quarta-feira, 20 de maio de 2026

PAUL RICOEUR E A REVISTA ESPRIT





Paolo Cugini

 

Os contatos e relações entre o filósofo francês Paul Ricoeur e a revista Esprit foram profundos, contínuos e estruturais, estendendo-se por mais de cinquenta anos. A Esprit, fundada em 1932 por Emmanuel Mounier como órgão do movimento personalista, representou para Ricoeur não apenas uma plataforma editorial, mas um verdadeiro laboratório intelectual e político.

 

1. Amizade com Mounier e Adesão ao Personalismo

Na década de 1930, Ricoeur desenvolveu um contato próximo com o catolicismo social francês e o núcleo original da Esprit. Ele desenvolveu uma profunda amizade e harmonia intelectual com o fundador Emmanuel Mounier. Embora Ricoeur fosse protestante, ele compartilhava a ideia de superar tanto o individualismo liberal quanto o coletivismo marxista através da centralidade da "pessoa".

2. Ingresso no Conselho Editorial (1948)

Em 1948, após retornar da prisão na Alemanha e iniciar sua carreira acadêmica em Estrasburgo, Ricoeur ingressou oficialmente no conselho editorial da Esprit. A partir desse momento, ele se tornou uma das figuras-chave da revista, moldando seus debates filosóficos e posicionamentos cívicos.

3. Repensando a "Pessoa" (1953)

Após a morte prematura de Mounier em 1950, Ricœur assumiu a tarefa de levar o legado da revista para a segunda metade do século XX. Em 1953, ele publicou um artigo famoso e seminal na Esprit intitulado "O Personalismo Morre, a Pessoa Retorna". Neste ensaio, ele propôs abandonar o personalismo como um sistema ideológico rígido (um "-ismo"), preferindo manter a ideia de "pessoa" como uma noção aberta e ética, projetada para os desafios futuros.

4. Compromisso Político e Anticolonialismo

Através das páginas da revista, Ricœur manteve um constante engajamento cívico de esquerda, abordando as questões mais prementes da história francesa:

• Guerra da Argélia: Ricœur e a equipe editorial da Esprit apoiaram abertamente a descolonização e o anticolonialismo, denunciando a tortura e as tendências nacionalistas.

 

• Crítica ao Totalitarismo: A revista tornou-se um espaço de firme oposição aos regimes soviéticos na Europa Oriental.

 

• Maio de 68: Ricœur vivenciou a crise de 68 em primeira mão (tornando-se posteriormente reitor de Nanterre), e a revista ofereceu amplo espaço para a análise crítica dessas convulsões sociais.

 

5. Diálogo com o Estruturalismo (1963)

A Esprit também provocou debates filosóficos históricos. Em novembro de 1963, a revista publicou uma célebre edição especial dedicada ao estruturalismo, que apresentou uma memorável entrevista-confronto entre Paul Ricœur e o antropólogo Claude Lévi-Strauss. Nessa edição, Ricœur discutiu os limites do modelo estrutural, lançando as bases para sua posterior virada hermenêutica.

6. Últimos Anos e Redescoberta

Mesmo em idade avançada, Ricœur permaneceu um ponto de referência para a Esprit (então dirigida por Olivier Mongin). Foi precisamente nesse contexto editorial que, no final da década de 1990, um jovem Emmanuel Macron trabalhou como assistente editorial de Ricœur na obra Memória, História e Esquecimento, antes de ingressar no conselho editorial da revista.

No total, Ricœur escreveu 95 artigos para o periódico francês, e a Revue Esprit continuou a dedicar-lhe importantes edições monográficas tanto durante a sua vida como após a sua morte em 2005 (como o dossiê de 2024 dedicado aos poderes da imaginação).

terça-feira, 12 de maio de 2026

O CINISMO

 



 

O cinismo foi uma corrente filosófica fundada por Antístenes, discípulo de Sócrates e como tal praticada pelos cínicos. Para os cínicos, o propósito da vida era viver na virtude, de acordo com a natureza. Como criaturas racionais, as pessoas podem obter felicidade por meio de um treinamento rigoroso e vivendo de uma maneira que seja natural para elas mesmas, rejeitando todos os desejos convencionais de riqueza, poder e fama - em vez disso, eles deveriam levar uma vida simples, livre da necessidade de posses - e até mesmo desrespeitando as convenções sociais aberta e ironicamente.

