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domingo, 30 de agosto de 2026

A eclesiologia da escola de Alexandria, Antioquia e dos padres capadocios

 





Duas cidades, um corpo: a eclesiologia nas Escolas de Alexandria e Antióquia

Paolo Cugini (org.)

 

 

A eclesiologia patrística dos primeiros séculos foi moldada pelo debate teológico entre as escolas de Alexandria e Antióquia, cujas visões sobre a identidade, a estrutura e a missão da Igreja derivavam diretamente de suas respectivas abordagens cristológicas e exegéticas. Enquanto Alexandria desenvolveu uma eclesiologia sacramental e mística, focada na união divina, Antioquia propôs uma eclesiologia histórico-comunitária, centrada na vivência ética e na realidade visível da encarnação.

 

1. A Escola de Alexandria: A Igreja como mistério e divinização

A Escola de Alexandria baseava sua teologia em uma abordagem exegética alegórica e platônica. Sob a influência de teólogos como Clemente, Orígenes e, mais tarde, Cirilo de Alexandria, a eclesiologia alexandrina refletia sua forte ênfase na divinização (theosis) e na unidade mística de Cristo.

[Visão Alexandrina]

Cristologia: Ênfase na Divindade de Cristo ──> Eclesiologia: Corpo Místico e Divinização (Theosis)

  • O Corpo Místico de Cristo: Para os alexandrinos, a Igreja é essencialmente o prolongamento do Logos encarnado na história. A unidade da Igreja espelha a união hipostática: assim como a humanidade e a divindade se unem perfeitamente em Cristo, a Igreja é o espaço onde o humano é absorvido e transformado pelo divino.
  • Dimensão sacramental e invisível: Privilegiava-se a realidade invisível e eterna da Igreja sobre suas estruturas terrenas. A Igreja terrena era vista como um reflexo da Igreja celestial. Os sacramentos, especialmente a Eucaristia, eram compreendidos como canais diretos que unem a alma a Deus.
  • A Igreja como mestra da verdade: A comunidade dos fiéis funcionava como a guardiã do conhecimento espiritual profundo (gnosis cristã legítima), guiando a humanidade da ignorância material para a iluminação espiritual.

 

2. A Escola de Antióquia: a Igreja como comunidade histórica e concreta

Em contraste direto, a Escola de Antióquia adotava um método exegético literal, histórico e gramatical. Pensadores como Diodoro de Tarso, Teodoro de Mopsuéstia e João Crisóstomo enfatizavam a integridade da natureza humana de Jesus e a realidade prática da salvação.

Cristologia: Ênfase na Humanidade de Cristo ──> Eclesiologia: Comunidade Histórica e Vivência Ética

  • A Assembleia visível e histórica: Em vez de focar na Igreja cósmica e invisível, os antioquenos viam a Igreja como a assembleia concreta dos crentes no tempo e no espaço. Ela é a continuação do ministério terreno de Jesus através de ações tangíveis.
  • Ênfase ética e pastoral: A Igreja é entendida como uma "escola de virtude" ou um "hospital espiritual", conforme a famosa definição de João Crisóstomo. O papel do clero e da comunidade não era apenas mediar o misticismo, mas instruir o povo na obediência, no discipulado e no cuidado com os pobres.
  • O corpo humano de Cristo: Embora mantivessem a doutrina do Corpo de Cristo, viam a Igreja como a união de vontades e a cooperação moral dos fiéis com a cabeça (Cristo). A comunhão eclesial dependia fortemente da fidelidade dos indivíduos à Aliança divina.

 

Conclusão: o legado conciliar

As tensões entre essas duas visões eclesiológicas explodiram nas controvérsias cristológicas dos séculos IV e V, culminando nos concílios de Éfeso (431) e Calcedônia (451). A teologia cristã posterior não descartou nenhuma das duas escolas. Em vez disso, a tradição ortodoxa e católica fundiu ambas: a Igreja é reconhecida simultaneamente como o Mistério divino e sacramental (Alexandria) e como a Instituição histórica e peregrina que atua de forma concreta no mundo (Antioquia).

 

A Eclesiologia dos Padres Capadócios: reflexo da comunhão Trinitária na terra

A eclesiologia dos Padres Capadócios — grupo formado por Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa — define a Igreja não como uma mera instituição jurídica, mas como a extensão terrena da comunhão trinitária e o Corpo místico de Cristo vivificado pelo Espírito Santo. Ativos no século IV, os Capadócios elaboraram sua visão de Igreja em meio às crises teológicas do arianismo e do pneumatomaquismo. Eles transmutaram a profunda defesa da Trindade em um modelo prático de comunidade, onde a unidade institucional preserva a diversidade de carismas.

 

1. A Igreja como ícone da Trindade

A principal contribuição teológica dos Capadócios foi a fórmula trinitária de uma só substância (ousia) em três pessoas (hypostaseis). Essa metafísica reflete-se diretamente na eclesiologia:

  • Unidade na diversidade: Assim como o Pai, o Filho e o Espírito Santo mantêm identidades distintas em perfeita unidade substantiva, a Igreja deve expressar uma comunhão profunda entre membros diversos.
  • Koinonia antropológica: A vida eclesial é o espaço onde a humanidade fragmentada pelo pecado supera o individualismo para restaurar a imagem e semelhança divinas.
  • Modelo ãno hierárquico de submissão: A autoridade na Igreja é vista através da pericorese (interpenetração mútua), focando no serviço e amor recíproco, não na dominação política.

2. A Dimensão pneumatológica e a santificação

Diferente das abordagens puramente institucionais, a eclesiologia capadócia atribui um papel indispensável ao Espírito Santo na estrutura e no dinamismo da Igreja.

  • Vivificação do Corpo: O Espírito Santo é o princípio que anima o corpo eclesial, distribuindo carismas sem os quais a estrutura clerical seria estéril.
  • Sacramentos e liturgia: A Igreja realiza sua identidade na ação litúrgica; é o Espírito quem opera a eficácia dos sacramentos do Batismo e da Eucaristia, unindo os fiéis a Cristo.
  • A Igreja como lugar de divinização (Theosis): O objetivo final da comunidade cristã é conduzir o ser humano à união com Deus; a santificação promovida pela Igreja é essencialmente uma obra pneumatológica.

