sexta-feira, 6 de março de 2026

HENRI BERGSON (1859-1941)

 



 

Para Henri Bergson, a evolução criativa é o conceito que ele expressou em sua obra homônima de 1907 para explicar que a vida não é o resultado de mecanismos cegos ou de um plano pré-estabelecido, mas um processo de autocriação contínua.

Aqui estão os pontos-chave para compreendê-la:

O élan vital (impulso vital): É uma força espiritual e invisível que flui através da matéria, impulsionando-a a se organizar em formas cada vez mais complexas e imprevisíveis. É o "motor" da evolução.

Imprevisibilidade: Ao contrário do finalismo (que vê tudo como predeterminado) ou do mecanicismo (que vê tudo como causa e efeito), Bergson sustenta que a evolução é livre. Cada nova espécie ou forma de vida é uma invenção original, não dedutível do passado.

Matéria vs. Vida: A matéria é vista como uma força de resistência ou um "movimento descendente", enquanto o élan vital é um "movimento ascendente". A evolução é o resultado da colisão entre essas duas forças: a vida tentando abrir caminho através da inércia da matéria.

Duração real: A evolução não ocorre no tempo físico (uma sucessão de instantes), mas na duração, onde o passado é preservado e constantemente enriquecido no presente, criando um futuro sempre novo.

Em suma, para Bergson, a natureza é como um artista que cria sem um modelo fixo, tornando todo o universo um sistema dinâmico e aberto.

Para Bergson, a intuição não é um sentimento vago ou uma inspiração mística, mas o verdadeiro método da filosofia, em oposição à análise científica da inteligência.

Eis os pilares que a definem:

Simpatia intelectual: Bergson define a intuição como uma forma de "simpatia" através da qual a pessoa se transporta para dentro de um objeto para coincidir com sua essência única e inexprimível.

Conhecimento absoluto: Enquanto a inteligência observa as coisas de fora e as decompõe em símbolos (conceitos, palavras, números) para fins práticos e utilitários, a intuição apreende a realidade de dentro. A inteligência nos dá conhecimento relativo; a intuição nos dá conhecimento absoluto.

Compreensão da duração: A intuição é a ferramenta específica para perceber a duração real (o tempo experimentado como um fluxo contínuo). A inteligência "espacializa" o tempo, dividindo-o em instantes separados como fotogramas de um filme; a intuição, por outro lado, percebe o movimento indivisível da vida.

• Retorno ao Espírito: Se a inteligência se dirige à matéria para dominá-la, a intuição é um voltar-se da mente para si mesma. É o esforço de ir além das necessidades práticas para redescobrir a continuidade da consciência.

Em suma, a intuição é o órgão da metafísica: ela nos permite apreender a realidade em sua fluidez e devir, antes que o intelecto a rigidifique em padrões fixos.

 

Livros de Bergson

Essais sur les données immédiates de la conscience (1889)

Matière et mémoire (1896)

Le Rire (1899)

L'Évolution créatrice (1907)

L'Énergie spirituelle (1919)

Durée et simultanéité, à propos de la théorie d'Einstein (1922)

Les Deux Sources de la morale et de la religion (1932)

La Pensée et le mouvant (1934)

Mélanges (1972)

quinta-feira, 5 de março de 2026

A doutrina política da Igreja Católica

 





CURSO DE FILOSOFIA POLÍTICA



Síntese de Paolo Cugini

 

A doutrina política da Igreja Católica evoluiu da gestão direta do poder temporal para a formulação de uma Doutrina Social moderna.

Aqui estão os pilares e conceitos-chave desenvolvidos ao longo do tempo:

 

1.      Carta a Diogneto

2.      Pensamento Clássico e Medieval

Agostinho de Hipona (De Civitate Dei): Distingue entre a "Cidade de Deus" e a "Cidade dos Homens", estabelecendo que o Estado é necessário para a ordem, mas subordinado à moral cristã.

Tomás de Aquino: Introduz o conceito de Bem Comum. Ele argumenta que as leis humanas devem refletir a Lei Natural; se uma lei é injusta, não é uma lei verdadeira.

 

3.       Doutrina Social Moderna (desde 1891)

Começa com a encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, em resposta à Revolução Industrial, e baseia-se em quatro princípios:

a.       Dignidade da pessoa: O ser humano é o fim, não o meio, da economia ou da política.

b.      Subsidiariedade: O Estado não deve substituir as realidades locais ou familiares, mas sim ajudá-las a prosperar.

c.       Solidariedade: Responsabilidade para com os mais pobres e interdependência entre os povos.

d.      Destinação Universal dos Bens: A propriedade privada é um direito, mas tem uma "função social"; os recursos da Terra pertencem a todos.

 

3. Desenvolvimentos Contemporâneos

Democracia e Liberdade Religiosa: Com o Concílio Vaticano II (Dignitatis Humanae), a Igreja reconheceu plenamente a liberdade de consciência e o valor dos sistemas democráticos.

