segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Além da Pós-modernidade: Quem é "O Quarto Homem" de Gianfranco Morra?

 

A obra filosófico-sociológica de Gianfranco Morra, "O Quarto Homem: Pós-modernidade ou Crise da Modernidade?", analisa a transição antropológica e cultural do homem moderno para uma nova figura antropológica, precisamente definida como "o quarto homem". Publicado inicialmente no início da década de 1990 pela editora Armando Editore, o texto desconstrói o conceito de "pós-modernidade" para demonstrar que a era atual não representa a superação da modernidade, mas sim sua radicalização e profunda crise.

 

 


Paolo Cugini

 

O debate sobre o fim da modernidade caracterizou os últimos anos do século XX. Nesse contexto, o renomado sociólogo e filósofo italiano Gianfranco Morra (1930-2021) ofereceu uma das respostas mais lúcidas e não convencionais com seu ensaio "O Quarto Homem: Pós-modernidade ou Crise da Modernidade?". Em vez de abraçar com entusiasmo as teorias do "Pós-modernismo" como uma era completamente nova, Morra investiga os mecanismos culturais de nossa época. O autor demonstra como o homem contemporâneo se encontra imerso em uma fase de exasperação e cansaço com os dogmas modernos, dando origem a um novo e problemático perfil antropológico.

A Genealogia do Ocidente: três homens históricos no "Quarto"

Para compreender a identidade do cidadão contemporâneo, Morra delineia uma cronologia da evolução da humanidade ocidental. O autor identifica três arquétipos fundamentais que precederam o cenário atual:

• Homem pré-moderno (antigo e medieval): Um indivíduo orientado para a transcendência, guiado pela fé, pela ordem cósmica e por verdades objetivas e imutáveis.

Homem moderno (Prometeico): Nascido com o Iluminismo e o Humanismo, deposita fé cega na razão, na ciência, no progresso linear e em ideologias políticas resolutas.

O homem da modernidade tardia (desencantado): aquele que vivencia o colapso das ilusões ideológicas do século XX (totalitarismo) e o início do relativismo.

Chegamos, assim, ao "Quarto Homem". Quem é ele? É o habitante de uma sociedade hipertecnológica e globalizada. Esse indivíduo se caracteriza pela ausência total de grandes narrativas legitimadoras. Ele não acredita mais no progresso da história, rejeita laços estáveis ​​e se adapta a viver em uma dimensão de fragmentação e imediatismo perpétuos.

 

O núcleo temático da obra

A análise de Morra se desenvolve em torno de coordenadas específicas que mesclam rigor sociológico e antropologia filosófica:

1. A pós-modernidade como "hipermodernidade"

O cerne da tese de Morra reside no subtítulo de sua obra. "Pós-moderno" não é uma estrutura cultural que ignora a modernidade, mas a própria modernidade atingiu seu ponto de saturação. O individualismo exacerbado, a secularização e o relativismo ético de hoje não são o oposto da lógica moderna; Eles são seu resultado lógico e radicalizado.

2. O Eclipse do Sagrado e o Advento do Niilismo Passivo

Um estudioso cuidadoso da fenomenologia religiosa e do ateísmo, Morra destaca como o quarto homem não é simplesmente secular, mas "pós-ateu". Ele não luta mais contra Deus como o homem moderno fazia (através do marxismo ou do positivismo cientificista); ele simplesmente vive ignorando a dimensão metafísica. O sagrado é substituído por substitutos espirituais fracos ou pelo fetichismo das mercadorias e da tecnologia. Sem verdades objetivas para guiá-lo, o quarto homem se transforma em um ser nômade e flexível, incapaz de tomar decisões definitivas. Morra descreve uma sociedade líquida ante litteram, onde os valores tradicionais da cultura europeia — como a liberdade ligada à responsabilidade e a tradição cristã — são sacrificados no altar do niilismo e do desengajamento.