 

3. A Prática da caridade e a vivência monástica

Para Basílio de Cesareia e seus contemporâneos, a teologia mística e dogmática precisava desdobrar-se em ação concreta na sociedade.

  • A Basilíada: Basílio fundou um complexo habitacional e hospitalar nos arredores de Cesareia que unia cuidado médico, amparo social a órfãos e estrangeiros, e vida espiritual. A Igreja se consolidou como refúgio e sinal visível do Reino.
  • O monasticismo cenobítico: Defensores da vida comunitária em detrimento do isolamento eremítico absoluto, os Capadócios viam o mosteiro organizado como a expressão ideal da eclesiologia cristã primitiva, focada na partilha de bens e na obediência mútua.
  • Equilíbrio entre contemplação e ação: A mística interior cultivada na oração litúrgica transbordava em responsabilidade social ativa e combate às injustiças econômicas de sua época.

Considerações finais

A eclesiologia dos Padres Capadócios legou à posteridade uma visão de Igreja profundamente espiritualizada e ao mesmo tempo engajada com as carências do mundo real. Ao ancorar a estrutura da comunidade cristã na vida íntima de Deus (Trindade), eles blindaram o conceito de Igreja contra o perigo de se tornar uma mera agência burocrática ou um aparato de poder imperial. A comunidade dos crentes permanece, em sua teologia, como o mistério da presença divina encarnado na história humana através do amor e da santidade compartilhada.

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

CALENDÁRIO E BIBLIOGRAFIA PATROLOGIA JULHO-DEZEMBRO 2026

 




 

JULHO

17 UNIDADE I Do Cristo do Novo Testamento ao Cristo da Igreja

Introdução ao Curso. O Grito do Concílio Vaticano II Padres do Oriente e do Ocidente. As principais escolas do período patrístico. Ontologização do Kerigma e a Deescatologização do Kerigma

24 O platonismo dos padres e a helenização da cristologia.

31: As heresias dos primeiros séculos do cristianismo e os grandes concílios ecumênicos. O protagonismo de Atanasio e Papa Leão Magno

 

AGOSTO

7 UNIDADE II Autores e escolas do período patrístico

14. A literatura apostólica (Clemente Romano, Inacio de Antióquia, Policarpo e Papias) e os padres apologistas e Justino

21 Primeira Prova

28 Os principais autores da Escola Alexandrina (também chamada de Didaskaleion de Alexandria): Clemente de Alexandria e Origenes

 

SETEMBRO

4 Escola Alexandrina: segunda parte

11 Padres da Capadócia:  Gregório de Nazianzo, Basilio e Gregório de Nissa

18 Segunda prova

25. Patrística Latina: Agostinho primeira parte

 

OUTUBRO

2 Patrística Latina: Agostinho segunda parte

9 III UNIDADE Cristologia patrística e exegese bíblica. A alegorese de Filo de Alexandria e o desenvolvimento exegético na patrística.

16 Maximo o Confessor

23 Terceira Prova: apresentação de temas patristicos

30 UNIDADE IV Temas de Patrística. O tema da criação no debate patrístico

 

NOVEMBRO

6 O problema da figura de Maria e ao construção do sagrado patriarcal na Igreja dos primeiros seculos

13 O problema iconoclastico e panenteismo dos Padres da Igreja

20 O panenteismo dos Padres e o debate atual

 

27 Quarta Prova: oral

 


BIBLIOGRAFIA

 

 

Manuais de Introdução e Referência Acadêmica

  • Patrologia Didática (José Alberto Hernández Ibáñez, Paulus Editora). Uma das obras mais recentes do mercado, ideal para introduzir o leitor no contexto histórico, doutrina e espiritualidade patrística de forma didática.
  • Patrologia - Coleção Completa em 6 Tomos (Johannes Quasten e Instituto Patrístico Agostiniano, Centro Dom Bosco). O maior e mais célebre clássico mundial da Patrologia, inteiramente traduzido em português. É a enciclopédia definitiva de referência acadêmica.
  • Manual de Patrologia (Hubertus R. Drobner, Editora Vozes). Obra robusta e muito utilizada em faculdades de teologia. Traz uma profunda análise da vida, obras, doutrinas e debates atuais de cada autor patrístico.
  • Introdução à Teologia Patrística (Luigi Padovese, Edições Loyola). Focado em destacar a grande contribuição dos Padres da Igreja para a estruturação da doutrina cristã e da vida eclesial.
  • Introdução à História da Filosofia, Vol. 3: A Patrística (Marilena Chaui, Companhia das Letras). Uma perspectiva nacional voltada ao nascimento da filosofia cristã e ao diálogo essencial entre fé e razão nos primeiros séculos.

 

Grandes Coleções de Fontes Primárias (Textos Patrísticos)

Coleção Patrística (Paulus Editora)

Esta é a coleção mais tradicional e longeva no Brasil, contendo mais de 50 volumes individuais traduzidos diretamente das línguas originais. Entre os volumes principais e mais recentes destacam-se:

  • Vol. 10: Confissões (Santo Agostinho). A clássica autobiografia espiritual e teológica do Bispo de Hipona.
  • Vol. 15: História Eclesiástica (Eusébio de Cesareia). A fonte histórica primária mais importante sobre os primeiros séculos do cristianismo.
  • Vol. 18: Contra os Pagãos / A Encarnação do Verbo (Santo Atanásio). Textos cruciais para compreender a defesa da divindade de Cristo.
  • Vol. 29: A Criação do Homem / A Alma e a Ressurreição (Gregório de Nissa). Grande exemplo da profundidade teológica e mística dos Padres Capadócios.
  • Vol. 51: O Espírito Santo / A Graça (Fausto de Riez). Tradução recente focada nos debates dogmáticos do século V

 

TEXTOS em outros idiomas

CANTALAMENSSA, Raniero, Dal Kerygma al dogma. Studi sulla istologia dei Padri. Milano: Vita e Pensiero, 2006.

