terça-feira, 4 de agosto de 2026

CURSO DE ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA

 





FACULDADE CATÓLICA DO AMAZONAS - MANAUS

PROPOSTA DE CURSO PROPEDÊUTICO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO

REQUISITO AO MESTRADO EM DIREITO CANÔNICO

 

 

Professor: Paolo Cugini

e-mail: manausfcm@gmail.com

 

Apresentação: https://www.youtube.com/watch?v=t8qmVQJ7bO8&list=PLU_tuB3qQtMs&index=5

 

Introdução:  https://www.youtube.com/watch?v=TPCeYKFPdis&list=PLU_tuB3qQtMs&index=1

 

PRIMEIRO MODULO: A PROPOSTA ANTIGA

a.       A formação do homem grego (parte 1) https://www.youtube.com/watch?v=Vdj9T4Ee3B8&list=PLU_tuB3qQtMs&index=2

 

b.      A formação do homem grego (parte 2) https://www.youtube.com/watch?v=UonCwH0ixgA&list=PLU_tuB3qQtMs&index=3

 

 

c.       Antropologia filosófica da proposta pré-socrática até a época helenística (https://www.youtube.com/watch?v=zQTcyruddmw&list=PLU_tuB3qQtMs&index=4 )

 

SEGUNDO MODULO: DO CRISTIANISMO ATÉ O ILUMINISMO

a.      A novidade da proposta antropológica cristã

https://www.youtube.com/watch?v=bHI_Y6hwpkQ&t=2248s

 

b.      A reviravolta da antropologia humanista e moderna

https://www.youtube.com/watch?v=jEJ84cH7pyI

 

TERCEIRO MODULO: A CRISE PÓS-MODERNA

a.       A proposta antropológica da filosofia pós-moderna

https://www.youtube.com/watch?v=3q_n_gSMw5E&list=PLU_tuB3qQtMs&index=6

 

b.      O pós-humanismo

https://www.youtube.com/watch?v=dHqPlcnKaiA&t=16s

 

QUARTO MODULO: RESPOSTAS DE FILOSOFIA DA RELIGIÃO

a.       O personalismo de Emmanuel Mounier: https://www.youtube.com/watch?v=_wyBWd8hNHs&list=PLU_tuB3qQtMs&index=7

 

b.      O centro da pessoa na antropologia filosófica de Edith Stein: https://www.youtube.com/watch?v=J4fuhz9llR4&list=PLU_tuB3qQtMs&index=8

 

 

c.       A proposta antropológica de Leonardo Boff

https://www.youtube.com/watch?v=ZHAinnSX5rk&list=PLU_tuB3qQtMs&index=8

 

 

PROVAS

Primeira prova

Ler e comentar o seguinte texto: Humanismo, ciência moderna e liberdade de pensamento: a ruptura que abriu a modernidade

 https://matutan.blogspot.com/2026/08/humanismo-ciencia-moderna-e-liberdade.html

 

Prova final: elaborar um artigo sobre uma das temáticas proposta ao longo do curso

 

Além do humanismo: a virada pós-humana segundo Rosi Braidotti

 



1.   

A obra de Rosi Braidotti, O pós-humano. A vida além do indivíduo, além da espécie, além da morte, representa uma reflexão fundamental para entender como as transformações contemporâneas estão redefinindo os conceitos de humano, subjetividade e alteridade. Através de uma análise crítica das raízes históricas do humanismo e de suas crises, Braidotti investiga as potencialidades de uma nova ética pós-humana, capaz de incluir o não humano e de desconstruir os dualismos que marcaram a modernidade ocidental.

