Apresentação,
tradução e notas de Maria Cecília Gomes dos Reis
“Síntese
Paolo Cugini, digitação Winne Muryanne”
Livro 1
Capítulo1
Pois
para coisas distintas há princípios distintos, como, por exemplo, para os
números e as superfícies.
Em
todo caso, é necessário decidir primeiro o qual dos gêneros a alma pertence e o
que é – quero dizer, se ela é algo determinado e substância, ou se é uma
qualidade, uma quantidade ou mesmo alguma outra das categorias já distinguidas
-, e, ainda, se está entre os seres em potencia ou, antes, se é uma certa
atualidade. Pois isso faz diferença e não pouca. É preciso examinar também se
ela é divisível em parte sou não, e se e qualquer alma é de mesma forma; e, no
caso de não ser de mesma forma, se a diferença é de espécie ou de gênero.
(pag.45-46)
Há
ainda a dificuldade de saber se afecções da alma são todas comuns àquilo que
possui alma ou se há também alguma afecção própria a alma tão-somente. E embora
não seja fácil, é necessário compreender isto. Revela-se que, na maioria dos
casos, a alma nada sofre ou faz sem o corpo, como, por exemplo, irritar-se,
persistir, ter vontade e perceber em geral; por outro Aldo, parece ser próprio
e ela particularmente o pensar. Não obstante, se também o pensar é um tipo de
imaginação ou se ele não pode ocorrer sem a imaginação, então nem mesmo o
pensar poderia deixar de existir sem o corpo. Enfim, se alguma das funções ou
afecções é próprio a alma, ela poderia existir separada; mas se nada lhe é
próprio, a alma não seria separável. (pag.47)
As afecções da alma são assim
inseparáveis da matéria natural dos animais, na medida em que de fato subsistem
neles coisa tais como animo e temor, e não são como a linha e a superfície.
No
exame da alma, é necessário, ao mesmo tem em que se expõem as dificuldades cuja
solução deverá ser encontrada à medida que se avança recolher as opiniões e todos os
predecessores que afirmaram algo a respeito dela, aproveitando-se o que está
bem formulado e evitando aquilo que não está. (pag.49)
O ponto de partida da investigação é
apresentar aquilo que mais parece pertencer à alma por natureza. Ora, há a
opinião de que o animado difere do inanimado especialmente em dois aspectos: o
movimento e a percepção sensível. E, em relação à alma, são mais ou menos esses
dois que recebemos de nossos predecessores. Alguns, com efeito, dizem que alma
é, primordialmente, o que faz morrer. E julgado que não pode mover outra coisa
o que não estiver ele mesmo em movimento, supuseram a alma entre as coisas que
estão em movimento. (pag.49)
Assim, por um lado, todos aqueles
que deram atenção especial ao faro de que o animado se move supuseram que a
alma é por excelência aquilo, que faz mover. Aqueles, por outro lado, que se
detiveram no fato de que o animado conhece e percebe os seres, identificaram a
alma aos princípios: seja a uma pluralidade deles, seja a um único. (pag.51)
E como havia também a opinião de que a alam é
o que pode tanto mover conhecer, alguns então a combinaram a partir de ambos
aspectos, declarando que alma é um número que move a si mesmo.
Mas,
em relação aos princípios – quais e quantas são eles -. Há diferenças
especialmente entre aqueles que os concebem como corpóreos e aqueles que os
concebem como incorpóreos, e ainda discordam desses aqueles que os combinaram e
declararam que os princípios procedem de ambos os tipos. Há ainda diferenças em
relação à multiplicidade, pois uns assumem um único principio, outros um numero
Mario. De acordo com isso discorrem também sobre a alma, pois supunham que o
que é por natureza fonte de movimento deve estar entre os primeiros princípios
– e não sem razão, Donde alguns terem a opinião de que a alma é fogo, pois o
fogo é composto de partículas sutis e é o mais incorpóreo dos elementos e, além
disso, em sentido primordial, tanto é movido como move tudo o mais. (pag.52)
Todos,
com efeito, definem a alma pro assim dizer pro três atributos: o movimento, a
percepção sensível e a natureza incorpórea; e cada um deles remonta aos
princípios. Por isso também aqueles que definem a alma pelo conhecer fazem dela
ou um elemento ou algo proveniente dos elementos, afirmado coisas parecidas uns
e outros, exceto um: pois dizem que o semelhante é conhecido pelo semelhante e,
uma vez que a alma conhece tudo, constituem-na a partir de todos os princípios.
