“Uma das maiores contribuições das mulheres para a filosofia política é demonstrar que questões de gênero são problemas filosóficos”. Entrevista especial com Maria Cristina Müller e Adriana Delbó
O cânone filosófico e os currículos universitários devem ser revisados para que as filósofas deixem de constar somente como cota a ser preenchida nos departamentos. Patriarcalismo, preconceito e misoginia ainda são empecilhos, argumentam pesquisadoras
Por: Márcia Junges | 03 abril 2025
“Com certeza, uma mulher filósofa, por si mesma, ao apresentar suas ideias, desafia e expande as bases da própria filosofia e, por extensão, da filosofia política. Permitindo-me a ironia: ela pensa e, mais, ela diz o que pensa! Que assombro, existem mulheres pensadoras!” A provocação da Profa. Dra. Maria Cristina Müller é reverberada por outra filósofa brasileira, a Profa. Dra. Adriana Delbó: “Que as mulheres não usufruam dos princípios democráticos tanto explicados pela filosofia política, que elas não tenham a mesma liberdade que os homens, que elas não sejam nem sequer devidamente respeitadas e valorizadas são problemas que requerem muito mais do que reivindicações por representatividade.” As declarações fazem parte da entrevista que Maria Cristina e Adriana concederam, por e-mail, ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, aprofundando aspectos debatidos pela dupla no IHU Ideias de 6 de março, intitulado Compreendendo o nosso tempo. A contribuição das mulheres para a filosofia política.
Segundo Maria Cristina, talvez se possa dizer que “a maior contribuição das mulheres filósofas para a filosofia e para a filosofia política é a resistência advinda do exercício filosófico empreendido pelas mulheres; sendo a filosofia uma forma de aparecer e atuar no mundo”. Entretanto, este é um campo de disputas nada pacíficas, como adverte Adriana: “Desde quando homens e mulheres vivem igualmente em liberdade e gozam do mesmo modo de uma sociedade democrática?” E complementa: “Uma das maiores contribuições das mulheres para a filosofia política é demonstrar que questões de gênero são problemas filosóficos. Graças ao estudo de gênero por parte das mulheres na filosofia, a área do saber que cria e desconstrói conceitos, tudo o que fora atribuído a elas, tendo em vista os conceitos forjados para elas, pode ser revisto e, inclusive, ressignificado ou até mesmo anulado. Gênero não é um problema de mulheres, mas, não fôssemos nós nos implicarmos nisso, ele não estaria sendo tão pesquisado pela filosofia”.
Infelizmente, observa Maria Cristina, “um dos preconceitos que ainda persistem em relação às mulheres filósofas é a desqualificação dos temas sobre o feminismo como tema filosófico legítimo”, fruto de uma filosofia hegemônica que é “machista, racista e bastante preconceituosa com a filosofia não clássica. Se as mulheres estão estudando e produzindo fora do cânone, isso é avaliado como algo menor ou modismo”, acrescenta Adriana. Revisar os currículos é urgente, a fim de incluir filósofas em seus programas de ensino e bibliografias: isso sim é romper a conivência com o patriarcalismo, preconceito e misoginia, e não apenas “compor números e evitar a acusação de falta de equidade”.
Maria Cristina Müller é pós-doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás – UFG (2019). Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar (2010), cursou mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS (1998) e é graduada em Filosofia Licenciatura Plena pela Universidade de Passo Fundo – UPF (1995). É professora associada da Universidade Estadual de Londrina – UEL, onde atua no Departamento de Filosofia desde de 2000; é docente permanente do PPG em Filosofia da UEL na Linha de Pesquisa Ética e Filosofia Política. Participa do Núcleo de Sustentação do GT Filosofia Política Contemporânea da ANPOF, onde foi coordenadora no biênio 2016 e 2018, além de fundadora e coordenadora do Grupo de Estudos Hannah Arendt UEL e coordenadora do Grupo de Pesquisa Hannah Arendt e a filosofia política contemporânea, cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico – CNPq. Concentra suas pesquisas na área de Filosofia Política e Ética com ênfase nos estudos sobre Hannah Arendt. Desde 2018, incluiu nas suas investigações a temática acerca da presença da mulher na filosofia.