A imagem do homem vitruviano de Leonardo da Vinci é colocada por Braidotti como emblema da doutrina humanista: “símbolo da doutrina do humanismo que interpreta o aprimoramento das capacidades humanas biológicas, racionais e morais à luz do conceito de progresso racional, orientado teleologicamente” (Braidotti 2014, p. 17). Este ideal, porém, segundo a autora, não se limita a moldar indivíduos, mas também culturas inteiras, estabelecendo padrões e normatividades que tendem a excluir o que não se encaixa neles. O humanismo, historicamente: “desenvolveu-se como um modelo de civilização que moldou uma ideia de Europa coincidente com os poderes universalizantes da razão autorreflexiva” (Braidotti 2014, p. 17) e alimentou os destinos imperiais da Alemanha do século XIX, da França e sobretudo da Grã-Bretanha. Este paradigma eurocêntrico baseia-se na dialética entre o eu e o outro, na lógica binária da identidade e da alteridade, constituindo o motor da lógica cultural do humanismo universal.

A redução do humano a um modelo normativo, sustenta Braidotti: é “uma das chaves para compreender como chegamos à virada pós-humana” (Braidotti 2014, p. 18). A crise do humanismo, hoje um dado inquestionável, manifesta-se também nas reações dos grandes movimentos do século XX, como fascismo e comunismo, que: “rejeitam explicitamente e implicitamente os princípios fundamentais do humanismo europeu” (Braidotti 2014, p. 21). Nasce assim o anti-humanismo, o grito de guerra daquela geração de pensadores radicais que mais tarde seria famosa em todo o mundo como geração pós-estruturalista. O individualismo em si não é inato, mas uma formação discursiva específica do ponto de vista histórico e cultural, uma formação que está se tornando cada vez mais problemática.

Segundo Braidotti, o pensamento pós-colonial, que se desenvolveu nas últimas décadas,  afirma que “se o humanismo tem, afinal, um futuro, este provém de fora do mundo ocidental e supera os limites do eurocentrismo” (Braidotti 2014, p. 29). Em paralelo, os filósofos pós-estruturalistas franceses perseguiram o mesmo objetivo dos pós-coloniais através de caminhos e meios diferentes. O anti-humanismo, portanto, torna-se “um importante recurso para o pensamento pós-humano” (Braidotti 2014, p. 29), embora não seja o único caminho para essa virada. O humano do humanismo, de fato:

não é um ideal nem uma média objetiva estática ou um mediador necessário: o humano é uma convenção normativa, não intrinsecamente negativa, mas com um elevado poder regulamentar e, portanto, instrumental às práticas de exclusão e discriminação (Braidotti 2014, p. 30).

Braidotti propõe superar o sujeito unitário humanista, incluindo suas variantes socialistas, substituindo-o por um sujeito mais complexo e relacional, caracterizado principalmente pela encarnação, pela sexualidade, pela afetividade, pela empatia e pelo desejo. A consciência da instabilidade das narrativas dominantes torna-se o ponto de partida para elaborar novas formas de resistência adaptadas à estrutura policêntrica e dinâmica do poder contemporâneo. A micropolítica que daí deriva reflete a natureza complexa e nômade dos sistemas sociais contemporâneos e dos sujeitos que os habitam.

Um dos desenvolvimentos significativo do pós-humanismo é o feminismo pós-moderno segundo que, segundo Braidotti, “rejeita as identidades unitárias moldadas no ideal humanista, normativo e eurocêntrico desse homem bem definido” (Braidotti 2014, p. 31). O anti-humanismo, assim, “toma distância do esquema de pensamento dialético onde a diferença ou a alteridade desempenharam um papel constitutivo” (Braidotti 2014, p. 31), evidenciando como a dialética negativa produziu formas de saber parciais sobre estes outros. A questão ecológica e ambientalista torna-se fundamental na reconfiguração pós-humana, que vê um profundo sentimento de interconexão entre o eu e os outros, incluindo os outros não humanos e os outros da terra. Essa ótica nutre-se da rejeição do individualismo autocentrado, propondo um novo modo de combinar os interesses pessoais com o bem-estar de uma comunidade inteira, a partir das interconexões ambientais. A ética pós-humana propõe, pois, um profundo sentimento de interconexão entre o eu e os outros, incluindo os não humanos e os outros da terra, através da remoção do obstáculo representado pelo individualismo autocentrado.