Assim, todos aqueles que dizem haver uma única causa e um único elemento também
afirmam que a alma é única, pro exemplo, fogo ou ar. Outros, por sua vez, ao
afirmarem que são inúmeros os princípios, também fazem da alma algo múltiplo.
No
entanto, senso assim, como conhecerá e por que causa, nem ele disse, nem fica
claro a partir de suas palavras. Por outro lado, aqueles que colocam pares de
contrários como princípios, também constituem a alma a partir de pares de
contrários. E aqueles que colocam como principio um dos contrários - por
exemplo, quente, frio ou outro semelhante – estabelecem de maneira similar que
também a alma é um desses contrários. Por isso, eles se guiam pelas
designações: aqueles que dizem que a alma é o quente, afirmam que também por
isso foi assim nomeado; aqueles que dizem que a alma é o frio pretendem que seu
nome vem de “resfriamento” e de “respiração”. Estas são, portanto, as opiniões
transmitidas a respeito da alma e as causas pelas quais foram ditas. (pag.54)
É
preciso examinar primeiro o que diz respeito ao movimento, pois talvez não
somente seja falso que a substancia da alma é tal como afirmam os que dizem que
ela é o que faz mover a se mesmo ou que pode movem, como talvez seja algo
impossível subsistir movimento na alma. (pag.54-55)
Posto
que há quatro movimentos – locomoção, alteração, decaimento e crescimento -, a
alma se moveria ou por um único deles, ou por mais de um, ou ainda por todos.
Se ela é movida, mas não por acidente, o movimento seria atribuído a ela por
natureza e, assim, também por natureza o lugar: pois todos os movimentos
mencionados ocorrem em um lugar. Se a substancia da alam é mover-se a si mesma,
o movimento será atribuído a ela não por acidente, como ocorre com o branco ou
com o comprimento de três côvados, que também se movem, mas por acidente –
porque aquele a que são atribuídos é movido, isto é, o corpo. E por isso eles
não têm lugar; mas para a alma haverá lugar, se é que por natureza participa do
movimento.
406a22.
Além disso, se é por natureza a alma se move, também por coerção poderá ser
movida; e, se é movida por coerção, também o eu movimento será por natureza. E
da mesma maneira no que concerne ao repouso; pois, para onde se move por
natureza, também ali repousa por natureza, e, de maneira similar, para onde é
movida por coerção, também ali repousa por coerção. Mas quais seriam os movimentos e os repousos
por coerção da alma, não é fácil explicar nem mesmo para os que gostam de
fantasiar. (pag.55-56)
Alguns
dizem que a alma é uma espécie de harmonia, que a harmonia é mistura e
composição de contrários e que o corpo é constituído a partir de contrários.
Todavia,
a harmonia é uma certa razão ou composição dos mistos, mas a alma não pode ser
nem uma coisa, nem outra. Além disso, o mover não é fruto da harmonia, e é, por
assim dizer, particularmente isso que todos atribuem a alma. Convém mais falar
de harmonia em relação à saúde – e as virtudes corporais em geral – do que em
relação à alma. Isso ainda seria mais evidente se alguém tentasse atribuir às
afecções e fondue da alma a alguma harmonia; pois seria difícil conciliá-las.
(pag.60)
Dizemos
que um dos gêneros dos seres é a substancia. E substância, primeiro, no sentido
de matéria – que por si mesmo mão é algo determinado-, e ainda fim, no sentido
do composto de ambas. A matéria, por sua vez, é potência ao passo que a forma é
atualidade, e isto de dois modos: seja como ciência, seja como o inquirir.
