Texto: Giovanni Reale
Síntese: Paolo Cugini
Pirro de Élis
(c. 360 – 270 a.C.) foi um filósofo grego, reconhecido como o fundador do
ceticismo antigo, também chamado de Pirronismo. Ele defendia que a verdade
absoluta sobre a natureza das coisas é impossível de ser alcançada pelo ser
humano.
O encontro com o Oriente e o influxo dos ginosofistas.
[Pirro] teve a
possibilidade de estabelecer relações com os ginosofistas na Índia e com os
magros. Dali tirou maior estímulo para as suas convicções filosóficas, e parece
que abriu para si a via nobre na filosofia, enquanto introduziu e adotou os
princípios da akatalexía (isto é, da irrepresentabilidade ou incompreensão das
coisas) e da apoché (isto é, da suspensão do juízo): esse primado foi-lhe
atribuído por Ascânio de Abdera.
Retirava-se do
mundo e buscava a solidão tranqüila, de modo que raramente mostrava-se aos de
casa. Comportava-se assim porque ouviu um hindu reprovar a Anaxarco,
dizendo-lhe que jamais poderia instruir alguém a ser melhor, enquanto ele mesmo
freqüentasse as cortes reais e obsequiasse os reis.
Calano, que por
um breve período foi atormentado por dores no ventre, pediu que lhe erigissem
uma fogueira. Depois, dirigiu-se ao lugar a cavalo, rezou e derramou as
libações fúnebres sobre si mesmo, cortou uma mecha dos próprios cabelos e
ofereceu-a aos deuses, como se usa nos sacrifícios, e subiu à fogueira,
saudando os macedônios presentes e exortando-os a transcorrer prezerosamente
aquele dia e a banquetear-se junto ao rei, o qual logo, disse ele, deveria
rever Babilônia. Dito isso, deitou-se e cobriu a cabeça. O fogo aproximou-se,
mas ele não se moveu: como se tinha deitado, assim permaneceu, imolado-se
segundo o uso dos sábios do seu país.
O influxo dos megáricos e dos atomistas.
Anaxarco nasceu em Abdera. Foi aluno de
Diógenes de Esmirna, o qual, por sua vez, foi aluno de Metrodoro de Quios, que
costumava dizer que não sabia nada, nem sequer que nada sabia. Dizem que
Metrodoro foi aluno de Nexa de Quios, mas corre também a versão de que foi
aluno de Demócrito.
De resto,
sabemos também que
Pirro, muito
amiúde, citava Demócrito.
E não poucos
eram [...] os que diziam que também Metrodoro e Anaxarco [...] negaram a
existência do critério do juízo; principalmente Metrodoro, porque diz: “Nada
sabemos, e não sabemos nem mesmo isto, que nada sabemos”.
Demócrito às
vezes refuta as aparências sensíveis e diz que nada nelas nos aparece segundo a
verdade, mas só conforme à opinião, e que o verdadeiro nos objetos consiste em
que esses são átomos e vazio. De fato, ele diz: “Opinião é o doce, opinião o
amargo, opinião o quente, opinião o frio, opinião a cor; verdade os átomos e o
vazio”; vale dizer: considera-se e opina-se que existam qualidades sensíveis,
porém, na verdade elas não existam, mas somente os átomos e o vazio. Nos seus
Livros probatórios, embora tivesse prometido atribuir valor de credibilidade às
sensações, entretanto encontra-se que ele as condena: “Na realidade nós não
conhecemos nada que seja invariável, mas só aspectos mutáveis segundo a
disposição do nosso corpo e do que nele penetra ou lhe resiste.
“Que, portanto,
nós não conheçamos segundo a verdade o modo como é ou como se constitui cada
objeto, foi demonstrado em vários lugares.
De modo
particular, agradou aos céticos a afirmação democritiana:
Na realidade nós
nada conhecemos, porque a verdade jaz no abismo.
A reviravolta radical da ontologia.
Ó velho, ó
Pirro, como e onde encontraste saída para a servidão às vãs opiniões dos
sofistas, e quebraste as cadeias de todos os enganos e o encanto das suas
tagarelices? Nem te preocupaste com investigar que ventos correm na Hélade, nem
de que se formam todas as coisas e em que se dissolvem.
