sou filho de uma hábil e vigorosa parteira, chamada Fenarete?


 Teeteto – Sim, isto ouvi dizer.


 Sócrates – E que eu exerço a mesma arte, ouviste dizer?


 Teeteto – Não, nunca.

 

 Sócrates – Sabe, pois, que assim é. Tu, porém, não deves dizê-lo aos outros. Não o sabem, caro amigo, que eu possuo esta arte; e, não sabendo, não dizem isto de mim, mas que eu sou o mais extravagante dos homens e que não faço outra coisa senão semear dúvidas. Também isto terás ouvido dizer, não é verdade?


  Teeteto – Sim.


  Sócrates – E queres que eu te diga a razão disso? Teeteto – Perfeitamente.


  Sócrates – Procura entender bem o que é esta profissão de parteira, e compreenderás mais facilmente o que quero dizer. Tu sabes que nenhuma mulher, enquanto é capaz de conceber e gerar, atua como parteira com relação a outras mulheres; mas só aquelas que não podem mais gerar.


  Teeteto – Certo.


  Sócrates – A causa disso dizem Ter sido Artêmis, a quem coube presidir os partos sendo virgem. Ela, pois, ás mulheres estéreis, não concedeu atuar como parteiras, sendo a natureza humana demasiado débil  para que alguém possa adquirir uma arte da qual tenha tido experiência; mas atribuiu este ofício àquelas mulheres que pela sua idade não podiam mais gerar, honrando deste modo a semelhança que elas tinham com ela.


  Teeteto – Naturalmente.


   Sócrates – E não é também natural, e até mesmo necessário, que sejam as parteiras a reconhecer, melhor do que qualquer outra, se uma mulher está grávida ou não?


   Teeteto – Certamente.


   Sócrates – E não são as parteiras que, administrando remédios e fazendo encantamentos, podem despertar as dores ou torná-las menores se querem; e facilitar o parto ás que têm dificuldade; e também fazer abortar, se pensam que devem fazê-lo, quando o feto está ainda imaturo?


    Teeteto – É verdade.


   Sócrates – E não observaste nunca a respeito delas também o seguinte: que são habilíssimas em promover casamentos, especialistas que são em conhecer que homem e que  mulher devem se unir para gerar os melhores filhos?


     Teeteto – Não sabia disso.


Sócrates – Pois então sabe que desta arte elas se vangloriam mais do que do corte do umbigo. Pensa um pouco: crês que seja a mesma arte ou duas artes distintas a de recolher com todo cuidado os frutos da terra, e a de reconhecer q]em que terra tal planta deve ser plantada, e que semente deve ser semeada?


   Teeteto – A mesma arte, creio.


Sócrates – E quanto a mulher, crês que sejam diferentes a arte de semear e a de colher?


   Teeteto – Não me parece.


Sócrates – Não é, com efeito. Mas, por causa daquele tipo de união de homem e mulher, contra as leis e contra a natureza, ao qual se dá o nome de rufianismo, as parteiras que são coisas da sua reputação, abstêm-se também de promover casamentos honestos, por medo de serem acusadas de fazer uma mau negócio; pois só às parteiras verdadeiramente dignas convém, creio eu, promover casamentos como se deve.


Teeteto – A mim também parece.


Sócrates – Este é, portanto, o ofício das parteiras; e ele é digno, mas inferior ao meu. Com efeito, às mulheres não ocorre dar à luz ora a quimeras e ora a seres reais, o que não é fácil reconhecer; pois se isto acontecesse, não te parece que seria um grande e belo ofício para as parteiras distinguir o verdadeiro do não-verdadeiro?


Teeteto – Sim, isto me parece.


Sócrates – Ora, a minha arte de obstetra assemelha-se em todo o resto á das parteiras, mas difere dela no fato de agir sobre homens e não sobre mulheres, e cuidar das almas grávidas e não dos corpos. E a minha maior capacidade é que eu consigo discernir seguramente se a alma do jovem dá á luz a uma quimera e a uma mentira, ou se a algo real. Pois eu tenho em comum com as parteiras o fato ser também estéril... de sapiência; e a reprovação que muitos já me fizeram, que eu sempre interrogo os outros, mas não manifesto nunca sobre qualquer questão o meu pensamento, ignorante que sou, é uma reprovação verdadeira. E a razão é que o Deus obrigou-me a ser obstetra, mas proibiu-me gerar. Eu sou, portanto, ignorante, e de mim não saiu nenhuma sapiente descoberta que tenha sido produzida pela minha alma; ao invés, aqueles que se comprazem da minha compainha, embora alguns deles pareçam no início totalmente ignorantes, continuando a freqüentar-me, consegue em seguida, desde que Deus o permita, extraordinário proveito, como eles mesmos e os outros constatam. E é claro que não aprenderam nada de mim, mas unicamente por si mesmos aprenderam e geraram muitas e belas coisas. Porém, o mérito de tê-los ajudado caba a Deus e a mim. E eis a prova. Muitos que não conheciam isto e consideravam que o mérito fosse todos deles, e olhavam-me com certo desprezo, um dia, mais cedo do que deviam, afastaram-se de mim, por sua própria vontade ou instigados por outros; e, uma vez longe, não fizeram senão abortar em todas as suas produções, por causa das más ligações que contraíram, mas também arruinaram, por falta de educação, tudo aquilo que com a minha ajuda tinham dado à luz, tendo mais em conta as mentiras e as quimeras do que a verdade; e acabaram por parecer extremamente ignorantes a si mesmos e aos outros. Há alguns que voltam a buscar a minha companhia e fazem proezas para conseguir isto; e se com alguns deles o demônio que está sempre presente em mim me impede de estabelecer relações, com outros, ao contrário, o permite, e estes voltam a tirar proveito disso. Ora, os que se relacionam comigo também nisso padecem as mesmas penas das mulheres parturientes: pois sentem as dores, e dia e noite estão cheios de inquietação muito mais que as mulheres. E a minha arte tem justamente o poder de, ao mesmo tempo, suscitar e acalmar as suas dores. Assim se passa necessidade de mim, esforço-me por encontrar-lhes um lugar; e com a ajuda de Deus, consigo muito facilmente encontrar alguém com quem possam relacionar-se e encontrar satisfação nisso. E assim, a muitos aproximei de Pródico, e muitos a outros sábios e divinos homens. Pois bem, caro amigo, contei-te toda esta história justamente por isso, porque suspeito que tu, e talvez tu mesmo creias, estejas grávido e sintas as dores do parto. Portanto, confia-te a mim, que sou obstetra e filho de parteira; e o que te pergunto, tenta responder da melhor maneira possível. Se, depois, examinando as tuas respostas, eu encontrar que algumas são quimeras e não verdades, arranco-as de ti e lanço-as fora, e não te zangues comigo como fazem com seus filhos as que dão á luz pela primeira vez. Já muitos, caro amigo, têm contra mim está esta má disposição, tanto que estão até mesmo prontos e  agredir-me se eu tento arrancar deles alguma opinião extravagante; e não vêem que faço isso por benevolência, longe como estão de saber que nenhum Deus quer o mal dos homens; e não é, na verdade, por maldade que eu faço isso, mas só porque não considero lícito aceitar a falsidade ou obscurecer a verdade (6. Platão, Teeteto, 148 e- 151 d. Maier).