Ecologia Integral: O Papa Francisco (Laudato si') apresentou uma proposta política que vincula a justiça social à proteção ambiental, criticando o "paradigma tecnocrático".

Crítica aos Sistemas: Historicamente, a Igreja se opôs tanto ao comunismo ateu (por sua negação da transcendência e da liberdade) quanto ao capitalismo desenfreado (quando este atropela a dignidade do trabalhador).

 

 

 

 

O PODER TEMPORAL DA IGREJA CATÓLICA: 313. d.C. -1500

 

De 313 d.C. a 1500, a Igreja Católica transformou seu papel de uma comunidade religiosa tolerada em um poder político e territorial soberano, influenciando profundamente a estrutura da Europa medieval. Durante esse período, a Igreja Católica passou por uma profunda metamorfose: de uma comunidade espiritual perseguida à principal instituição política e territorial do Ocidente, culminando na figura do "Papa Rei" do Renascimento.

1. A Transição: De Culto ao Poder (313 - 754 d.C.)

313 d.C. - Édito de Milão: O imperador Constantino reconhece o cristianismo como uma religião legítima. A Igreja começa a receber restituições de propriedades e doações de terras, adotando a estrutura administrativa romana (dioceses e paróquias).

 

Papel Substituto: Com a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), os bispos tornaram-se a única autoridade organizada nas cidades, assumindo funções de governo civil, defesa e assistência para preencher o vácuo de poder.

Doação de Sutri (728 d.C.): O rei lombardo Liutprando doou o castelo de Sutri ao Papa Gregório II. Este evento é considerado o nascimento formal dos Estados Papais.

2. A Era Carolíngia e o Sacro Império Romano (754 - 1000 d.C.)

Promessa de Quierzy (754 d.C.): Pepino, o Breve, prometeu entregar ao Papa os territórios tomados dos lombardos (Lácio, Romanha, Marcas), criando uma base territorial soberana.

Coroação de Carlos Magno (800 d.C.): O Papa Leão III coroa Carlos Magno como imperador, estabelecendo o papel do pontífice como fonte de legitimidade política imperial.

Privilegium Othonis (962 d.C.): Oto I da Saxônia estabelece o direito imperial de confirmar as eleições papais, submetendo temporariamente a Igreja ao controle germânico.

 

3. Teocracia e o Conflito Universal (1075 - 1303 d.C.)

Questão das Investiduras: Gregório VII emite o Dictatus Papae (1075), declarando que somente o Papa pode nomear bispos e depor imperadores. O conflito termina com a Concordata de Worms (1122), um acordo que distingue entre o poder espiritual e o poder temporal.

 Inocêncio III (1198-1216): O papado atinge o ápice do poder político, atuando como o árbitro supremo dos soberanos europeus através da "teoria das duas espadas" (a supremacia do poder espiritual sobre o poder político).

 

4. Crise, Cativeiro e o Renascimento (1303 - 1500 d.C.)

Bofetada de Anagni (também conhecida como o Atentado de Anagni) foi um episódio dramático ocorrido em 7 de setembro de 1303, que simbolizou o declínio do poder político universal do papado frente ao fortalecimento das monarquias nacionais, especificamente a França. 

O evento consistiu no seguinte:

  • O Conflito: O Papa Bonifácio VIII e o Rei Filipe IV da França (o Belo) estavam em um embate severo sobre a supremacia do poder papal versus o poder real e a cobrança de impostos sobre o clero.
  • O Atentado: Filipe IV enviou emissários, liderados por Guillaume de Nogaret e apoiados pela família nobre romana Colonna (inimiga do Papa), para capturar Bonifácio VIII em sua residência de verão em Anagni.
  • A "Bofetada": Durante a invasão, o Papa teria sido insultado e, segundo a lenda, esbofeteado por Sciarra Colonna. Embora o contato físico seja debatido por historiadores, o termo "bofetada" refere-se principalmente à humilhação pública e moral imposta ao pontífice.
  • Consequência Imediata: Bonifácio VIII foi libertado pela população local após três dias de cativeiro, mas, abalado pela humilhação, faleceu um mês depois em Roma.
  • Impacto Histórico: O episódio marcou o fim das pretensões papais de domínio político absoluto sobre os reis europeus e abriu caminho para o Cativeiro de Avignon, período em que a sede do papado foi transferida para a França

 

Cativeiro de Avignon (1309-1377): A sede papal é transferida para a França, resultando em uma significativa perda de prestígio e controle político direto sobre a Itália.

Papas Príncipes (século XV): Após retornarem a Roma, os Papas (como os Bórgias ou Júlio II) atuaram como verdadeiros soberanos renascentistas, com exércitos, cortes suntuosas e uma política de expansão territorial com o objetivo de consolidar os Estados Papais como uma potência italiana.

A descoberta da falsificação da Doação de Constantino, realizada pelo humanista Lorenzo Valla em 1440, representou um terremoto intelectual que atingiu os próprios alicerces da legitimidade política da Igreja.