 

A Relevância do Pensamento de Morra

O Quarto Homem se revela uma obra profética. Relendo este texto hoje, podemos compreender as raízes da crise de identidade das democracias ocidentais, a atomização social induzida pelas mídias digitais e a desorientação existencial coletiva. Gianfranco Morra não propõe um retorno nostálgico ao passado pré-moderno. Em vez disso, ele lança um alerta filosófico urgente: para evitar que o Quarto Homem se dissolva na insignificância e na alienação tecnológica, a Europa precisa redescobrir a coragem de sua herança cultural e espiritual, refundando a liberdade na aliança essencial entre razão, verdade e responsabilidade ética.

domingo, 23 de agosto de 2026

CURSO DE METAFISICA (em vídeos)

 



FACULDADE CATÓLICA DO AMAZONAS - MANAUS

 


 

Introdução: https://www.youtube.com/watch?v=b0f5VdaBZhQ&list=PLW7U_GiYnZtk&index=2&t=1977s

Slides introdução a metafisica: https://www.academia.edu/143024064/CURSO_DE_METAFISICA_introdu%C3%A7%C3%A3o

 

 

PRIMEIRO MODULO: A METAFISICA CLÁSSICA

a.       O sistema metafisico platônico (primeira parte) https://www.youtube.com/watch?v=fpNSW2cco40&list=PLW7U_GiYnZtk&index=5&t=6s

 

b.      O sistema metafisico platônico (segunda parte) https://www.youtube.com/watch?v=y_GF_coZR4A&list=PLW7U_GiYnZtk&index=4

 

Texto sobre a metafisica de Platão: https://paideiafca.blogspot.com/2024/12/a-mediacao-tentada-por-platao-entre.html

 

Slides sobre Platão: https://www.academia.edu/34376455/CURSO_DE_INTRODU%C3%87%C3%83O_A_FILOSOFIA_PARTE_C_PLATAO

 

 

c.       A metafisica aristotélica https://www.youtube.com/watch?v=WMR4JNbj9fY&list=PLW7U_GiYnZtk&index=3

 

Slides sobre a metafisica de Aristóteles: https://www.academia.edu/26428538/INTRODU%C3%87%C3%83O_AO_PENSAMENTO_DE_ARIST%C3%93TELES

 

Texto sobre a metafisica de Aristóteles: https://paideiafca.blogspot.com/2024/12/o-pensamento-de-aristoteles.html

 

SEGUNDO MODULO: A METAFISICA CRISTÃ

a.      Os sistemas médio-platônico e neoplatônico

 

Texto sobre médio platonismo: https://paideiafca.blogspot.com/2025/05/o-medio-platonismo-e-redescoberta-da.html

 

Texto sobre Plotino e o neoplatonismo: https://paideiafca.blogspot.com/2025/05/plotino-e-o-neoplatonismop-pagao.html

 

 

b.      A novidade da metafisica cristã  https://www.youtube.com/watch?v=aK_Jn5V2XvM&list=PLF75XJKdIxCM&index=2&t=39s

 

Texto sobre Agostinho: https://paideiafca.blogspot.com/2023/07/agostinho-o-grande-problema-razao-e-fe.html

 

Slides metafisica de Anselmo d-Aosta: https://www.academia.edu/29205377/SANTO_ANSELMO_DAOSTA

 

 

TERCEIRO MODULO: OS SSITEMAS METAFISICO DA ÉPOCA MODERNA

a.      A metafisica de Leibniz

https://www.youtube.com/watch?v=lLQf-shnD38&list=PLW7U_GiYnZtk&index=6

 

Texto sobre a metafisica de Leibniz: https://paideiafca.blogspot.com/2024/03/leibniz-lipsia-1646-1716.html

 

Slides sobre Leibniz: https://www.academia.edu/144224456/A_filosofia_de_Gottfried_Wilhelm_von_Leibniz_Lipsia_1646_1716_

 

 

b.      A metafisica de Immanuel Kant

https://www.youtube.com/watch?v=wME76kBIGWk&list=PLW7U_GiYnZtk&index=7&t=1624s

 