  Sócrates ocupava-se de questões éticas e não da natureza na sua totalidade, mas no âmbito daquelas buscava o universal, tendo por primeiro fixado a atenção sobre as definições. Ora, Platão aceitou esta doutrina socrática, mas acreditou, por causa das convicções que ele acolheu dos heraclitanos [i.é, aquelas doutrinas segundo as quais todas as coisas sensíveis estão em perene fluxo], que as definições se referissem a outras realidades e não às sensíveis: de fato, ele afirmava ser impossível que a definição universal se referisse a alguns objetos sensíveis, porque sujeitos a contínua mudança; ele então chamou estas outras realidades de Idéias e afirmou que os sensíveis existem separados delas [...] (Aristóteles, Metafísica, A 6, 987 b 1ss).


E ainda:


Sócrates [...] buscava a essência das coisas e a reta razão: de fato ele tentava seguir o procedimento silogístico, e o princípio dos silogismos é, justamente, a essência [...]. Com efeito, duas são as descobertas que com razão podem ser atribuídas a Sócrates: os raciocínios indutivos e a definição universal; e estas descobertas constituem a base da ciência (Aristóteles, Metafísica, M 4, 1078 b 23-30).


E enfim:


  A este modo de raciocinar [próprio dos platônicos] deu início Sócrates mediante as definições; Sócrates, porém, não sabia as definições das coisas particulares (Aristóteles, Metafísica, M 9, 10086 b 2 ss; cf.


  De que modo tomava os seus amigos mais hábeis na dialética, eis o que tentarei expor. Sócrates considerava que todos os que conhecem o que é um objeto podem explicá-lo também aos outros, mas os que não o conhecem, dizia não ser estranho que se enganassem e enganassem os outros. Por isso, estando com os amigos, não cessava de examinar o que é cada objeto (Xenofonte, Memoráveis, IV 6, 1).



 [Sócrates] acrescentava também que o vocábulo “dialética” derivava do uso de reunir-se para discutir, distinguindo as coisas por gêneros; em conseqüência disso, era preciso preparar-se da melhor maneira possível neste exercício e aplicar-se a ele com o máximo cuidado, porque este estudo, porque este estudo toma os homens ótimos e aptos em sumo grau para dirigir e para discutir (Xenofonte, Memoráveis, IV, 5, 12).


ANTOLOGIA: A TEOLOGIA SOCRÁTICA E SEU SIGNIFICADO

 





- E crês seres dotado de certa inteligência?


-    Pergunta e responderei.

- E afirmas que fora de ti não existia absolutamente a inteligência, sobretudo considerando que no teu corpo tens uma pequena parte  da terra, que é tão extensa, uma exígua parte da água, que é imensa, e que o teu corpo foi formado por alguém que tomou da grande massa dos elementos uma pequena parte de cada um? Se a inteligência não existisse de modo algum, como podes pensar que tu sozinho, por um feliz acaso, te apropriaste dela, e que estes elementos, infinitos em número e imensamente grandes, foram organizados em bela ordem, segundo supões, por uma força não-inteligente?


- Sim,  por Zeus, porque não vejo quem tem o poder de fazer isso, como vejo que produz as coisas aqui na terra.


- Mas tampouco vês a tua alma, que tem poder sobre o teu corpo, d4e modo que, segundo o teu raciocínio podes afirmar que não realizas nada com reflexão, mas tudo por acaso (Xenofonte, Memoráveis, I, 8ss).


 Segue um elenco dos privilégios do homem com relação a todos os outros animais, e como último argumento se lê:


- E não bastou a Deus ocupar-se do corpo, mas, o que é ainda maior, pôs no homem uma alma de extraordinário poder. Existe outra criatura cuja alma se dê conta da existência dos deuses que dispuseram tão grandes e tão belas coisas? Que outra raça senão a dos homens venera os deuses? Que outra alma, além da humana, é capaz de evitar a fome ou a sede, o frio ou o calor, curar os males, manter a saúde, esforça-se por aprender, ou é capaz, enfim, de recordar o que ouviu, viu, aprendeu? Não te parece claro que, com relação aos outros animais, os homens vivem como os deuses, dispostos por natureza a dominar com o corpo e com a alma? (Xenofonte, Memoráveis, I, 4, 13s).


    E como conclusão de todo o discurso, enfim, lê-se:


- Reflete, caro, continuou, que a inteligência que há em ti governa o teu corpo segundo lhe aprazo. Convém, portanto, crer também a sapiência que está no universo dispõe as coisas como lhe agrada,, e não que a tua vista possa alcançar um raio de muitos estádios, mas que o olho de Deus, ao invés seja incapaz de abranger tudo junto, não que a tua alma consiga pensar nas coisas daqui, nas do Egito e da Sicília, mas que a sapiência de Deus, ao contrário, não seja capaz de se ocupar ao mesmo tempo com tudo [...] (Xenofonte, Memoráveis, I, 4, 17s).


    Não se apressava em tornar os seus amigos hábeis no falar, no agir e em afrontar uma situação: considerava que, primeiro, devessem Ter um reto sentir. De fato, aos que, privados do sentir, eram capazes de fazer tudo isso, considerava que fossem injustos e mais hábeis em realizar o mal. E buscava em primeiro lugar dar-lhes idéias justas a respeito dos deuses. Outros assistiram e em seguida referiram as suas conversações com alguns sobre este ponto. Eu estive presente quando deve esta discussão com Eutidemo.


- Diz-me, perguntou-lhe, Eutidemo, nunca te ocorreu pensar com quanto carinho os deuses preparam aos homens o necessário?


- Nunca, por Zeus, respondeu.


- E, no entanto, sabes que a nossa primeira e fundamental necessidade é a luz que os deuses nos concedem?


- Certo: se não a tivéssemos, seríamos semelhantes a cegos apesar dos nossos olhos.


- Temos também necessidade de repouso: e eles nos oferecem a noite como dulcíssima restauração.


- Também disso é preciso ser gratos, e muito.


- Ademais, o sol com o seu esplendor ilumina as várias horas do dia e todas as outras coisas, enquanto a noite com as suas trevas é escura; e então. Não fazem estas brilhar as estrelas, que nos indicam as horas da noite, e nos permitem realizar muitas operações, para n6s indispensáveis?


- Assim é, disse.


- Sem dúvida.


- E como temos necessidade de alimento, no-lo fazem crescer do solo e nos dão estações aptas a nos fornecerem em grande quantidade todas as espécies de coisas não só necessárias, mas também agradáveis.

- Também isto é um sinal de afeto para com os homens.


- E o fato de dar-nos a água tão valiosa, que faz nascer e crescer, junto com a terra e as estações, tudo o que nos é útil e nos nutre, e misturada com os alimentos, torna-os mais digeríveis, mais sadios, mais agradáveis: e, em vista da nossa absoluta necessidade, o fato de dar-nos em tão grande abundância?


- Também isto é  sinal de uma providência.


- E o fato de Ter-nos dado fogo, que nos defende do frio, que nos defende das trevas, que nos ajuda em todas as artes e em tudo o que os homens fazem para a própria utilidade? Pois, para dizer tudo numa palavra, sem o fogo dos homens não fazem nada que tenha valor para a vida.


- Também isto é uma prova evidente de amor pelos homens.


- E o fato de que o sol, depois do período invernal, avance amadurecendo certos produtos e dessecando outros, dos quais passou o tempo o tempo, e, feito isto, não continue mais a aproximar-se, mas volte para trás, cuidando para não nos arruinar com excessivo calor, e, quando, depois, distanciando-se, alcança o ponto no qual, se fosse mais longe, nos faria morrer por causa do gelo, cumpra uma nova revolução e comece a aproximar-se e volte àquela parte do céu na qual, mais que em qualquer outra, possa nos ser útil?


- Por Zeus, também isto parece que tenha sido feito justamente para a utilidade dos homens.