Adriana Delbó Lopes possui graduação (1997) em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC-Campinas (1997), onde também cursou mestrado (2000). É doutora em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP (2006). É professora associada III da Universidade Federal de Goiás – UFG. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Filosofia Política, atuando principalmente nos seguintes temas: Nietzsche, Agamben, Foucault, Butler, filosofias afro-brasileiras, cultura, política, feminismo, ensino de Filosofia. Coordena o projeto de pesquisa Nietzsche e as mulheres: uma leitura feminista da crítica nietzschiana aos ideais. De seus inúmeros artigos, destacamos Corpos femininos, demandas masculinas: ainda a crítica de Nietzsche à cultura dos ideais (In: PONCIANO, João; PETRY Isadora (org.). Meu caro Oswaldo Giacóia: quando o verdadeiro filósofo é o professor. Rio de Janeiro: Multifoco, 2024).
Confira a entrevista.
IHU – Em que aspectos a contribuição das mulheres para a filosofia política não é apenas uma questão de representar uma perspectiva de gênero, mas também de expandir e desafiar as bases da própria teoria política?
Maria Cristina Müller – A filosofia em geral, independentemente da temática, desde a Antiguidade, recebeu a contribuição das mulheres; do mesmo modo, inúmeras filósofas, desde muito tempo apresentam importantes aportes à subárea da filosofia política. Rosa Luxemburgo (1870-1919) (1) é um exemplo da contribuição das mulheres à teoria política. Ela escreveu sobre liberdade e democracia, nacionalismo e autodeterminação dos países, greve e espontaneidade das massas. No entanto, seus saberes nem sequer foram considerados e transmitidos pela história da filosofia.
As mulheres filósofas tratam de questões que desafiam o mundo em que se fazem presentes; abordam temas clássicos como as discussões da teoria do conhecimento e da metafísica, mas também temas da filosofia prática, como a ética, a política e a estética; ou podem ainda querer discutir a condição imposta à mulher. Christine de Pizan (1364-1430) (2), por exemplo, escreveu para as mulheres e as defendeu de ideias misóginas no fim da Idade Média, sem nos esquecer de que ela sustentou a família com seus escritos.
Com certeza, uma mulher filósofa, por si mesma, ao apresentar suas ideias, desafia e expande as bases da própria filosofia e, por extensão, da filosofia política. Permitindo-me a ironia: ela pensa e, mais, ela diz o que pensa! Que assombro, existem mulheres pensadoras!
Adriana Delbó – Quando a filosofia política trata da liberdade, isso diz da liberdade de qual gênero e em quais contextos? Quando essa área da filosofia trata da democracia, mesmo a democracia moderna, isso diz da democracia usufruída por quem? Quando ela trata do princípio de igualdade, ele é pensado a partir da igualdade entre quais pessoas, de quais gêneros, quais lugares e classes? Desde quando homens e mulheres vivem igualmente em liberdade e gozam do mesmo modo de uma sociedade democrática? Supondo que algumas mulheres consigam, quais são essas mulheres? A quais grupos e quais classes elas pertencem? A explicação da guerra ou a defesa do restabelecimento de paz são pensadas a partir de quais realidades, quais épocas e quais interesses? Que as mulheres não usufruam dos princípios democráticos tanto explicados pela filosofia política, que elas não tenham a mesma liberdade que os homens, que elas não sejam nem sequer devidamente respeitadas e valorizadas são problemas que requerem muito mais do que reivindicações por representatividade.
Se as mulheres na filosofia não enfrentarem a partir de suas pesquisas essas questões, será que a filosofia política deixará de ser assinada apenas por homens? O abismo entre a importância dos homens e do pensamento deles e o descaso para com o pensamento das mulheres naquilo que é discutido pela filosofia política diz de uma questão ontológica semelhante à que Sueli Carneiro (3) denuncia existir na invenção do “ser”, como uma categoria forjada por pessoas brancas e, consequentemente, a necessidade também de forjar o “não ser” (as pessoas não brancas). A seguir retomarei essa construção de Sueli Carneiro. Considero, no entanto, que a mesma análise vale para as distinções hierárquicas e excludentes entre homens e mulheres e para o quanto essas estão inscritas na filosofia política.