 

1. O Colapso da Base Legal

Durante séculos, a Igreja justificou sua posse de Roma e dos territórios italianos alegando que o Imperador Constantino, no século IV, os havia cedido legalmente ao Papa Silvestre I. Valla demonstrou, por meio de análise filológica (observando palavras e expressões latinas que ainda não existiam no século IV), que o documento era uma falsificação criada no século VIII.

Consequência: O poder territorial da Igreja deixou de ser visto como um "direito divino ou imperial herdado", passando a ser considerado uma construção política humana.

2. A Reação da Igreja

Apesar das evidências científicas, a Igreja não abriu mão de seus territórios. Inicialmente, tentou ignorar ou censurar a obra de Valla. No entanto, o argumento de Valla era tão forte que a hierarquia eclesiástica teve que mudar de estratégia:

Da lei à história: A legitimidade dos Estados Papais passou a ser defendida não mais com base em um "pedaço de papel" (a Doação), mas na posse secular e na necessidade de o Papa ser politicamente independente dos soberanos europeus para exercer seu ministério espiritual.

 

3. O Impacto na Reforma Protestante

As teses de Valla foram publicadas por Ulrich von Hutten em 1517 e se tornaram uma arma fundamental para Martinho Lutero.

A acusação: Para os reformadores, a falsificação era a prova definitiva da "corrupção" e da "ganância" de Roma. Isso acelerou a crítica teológica à fusão da fé com a gestão do poder político.

4. O Nascimento do Método Crítico

A obra de Valla marcou o nascimento da historiografia moderna. Ele demonstrou que nenhum poder, nem mesmo o sagrado, poderia escapar da análise crítica de fatos e documentos. Isso enfraqueceu a autoridade política da Igreja a longo prazo, forçando-a a justificar seu papel não mais como "senhora do mundo", mas como guia moral.

 

 O poder político da Igreja Católica do Concilio de Trento (1560) até o Concílio Vaticano II (1962)

 

A evolução do poder político da Igreja Católica entre o Concílio de Trento e o Concílio Vaticano II reflete a mudança de uma estrutura de defesa doutrinal e centralização monárquica para uma de diálogo aberto com a modernidade e o pluralismo.

As principais etapas desse processo incluem:

O Concílio de Trento (1545-1563): Marca o nascimento da Igreja da Contrarreforma. Consolidou o poder central do Papa, reafirmou a autoridade do Magistério e fortaleceu instrumentos de controle, como a Inquisição e o Índice de Livros Proibidos, para defender a ortodoxia dos ataques protestantes.

A Era do Absolutismo e do "Tridentinismo": Nos séculos seguintes, a Igreja adotou um modelo de uniformidade e centralização romana, no qual os decretos tridentinos se tornaram o único filtro através do qual todos os assuntos institucionais e doutrinais eram tratados. O papado manteve um papel fundamental como juiz na vida política e civil da sociedade europeia.

O Primeiro Concílio Vaticano (1869-1870): Embora interrompido pela captura de Roma, representou o ápice da centralização hierárquica com a proclamação dos dogmas da primazia papal e da infalibilidade papal, levando inicialmente ao isolamento político e espiritual da Igreja no mundo moderno.

Os Pactos de Latrão (1929): (Um fato histórico fundamental não explicitamente declarado no texto, mas implícito na evolução das relações entre Igreja e Estado) resolveram a "Questão Romana", definindo o status político da Igreja na Itália e garantindo a soberania do Estado da Cidade do Vaticano.

O Segundo Concílio Vaticano (1962-1965): Marcou uma virada histórica, passando de uma postura defensiva para uma de "aggiornamento" (atualização). Documentos como Gaudium et Spes redefiniram a relação entre a Igreja e o mundo contemporâneo, baseando-a no diálogo.

Liberdade religiosa: Com a declaração Dignitatis Humanae, a Igreja aceitou o princípio da liberdade religiosa garantida pelo Estado, renunciando à reivindicação de proteção privilegiada como a única religião "verdadeira".

Ecumenismo: O decreto Unitatis Redintegratio abriu caminho para uma nova relação de igualdade e diálogo com outras denominações cristãs.

Dignidade humana: A Igreja estabeleceu a dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus, como fundamento de seu ensinamento social no mundo moderno.

 

A Questão Romana

Foi o longo conflito político e diplomático entre o Reino da Itália e a Santa Sé, que durou de 1861 a 1929, relativo ao papel de Roma e à soberania temporal do Papa. As etapas cruciais do conflito foram:

A Unificação da Itália (1861): Com a proclamação do Reino, Roma foi declarada a "capital moral", mas permaneceu sob o controle do Papa e protegida pelas tropas francesas de Napoleão III.

A Invasão da Porta Pia (20 de setembro de 1870): Aproveitando-se da queda de Napoleão III na Guerra Franco-Prussiana, o exército italiano entrou em Roma. Este evento marcou o fim dos Estados Papais e do poder temporal dos papas.

