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| Dr Damiano Migliorini |
Pensando no Filho de Deus 1700 Anos Depois de Niceia
Dr. Damiano Migliorini
Síntese e tradução : Paolo Cugini
Como devemos pensar sobre o mistério da Trindade?
Na tradição teológica clássica, um
"mistério" é aquilo que está "além" da razão, mas não
"contra" a razão. Isso significa que uma dada verdade de fé não é inteiramente
explicável, mas, ao mesmo tempo, não parece evidentemente contraditória.
A Trindade — uma premissa indispensável para
estabelecer a divindade de Cristo — no entanto, é uma verdade de fé que não
parece estar meramente além da razão, mas contra ela, isto é, evidentemente
contraditória.
É claro que, ao longo da história do pensamento
teológico e filosófico, houve muitas tentativas de mostrar que a doutrina não é
contraditória e, assim, tornar o ato de fé nela pelo menos
"plausível".
Mesmo hoje, no renovado debate trinitário iniciado no
âmbito da chamada "filosofia analítica da religião", não faltam explicações.
O Sintoma
Obviamente, não é possível analisar cada um desses
relatos aqui, mostrando suas fragilidades.
Basta lembrar que a presença de um grande número de
posições — cada uma das quais acusa as outras de serem inadequadas (isto é, heréticas!)
em relação à riqueza do dogma — já é sintoma de um problema: parece que o
chamado "problema lógico da Trindade" não pode ser resolvido.
A suspeita de que esta seja uma doutrina
contraditória, portanto, ainda paira sobre nós.
O que fazer?
Existem três opções básicas:
(A) tentar mostrar que a doutrina não é contraditória,
com alguma estratégia argumentativa ou analogia.
(B) tentar mostrar que podemos aceitar a contradição, porque
nossa razão pode fazê-lo.
(C) tentar mostrar que existe uma correspondência
entre a maneira como conhecemos o mundo e a maneira como conhecemos a Trindade.
Comparando Estratégias
A estratégia (A) é a "clássica", mas vamos
supor que ela se mostrou ineficaz: ainda não temos provas de que a Trindade não
seja contraditória!
A estratégia (B) pode ser atribuída a Hegel ou, hoje,
àqueles que defendem o dialeteísmo. A limitação dessa posição é que ela nos
força a entender a razão como a capacidade de contradição, ou a considerar
lógicas não clássicas plausíveis (um ponto muito debatido).
Tentarei então mostrar por que (C) pode ser o melhor
caminho (que também incorpora, mas de forma diferente, B).
As Pessoas Divinas como Relações Subsistentes
Para chegar a (C), no entanto, é necessária uma
premissa adicional. Entre as várias tentativas de "explicar" a
Trindade, como bem sabemos, encontramos a de Tomás de Aquino (que opera com
base em uma tradição que remonta também a Agostinho) fundamentada na noção de
relações subsistentes.
De acordo com essa abordagem, as pessoas divinas são
relações transcendentais reais. Vejamos como é possível chegar a essa
conclusão.
Relações Reais e Transcendentais
As relações reais têm pelo menos três características:
(1) o sujeito é real e o fundamento é real no sujeito;
(2) o termo é real e distinto do sujeito;
(3) os dois extremos são da mesma ordem ontológica. As
relações reais estão, portanto, em um sujeito e podem ser acidentais.
As relações transcendentais são essenciais ao sujeito,
mas são, de acordo com uma certa tradição, relações impróprias. Elas servem
para definir entidades, mas seus extremos são entidades racionais, não
existindo realmente como entidades separadas, mas apenas como correlativos.
Relações Divinas
Tomás de Aquino afirma a existência de relações
transcendentais e argumenta que elas podem ser consideradas relações porque —
mesmo na ausência de veri relata — implicam uma ordem em direção a algo.
Ele então restringe o significado de relação real ao
caso em que "um sujeito procede de um princípio de igual natureza"
(ponto 3). Cada pessoa divina possui uma propriedade relacional, tornando-a um
correlativo verdadeiramente distinto (ponto 2). Isso é suficiente para
descartar a possibilidade de que as relações divinas
sejam apenas transcendentais.
Então, visto que "as processões divinas são
idênticas em natureza, [...] as relações que delas decorrem são também
necessariamente relações reais." Tomás de Aquino admite então que as
relações divinas são transcendentais, porque em Deus as Pessoas são a mesma
coisa (NÃO ponto 1), isto é, a substância divina (as propriedades dos
correlativos são da mesma substância).
Relações Transcendentais Reais
A transformação das relações reais em transcendentais,
e das transcendentais em reais, está completa: agora temos uma nova categoria,
as relações transcendentais reais. Agora basta dar a esta realidade misteriosa
um nome, o nome herdado: relação subsistente.
