segunda-feira, 6 de abril de 2026

O Positivismo e o Neopositivismo

 




 

Positivismo (século XIX) e o Neopositivismo (século XX) compartilham a adoração pela ciência, mas diferem no "como" validam o conhecimento.

Aqui estão os pontos centrais de cada um:

Características do Positivismo (Auguste Comte)

  • Cientificismo: Acredita que o método das ciências naturais é o único caminho para a verdade.
  • Lei dos Três Estados: A humanidade evolui do teológico (religião) e metafísico (filosofia abstrata) para o positivo (ciência).
  • Ordem e Progresso: Valoriza a estabilidade social e o desenvolvimento técnico-industrial.
  • Foco na Observação: Baseia-se em fatos concretos e leis imutáveis da natureza, ignorando causas ocultas ou espirituais. 

 

Características do Neopositivismo (Círculo de Viena)

  • Empirismo Lógico: Une a observação científica ao rigor da lógica matemática.
  • Critério de verificabilidade: Uma frase só faz sentido se puder ser provada experimentalmente. Se não puder ser testada, é considerada "pseudo-problema".
  • Antimetafísica radical: Rejeita a ética e a religião não apenas como "atrasadas", mas como linguisticamente sem sentido. 

Principais Diferenças

Característica 

Positivismo (Comte)

Neopositivismo (Círculo de Viena)

Foco Principal

Organização social e história da ciência.

Linguagem e análise lógica.

Metafísica

Vista como uma etapa ultrapassada do conhecimento.

Vista como um erro de linguagem (frases sem significado).

Ferramenta

Observação direta dos fatos.

Lógica simbólica aplicada aos fatos.

Objetivo

Reformar a sociedade e criar uma "religião da humanidade".

Purificar a ciência de termos ambíguos e abstratos.

O Positivismo era mais uma filosofia social e política, enquanto o Neopositivismo focou quase inteiramente na epistemologia (teoria do conhecimento) e na estrutura das frases científicas.

 

O Iluminismo

 




O Iluminismo foi um movimento intelectual do século XVIII que colocou a razão como a principal ferramenta para entender o mundo, rompendo com o domínio absoluto das tradições religiosas e da monarquia. 

Aqui estão os pontos fundamentais e como eles transformaram a ciência:

Pontos Fundamentais

  • Racionalismo: A crença de que a razão humana é a única via para alcançar a verdade e o progresso.
  • Empirismo: A ideia de que o conhecimento deve ser baseado na observação e em experiências práticas, não em dogmas.
  • Liberdade e Autonomia: Defesa da liberdade de expressão, pensamento e a separação entre Igreja e Estado (laicismo).
  • Progresso Inevitável: A convicção de que a humanidade, guiada pela ciência e educação, tenderia a evoluir constantemente. 

 

Incidência no campo científico

O Iluminismo não apenas incentivou a ciência, ele a sistematizou. Os impactos principais foram: 

  1. Método Científico: Estabeleceu-se o rigor da experimentação. Cientistas como Isaac Newton (física) e Antoine Lavoisier (química) consolidaram a ideia de que a natureza funciona sob leis universais e matemáticas.
  2. Sistematização do Saber: O maior exemplo foi a Enciclopédia (de Diderot e D’Alembert), que buscou reunir e organizar todo o conhecimento humano produzido até então sob uma ótica racional.
  3. Ciências Sociais: O pensamento crítico foi aplicado à sociedade, dando origem ao estudo "científico" da economia (Adam Smith) e da política (Montesquieu).
  4. Avanços na medicina e biologia: O foco na observação permitiu o início da classificação das espécies (Linnaeus) e o avanço nos estudos de anatomia, afastando explicações sobrenaturais para doenças. 

O Iluminismo tirou a ciência das mãos de poucos e a transformou em um projeto de utilidade pública para melhorar a vida humana

 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

V Vozes: Mulheres na Filosofia - Filósofas brasileiras

 





O V Vozes: Mulheres na Filosofia tem o intuito principal de dar visibilidade às pesquisas sobre filósofas brasileiras e sobre obras filosóficas escritas por mulheres brasileiras. Se, como tem sido contestado em escala mundial nas últimas décadas, o cânone filosófico é marcado por uma hegemonia masculina que insiste num apagamento das filósofas, a realidade em relação às filósofas brasileiras não é diferente. Neste sentido, esta edição do Vozes tem o intuito de romper com o apagamento da filosofia produzida por mulheres brasileiras, contribuindo para um alargamento da filosofia e de sua criticidade.