WILKEN, Robert Louis. Alla ricerca del volto di Dio. La nascita del pensiero cristiano. Milano: Vita e Pensiero, 2006.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

A CIDADE DE DEUS DE SANTO AGOSTINHO

 



 

Robert Louis Wilken. Alla ricercar del volto di Dio. La nascita del pensiero cristiano. Milano: Vita e Pensiero, 2006, pp. 155-174.

Tradução e síntese: Paolo Cugini

 

O saque de Roma foi a causa do livro mais ambicioso de Agostinho, a cidade de Deus. Escrita nas duas décadas seguintes ao saque da cidade, manteve Agostinho ocupado por uma década e meia. Os três primeiros livros foram concluídos em 414, quando ele tinha 60 anos. Mas a última não foi concluída antes de 426, quando ele tinha acabado de completar setenta anos. No entanto, toda a obra é criada a partir de um projeto preciso ao qual Agostinho permaneceu fiel até a última página. Agostinho fala deste livro como uma obra enorme. Além disso, abrange tópicos tão amplos e díspares, que quase pode funcionar como um manual de doutrina cristã.

É o primeiro tratado que discute em profundidade a relação do Cristianismo com a vida social e política no século IV. Eusébio, o primeiro historiador do Cristianismo e biógrafo de Constantino, o primeiro imperador cristão, assumiu o desafio de conectar o Cristianismo á nova situação política Ele viu um imperador romano da fé cristã, mas Agostinho escreveu em uma escala muito maior e com uma consciência mais aguda do fato de que a história sagrada da Bíblia não foi simplesmente e sem saltos estendida na história da igreja.  A cidade de Deus é uma apologia do cristianismo diante daqueles que o contestam. Nos primeiros cinco livros Agostinho recorre aos romanos que acreditavam que o culto aos deuses tradicionais garantia uma existência feliz. A obra de Agostinho se dirige aos críticos do cristianismo. Por isso a cidade de Deus pode ser lida como a resposta cristã à República de Platão.

Poder-se-ia pensar que Agostinho teria contrastado a sua cidade ideal com a de Platão, mas em vez disso ele não concebe uma cidade modelo, um ideal de sociedade, que os homens deveriam realizar neste mundo. A sua cidade de Deus não é um ideal, mas uma realidade real, cidade, uma comunidade viva da qual já se pode fazer parte, mesmo que a vida na cidade de Deus só será plenamente possível no futuro.

A cidade de Deus não é a apologia de um ideal ou de uma série de crenças, mas de uma comunidade que está localizada no espaço e perdura no tempo, uma associação ordenada e ativa de seres humanos com costumes, instituições, leis, opiniões, memórias e uma vida religiosa particular.

A principal característica da cidade de Deus é que seus habitantes acreditam no único Deus verdadeiro. O livro foi escrito para responder aos filósofos que atacaram a igreja e, por isso que Agostinho explica que a Cidade de Deus é mais do que a igreja, incluindo anjos e santos. O propósito da cidade de Deus consiste em oferecer aos romanos uma interpretação do Cristianismo e explicar como a nova comunidade se relaciona com a cidade em que os cristãos residem.

 O esforço dos cristãos para compreender suas vidas como um grupo representou uma fonte nova e extremamente necessária de ideias para o pensamento político ocidental.

 

A vida dos santos é social

O pensamento cristão sobre a cidade de Deus parte da Bíblia. Para apresentar o tema de seu livro Agostinho cita três passagens dos salmos dos textos: dizem coisas maravilhosas cidade de Deus (Salmo 87.3); grande é o Senhor é digno de todo louvor na cidade do nosso Deus (Sal. 48,1); suas águas tremem, suas águas incham, os montes tremem com suas ondas, um rio, suas correntes alegram a cidade de Deus, a morada santa do Deus Altíssimo está nela, não poderá vacilar (Salmo 46,4). Todas as três passagens falam de Jerusalém, a antiga cidade da Palestina, a cidade por excelência da história judaica, mas para Agostinho a expressão cidade de Deus nos salmos, tinha também outro significado. Designava, de fato, uma comunidade de homens, mulheres e anjos unidos por seu amor a Deus. Agostinho fala também de outra cidade, a cidade deste mundo, a cidade terrena, a comunidade social e política que regula a vida dos homens. As duas cidades devem ser discutidas juntas porque neste século os cidadãos da cidade de Deus também são cidadãos da cidade terrena e vice-versa.

O fim para o qual tende toda a existência humana é a paz, mesmo quando vão para a guerra. Para Agostinho a paz não é simplesmente a paz externa, mas o termo também se aplica às relações entre os membros de uma família, laços de confiança entre os habitantes de uma cidade. A paz significa que a ordem na sociedade pressupõe a lei e exige justiça. A paz sem justiça não vale a pena nem mesmo o nome da paz; não pode ser definida como tal a paz dos homens injustos.

A casa, portanto, do homem deve ser a origem e a célula da cidade. Cada origem refere-se a um fim do seu genro e cada parte à integridade do todo ao qual pertence, portanto, é evidente que a paz doméstica deve ser referida à paz civil, ou seja, à harmonia ordenada dos que vivem juntos. A paz é uma palavra-chave da Bíblia usada no Salmo 147.12, que nos ensina que o objetivo da cidade de. Deus é paz.

A paz à qual a cidade de Deus aspira é uma união perfeitamente ordenada. O cristianismo é inevitavelmente social. A paz só pode ser alcançada em uma comunidade e desfrutada somente quando todos os membros da comunidade participam desse bem.

 

Algo que revela a nossa vida

tudo o que Agostinho diz sobre a cidade celeste e a cidade terrena está ligado à paz, mas a paz nunca pode ser alcançada plenamente nesta vida, porque a paz que os homens conseguem alcançar entre si é sempre frágil e instável. Portanto, a Escritura não promete nada sobre a paz nesta terra. Na Bíblia a paz é sempre uma questão de esperança e a paz à qual a cidade de Deus aspira só pode ser obra de Deus e não da vontade humana. De acordo com o profeta, afirma que o objetivo no qual esperamos não pode ser visto com os nossos olhos, devemos buscá-lo acreditando que o homem viverá pela sua fé (Abacuc 2,4) Estamos destinados a alcançar este objetivo e devemos ser ajudados por Deus. É possível que alguns homens alcancem um certo grau de paz nesta vida. Agostinho observa que o homem não tem paz nem dentro de si.