Braidotti sublinha a necessidade de repensar a sexualidade além do gênero: “Em termos de política feminista […] é preciso repensar a sexualidade sem os gêneros, começando justamente com a retomada vitalista da estrutura polimorfa e, segundo Freud, perversa, da sexualidade humana”. O gênero é visto como “mecanismo histórico e contingente de captura das múltiplas potencialidades do corpo, incluindo suas capacidades generativas e reprodutivas” (Braidotti 2014, p. 99, p. 103). Experimentar com a resistência e a intensidade serve para redescobrir o que os nossos corpos pós-humanos podem fazer.

1.1.Crítica ao modelo antropocêntrico

A análise de Braidotti evidencia como o modelo de homem universal foi criticado:


por causa da sua parcialidade. Este homem universal, de fato, coincide implicitamente apenas com o macho, branco, urbanizado, falante de uma linguagem padrão, heterossexual inscrito na unidade reprodutiva básica, cidadão pleno de uma comunidade política reconhecida (Braidotti 2014, p. 69).

O pós-antropocentrismo, em vez disso, destitui o conceito de hierarquia entre as espécies e o modelo singular e geral de homem como medida de todas as coisas. Emergem, assim, novas éticas relacionais e a necessidade de repensar as interações entre humano e animal, superando os dualismos hierárquicos. Braidotti analisa a subjetividade pós-humana como “materialista e vitalista, encarnada e integrada, firmemente localizada em lugares precisos, segundo a política feminista da localização” (Braidotti 2014, p. 55). É uma subjetividade capaz de auto-organização, crucial para elaborar instrumentos críticos adaptados à complexidade e às contradições dos nossos tempos.

Nesta perspectiva, o vitalismo materialista:

nos ajuda a dar um sentido à dimensão externa que de fato envolve o interior do sujeito como signo interiorizado das vibrações cósmicas. Ele constitui ainda o núcleo da sensibilidade pós-humana que visa à superação do humanismo (Braidotti 2014, p. 59).

O pensamento de Braidotti convida a superar os limites do humanismo tradicional para abraçar uma perspectiva pós-humana, que valoriza as relações, a interconexão entre os viventes e a responsabilidade coletiva. Nesta visão, precisamos assumir as consequências da condição pós-humana no sentido do declínio do humanismo, a fim de desenvolver sólidas fundações para a subjetividade ética e política. O desafio, hoje, é construir uma subjetividade digna do presente, capaz de enfrentar as contradições e as complexidades da modernidade tardia globalizada.

A filósofa questiona as estratégias de inclusão do humanismo clássico, sublinhando e, ao mesmo tempo, desmascarando, como a extensão dos privilégios humanistas a outras categorias – animais, máquinas, formas de vida não humanas – nunca é um gesto puramente generoso. Ao contrário, a extensão dos privilégios dos valores humanistas às outras categorias dificilmente pode ser considerada um gesto generoso e desinteressado, mas sim uma tentativa de tornar produtiva tal inclusão. Apoiar a ligação vital entre seres humanos e outras espécies não é apenas necessário, mas também útil. A atribuição do princípio de igualdade moral e jurídica aos animais, embora aparentemente nobre, permanece intrinsecamente defeituosa porque não se trata simplesmente de estender direitos, mas de repensar a natureza das relações:

É uma relação de transformação ou simbiose que hibridiza e altera a natureza de cada um para colocar em primeiro plano os motivos centrais de sua interação (Braidotti 2014, p. 83).

Braidotti redescobre a lição spinoziana, mas desloca seu significado em relação às interpretações materialistas e seculares de Deleuze, Guattari, Foucault: “O conceito de Spinoza de unidade entre mente e corpo é empregado, ao invés, a fim de sustentar a convicção de que toda a vida deve ser saboreada e que lhe é devido o maior respeito” (Braidotti 2014, p. 89). A abordagem holística, portanto, serve para fundar uma ética da relação e da imanência que transcende as barreiras espécie-específicas.