- E depois, como evidentemente não poderíamos suportar nem o calor nem o frio, se viessem inopinadamente, o fato de que o sol se nos avizinhe pouco a pouco, e, assim, pouco a pouco se afaste, de modo que sem nos darmos conta passamos de um extremo ao outro?


- Eu, disse Eutidemo, já estou me perguntando se os deuses não têm outra ocupação a não ser o cuidado dos homens: a única dificuldade é que os outros animais participam destes bens.


- E não é claro, retomou Sócrates, que também estes existem e crescem para o homem? Que outra criatura, mais que o homem, tira proveito das cabras, das ovelhas, dos bois, dos cavalos, dos asnos e dos outros animais? Muito mais, a meu ver, que dos produtos do solo- e, na realidade, destes, não menos que daqueles, extraímos alimentos e nos enriquecemos. Muitos, na verdade, não usam como alimento os produtos da terra e nutrem-se de leite, de queijo, de carne que lhes fornecem os rebanhos: mas todos domesticam e domam os animais úteis e servem-se deles como ajuda na guerra e noutros trabalhos.


- Reconheço também isto, disse, porque vejo que a muito animais, muito mais fortes que nós, os homens sabe tornar tão dóceis a ponto de fazerem o que querem.


- Ademais, como existem tantas coisas belas e úteis, mas diferentes umas das outras, que te parece o fato de Ter dado aos homens sentidos adaptados a cada uma, graças aos quais gozamos de tudo o que é bom? E o fato de Ter plantado em nós a razão que nos permite julgar a utilidade dos vários objetos percebidos, ajudando-nos com o raciocínio e a memória, e permitindo-nos excogitar muitos meios para gozar os bens e evitar os males? E o fato de Ter-nos dado a faculdade de nos exprimir, mediante a qual participamos de todos os bens, instruímo-nos uns aos outros, os pontos em comum, fixamos leis e administrarmos estados?


- Parece-me, verdadeiramente, Sócrates, que os deuses tratam os homens com maior desvelo.


- E depois, dada a nossa incapacidade de prever o que nos acontecerá no futuro, o fato de nos socorrer também nisso, revelando, a quem os interroga, o êxito das diversas coisas mediante a adivinhação e ensinando também os melhores meios para Ter sucesso?


- E a ti, Sócrates, parecem que tratam de modo ainda mais afetuoso que aos outros, se te prenunciam como deves ou não deves agir, sem que os consulte.


- E que eu digo a verdade, poderás reconhecê-la também tu, se, em vez de esperar que os deuses se te revelam de maneira visível, te contentes em ver as suas obras para venerá-las e honrá-las. Considera que eles mesmos mostram querer que assim seja: de fato, os que dispensam os bens, não o fazem comparecendo diante de nós, e o mesmo Deus que ordena e mantém todo o universo, sede toda beleza e do todo bem, que sempre oferece, a quem precisa, as coisas intactas, são, imunes ao perecimento, prontas para servir com mais agilidade do que o pensamento e sem falha, este Deus, digo, manifesta-se na produção de obras grandiosas, mas não se manifesta em governá-las. Considera também que o sol, exposto, como parece, aos olhos de todos, não se deixa ver minuciosamente pelos homens, mas se alguém tem a audácia de fixá-lo, cega-o. Também os ministros dos deuses são invisíveis: o raio, sabemos bem, desce do alto e domina sobre tudo aquilo que encontra, mas não se o vê, nem quando irrompe nem quando desaparece; tampouco os ventos se vêem, mas os seus efeitos nos são manifestos e, junto, advertimos a sua aproximação. Enfim, a alma do homem, a qual participa, mais do que tudo o que é humano, do divino, tem indiscutível domínio sobre nós; mas tampouco se a vê. Refletindo sobre tudo isso, não se deve desprezar o invisível, mas reconhecer o poder dos efeitos e honrar a divindade (Xenofonte, Memoráveis, IV, 3, 1-14).


    A razão disso [i.é, do fato de Sócrates Ter-se mantido longe da política militante] é aquela que muitas vezes em muitas circunstâncias me haveis ouvido dizer, ou seja, que em mim verifica-se algo de divino e demoníaco, exatamente aquilo que Meleto, zombando, escreveu no seu ato de acusação: é como uma voz que se me faz ouvir desde quando eu era criança, e, quando se faz ouvir, sempre me impede de fazer aquilo que eu estou a ponto de fazer, mas não me exorta nunca de fazer (Platão, Apologia de Sócrates, 31 c-d).


   Vós bem o sabeis, atenienses: que se há tempo eu me tivesse ocupado com as questões do Estado, há tempo também estaria morto e não teria feito, !} nada de útil nem avós nem a mim (Platão, Apologia de Sócrates, 31 d.).


     Quanto se tornar construtor, metalúrgico, camponês, governante, ou estudioso destas atividades, ou especialista em cálculo, em economia, em estratégia, todas estas matérias ele considerava que as aprendem só com a força da inteligência humana: mas o que há de mais importante nelas, dizia que os deuses as reservaram para si e, portanto, não é manifesto aos homens. Na realidade, quem cultivou bem um campo não sabe quem colherá os seus frutos; quem construiu bem uma casa, não sabe quem a habitará; o comandante não sabe se lhe será vantajoso o comando, nem o estadista se lhe aproveitará ser chefe do Estado; quem desposou uma bela mulher para ser feliz não sabe se sofrerá por sua causa, nem quem buscou parentela poderosa da cidade sabe se por ela será expulso da pátria. Portanto, aqueles que não consideravam nenhuma destas coisas em poder da divindade, mas todas em poder da inteligência humana, dizia serem loucos: assim também chamava loucos os que pediam ao oráculo aquilo que os deuses concederam aos homens resolver mediante o estudo [...] ou aquilo que é possível saber recorrendo ao cálculo, á medida, aos pesos (Xenofonte, Memoráveis, I, 1, 7-9).


ANTOLOGIA. SOCRATES: A ÉTICA SOCRÁTICA

 





      [Sócrates] não discutia sobre a natureza do universo, como a maior parte dos demais, indagando o modo de existência daquilo que os doutos chamam “cosmo”, e por qual necessidade ocorram os vários fenômenos celestes: os que empreenderam tais pesquisas eram por ele definidos como insipientes [...]. E admirava-se que á metade deles  não se mostrasse a impossibilidade de resolver tais questões, pois até os que se orgulham de tratá-las não estavam em acordo uns com os outros, mas era si muito semelhante a loucos (Xenofonte, Memoráveis, I, 1, 11 ss).


       [...] diante os que trabalham em torno da natureza do universo, uns afirmam que o ser é um só [i.é, os eleatas], outros, que é infinito em número [i.é, os atomistas]. Uns crêem que tudo está em contínuo movimento [i.é, Heráclito e os seus seguidores], outros, que nada nunca está em movimento [i.é, os eleatas]. Uns que tudo se destrói, outros que nada se gera e nada se destrói [entenda-se a afirmação referida ao cosmo e não ao Princípio e aos Princípios, e a antítese, esta vez, é entre todos os físicos, de um lado, e os eleatas de outro]. (Xenófane, Memoráveis, I, 1, 14).


Em geral, no que concerne os fenômenos celeste, ele [Socrátes] desaprovava a curiosidade de aprender como a divindade os consignou; e realmente sustentava que não podiam ser descobertos pelo homem e acreditava não ser descobertos pelo homem e acreditava não ser agradável aos deuses quem procurasse o que eles não tinham querido revelar. Quem se dedicasse a tais problemas expunha-se, segundo ele, ao risco de enlouquecer, assim como Anaxágoras, que ensoberbeceu por suas pesquisas sobre a obra dos deuses (Xenofonte, Memoráveis, IV, 7,6). 