Os obstáculos à vida virtuosa não vêm apenas de fora, dos males da sociedade, mas também do monte de nossas paixões e desejos A vida humana não oferece paz duradoura nesta vida: a felicidade perfeita é uma ilusão. Em qualquer caso, os cristãos pertencem a uma comunidade de esperança, cuja conclusão está além da história Agostinho cita São Paulo quando diz: É na esperança que somos salvos e comenta que nos tornamos felizes na esperança. Agostinho afirmou que a Igreja é a cidade celestial Peregrina na terra, uma cidade que vive pela sua fé. Agostinho diz que os anjos aguardam a nossa chegada.

O livro A Cidade de Deus deve o seu encanto na consciência de Agostinho de que as tentativas de alcançar a paz neste mundo, mesmo que frágeis e destinadas a não alcançar o pleno sucesso, ainda precisam ser feitas.

No início da história da Igreja a tarefa de administrar o império e suas partes não envolvia a igreja. Nos primeiros anos do século III Orígenes pensava que um cristão não deveria aceitar cargos públicos. Em sua opinião o melhor serviço que o cristão poderia oferecer à sociedade, consistia em orar pelas autoridades e ensinar como levar uma vida de dedicação a Deus.

No século IV com a conversão do imperador Constantino e o crescimento contínuo da igreja, a relação dos cristãos com a sociedade sofreu uma gradual mudança. Constantino introduziu leis que fizeram do domingo o dia de descanso, criou um novo calendário e reorganizou a vida do império, promoveu legislação que desencorajava o abandono de recém-nascidos de casais pobres em locais públicos e atribuiu a tarefa de fornecer o necessário. Construiu igrejas em Constantinopla, Roma e Jerusalém, desta forma a presença do Cristianismo tornou-se cada vez mais visível nas cidades. A igreja tornou-se o edifício público mais importante. Os sacerdotes já estavam normalmente presentes na vida quotidiana do Império Romano, mas o Cristianismo introduziu um novo tipo de sacerdote o bispo.

Os bispos, ao contrário dos sacerdotes pagãos, não eram funcionários do Estado. As autoridades políticas não influenciaram de forma alguma a sua nomeação. O bispo cristão tinha a tarefa de supervisionar a comunidade dos fiéis A grande maioria dos bispos eram pessoas de grande cultura e verdadeiras guias espirituais, um exemplo moral. A igreja considerava-se um organismo único como líderes de uma sociedade alternativa e, assim, os bispos tornaram-se atores na vida social e política do império.

Na época de Agostinho, portanto, os cristãos não podiam mais contribuir para o bem comum apenas orando. Algumas das cartas mais interessantes de Agostinho são dirigidas a oficiais do Exército e oficiais civis da fé cristã, empenhados na defesa da paz da cidade terrena. Em algumas cartas, Agostinho teve o cuidado de basear sua oposição ao comércio de escravos na lei romana e, ao mesmo tempo que bispo cristão, queixou-se de que a punição prevista para o crime, ou seja, a flagelação, era muito severa.

Os cidadãos da cidade celestial, os cristãos, sabem que os anelídeos do coração humano só encontrarão pagamento em Deus e que só no encontro com Deus a esperança da paz se realizará plenamente, mas nesta vida em que a cidade de Deus é peregrina, os cristãos são cidadãos plenos das comunidades a que pertencem. Como outros cidadãos, eles aspiram à legalidade, à estabilidade e à concórdia, mas esses objetivos são inatingíveis sem coerção. Agostinho reconhece que, num mundo caído, os homens não podem viver juntos sem alguma forma de coerção. E esta é a origem que ele escreve do poder do rei, do poder da Espada, exercido,  juiz, da garra, do carrasco, das armas do soldado, da severidade do mestre: todas essas coisas têm método e utilidade, e quando existem as pessoas más são controladas e os bons podem viver entre os maus com maior tranquilidade.

Mesmo que os cidadãos da cidade de Deus participem da vida da cidade terrena e amem e respeitem as suas instituições e o seu modo de vida, não é na cidade terrena que eles depositam as suas maiores esperanças. Sendo o cristão um peregrino na terra, é cidadão de todas as nações e reúne a sociedade peregrina entre todas as línguas, sem prestar atenção à diversidade de costumes e leis, com as quais a paz terrena é estabelecida e mantida. A cidade de Deus não se preocupa nem um pouco com os assuntos da cidade terrena, mas acrescenta um esclarecimento e é isso que dá impacto ao livro. A cidade de Deus não cancela ou abole as instituições da sociedade, que vive enquanto isso não constitui um obstáculo para aquela religião que ensina a venerar o único Deus verdadeiro. No ponto onde traça uma linha de demarcação entre a cidade terrena e a cidade celeste, Agostino declara que a cidade de Deus também está interessada, do ponto de vista religioso, no funcionamento da cidade terrena, porque mesmo a cidade terrena deve honrar e venerar o único Deus verdadeiro.

 

Uma sociedade justa é ao serviço de Deus

A pergunta a ser feita sobre qualquer comunidade política é: o que uma pessoa ama? O que uma comunidade ama nos diz que tipo de comunidade é. Segundo Agostinho Roma é uma cidade que carece da verdadeira Justiça.

 Agostinho responde que o bem para o qual todos os homens tendem e o objetivo último da existência humana, o bem supremo é Deus. Somente em Deus os homens encontram a perfeição. Se eles não tiverem noção de Deus, eles nem têm noção de si mesmos e da virtude. Na verdade, não é simplesmente uma questão de se comportar de uma determinada maneira. Trata-se de atitudes e sentimentos, bem como de comportamento, afetos, bem como de deveres e obrigações. E só Deus que pode dar à vida da comunidade um fundamento que transcenda o interesse pessoal.

Na Cidade de Deus Agostinho não propõe nenhuma teoria da vida política, mas mostra que Deus nunca pode ser colocado à margem da atividade social. Por esta razão, a discussão está focada em duas cidades. Agostinho quer destacar o contraste entre a vida da cidade de Deus, que tem Deus no seu centro e é autenticamente social, e a vida que tem o seu centro em si.