O primeiro filósofo a definir o cinismo foi Antístenes, ex-aluno de Sócrates no final do século V a.C. Ele foi seguido por Diógenes de Sinope, que vivia dentro de um jarrão de cerâmica em Atenas, e que levou o cinismo aos seus extremos lógicos e passou a ser visto como o arquétipo do filósofo cínico, sua autarkeia (autossuficiência) e a apatheia perante as vicissitudes da vida eram os ideais do cinismo. Ele foi seguido por Crates de Tebas, que doou uma grande fortuna para que pudesse viver de acordo com o cinismo em Atenas.

O cinismo se espalhou durante a ascensão do Império Romano no século I quase se tornando um movimento de massa, e assim, os cínicos eram encontrados mendigando e pregando ao longo das cidades do império. A doutrina finalmente desapareceu no final do século V, embora alguns afirmem que o cristianismo primitivo adotou muitas de suas ideias ascéticas e retóricas.

Por volta do século XIX, a ênfase sobre os aspectos negativos da filosofia cínica levou ao entendimento moderno de cinismo a significar uma disposição de descrença na sinceridade ou bondade das motivações e ações humanas e como caraterização de pessoas que desprezam as convenções sociais. Para encorajar as pessoas a renunciarem aos desejos criados pela civilização e convenções, os cínicos empreenderam uma cruzada de escárnio antissocial e assim mostrar as frivolidades da vida social.

Origem do termo

 Uma explicação existente em tempos antigos de porque os cínicos eram chamados de cães era porque o primeiro cínico, Antístenes, ensinava no ginásio Cinosargo, um ginásio e templo para nothoi atenienses. "Nothoi" é um termo que designa aquele que não possui a cidadania ateniense por ter nascido de uma escrava, estrangeira, prostituta, de pais cidadãos mas não legalmente casados, ou ainda, bastardos de mulheres hilotas.

A palavra Cynosarges significa ou pode significar ainda "alimento de cão", "cão branco", ou "cão rápido". Parece certo, contudo, que a palavra "cão" também foi lançada aos primeiros cínicos como um insulto por sua rejeição descarada quanto às convenções sociais e sua decisão de viver nas ruas.

Diógenes de Sinope, em particular, foi referido como o cão, ao ter afirmado que "os outros cães mordem seus inimigos, eu mordo meus amigos para salvá-los". Mais tarde, os cínicos também buscaram transformar a palavra a seu favor, como um comentarista explicou:

 

Há quatro razões de por que os "cínicos" são assim chamados. Primeiro por causa da indiferença de seu modo de vida, pois fazem um culto à indiferença e, assim como os cães, comem e fazem amor em público, andam descalços e dormem em barris nas encruzilhadas. A segunda razão é que o cão é um animal sem pudor, e os cínicos fazem um culto à falta de pudor, não como sendo falta de modéstia, mas como sendo superior a ela. A terceira razão é que o cão é um bom guarda e eles guardam os princípios de sua filosofia. A quarta razão é que o cão é um animal exigente que pode distinguir entre os seus amigos e inimigos. Portanto, eles reconhecem como amigos aqueles que são adequados à filosofia, e os recebem gentilmente, enquanto os inaptos são afugentados por ele, como os cães fazem, ladrando contra eles (Escólio na Retórica de Aristóteles).

 

Diógenes de Sinope ( 404 ou 412 a.C. – Corinto, c. 323 a.C.[), também conhecido como Diógenes, o Cínico, foi um filósofo da Grécia Antiga, durante o período da Grécia Clássica, e um dos fundadores do Cinismo. Conhecido por seu estilo de vida ascético e críticas radicais às convenções sociais, tornou-se uma figura lendária cuja vida e ensinamentos foram relatados, frequentemente por meio de anedotas, tanto na antiguidade quanto na modernidade. Diógenes defendia o retorno à natureza, a renúncia à riqueza e introduziu ideias pioneiras de cosmopolitismo ao se proclamar um "cidadão do mundo".

Diógenes nasceu em uma família próspera em Sinope. Sua vida deu uma guinada dramática após um escândalo envolvendo a desvalorização de moedas, evento que o levou ao exílio e, por fim, à sua rejeição radical dos valores convencionais. Abraçando uma vida de pobreza e autossuficiência, ele ficou famoso por seus comportamentos não convencionais e desavergonhados que desafiavam abertamente as normas sociais, como viver em um jarro ou vagar por espaços públicos com uma lanterna acesa à luz do dia, alegando estar "à procura de um homem", ou seja, "um homem sábio" (sophos).