A Lei das Garantias (1871): O Estado italiano tentou regular as relações unilateralmente, garantindo ao Papa a inviolabilidade e a posse dos palácios do Vaticano. O Papa Pio IX rejeitou a lei, declarando-se "prisioneiro no Vaticano" e proibindo os católicos de participarem da vida política italiana com o decreto Non Expedit.

Os Pactos de Latrão (11 de fevereiro de 1929): A disputa foi oficialmente resolvida com os acordos assinados entre Benito Mussolini e o Cardeal Pietro Gasparri. Resultados dos Pactos de Latrão:

Tratado Internacional: Criação do Estado da Cidade do Vaticano como uma entidade soberana e independente.

Concordata: Regulamentação das relações civis e religiosas entre a Igreja e o Governo (por exemplo, a validade civil do casamento religioso).

Convenção Financeira: Compensação financeira à Santa Sé pela perda dos territórios papais.

 

Para refletir: DESCENDENDO DO SAGRADO IMPÉRIO ROMANO (Paolo Cugini)

https://matutan.blogspot.com/2024/08/descendendendo-do-sagrado-imperio-romano.html

 

CURSO DE FILOSOFIA POLÍTICA: Nicolau Maquiavel

 

 

 

Niccolò di Bernardo dei Machiavelli (em português: Nicolau Maquiavel; Florença, 3 de maio de 1469 — 21 de junho de 1527) foi um filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico de origem florentina do Renascimento. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna, pelo fato de ter escrito sobre o Estado e o governo como realmente são, e não como deveriam ser.

Após sua morte, o nome de Maquiavel passou a evocar atos inescrupulosos do tipo que ele aconselhou mais famosamente em sua obra, O Príncipe. Ele se preocupava com as maneiras pelas quais um governante poderia ter sucesso na política e acreditava que aqueles que prosperavam recorriam à decepção, traição e violência. Ele aconselhava os governantes a praticar o mal quando a necessidade política o exigisse. O Príncipe, de Maquiavel, tem sido envolto em controvérsia desde que foi publicado. Alguns o consideram uma descrição direta da realidade política. Muitos veem O Príncipe como um manual, ensinando aspirantes a tiranos como devem tomar e manter o poder..[ Mesmo em tempos recentes, estudiosos como Leo Strauss reafirmaram a opinião tradicional de que Maquiavel era um "mestre do mal".

Maquiavel viveu a juventude sob o esplendor político da República Florentina, durante o governo de Lourenço de Médici. Entrou para a política aos 29 anos de idade, no cargo de Secretário da Segunda Chancelaria, onde observou o comportamento de grandes nomes da época e a partir dessa experiência retirou alguns postulados para sua obra. Depois de servir em Florença durante catorze anos foi afastado e escreveu suas principais obras. Conseguiu também algumas missões de pequena importância, mas jamais voltou ao seu antigo posto como desejava.

Como renascentista, Maquiavel utilizou-se de autores e conceitos da Antiguidade Clássica de maneira nova. Um dos principais autores foi Tito Lívio, além de outros lidos através de traduções latinas. Entre os conceitos apropriados por ele encontram-se o de virtù e o de fortuna.

Período histórico de Maquiavel

Durante o Renascimento, as cinco principais potências na península Itálica eram o Ducado de Milão, a República de Veneza, a República Florentina, o Reino de Nápoles e os Estados Papais. A maior parte dos Estados da península era ilegítima, tomados por mercenários chamados condottieri.

Foram incapazes de se aliar durante muito tempo estando entregues à intriga diplomática e às disputas, e, por suas riquezas, eram atrativos para as demais potências europeias do período, principalmente Espanha e França. A política italiana era, portanto, muito complexa e os interesses políticos estavam sempre divididos. Batalhando entre si, ficavam à mercê das ambições estrangeiras, mas a influência de alguém como Lourenço de Médici havia impedido uma invasão. Com a morte deste em 1492, e a inaptidão política de seu filho, a Itália foi invadida por Carlos VIII, causando a expulsão dos Médici de Florença.

Esta era palco do conflito entre duas tendências: a da exaltação pagã do indivíduo, da vida e da glória histórica, representada por Lourenço de Médici e seu irmão Juliano de Médici; e a da contemplação cristã do mundo, voltada para o além, que se formava como resposta ao ressurgimento da primeira nos mais variados aspectos da vida, como a arte, e até na Igreja, representada por religiosos como Girolamo Savonarola.

Anunciando a chegada de Carlos VIII como a de um salvador, contrário aos Médici e com grande apoio popular, o pregador Girolamo Savonarola tornou-se a figura mais importante da cidade dando ao governo um viés teocrático-democrático. Com sua crescente autoridade e influência, Savonarola passou a criticar os padres de Roma como corruptos e o papa Alexandre VI por seu nepotismo e imoralidade. Em 12 de maio de 1497, o papa excomungou o frade, mas a excomunhão foi declarada inválida por ele. No entanto, Savonarola acabou preso e executado pelo governo provisório em 23 de maio de 1498. Com a demissão de seus simpatizantes, cinco dias depois da morte do frade, Maquiavel, com 29 anos, foi nomeado para o cargo de secretário da Segunda Chancelaria de Florença.