A centralidade da tecnologia é um dos pilares da análise braidottiana: “A questão da tecnologia é central para a condição pós-antropocêntrica” (Braidotti 2014, p. 93) e a relação entre humano e tecnologia atingiu níveis sem precedentes de proximidade e interconexão. Segundo Braidotti:


a condição pós-humana é tal que força o deslizamento das linhas de demarcação entre as diferenças estruturais ou entre as categorias ontológicas, por exemplo entre o orgânico e o inorgânico, o original e o manufato, a carne e o metal, os circuitos eletrônicos e os sistemas nervosos orgânicos (Braidotti 2014, p. 93).

Nesta perspectiva, a nova subjetividade pós-humana se baseia em um uso experimental e relacional da tecnologia e a mediação tecnológica é central para a nova visão da subjetividade pós-humana porque constitui o terreno para novas reivindicações éticas. A imanência permite respeitar o vínculo de mútua dependência entre os corpos e os outros tecnológicos, evitando ao mesmo tempo o desprezo pela carne e a fantasia transumanista de abandonar a materialidade finita do eu encarnado. A fusão do humano e do tecnológico dá vida a um novo composto transversal, uma unidade eco-filosófica semelhante à simbiose animal-habitat: “Este processo é o que eu chamo de pós-antropocentrismo pós-humanista. Ele implica um distanciamento radical das noções de racionalidade moral, identidade unitária, consciência transcendental e valores morais inatos e universais” (Braidotti 2014, p. 97).

A atenção se desloca para as estruturas relacionais, para as conexões transversais materiais e simbólicas, a transversalidade, concretude, legalitarismo Zoe-centrado como ética e método para dar conta das formas alternativas da subjetividade pós-humana. A ética pós-humana é, portanto, baseada no primado da relação, da interdependência e na valorização da vida como zoe, força generativa imanente. No capitalismo biopolítico avançado, segundo Braidotti, o controle se estende a todas as formas de vida: “O capitalismo contemporâneo é biopolítico, pois visa controlar todas as formas de vida… já evoluiu para uma espécie de biopirataria» que explora a potência generativa de mulheres, animais, plantas, genes, células” (Braidotti 2014, p. 99). A engenharia genética e as biotecnologias produzem um transtorno habitacional conceitual, reduzindo os corpos a superfície informacional em termos de materialidade e capacidades vitais, deslocando os sinais da organização das diferenças nos microelementos da materialidade da Itália, como as células dos organismos vivos e o código genético de espécies inteiras. O panorama pós-humano não é necessariamente mais livre ou justo:

Tal panorama político pós-humano não é necessariamente mais igualitário ou menos racista e heterossexista, visto seu compromisso em sustentar papéis de gênero conservadores e valores familiares, mesmo ao custo de projetá-los em espécies intergalácticas e alienígenas (Braidotti 2014, p. 101).

A tecno-cultura pode desestabilizar os eixos categoriais da diferença e levar a novos picos necropolíticos; emergem também tendências como a tecno-transcendência, entrelaçada ao individualismo liberal e orientada para o lucro, que caracteriza o imaginário do capitalismo avançado.

A condição pós-humana determina uma redefinição das prioridades das ciências humanas, chamadas a confrontar-se com identidades não unitárias e alianças múltiplas. A crise epistemológica é acompanhada por novos desafios globais, multiculturais, interdisciplinares. A universidade contemporânea, segundo Braidotti, deve redefinir-se “nos termos de uma renovada relação com as cidades globais onde está situada” ((Braidotti 2014, p. 99). p. 184).