CÍCERO ( 106–43 a.C.) E O ECLETISMO ACADÊMICO EM ROMA

 





 


Texto de Giovanni Reale

Síntese: Paolo Cugini

 

 

O probabilismo eclético ciceroniano.

 

Sempre me agradou o hábito dos peripatéticos e dos acadêmicos de discutir, de todos os problemas, o pró e o contra: não só porque esse sistema é o único apto para descobrir em qualquer situação o elemento de verossimilhança, mas também pelo ótimo exercício que isso constitui para a palavra[1].

 

Não somos dos que negam em absoluto a existência da verdade: limitamo-nos a sustentar que a cada verdade está unido algo que não é verdadeiro, mas tão semelhante a ela, de modo que ela não pode nos oferecer qualquer sinal distintivo que nos permita formular um juízo e dar o nosso assenso. Daí deriva a existência de muitos conhecimentos prováveis que, mesmo não sendo plenamente certificado, mostram-se tão nobres e elevados a ponto de poderem servir de guia para o sábio[2].

 

Perguntam-me porém, homens de letras e cultos, se creio agir com suficiente coerência quando, ao mesmo tempo que observo que nada pode ser conhecido com certeza, costumo disputar sobre outras questões e, com isso, busco dar regras sobre o dever. A estes gostaria de estabelecer o meu pensamento. Pois não sou daqueles cuja alma vaga na incerteza e não têm nunca um princípio a seguir. Que seria, com efeito, da nossa mente, ou antes, da nossa vida, se fosse excluída toda norma, não só de raciocínio, mas também de vida? Como os outros afirmam a certeza de algumas e a incerteza de outras coisas, nós, ao invés, discordando deles, sustentamos a probabilidade de algumas coisas e a improbabilidade de outras. Que, portanto, me pode impedir de seguir o que me parece provável e desaprovar o que me parece improvável, e assim fugir, evitando a presunção de nítidas afirmações, à temeridade, que está muito longe da verdadeira sabedoria?[3]

 

Há liberdade de pensamentos, e cada um pode sustentar o que quiser; quanto a mim, ater-me-ei ao meu princípio, e buscarei sempre em todas as questões a máxima probabilidade, sem estar ligado às leis de nenhuma escola particular à qual deva forçosamente seguir na minha especulação[4].

 

Estas são as maiores questões da filosofia: o critério da verdade e o fim dos bens,e não pode ser sábio quem ignore ou o princípio do conhecimento ou o termo do apetite, de modo a ignorar de onde se deve partir ou onde se deve chegar[5].

 

Física, teologia e psicologia.

 

Todas as coisas permanecem-nos ocultas, ocultadas e circundadas de densas trevas, a tal ponto que nenhuma perspicácia da humana inteligência é tão grande que possa penetrar no céu ou entrar na terra[6].

 

Não penso [...] que se devam excluir essas questões físicas. Com efeito, a consideração e a contemplação da natureza é como natural alimento das almas e das mentes. Elevando-nos, parece que nos engrandecemos, desprezamos as coisas humanas e, pensando nas coisas superiores e celestes, desdenhamos as nossas como pequenas e vis. A própria investigação das coisas grandes e ocultas nos dá alegria. Se, depois, acontece que algo nos pareça verossímil, então a alma se enche de humano prazer[7].

 

Quanto à existência dos deuses, a prova mais sólida que se pode aduzir é esta, ao que parece: não há povo, por mais bárbaro, não há homem no mundo, por selvagem que seja, que não tenha na mente pelo menos uma idéia da divindade. Sobre os deuses, muitos têm convicções erradas e isso, normalmente, é devido à influência corrupta do hábito: mas todos crêem na existência de uma força e de uma natureza divina, e tal convicção não é efeito de uma precedente troca de idéias entre os homens e de um acordo geral, nem encontrou apoio em instituições ou leis: ora, em qualquer questão, o consenso dos povos deve ser considerado lei da natureza[8].

 

E a própria divindade, tal como a representamos, não pode ser concebida senão como um espírito independente, livre (mens soluta quaedam et libera), e isenta de qualquer elemento corruptível: um espírito que tudo sente e tudo move, e é, por sua vez, dotado de eterno movimento[9].