  Prudência, o que fosse a loucura, o que a coragem, o que a vileza; o que fosse Estado, o que fosse estadista; o que fosse o governo, o que fosse o governador e as outras coisas cujo conhecimento, segundo ele, tornava os homens excelentes e cujo ignorância, ao contrário, fazia merecer, justamente, o nome de escravos (Xenofonte. Memoráveis, I, 1, 16).


    Na verdade, ó atenienses, por nenhuma outra razão busquei para mim este nome, senão por causa de certa sapiência. Que sapiência é esta? Precisamente a sapiência humana: e pode ser que desta sapiência eu seja, verdadeiramente, sábio [...] (Platão, Apologia 20 d-e).


      Ó meus concidadãos de Atenas, eu vos sou reconhecido e vos amo; mas obedecerei antes ao Deus que a vós; e enquanto eu respirar e for capaz, não deixarei de filosofar e de exorta-vos e advertir-vos, a quem dentre vós eu encontrar, e sempre, falando-lhe como costumo: “ó tu que és melhor dos homens, que és ateniense, cidadão da maior e mais retomada cidade por sua sapiência e poder, não te envergonhas de te preocupares com riquezas, para juntá-las o mais que puderes, e com a fama e com as honras; e, ao invés, de não te preocupares com a inteligência e com a verdade e com a tua alma, para que ela se torne quanto possível ótima? E se algum de vós disser que não é verdade e sustentar que se dá a tais cuidados, não o deixarei ir sem mais, nem irei embora; antes o interrogarei, estudarei, confutarei; e se me parecer que ele não possua virtude, mas apenas diga possui-la, eu o envergonharei, demonstrando-lhe que tem por vis as coisas de mais alto valor e por valorosas as coisas vis. E isto o farei a quem eu encontrar, jovens e velhos, estrangeiros ou cidadãos; e mais ainda aos cidadãos, a vós, digo, que me estais mais estreitamente ligados. Pois isso, bem o sabeis, é a ordem de Deus; e estou persuadido de que não há para vós maior bem na cidade do que essa minha obediência ao Deus. Outra coisa, na verdade, não faço com esse meu andar por aí, senão persuadir-vos, jovens e velhos, de que deveis cuidar do corpo e das riquezas, nem de nenhuma outra coisa, antes e mais que da alma, para que ela se torne ótima e virtuosíssima; e que não é das riquezas que nasce a virtude, mas da virtude nascem as riquezas e todas as outras coisas que são bens para os homens, tanto para os cidadãos individualmente, como para o Estado (Platão, Apologia, 29d –30 b).


Sócrates – Vamos, dizer-me, com que arte podemos cuidar de nós mesmos?

    Alcibíades – Não saberei dizer.


Sócrates – Nisso, contudo, estamos de acordo: não com uma arte com a qual poderemos tomar melhores qualquer uma das nossas coisas mas com arte que tomará melhores a nós mesmos?

    Alcibíades – É verdade


Sócrates – Ora, teríamos conhecido qual é a arte que toma  melhor os calçados, se não conhecêssemos o calçado?

    Alcibíades – Impossível.


Sócrates – Nem a arte que toma melhores os anéis, se ignorássemos o anel?

    Alcibíades – É verdade


Sócrates – E então? Jamais poderemos saber qual é arte de tornar melhores a nós mesmos, se ignoramos o que nós mesmos somos.

    Alcibíades – Impossível


Sócrates – E, portanto, conhecer a si mesmo é uma coisa fácil e era talvez um homem qualquer aquele que, no templo de Delfos, consagrou aquele mote? Ou, é, ao invés, uma coisa dit1cil e não para todos?

   Alcibíades – A mim, Sócrates, amiúde pareceu ser coisa de todos, normalmente dificílima.


Sócrates – Mas, ó Alcibíades, fácil ou não, para nós é assim: se nos conhecermos, saberemos talvez também qual é o cuidado que devemos Ter com nós mesmos; se não nos conhecemos, jamais o saberemos.

    Alcibíades – Assim é.


Sócrates – Dize-me, pois, de que modo poder-se-ia encontrar o que é esse “si mesmo”?


E depois de Ter distinguido entre o sujeito que utiliza determinado instrumento e o próprio instrumento, e mostrado que este é o meio que aquele utiliza, o diálogo prossegue:


Sócrates – E não se serve o homem de todo o corpo?

    Alcibíades – certo


Sócrates – Mas, não dissemos que uma coisa é que serve  de algo, outra coisa é aquilo de que ele se serve?

    Alcibíades – Sim


Sócrates –Uma coisa, portanto é o homem, outra o seu corpo. Alcibíades – Parece que sim


Sócrates – Que é, pois, o homem?

    Alcibíades – Não sei dizer.


Sócrates -  Isso, porém, podes dizer, que ele é o que serve do corpo. Alcibíades - Sim

 

Sócrates – E o que é que serve do corpo senão a alma? Alcibíades – Não é outra coisa [...].


Sócrates – A alma, portanto, nos ordena conhecer quem nos admoesta: “conhece a ti mesmo” (Xenofonte, Memoráveis, IV, 14).


*A pintura, Parrásio, não é representação do que se vê? De fato, imitais os corpos baixos e altos, a sombra e a luz, o duro e o mole, o rude e o polido, jovens e velhos, reproduzindo-os mediante as cores.


     *É verdade, disse.


*E quando representais modelos de beleza, como não é fácil encontrar um homem perfeito em qualquer lugar, juntando os mais belos pormenores tomados de cada indivíduo, fazeis com que pareça belo o corpo inteiro.


*Fazemos exatamente assim, disse.


*Pois bem, a atitude da alma, extremamente sedutora, mansa, amável, agradável, atraente, vós a conseguis reproduzir ou não se pode imitá-la?


*Como se pode imitar, Sócrates, o que não tem proporção de partes, nem cor, nem coisa alguma das que enumeraste e não é de modo algum visível?


*Ora, replica Sócrates, o homem não pode olhar para alguém com simpatia ou inimizade?


*Creio que sim, disse.


*E tudo isso não se pode perceber na expressão dos olhos?


*Sem dúvida.


*E te parece que têm a mesma expressão facial os que se interessam pelo bem ou pelo mal dos amigos e os que não se interessam?


*Não! Por Zeus! Quem se interessa tem uma expressão de contentamento quando os amigos estão bem, toma-se melancólica quando estão mal.


*E isto se pode retratar?


*E como?


*E ainda a magnificência, a mesquinhez, a ignobilidade, a temperança, a prudência, a insolência e  a vulgaridade transparecem no rosto e na atitude do homem, esteja ele parado ou em movimento.


*É verdade.


*Portanto, se pode imitar?

*E como!


*E achas que se contempla mais prazerosamente quem deixa transparecer um caráter belo, bom, amável, ou quem o deixa transparecer feio, mau, odioso?


*Oh! Há uma enorme diferença, Sócrates! (Xenofonte, Memoravéis, III, 10 1ss).


*Talvez, Sócrates, o bem mais indiscutível seja felicidade.


*A menos que seja composta de bens discutíveis, Eutidemo.


*E quais dos bens que constituem a felicidade seriam discutíveis?


*Nenhum, deste que nela não incluamos a beleza, a força, a riqueza, a fome e coisas similares.


*Mas é necessário inclui-las, disse. Como ser feliz sem elas?