As coisas não
possuem qualquer diferença, nem medida, nem discriminação.
Nada é mais isso
que aquilo.
O fenômeno
domina sempre, onde quer que apareça.
Na verdade, o
que desde os tempos antigos, como agora e sempre, constitui o eterno objeto de
pesquisa e o eterno problema: que é o ser, equivale a isso: que é a substância
[...]: por isso também nós, principalmente, por assim dizer, devemos examinar
que é o ser nesse sentido.
O pirronismo como sistema prático de sabedoria e as
suas três regras fundamentais.
Filo, o
ateniense, seu íntimo amigo, dizia que Pirro mencionava muito amiúde a
Demócrito, mas também a Homero, a quem admirava e do qual costumava citar o
verso:
Qual a estirpe
das folhas, a mesma também a dos homens.
E louvava-o
ainda porque costumava comparar os homens às vespas, às moscas e aos pássaros.
E citava de bom grado os seguintes versos:
Portanto, amigo,
Pátroclo, que era muito mais valoroso que tu.
e todas as
passagens alusivas à instabilidade da condição humana, à inutilidade dos
propósitos e à pueril loucura do homem.
[Pirro] não
deixou nada escrito, mas o seu discípulo Tímon diz que quem deseja ser feliz
deve considerar essas três coisas: 1) em primeiro lugar, qual é a natureza das
coisas; 2) em segundo lugar, de que modo devemos nos dispor diante delas; 3) em
terceiro lugar, o que resultará aos que se encontram nessa disposição. 1)Ora,
ele diz que Pirro mostra que as coisas são igualmente indiferentes,
imensuráveis e indiscrimináveis e, por isso, nem as nossas sensações nem as
nossas opiniões podem ser verdadeiras ou falsas. 2) Por conseqüência, não se
lhes deve dar confiança, mas é preciso ser sem opinião, sem inclinação, sem
agitação, afirmando de cada coisa que é não mais do que não é, ou que é e que
não é, ou ainda que nem é nem não é. 3) Os que se põem nessa disposição
conseguirão, diz Tímon, em primeiro lugar, a afasia, e depois a ataraxia.
A natureza das coisas como aparência indiferenciada e
a natureza do divino e do bem.
Pirro dizia que
nada é belo nem feio, nada é justo nem injusto, e aplicava igualmente a todas
as coisas o princípio segundo o qual nada existe na verdade, e sustentava que
tudo o que os homens fazem acontece por convenção e por hábito, e que nada é
mais isso que aquilo.
Dir-te-ei na
verdade como me parece que seja, tomando como reto cânon essa palavra de
verdade: uma natureza do divino e do bem vive eternamente, da qual deriva para
o homem a vida igualíssima (ίσóτατος βίος).
Dado que Aristo
e Pirro consideram isso sem qualquer importância, a ponto de dizer que não há
absolutamente qualquer diferença entre gozar de ótima saúde e ter a mais grave
das enfermidades, com razão já há muito tempo cessou toda disputa contra eles.
Com efeito, quiseram considerar tudo na virtude, de modo a privá-la de toda
faculdade de escolha sem, ademais, conceder-lhe um ponto de origem ou de apoio;
isto fazendo, aboliram a própria virtude, à qual atribuíam tão grande valor.
Portanto –
parece-me – todos os que consideraram o viver honestamente como fim último do
bem, enganaram-se, porém, alguns mais e outros menos: mais do que todos,
naturalmente, Pirro, que, uma vez estabelecia a virtude, não deixa
absolutamente nada a que se tenha inclinação; depois Aristo, que não ousou não
deixar nada e introduziu impulsos pelos quais o sábio se inclinasse a alguma
coisa, qualquer uma que lhe passasse pela mente e, por assim dizer, se lhe
apresentasse diante. Este, melhor do que Pirro, porque concedeu alguma espécie
de inclinação natural; pior do que os outros, porque afastou-se profundamente
da natureza.
A atitude que o homem deve assumir diante das coisas:
a abstenção do juízo e a indiferença.