O Príncipe

O Príncipe (em italiano, Il Principe) é um livro escrito por Nicolau Maquiavel em 1513, cuja primeira edição foi publicada postumamente, em 1532. Trata-se de uma das teorias políticas mais elaboradas pelo pensamento humano e que tem grande influência em descrever o Estado desde a sua publicação até os dias de hoje, mesmo os sistemas de governo já serem variados. No mesmo estilo do Institutio Principis Christiani de Erasmo de Roterdã, o intuito de O Príncipe é descrever as maneiras de conduzir-se nos negócios públicos internos e externos, e fundamentalmente, como conquistar e manter um principado, ou seja, um guia para como se chegar e manter-se no poder.

A partir da correspondência de Maquiavel, sabe-se que uma versão estava aparentemente sendo escrita em 1513, utilizando um título em latim, De Principatibus (Dos Principados). No entanto, a versão impressa só foi publicada em 1532, cinco anos após a morte de Maquiavel. Isso ocorreu com a permissão do papa Medici Clemente VII, mas “muito antes disso, na verdade desde a primeira aparição de O Príncipe em manuscrito, já havia controvérsia em torno de seus escritos”.

Embora O Príncipe tenha sido escrito como se fosse uma obra tradicional no estilo dos espelhos de príncipes, em geral concorda-se que ele foi especialmente inovador. Isso se deve em parte ao fato de ter sido escrito em italiano vernacular, e não em latim, uma prática que vinha se tornando cada vez mais popular desde a publicação da Divina Comédia de Dante e de outras obras da literatura renascentista. Maquiavel ilustra seu raciocínio utilizando comparações notáveis entre eventos clássicos, bíblicos e medievais, incluindo muitas referências aparentemente positivas à carreira assassina de Cesare Borgia, ocorrida durante a própria carreira diplomática de Maquiavel.

O Príncipe é às vezes considerado uma das primeiras obras da filosofia moderna, especialmente da filosofia política moderna, na qual o efeito prático é tido como mais importante do que qualquer ideal abstrato. Sua visão de mundo entrou em conflito direto com as doutrinas católicas e escolásticas dominantes da época, particularmente no que se refere à política e à ética.

Este breve tratado é o mais lembrado entre as obras de Maquiavel e o principal responsável pelo uso posterior pejorativo da palavra “maquiavélico”. Ele inclusive contribuiu para as conotações negativas modernas das palavras “política” e “político” nos países ocidentais. Quanto ao tema, ele se sobrepõe à obra muito mais extensa Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, escrita alguns anos depois. No uso de italianos quase contemporâneos como exemplos de pessoas que cometeram crimes com fins políticos, outra obra menos conhecida de Maquiavel com a qual O Príncipe tem sido comparado é a Vida de Castruccio Castracani.

Capítulos do livro

1.         De quantas espécies são os principados e como são adquiridos

2.         Os principados hereditários

3.         Os principados mistos

4.         A razão pela qual o reino de Dario III, ocupado por Alexandre, não se rebelou contra seus sucessores após a morte deste

5.         De que modo devem-se governar as cidades ou os principados que, antes da conquista, possuíam leis próprias

6.         Os principados conquistados com as próprias armas e qualidades pessoais

7.         Os principados novos conquistados com as armas e virtudes de outrem

8.         Dos que conquistaram o principado através do crime

9.         O principado civil

10.       Como medir as forças de todos os principados

11.       Os principados eclesiásticos

12.       Os tipos de milícias e os soldados mercenários

13.       Os exércitos auxiliares, mistos e próprios

14.       Os deveres do príncipe com suas tropas

15.       As qualidades pelas quais os homens, sobretudo os príncipes, são louvados ou vituperados

16.       A generosidade e a parcimônia

17.       A crueldade e a clemência: se é melhor ser amado do que temido, ou o contrário

18.       Os príncipes e a palavra dada

19.       Como evitar o desprezo e o ódio

20.       Se as fortalezas e muitas outras coisas cotidianas usadas pelos príncipes sejam úteis ou inúteis

21.       Como um príncipe deve agir para ser estimado

22.       Dos secretários que acompanham o príncipe

23.       Como evitar os aduladores

24.       Porque os príncipes da Itália perderam seus Estados.

25.       Quanto pode a fortuna influenciar as coisas humanas e como se pode resistir a ela.

26.       Exortação para retomar a Itália e libertá-la dos bárbaros

Síntese

Entre 1502 e 1503, Maquiavel exerceu o cargo de embaixador junto a César Bórgia, estadista sem escrúpulos e capitão das forças dos Estados Pontifícios. Dominava o governo papal e usava todos os meios para conquistar novas terras e estender o domínio da família Bórgia na Itália. Os cinco meses como embaixador junto a César Bórgia o encheu de admiração.