Texto metafisica de Kant: https://paideiafca.blogspot.com/2024/05/emanuel-kant-1724-1804-critica-da-razao.html

 

c.       A proposta hegeliana

 

Slides metafisica hegeliana: https://www.academia.edu/119953476/Georg_Wilhelm_Friedrich_Hegel_Estugarda_1770

 

QUARTO MODULO: A METAFISICA CONTEMPORANEA

a.       O pensamento pós-metafisico https://www.youtube.com/watch?v=PGefpPchg7w&list=PLW7U_GiYnZtk&index=1&t=5s

 

Artigos do professor sobre F. Nietzsche:

1.      https://paideiafca.blogspot.com/2025/10/nietzsche-critico-da-moral-e-do.html

 

2.      https://paideiafca.blogspot.com/2025/10/o-pensamento-antimetafisico-de-nietzsche.html

 

Artigo do professor sobre Gianni Vattimo: https://revistaeclesiasticabrasileira.itf.edu.br/reb/article/view/855

 

Pensamento pós-metafisico de Habermas (síntese do professor): https://paideiafca.blogspot.com/2023/08/jurgen-habermas-pensamento-pos.html

 

 

b.      Metafisica relacional

 

Textos:

1.       https://paideiafca.blogspot.com/2025/11/pontos-principais-da-metafisica.html

2.      https://paideiafca.blogspot.com/2025/11/metafisica-trinitaria-e-ontologias.html (teoria de Migliorini)

3.      https://paideiafca.blogspot.com/2025/11/ontologia-relacional-contemporanea.html

 

 

PROVAS

1.      Primeira prova. Comentar este texto deixando o comentário no blog (em baixo): https://matutan.blogspot.com/2026/02/o-pensamento-mitico-ainda-esta-dentro.html

 

2.      Prova final: elaborar um artigo sobre uma das temáticas proposta ao longo do curso

 

 

BIBLIOGRAFIA

https://paideiafca.blogspot.com/2025/09/bibliografia-sobre-metafisica.html

 

domingo, 16 de agosto de 2026

PATRÍSTICA - Primeira prova sexta feira 21.08.2026

 



FACULDADE CATÓLICA DO AMAZONAS – MANAUS


 

1.      Como o querigma bíblico sobre Cristo é historicizado na era patrística?

2.      Em que direção a teologia dos padres desenvolve os dados do Novo Testamento e porquê?

3.      A crença cristológica começa, como vimos, com a profissão de fé num acontecimento histórico:  a ressurreição de Jesus. Aprofundar esta afirmação.

4.      Porque Raniero Cantalamessa fala sobre helenização e deselinazação do Kerigma na hera Patrística?

5.      Apresentar a doutrina das sementes do Verbo de Justino e sua aplicação no Concilio Vaticano II

6.      Toda a história de Jesus constitui a ação escatológica, a intervenção suprema e definitiva de Deus história. A encarnação ocorrida na plenitude dos tempos (Gal 4.4) inaugura o tempo do fim (Hb 1.2).  Por isso Irineu considera Cristo o novo Adão a partir da encarnação. Aprofundar o sentido desta afirmação.

7.      O que significa a tendência de mudar o foco da cristologia da ressurreição para a encarnação em relação ao Novo Testamento? Fazer alguns exemplos.

8.      A capacidade de inculturar o evangelho mostrado para Clemente. Fazer o exemplo assim como mostrou a pesquisa de Robert Wilken.

 

As respostas destas perguntas se encontram nas slides utilizadas durante as aulas, com a exceção da perguntas numero 5 e 8 cuja respostas dependem das anotações do estudante.

 

 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

PROPOSTA DO CURSO DE EXTENSÃO DE INTRODUÇÃO Á SAGRADA ESCRITURA - Fevereiro 2027

 



Paróquia são Vicente de Paulo-Compensa-Manaus

Faculdade Católica do Amazonas

 

 

Dados Gerais do Curso

  • Carga Horária: 38 horas
  • Público-alvo: Estudantes, leigos, agentes de pastoral e interessados no fenômeno religioso e cultural da Bíblia.
  • Formato: Presencial concentrado em 3 finais de semana (Sexta: 19h-22h | Sábado: 8h-12h e 14h-18h | Domingo: 8h-12h).