E
há a opinião de que, sobretudo os corpos são substancia entre os quais se
encontram os corpos naturais, que são princípios dos demais. Dos corpos
naturais, alguns têm vida, outros não, e dizemos que a vida é a nutrição por si
mesmo, o crescimento e do decaimento. Assim, todo corpo natural que participa
da vida é substância, no sentido de substância composta.
E
uma vez que essa substância também é um corpo de tal tipo – que tem vida-, a
alma não é corpo, pois o corpo não é um dos predicados do substrato, antes ele é o substrato e a matéria. É necessário,
então, que a alma seja substancia como forma do corpo natural que e potencia
tem vida. E a substancia é atualidade. Portanto, é de um copo de tal tipo que a
alma é atualidade. Mas esta se diz de
dois modos – primeiro como ciência; pois ao substituir a alma há tanto o sono
como a vigília; e a vigília algo análogo ao inquirir, o sono, a possui a
ciência, mas não estar a exercê-la; e, no quer concerne a um mesmo individuo, a
ciência é anterior quanto ao devir. E por isso a alma é a primeira atualidade de
um corpo natural que tem em potencia vida. (pag.71-72)
Está,
então, enunciado em geral o que é a alma. Pois ela é a substancia segundo a
determinação, ou seja, o que é, para um corpo de tal tipo, ser o que é. Se um
instrumento fosse um corpo natural – por exemplo, o machado -, a sua substancia
seria o que é ser para o machado, e isto seria a sua ama. Separado disso, ele
não seria mais um machado, exceto por harmonímia. Mas, na verdade, é um
machado, pois a alma não é a determinação e o que é ser o que é para um corpo
desse tipo, mas sim de um corpo natural tal que tenha em si mesmo um principio
de movimento e repouso. (pag.72)
Portanto,
está bastante claro que a alma – ou algumas partes dela, se ela for pro
natureza partível – não é separada do corpo; pois em alguns casos a atualidade
é das partes elas mesmas. Não obstante, por não serem atualidade de corpo
algum, nada impede que pelo menos algumas partes sejam separadas. Mas ainda não
está claro se a alma é atualidade do mesmo modo que o navegador é a atualidade
do navio, E isto basta como um esquema do esboço e da definição de alma.
(pag.73)
Retomando
o princípio da investigação, digamos então que o animado se distingue do inanimado
pelo viver. E de muitos modos diz-se o viver, pois dizemos que algo vive se
nele subsiste pelo menos um destes- intelecto, percepção sensível, movimento
local e repouso, e ainda o movimento segundo a nutrição, o decaimento e o
crescimento. Por isso, parece inclusive que todas as plantas vivem; pois é
manifesto que têm em si mesmas uma potência e um principio deste tipo, por meio
do qual ganham crescimento e decaimento segundo direções contrárias; pois não
crescem apenas para cima e não para baixo, mas similarmente em ambas e em todas
as direções, e assim é para as que se nutrem constantemente e vivem até o fim,
enquanto puderem obter alimento. E é possível separar este principio dos
outros, mas impossível, nos mortais, separar os demais deste. Isso é evidente no caso das plantas, pois
nelas nenhuma outra potência da alma subsiste. (pag.74)
Pois,
dizendo-se a substancia de três modos, como já mencionado, dos quais um é a
forma, outro é matéria e, por fim, o composto de ambas – e, destes, a matéria é
potencia e a forma, pro sua vez, atualidade -, e já que o composto de ambas é
animado, não é o corpo a atualidade da alma ao contrario, ela que é a
atualidade de um certo corpo. E por isso supõem corretamente aqueles que têm a
