terça-feira, 11 de novembro de 2025

Metafísica Trinitária e ontologias relacionais

 

Dr Damiano Migliorini





Pensando no Filho de Deus 1700 Anos Depois de Niceia

 

Dr. Damiano Migliorini

 

 

Síntese e tradução : Paolo Cugini

 

Como devemos pensar sobre o mistério da Trindade?

Na tradição teológica clássica, um "mistério" é aquilo que está "além" da razão, mas não "contra" a razão. Isso significa que uma dada verdade de fé não é inteiramente explicável, mas, ao mesmo tempo, não parece evidentemente contraditória.

A Trindade — uma premissa indispensável para estabelecer a divindade de Cristo — no entanto, é uma verdade de fé que não parece estar meramente além da razão, mas contra ela, isto é, evidentemente contraditória.

É claro que, ao longo da história do pensamento teológico e filosófico, houve muitas tentativas de mostrar que a doutrina não é contraditória e, assim, tornar o ato de fé nela pelo menos "plausível".

Mesmo hoje, no renovado debate trinitário iniciado no âmbito da chamada "filosofia analítica da religião", não faltam explicações.

 

O Sintoma

Obviamente, não é possível analisar cada um desses relatos aqui, mostrando suas fragilidades.

Basta lembrar que a presença de um grande número de posições — cada uma das quais acusa as outras de serem inadequadas (isto é, heréticas!) em relação à riqueza do dogma — já é sintoma de um problema: parece que o chamado "problema lógico da Trindade" não pode ser resolvido.

A suspeita de que esta seja uma doutrina contraditória, portanto, ainda paira sobre nós.

 

O que fazer?

Existem três opções básicas:

(A) tentar mostrar que a doutrina não é contraditória, com alguma estratégia argumentativa ou analogia.

(B) tentar mostrar que podemos aceitar a contradição, porque nossa razão pode fazê-lo.

(C) tentar mostrar que existe uma correspondência entre a maneira como conhecemos o mundo e a maneira como conhecemos a Trindade.

 

Comparando Estratégias

A estratégia (A) é a "clássica", mas vamos supor que ela se mostrou ineficaz: ainda não temos provas de que a Trindade não seja contraditória!

A estratégia (B) pode ser atribuída a Hegel ou, hoje, àqueles que defendem o dialeteísmo. A limitação dessa posição é que ela nos força a entender a razão como a capacidade de contradição, ou a considerar lógicas não clássicas plausíveis (um ponto muito debatido).

Tentarei então mostrar por que (C) pode ser o melhor caminho (que também incorpora, mas de forma diferente, B).

As Pessoas Divinas como Relações Subsistentes

Para chegar a (C), no entanto, é necessária uma premissa adicional. Entre as várias tentativas de "explicar" a Trindade, como bem sabemos, encontramos a de Tomás de Aquino (que opera com base em uma tradição que remonta também a Agostinho) fundamentada na noção de relações subsistentes.

De acordo com essa abordagem, as pessoas divinas são relações transcendentais reais. Vejamos como é possível chegar a essa conclusão.

 


Relações Reais e Transcendentais

As relações reais têm pelo menos três características:

(1) o sujeito é real e o fundamento é real no sujeito;

(2) o termo é real e distinto do sujeito;

(3) os dois extremos são da mesma ordem ontológica. As relações reais estão, portanto, em um sujeito e podem ser acidentais.

As relações transcendentais são essenciais ao sujeito, mas são, de acordo com uma certa tradição, relações impróprias. Elas servem para definir entidades, mas seus extremos são entidades racionais, não existindo realmente como entidades separadas, mas apenas como correlativos.

Relações Divinas

Tomás de Aquino afirma a existência de relações transcendentais e argumenta que elas podem ser consideradas relações porque — mesmo na ausência de veri relata — implicam uma ordem em direção a algo.

Ele então restringe o significado de relação real ao caso em que "um sujeito procede de um princípio de igual natureza" (ponto 3). Cada pessoa divina possui uma propriedade relacional, tornando-a um correlativo verdadeiramente distinto (ponto 2). Isso é suficiente para descartar a possibilidade de que as relações divinas

sejam apenas transcendentais.

 

Então, visto que "as processões divinas são idênticas em natureza, [...] as relações que delas decorrem são também necessariamente relações reais." Tomás de Aquino admite então que as relações divinas são transcendentais, porque em Deus as Pessoas são a mesma coisa (NÃO ponto 1), isto é, a substância divina (as propriedades dos correlativos são da mesma substância).

