terça-feira, 1 de abril de 2025

O juízo de Platão sobre os escritos

 





  Sócrates – Por conseguinte, quem julgasse poder transmitir uma arte como a escritura e quem a recebesse convencido de que poderá extrair daqueles sinais escritos alguma coisa de claro e sólido, deveria ser grandemente ingênuo e ignorar, na verdade, o vaticínio de Amon, se considera que os discursos consignados por escrito são alguma coisa mais do que um meio para trazer à memória de quem já sabe as coisas das quais trata o escrito.

 Fedro- Certamente.

Sócrates – já nos divertimos bastante com o que se refere aos discursos. Mas tu deves procurar Lísias e dizer-lhe que nós dois, tendo descido à fronte e ao santuário das Ninfas, ouvimos discursos, a Homero e a qualquer outro que tenha composto poesia com música ou sem música, a Sólon e a quem quer que haja composto discursos políticos denominando-os leis: “ Se compôs essas obras conhecendo a verdade e está em condição de socorrê-las quando defende as coisas que escreveu e, ao falar, possa demonstrar a debilidade do texto escrito, então, um homem assim deve ser chamado não com nome que têm aqueles que citamos, mas com um nome derivado do objeto ao qual se aplicou seriamente”.

Fedro – E que nome é esse que lhes dás?

Sócrates – Chamá-lo sábio, Fedro, parece-me exagerado, pois tal nome convém somente a um deus; mas chamá-lo filósofo, ou seja, amante da sabedoria, ou com algum outro nome desse tipo, seria mais próprio e mais conveniente para ele.

Fedro – E de nenhuma maneira seria fora de propósito.

Sócrates – Ao contrário, aqueles que não possui nada de mais valor do que aquelas coisas que compôs ou escreve, passando muito tempo em girá-las de um lado e de outro, colando ou separando uma parte da outra, não o chamarás com razão poeta, fazedor de discursos ou redator de leis?

 Fedro – Sim sem dúvida


2. Os  autotestemunhos contidos na “carta VII”

Posso dizer o seguinte sobre todos aqueles que escreveram ou que escreverão: todos os que afirmam saber as coisas sobre as quais medito, seja por tê-las ouvido de outros, seja por tê-las descobertos sozinhos, não é possível, segundo meu parecer, que tenham entendido algo desse objeto. Sobre essas coisas não existe um texto escrito meu nem existirá jamais.

 De nenhuma maneira o conhecimento dessas coisas é comunicável como o dos outros conhecimentos, mas, depois de muitas discussões sobre elas e depois de uma comunidade de vida, subitamente, como luz que se acende de uma faísca, ele nasce na alma e alimenta-se de si mesmo.

 De qualquer maneira, de uma coisa tenho certeza: se essas coisas devessem ser escritas ou ser ditadas eu faria do melhor modo possível, e sentiria muito se fossem mal escritas. Se, ao contrário, acreditasse que se deveriam escrever e se poderiam comunicar de modo adequado à maioria, que coisa de mais bela poderia eu fazer da minha vida do que escrever uma doutrina tão útil aos homens e trazer à luz aos olhos de todos a natureza das coisas? Mas, não creio que um tratado escrito e uma comunicação sobre esses temas seja um benefício para os homens, a não ser para aqueles poucos capazes de encontrar a verdade sozinhos, com poucas indicações que lhes forem dadas, enquanto os outros se encheriam, alguns de um desprezo injusto e inconveniente, outros, ao contrário, de uma  presunção soberba e vazia, convencidos de ter aprendido coisas magníficas. 


Portanto, todo homem sério evita escrever coisas séria para não abandoná-las à aversão e à incapacidade de compreensão dos homens. Em suma, de tudo isto deve-se concluir que, ao vermos obras escritas de alguém, seja leis de legisladores ou escritores de outro tipo, as coisas escritas não eram para tal autor as mais sérias, sendo ele sério, pois essas estarão depositadas na parte mais bela dele; ao contrário, se consigna por escrito aqueles pensamentos que são para ele verdadeiramente os mais sérios, “ então certamente” não os deuses, mas os mortais “ fizeram-no perder o juízo”.


4. As linhas essenciais das “ Doutrinas não-escritas” de Platão que nos chegaram através da tradição indireta


Diz Alexandre: Segundo Platão, os princípios de todas as coisas e das próprias Idéias são o Uno e a Díade indeterminada, que ele chamava grande-e-pequeno, como também Aristóteles lembra nos livros sobre o Bem. Mas isto se poderia saber também de Espêusipo e Xenócrates e dos outros que assistiram ao curso Sobre o Bem de Platão. Com efeito, todos registraram por escrito e conservaram a opinião de Platão, e dizem que ele usa esses princípios.

 Mas há mais. Platão, ao mesmo tempo em que recusou consignar por escrito essa suas doutrinas orais, aceitou apresentá-las em público fora da Academia ao menos numa lição ou num ciclo de lições orais, cujo resultado porém foi exatamente aquele que afirmava seria provocado pelos seus eventuais escritos sobre tais temas: com efeito, despertou incompreensões, e portanto desprezo e reprovação, como nos diz esse importantíssimo testemunho:


Como Aristóteles costumava contar, essa era a impressão experimentada pela maioria dos que assistiram à conferência de Platão Sobre o Bem. De fato, todos os que lá foram pensavam poder aprender algo sobre os bens considerados humanos como a riqueza, a saúde, a força e, em geral, uma felicidade maravilhosa. Mas quando se viu que os discursos tratavam de coisas matemáticas, números, geometria e astronomia e, finalmente, sustentavam que existe um Bem, uma Unidade, penso que tudo isto apareceu completamente paradoxal. Assim sendo, uns desprezaram a conferência, outros a censuraram.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

MULHER E FILOSOFIA POLÍTICA

  “Uma das maiores contribuições das mulheres para a filosofia política é demonstrar que questões de gênero são problemas filosóficos”. Entr...