A obra “O Príncipe”, escrita por Maquiavel em 1513, e publicada postumamente em 1532, se transformou em sua obra-prima. O livro, um manual sobre a arte de governar, foi inspirado no estilo político de César Bórgia um dos mais ambiciosos comandantes italianos, que ficou conhecido por seu poder e atrocidades que cometeu para conseguir o que queria. Maquiavel viu nele o modelo para os demais governantes da época.

A obra revela a preocupação de Maquiavel com o momento histórico da Itália, fragilizada pela falta de unidade nacional e alvo de invasões e intrigas diplomáticas. Indignado com a decadência política e moral da Itália, o autor dirige conselhos dirigidos a Lourenço, de Médici com o único objetivo de unificar a Itália e criar uma nação moderna e poderosa.

Para Maquiavel, o importante era realizar o desejo projetado, mesmo sob qualquer forma de governo – monarquia ou república, e por qualquer meio, inclusive a violência. Considerava os fatores morais, religiosos e econômicos, que operavam na sociedade como forças que um governante hábil poderia e deveria utilizar para construir um estado nacional forte. Assim, o príncipe com seu exército nacional que substituísse as precárias forças mercenárias, deveria ser capaz de estender seu domínio sobre todas as cidades italianas, acabando com a discórdia.

Em 1512, quando os Médici derrubaram a República e retomaram o governo de Florença, perdido em 1494, Maquiavel foi destituído de seu cargo e recolhe-se ao exílio voluntário na propriedade de San Casciano, perto de Florença, onde iniciou sua atividade de escritor político, historiador e literato. Em 1513, começou a trabalhar nos “Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio”, em que faz uma análise da República Romana, e procurou nas experiências do passado uma solução para os problemas da Itália.

Durante o exílio escreveu também “O Príncipe” (1513), “O Diário em Torno de Nossa Língua” (1516) procurando demonstrar a superioridade do dialeto florentino sobre os demais dialetos da Itália e “A Arte da Guerra”, publicada em 1521, em forma de diálogo, onde expõe as vantagens das milícias nacionais sobre as tropas mercenárias e realiza um exaustivo estudo de estratégia e tática militar.

Em 1519, anistiado, volta a Florença, sob as graças dos Médici. Em 1520, conseguiu do cardeal Giulio de Médici a função remunerada de escrever a “História de Florença”, um tratado em estilo clássico, que ficou consagrado como a primeira obra da historiografia moderna.

Em 1526, é encarregado pelo papa Clemente VII de inspecionar as fortificações de Florença e organizar um exército permanente para sua cidade, sob o comando de Giovanni Delle Bande. Em 1527, o saque de Roma pelo imperador Carlos V, do Sacro Império Romano-Germânico, restabeleceu a república em Florença. Maquiavel, visto como favorito dos Médici foi excluído de toda atividade política.

Nicolau Maquiavel faleceu em Florença, Itália, no dia 22 de julho de 1527. Seu corpo foi sepultado na Igreja da Santa Cruz, em Florença. Morreu sem ver seu sonho realizado, pois a unificação da Itália só se completaria no século XIX.

A virtude política no Príncipe

Para compreender a forma com que Nicolau Maquiavel trabalha com o conceito de virtù, e a sua relação com a vida política, é necessário compreender primeiro o que ela não é, de acordo com a sua filosofia. Se outrora, a política era entendida por seus contemporâneos, embebidos de uma tradição clássica, como Francesco Patrizi, como a arte de governar bem, essa arte não se dissociava, também, de uma preconceção política: A necessidade (daquele que deseja possuir essa arte) ser "virtuoso", podendo entender o "virtuoso" como àquele que se esforça para atingir o grau mais alto de excelência de acordo com os padrões defendidos pela tradição humanista: um bom exemplo é o “Das boas maneiras” de Pietro Paolo Vergerio, onde é defendida uma educação correta para os príncipes, e que a prática continua da virtú colocaria o homem a caminho da sabedoria. Durante o Renascimento, essa tradição era perpetuada por meio dos autores espelhos, isto é, autores que, através dos estudos humanistas, resgatavam o ideal clássico da arte de governar, com isso resgatando, também, um ideal de virtude – onde essa seria o fundamento político de todo e qualquer governo. Tais autores escreviam livros que aconselhavam os governantes a seguirem um modelo paradigmático, onde a conceção da virtude moral não se dissociava da virtude política para o exercício da arte de governar. Todavia, a postura de Maquiavel não somente configura um marco, por se distanciar dessa tradição (e ao mesmo tempo criticá-la), mas por dar luz a uma nova compreensão a respeito da virtude política. Maquiavel tratará do paradoxo do governante que pretende manter o poder: Como manter sempre uma auto-imagem virtuosa, ou agir sempre virtuosamente, ao passo que, agir, sempre de forma virtuosa, pode vir a prejudicar à manutenção do poder?