 

 


Relações Transcendentais Reais

A transformação das relações reais em transcendentais, e das transcendentais em reais, está completa: agora temos uma nova categoria, as relações transcendentais reais. Agora basta dar a esta realidade misteriosa um nome, o nome herdado: relação subsistente.

Para Tomás de Aquino, Deus é relação (no singular), mas também é relações (no plural), e certos tipos de relação. A substância divina, portanto, tem entre suas características, juntamente com seus atributos, a relacionalidade, que se expressa na geração de subsistências: a substância é relação, é uma nova entidade em relação às relações e substâncias do mundo.

Problemas

Essa posição/estratégia tomista tem sido alvo de diversas críticas, tanto por outros teólogos medievais quanto por alguns neotomistas. De fato, ela apresenta várias aporias. Mencionarei apenas algumas:

Em Deus, uma relação se torna substância: substância e relação não coexistem distintamente em Deus. Mas as duas categorias ontológicas são opostas entre si! É surpreendente que, apesar dos esforços dos autores medievais para preservar a tese aristotélica de que nenhuma relação é substancial, em pelo menos um caso ela deva ser violada.

Os conceitos de substância e relação são tão transformados que coincidem. Temos, portanto, o "mistério" de uma distinção que não é uma divisão, em cujas profundezas a contradição pode ou não ser encontrada: depende da disposição de aceitar a ideia de que a "distinção" é uma "divisão por analogia" e que a analogia, mesmo que escape ao alcance da lógica e permaneça deliberadamente ambígua, é, no entanto, um procedimento argumentativo válido.

 

Quo vadis?

Se até mesmo a explicação baseada na noção de uma relação transcendental real (ou relação subsistente) apresenta várias aporias, onde reside sua força explicativa?

Na minha opinião, reside na "convergência" que podemos observar entre a explicação da natureza trinitária de Deus e a natureza relacional do mundo.

Isso significa que a violação da metafísica aristotélica que discutimos no slide anterior é, na verdade, encontrada em todas as ontologias!

Vejamos em que termos, pois até aqui a tese não seria particularmente original.

 

Nota Metodológica

Ao longo da história da filosofia, muitos argumentaram que a relação deve ser capaz de subsistir para dar conta do dogma trinitário.

A questão que deve ser feita, de um ponto de vista ontológico, é se a relação pode subsistir. É aqui que reside a possibilidade de inovar a ontologia.

Se, de fato, não fosse racionalmente possível definir a relacionalidade subsistente, é evidente que isso tornaria a Trindade aporética.

De fato, não se pode partir da Trindade para afirmar que a relacionalidade subsistente é ontologicamente aceitável: teríamos uma subordinação completamente inaceitável da ontologia à teologia.

 

Metafísica Analítica Contemporânea

No debate analítico contemporâneo, há três posições que considero de particular interesse:

(1) antirrealismo: as relações não existem, sendo projeções da razão;

(2) reducionismo: as relações são identificadas com aspectos não relacionais dos relata;

(3) hiper-realismo: as relações são ontologicamente fundamentais, são entidades com seu próprio estatuto ontológico.

Como se pode ver, essas posições remontam àquelas formuladas ao longo da história.

 


Ontologias Relacionais

Atualmente, diversas ontologias foram desenvolvidas cuja tese fundamental é a eliminação do conceito de substância: o que existe portanto, são apenas relações.

 

Entre essas ontologias, encontramos:

- ontologia processual

- realismo estrutural ôntico

- realismo estrutural informacional

Vamos analisar pelo menos as duas primeiras.

 

Filosofia do Processo

A Filosofia do Processo é o esforço para pensar sobre "a verdade óbvia de que nosso mundo e nossas vidas são processos dinâmicos e interconectados" e a tentativa de desafiar a ideia de que o mundo "é feito de coisas que existem independentemente de tais relações".

 

Na Filosofia do Processo, tudo é dinâmico e evolutivo, mas isso não significa que as entidades estáveis ​​que encontramos no dia a dia não existam: elas existem, mas são processos duradouros e repetitivos que emergem da natureza processual-relacional da realidade.

Em Whitehead, assim como em Leibniz, o microcosmo e o macrocosmo são coordenados, conectados entre si em uma rede perfeita de processos.

 

Realismo estrutural ôntico

As principais características desta ontologia (muito recente) são:

(1) eliminativismo: não existem indivíduos, mas apenas estruturas relacionais. O REO afirma a existência de relações sem relata. As estruturas tornam-se os relata de uma rede de relações estruturais.