 

Nada do que existe sobre a terra pode explicar a origem da alma, porque nela não há nada que seja misturado ou composto, nada que se possa considerar derivado ou formado da terra, nada que tenha a natureza da água, do ar ou do fogo. Com efeito, na composição desses elementos, não entra nada que tenha a propriedade da memória, da inteligência, do pensamento, nada que possa reter o passado, prever o futuro, abraçar o presente: este são atributos exclusivamente divinos, e nunca se poderá encontrar para eles outra proveniência senão a divindade. A alma, em suma, tem uma essência e uma natureza toda especial, e bem distinta da dos outros elementos comuns por nós conhecidos. Portanto, qualquer que seja a natureza da entidade que sente, conhece, vive, age, ela deve ser necessariamente celeste e divina e, conseqüentemente, eterna. E a própria divindade, tal como a representamos, não pode ser concebida senão como um espírito independente, livre e isento de qualquer elemento corruptível: um espírito que tudo sente e tudo move, e é, por sua vez, dotado de eterno movimento. Dessa espécie e dessa mesma natureza é a alma humana[10].

 

E, sem dúvida, se a divindade é ar e fogo, do mesmo modo é feita a alma do homem: aquela substância celeste não tem em si nem terra nem líquido, e esses dois elementos estão igualmente ausentes da alma humana. Se existe uma quintessência, a que foi introduzida por Aristóteles, ela se encontra, seja na divindade, seja na alma[11].

 

Ética.

 

Considero que sejam mais conformes à natureza os deveres que emanam do sentimento social, não os que emanam da sabedoria, e isso pode ser afirmado pelo seguinte argumento: se a um homem sábio coubesse uma condição de vida tal que, afluindo-lhe as mais variadas riquezas, ele pudesse dedicar-se com plena tranqüilidade ao estudo e à contemplação de todas as coisas dignas de serem conhecidas, todavia, se a solidão fosse tão grande que a ninguém pudesse ver, ele preferiria morrer [...]. Efetivamente, o conhecimento e a contemplação (da natureza) seriam de certo modo inacabados e imperfeitos, se não se lhes seguisse alguma atividade concreta; e essa atividade manifesta-se especialmente em assegurar a utilidade dos homens; refere-se, pois, à sociedade do gênero humano; por isso ela deve ser anteposta à ciência[12].

 



[1] Tusc. disput., II, 3, 9.

[2] De nat. deorum, I, 5, 12; cf. Acad. pr., II, 31, 98ss.

[3] De officiis, II, 2, 7-8.

[4] Tusc. disput., IV, 4, 7.

[5] Acad. pr., II, 9, 29.

[6] Acad. pr., II, 39, 122.

[7] Acad. pr., II, 41, 127.

[8] Tusc. disput., I, 13, 30.

[9] Tusc. disput., I, 27, 66.

[10] Tusc. disput., I, 27, 66.

[11] Tusc. disput., I, 26, 65.

[12] De officiis, I, 43, 153 (na passagem omitida entre colchetes Cícero fala da superioridade da sophia sobre a phrónesis, mas contradizendo-se de modo impressionante).

A FILOSOFIA NA EPOCA HELENÍSTICA (IV-I SEC a.C)





 

Durante o período helenístico (que começou após a morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C.), a filosofia focou menos na política e mais na ataraxia — a busca pela paz de espírito e felicidade individual.

Aqui estão as principais escolas e seus fundadores:

  1. Estoicismo
    • Fundador: Zenão de Cítio 334 a.C. – c. 262 a.C. (viveu cerca de 72 anos).
    • Ideia central: Viver em conformidade com a natureza e a razão, aceitando o que não podemos mudar e mantendo o autocontrole diante da dor e da adversidade.

 

  1. Epicurismo
    • Fundador: Epicuro de Samos 341 a.C. – 270 a.C. (morreu aos 72 anos devido a cálculos renais).
    • Ideia central: A busca pelo prazer moderado (ausência de dor física e de perturbação mental) e a importância da amizade e do conhecimento para superar o medo da morte e dos deuses.