 A pós-humanidade, em Braidotti, não é um horizonte distópico, mas um espaço de possibilidades, um convite a repensar a si mesmo e ao mundo, a vida e a morte, a tecnologia e o corpo, as relações e as éticas. A chave é a transversalidade das relações, a concretude das conexões e a valorização da diferença como potência generativa. Longe de ser uma simples inclusão das alteridades, trata-se de uma profunda metamorfose dos nossos modos de ser no mundo e de viver juntos, além do indivíduo, da espécie, da morte.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A Antropologia da hipermodernidade em Gilles Lipovetsky

 




Paolo Cugini

 

O pensamento de Gilles Lipovetsky revolucionou a sociologia contemporânea ao propor uma antropologia do hipermodernismo, estruturada em torno do conceito de individualismo de segunda geração. A sua proposta antropológica investiga como a perda das grandes narrativas tradicionais deu lugar a uma sociedade centrada no consumo, no hedonismo e na personalização em massa.

 

1. O Processo de personalização e a era do vazio

A base da antropologia de Lipovetsky estabelece-se na transição da modernidade para a pós-modernidade (posteriormente redefinida por ele como hipermodernidade). O motor dessa transformação é o processo de personalização, um novo modo de gestão social que substitui a coerção disciplinar pela livre escolha individual e pelo estímulo aos desejos.

Em sua obra de estreia, o autor mapeia a fratura das instituições tradicionais (como a igreja, o Estado e a família rígida) e o surgimento de um indivíduo narcisista, focado na autorrealização psicológica. "O processo de personalização designa a linha de força, a mutação sociológica global em curso, que atinge o conjunto dos sectores da vida social [...] operando uma rutura fundamental com a fase disciplinar-autoritária da modernidade." (LIPOVETSKY, Gilles. 1989.p. 13)

2. A Efemeridade como estrutura social

Se a antropologia clássica buscava as estruturas permanentes e os mitos estáveis das sociedades, Lipovetsky inverte esse olhar ao colocar o efêmero e a sedução como os verdadeiros pilares organizacionais do Ocidente contemporâneo. A forma-moda deixa de ser um fenômeno fútil ou superficial para se tornar a lógica suprema que rege a política, a cultura, a informação e o consumo.

O ser humano hipermoderno é moldado pela necessidade de renovação constante e pela obsolescência programada, não apenas dos objetos, mas também de suas próprias identidades e laços afetivos. "A moda não é um reflexo, é um ator da dramaturgia histórica; longe de ser uma excrescência periférica do mundo moderno, ela é um elemento central, o motor de uma mutação global das sociedades ocidentais.” (LIPOVETSKY, 1989b. p. 11)

3. A metamorfose do consumo e o homo consumericus

A consolidação mais madura da sua proposta antropológica ocorre com a transição conceitual do pós-moderno para o hipermoderno. Lipovetsky argumenta que não rompemos com a modernidade, mas sim que a levamos ao seu paroxismo (ao excesso).

Nesse cenário, emerge o Homo Consumericus: um agente antropológico que já não consome para exibir status social aos outros (como ocorria no consumo de distinção do século XX), mas sim para obter sensações íntimas, bem-estar, saúde e experiências emocionais. O consumo passa a ser existencial e terapêutico. "O mercado conseguiu democratizar a ambição do bem-estar individual, transformou o luxo em conforto e a mercadoria em vetor de felicidade existencial. O Homo consumericus é um ser que consome para si mesmo, para a sua própria estimulação emocional." (LIPOVETSKY, 2007.p. 34)

4. O Paradoxo da autonomia e da ansiedade

A antropologia lipovetskyana é essencialmente ambivalente. Ela recusa o pessimismo apocalíptico de críticos que enxergam o fim da cultura, mas também afasta-se de um otimismo ingênuo.