A autonomia da política

A resposta da filosofia de Maquiavel é a dissociação dicotômica da virtù política em relação à virtù moral. Se na visão tradicional, era necessário compor-se de virtudes moralmente dignificantes, para o exercício da arte de governar, em Maquiavel tal perspetiva se dilui. Isso se dá pois o homem está inserido em uma ordem natural que escapa do seu controle, em outras palavras, ele é o microcosmo de uma parte do todo, onde a natureza rege, ou controla, essa ordem a qual ele mesmo não criou, mas que, de algum modo, o modela.

Dessa análise deriva-se o conceito de Fortuna em Maquiavel, i.e, essa ordem que, em certa medida, é política, pois ela não somente regula a natureza mas, também, regula a vida e o comportamento dos homens de forma fortuita, ou contingencial, tendo que esses, se adaptarem a ela. Logo o mundo político se compõe de maneira diversa de um mundo de ordem moral idealizado pelos homens (como na possível República de Platão). Maquiavel, portanto, se mantém sensível ao problema da relação inversamente proporcional da vida política e da vida moral:

Há, porém, uma tão grande distância entre o modo como se vive e o modo como se deveria viver, que aquele que em detrimento do que se faz privilegia o que se deveria fazer mais aprende a cair em desgraça que a preservar a sua própria pessoa. Ora, um homem que de profissão queira fazer-se permanentemente bom não poderá evitar a sua ruína, cercado de tantos que bons não são. Assim, é necessário a um príncipe que deseja manter-se príncipe aprender a não usar a bondade, praticando-a ou não de acordo com as injunções.

O resultado é que a arte de governar deve, portanto, ter como escopo o real e concreto da vida dos homens (o modo como eles vivem) em sociedade (ou seja, a política por excelência), e a necessidade de promover uma estabilidade do poder no mundo da fortuna. Isso ocorre pois Maquiavel compreende que, antes de dar uma resposta que apele para sociedades, ou até mesmo governantes, moralmente idealizados — onde essas teriam que se adequar a esses ideais — é necessário partir do pressuposto evidente que a sociedade política antecede a sociedade moral

A sociedade moral é resultado do mundo político dos homens e esses estão inseridos, no mundo moral, por um conjunto de representações, ou seja, a moral regula a imagem representativa do homem em sociedade. Logo a prática, ou não, das virtudes morais, deve ter em vista o conjunto das relações na vida pública, e estar conformidade a ela.

Nova definição da virtude

Visto isso, a concepção de "virtù" ganha uma nova óptica em Maquiavel. Essa não é mais entendida como a arte de agir tendo em vista paradigmas moralmente idealizados, onde a ação do príncipe fosse regulada a partir de algum preceito atemporal, universal, onde o que se espera é agir tendo em vista algum bem (como na conceção moral aristotélica). Maquiavel se distancia da tradição moralista, mas mantém a conceção de agir tendo em vista um bem, no entanto, a partir de sua nova perspetiva, o príncipe deve agir tendo em vista o bem público, i.e, tendo em vista manter firme as relações que compõe a manutenção do poder. Como, no exemplo do capítulo XVII:

César Bórgia foi reputado cruel; entretanto a sua dita crueldade reconciliou internamente a Romanha, fê-la coesa, reconduzindo-a a um estado de paz e de fidelidade. Considerando tudo atentamente, veremos que ele foi muito mais piedoso que o povo florentino, o qual, para evitar a fama que advém da crueldade, permitiu a destruição de Pistoia. Um príncipe, portanto, para poder manter os seus súditos unidos e imbuídos de lealdade, não deve preocupar-se com esta infâmia, já que,com algumas poucas ações exemplares, ele mostrar-se-á mais piedoso que aqueles que, por uma excessiva comiseração acabam deixando medrar a desordem da qual derivam as mores e os latrocínios.

Logo, a conceção de virtù, nessa nova perspetiva, se atém à vida dos homens e as complexas relações desenvolvidas pela fortuna. A genuína virtù de um príncipe reside, agora, na capacidade desse de modelar-se diante dos homens, sabendo transitar entre o homem, i.e, o moral, e o animal, na medida que esse deve, assim como o leão e a raposa, saber fazer o bom emprego da força e da astúcia no momento necessário. A virtù, portanto, se constitui de fazer um bom uso da própria ação, já que o príncipe é o principal agente regulador do poder, portanto, ela é a habilidade de resolver problemas concretos da vida política.

Modelos de governo

Para Maquiavel, só há duas formas de governo: o Principado (governado por somente uma pessoa), e a República (governado por mais de uma pessoa). Em O Príncipe, Maquiavel discorre quase que exclusivamente sobre a primeira forma, como já anuncia logo no primeiro capítulo da obra, no qual também são apresentadas suas subdivisões (principados hereditários ou novos, estes novamente divididos em inteiramente novos ou anexados).

