Paolo Cugini
(org.)
A antropologia filosófica de
Blaise Pascal é definida pelo paradoxo intrínseco da condição humana,
dividida entre uma miséria profunda e uma grandeza incomparável. Afastando-se
do racionalismo puro de seu contemporâneo René Descartes, Pascal utilizou
fragmentos densos em sua obra póstuma Pensamentos (Pensées) para
mapear a psicologia e a existência do homem.
1. A condição antitética: grandeza e miséria
O cerne da investigação de
Pascal sobre o homem reside na constatação de que a natureza humana é
irremediavelmente dupla. O homem não pode ser compreendido apenas por suas
virtudes (como pretendiam os estoicos) nem apenas por seus vícios (como
apontavam os céticos). Ele habita o meio-termo exato entre o nada e o infinito.
Sua miséria provém de sua
finitude física e de sua decadência moral após a Queda bíblica. No entanto, sua
grandeza se manifesta na própria capacidade de ter consciência dessa miséria.
Uma árvore ou uma rocha sofrem o impacto do universo, mas não sabem disso; o
homem sofre, mas compreende sua situação. "A grandeza do homem é grande
por ele conhecer-se miserável; uma árvore não se conhece miserável. É, então,
ser miserável conhecer-se miserável, mas é ser grande conhecer que se é
miserável." Blaise Pascal, Pensamentos, Fragmento Br. 397 / La.
114.
2. O caniço pensante
Pascal utiliza a metáfora do caniço
pensante (roseau pensant) para ilustrar a fragilidade biológica
humana contrastada com sua superioridade intelectual, ao compreender a própria
mortalidade e o universo. "O homem não passa de um caniço, o mais fraco
da natureza, mas é um caniço pensante. [...] Toda a nossa dignidade consiste,
pois, no pensamento. "Blaise Pascal, Pensamentos, Fragmento Br.
347 / La. 200.
3. O divertimento (Divertissement)
como fuga de si
Para suportar a angústia da
finitude, o homem recorre ao divertimento — busca contínua por ocupações
que ocultam a própria infelicidade e a inevitabilidade da morte. "Toda
a infelicidade do homem vem de uma única coisa, que é não saber ficar quieto em
um quarto." Blaise Pascal, Pensamentos, Fragmento Br. 139 / La.
136.
4. As três ordens e a razão finita
Pascal divide a realidade em
três ordens hierarquizadas:
1.
Corpos (físico/científico)
2.
Razão (intelecto/matemática)
3.
Coração/Caridade (intuição espiritual/graça)
Ao contrário de Descartes,
Pascal limita a razão, argumentando que as verdades supremas, como a existência
de Deus, são percebidas pelo "coração". "O coração tem razões
que a própria razão desconhece; sabemo-lo em mil coisas." Blaise
Pascal, Pensamentos, Fragmento Br. 277.
A trágica antropologia
pascaliana, que oscila entre a miséria e a grandeza, encontra solução na
teologia cristã, onde a Queda justifica a miséria e a Redenção devolve a
dignidade ao homem.