opinião de não existir alma sem corpo, mas algo do corpo, e por isso subsiste no corpo e num corpo de tal tipo, e
não da maneira como supunham os predecessores, que a adaptavam, ao corpo, sem
ainda mais determinar sobre em que e qual tipo de corpo, mesmo sendo evidente
que o fortuito não recebe o fortuito. E também isto ocorre segundo a determinação:
pois a atualidade de cada cosia ocorre por natureza na matéria apropriada e em
sua potencia subsistente. É evidente, então, a partir das coisas tratadas, que
a alma é uma certa atualidade e determinação daquele que tem a potencia de ser
tal (pag.76)
É
necessário, a quem pretende fazer um exame dessa coisa, compreender o que é
cada uma das capacidades e, em seguida, proceder de maneira a investigar o que
disso se segue e todo o restante. Mas se é necessário dizer algo sobre cada uma
delas – por exemplo, o que é a capacidade de pensar, ou de perceber, ou de
nutrir-se-, é preciso primeiro dizer o que é o pensar e o que é o perceber;
pois as atividades e as ações segundo a determinação são anteriores as
potências. Sendo assim, antes ainda é preciso ter inquirido sobre seus objetos
correlatos, e pela mesma razão ter definido primeiramente o que é o alimento, o
perceptível e o inteligível. (pag.79)
A
alma é causa e principio do corpo que vive. Mas estas coisas se dizem de muitos
modos, e a alma é similarmente causa conforme três dos modos definidos, pois a
alma é de onde e em vista de que parte este movimento, sendo ainda causa como
substância dos corpos animados. Ora, que é causa como substancia, é claro.
Pois, para todas as coisas, a causa de ser é a substancia, e o ser para os que
vivem é o viver, e disto a alma é causa e principio. Além do mais, a atualidade
é uma determinação do que é em potência.
É evidente que a alma é causa também como o em visto de algo; pois, assim como o
intelecto produz em vista de algo, da mesma maneira também a natureza pó faz, e
este algo é seu fim. E nos seres vivos a alma é, por natureza, algo deste tipo;
pois todos os corpos naturais são órgãos da alma – tanto os órgãos dos animais
como os das plantas – como se existissem em
vista da alma. E o em vista de tem dois aspectos: o de que e o em quê. (pag.79-80)
No
geral e em relação a toda a percepção sensível, é preciso compreender que o
sentido é o receptivo das formas sensíveis sem a matéria, assim como a cera
recebe o sinal do sinete sem o ferro ou o ouro, e capta o sinal áureo ou
férreo, mas não como ouro ou ferro. E da mesma maneira ainda o sentido é
afetado pela ação de cada um: do que tem cor, sabor ou som; e não como se diz
se cada um deles, mas na medida em que é tal qualidade e segundo a sua
determinação. O órgão sensorial primeiro é aquele em que subsiste tal potencia.
E são, por um lado, o mesmo que percebe seria uma certa magnitude. Mas, pro
outro, tanto a percepção sensível como o ser para o capaz de perceber não são
magnitudes, e sim uma certa determinação e potencia daquele.
É evidente também a partir disso, pro que os
excessos nos objetos perceptíveis destroem os órgãos sensoriais (pois, se o movimento
for mais forte que o órgão sensorial, a determinação se rompe - e esta seria a
percepção sensível -, assim como a afirmação e o tom das cordas quando
fortemente tocadas). É evidente também por que as plantas não têm percepção
sensível, mesmo tendo uma parte da alam e senso afetadas pela ação dos
tangíveis, uma vez que esquentam e esfriam. A causa disso é não terem nem a
média, nem o principio próprio para receber as formas sensíveis, mas serem
afetadas pela matéria como tal.