A revolução em ciência política operada por Maquiavel, relativamente ao pensamento político clássico, consiste em promover uma separação entre política e moral. Essa separação fica mais clara justamente em O Príncipe, pois as lições ali apresentadas visam exclusivamente à obtenção e manutenção do poder de Estado. Dessa maneira, em O Príncipe não se verificam distinções, tais como apresentadas por Aristóteles, entre formas puras e impuras de governo, estas resultantes de corrupções daquelas em razão de visarem ao bem do indivíduo ou grupo no poder, em vez de ao bem comum.

segunda-feira, 2 de março de 2026

XENÓFANES (570-475 a.C.)

 



 

Paolo Cugini (org.)

 

1. A posição de Xenófanes com relação aos eleatas

 

[...] ao invés, a nossa seita eleata, que começou com Xenófanes e mesmo antes, considera que o que se chama o universo é uno [...][1]

 

2. Crítica da concepção dos Deuses e destruição do pressuposto da religião tradicional

 

Mas se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos

ou pudessem pintar e realizar as obras que os homens realizam com as

[mãos,

 os cavalos pintaram imagens dos deuses semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois, e plasmariam os corpos dos deuses semelhantes ao aspecto que tem cada um deles[2].

E mais:

Os etíopes dizem que os seus deuses são negros e têm o nariz achatado, os trácios dizem, ao invés, que têm olhos azuis e cabelos ruivos[3].

 

Aos deuses Homero e Hesíodo atribuem

tudo o que para os homens é desonra e vergonha:

roubar, cometer adultério, enganar-se mutuamente[4].

 

Mas os mortais consideram que os deuses nascem,

que têm vestes, voz e figura com eles[5].

 

Sempre no mesmo lugar permanece sem mover-se absolutamente,

mas se lhe atribui o deslocamento ora para um lugar, ora para outro[6].

 

A que chamam Íris é, ao invés, também ela uma nuvem,

purpúrea, violácea, esverdeada aos nossos olhos[7].

 

3. Deus e Divino segundo Xenófanes

 

Uno, Deus, sumo entre os deuses e os homens,

nem por figura nem por pensamento semelhante aos homens[8].

 

Xenófanes, que antes mesmo destes [Parmênides e Melisso] afirmou a unidade do todo [...], não dá nenhum esclarecimento [sobre a natureza desse uno, se ele é material ou formal] [...], mas, estendendo a sua consideração a todo o universo, afirma que o uno é Deus[9].

O universo [...] é uno, Deus, sumo entre os deuses e os homens, nem por figura nem por pensamento semelhante aos homens[10].

 

Todo inteiro vê, todo inteiro pensa, todo inteiro ouve[11].

E ainda:

Mas sem fadiga, com a força da mente, tudo faz vibrar[12].

 

5. Idéias morais

 

Mas se alguém conquistasse a vitória com a velocidade do seus pés

ou conquistasse vitória no pentatlo, lá onde está o recinto sagrado de Zeus,

junto às torrentes do Pisa em Olímpia, ou lutando

ou mostrando-se hábil no cruel pugilato

e com aquela terrível disputa que chamamos pancrácio,

este se tornaria, aos olhos do seus concidadãos, mais glorioso que antes

e obteria o lugar de honra nos espetáculos públicos

e seria sustentado pelas reservas públicas

da Cidade ou receberia um dom a ser conservado qual cimélio;

e também se conseguisse vitória com os cavalos, obteria todas essas honras,

mesmo não sendo digno como eu o sou. De fato, superior à força

dos homens e dos cavalos é a nossa sabedoria.

Mas isso é avaliado desproporcionalmente, nem é justo

antepor a força ao valor da sabedoria.

E, de fato, embora houvesse entre o povo um valente pugilista

ou algum valente no pentatlo e na luta

ou na velocidade dos pés (que é a mais elevada em honra

entre as provas de força que os homens afrontam em disputas),

não por isso a Cidade teria uma ordem melhor.

E bem pouca alegria teria a Cidade,

se alguém competido vencesse nas torrentes do Pisa:

essas coisas não enriquecem os tesouros da cidade.

 

 



[1] Cf. Platão, Sofista, 242 c-d (= DK, 21 A 29).

[2] Diels-kranz, 21 B 15.

[3] Diels-kranz, 21 B 16.

[4] Diels-kranz, 21 B 11.

[5] Diels-kranz, 21 B 14.

[6] Diels-kranz, 21 B 26.

[7] Diels-kranz, 21 B 31.

[8] Para as contrastantes exegeses do fragmento cf. Zeller-Reale, pp. 84-88.

[9] Aristóteles, Metafísica, A 5, 986 b 21 ss. (=Diels-kranz, 21 A 30).

[10] Cf. Zeller-Reale, pp. 87s.

[11] Diels-kranz, 21 B 24; cf. Zeller-Reale, pp. 79ss.

[12] Diels-kranz, 21 B 25; sobre o fragmento, interpretado diferentemente, cf. Zeller-Reale, pp. 80s.

HENRI BERGSON (1859-1941)

    Para Henri Bergson, a evolução criativa é o conceito que ele expressou em sua obra homônima de 1907 para explicar que a vida não é o res...