*Por Zeus!, exclamou Sócrates. Desse modo estaríamos incluindo aquilo de que provém tantos males aos homens. Muitos, pela sua beleza, são corrompidos por quem perde a razão diante de uma pessoa graciosa: muitos,  fiando-se na sua força, empreendem obras demasiada grandes e incorrem em não poucos males: muitos, debilitados pela riqueza, parecem nas insíadas a que expõe; muitos, por causa da fama e do poder político, padecem grandes desgraças (Xenofonte, Memoráveis, IV, 2, 34s).


*Em geral, portanto, disse eu, todos aqueles que antes considerávamos bens, parece que por sua natureza não podem ser chamados bens por sai mesmos, mas, antes, resulta-nos o seguinte: se são dirigidos pela ignorância, revelam-se males maiores do que os seus contrários, porque mais capazes de servir a uma direção má; se, ao contrário, são governados pelo juízo e pela ciência, são bens maiores; por si mesmo nem uns nem outros tem valor.


E ele: - Parece que é assim como dizes.


*E que se deduz dessas premissas? Que todo o resto não é nem bem nem mal e, das duas coisas que permanecem, a ciência é um bem, a ignorância um mal (Platão, Eutidemo, 281 d-e)


[Sócrates] não punha limites entre sapiência (= ciência) e sabedoria, mas considerava dou to e sábio aquele que, conhecendo as coisas boas e belas, soubesse usá-las; conhecendo as feias, delas soubesse guardar-se. Perguntado se tinha na conta de sapientes e moralmente débeis os que, sabendo o que devem fazer, não obstante, fazem o contrário, respondeu: “Não, não mais que insipientes e moralmente débeis . Creio que todos os homens escolhem com todos os meios possíveis o que é mais vantajoso aos seus interesses e isso realizam. E penso que os que seguem um caminho errado não são nem sapientes (= em posse do conhecimento) nem sábios”. Dizia que a justiça e toda outra virtude eram sapiência. Toda coisa justa e toda outra forma de atividade fundada sobre a virtude eram, ao seu ver, belas e boas: quem conhece o belo e o bom nada pode preferir-lhes; ao invés, que não os conhece, não pode praticá-los, e se o tenta, erra. Portanto, quem sabe, realiza coisas belas e boas, quem não sabe, não pode praticá-los, e se o tenta, falha. E dado que as coisas justas e todas as outras, belas e boas, se realizam mediante a virtude, é claro que a justiça e todas as virtudes são ciência (Xenofonte, Memoráveis, III, 9, 4ss).


*Em conclusão, parece-me que, segundo tu, ó Sócrates, quem se deixa vencer pelos prazeres do corpo nada tem a ver com qualquer virtude.


*Certo, Eutidemo, disse Sócrates. Que diferença há entre o homem privado do domínio de si e o mais selvagem dos animais? Quem não discerne o melhor e procura fazer sempre tudo quanto sumamente lhe agrada em que difere dos animais mais irracionais? (Xenofonte, Memoráveis, IV, 5, 11s).


*Dize-me, Eutidemo, perguntei-lhe, não reputas a liberdade um bem nobre e magnífico tanto para o particular como para o Estado?


     -     É o mais precioso dos bens.


- Consideras livre o homem que se deixe dominar pelos prazeres do corpo e por isso se veja impossibilitado de praticar as melhores nações? De forma alguma.



- E não é, talvez, por te parecer digno de um homem livre realizar as melhores ações, que consideras indigno dele Ter o que pode impedi-lo de realizá-las?


- Justamente.


- E não te parece serem ignóbeis os que são privados do domínio de si? – Sim, por Zeus, e com razão.


- Pensas que os que são privados do domínio de si sejam apenas impedidos de realizar as ações mais belas ou também constrangidos a realizar as mais horríveis?


- Em verdade, não me parece que sejam menos constrangidos a estas que impedimos de fazer aquelas.


- E como qualificas os senhores que impedem as belas ações e constrangem às mais horríveis?


- Os piores, indubitavelmente, por Zeus.


- E qual é, a teu ver, a pior das servidões?


- Assim penso. (Xenofonte, Memoráveis, IV. 5, 2ss)


 Parece – me, Antifonte, que a felicidade consiste, para ti, na lassidão e no dispêndio: eu, ao contrário, pensava que de nada necessitar é divino, de pouquíssimo é quase divino. Ora o divino é a própria perfeição e quem está mais perto do divino está mais próximo da perfeição (Xenofonte, Memoráveis, I, 6, 10).


- Nunca pensaste numa coisa, Eutidemo?


- Quê?


- Que a falta de domínio de si não consegue levar os homens nem mesmo aos prazeres aos quais só ela parece guiar, enquanto o domínio de si comporta o mais elevado gozo de tudo.


- Como assim?


- A falta de domínio de si, não permitindo suportar a fome, a sede, nem o ardor dos desejos amorosos, nem a insônia – únicos motivos pelos quais com alegria se repousa e se dorme, depois de Ter esperado e suportado, de modo que a satisfação seja a mais agradável possível – de satisfazer os apetites mais naturais e mais constantes. Ao contrário, só o Domingo de se, fazendo-nos suporta todas as necessidades das quais falamos acima, é o único a proporcionar-nos na satisfação dessas necessidades um prazer digno de  ser recordado.


- Tudo o que dizes  é absolutamente verdade.



- Ademais, com relação ao aprendizado do que é belo e bom, ao cuidado pelo qual se  pode prover diligentemente ao próprio corpo, dirigir com  diligência a própria casa, ser útil aos amigos  e à cidade, dominar os inimigos,- conhecimentos dos quais se extraem não só vantagens, mas também  grandíssimos prazeres – enquanto os que  dominam a si próprios gozam  no cumprimento de tudo isso, os que são privados do domínio de si, ao contrário, não sentem nenhum gozo. Com efeito, a quem consideramos menos digno de tais gozos senão aquele a quem estes são vetados por encontrar-se ocupado em buscar o prazer do momento?


     Respondeu Eutidemo: - Em conclusão, Sócrates, parece-me que, na tua opinião, quem se deixa vencer pelos prazeres do corpo não tem qualquer relação com nenhuma virtude.


- Certo, Eutidemo, disse Sócrates [...] (Xenofonte, Memoráveis, IV, 5, 9ss).


      Digo-vos que exatamente isso é para o homem o bem maior, refletir todo dia sobre a virtude e sobre outros argumentos sobre os quais me haveis ouvido disputar e pesquisar sobre mim mesmo e sobre os outros, e que uma vida sem tais pesquisas não é digna de ser vivida (Platão, Apologia, 38).


      Morrer é uma destas duas coisas: ou é como um não-ser mais nada, e quem está morto não tem mais nenhum sentimento de nada; ou é, como dizem alguns, uma espécie de mudança e de migração da alma deste lugar inferior para outro lugar (Platão, Apologia, 49c).


ANTOLOGIA: OS SOFISTAS, PROTÁGORAS, GÓRGIAS

 




OS SOFISTAS


   Em primeiro lugar, o sofista era um caçador remunerado de jovens ricos [...] em segundo lugar, uma espécie de importador de conhecimentos que interessa à alma [...] e em terceiro lugar, não se nos mostrou como um biscateiro desta mesma coisa? [...] e em quarto lugar, um mercador dos próprios produtos científicos [...] e em quinto era uma espécie de atleta da agonístiva aplicada aos discursos, como quem tivesse reservado pra si a arte de disputar [...] depois, em sexto lugar, era algo de controvertido das opiniões que impedem a alma de saber (Platão, Sofista, 231 d-e).