 Agostinho quer redefinir a esfera pública para dar lugar à realidade espiritual.

 A cidade de Deus é um livro sobre a forma ideal de associação a vida humana vista à luz dos seus objetivos últimos. O contraste não é entre o público e o privado entre as igrejas do mundo, mas entre a virtude política e a imoralidade política.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

O SENTIDO DE CALCEDÔNIA PELA CRISTOLOGIA DE HOJE

 




Esboço de uma hermenêutica das definições conciliares antigas

 

Tem dois fenômenos negativos que observamos na história da cristologia patrística:

1.                      A contração dogmática: a elaboração patrística, no diálogo com a cultura do tempo, para responder ás contestações heréticas, deve concentrar-se sobre alguns elementos e transcurar outros.

 

2.                      O formalismo: é fruto de uma excessiva conceitualização, que é fruto de um fechamento da reflexão sobre alguns temas.

A volta à concretude do dato bíblico sobre Cristo ajudou bastante a superar os limites da contração dogmática e do formalismo. A tarefa é abrir as portas da teologia para o kerygma do NT, à grande variedade dos seus temas e perspectivas: cosmológica, soteriologica, eclesiológica, histórica, escatológica, sem claramente renegar a pesquisa ontológica, que dominou a primeira parte da pesquisa patrística.

A tarefa, então, é resgatar as cristologias perdidas, como por exemplo a cristologia pneumática (do Cristo Espírito) e aquela do Novo Adão, com a grande força soteriologica e escatológica que elas têm.

O problema não aquilo de fazer uma releitura de Calcedônia, mas de ir as fontes do NT. É o dado bíblico que deve ser reencarnado hoje, como Calcedônia tentou de fazer naquele tempo. Trata-se de reconstruir uma nova síntese capaz de ir além da síntese calcedonese uma pessoa duas naturezas.

Problema: o que significa para nós hoje acolher o Concilio de Calcedônia?

Ponto de partida é reconhecer que a definição dogmática marca uma aquisição não reversível pela fé da Igreja: é um ponto de não retorno. O problema é entender em que consiste este dato irrenunciável e por isso sempre normativo, da definição dogmática.

No proemio de Calcedônia emerge que a definição dogmática é em função da heresia, no caso específico, das duas heresias do nestorianismo e do monofisismo. Esta indicação é confirmada por duas análises:

a.                       Da estrutura interna de Calcedônia que recusa posições heréticas, que em outros concílios se expressou com a fórmula: si quis dixerit... anatem sit.

b.                      Da história de toda a cristologia patrística: todos os concílios são respostas á heresias, tomadas de posição oficiais da Igreja sobre erros.

Na sua essência a definição conciliar é algo de negativo: indica aquilo que numa situação é percebido da Igreja como incompatível com a compreensão do dato revelado. Isso quer dizer que não tem a pretensão de dizer tudo aquilo que de positivo a Igreja entendeu até aquele momento. Porém, sendo uma negação de uma negação (a heresia), a definição dogmática é de grande positividade. Fechando, de fato, as aberturar falsas no caminho da fé, revela tudo o seu conteúdo positivo. Trata-se de uma espécie de catarse, purificação, que opera um fechamento no desenvolvimento da tradição, que permite à fé de continuar o próprio desenvolvimento.

Neste sentido a definição dogmática é uma negação de uma explicitação negativa do dado revelado, que permite um avanço na formulação da fé. Neste sentido é possível falar de: “verdade da heresia”, porque serve para melhor clarear a verdade (era esta a opinião de Santo Tomas).

O elemento positivo da definição conciliar é de mediar a tradição. Este é o único objetivo que justifica um Concilio. A história da cristologia dogmática é a construção de dois margens que impedem ao rio da tradição de transbordar à direita ou à esquerda, rumo ao adocionismo ou ao monarquismo, rumo ao nestorianismo ou ao monofisismo, permanecendo, assim, integra e em movimento.

O dogma, não para a tradição, come se fosse uma barragem, mas permite a tradição de continuar o seu percurso, graça a barragens que construiu.

O aspecto positivo das definições cristologicas antigas deve ser buscado no interno das intenções anti-heréticas.

Problema: o que exige de nós hoje a aceitação de Niceia, Calcedônia e dos outros concílios antigos?

Resposta: não repropor as soluções que a Igreja excluiu: aquela de Ario, Apolinario, Nestório, Eutique e outros. Não podemos apagar com a esponja o fruto de tanto trabalho teológico.

A definição mantém o seu sentido normativo pela fé enquanto permanece sempre valido a recusa que foi pronunciada, mas não constitui um obstáculo no desenvolvimento da cristologia. Não é o progresso da cristologia que Calcedônia poderia obstaculizar, mas o regresso.

Niceia significa, então, pela fé de todos os tempos até a parusia, que nunca será possível repropor as soluções de Ario. A definição conciliar anti-herética é como um anticorpo depois de ter superado uma doença infecciosa.

Se tudo isso for verdade, então é possível uma continua volta ao dato bíblico, uma continua avaliação da teologia com o kerygma, sem que isso queira dizer eliminar as definições que foram elaboradas anteriormente. Cada nova síntese terá que conter a anterior, evitando de reabrir os falsos caminhos, que a Igreja n passado fechou uma vez para sempre.

 

 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

A DIDAQUÉ

 




"O Caminho da Vida e o caminho da morte"

Capítulo I



1 Existem dois caminhos: um da vida e outro da morte [Cf Jer 21,8; Dt 5,32s; 11,26-28; 30,15-20; Eclo 15,15-17]. A diferença entre ambos é grande.

2 O caminho da vida é, pois, o seguinte: primeiro amarás a Deus que te fez; depois a teu próximo como a ti mesmo [Cf Dt 6,5; 10,12s; Eclo 7,30; Lev 19,18; Mt 22,37]. E tudo o que não queres que seja feito a ti, não o faças a outro [Cf Mt 7,12; Lc 6,31].