Alguém
poderia levantar a questão de se o incapaz de perceber odor é afetado de alguma
maneira pelo odor, e o incapaz de ver, pela cor. E da mesma maneira nos outros
casos, contudo, se o odorífero é o odor, caso ele produza algo, produzirá a
olfação. De maneira que nada incapaz de perceber odor pode ser afetado pelo
odor (e o mesmo enunciado serve para os outros casos). E nenhum dos capazes,
exceto a parte perceptiva de cada um deles. Isso se torna claro também da
seguinte maneira: nem a luz e treva, nem o som e o odor fazem algo aos corpos,
mas antes as coisas em que estão é que o fazem, como, por exemplo, é o ar
acompanhado do trovão que fende a madeira da arvore. Mas os tangíveis e os
sabores afetam os corpos. Do contrario, pela ação de que seriam afetados e
alterados os seres inanimados? Ora, então aqueles produzirão? Ou não é todo e
qualquer corpo capaz de ser afetado pelo odor e som, e os afetados são os indeterminados
e inconstantes, tal como o ar (pois o ar cheira como tendo sido de certa
maneira afetado)? Que é, então, o cheirar além de ser afetado de uma certa
maneira? Ou o cheirar é perceber, e o ar quando é afetado rapidamente de torna
perceptível? (pag. 101-102)
Uma vez que definem a alma,
sobretudo a partir de duas diferenças, isto é, pelo movimento local e pelo
pensar, entender e perceber, e como o pensar e entender parecem ser um certo
perceber (pois em ambos os casos a alma discerne e toma conhecimento de seres),
os antigos, ao menos, disseram que entender é o mesmo que perceber – assim como
Empédocles, que disse: “diante do que se apresenta, a astúcia dos homens
cresce”, e alhures: “donde o entender sempre lhes propicia coisas diferentes”;
e o seguinte verso de Homero pretende o mesmo: “pois tal é o intelecto”; pois
todos eles supõem que o pensar é tão corpóreo como o perceber e que se percebe
e se entende o semelhante pelo semelhante, tal como foi explicado no inicio do
nosso tratado (todavia, seria necessário que eles tratassem, ao mesmo tempo, do
enganar-se; pois ele é mais próprio aos animais, e a alma passa a maior parte
do tempo nele; deste ponto de vista, há a necessidade ou de que todas as
aparências sejam verdadeiras, como dizem alguns, ou de que o engano seja uma
espécie de contato com o dessemelhante, o que seria o contrário de tomar conhecimento
do semelhante pelo semelhante; mas engano e ciência parecem ser o mesmo para os
contrários) – é evidente, então, que o perceber não é o mesmo que o entender.
Pois do primeiro compartilham todos os animais e do segundo, apenas poucos.
Tampouco o pensar – do qual há o modo correto e o incorreto, pois o correto é o
entendimento, a ciência e a opinião verdadeira, e o incorreto, o contrário
deles – é o mesmo que o perceber, pois a percepção sensível próprios é sempre
verdadeira e subsiste em todos os animais, ao passo que o raciocinar admite
ainda o modo falso, é algo diverso tanto da percepção sensível como do
raciocínio; mas a imaginação não ocorre sem percepção sensível e tampouco sem a
imaginação ocorrem suposições.
É evidente que a imaginação não é
pensamento e suposição. Pois essa afecção de nós e de nossos querer (pois é
possível que produzamos algo diante dos nossos olhos, tal como aqueles que,
apoiando-se na memória. Produzem imagens), e ter opinião não depende somente de
nós, pois há necessidade de que ela seja falsa ou verdadeira. Além disso,
quando temos a opinião de que algo é terrível ou pavoroso, de imediato
compartilhamos a emoção, ocorrendo o mesmo quando é encorajador. Porém, se é
pela imaginação, permanecemos como que contemplando em uma pintura coisas
terríveis e encorajadoras. (pag.109-110)
A respeito da parte da alma pela
qual a alma conhece e entende, seja ela separada ou não separada segundo a
magnitude, mas apenas segundo o enunciado, deve-se examinar que diferença tem e
de que maneira ocorre o pensar.