 

Ementa e Objetivos

  • Ementa: Estudo da origem, inspiração, revelação, formação do cânon e transmissão textual dos escritos bíblicos. Panorama geral do Antigo e do Novo Testamento, grandes géneros literários, contextos históricos e métodos fundamentais de interpretação e hermenêutica bíblica. [
  • Objetivos:
    • Oferecer noções básicas para a leitura crítica e contextualizada dos textos sagrados.
    • Superar leituras fundamentalistas ou descontextualizadas da Bíblia.
    • Compreender a estrutura literária e a mensagem teológica dos dois Testamentos.

 

Cronograma e Distribuição da Carga Horária

Final de Semana 1: 5-7 fevereiro 2027: Fundamentos, Inspiração e o Mundo da Bíblia (12h + 1h prévia = 13h)

Palestrante: padre Josué Nascimento

  • Sexta-feira 5 (19h00 – 22h00) [3h]:
    • Apresentação do curso e introdução ao conceito de "Bíblia".
    • O Fenômeno da Revelação e a Inspiração Divina.
  • Sábado 6 (08h00 – 12h00) [4h]:
    • A Formação do Cânon: livros protocanônicos, deuterocanônicos e apócrifos.
    • O processo de transmissão oral e escrita, línguas originais e as principais traduções históricas.
  • Sábado 6 (14h00 – 18h00) [4h]:
    • Introdução à Hermenêutica: Princípios de interpretação de textos antigos.
    • O Perigo do Fundamentalismo e a importância do contexto histórico-cultural.
  • Domingo 7 (08h00 – 12h00) [4h]:
    • Geografia e Arqueologia Bíblica como ferramentas de leitura.
    • Oficina de manuseio da Bíblia e introdução aos métodos críticos (Método Histórico-Crítico).

 

Final de Semana 2: 12-14 fevereiro 2027 O Antigo Testamento – Raízes, História e Promessa (12h + 1h prévia = 13h)

Palestrante: Prof. Gian Angelo

  • Sexta-feira 12 (19h00 – 22h00) [3h]:
    • Visão panorâmica do Antigo Testamento.
    • O Pentateuco (Torah): Mitos de origem, patriarcas e a experiência do Êxodo.
  • Sábado 13 (08h00 – 12h00) [4h]:
    • Os Livros Históricos: A conquista da terra, a monarquia e o exílio babilônico.
  • Sábado 13 (14h00 – 18h00) [4h]:
    • Os Livros Proféticos: O papel do profetismo em Israel, justiça social e esperança messiânica.
  • Domingo 14 (08h00 – 12h00) [4h]:
    • Os Livros Poéticos e Sapienciais: Salmos, Jó, Eclesiastes e a espiritualidade do cotidiano.

 

Final de Semana 3: 19-21 fevereiro 2027. O Novo Testamento – Memória, Jesus e a Comunidade (12h + 1h prévia = 12h + encerramento = 12h). 

Palestrante: Irmã Gervis

  • Sexta-feira 19  (19h00 – 22h00) [3h]:
    • O Mundo do Novo Testamento: O contexto greco-romano e o judaísmo no século I.
    • A formação dos Evangelhos (três etapas: vida de Jesus, tradição oral, redação escrita).
  • Sábado 20 (08h00 – 12h00) [4h]:
    • Os Evangelhos Sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) e o Quarto Evangelho (João): identidades e teologias próprias.
  • Sábado 20 (14h00 – 18h00) [4h]:
    • Os Atos dos Apóstolos e o surgimento das primeiras comunidades cristãs.
    • A Literatura Paulina: Cartas e o pensamento teológico de Paulo de Tarso.
  • Domingo 21 (08h00 – 12h00) [4h]:
    • Cartas Católicas e o Apocalipse: linguagem cifrada, resistência e esperança.
    • Avaliação qualitativa de encerramento, partilha de saberes e entrega de certificados.