O evento será realizado entre 1º e 3 de julho de 2026, na Universidade de Brasília, em Brasília/DF. A submissão de trabalhos está aberta até o dia 5 de abril. Podem inscrever trabalhos estudantes de graduação e pós-graduação de todo o país, assim como pesquisadoras/es doutoras/es, mestres e professoras/es de Filosofia da Educação Básica que pesquisem filósofas brasileiras e história das mulheres na Filosofia, em geral (questões de método e temas que tangenciem também ensino, pesquisa e/ou divulgação).

Os resumos devem ter título, até 2500 caracteres com espaço e três palavras-chave. A sua adequação e qualidade acadêmica serão avaliados pelo comitê científico do evento. Serão selecionados até 18 trabalhos. A lista com o resultado dos trabalhos aprovados será divulgada a partir do dia 22 de abril de 2026.   

Comissão organizadora: Profa. Dra. Maria Cecília Pedreira (UnB) e Dra. Nádia Junqueira Ribeiro (Pós-doc PPGFil/UnB/CNPq).

segunda-feira, 23 de março de 2026

SISTEMA GEOCÊNTRICO E SISTEMA HELIOCÊNTRICO

 




 

sistema geocêntrico é uma antiga teoria astronômica que coloca a Terra como o centro do universo

Nesse modelo, acreditava-se que o Sol, a Lua, os planetas e todas as estrelas giravam em torno da Terra em órbitas circulares. Ele foi a visão dominante por muitos séculos, sendo defendido por nomes como Aristóteles e refinado por Ptolemeu (100-170 d.C.) até ser substituído pelo modelo heliocêntrico (Sol no centro) a partir do século XVI. 

Esta era a teoria sustentada por Aristóteles, que defendia que a Terra estava imóvel no centro do universo, com os corpos celestes girando ao seu redor em esferas concêntricas. 

Ele detalhou essa visão principalmente na obra Sobre o Céu (De Caelo).  Aristóteles dividia o cosmos em duas regiões completamente distintas, separadas pela órbita da Lua:

  1. Mundo Sublunar (Terra): Abrange tudo abaixo da Lua. É o reino da imperfeição, da mudança e da corrupção. Tudo aqui é composto pela mistura de quatro elementos (terra, água, ar e fogo) que se movem em linha reta (para cima ou para baixo).
  2. Mundo Supralunar (Céus): Abrange a Lua, os planetas e as estrelas. É o reino da perfeição e da imutabilidade. Tudo é feito de um quinto elemento puro, o Éter (ou quintessência), e o movimento é sempre o círculo perfeito, que não tem início nem fim.

Para ele, os astros eram incrustados em esferas de cristal que giravam mecanicamente, movidas em última instância por um "Primeiro Motor Imóvel". Para Aristóteles, os planetas não flutuavam no vácuo; eles estavam fixos em esferas sólidas e transparentes (as esferas de cristal), como joias presas em anéis.

O problema era que, vistos da Terra, os planetas às vezes parecem andar para trás (movimento retrógrado). Para resolver isso e manter o dogma do círculo perfeito, a solução foi a física mecânica:

  • Engrenagens Celestes: Aristóteles propôs um sistema complexo de 55 esferas concêntricas.
  • Transmissão de Movimento: A esfera mais externa (das estrelas fixas) girava e transmitia seu movimento para as esferas internas.
  • Contrarrotação: Para explicar as variações de velocidade e direção, ele adicionou esferas que giravam em sentidos opostos, funcionando como um sistema de roldanas que compensava os movimentos uns dos outros.

Tudo isso era movido pelo Primeiro Motor Imóvel, que fornecia a energia inicial para a esfera mais externa, mantendo o "relógio" cósmico funcionando eternamente.

 

 

O modelo heliocêntrico é a teoria astronômica que posiciona o Sol no centro do Universo (ou do Sistema Solar), com a Terra e os outros planetas girando ao seu redor. 