3 Eis a doutrina relativa a estes mandamentos: Bendizei aqueles que vos amaldiçoam, orai por vossos inimigos, jejuai por aqueles que vos perseguem. Com efeito, que graça vós tereis, se amais os que vos amam? Não fazem os gentios o mesmo? Vós, porém, amai os que vos odeiam e não tenhais inimizade [Cf Mt 5,44s; Lc 6,27s; 6,32s].

4 Abstém-te dos prazeres carnais [Cf 1Ped 2,11]. Se alguém te bate na face direita, dá-lhe também a outra e tu serás perfeito. Se alguém te obrigar a mil (passos), anda dois mil com ele. Se alguém tomar teu manto, dá-lhe também tua túnica. Se alguém toma teus bens, não reclames, pois de todo o jeito não podes [Cf Mt 5,39ss; Lc 6,29].

5 Dá a todo aquele que te pedir, sem exigir devolução. Pois a Vontade do Pai é que se dê dos seus próprios dons. Bem-aventurado é aquele que dá conforme a lei, pois é irrepreensível. Ai daquele que toma (recebe)! Se, porém, alguém tiver necessidade de tomar (receber), é isento de culpa. Mas se não estiver em necessidade, terá que se responsabilizar pelo motivo e pelo fim por que recebeu. Colocado na prisão, ele não sairá de lá, até ter pago o último quadrante (centavo) [Mt 5,25s; Lc 12,58s].

6 Mas é verdade que a este propósito também foi dito: Que tua esmola sue em tuas mãos, até souberes a quem dar [Cf Eclo 12,1].


Capítulo II

1 O segundo mandamento da Instrução (dos Doze Apóstolos) é:

2 Não matarás, não cometerás adultério; não te entregarás à pederastia, não fornicarás, não furtarás, não exercerás magia nem bruxaria (charlatanice). Não matarás criança por aborto, nem criança já nascida; não cobiçarás os bens do próximo.

3 Não serás perjuro [Cf Mt 5,33; Ex 20,7] nem darás falso testemunho; não falarás mal do outro nem lhe guardarás rancor.

4 Não usarás de ambiguidade nem no pensamento nem na palavra, pois a duplicidade é uma trama fatal [Cf Prov 21,6].

5 Tua palavra não seja falsa, nem vã; mas, ao contrário, seja cheia de sinceridade e seriedade (comprovada pela ação).

6 Não serás cobiçoso nem rapace, nem hipócrita, nem malicioso, nem soberbo. Não nutrirás má intenção contra teu próximo [Cf Ex 20,13-17; Dt 5,17-21].

7 Não odiarás ninguém, mas repreenderás uns e rezarás por outros, e ainda amarás aos outros mais que a ti mesmo (que tua alma).


Capítulo III

1 Meu filho, evita tudo o que é mau e semelhante ao mal.

2 Não sejas odiento ou rancoroso, pois o ódio conduz à morte; nem ciumento, nem brigão ou provocador, pois de tudo isso nascem os homicidas.

3 Meu filho, não sejas cobiçoso de mulheres, pois a cobiça conduz à fornicação. Evita a obscenidade e os maus olhares, pois de tudo isto nascem os adúlteros.

4 Meu filho, não te dês à adivinhação, pois ela conduz à idolatria. Abstém-te também da encantação (feitiçaria) e da astrologia e das purificações, nem procures ver ou ouvir (entender) estas coisas, pois tudo isto origina a idolatria.

5 Meu filho, não sejas mentiroso, pois a mentira conduz ao roubo; não sejas avarento ou cobiçoso de fama, pois tudo isto origina o roubo.

6 Meu filho, não sejas furioso, pois isto conduz à blasfêmia; não sejas insolente nem malvado, pois tudo isto origina as blasfêmias.

7 Sê, antes, manso, pois os mansos possuirão a Terra [Cf Mt 5,5; Sl 31,11].

8 Sê longânime (têm grandeza de ânimo), misericordioso, sem falsidade, tranquilo e bom, e guarda com toda a reverência a instrução ouvida.

9 Não te eleves a ti mesmo e não entregues teu coração à insolência; não vivas com os "grandes" (deste mundo), mas com os justos e humildes.

10 Tu aceitarás os acontecimentos da vida como sendo bons, sabendo que a Deus nada daquilo que acontece é estranho.


Capítulo IV


1 Meu filho, lembra-te dia e noite daquele que te anuncia a Palavra de Deus e o honrarás como ao Senhor, pois onde se proclama sua Soberania aí está o Senhor presente [Cf Hb 13,7].

2 Todos os dias procurarás a companhia dos santos, para encontrar apoio em suas palavras.

3 Não causarás cismas, mas reconciliarás os que lutam entre si. Julgarás de maneira justa, sem considerar a pessoa na correção das faltas [Cf Dt 1,16s; Pr 31,9].

4 Não te demorarás em procurar o que te há de acontecer (adivinhação do futuro) ou não.

5 Não terás as mãos sempre estendidas para receber, retirando-as quando se trata de dar.

6 Se possuíres algo, graças ao trabalho de tuas mãos, dá-o em reparação por teus pecados.

7 Não hesitarás em dar e, dando, não murmurarás, pois algum dia reconhecerás quem é o verdadeiro Dispensador da Recompensa.

8 Não repelirás o indigente, mas antes repartirás tudo com teu irmão, não considerando nada como teu, pois, se divides os bens da imortalidade, quanto mais o deves fazer com os corruptíveis [Cf At 4,32; Hb 13,16].

9 Não retirarás a mão de teu filho ou de tua filha, mas desde sua juventude os instruirás no temor a Deus.

10 Não darás ordens com rancor ao teu povo ou à tua serva, que esperam no mesmo Deus que tu, para que não percam o temor de Deus que está acima de todos. Com efeito, Ele não virá chamar segundo a aparência da pessoa, mas segundo a preparação do espírito.

11 Vós, servos, sede submissos aos vossos senhores como se eles fossem uma imagem de Deus, com respeito e reverência [Cf Ef 6,1-9; Col 3,20-25].