 

  1. Ceticismo (Pirronismo)
    • Fundador: Pirro de Élis 360 a.C. – c. 270 a.C. (viveu cerca de 90 anos).
    • Ideia central: A suspensão do juízo (epoché). Como não podemos ter certeza absoluta sobre a verdade das coisas, o melhor é não julgar para alcançar a tranquilidade.

 

  1. Cinismo
    • Fundador: Antístenes 445 a.C. – c. 365 a.C.
    • (embora Diógenes de Sinope seja o seu representante mais famoso).
    • Ideia central: Rejeição das convenções sociais, da riqueza e do luxo em favor de uma vida simples e extremamente natural, focada apenas na virtude.

 

 

PIRRO (c. 360 – 270 a.C.)

 


 


 

Texto: Giovanni Reale

Síntese: Paolo Cugini

 

 

Pirro de Élis (c. 360 – 270 a.C.) foi um filósofo grego, reconhecido como o fundador do ceticismo antigo, também chamado de Pirronismo. Ele defendia que a verdade absoluta sobre a natureza das coisas é impossível de ser alcançada pelo ser humano.

 

O encontro com o Oriente e o influxo dos ginosofistas.

 

[Pirro] teve a possibilidade de estabelecer relações com os ginosofistas na Índia e com os magros. Dali tirou maior estímulo para as suas convicções filosóficas, e parece que abriu para si a via nobre na filosofia, enquanto introduziu e adotou os princípios da akatalexía (isto é, da irrepresentabilidade ou incompreensão das coisas) e da apoché (isto é, da suspensão do juízo): esse primado foi-lhe atribuído por Ascânio de Abdera[1].

 

Retirava-se do mundo e buscava a solidão tranqüila, de modo que raramente mostrava-se aos de casa. Comportava-se assim porque ouviu um hindu reprovar a Anaxarco, dizendo-lhe que jamais poderia instruir alguém a ser melhor, enquanto ele mesmo freqüentasse as cortes reais e obsequiasse os reis[2].

 

Calano, que por um breve período foi atormentado por dores no ventre, pediu que lhe erigissem uma fogueira. Depois, dirigiu-se ao lugar a cavalo, rezou e derramou as libações fúnebres sobre si mesmo, cortou uma mecha dos próprios cabelos e ofereceu-a aos deuses, como se usa nos sacrifícios, e subiu à fogueira, saudando os macedônios presentes e exortando-os a transcorrer prezerosamente aquele dia e a banquetear-se junto ao rei, o qual logo, disse ele, deveria rever Babilônia. Dito isso, deitou-se e cobriu a cabeça. O fogo aproximou-se, mas ele não se moveu: como se tinha deitado, assim permaneceu, imolado-se segundo o uso dos sábios do seu país[3].

 

O influxo dos megáricos e dos atomistas.

 

Anaxarco nasceu em Abdera. Foi aluno de Diógenes de Esmirna, o qual, por sua vez, foi aluno de Metrodoro de Quios, que costumava dizer que não sabia nada, nem sequer que nada sabia. Dizem que Metrodoro foi aluno de Nexa de Quios, mas corre também a versão de que foi aluno de Demócrito[4].

De resto, sabemos também que

Pirro, muito amiúde, citava Demócrito[5].

 

E não poucos eram [...] os que diziam que também Metrodoro e Anaxarco [...] negaram a existência do critério do juízo; principalmente Metrodoro, porque diz: “Nada sabemos, e não sabemos nem mesmo isto, que nada sabemos”[6].

 

Demócrito às vezes refuta as aparências sensíveis e diz que nada nelas nos aparece segundo a verdade, mas só conforme à opinião, e que o verdadeiro nos objetos consiste em que esses são átomos e vazio. De fato, ele diz: “Opinião é o doce, opinião o amargo, opinião o quente, opinião o frio, opinião a cor; verdade os átomos e o vazio”; vale dizer: considera-se e opina-se que existam qualidades sensíveis, porém, na verdade elas não existam, mas somente os átomos e o vazio. Nos seus Livros probatórios, embora tivesse prometido atribuir valor de credibilidade às sensações, entretanto encontra-se que ele as condena: “Na realidade nós não conhecemos nada que seja invariável, mas só aspectos mutáveis segundo a disposição do nosso corpo e do que nele penetra ou lhe resiste[7].

 

“Que, portanto, nós não conheçamos segundo a verdade o modo como é ou como se constitui cada objeto, foi demonstrado em vários lugares[8].