  • Etimologia: O nome vem do grego Helios (Sol) e kentron (centro).
  • Contraponto:  substituiu o modelo geocêntrico, que acreditava que a Terra era o centro de tudo.
  • Protagonistas: Embora o grego Aristarco de Samos tenha sugerido a ideia na Antiguidade, foi Nicolau Copérnico quem a desenvolveu matematicamente no século XVI. Mais tarde, Galileu Galilei e Johannes Kepler comprovaram e refinaram a teoria.
  • Consequência: Essa mudança de perspectiva foi fundamental para a Revolução Científica, alterando para sempre a forma como entendemos o nosso lugar no cosmos.

Aprofundando:

  1. As Fases de Vênus: Galileu viu que Vênus passa por fases completas (como a Lua). Isso só seria possível se o planeta estivesse orbitando o Sol, e não a Terra.
  2. As Luas de Júpiter: Ele descobriu quatro corpos orbitando Júpiter. Isso provou que nem tudo no universo gira em torno da Terra, quebrando um dogma central da época.
  3. Manchas Solares: Ao observar o Sol, ele percebeu que o astro-rei girava em torno do seu próprio eixo e não era uma "esfera perfeita", reforçando que os céus eram dinâmicos e mutáveis.

Essas evidências mostraram que o modelo de Copérnico não era apenas uma teoria matemática, mas a realidade física.

 


As principais diferençasentre os dois sistemas astronomicos giram em torno de quem ocupa o "trono" do sistema e como os astros se movem. Aqui estão os pontos centrais:

  • O Centro: No Geocentrismo (Ptolemeu), a Terra é o centro imóvel. No Heliocentrismo (Copérnico), o Sol assume o centro, e a Terra passa a ser apenas mais um planeta orbitando ao redor dele.
  • Movimento da Terra: Para os geocentristas, a Terra não se movia. Para Copérnico, a Terra possui dois movimentos principais: a rotação (gira sobre si mesma, gerando dia e noite) e a translação (gira em torno do Sol, gerando as estações).
  • Complexidade das Órbitas: Para explicar por que alguns planetas pareciam "andar para trás" no céu (movimento retrógrado), o modelo geocêntrico criava círculos complexos chamados epiciclos. Copérnico simplificou isso, mostrando que esse efeito é apenas uma questão de perspectiva, já que a Terra ultrapassa outros planetas em sua órbita.
  • As Estrelas: No modelo antigo, as estrelas estavam fixas em uma "esfera" próxima. No heliocêntrico, percebeu-se que elas estão vastamente mais longe do que o Sol.

 

A reação da Igreja Católica ao heliocentrismo não foi uniforme e mudou drasticamente ao longo do tempo, passando da curiosidade inicial à censura severa e, finalmente, ao perdão histórico.

  • Aceitação Inicial (Nicolau Copérnico): Quando Copérnico publicou sua obra em 1543, a Igreja não a proibiu de imediato. O livro foi inclusive dedicado ao Papa Paulo III. Naquela época, a teoria era vista apenas como uma hipótese matemática útil para cálculos astronômicos e calendários.
  • O Conflito Teológico: A resistência cresceu porque o modelo geocêntrico estava profundamente ligado à interpretação literal da Bíblia. Passagens como a do livro de Josué, onde Deus faz o "Sol parar" no céu, eram usadas como prova de que o Sol se movia e a Terra era fixa.
  • A Condenação de Galileu Galilei: O clima mudou no século XVII. Em 1616, o heliocentrismo foi declarado "falso e contrário às Escrituras", e a obra de Copérnico entrou para o Index (lista de livros proibidos). Em 1633, Galileu foi julgado pela Inquisição por defender o heliocentrismo como uma verdade física e não apenas uma hipótese. Ele foi forçado a negar suas ideias e passou o resto da vida em prisão domiciliar.
  • Giordano Bruno: Diferente de Galileu, o filósofo Giordano Bruno foi queimado na fogueira em 1600. Embora defendesse o heliocentrismo, sua condenação deveu-se principalmente a outras heresias teológicas, como a ideia de que o universo era infinito e continha muitos mundos.
  • Retratação Histórica: A Igreja só retirou os livros heliocêntricos do Index em 1758. Séculos depois, em 1992, o Papa João Paulo II reconheceu oficialmente o erro da Igreja no caso Galileu, admitindo que houve uma interpretação equivocada das escrituras.

 

PRIMEIRA PROVA DE FENOMENOLOGIA E HERMENEUTICA: sexta-feira 27 março 2026

 



FACULDADE CATÓLICA DO AMAZONAS


 

 

Professor: Paolo Cugini

Durante a prova na mesa do estudante deve ficar somente a folha com o carimbo da Faculdade e a caneta.