12 Detestarás toda a hipocrisia e tudo o que é desagradável ao Senhor.

13 Não violarás os mandamentos do Senhor e guardarás o que recebeste, sem acrescentar nem tirar algo.

14 Na assembleia, confessarás tuas faltas e não entrarás em oração de má consciência. – Este é o caminho da vida.


Capítulo V


1 O caminho da morte é o seguinte: em primeiro lugar, é mau e cheio de maldições: mortes, adultérios, paixões, fornicações, roubos, idolatrias, práticas mágicas, bruxarias (necromancias), rapinagens, falsos testemunhos, hipocrisias, ambiguidades (falsidades), fraude, orgulho, maldade, arrogância, cobiça, má conversa, ciúme, insolência, extravagância, jactância, vaidade e ausência do temor de Deus;

2 Perseguidores dos bons, inimigos da verdade, amantes da mentira, ignorantes da recompensa da justiça, não-desejosos do bem nem do justo juízo, vigilantes, não pelo bem, mas pelo mal, estranhos à doçura e à paciência, amantes da vaidade, cobiçosos de retribuição, sem compaixão com os pobres, sem cuidado para com os necessitados, ignorantes de seu Criador, assassinos de crianças, destruidores da obra de Deus, desprezadores dos indigentes, opressores dos aflitos, defensores dos ricos, juízes iníquos dos pobres, pecadores sem fé nem lei. – Filho, fica longe de
tudo isso.


Capítulo VI

1 Vigia para que ninguém te afaste deste caminho da instrução, ensinando-te o que é estranho a Deus [Cf Mt 24,4].

2 Pois, se puderes portar todo o jugo do Senhor, serás perfeito; se não puderes, faze o que puderes.

3 Quanto aos alimentos, toma sobre ti o que puderes suportar, mas abstém-te completamente das carnes oferecidas aos ídolos, pois este é um culto aos deuses mortos.


"Celebração Litúrgica"

Capítulo VII


1 No que diz respeito ao batismo, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água corrente [Cf Mt 28,19].

2 Se não tens água corrente, batiza em outra água; se não puderes em água fria, faze-o em água quente.

3 Na falta de uma e outra, derrama três vezes água sobre a cabeça em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

4 Mas, antes do batismo, o que batiza e o que é batizado, e se outros puderem, observem um jejum; ao que é batizado, deverás impor um jejum de um ou dois dias.


Capítulo VIII

 

1 Vossos jejuns não tenham lugar com os hipócritas; com efeito, eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana; vós, porém, jejuai na quarta-feira e na sexta (dia de preparação).

2 Também não rezeis como os hipócritas, mas como o Senhor mandou no seu Evangelho: Nosso Pai no Céu, que Vosso Nome seja santificado, que Vosso Reino venha, que Vossa vontade seja feita na Terra, assim como no Céu; dá-nos hoje o pão necessário (cotidiano), perdoa a nossa ofensa assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal [Cf Mt 6,9-13; Lc 11,2-4], pois Vosso é o Poder e a Glória pelos séculos.

3 Assim rezai três vezes por dia.

 

Capítulo IX

 

1 No que concerne à Eucaristia, celebrai-a da seguinte maneira:

2 Primeiro sobre o Cálice, dizendo: Nós vos bendizemos (agradecemos), nosso Pai,
pela santa vinha de Davi, vosso servo, que vós nos revelastes por Jesus, vosso Servo; a Vós, a
Glória pelos séculos! Amém.

3 Sobre o Pão a ser quebrado: Nós vos bendizemos (agradecemos), nosso Pai, pela
Vida e pelo Conhecimento que nos revelastes por Jesus, vosso Servo; a Vós, a Glória pelos
séculos! Amém.

4 Da mesma maneira como este Pão quebrado primeiro fora semeado sobre as colinas e depois recolhido para tornar-se um, assim das extremidades da Terra seja unida a Vós vossa Igreja  em vosso Reino; pois vossa é a Glória e o Poder pelos séculos! Amém.

5 Ninguém coma nem beba de vossa Eucaristia, se não estiver batizado em Nome do Senhor. Pois a respeito dela disse o Senhor: "Não deis as coisas santas aos cães!".

 

Capítulo X

 

1 - Mas depois de saciados, bendizei (agradecei) da seguinte maneira:

2 Nós vos bendizemos (agradecemos), Pai Santo, por vosso Santo Nome, que fizestes habitar em nossos corações, e pelo conhecimento, pela fé e imortalidade que nos revelastes por Jesus, vosso Servo; a Vós, a Glória pelos séculos. Amém.

3 Vós, Senhor Todo-poderoso, criastes todas as coisas para a Glória de Vosso nome e, para o gozo deste alimento e a bebida aos filhos dos homens, a fim de que eles vos bendigam; mas a nós deste uma Comida e uma Bebida espirituais para a vida eterna por Jesus, vosso Servo.

4 Por tudo vos agradecemos, pois sois poderoso; a Vós, a Glória pelos séculos. Amém.

5 Lembrai-vos, Senhor, de vossa Igreja, para livrá-la de todo o mal e aperfeiçoá-la no vosso Amor; reuni esta Igreja santificada dos quatro ventos no vosso Reino que lhe preparaste, pois vosso é o Poder e a Glória pelos séculos. Amém.

6 Venha vossa Graça e passe este mundo! Amém. Hosana à Casa de Davi [Cf Mt 21,15]. Venha aquele que é santo! Aquele que não é (santo) faça penitência: Maranatá! [Cf 1Cor 16,22; Ap 22,20] Amém.

7 Deixai os profetas bendizer à vontade.

 

 

A Vida em comunidade


Capítulo XI

 

1 Se, portanto, alguém chegar a vós com instruções conformes com tudo aquilo que acima é dito, recebei-o.

2 Mas, se aquele que ensina é perverso e expõe outras doutrinas para demolir, não lhe deis atenção; se, porém, ensina para aumentar a justiça e o conhecimento do Senhor, recebei-o como o Senhor.

3 A respeito dos Apóstolos e profetas, fazei conforme os dogmas do Evangelho.

4 Todo o Apóstolo que vem a vós seja recebido como o Senhor.

5 Mas ele não deverá ficar mais que um dia, ou, se necessário, mais outro. Se ele, porém, permanecer três dias, é um falso profeta.