De modo particular, agradou aos céticos a afirmação democritiana:

Na realidade nós nada conhecemos, porque a verdade jaz no abismo[9].

 

A reviravolta radical da ontologia.

Ó velho, ó Pirro, como e onde encontraste saída para a servidão às vãs opiniões dos sofistas, e quebraste as cadeias de todos os enganos e o encanto das suas tagarelices? Nem te preocupaste com investigar que ventos correm na Hélade, nem de que se formam todas as coisas e em que se dissolvem[10].

 

As coisas não possuem qualquer diferença, nem medida, nem discriminação[11].

 

Nada é mais isso que aquilo[12].

 

O fenômeno domina sempre, onde quer que apareça[13].

 

Na verdade, o que desde os tempos antigos, como agora e sempre, constitui o eterno objeto de pesquisa e o eterno problema: que é o ser, equivale a isso: que é a substância [...]: por isso também nós, principalmente, por assim dizer, devemos examinar que é o ser nesse sentido[14].

 

O pirronismo como sistema prático de sabedoria e as suas três regras fundamentais.

 

Filo, o ateniense, seu íntimo amigo, dizia que Pirro mencionava muito amiúde a Demócrito, mas também a Homero, a quem admirava e do qual costumava citar o verso:

Qual a estirpe das folhas, a mesma também a dos homens.

E louvava-o ainda porque costumava comparar os homens às vespas, às moscas e aos pássaros. E citava de bom grado os seguintes versos:

Portanto, amigo, Pátroclo, que era muito mais valoroso que tu.

e todas as passagens alusivas à instabilidade da condição humana, à inutilidade dos propósitos e à pueril loucura do homem[15].

 

[Pirro] não deixou nada escrito, mas o seu discípulo Tímon diz que quem deseja ser feliz deve considerar essas três coisas: 1) em primeiro lugar, qual é a natureza das coisas; 2) em segundo lugar, de que modo devemos nos dispor diante delas; 3) em terceiro lugar, o que resultará aos que se encontram nessa disposição. 1)Ora, ele diz que Pirro mostra que as coisas são igualmente indiferentes, imensuráveis e indiscrimináveis e, por isso, nem as nossas sensações nem as nossas opiniões podem ser verdadeiras ou falsas. 2) Por conseqüência, não se lhes deve dar confiança, mas é preciso ser sem opinião, sem inclinação, sem agitação, afirmando de cada coisa que é não mais do que não é, ou que é e que não é, ou ainda que nem é nem não é. 3) Os que se põem nessa disposição conseguirão, diz Tímon, em primeiro lugar, a afasia, e depois a ataraxia[16].

 

A natureza das coisas como aparência indiferenciada e a natureza do divino e do bem.

 

Pirro dizia que nada é belo nem feio, nada é justo nem injusto, e aplicava igualmente a todas as coisas o princípio segundo o qual nada existe na verdade, e sustentava que tudo o que os homens fazem acontece por convenção e por hábito, e que nada é mais isso que aquilo[17].

 

Dir-te-ei na verdade como me parece que seja, tomando como reto cânon essa palavra de verdade: uma natureza do divino e do bem vive eternamente, da qual deriva para o homem a vida igualíssima (ίσóτατος βίος)[18].

 

Dado que Aristo e Pirro consideram isso sem qualquer importância, a ponto de dizer que não há absolutamente qualquer diferença entre gozar de ótima saúde e ter a mais grave das enfermidades, com razão já há muito tempo cessou toda disputa contra eles. Com efeito, quiseram considerar tudo na virtude, de modo a privá-la de toda faculdade de escolha sem, ademais, conceder-lhe um ponto de origem ou de apoio; isto fazendo, aboliram a própria virtude, à qual atribuíam tão grande valor[19].

Portanto – parece-me – todos os que consideraram o viver honestamente como fim último do bem, enganaram-se, porém, alguns mais e outros menos: mais do que todos, naturalmente, Pirro, que, uma vez estabelecia a virtude, não deixa absolutamente nada a que se tenha inclinação; depois Aristo, que não ousou não deixar nada e introduziu impulsos pelos quais o sábio se inclinasse a alguma coisa, qualquer uma que lhe passasse pela mente e, por assim dizer, se lhe apresentasse diante. Este, melhor do que Pirro, porque concedeu alguma espécie de inclinação natural; pior do que os outros, porque afastou-se profundamente da natureza[20].