Ora,
se o pensar é como o perceber, ele seria ou não certo modo de ser afetado pelo
inteligível ou alguma outra coisa desse tipo. É preciso então que esta parte da
alma seja impassível, e que seja capaz de receber a forma e seja em potencia
tal qual, mas não o próprio objeto; e que, assim como o perceptivo para os
inteligíveis. Há necessidade então, já que ele pensa tudo, de que seja sem
mistura – como diz Anaxágoras-, a fim de que domine, isto é, a fim de que tome
conhecimento: pois a interferência de algo alheio impede e atrapalha. De modo
que dele tampouco há outra natureza, senão esta: que é capaz. Logo, o assim
chamado intelecto da alma (e chamo de intelecto isto pelo qual a alma raciocina
e supõe) não é em atividade nenhum dos seres antes de pensar. Por isso, é
razoável que tampouco ele seja misturado ao corpo, do contrário se tronaria
alguma qualidade – ou frio ou quente – e haveria um órgão, tal como há para a
parte perceptiva, mas efetivamente não há nenhum órgão. E, na verdade, dizem
bem aqueles que afirmam que a alma é o lugar das formas. Só que não é a alma
inteira, mas a parte intelectiva, e nem as formas em atualidade, e sim em
potencia. (pag113-1140)
Agora, resumindo o que foi dito a respeito da
alma, digamos novamente que a alma de certo modo é todos os seres, pois os
seres são ou perceptíveis oi inteligíveis, e a ciência de certo modo é os
objetos cognoscíveis, e a percepção sensível, os perceptíveis; mas é preciso
investigar de que modo isto se dá.
A
ciência e a percepção sensível dividem-se em relação às coisas: em potencia em
relação às coisas em potencia, e em atualidade em relação às coisas em
atualidade. A parte perceptiva e cognitiva da alma são em potencia estes
objetos: uma, o cognoscível, e outra, o perceptível. Mas há a necessidade de
que sejam ou as próprias coisa ou as formas. Não são as próprias cosias, é
claro: pois não é pedra que está na alma, mas sua forma. De maneira que a alma
é como a mão; pois a mão é instrumento de instrumentos, e o intelecto é forma
das formas, bem como a percepção sensível é forma dos perceptíveis. (pag.121)
Mas
de imediato se coloca um impasse: de que modo se deve falar de partes da alam e
em quantas? Pois, de certa maneira, elas se apresentam como inumeráveis, senão
somente aquelas que alguns dizem distinguir em calculativa, emotiva e
apetitiva, mas outros em racional e irracional. Pois, de acordo com as
diferenças pelas quais se separam outras partes mostram-se tendo disparidades
ainda maiores do que essas de que agora se tratou: a nutritiva, que subsiste
também nas plantas e em todos os animais; e a perceptiva, que não se poria
facilmente nem como dotada de razão, nem como irracional; e ainda, a
imaginativa, que pelo ser é diversa das demais, embora de qual delas é diversa
ou idêntica apresente grande dificuldade, caso sejam supostas partes separadas
da alma; e por fim, a desiderativa, que aparecer ser diversa de todas quanto ao
enunciado e a potência e que, de fato, seria absurdo segmentar: pois é na parte
calculativa que nasce a vontade, mas o apetite e o animo, na parte irracional;
e caso a alma seja tripartite, em cada parte haverá desejo. (pag.122)
Mostra-se, então, que há dois fatores que
fazem mover: o desejo ou o intelecto, contanto que se considere a imaginação um
certo pensamento. Pois muitos seguem as suas imaginações em vez da ciência, mas
nos outros animais não há nem pensamento, nem raciocínio, e sim imaginação.
Logo, são estes os dois capazes de fazer mover segundo o lugar: o intelecto e o
desejo, mas o intelecto que raciocina em vista de algo e que é prático, o qual
difere do intelecto contemplativo quanto ao fim. E todo desejo, por sua vez, é
em vista d e algo; pois alquilo de que há desejo é o principio do intelecto
prático, ao passo que o ultimo item pensado é o princípio da ação.
Assim,
mostra-se razoável que sejam estes dois os que fazem mover: desejo e raciocínio
prático. Pois o objeto desejável move e por isso o raciocínio também move:
porque o desejável é os eu principio. E a imaginação, quando move, não move sem
desejo. Há algo único, de fato, que faz mover: o desejável. Pois, se dois movessem
quanto ao lugar – o intelecto e o desejo -, moveriam de acordo com uma forma
comum. Na verdade, mostra-se que o intelecto não faz mover sem o desejo (pois a
vontade é desejo, e quando se é movido de acordo com o raciocínio, também se é
movido de acordo com a vontade), mas o desejo move deixando de Aldo o
raciocínio, pois o apetite é um tipo de desejo. Intelecto, então, é sempre
correto; ao passo que o desejo e a imaginação, ora corretos, ora não corretos.