(2) as relações (ou fatos relacionais) não surgem das propriedades intrínsecas dos relata; em vez disso, as estruturas determinam estes últimos. Introduz-se uma forma de causalidade descendente, de cima para baixo, onde a estrutura determina os valores físicos e propriedades dos "indivíduos" que fazem parte dela (indivíduos que já não são inteiramente tais, tendo-se dissolvido na estrutura).

(3) os objetos individuais não têm uma natureza intrínseca;

(4) da não-subsistência dos objetos, decorre a subsistência ontológica da estrutura: um holismo quântico (ou monismo).

(5) Os indivíduos são funções da nossa linguagem, dispositivos pragmáticos, que não correspondem a nada real.

 

Relacionalidade Subsistente: O Fenômeno

O que tentei hipotetizar no texto é que formas de relacionalidade subsistente são encontradas em todas as ontologias. Todas as ontologias devem, de alguma forma, afirmar a existência de relações subsistentes em diferentes níveis ontológicos.

 

Alguns exemplos:

- entre essência e existência

- entre forma e matéria

- entre tropo e tropo

- entre universal e particular

Acredito que a perspectiva, a conclusão que pode ser alcançada por vários caminhos, é, portanto, clara: a relacionalidade subsistente é encontrada em muitos "fenômenos", se não constitui a estrutura da realidade. Não é, portanto, um privilégio de Deus.

 

Relacionalidade Subsistente: O Problema

Todas as ontologias devem postular relações transcendentais reais, as mesmas usadas para descrever a Trindade. Portanto, elas são ou possíveis para ambos os domínios, ou impossíveis para ambos.

 

O cerne da questão, no entanto, reside aqui: relações subsistentes são impossíveis, mas inevitáveis. O conceito de relação subsistente é antinômico, contraditório.

 

Misterioso precisamente nesse sentido.

Ontologia hiperfática?

 

Chakravartty (2012) enfatiza que uma metafísica revisionista segundo a qual as relações são ontologicamente subsistentes ainda não surgiu.

Se isso for verdade, nossas ontologias são sempre, em certa medida, ontologias negativas, ontologias apofáticas.

As ontologias relacionais (para não mencionar as relacionalistas) têm uma dimensão misteriosa inescapável.

Os elementos que colocamos na base de nossas ontologias são conceitos que postulamos, sem jamais sermos capazes de compreender plenamente sua natureza. E aqui a estratégia (c) entra em jogo novamente.

 

O Mistério do Ser e a Revelação de Deus como Trindade

A aceitação da antinomia das relações abre caminho para o mistério do ser e para uma nova reconciliação entre fé e razão, baseada no reconhecimento de limites epistemológicos comuns: tanto a teologia quanto a metafísica estão imersas no mistério daquilo que é 'contrário' à razão, não apenas daquilo que está 'além' da razão.

Essa imersão nos leva de volta ao credo quia absurdum de uma nova maneira: não cremos em um absurdo porque ele é absurdo, mas em um absurdo entre absurdos.

Parece haver uma correspondência entre o mistério teológico do Deus Trinitário e o mistério ontológico das relações.

Fé e Razão

Nossa maneira de conhecer e falar sobre Deus reflete nossa maneira de conhecer e falar sobre o mundo.

Uma metafísica que nos permita repensar a Trindade dentro de uma nova estrutura filosófica, portanto, poderia expressar o mistério do mundo (isto é, o mistério da relacionalidade) como uma contraparte do mistério trinitário.

A fé, então, não exige um salto epistemológico inaceitável, uma vez que a relacionalidade subsistente se revela como uma dimensão misteriosa, mas inevitável, de toda a existência.

 

Metafísica Trinitária

Por metafísica trinitária, entendo uma teoria que parte de uma ontologia hiper-relacional englobada em uma visão teísta-trinitária de Deus como o significado último da relacionalidade. Não uma metafísica que parte da observação de estruturas ternárias na realidade do mundo ou do ser.

A substância divina é análoga à substância do mundo, pois possui seu próprio modo de subsistência relacional. O pré-requisito para falar de relações intra-trinitárias (relações transcendentais reais) é essa profunda, ainda que aporética, doação relacional da realidade.

Mas devemos estar cientes da dimensão misteriosa de cada um dos dois reinos.

Pensando o Filho de Deus, Pensando o Mundo

Dissemos no início que para "pensar o Filho de Deus" é necessário pensar a Trindade, e que ao fazê-lo percebemos que devemos redefinir nossos limites cognitivos. Além disso, se o Filho é o logos do mundo, Deus, a razão de sua criação, não podemos nos surpreender ao encontrar uma correspondência entre a Origem e o Originado.

Pensar no Filho de Deus e pensar no mundo, portanto, são operações convergentes: conduzem ao mesmo mistério.

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