O paradoxo central do homem hipermoderno reside no fato de que, quanto mais livre e autônomo ele se torna das amarras sociais e das tradições, mais ele se vê desamparado, ansioso e dependente de suportes psicológicos, farmacológicos e mercadológicos para gerenciar sua própria vida. A soberania individual gera, simultaneamente, uma vulnerabilidade de massa. "A hipermodernidade caracteriza-se por um individualismo desinstitucionalizado, onde o indivíduo é intimado a ser o autor da sua própria vida, gerando uma angústia permanente face ao futuro e uma obsessão pela performance e pela urgência temporal." (LIPOVETSKY, 2004. p. 51)

 

Bibliografia

LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria. Lisboa: Relógio D'Água, 1989.

LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: a moda e o seu destino nas sociedades modernas. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1989b.

LIPOVETSKY, Gilles; CHARLES, Sébastien. Os Tempos Hipermodernos. Tradução de Mario Vilela. São Paulo: Barcarolla, 2004.

LIPOVETSKY, Gilles. A Felicidade Paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Antropologia filosófica medieval

 



 

A antropologia filosófica medieval não existe como uma disciplina autônoma, mas representa o cerne de todo o pensamento medieval. Numa época dominada pela teologia, a questão "o que é o homem?" encontra resposta numa síntese complexa da revelação cristã e da filosofia grega clássica.

 

O Paradoxo do homem: lama e divindade

A antropologia medieval baseia-se numa tensão constante entre a miséria material dos seres humanos e a sua grandeza espiritual.

• Imago Dei: O homem é criado à imagem e semelhança de Deus, o que lhe confere dignidade absoluta.

• Criatura: O ser humano permanece uma criatura contingente, formada do pó da terra e marcada pelo pecado original.

• Mediador Cósmico: O homem é um microcosmo, o ponto de junção entre o mundo material (corpo) e o mundo espiritual (alma).

 

As Duas Grandes correntes fundadoras

O pensamento medieval desenvolve-se através de dois modelos filosóficos principais para explicar a natureza humana.

 

O Modelo Agostiniano (Platonismo)

Dominante até o século XII, inspira-se em Platão e Plotino.

 

• Dualismo acentuado: O homem é essencialmente sua alma espiritual.

• O corpo como instrumento: O corpo é uma realidade material transitória que a alma possui e governa.

• Interioridade: A verdade é encontrada no abismo da alma através da iluminação divina.

 

O Modelo Tomista (Aristotelismo)

Estabelecido no século XIII por Tomás de Aquino, revolucionou a visão do homem.

• Unidade psicofísica: O homem não é apenas alma, nem apenas corpo, mas a síntese indissolúvel de ambos.

• Alma como forma: A alma espiritual é a forma substancial do corpo material (sínole).

• Valorização da matéria: O corpo é necessário para que a alma opere, conheça e experimente o mundo.

 

Livre-arbítrio, razão e destino

A reflexão medieval não se limita à estrutura do homem, mas também investiga sua ação moral e propósito último.

• Razão e Vontade: O homem é o único ser terreno dotado de intelecto e livre-arbítrio, capacidades que o tornam moralmente responsável.

• A Queda e a Graça: A natureza humana é ferida pelo pecado, mas não totalmente corrompida; ela necessita da graça divina para a plenitude.

• A Visão Beatífica: O objetivo final da antropologia medieval é transcendente. O homem foi feito para a felicidade eterna, que é alcançada na contemplação de Deus.

Longe de ser uma era obscurantista, a Idade Média legou à modernidade uma ideia do homem como um valor absoluto, estabelecendo o próprio conceito de "pessoa" que seria central nos séculos subsequentes.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Os primeiros seis concílios ecumênicos da história da Igreja

 



 

Os primeiros seis concílios ecumênicos da história da Igreja, ocorridos entre os séculos IV e VII, foram fundamentais para definir os dogmas sobre a Santíssima Trindade e a natureza divina e humana de Jesus Cristo. Eles são aceitos tanto pela Igreja Católica quanto pela Igreja Ortodoxa e diversas denominações protestantes.

1. Primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.)

  • Convocado por: Imperador Constantino I.
  • Objetivo principal: Combater o arianismo, heresia que defendia que Jesus não era Deus, mas apenas uma criatura elevada.
  • Resultado: Definição de que o Filho é consubstancial (homoousios) ao Pai e início da redação do Credo Niceno.