 

Notas

·         Local do curso: Paróquia são Vicente de Paulo: R. Gil Vicente - Compensa, Manaus - AM, 69035-300, cel.: 92 8491 8117

·         Professores da Faculdade Católica do Amazonas

·         Inscrições: secretária paroquial são Vicente de Paulo

·         Valor do curso: 150 reais

·         Sábado e domingo almoço nos espações da paróquia

 

 

 

HISTÓRIA DA FILOSOFIA MEDIEVAL - Primeira prova quinta feira 20.08.2026


 


 

 

 

FACULDADE CATÓLICA DO AMAZONAS – MANAUS

 

1.      De que maneira podemos dizer que os Padres da Igreja assumiram de forma criativa os conceitos da filosofia grega: faz um ou mais exemplos.

2.      Quando falamos de deescatoligisação do Kerigma estamos falando de que?

3.      Quais foram os pontos principais do Concilio de Niceia e de Calcedonia?

4.      Que tipo de eclesiologia elaboraram os padres apostólico e porquê?

5.      Apresentar a doutrina das sementes do Verbo de Justino e sua aplicação no Concilio Vaticano II

6.      A capacidade de inculturar o evangelho mostrado para Clemente. Fazer o exemplo.

 

 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Médio-Platonismo: a transição metafísica da antiguidade

 




Paolo Cugini (org.)

 

1. Introdução e Contexto Histórico

O médio-platonismo representa uma das fases mais dinâmicas e transformadoras da história da filosofia ocidental. Estendendo-se aproximadamente do século I a.C. ao século III d.C. (culminando com o surgimento do neoplatonismo de Plotino), este período marca o renascimento do dogmatismo platônico após séculos de dominação do ceticismo na Academia de Atenas.

A transição decisiva começou com Antíoco de Ascalão (c. 130 – 68 a.C.), que rompeu com a vertente cética de Fílon de Larissa e defendeu que as doutrinas centrais de Platão poderiam ser conhecidas com certeza. Antíoco realizou uma síntese eclética, incorporando elementos da física e da lógica estoica, além da ética aristotélica, alegando que estas eram, na verdade, desdobramentos legítimos do pensamento platônico original. Esse ecletismo inicial pavimentou o caminho para uma reinterpretação radical de Platão.

2. Núcleos teóricos e metafísicos

Ao contrário do ceticismo anterior, o médio-platonismo focou intensamente na transcendência e na teologia. Os filósofos deste período transformaram o universo platônico em uma estrutura hierárquica e teocêntrica, baseada em três pilares fundamentais:

As Ideias como pensamentos de Deus

Uma das maiores inovações do médio-platonismo foi a interiorização das Formas ou Ideias platônicas. Em vez de existirem em um reino independente e abstrato (o 'Hiperurânio'), as Formas foram reinterpretadas como os pensamentos eternos de uma Mente Suprema (o Nous ou Deus). Essa mudança resolveu o problema da relação entre o Criador e os modelos da criação, unificando a metafísica platônica com a teologia.

A Hierarquia Divina (Os Três Deuses)

Para preservar a pureza e a transcendência absoluta do Deus Supremo, os médio-platônicos desenvolveram uma estrutura teológica em múltiplos níveis. Numênio de Apameia, por exemplo, formulou uma teoria de três deuses: o Primeiro Deus (o Pai, intelecto puro e estático), o Segundo Deus (o Demiurgo, princípio criador que olha para as Ideias e atua sobre a matéria) e o Terceiro Deus (o Cosmo ou a Alma do Mundo, a manifestação física da ordem divina).

A demonologia e a mediação

Dada a imensa distância metafísica entre o Deus Supremo e o mundo material, a demonologia ganhou enorme importância. Figuras como Plutarco de Queroneia expandiram o conceito platônico de 'daimones' (seres intermediários). Os demônios habitavam o espaço sublunar e atuavam como mensageiros, guardiões e executores da providência divina, preenchendo o vazio entre o mortal e o imortal.