 

A atitude que o homem deve assumir diante das coisas: a abstenção do juízo e a indiferença.

 

É evidente que a discussão com tal adversário não pode dar em nada, porque ele não diz nada: de fato, ele não diz nem que a coisa é assim, nem que não é assim, mas diz que é assim e não é assim, e em seguida, de novo, nega uma e outra afirmação, e diz que a coisa não é assim nem não assim[21].

 

É preciso não ter opinião [...] afirmando de cada coisa que é, não mais do que não é, ou que é e que não é, ou ainda que nem é nem não é. Os que se põe nessa disposição em primeiro lugar a afasia [...][22].

 

Viveu piamente com a irmã, que era parteira, segundo o testemunho de Erastóstenes, na sua obra Riqueza e pobreza, onde também se narra que às vezes Pirro levava para vender no mercado, segundo os casos, pássaros e leitões e fazia a limpeza da casa com perfeita indiferença. Diz-se também que dava outra prova de indiferença ao lavar um leitãozinho[23].

 

Com efeito, por que razão aquele que raciocina desse modo [ou seja, negando o princípio de não-contradição] vai verdadeiramente a Megara e não fica em casa tranqüilo, contentando-se simplesmente com pensar em ir? E por que, ocasião, quando ocorre, não despenca um poço ou num precipício, mas cuidar-se bem, como se estivesse convencido de que o cair ali não seria absolutamente coisa boa e não boa? É claro, que ele considera a primeira coisa melhor e a outra pior[24].

 

A sua vida foi coerente com a sua doutrina. Deixava todas as coisas seguirem o seu curso natural e não tomava qualquer precaução, mas mostrava-se indiferente diante de qualquer perigo que lhe ocorresse, fossem carros ou precipícios ou cães, e absolutamente nada concedia ao arbítrio dos sentidos. Mas, segundo o testemunho de Antígono de Caristo, eram os seus amigos, que sempre o acompanhavam, a salvá-lo dos perigos[25].

 

Nunca perdia a compostura, de modo que se alguém se intrometia no seu discurso, ele o concluía tranqüilamente, embora na juventude tivesse sido facilmente irascível [...]. Quando, certa feita, Anxarco caiu pântano, Pirro continuou o seu caminho sem ajuda-lo. Alguém reprovou-o por tal comportamento, mas o próprio Anaxarco louvou a sua indiferença e a sua impassibilidade[26].

 

A conquista da afasia, da ataraxia e da apatia.

 

Sobre a afasia digamos o seguinte [...]. Em sentido genérico, “fasi” é uma palavra que significa afirmação ou negação, como “é dia”, “não é dia” [...]. Portanto, afasia equivale a renunciar à fasi, no seu significado comum, no qual dizemos que estão contidas a afirmação e a negação; de modo que afasia é uma afecção interna a nós, pela qual nem afirmamos nem negamos[27].

 

Enquanto os seus companheiros de viagem no navio apavoravam-se por causa de uma tempestade, ele permanecia tranqüilo e retomava ânimo, apontando um leitãozinho que continuava a comer, e acrescentando que tal imperturbabilidade (άταραξία) era exemplar para o comportamento do sábio[28].

 

Narra-se, ademais, que, quando por alguma ferida foram-lhe aplicados medicamentos corrosivos e teve de submeter-se a cortes ou cauterizações, não contraiu sequer pálpebras[29].

 

Segundo Aristo, o bem consiste em não ser, nessas coisas [intermédias entre a virtude e o vício], movido nem a uma parte nem a outra e isso é chamado por ele de adiaforia. Mas Pirro diz que o sábio nem sequer o sente e chama a isso de apatia[30].

 

Mas certa feita perdeu a calma por uma injúria dirigida a sua irmã – que se chamava Filista – e, a quem o repreendeu, disse que uma mulher não é um bom ponto de comparação para a indiferença. Outra vez foi agitado pelo ataque de um cão e replicou, a quem o reprovou por isso, dizendo que era difícil espoliar completamente o homem (óλοσҳερώς έκδϋναι τόν άνθρωπον), acrescentando que contra as coisas é preciso, em primeiro lugar, se possível, lutar com fatos, do contrário, com a razão[31].

 

 



[1] Diógenes Laércio, IX, 61 (= Decleva Caizzi, test. 1 A).