As mulheres (digo: a compreensão das mulheres; a leitura dos corpos e do seu funcionamento; as expectativas sobre elas; as atribuições para elas; as avaliações delas) foram inventadas pelos homens tendo como parâmetro único a autorreferência e as próprias demandas. O homem é o ser; a mulher, por sua vez, é aquilo que o homem não é; ela é, portanto, o não ser. É a falta. A mulher é uma delimitação masculina. E a própria necessidade de definição, delimitação, determinação não decorre da tentativa de controlar? A oposição entre força e fragilidade, racionalidade e sensibilidade, direito e obrigação, possibilidades e limitações, entre outras, tem como fonte a compreensão e a definição do feminino como o não masculino – a mulher –, algo realizado pela lente autorreferencial dos homens.
IHU – Nesse sentido, quais vocês consideram as maiores contribuições das mulheres para a filosofia política?
Maria Cristina Müller – Talvez possamos dizer que a maior contribuição das mulheres filósofas para a filosofia e para a filosofia política é a resistência advinda do exercício filosófico empreendido pelas mulheres; sendo a filosofia uma forma de aparecer e atuar no mundo. A sociedade patriarcal em que ainda vivemos discrimina e inferioriza a mulher consolidando uma identidade equivocada. A mulher foi impedida de acessar o espaço público e de exercer determinadas atividades, como a política; a mulher foi aprisionada no espaço privado e em atividades ligadas ao cuidado como a saúde e a educação; tais fatos povoam o imaginário simbólico e a linguagem comum até hoje, século XXI.
A filosofia é uma das atividades que foi apresentada como predominantemente de e para homens. Os currículos dos cursos de formação, a literatura da área, os manuais etc. transmitem a falsa ideia de que a filosofia foi feita apenas de filósofos; são ensinados e publicados filósofos como Platão, Aristóteles, Agostinho de Hipona, Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau, Habermas, para citar alguns.
As filósofas são invisibilizadas, excluídas, silenciadas como se não tivessem contribuído com a história da filosofia. Olimpia de Gouges (1748-1793) (4) é um exemplo claro do silenciamento imposto às mulheres filósofas; ela escreveu sobre temas controversos para a sua época, tais como sobre os direitos das mulheres, crítica à escravidão e defesa dos desvalidos. Por isso foi condenada à pena da guilhotina.
É neste contexto de invisibilização que o filosofar das mulheres se transforma em resistência. E, deste modo, podemos dizer que a maior contribuição delas para a filosofia política é fazer filosofia e política.
Adriana Delbó – Uma das maiores contribuições das mulheres para a filosofia política é demonstrar que questões de gênero são problemas filosóficos. Graças ao estudo de gênero por parte das mulheres na filosofia, a área do saber que cria e desconstrói conceitos, tudo o que fora atribuído a elas, tendo em vista os conceitos forjados para elas, pode ser revisto e, inclusive, ressignificado ou até mesmo anulado. Gênero não é um problema de mulheres, mas, não fôssemos nós nos implicarmos nisso, ele não estaria sendo tão pesquisado pela filosofia.
A filósofa bell hooks (5) destaca a ideia de que “o pessoal é político” – ideia trazida pela segunda onda do feminismo, e em 1960 publicada num ensaio escrito pela feminista Carol Hanisch (6). Atribuir às mulheres a função do cuidado; ter a maternidade como algo compulsório; cobrar das mulheres determinados comportamentos e avaliá-las por determinados valores morais – diga-se de passagem, inventados por homens; alegar que o trabalho doméstico e educativo é algo muito mais feminino; dificultar o reconhecimento da capacidade das mulheres para assumirem poder em espaços públicos; autorizá-las a certos poderes (leia-se: capacidades) somente no espaço doméstico e dificultar poderes em outras instâncias; alegar que a sensibilidade é um aspecto feminino; associar força aos homens e fraqueza às mulheres; avaliar as mulheres pela beleza física; dar às mulheres remuneração mais baixa ou dificultar a progressão no trabalho são alguns dos problemas pelos quais passam as mulheres e que decorrem de problemas de gênero, que são culturais, políticos, ontológicos e filosóficos. Eles ainda precisam ser combatidos na esfera social e política, não obstante, estão fincados em compreensões, denominações e conceitos para o “feminino” e para tudo aquilo que é considerado “mulher”.