Por isso, é sempre desejável que move, embora este seja tanto o bem como o bem
aparente; mas não todo o bem, e sim o bem pratico apenas. E o praticável é o
que admite ser de outro modo.
É
evidente, portanto, que é uma potencia da alma deste tipo a que move o que é
chamado de desejo. Para aqueles que distinguem as partes d alma, no caso de as
distinguirem e separarem de acordo com as potencias, elas se tornam múltiplas:
nutritiva, perceptiva, intelectiva, deliberativa e ainda desiderativa, pois
estas diferem mais umas da s outras do que a apetitiva difere da emotiva.
(pag.124-125)
Todo
aquele que vive e tem a alma, então, é necessário que tenha a alma nutritiva –
do nascimento até a morte. Pois é necessário que o que nasceu tenha crescimento
maturidade e decaimento, e tais coisas são impossíveis sem nutrição. Logo, é
necessário que a potência nutritiva esteja em todos aqueles que crescem e
decaem.
A
percepção sensível, por sua vez, não é necessária a todo e qualquer ser vivo,
pois não é possível que tenha tato tudo aquilo cujo corpo é simples, tampouco
os que não são capazes de receber formas sem matéria. Mas o animal, pro outro
lado, é necessário que tenha percepção sensível [e sem isso pode ser um
animal], se nada em vão faz a natureza. Pois tudo na natureza
subsiste em vista de algo, ou é concomitância acidental do que existe em vista
de algo. E todo corpo capaz de caminhar, se não tiver percepção sensível,
perecerá e então não alcançará seu fim, o que é a função da natureza. (Pois de
que modo ele obterá nutrição? Nos seres sedentários, a nutrição provém do lugar
mesmo de onde nascem; entretanto, uma vez gerado como não sedentário, não é
possível que um corpo tenha alma e intelecto capaz de discernimento sem que
tenha percepção sensível, nem mesmo no caso de. não gerado. Pois por que não
teria? Só se isso fosse melhor ou para a alma ou para o corpo. Mas, de fato,
não seria melhor nem em um caso, nem em outro, pios aquela não pensaria melhor
e este em nada estaria melhor pela falta de percepção.) Portanto, nenhum corpo
não sedentário tem alma sem percepção sensível.
Se
o corpo tem, de fato, percepção sensível, há necessidade de que seja ou simples
ou misto. Mas não é possível ser simples; pois desse modo não teria tato, e é
necessário que o tenha. Isso se trona claro pelo seguinte: já que o animal é um
corpo dotado da alma, e todo corpo é tangível e tangível é o perceptível pelo
tato, é necessário também que o corpo do animal seja capaz de tocar, caso deva
estar assegurada a sobrevivência do animal Pois os demais sentidos o olfato, a
visão e a audição, por exemplo – têm percepção por meio de outras coisa. Mas,
se aquele que percebe tocando não tiver percepção sensível, ele não poderá
evitar certas coisas e apanhar outras. E se for assim, será impossível então
que o animal sobreviva.
E
por isso, também, a gustação é um tipo de tato: pois ela concerne ao alimento e
o alimento é um corpo tangível. Som, cor e dor não são nutrientes, tampouco
produzem crescimento ou decaimento. De maneira que é necessário também que a
gustação seja um tipo de tato, porque é o sentido do tangível e nutritivo.
Ambos os sentidos, então, são necessários ao animal e, evidentemente, para o
animal é impossível existir sem tato. Os demais sentidos, contudo, existem em
vista do bem-estar, e já não ocorrem a não importa que gênero de animal, embora
subsistam necessariamente em alguns (por exemplo, naqueles capazes de
caminhar). Pios, para sobrevivessem, é preciso que tenham percepção não apenas
tocando, mas também a distancia. E isso será possível se forem capazes de
perceber via um intermediário, este sendo afetado e movido pelo perceptível, e
o animal movido pelo intermediário.