Desenvolver uma redação (pelo menos duas páginas) sobre um dos seguintes temas:

 

1.      De volta às coisas mesmas!". Este é o "grito de guerra" da fenomenologia. Husserl propõe que a filosofia deve abandonar teorias abstratas e preconceitos para descrever os fenômenos exatamente como eles aparecem na consciência. Aprofundar o assunto.

 

2.      "Não é da filosofia que deve partir o impulso da investigação, mas sim das coisas e dos problemas."
Husserl sustenta que o conhecimento deve ser construído a partir da experiência direta e da análise rigorosa dos fenômenos, em vez de deduções puramente teóricas. Aprofundar o assunto.

 

 

3.      A soberana Realidade não é um mundo bem ordenado, dócil as leis da Natureza e que se dispõe de si mesmo abaixo das hipóteses dos físicos, mas uma criação de inquietude desobediente (Charles Péguy). Somente permanecendo no tempo presente podemos entender que a realidade não é uniforme, mas sim, multiforme. Refletir sobre este tema.

 

4.      Max Scheler centra sua atenção nos objetos pré-cientícos do mundo antropológico e na possibilidade de descrição de vivências subjetivas da consciência, abrindo espaço para os valores, os afetos e os fatos culturais que foram desconsiderados pelas ciências positivas emergentes de sua época. Refletir sobre este tema.

 

 

5.      Eu não existo porque penso, mas porque alguém me chama ou alguém me ama (Jean Luc Marion). A partir desta frase faça uma explanação da fenomenologia de Jean Luc Marion, refletindo sobre o fenômeno saturado e da crítica a metafisica.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 22 de março de 2026

PRIMEIRA PROVA DE FILOSOFIA POLÍTICA : Quinta feira 26 março 2026

 



FACULDADE CATÓLICA DO AMAZONAS


 

 

Professor: Paolo Cugini

Durante a prova na mesa do estudante deve ficar somente a folha com o carimbo da fasculdade e a caneta.

Desenvolver uma redação (pelo menos duas páginas) sobre um dos seguintes temas:

 

1.      Conforme a reflexão que realizamos na sala é possível uma filosofia política cristã baseada no Evangelho? Quais seriam as características desta política?

 

2.      A Carta a Diogneto manifesta um novo estilo de viver a cidade e as leis do Império por parte dos cristãos. De que maneira mudou o estilo político dos cristãos durante a época medieval e qual foi o papel do papado?

 

3.      As mudanças religiosas, políticas e sociais da época Moderna provocaram a reflexão política de grandes pensadores como Nicolau Maquiavel, Thomas Hobbes, John Locke e Jean Jacque Rousseau. A ideia de que a sociedade e o Estado nascem de um "contrato" ou pacto entre os indivíduos. 

a.       Thomas Hobbes (Leviatã): O homem no estado de natureza vive em guerra; para ter segurança, cede todos os seus direitos a um soberano absoluto.

b.      John Locke (Segundo Tratado sobre o Governo Civil): O contrato serve para proteger direitos naturais pré-existentes (vida, liberdade e propriedade privada). É o pai do liberalismo.

c.       Jean-Jacques Rousseau (O Contrato Social): O foco é a vontade geral. O povo é o soberano e o contrato deve buscar o bem comum, criticando a desigualdade gerada pela propriedade. 

Qual destes autores te chamou mais atenção.

 

4.      No realismo político de Nicolau Maquiavel a política deixa de ser vista pelo prisma da moral cristã para ser analisada como ela é de fato. A separação entre moral e política: o governante deve focar na manutenção do poder e na estabilidade do Estado (virtù e fortuna). Concorda com a visão política de Maquiavel?

5.       

sexta-feira, 20 de março de 2026

O pensamento fenomenológico de Jean Luc Marion

 




TANTA DOAÇÃO TANTA PRESENÇA


 

Jean-Luc Marion é um dos nomes mais influentes da fenomenologia contemporânea, conhecido por levar o método fenomenológico ao seu limite. Embora você não tenha especificado um tema exato dentro da vasta obra dele, o pilar central de seu pensamento é a Fenomenologia da Doação e o conceito de Fenômeno Saturado.