Destituição do funcionamento machista no modo de fazer filosofia
A oposição entre masculino e feminino em detrimento da mulher é resultado da filosofia feita apenas por homens. O questionamento a tudo isso só pode ser incluído na filosofia política se essa deixar de ser majoritariamente construída por mentalidades masculinas e deixar de responder a demandas exclusivamente masculinas. Caso contrário, o papel secundário e complementar escrito para as mulheres nunca será rasgado. A contribuição das mulheres para a filosofia política é destituir a soberania dos homens. E o nosso desafio é muito maior do que elaborar novos conceitos. Porque não é sempre que os conceitos têm efeitos. Há filosofias que permanecem sem serem lidas e sentidas. Precisamos destituir dentro e fora de nós o funcionamento machista que nem sempre percebemos no nosso modo de fazer filosofia e de nos relacionarmos dentro dos espaços onde a filosofia é feita. Precisamos nos transformar em algo que deixe de ser a mulher dos homens.
IHU – Quais pensadoras e suas ideias destacariam como basilares em uma filosofia política que brota de um outro registro analítico sobre as estruturas e dinâmicas do poder, do Estado, da justiça e da liberdade?
Maria Cristina Müller – Acima, apresentei três exemplos de filósofas que contribuíram para a filosofia política, mas temos muitas outras; cada uma delas é um destaque em si mesma, o que torna difícil responder à pergunta. Contudo, sem preterir nenhuma das filósofas, destaco Hannah Arendt (1906-1975) (7) como uma filósofa (mesmo que ela mesma recusava tal denominação) imprescindível para a filosofia política e como uma pensadora que desafia o modo comum de filosofar e a tradição da filosofia política; e, por isto mesmo, uma filósofa genuína. Para Arendt, a reflexão é posterior à experiência; em entrevista concedida à Günter Gaus em 1964, disse: “Não acredito que possa existir nenhum processo de pensamento sem experiência pessoal. Todo pensamento é um pensamento posterior, isto é, uma reflexão sobre algum fato ou assunto”. A partir de sua experiência no mundo, sentia-se impelida a compreendê-lo e, como pensadora, produzia reflexões materializadas em textos, artigos, livros, palestras etc.
Arendt foi pioneira em muitos espaços ocupados tradicionalmente por homens. Foi a primeira mulher a proferir a aula inaugural da Universidade Notre Dame/EUA em novembro de 1950. Em 1953, foi a primeira mulher convidada a ministrar os Seminários de Crítica Christian Gauss na Universidade de Princeton/EUA. Quando Arendt profere as palestras, há na audiência muitos homens da universidade e do Instituto para Estudos Avançados e eles expressam a satisfação e o entusiasmo em ouvir uma mulher palestrando nos seminários. Mas na cerimônia de encerramento e em carta a Kurt Blumenfeld, Arendt expressa seu aborrecimento por ter sido atribuída a ela a condição de “mulher símbolo” ou “mulher de exceção”, o que ela rejeitou com veemência. Na cerimônia Arendt explicou o que significa ser um judeu de exceção (sentir-se um ser humano excepcional e como uma exceção ao povo judeu), respondendo criticamente, por essa via, ao equívoco do papel que lhe foi atribuído. Em 1959, a Universidade de Princeton a convida para ser professora plena na instituição. A universidade apresenta, para a aprovação de Arendt, o release sobre sua contratação, que seria publicado no New York Times, em que expressava que ela seria a primeira mulher com aquele status junto à universidade. Arendt reitera a mesma crítica feita em 1953 e ameaça rejeitar o cargo se o papel de mulher símbolo não fosse retirado do release. Ela não queria ser uma exceção, recusava a distinção em relação às mulheres “comuns”. Segundo a biógrafa de Arendt, Elizabeth Young-Bruehl, ela era feminini generis a seu modo, uma pessoa, como todas as outras, capaz de reflexão e pensamento próprio, independente, livre e isso parece que os homens à sua época não queriam admitir; talvez a pergunta que deveria ter sido feita é porque a universidade nunca havia indicado uma mulher como professora plena.