6 Na sua partida, o Apóstolo não leve nada, a não ser o pão necessário até a seguinte estação; se, porém, pedir dinheiro, é falso profeta.

7 E não coloqueis à prova nem julgueis um profeta em tudo que fala sob inspiração, pois todo pecado será perdoado, mas este pecado não será perdoado [Cf Mt 12,31].

8 Nem todo aquele que fala no espírito é profeta, a não ser aquele que vive como o Senhor. Na conduta de vida conhecereis, pois, o falso e o verdadeiro profeta.

9 E todo profeta que manda, sob inspiração, preparar a mesa não deve comer dela; ao contrário, é um falso profeta.

10 Todo profeta que ensina a verdade sem praticá-la é falso profeta.

11 Mas todo profeta provado (e reconhecido) como verdadeiro, representando o Mistério cósmico da Igreja, não ensinando, porém, a fazer como ele faz, não seja julgado por vós, pois ele será julgado por Deus. Assim também fizeram os antigos profetas.

12 O que disser, (supostamente) sob inspiração: "Dá-me dinheiro", ou qualquer outra coisa, não o escuteis; se, porém, pedir para outros necessitados, então ninguém o julgue.



Capítulo XII

 

1 Todo aquele que vem a vós, em nome do Senhor, seja acolhido. Depois de o haverdes sondado, sabereis discernir a esquerda da direita (pois tendes juízo).

2 Se o hóspede for transeunte, ajudai-o quanto possível. Não permaneça convosco senão dois ou, se for necessário, três dias.

3 Se quiser estabelecer-se convosco, tendo uma profissão, então trabalhe para o seu sustento.

4 Mas, se ele não tiver profissão, procedei conforme vosso juízo, de modo a não deixar nenhum cristão ocioso entre vós.

5 Se não quiser conformar-se com isto, é alguém que quer fazer negócios com o cristianismo. Acautelai-vos contra tal gente.

 

 

Capítulo XIII


1 Todo verdadeiro profeta que quer estabelecer-se entre vós é digno de seu alimento.

2 Do mesmo modo, também o verdadeiro mestre, como o operário, é digno de seu alimento.

3 Por isso, tomarás as primícias de todos os produtos da vindima e da eira, dos bois e das ovelhas e darás aos profetas, pois estes são os vossos grandes sacerdotes.

4 Se vós, porém, não tiverdes profeta, dai-o aos pobres.

5 Se tu fizeres pão, toma as primícias e dá-as conforme manda a lei.

6 Do mesmo modo, abrindo uma bilha de vinho ou de óleo, toma as primícias e dá-as aos profetas.

7 E toma as primícias do dinheiro, das vestes e de todas as posses e, segundo o teu juízo, dá-as conforme a lei.



Capítulo XIV

 

1 Reuni-vos no dia do Senhor (Domingo) para a Fração do Pão e agradecei (celebrai a Eucaristia), depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro.

2 Mas todo aquele que vive em discórdia com o outro, não se junte a vós antes de se ter se reconciliado, a fim de que vosso Sacrifício não seja profanado [Cf Mt 5,23-25].

3 Com efeito, deste Sacrifício disse o Senhor: "Em todo o lugar e em todo o tempo se me oferece um Sacrifício puro, porque sou o Grande Rei – diz o Senhor – e o meu Nome é admirável entre todos os povos" [Cf Mal 1,11-14].



Capítulo XV

 

1 Escolhei-vos, pois, bispos e diáconos dignos do Senhor, homens dóceis, desprendidos (altruístas), verazes e firmes, pois eles também exercerão entre vós a Liturgia dos profetas e doutores (mestres).

2 Não os desprezeis, porque eles são da mesma dignidade entre vós como os profetas e doutores.

3 Repreendei-vos mutuamente uns aos outros, não com ódio, mas na paz, como tendes no Evangelho. E ninguém fale com aquele que ofendeu o outro (próximo), nem o escute até que ele se tenha arrependido.

4 Fazei vossas preces, esmolas e todas as vossas ações como vós tendes no Evangelho de Nosso Senhor.

 

 

O Fim dos tempos

Capítulo XVI

 

1 Vigiai sobre vossa vida. Não deixeis apagar vossas lâmpadas nem solteis o cinto de vossos rins, mas estai preparados, pois não sabeis a hora na qual Nosso Senhor vem [Cf Mt 24,41-44; 25,13; Lc 13,35].

2 Reuni-vos frequentemente para procurar a salvação de vossas almas, pois todo o tempo de vossa fé não vos servirá de nada se no último momento não vos tiverdes tornado perfeitos.

3 Com efeito, nos últimos dias se multiplicarão os falsos profetas e os corruptores; as ovelhas se transformarão em lobos e o amor em ódio [Cf Mt 24,10-13; 7,15].

4 Com o aumento da iniquidade, os homens se odiarão, se perseguirão e se trairão mutuamente, e então aparecerá o sedutor do mundo como se fosse o filho de Deus. Ele fará milagres e prodígios e a Terra será entregue em suas mãos e ele cometerá crimes tais como jamais se viu desde o começo do mundo [Cf Mt 24,24; 2Tes 2,4-9].

5 Então toda criatura humana passará pela prova de fogo e muitos se escandalizarão e perecerão. Mas aqueles que permanecerem firmes na sua fé serão salvos por Aquele que os outros amaldiçoam [Cf Mt 24,10-13].

6 Aparecerão os sinais da verdade: primeiro o sinal da abertura no céu, depois o sinal do som da trombeta e, em terceiro lugar, a ressurreição dos mortos [Cf Mt 24,31; 1Cor 15-52; 1Tes 4,16].

7 Mas não de todos, segundo a Palavra da Escritura: O Senhor virá e todos os santos com Ele.

8 Então verá o mundo a vinda do Senhor sobre as nuvens do céu [Cf Mt 24,30; 26,64].

 

CURSO DE ECLESIOLOGIA-PROVA FINAL

    FACULDADE CATÓLICA DO AMAZONAS Propedêutico do mestrado em Direito Canônico   Professor: Paolo Cugini e-mail: manausfcm@gmail.com   O/a ...