       Porque se alguém vende a sua beleza por dinheiro a qualquer que o desejo, chamam-no prostituto [...], analogamente, os que vendem por dinheiro a sabedoria a qualquer um, são chamados sofistas, que é o mesmo que dizer prostitutos (Xenofonte , Memoráveis, I, 6, 13)


       A sofística é uma sabedoria aparente, não real; o sofista é um marcador de sabedoria aparente, não real (Aristóteles, Refutações sofísticos, 1, 165 a 21).


PROTÁGORAS


  1-  E não quer dizer com isso que, tal como as coisas individuais me aparecem, tais são para mim, e tais a ti, tais para ti, porque és homem como eu sou homem? [...] mas não acontece ás vezes que, soprando o mesmo vento, um de nós sente frio e outro não? E um sente pouquíssimo, outro muito? [...] E então, como chamaremos este vento: frio ou não-frio? Ou devemos acreditar em Pratágoras, que para quem sente frio é frio, para quem não sente, não é? (Platão, Teeteto, 151 e- 152)


2- Uma dupla ordem de raciocínios se faz na Grécia, pelos cultores da filosofia, torno ao bem e ao mal. Alguns sustentam que o bem  é uma  coisa, o mal , outra. Outros ao contrario, que são a mesma coisa; o que para alguns seria bem, para outros é mal; e para o mesmo indivíduo, seria ora bem, ora mal. Quanto a mim, eu me aproximo deste homens; e buscarei as provas na vida humana [...] (Raciocínios duplos, I, 1-2)


3- E depois de Ter aduzido uma série de razões inspiradas no relativismo protagoriano, do qual nos é dado testemunho paralelo por Platão (cf. Platão, Protágoras, 33 d, 334 a), concluiu o Anônimo:


4- E assim não defino o que é o bem, mas empenho-me em ensinar isto, que o bem e o mal não são a mesma coisa, mas que cada um dos dois pode ser um ou outro. (Raciocínios duplos, I, 17)


5- O meu ensinamento concerne e astúcia, seja nos assuntos privados – isto é, o melhor modo de administrar a própria casa – seja assuntos públicos – isto é, o modo de se tornar sumamente hábil no governo da coisa pública, nos atos e nas palavras. (Platão, Protágoras, 31 8e)


6- Eu [Protágoras] afirmo, sim que a verdade é exatamente como eu escrevi; que cada um de nós é medida das coisas que são e que não são; mas há uma diferença infinita entre o homem e, justamente por isso, as coisas aparecem e são para um de um modo, para outro de outro. E estou longe de negar que existam a sapiência e o homem sábio, mas antes, chamo sábio aquele que, transformando aquilo pelo que em nós certas coisas aparecem e são más, consiga fazer que estas mesmas coisas apareçam e  sejam boas. E tu não deves combater o meu raciocínio perseguindo-o nas suas palavras; mas devas antes tentar compreender, sempre mais claramente, o que quero dizer. Recorda o que já dissemos antes, que ao enfermo os alimentos parecem e são amargos, ao sadio, ao contrário, são e parecem agradáveis. Mas daí não é lícito inferir que destes dois, um seja mais sábio do que o outro – pois isso não é possível --, e nem se deve dizer que o enfermo, porque tem tal opinião, é ignorante, e é sábio o sadio porque tem opinião contrária: antes, é preciso mudar um estado no outro, porque o estado de saúde é melhor. E assim também na educação, é preciso transformar o homem de hábitos piores em homens de hábitos melhores. Ora, para esta transformações, o sofista uso os discursos como o médico usa remédios: mas ninguém jamais induziu quem quer que seja que tivesse opiniões falsas a Ter opiniões verdadeiras; nem, de fato, é possível que alguém pense coisa que para ele não existem, ou coisas estranhas àquelas das quais tenha naquele momento determinado impressão, pois somente estas são sempre verdadeiras para ele. Pois bem, aquele que, por um estado de ânimo inferior, tem opiniões conformes com a natureza deste seu estado, pode ser introduzido, creio, a um estado de ânimo superior e ter opiniões diferentes que sejam conformes com este estado superior; assim são, justamente, aqueles fantasias que alguns, por ignorância, dizem ser verdadeiras, e eu digo simplesmente que umas são melhores do que outras, nenhum, porém, mais verdadeira. E quando aos sábio, amigo Sócrates, estou longe de considerá-los desprezíveis; antes, com relação aos corpos, chamo-os médicos, com relação as plantas, agricultores. E digo que estes agricultores introduzem nas plantas, se alguma adoece, em de sensações más, sensações boas e salutares, não só verdadeiras; e os sábios e bons oradores fazem que às cidades pareça justo o bem antes que o mal. De fato, aquilo que para determinada cidade parece justo e belo, isto mesmo é, para aquela cidade, como justo e belo, enquanto ela assim o repute e considere: mas é o homem sábio que, a cada coisa individual que aos cidadãos seja má, substitui outras coisas que são e aparecem como boas. Pelas mesma razão também o sofista que é capaz de educar de tal modo os seus alunos é homem sábio e merecedor de ser pago por eles com muito dinheiro. E assim alguns são mais sábios que outros, e ninguém tem opiniões erradas; e deves resignar-te, queiras ou não queiras, a ser medida das coisas; nisso que digo funda-se, justamente, a salvação da minha doutrina (Platão, Teeteto, 166 d ss).


- Admites [Protágoras] que existem coisa boas?

             

       - Admito.


      -   E as coisas boas, disse eu, são as que são úteis aos homens?


      - Certo, por Zeus!, disse. Mas eu chamo boas também as coisas que não são úteis aos homens.              

       

      - Falas, Prtágoras, das que não são úteis aos homens ou das que não são úteis absolutamente? E chamas boas também a estas?    


- De modo algum, respondeu. Eu conheço muitas coisas que são nocivas aos homens: alimento, bebidas, remédios e muitíssimo outras que são úteis; outras, ao invés, que não são nem úteis; outras, ao invés, que não são nem úteis nem prejudiciais aos homens, mas são aos cavalos, e outras coisas que são só aos bois ou aos cães; outras, enfim, que não são úteis a nenhum animal, mas são as plantas. E das coisas úteis as plantas, algumas são boas para as raízes, mas prejudiciais para os brotos, como por exemplo o fertilizante, que é bom se posta na raiz de todas as plantas, mas se os espalhas nos brotos e nos ramos novos os arruinas. E assim também o óleo é muito nocivo para todas as plantas e péssimo para os pêlos de todos os animais, exceto para os do homem; para os pêlos do homem e para o resto do corpo, ao invés, enquanto é boa para o homem, para as partes externas do seu corpo, a mesma coisa é denosíssima para as internas. Por isso, todos os médicos proíbem os enfermos de usar o óleo, senão e, pequeníssima dose nas coisas que devem comer: o quanto basta para atenuar a desagradável impressão olfativa que pode vir dos alimentos e das bebidas. (Platão, Protágoras, 333 d-334c)


        São os Deus não tenho possibilidade de afirmar nem que são, nem que não são. (Diógenes Laércio, IX, 51)


        Protágoras de Abdera sustentou, como conceito, a mesma opinião de Diágoras [que era ateu]; mas a exprimiu com palavras diferentes, para evitar a excessiva audácia; de fato, disse que não sabia se os deuses são: o que equivale a dizer que não são. (Diels-Kranz, 80 A 23)



GÓRGIAS


1- Diante de tais questões insolúveis, levantadas por Górgias, desaparece, pelo que lhe concerne, o critério da verdade: Porque do inexistente, do incognoscível, do inexprimível não há possibilidade de juízo. (Sexto Empírico, Adv. Math., VII, 87).