Para Tomás de Aquino, Deus é relação (no singular),
mas também é relações (no plural), e certos tipos de relação. A substância
divina, portanto, tem entre suas características, juntamente com seus
atributos, a relacionalidade, que se expressa na geração de subsistências: a
substância é relação, é uma nova entidade em relação às relações e substâncias
do mundo.
Problemas
Essa posição/estratégia tomista tem sido alvo de
diversas críticas, tanto por outros teólogos medievais quanto por alguns
neotomistas. De fato, ela apresenta várias aporias. Mencionarei apenas algumas:
Em Deus, uma relação se torna substância: substância e
relação não coexistem distintamente em Deus. Mas as duas categorias ontológicas
são opostas entre si! É surpreendente que, apesar dos esforços dos autores
medievais para preservar a tese aristotélica de que nenhuma relação é
substancial, em pelo menos um caso ela deva ser violada.
Os conceitos de substância e relação são tão
transformados que coincidem. Temos, portanto, o "mistério" de uma
distinção que não é uma divisão, em cujas profundezas a contradição pode ou não
ser encontrada: depende da disposição de aceitar a ideia de que a
"distinção" é uma "divisão por analogia" e que a analogia,
mesmo que escape ao alcance da lógica e permaneça deliberadamente ambígua, é,
no entanto, um procedimento argumentativo válido.
Quo vadis?
Se até mesmo a explicação baseada na noção de uma
relação transcendental real (ou relação subsistente) apresenta várias aporias,
onde reside sua força explicativa?
Na minha opinião, reside na "convergência"
que podemos observar entre a explicação da natureza trinitária de Deus e a
natureza relacional do mundo.
Isso significa que a violação da metafísica
aristotélica que discutimos no slide anterior é, na verdade, encontrada em
todas as ontologias!
Vejamos em que termos, pois até aqui a tese não seria
particularmente original.
Nota Metodológica
Ao longo da história da filosofia, muitos argumentaram
que a relação deve ser capaz de subsistir para dar conta do dogma trinitário.
A questão que deve ser feita, de um ponto de vista
ontológico, é se a relação pode subsistir. É aqui que reside a possibilidade de
inovar a ontologia.
Se, de fato, não fosse racionalmente possível definir
a relacionalidade subsistente, é evidente que isso tornaria a Trindade
aporética.
De fato, não se pode partir da Trindade para afirmar
que a relacionalidade subsistente é ontologicamente aceitável: teríamos uma
subordinação completamente inaceitável da ontologia à teologia.
Metafísica Analítica Contemporânea
No debate analítico contemporâneo, há três posições
que considero de particular interesse:
(1) antirrealismo: as relações não existem, sendo
projeções da razão;
(2) reducionismo: as relações são identificadas com
aspectos não relacionais dos relata;
(3) hiper-realismo: as relações são ontologicamente
fundamentais, são entidades com seu próprio estatuto ontológico.
Como se pode ver, essas posições remontam àquelas
formuladas ao longo da história.
Ontologias Relacionais
Atualmente, diversas ontologias foram desenvolvidas
cuja tese fundamental é a eliminação do conceito de substância: o que existe portanto,
são apenas relações.
Entre essas ontologias, encontramos:
- ontologia processual
- realismo estrutural ôntico
- realismo estrutural informacional
Vamos analisar pelo menos as duas primeiras.
Filosofia do Processo
A Filosofia do Processo é o esforço para pensar sobre
"a verdade óbvia de que nosso mundo e nossas vidas são processos dinâmicos
e interconectados" e a tentativa de desafiar a ideia de que o mundo
"é feito de coisas que existem independentemente de tais relações".
Na Filosofia do Processo, tudo é dinâmico e evolutivo,
mas isso não significa que as entidades estáveis que encontramos no dia a dia
não existam: elas existem, mas são processos duradouros e repetitivos que
emergem da natureza processual-relacional da realidade.
Em Whitehead, assim como em Leibniz, o microcosmo e o
macrocosmo são coordenados, conectados entre si em uma rede perfeita de
processos.
Realismo estrutural ôntico
As principais características desta ontologia (muito
recente) são:
(1) eliminativismo: não existem indivíduos, mas apenas
estruturas relacionais. O REO afirma a existência de relações sem relata. As
estruturas tornam-se os relata de uma rede de relações estruturais.
(2) as relações (ou fatos relacionais) não surgem das
propriedades intrínsecas dos relata; em vez disso, as estruturas determinam
estes últimos. Introduz-se uma forma de causalidade descendente, de cima para
baixo, onde a estrutura determina os valores físicos e propriedades dos
"indivíduos" que fazem parte dela (indivíduos que já não são inteiramente
tais, tendo-se dissolvido na estrutura).