É evidente que a
discussão com tal adversário não pode dar em nada, porque ele não diz nada: de
fato, ele não diz nem que a coisa é assim, nem que não é assim, mas diz que é
assim e não é assim, e em seguida, de novo, nega uma e outra afirmação, e diz
que a coisa não é assim nem não assim.
É preciso não
ter opinião [...] afirmando de cada coisa que é, não mais do que não é, ou que
é e que não é, ou ainda que nem é nem não é. Os que se põe nessa disposição em
primeiro lugar a afasia [...].
Viveu piamente
com a irmã, que era parteira, segundo o testemunho de Erastóstenes, na sua obra
Riqueza e pobreza, onde também se narra que às vezes Pirro levava para vender
no mercado, segundo os casos, pássaros e leitões e fazia a limpeza da casa com
perfeita indiferença. Diz-se também que dava outra prova de indiferença ao
lavar um leitãozinho.
Com efeito, por
que razão aquele que raciocina desse modo [ou seja, negando o princípio de
não-contradição] vai verdadeiramente a Megara e não fica em casa tranqüilo,
contentando-se simplesmente com pensar em ir? E por que, ocasião, quando
ocorre, não despenca um poço ou num precipício, mas cuidar-se bem, como se
estivesse convencido de que o cair ali não seria absolutamente coisa boa e não
boa? É claro, que ele considera a primeira coisa melhor e a outra pior.
A sua vida foi
coerente com a sua doutrina. Deixava todas as coisas seguirem o seu curso
natural e não tomava qualquer precaução, mas mostrava-se indiferente diante de
qualquer perigo que lhe ocorresse, fossem carros ou precipícios ou cães, e
absolutamente nada concedia ao arbítrio dos sentidos. Mas, segundo o testemunho
de Antígono de Caristo, eram os seus amigos, que sempre o acompanhavam, a
salvá-lo dos perigos.
Nunca perdia a
compostura, de modo que se alguém se intrometia no seu discurso, ele o concluía
tranqüilamente, embora na juventude tivesse sido facilmente irascível [...].
Quando, certa feita, Anxarco caiu pântano, Pirro continuou o seu caminho sem
ajuda-lo. Alguém reprovou-o por tal comportamento, mas o próprio Anaxarco
louvou a sua indiferença e a sua impassibilidade.
A conquista da afasia, da ataraxia e da apatia.
Sobre a afasia
digamos o seguinte [...]. Em sentido genérico, “fasi” é uma palavra que
significa afirmação ou negação, como “é dia”, “não é dia” [...]. Portanto,
afasia equivale a renunciar à fasi, no seu significado comum, no qual dizemos
que estão contidas a afirmação e a negação; de modo que afasia é uma afecção
interna a nós, pela qual nem afirmamos nem negamos.
Enquanto os seus
companheiros de viagem no navio apavoravam-se por causa de uma tempestade, ele
permanecia tranqüilo e retomava ânimo, apontando um leitãozinho que continuava
a comer, e acrescentando que tal imperturbabilidade (άταραξία) era exemplar
para o comportamento do sábio.
Narra-se,
ademais, que, quando por alguma ferida foram-lhe aplicados medicamentos
corrosivos e teve de submeter-se a cortes ou cauterizações, não contraiu sequer
pálpebras.
Segundo Aristo,
o bem consiste em não ser, nessas coisas [intermédias entre a virtude e o
vício], movido nem a uma parte nem a outra e isso é chamado por ele de
adiaforia. Mas Pirro diz que o sábio nem sequer o sente e chama a isso de
apatia.
Mas certa feita
perdeu a calma por uma injúria dirigida a sua irmã – que se chamava Filista –
e, a quem o repreendeu, disse que uma mulher não é um bom ponto de comparação
para a indiferença. Outra vez foi agitado pelo ataque de um cão e replicou, a
quem o reprovou por isso, dizendo que era difícil espoliar completamente o
homem (óλοσҳερώς έκδϋναι τόν άνθρωπον), acrescentando que contra as coisas é
preciso, em primeiro lugar, se possível, lutar com fatos, do contrário, com a
razão.