Diálogo e diversidade
Hannah Arendt foi excluída da sociedade em que vivia por ser judia, tornou-se apátrida e pária, mas uma pária consciente; ofereceu, como resistência a atuação e a reflexão política que engrandece o ser humano como ser que é do mundo. Arendt buscou compreender o mundo e, talvez, por compreendê-lo, tenha aprendido a amá-lo; sendo o amor mundi o tema unificador das obras de Arendt.
No texto A crise na educação (1958), Arendt expõe que é o amor que protege os recém-chegados no mundo, ao mesmo tempo que os impele para a suplantação do mundo que está velho. Amor como a ideia grega de philanthropia, como partilhar o mundo com os outros seres humanos. É neste sentido que o próprio mundo só se forma nos espaços de diálogo entre os seres humanos em toda sua diversidade, da mesma forma que a própria humanidade do ser humano aparece no espaço do entre-os-seres humanos preservado pelo diálogo.
Adriana Delbó – Muitas filósofas poderiam ser lembradas. Por questão de tempo, farei aqui o destaque de apenas duas de fora do cânone.
1 Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (1957-) (8), filósofa nigeriana. Ela contribui para a compreensão da invenção das mulheres como categoria hierarquizadora, com efeitos opressores para elas mesmas. Ela explica como na cultura iorubá a introdução do gênero é responsabilidade do processo colonizador do Ocidente. Antes disso, as hierarquias tinham como critério a longevidade. O poder era conquistado conforme as pessoas iam ficando mais velhas. Portanto, a distinção física entre homem e mulher não tinha peso para tais relações. Junto com tantos outros problemas da colonização, a leitura ocidental do corpo transportou a hierarquia entre homem e mulher. Portanto, dar destaque para a distinção de gênero é uma forma de criar o gênero e, a partir dele, hierarquizar. A filósofa Aline Matos da Rocha (9) é a mulher precursora dos estudos e das traduções de Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí no Brasil.
2 Sueli Carneiro (1950-), filósofa brasileira, paulista. Ao problematizar o quanto pessoas negras são compreendidas, vistas e tratadas como inferiores, Sueli Carneiro explica o racismo como decorrência de uma ontologia. A ideia de “ser” é obra da filosofia europeia branca. O “não ser” é uma exigência subsequente, porque, afinal, a compreensão do que é “ser” teve como condição a compreensão do que é o “não ser”. Mas, afinal, quem é o “ser” e quem é o “não ser”? Tais diferenciações foram elaboradas a partir de quais pessoas, em quais épocas, quais povos e a partir de quais demandas? Sueli Carneiro explica que “ser” é uma autointitulação, obra da filosofia feita por quem definiu o “ser” a partir de si. Na lógica excludente desta filosofia, todas as pessoas não brancas pertencem à categoria do “não ser”. Como os problemas políticos e sociais enfrentados até hoje por todas as pessoas não brancas estariam desassociados da ontologia produzida pela filosofia hegemônica?
IHU – Qual é a importância de pensadoras como Arendt, Butler (10) e outras para a filosofia política? Que ideias centrais destacariam e como elas tensionam o cânone filosófico?
Maria Cristina Müller – Hannah Arendt busca compreender o mundo que intentou modificar a dignidade da pessoa humana; ela constrói uma crítica à moderna alienação do mundo e à prevalência do privado e do social em detrimento do domínio público-político, na qual a ação é substituída pelo comportamento e pelo consumo. Arendt mostra como a política foi derrotada pela urgência das necessidades da vida e como o advento do social sobre o político levou ao enfraquecimento e declínio do domínio público. No entanto, busca pelo sentido da política mesmo quando tudo parecia um completo sem sentido. Ousa criticar a tradição do pensamento político e moral e seus cânones, pois não foram suficientes para impedir os horrores produzidos em pleno século XX, bem como para compreender os acontecimentos. Reflete sem guias (sem corrimão), de modo original, gosta do debate e responde às objeções aos seus escritos desde que lhe fossem dirigidas com o objetivo de refletir e não de atacar ou destruir. Demonstra que os seres humanos, como seres natais e iniciadores, podem trazer a novidade ao mundo, podem agir no espaço público e modificar o que está dado.