[2] Diógenes Laércio, IX, 63 (= Decleva Caizzi, test. 10)

[3] Plutarco, Vida de Alexandre, 69.

[4] Diógenes Laércio, IX, 58 (Diels-kranz, 72 A 1).

[5] Diógenes Laércio, IX, 67 (= Decleva Caizzi, teste. 20).

[6] Sexto Empírico, Contra os matem., VII, 87s. (Diels-kranz, 70 A 25; cf. também 70 B 1).

[7] Sexto Empírico, Contra os matem., VII, 135 (Diels-kranz, 68 B 9).

[8] Idem, ibidem (= Diels-kranz, 68 B 10)

[9] Diels-kranz, 69 B 117.

[10] Tímon, fr. 48 Diels = Decleva Caizzi, test. 60.

[11] Aristécles, fr. 6 Heiland (= Decleva Caizzi, test. 53).

[12] Diógenes Laércio, IX, 61 (= Declava Caizzi, test. 1).

[13] Tímon, fr. 69 Diels (=Decleva Caizzi, test. 63 A e 63 B). Cf. as observações que sobre isso faz Conche, Pyrrhon..., pp. 21 ss.

[14] Aristóteles, Metafísica, Z 1, 1028 b 1-7.

[15] Diógenes Laércio, IX, 67 (=Decleva Caizzi, test. 20). Os dois versos de Homero citados são tirados da Ilíada, VI, 146 e XXI, 106s.

[16] Aristóteles, fr. 6 Heiland (=Decleva Caizzi, test. 53).

[17] Diógenes Laércio, IX, 61 (= decleva Caizzi, test. 1 A).

[18] Sexto Empírico, Adv. Math., XI, 20 (Tímon, fr. 68 Diels = Decleva Caizzi, test. 62)

[19] Cícero, De fin., II, 13, 43 (=Decleva Caizzi, test. 69 B). Sobre Aríston cf. A. M. loppolo, Aristone di chio e lo stoicismo ântico, Bibliopolis, Nápoles 1890.

[20] Cícero, De fin., IV, 16, 43 (=Decleva Caizzi, test. 69 C). Eis ainda uma  passagem da mesma obra (V, 8, 23 – Decleva Caizzi, test. 69 I): “Não sentimos a necessidade de citar as teorias, atualmente desaprovadas e descartadas, de Pirro, Aristo e Hérilo, pois não podem entrar no círculo traçado por nós. Todo esse problema do termo extremo e, por assim dizer, dos limites do bem e do mal, parte do que definimos como conexo a apropriado à natureza, e constitui o primeiro objeto para o qual se exercita a natural inclinação: portanto, os dois primeiros a abolem completamente, afirmando qu para as coisas nas quais não intervém a noção de honesto ou desonesto não há razão para estabelecer preferências e que entre eles não existe diferença alguma, e também Hérilo, se pensou que nada é bom fora do saber, aboliu todo motivo para tomar uma deliberação, bem como a faculdade de encontrar o dever”.

[21] Aristóteles, Metafísica, I 4, 1008 a 30-33.

[22] Aristóteles, apud Eusébio, Praep. Evang., XVI, 18, 3s. (=Decleva Caizzi, test. 53).

[23] Diógenes Laércio, IX, 66 (=Decleva Caizzi, test. 14)

[24] Aristóteles, Metafísica, I, 4, 1008 b 14-19.

[25] Diógenes Laércio, IX, 62 (=Decleva Caizzi, test. 6).

[26] Diógenes Laércio, IX, 63 (=Decleva Caizzi, test. 10)

[27] Sexto Empírico, esboços pirronianos, I, 192.

[28] Possidônio, apud Diógenes Laércio, IX, 68 (= Edelstein-kidd, fr. 287 = Theiler, fr. 453 Db = Decleva Caizzi, test. 17 A).

[29] Diógenes Laércio, IX, 67 (= Decleva Caizzi, test. 17 A).

[30] Cícero, Acad. pr., II, 42, 130 (= Decleva Caizzi, test. 69 A).

[31] Diógenes Laércio, IX, 66 (= Decleva Caizzi, test. 15 A).

PAUL RICOEUR E A REVISTA ESPRIT

Paolo Cugini   Os contatos e relações entre o filósofo francês Paul Ricoeur e a revista Esprit foram profundos, contínuos e estruturais, est...