 

2. Primeiro Concílio de Constantinopla (381 d.C.)

  • Convocado por: Imperador Teodósio I.
  • Objetivo principal: Combater o Macedonianismo, que negava a divindade do Espírito Santo.
  • Resultado: Confirmação da divindade do Espírito Santo e expansão do credo anterior, gerando o Credo Niceno-Constantinopolitano.

 

3. Concílio de Éfeso (431 d.C.)

  • Convocado por: Imperador Teodósio II.
  • Objetivo principal: Combater o nestorianismo, que separava Jesus em duas pessoas distintas (uma humana e outra divina).
  • Resultado: Declaração de que Jesus é uma única pessoa com duas naturezas e proclamação de Maria como Theotokos (Mãe de Deus).

 

4. Concílio de Calcedônia (451 d.C.)

  • Convocado por: Imperador Marciano.
  • Objetivo principal: Combater o monofisismo, heresia que afirmava que Jesus tinha apenas a natureza divina, tendo a humana sido absorvida.
  • Resultado: Definição dogmática de que Jesus Cristo possui duas naturezas perfeitas (verdadeiro Deus e verdadeiro homem), sem confusão ou divisão.

 

5. Segundo Concílio de Constantinopla (553 d.C.)

  • Convocado por: Imperador Justiniano I.
  • Objetivo principal: Reconciliar os cristãos monofisitas do Oriente e condenar os "Três Capítulos" (escritos de teólogos de tendência nestoriana).
  • Resultado: Confirmação das decisões de Calcedônia e condenação formal dos escritos heréticos.

 

6. Terceiro Concílio de Constantinopla (680–681 d.C.)

  • Convocado por: Imperador Constantino IV.
  • Objetivo principal: Combater o monotelismo, heresia que aceitava as duas naturezas de Cristo, mas afirmava que Ele tinha apenas uma vontade (a divina).
  • Resultado: Definição de que Jesus possuía duas vontades e duas operações naturais (uma humana e uma divina), perfeitamente harmonizadas.

 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

BIBLIOGRAFIA PATRISTICA

 




 

Padres Apostólicos (Séculos I e II)

  • Clemente de Roma, Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmerna, Papias, Padres Apostólicos (Coleção Patrística, Vol. 1), Editora Paulus, 1995.
  • Autor Desconhecido, Didaché (Doutrina dos Doze Apóstolos) / Epístola de Barnabé / Pastor de Hermas / Carta a Diogneto / Fragmentos Quadrato (Coleção Patrística, Vol. 1), Editora Paulus, 1995.

Padres Apologistas e Antignósticos (Séculos II e III)

  • Justino de Roma, I e II Apologias / Diálogo com Trifão (Coleção Patrística, Vol. 3), Editora Paulus, 1995.
  • Ireneu de Lyon
    • Contra as Heresias (Coleção Patrística, Vol. 4), Editora Paulus, 1995.
    • Demonstração da Pregação Apostólica (Coleção Patrística, Vol. 33), Editora Paulus, 2014.
  • Tertuliano, Apologético / Da Prescrição dos Hereges (Coleção Patrística, Vol. 14), Editora Paulus, 2000.
  • Cipriano de Cartago, A Unidade da Igreja / A Caducidade do Mundo / A Oração do Senhor / Os Lapsos (Coleção Patrística, Vol. 35), Editora Paulus, 2015.
  • Orígenes
    • Contra Celso (Coleção Patrística, Vol. 20), Editora Paulus, 2004.
    • Tratado sobre os Princípios (Coleção Patrística, Vol. 41), Editora Paulus, 2021.