Os escritos de Arendt e sua atuação no mundo estão imbricados e essa compreensão permite entender sua insistência de que, mesmo em tempos sombrios, pode-se esperar que alguma luz seja lançada; mesmo esses tempos sombrios podem ser iluminados pela luz que advém da ação e do discurso daqueles que resistem e ousam aparecer no mundo público para trazer a novidade, não se submetendo ao que está estabelecido como certo e aos processos que estão em andamento. Há esperança quando se entende que os seres humanos são iniciadores, seres natais que podem criar e recriar o mundo, pois são capazes de ação e liberdade. É impressionante como os escritos de Arendt continuam a responder questões do contemporâneo comprovando sua importância e atualidade.
Judith Butler e Lélia Gonzales
Judith Butler (1956-) apresenta uma importante reflexão sobre performatividade contribuindo para a crítica às identidades binárias de gênero impostas pela concepção tradicional. Butler entende que a identidade de gênero é performativa, uma representação que acontece no espaço público das relações; é moldado por normas que podem ser subvertidas e reconfiguradas, por este motivo uma questão também política; se há singularidade nas identidades humanas que performam no espaço público em relação a outras singularidades, também há singularidade no gênero, não podendo este estar restrito ao binarismo.
Destaco ainda Lélia Gonzales (1935-1994) (11), intelectual negra brasileira, defensora do feminismo afro-latino-americano. Lélia Gonzales busca a recuperação da resistência e insurgência contra os poderes estabelecidos, assumindo como sua marca a urgência de se combater o racismo. Ela entende que o racismo na América Latina “reproduz e perpetua a crença de que as classificações e os valores da cultura ocidental branca são os únicos verdadeiros e universais”.
Adriana Delbó – Deixarei a resposta sobre a importância de Arendt para a profa. Maria Cristina Müller responder, tendo em vista ela ser uma exímia estudiosa desta filósofa. Quanto a importância de Judith Butler para a filosofia política, destaco o resultado da genealogia que ela realiza nas categorias de gênero, a partir dos mais distintos campos discursivos. Butler explica que a ontologia está na base da política, porque ela e o discurso político são intrínsecos. A ideia de que o sexo de uma pessoa é natural e o gênero é culturalmente construído cai por terra, porque Butler nos mostra que até mesmo a determinação do sexo é uma interpretação e é socialmente demarcada. A partir de como o corpo é lido, o sexo determinado dirá o que a pessoa deve ser, que nome terá, que roupa deverá vestir, quais comportamentos serão adequados, quais desejos serão aceitos, como será avaliada, o que para ela será permitido ou proibido, quais profissões serão adequadas, quais relacionamentos serão aceitos, como será avaliada etc. O sexo é o início da imposição social e desde então ocorrem os limites na produção de identidades.
Práticas significantes e criadoras
Para Butler, a política se faz nas práticas significantes que são criadoras, regulamentadoras e desregulamentadoras da identidade. Sendo assim, até mesmo a produção da sexualidade é uma resposta, é inconsciente e é atravessada por práticas político-sociais. O gênero, por sua vez, é uma performance operacionalizada desde o nascimento, tendo em vista o poder da sociedade na nomeação, na produção de expectativas, nas mais variadas instâncias da educação, nas cobranças, na moralidade que avalia, premia ou pune etc. Assim, Butler nos mostra o quanto ao feminismo ainda se faz necessária a ruptura com o binário oposicional, porque ele é a primeira força limitadoras de vidas. A divisão sexo-gênero, que sempre amparou as bases fundantes da teoria e da política feministas, não se sustenta depois da obra de Butler. Assim, o gênero é uma produção política e uma questão para a filosofia política.
IHU – Por que o reconhecimento da importância e da colaboração das mulheres continua sendo tão difícil de ser assumido e considerado na filosofia?
Maria Cristina Müller – A filosofia como área do conhecimento tem mais de 2.500 anos; seus alicerces foram construídos em uma sociedade patriarcal em que as mulheres, em geral, nem sequer tinham direito à educação formal. Por séculos, o espaço destinado a elas era o privado; contudo, algumas receberam conhecimento e educação: além disto, algumas puderam transmitir seus conhecimentos publicamente, como foi caso de Hipátia de Alexandria (12) (viveu aproximadamente até 415 d.C), estudiosa de Platão e Aristóteles, escreveu várias obras como Comentário a aritmética de Diofanto e Corpus astronômico. Paradoxalmente ao fato da existência de mulheres filósofas desde a Antiguidade clássica, são escassos os registros, as referências e os estudos sobre elas.