Pois,
assim como o que produz movimento local causa a mudança até um certo ponto, e o
que empurra faz com que um outro empurre de forma que o movimento atravesse o
meio – o primeiro empurra sem ser empurrado; o extremo só é empurrado, sem
empurrar; mas o do meio, ambas as coisas (e muitos são os do meio) -, do mesmo
modo também no caso da alteração (exceto que agora se alteram ficando no mesmo
lugar). Assim, se algo for mergulhado ocorre; mas no caso da pedra nenhum
movimento ocorreria, ao passo que na água o movimento iria ainda mais longe; o
ar é aonde até mais longe o movimento iria, ativo e passivo em mais alto grau,
sempre que permanece e conserva-se uno.
Por
isso, no que concerne a reflexão da luz, em vez de dizer que a visão sai do
olho e é refletida, melhor é supor que o ar é afetado pelo formato e pela cor
sempre que permanecer uno. Em uma superfície lisa, o ar permanece uno e, por
esse motivo também, ele move a visão, como o sinal na cera sendo transmitido
até o limite.
Não
é possível evidentemente que o corpo do animal seja simples, quer dizem, só de
fogo, por exemplo, ou só de ar. Pois sem o tato não é possível que ele tenha
qualquer outro sentido, e todo corpo dotado de alma, como foi dito, e
suscetível ao toque. Todos os outros elementos, com exceção da terra, poderiam
se tornar órgãos sensoriais, e todos produzem percepção sensível por perceberem
através de um outro, a saber, através dos intermediários; ao passo que o tato
tem esse nome por tocar as coisas mesmas. Os demais órgãos sensoriais percebem
por tato, sem duvida, só que por meio de um outro, e apenas o tato parece ter
percepção por si mesmo. De maneira que nenhum daqueles elementos poderia compor
o corpo do animal.
Tampouco
ele poderia ser só de terra. Pois o tato é como que uma média entre todos os
tangíveis, e seu órgão sensorial é capaz de receber não apenas as varias
qualidades da terra, mas também o quente e o frio e todas as demais qualidade
tangíveis. Por isso, não percebemos com os ossos, cabelos e tais aportes, que
são de terra. Por isso também as plantas não têm qualquer percepção sensível:
porque são de terra. Sem o tato é impossível que subsista qualquer outro
sentido, mas o órgão sensorial do tato, contudo, não é só de terra, nem só de
qualquer outro elemento.
É
evidente, todavia, que este é o único sentido sem o qual o animal
necessariamente morre. E nem é possível
tê-lo sem ser animal, nem é necessário ter outro, exceto este, s for animal. Por
isso, e excesso dos outros objetos perceptíveis, por exemplo, o excesso de cor,
sobre o som, corrompe apenas o órgão sensorial e não o animal (exceto
acidentalmente, por exemplo, quando junto ao som ocorre um impacto e um golpe
ou quando outras coisas que destroem no contato forem movidas por visões e por
cheiros; e também o sabor, quando calha de simultaneamente ser capaz de entrar
em contato, é destrutivo), enquanto que o excesso de tangíveis como o quente, o
frio o duro arruína o animal. Todo excesso do objeto perceptível arruína o
órgão sensorial; e, da mesma maneira, o tangível arruína o tato, que é aquele
pelo qual se define o animal; pois foi mostrado que sem tato é impossível
existir um animal. Por isso, o excesso dos tangíveis destrói não somente o
órgão sensorial, mas também o animal, porque este é o único órgão que ele
necessariamente precisa ter.
O
animal possui os demais sentidos, como foi dito, não em vista do ser, mas em
vista do bem-estar; por exemplo, a visão de modo que ele veja, estando no ar ou
na água, em suma, por star no transparente; a gustação, pro causa do que lhe é
agradável ou doloroso, e a fim de que os percebe no alimento, e que tenha
apetite e seja movido; a audição, de modo a que algo lhe seja comunicado; [e a
língua, pro fim, de modo que comunique algo aos outros]. (pag.127-131)