O Problema da matéria e do mal

Os médio-platônicos oscilavam entre duas visões sobre a origem do mal. Uma vertente, influenciada pelo estoicismo, via a matéria como passiva e o mal como uma mera privação do bem ou consequência necessária da finitude. Outra vertente, mais dualista (representada por Plutarco e Numênio), defendia a existência de uma Alma do Mundo irracional ou de um princípio material intrinsecamente caótico e rebelde à ordem divina, gerando uma tensão cosmológica eterna.

3. Principais Pensadores

O movimento não foi homogêneo, mas sim uma constelação de filósofos que compartilhavam pressupostos semelhantes, operando em centros culturais como Alexandria, Atenas e Roma.

Fílon de Alexandria (c. 20 a.C. – 50 d.C.) – O grande filósofo judeu de Alexandria utilizou as ferramentas conceituais do médio-platonismo para alegorizar e interpretar as Escrituras Hebraicas. Fílon identificou as Ideias platônicas com os pensamentos de Deus e introduziu o conceito de Logos como o intermediário supremo e a razão divina manifesta na criação.

Plutarco de Queroneia (c. 46 – 120 d.C.) – Mais conhecido como biógrafo, Plutarco foi um prolífico filósofo platônico. Ele enfatizou a bondade e a transcendência de Deus, adotou uma visão fortemente dualista da alma e da matéria, e popularizou uma complexa estrutura demonológica.

Alcino (século II d.C.) – Autor do 'Didaskalikos' (Manual do Platonismo), Alcino forneceu uma das sínteses mais completas do médio-platonismo dogmático. Ele integrou sistematicamente categorias aristotélicas na lógica e na física platônicas, estruturando a teologia em torno de um Intelecto Primeiro e Inefável.

Numênio de Apameia (século II d.C.) – Filósofo de origem síria que radicalizou a herança pitagórica no seio do platonismo. Numênio defendeu a necessidade de retornar às fontes orientais da sabedoria e exerceu uma influência direta e profunda sobre Plotino, estabelecendo as bases metafísicas da emanação.

4. Ética: A Assimilação a Deus

A ética médio-platônica abandonou o ideal estoico de 'viver de acordo com a natureza' e adotou como fim supremo a fórmula do diálogo Teeteto de Platão: 'tornar-se tão semelhante a Deus quanto possível' (homoiosis theo).

Esse processo de assimilação exigia uma purificação das paixões (apatheia ou metriopatheia) e o cultivo das virtudes intelectuais e morais. A filosofia deixou de ser apenas um exercício dialético para se transformar em um caminho espiritual de salvação e contemplação mística, preparando a alma para a sua libertação do cárcere corpóreo.

5. O Impacto no cristianismo primitivo e a Patrística

O médio-platonismo foi a ponte filosófica fundamental para o desenvolvimento da teologia cristã. Os primeiros Padres da Igreja — como Justino Mártir, Clemente de Alexandria e Orígenes — encontraram no médio-platonismo o vocabulário e o arcabouço metafísico necessários para intelectualizar a fé cristã diante do mundo pagão.

A doutrina do Logos de Fílon auxiliou na formulação da cristologia do Evangelho de João e nos debates trinitários subsequentes. A concepção de um Deus uno, transcendente e criador por meio de Seus pensamentos eternos permitiu que o Cristianismo dialogasse com a alta cultura filosófica do Império Romano, moldando de forma definitiva a ortodoxia cristã ocidental e oriental.

6. Conclusão

Embora muitas vezes obscurecido pelo brilho sistemático do neoplatonismo posterior, o médio-platonismo foi o verdadeiro laboratório conceitual da Antiguidade Tardia. Ao transformar o platonismo de uma busca investigativa em uma teologia da transcendência, este período redefiniu o curso da filosofia e estabeleceu as fundações metafísicas que sustentaram o pensamento medieval por mais de um milênio.

Além da Pós-modernidade: Quem é "O Quarto Homem" de Gianfranco Morra?

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