(3) os objetos individuais não têm uma natureza
intrínseca;
(4) da não-subsistência dos objetos, decorre a
subsistência ontológica da estrutura: um holismo quântico (ou monismo).
(5) Os indivíduos são funções da nossa linguagem,
dispositivos pragmáticos, que não correspondem a nada real.
Relacionalidade Subsistente: O Fenômeno
O que tentei hipotetizar no texto é que formas de
relacionalidade subsistente são encontradas em todas as ontologias. Todas as
ontologias devem, de alguma forma, afirmar a existência de relações
subsistentes em diferentes níveis ontológicos.
Alguns exemplos:
- entre essência e existência
- entre forma e matéria
- entre tropo e tropo
- entre universal e particular
Acredito que a perspectiva, a conclusão que pode ser
alcançada por vários caminhos, é, portanto, clara: a relacionalidade
subsistente é encontrada em muitos "fenômenos", se não constitui a
estrutura da realidade. Não é, portanto, um privilégio de Deus.
Relacionalidade Subsistente: O Problema
Todas as ontologias devem postular relações
transcendentais reais, as mesmas usadas para descrever a Trindade. Portanto,
elas são ou possíveis para ambos os domínios, ou impossíveis para ambos.
O cerne da questão, no entanto, reside aqui: relações
subsistentes são impossíveis, mas inevitáveis. O conceito de relação
subsistente é antinômico, contraditório.
Misterioso precisamente nesse sentido.
Ontologia hiperfática?
Chakravartty (2012) enfatiza que uma metafísica
revisionista segundo a qual as relações são ontologicamente subsistentes ainda
não surgiu.
Se isso for verdade, nossas ontologias são sempre, em
certa medida, ontologias negativas, ontologias apofáticas.
As ontologias relacionais (para não mencionar as
relacionalistas) têm uma dimensão misteriosa inescapável.
Os elementos que colocamos na base de nossas
ontologias são conceitos que postulamos, sem jamais sermos capazes de
compreender plenamente sua natureza. E aqui a estratégia (c) entra em jogo
novamente.
O Mistério do Ser e a Revelação de Deus como Trindade
A aceitação da antinomia das relações abre caminho
para o mistério do ser e para uma nova reconciliação entre fé e razão, baseada
no reconhecimento de limites epistemológicos comuns: tanto a teologia quanto a metafísica
estão imersas no mistério daquilo que é 'contrário' à razão, não apenas daquilo
que está 'além' da razão.
Essa imersão nos leva de volta ao credo quia absurdum
de uma nova maneira: não cremos em um absurdo porque ele é absurdo, mas em um
absurdo entre absurdos.
Parece haver uma correspondência entre o mistério
teológico do Deus Trinitário e o mistério ontológico das relações.
Fé e Razão
Nossa maneira de conhecer e falar sobre Deus reflete
nossa maneira de conhecer e falar sobre o mundo.
Uma metafísica que nos permita repensar a Trindade
dentro de uma nova estrutura filosófica, portanto, poderia expressar o mistério
do mundo (isto é, o mistério da relacionalidade) como uma contraparte do mistério
trinitário.
A fé, então, não exige um salto epistemológico
inaceitável, uma vez que a relacionalidade subsistente se revela como uma
dimensão misteriosa, mas inevitável, de toda a existência.
Metafísica Trinitária
Por metafísica trinitária, entendo uma teoria que
parte de uma ontologia hiper-relacional englobada em uma visão
teísta-trinitária de Deus como o significado último da relacionalidade. Não uma
metafísica que parte da observação de estruturas ternárias na realidade do
mundo ou do ser.
A substância divina é análoga à substância do mundo,
pois possui seu próprio modo de subsistência relacional. O pré-requisito para
falar de relações intra-trinitárias (relações transcendentais reais) é essa profunda,
ainda que aporética, doação relacional da realidade.
Mas devemos estar cientes da dimensão misteriosa de cada
um dos dois reinos.
Pensando o Filho de Deus, Pensando o Mundo
Dissemos no início que para "pensar o Filho de
Deus" é necessário pensar a Trindade, e que ao fazê-lo percebemos que
devemos redefinir nossos limites cognitivos. Além disso, se o Filho é o logos
do mundo, Deus, a razão de sua criação, não podemos nos surpreender ao
encontrar uma correspondência entre a Origem e o Originado.
Pensar no Filho de Deus e pensar no mundo, portanto, são
operações convergentes: conduzem ao mesmo mistério.




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