A fenomenologia clássica, iniciada por Husserl, estabeleceu que toda consciência é consciência de algo. No entanto, Jean-Luc Marion propõe uma "redução" ainda mais radical: antes de ser percebido por um sujeito, o fenômeno se . Para Marion, o ser não precede a doação; é a doação que define o que aparece.

1. "Tanta doação, quanto presença"

Marion inverte a lógica tradicional onde o sujeito (o "Eu") dita as regras do que pode ou não ser real. Em sua obra fundamental, Sendo Dado, ele afirma:

"O fenômeno se dá na medida em que ele se mostra. E ele se mostra na medida em que se dá." (Étant donné, 1997)

Isso significa que o fenômeno não é um objeto passivo esperando para ser estudado, mas um acontecimento que toma a iniciativa.

2. O Fenômeno Saturado: Quando a intuição transborda

O conceito mais famoso de Marion é o fenômeno saturado. Diferente de um objeto técnico ou matemático (onde nossa mente entende tudo perfeitamente), o fenômeno saturado é aquele que possui um excesso de intuição que a nossa capacidade de compreensão não consegue organizar ou "conter".

Exemplos disso são o acontecimento (histórico), o ídolo (a obra de arte), a carne (o sentir-se a si mesmo) e o ícone (o rosto do outro). Neles, o sujeito não domina o objeto; ele é, na verdade, impactado por ele.

Sobre esse excesso, Marion escreve em O Visível e o Revelado:

"O fenômeno saturado descreve a situação em que a visão do sujeito é submergida pela clareza excessiva do que se apresenta."

3. Do Sujeito ao "Adonado" (L'adonné)

Nessa filosofia, o "Eu" deixa de ser o mestre do conhecimento e passa a ser o Adonado. O Adonado é aquele que recebe a doação. Não sou eu quem dou sentido ao mundo; o mundo se dá a mim, e eu sou constituído por aquilo que recebo.

Para Jean-Luc Marion, a carne (la chair) não é o corpo biológico (o Körper da anatomia), mas sim o lugar onde a vida é sentida "por dentro". No seu pensamento, a carne é o fenômeno saturado por excelência: ela é o que me permite sentir o mundo porque, antes de tudo, ela se sente a si mesma.

A Carne como Autoafecção: Sentir-se Antes de Sentir o Mundo

Enquanto o corpo pode ser visto, tocado e medido como um objeto externo, a carne é a dimensão do sentir que não guarda distância de si mesma. Marion radicaliza a distinção de Husserl entre o corpo-objeto e o corpo-vivo para mostrar que a carne é o fundamento da nossa subjetividade.

1. A Carne que se Sente a Si Mesma

Diferente de um objeto (como uma pedra ou uma mesa) que toca outro objeto sem sentir nada, a carne humana tem a propriedade única da autoafecção. Em sua obra Sendo Dado, Marion explica:

"A carne não se define por sua extensão no espaço, mas por sua capacidade de se sentir a si mesma, de se afetar a si mesma sem distância nem mediação." (Étant donné, 1997)

Se você pressiona uma mão contra a outra, você não sente apenas um objeto "mão"; você sente o sentir da pressão. Essa coincidência absoluta é onde nasce o "Eu".

2. O Sofrimento e o Prazer como Provas da Carne

Para Marion, a carne é "saturada" porque nela a intuição transborda qualquer conceito. O sofrimento e o prazer são os exemplos máximos disso: você não "pensa" a dor, você a padece. A carne é o que nos torna passivos diante da vida; somos "recebedores" de sensações que não podemos controlar.

Em O Fenômeno Erótico, Marion aprofunda essa ideia ao descrever como a carne é o que nos permite o encontro com o outro:

"Minha carne me entrega a mim mesmo no exato momento em que ela me entrega ao mundo... Só uma carne pode tocar outra carne." (Le Phénomène érotique, 2003)

3. A Carne como "Lugar" da Doação

Diferente do pensamento de Descartes, onde o "Eu" é uma coisa que pensa (abstrata), para Marion o "Eu" é o Adonado (l'adonné) que recebe a si mesmo através da carne. Eu só sei que existo porque minha carne me dói, me agrada ou me cansa. Ela é o ponto de impacto onde a vida "se dá".

O Positivismo e o Neopositivismo

    O  Positivismo  (século XIX) e o  Neopositivismo  (século XX) compartilham a adoração pela ciência, mas diferem no "como" vali...