Idade de Ouro da Patrística (Séculos IV e V)

  • Atanásio de Alexandria, Contra os Pagãos / A Encarnação do Verbo / Apologia contra os Arianos (Coleção Patrística, Vol. 18), Editora Paulus, 2002.
  • Basílio de Cesareia, Tratado sobre o Espírito Santo / Homilias sobre o Hexameron (Coleção Patrística, Vol. 11), Editora Paulus, 1998.
  • Gregório de Nissa, A Criação do Homem / A Alma e a Ressurreição / A Grande Catequese (Coleção Patrística, Vol. 28), Editora Paulus, 2011.
  • Gregório Nazianzeno, Os Cinco Discursos Teológicos (Coleção Patrística, Vol. 39), Editora Paulus, 2019.
  • João Crisóstomo
    • Homilias sobre a Carta aos Romanos (Coleção Patrística, Vol. 27), Editora Paulus, 2010.
    • Comentário às Cartas de São Paulo/1 (Coleção Patrística, Vol. 31), Editora Paulus, 2013.
  • Ambrósio de Milão, Os Sacramentos / Os Mistérios / A Penitência (Coleção Patrística, Vol. 17), Editora Paulus, 2002.
  • Jerônimo, Comentário ao Evangelho de Mateus (Coleção Patrística, Vol. 15), Editora Paulus, 2001.
  • Agostinho de Hipona
    • Confissões (Coleção Patrística, Vol. 10)., Editora Paulus, 1997.
    • A Cidade de Deus (Coleção Patrística, Vols. 22 e 23)., Editora Paulus, 2007.
    • A Trindade (Coleção Patrística, Vol. 7)., Editora Paulus, 1994.
  • Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica (Coleção Patrística, Vol. 15).Editora Paulus, 2000
  • Maximo o Confessor
  • A Vida da Virgem, Editora: Minha Biblioteca Católica / Editora Ecclesiae, 2020. Nota: Considerada a primeira obra biográfica completa sobre Nossa Senhora.
  • Centúrias sobre a Caridade e Outros Escritos Espirituais, Landy Editora, 2003.

 

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

BIBLIOGRAFIA ANTROPOLOGIA FILOSOFICA

 



 

  • O Inumano: Considerações sobre o Tempo (Jean-François Lyotard):
  • Permuta Simbólica e a Morte (Jean-Baudrillard):
  • Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia
  • Não Lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade (Marc Augé):
  • A Constituição das Novas Subjetividades e Religiosidade na Pós-Modernidade (Dr. Hugo Brandão):
  • Caminhos Contemporâneos da Antropologia Filosófica (Luís António Umbelino, Federica Puliga e Antonio B. M. Lima, Orgs.)
  • Antropologia do ciborgue: As vertigens do pós-humano, Autores/Orgs.: Donna Haraway, Tomaz Tadeu, Hari Kunzru, Autêntica Editora, 2025.
  • Pós-humano, novos materialismos e linguagem, Orgs.: Atilio Butturi Junior, Marcelo Buzato, Nathalia Muller Camozzato, Pontes Editores, 2024
  • O ser humano como animal: Por que ainda não nos encaixamos na natureza, Markus Gabriel, Vozes, 2024
  • Antropologia Filosófica: Pessoa, Liberdade, Relacionalidade (2024) Francesco Russo

 

Livros de Zigmunt Bauman

  • Modernidade Líquida
  • A Arte da Vida
  • Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos
  • A Individualidade numa Época de Incertezas (com Rein Raud)

 

Livros de Gianni Vattimo:

  • O Homem Pós-Metafísico e o "Pensamento Fraco"
  • O Fim da Modernidade: Niilismo e Hermenêutica na Cultura Pós-Moderna:
  • A Sociedade Transparente
  • Crer que se Crê
  • Adeus à Verdade

 

 

 

CURSO DE ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA

  FACULDADE CATÓLICA DO AMAZONAS - MANAUS PROPOSTA DE CURSO PROPEDÊUTICO FILOSÓFICO-TEOLÓGICO REQUISITO AO MESTRADO EM DIREITO CANÔNICO     ...