2- Mediante a combinação das doutrinas sustentadas por outras categorias de filósofos que, nas suas tratações em torno ao problema dos entes, sustentam, como resulta das suas opiniões, princípios antéticos entre si – uns demonstrando a unidade do ente em vez da multiplicidade, outras a sua multiplicidade em vez da sua unidade, outros que eles são ingênitos, outros ainda que são gerados – deduz , contra uns e contra outros, que nada existe. Daí segue logicamente, ele afirma, que se existe alguma coisa, não é nem uno, nem múltiplo, nem ingênito, nem gerado: nada existirá; de fato, se algo existisse, corresponderia a uma destas alternativas. (Ps. Aristóteles, De Mel. Xenoph. Gorgia, 5, 979).


3- Que os conteúdos do pensamento [o pensado] não são existentes é de uma evidência universal. Se, de fato, os conteúdos do pensamento são existentes todos os conteúdos do pensamento são existentes, em qualquer modo que se os pense. Mas esta dedução é absurda: com efeito, se alguém pensa um homem que voa e cocos correndo sobre a praia, nem por isso um homem voa e cocos correm na praia. Consequentemente os conteúdos do pensamento não são existentes  [o pensamento não é pensamento do ser]. (Sexto Empírico, Adv. Math., VII, 78s).


4- Absolutamente falando, se por aquilo que existe se deduz a predicação da pensabilidade, pelo que não existe se deduzirá a predicação da impensabilidade. Mas esta predicação é absurda: a prova é que Sila, a Quimera, e muitos seres que não existem são pensados. (Sexto Empírico, Adv. Math., VII, 80).


5- Aquilo que alguém vê, como [...] poderia exprimi-lo com a palavra? Ou como isto poderia se tornar manifesto a quem o escuta, sem tê-lo visto? De fato, a vista não conhece os sons, e o ouvido não ouve as cores, mas os sons; e contudo, quem fala diz algo, mas não diz nenhuma cor nem uma experiência. Aquilo, pois, que alguém não concebe, como poderá concebê-lo em conseqüência da intervenção de um outro, por meio da palavra deste ou por meio de um sinal geral diferente da experiência, senão, no caso de uma cor, por tê-la vista, no caso de um rumor, por tê-lo ouvido? De fato, quem fala não diz absolutamente um rumor, nem uma cor, mas uma palavra. Consequentemente, não é possível nem mesmo figurar-se com o pensamento uma cor, mas vê-la, nem um som ouvi-lo. E mesmo que seja possível conhecer e dizer tudo aquilo que se conhece, de que modo aquele que ouve poderá representar-se conceitualmente o mesmo objeto? Com efeito, não seria possível que a mesma realidade pensada se encontrasse contemporaneamente em vários sujeitos separados entre si: o um, com efeito, seria dois. E muito embora admitindo que a mesma realidade pensada se encontre em vários sujeitos, nada impede que não se lhes mostre semelhante, pois eles não são semelhantes sob todos os aspectos, nem se encontram em idênticas condições: se, de fato se encontrassem numa idêntica condição, seria um e não dois. Por outro lado, nem sequer o mesmo sujeito evidentemente experimenta percepções semelhantes ao memsmo tempo, mas a audição dão diferentes das da visão, e agora diferente do passado. Por conseqüência, dificilmente alguém poderia Ter percepções idênticas ás de outro. Segundo esta dedução, nada existe e, mesmo que existisse, não seria de modo algum cognoscível, e mesmo que fosse, ninguém poderia manifestá-lo a outro, pelo fato de que as coisas não são palavras e ninguém consegue pensar uma coisa idêntica à que pensa outro. (Ps. Aristóteles, De Mel. Xenoph. Gorgia, 6, 980 a 20).


6- Em primeiro lugar, se queres a virtude do homem, é fácil dizer-te que é esta: ser idôneo ao tratar as coisas da cidade, e, fazendo isso, fazer bem aos amigos e o mal aos inimigos, e acautelar-se para não sofrer nada semelhante. E se queres a virtude da mulher, não é difícil responder que ela deve administrar a casa, cuidando dos negócios internos e obedecendo ao marido. E outra é a virtude da criança e do jovem e do homem e outra é a do ancião, seja livre, seja escravo. E existem muitas virtudes, de modo que não há dificuldade em dizer que coisa é uma virtude: há uma virtude relativa a cada ação e a cada idade, e a cada obra para cada um de nós. E isso também penso com relação ao vício. (Platão, Ménon, 71 e relativas). 


7- [...]  ser capaz de persuadir os juizes nos tribunais, os conselheiros no conselho; os membros da assembléia popular na Assembléia e assim em qualquer outra reunião que se tenha os cidadãos. (Platão, Górgias, 452 e). 


8- [...] considero e chamo poesia, nas suas várias formas, de um discurso com metro, e quem escuta é invadido por um tremor de espanto por uma compaixão que arranca lágrimas, por uma tormentista avidez de dor, e a alma sofre, pelo efeito das palavras, um sofrimento que lhe é próprio, ao ouvir a sorte e a desgraça de fatos e pessoas estranhas (Górgias, Elogio de Helena, s 9).


9- Floresceu então a tragédia e foi celebrada pelos contemporâneos como audição e espetáculo admirável, pois criava com as suas ficções e paixões um engano, diz Górgias, pelo qual quem engana age melhor do quem não engana, e quem é enganado é mais sábio do que quem não é enganado (Plutarco, De Glor. Ath., 5, p. 348).


ANTOLOGIA: EMPÉDOCLE E OS ATOMISTAS

 



EMPÉDOCLES

              

     Outra coisa direi: não há nascimento de qualquer das coisas

     Mortais, nem termo funesta;

     Mas só misturar-se e dissolver-te de substâncias mistas

     Existe e entre os homens chama-se nascimento. (fr. 8)


     Mas. Eis, discerne a prova das palavras que já te disse,

     se que no que antes disse havia alguma falta na forma dos elementos;

     volta, pois, o olhar para o sol quente de se ver luminoso em toda parte,

     e quantas são essências ambrosias e se banham de ardor e de chama

[candente, e a chuva, em toda parte friorenta e nebulosa,

e a terra brota tudo o que é sólido e compacto. (fr. 21)


   Estas coisas [os elementos e as duas forças] todas são iguais e igualmente primevas, mas cada uma reage a própria honra e cada uma tem seu caráter,

E a seu turno predominam no decorrer do tempo,

E além delas não se acrescenta ou deixa de existir [alguma coisa]

Porque se se destruíssem totalmente já não seriam, 

E o que poderia aumentar esse todo, e de onde viria?

E onde se destruiriam, pois não há nada ausente delas.

São, pois, estas que são, e pensando  uma através das outras,

Tornam-se ora aquelas coisas sempre eternamente iguais (Diels-Kranz, 31 B 17, vv.2735).


   Em turnos prevalecem [amor e ódio] no recorrente ciclo,

E entre si se fundem e se somam nas vicissitudes do destino.

São, pois, estes, que são [os elementos], e passando uns através dos 

[outros

tornam-se homens e outras estirpes ferinas,

ora por amizade convergindo em unidade de harmonia,

ora, ao invés, separadamente, cada um levado pela inimizade da contenda,

até que depois de terem crescido na unidade do todo, de novo se abismam.

Assim, como o Uno, muitas coisa resultam,

Deste modo estas se tornam e não é estável a sua vida;

E enquanto não cessam nunca de se transformar

Por isso são sempre imóveis no ciclo [do universo]. (fr.26).


  Mas de todas as partes [era] igual e por todas infinita,

Esfera redonda que goza da sua envolvente solidão. (Diels-Kranz, 31 B 28)


  Mas, de seu dorso não irrompem duas ramificações,

Nem [possui] pés, nem ágeis joelhos, nem fecundas pudendas,

Mas esférico era e [de todo lado] igual a si mesmo. (Diels-Kranz, 31 B 29).


   Vaticínio do Fado, decreto antigo dos Numes, 

Sempiterno, com amplos juramentos bem selado,

Que se alguém mancha os membros de sangue culpável,

Ou impiamente jura, seguindo [a contenda],

(algum  dos demônio que tiveram por sorte longa vida)

vá errante longe dos bem-aventurados por três vezes dez mil estações,

e renascendo no tempo em toda espécie de se4res mortais,

mude os dolorosos caminhos da vida.

Porque a força do éter lança-os no mar,

O mar sobre a terra cospe-os, a terra nos turbilhões

Do sol luminoso, que os lança nos vórtices do éter:

Um do outro os acolhe e todos os odeiam.

Um deste agora sou eu, fugitivo dos deuses e errante,

Porque prestei fé à curiosa Contenda... (Diels-Kranz, 31 B 115).


Porque fui um tempo menino e menina,

Arbusto, passarinho e mudo peixe mar... (Diels-Kranz, 31 B 117).


De que honra e de quanta grandeza de felicidade,

[aqui entre os mortais me encontro, banido do Olimpo!] (Diels-Kranz, 31 B 119)



OS ATOMISTAS


 Leucipo e Demócrito explicaram a natureza das coisas sistematicamente, e ambos com a mesma teoria, pondo um princípio conforme coma natureza [dos fenômenos]. Porque alguns dos antigos filósofos [os eleatas] conceberam o ser como necessariamente uno e imóvel: diziam, com efeito, que o vazio é o não-ser, e não podia, portanto haver movimento, não existindo o vazio separado; e não podia existir a multiplicidade, não havendo nada que separasse as coisas[...]. Leucipo, ao invés, afirma Ter encontrado a via de raciocínios que, dando uma explicação de acordo com a percepção sensível, não levasse a negar nem a geração nem a destruição nem o movimento nem a multiciplidade das coisas. Enquanto, de um lado, ele faz concordar a sua doutrina como fenômenos, de outro, aos que sustentam o Uno porque não podem existir o movimento sem o vazio, ele concede que o vazio é não-ser e que o Ser nada é não-ser, pois o Ser em sentido próprio é absolutamente pleno. Mas esse absolutamente pleno não é uno, antes, um infinito número de corpos, invisíveis pela pequenez de seu volume. E estes corpos estão em movimento vazio (parte ele, de fato, existe o vazio) e reunindo-se, dão lugar à geração e, separando-se á destruição. Eles exercem e recebem ações quando se põem em contato: o que é, de fato, a prova de que não são um. E geram as coisas coligando-se e estreitando-se; enquanto daquele Uno “segundo a verdade” não deriva multiplicidade nem da real multiplicidade a unidade, pois isso é impossível; mas com Empédocles e outros dizem que os corpos sofrem modificações através dos poros, assim Leucipo diz que toda mudança e todo efeito sofrido se produz deste modo, vale dizer, pela separação e pela destruição que se determina por meio do vazio, e pelo acréscimo que Empédocles, se é verdade que os poros não são absolutamente ininterruptos. É impossível que sejam ininterruptos: porque não existiria mais sólido senão os próprios poros, isto é, tudo seria vazio. Os corpos, portanto, que se põem em contato devem necessariamente ser indivisíveis; e vazios os seus intervalos [...]. Do que se disse, para Leucipo, a geração e a destruição seriam dois processos que se realizam quer mediante o vazio, quer mediante o contato [...] (Aristóteles, a geração e a corrupção, A 8, 324 b 35ss – Diels-Kranz, 67 A 7.)


   Leucipo diz que tudo acontece conforme a necessidade e que esta corresponde ao fato. Diz, com efeito, no seu livro Sobre a Inteligência: “Nada se produz sem motivo, mas tudo com uma razão e necessariamente”. (Diels-Kranz, 67 B 2)


    Tudo se produz conforme a necessidade, pois a causa das formas de todas as coisas é o movimento vorticoso que ele que ele [Demócrito] chama exatamente de necessidade (Diógenes Laércio, IX, 45 - = Diels-Krans, 68 A 1). 

     

    Demócrito às vezes refuta as aparências sensíveis e diz que nelas nada nos aparece conforme a verdade, mas só conforme a opinião, e que o verdadeiro nos objetos consiste em que estes são átomos e vazio. De fato, ele diz: “Opinião (é) o doce, opinião o amargo, opinião o quente, opinião o frio, opinião a cor, verdade, os átomos e o vazio”, vale dizer: considera-se e opina-se que existem as qualidades sensíveis, mas na verdade não existem, mas somente os átomos e o vazio. Nos livros probatórios , depois embora tivesse prometido atribuir valor de credibilidade à sensação, também não se encontra que eles a condene. Diz, com efeito: “Nós, na realidade, não conhecemos nada que seja invariável, mas só os aspectos mutáveis segundo a disposição do nosso corpo e do que nele penetra ou lhe resiste. (fr. 9 – Sexto Empírico)


     Nos Cânones [Demócrito] afirma que existem dois modos de conhecimento, mediante a inteligência, reconhecendo a esta a credibilidade em julgar o verdadeiro, enquanto ao outra dá o nome de obscuro, negando-lhe a segurança em conhecer o verdadeiro. Diz textualmente: “Há duas formas de conhecimento, um genuíno e outro obscuro; ao obscuro pertence todos esses objetos: visão, audição, olfato, gosto e tato. A outra forma é genuína, e os objetos desta são escondidos [ao conhecimento sensível ou obscuro]”. Depois, mostrando a superioridade do conhecimento genuíno sobre o obscuro, prossegue dizendo: “ Quando o conhecimento obscuro não pode mais alcançar um objeto menor, nem com a vista nem com o ouvido nem com olfato nem com o gosto nem com a sensação do fato, mas deve dirigir a pesquisa ao que é ainda mais sutil, então socorre-lhe o conhecimento genuíno, como o que possui justamente um órgão mais fino, apropriado para pensar”. (fr. 11 – Sexto Empírico)


    Á alma pertence a felicidade (Diels-Kranz, 68 B 170)


    A felicidade não consiste nos rebanhos nem no ouro. A alma é a morada da nossa sorte (Diels-Kranz, 68 B 171


    Quem prefere os bens da alma escolhe o que tem valor mais divino, quem prefere os bens do corpo, escolhe os bens humanos. (Diels-Kranz, 68 B 37).


    Os homens não se tornam felizes nem pelos dotes físicos nem pela riqueza, mas pela retidão e pela prudência (Diels-Kranz, 68 B 40; Cf. também B 105)


     Valoroso não é só o que vence os inimigos, mas também aquele que sabe dominar os próprios desejos. Há homens que dominam sobre cidades e são escravos das mulheres (Diels-Kranz, 68 B 124).


      Verdadeira bondade não é o simples fato de não cometer ações injustas, mas o não-querer cometê-las. (Diels Kranz, 68 B 62)


      Não nos devemos envergonhar mais diante dos homens que diante de nós mesmo; e não se deve fazer o mal mais facilmente quando ninguém virá a saber do que quando todos saberão; mas é preciso envergonha-se sobretudo diante de si próprio e imprimir-se na alma esta norma, nada fazer de inconveniente. (Diels-Kranz, 68 – B 264).


Antropologia filosófica indígena: descolonização epistêmica e a ontologia do Bem Viver

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