A ausência de registros reflete-se diretamente no desconhecimento da contribuição da mulher à filosofia ao longo da história e na falta de transmissão dos saberes das mulheres filósofas. O dizer da mulher não é conservado, não há permanência. A invisibilidade parece ser uma das grandes dificuldades, não a ausência de filósofas. Soma-se a isto a dificuldade em reconhecer a autoridade do dizer do sexo feminino.
O não reconhecimento do dizer das mulheres evidencia o grande simbolismo da negação do dizer da mulher, isto é, menosprezar, desqualificar ou invalidar o discurso da mulher é negar a autoridade do dizer do sexo feminino e, concomitantemente, inferiorizá-la. No meio acadêmico a superação desta dificuldade parece muito mais complexa e difícil uma vez que, teoricamente, o critério nesse meio é a autoridade intelectual. No entanto, o predomínio é do imaginário simbólico e da reprodução do status quo da sociedade que inferioriza e objetifica a mulher.
Adriana Delbó – A filosofia hegemônica é machista, racista e bastante preconceituosa com a filosofia não clássica. Se as mulheres estão estudando e produzindo fora do cânone, isso é avaliado como algo menor ou modismo. Mas há também uma questão emocional, que é também política. Qual a capacidade psíquica e o interesse para ler e ouvir aquilo que está sendo produzido pelas mulheres e que não diz respeito apenas ao que os filósofos mais consagrados produziram? Quem dá valor? É bastante recente que as mulheres possam escrever e publicar. Mas há ouvidos e leitores para tanto? Do mesmo modo que em reuniões nos espaços de trabalho, câmeras ainda sejam desligadas, pessoas ainda saiam das salas quando uma mulher pede a palavra e alterar o tom de voz para falar com as mulheres ainda seja corriqueiro, há a recusa em se considerar o que as mulheres produzem. A “machulência” ainda impera e aconselha: “Deixe que falem e que escrevam, mas nem vamos considerar nem levar adiante!”
IHU – Quais preconceitos e limites que ainda persistem em relação às mulheres filósofas?
Maria Cristina Müller – Um dos preconceitos que ainda persistem em relação às mulheres filósofas é a desqualificação dos temas sobre o feminismo como tema filosófico legítimo. A crítica ao sexismo e a misoginia, a reivindicação dos direitos das mulheres, a problematização do acesso da mulher a cultura etc., são rotuladas como agenda feminista e não filosófica; como se a preocupação com tais temáticas fossem algum tipo de insubordinação, reclamação desmesurada e exclusividade do sexo feminino e que, portanto, não cabem na filosofia.
Adriana Delbó – Compreensões arraigadas e não pensadas não se alteram. Nem sequer a mentalidade de uma filósofa ou de um filósofo é alterada se não estiver aberta ao exercício (constante e livre da autodefesa) do pensamento. Como tal exercício não é garantido nem sequer para quem está na filosofia desde há muito tempo, ainda é comum a defesa de que a filosofia trata de temas que são universais, de que tudo aquilo que pertence ao universo das mulheres, das pessoas trans e das pessoas negras não é universal, mas particular, e, portanto, questões não filosóficas.
Ocorre que, como se sabe, as mulheres nunca estiveram totalmente ausentes da filosofia, apesar de todo o desprezo para com elas e toda a diminuição e visão interessada lançada sobre elas. Atualmente muitas mulheres não aceitam mais estudar apenas temas e problemas que foram definidos como universais por mentalidades masculinas. Mas tais mentalidades (em corpos de mulheres ou de homens) ainda prevalecem e avaliam esses “novos” problemas como modismo, que em breve passará ou não terá resultado significativo para a produção filosófica.
“Dóceis e solidárias”
A produção intelectual acadêmica não necessariamente significa alteração dos espaços onde ela ocorre, porque se modos de sentir, de pensar e de funcionar não passaram por alterações, o modo de avaliar segue o mesmo. Portanto, das mulheres na filosofia ainda se espera que tratem de temas universais determinados por compreensões masculinas e, junto a isso, ainda deveriam estar dóceis e solidárias, com “a sensibilidade e a generosidade femininas”, exercendo atividades de serviços e de ajuda, quase nunca assumidos pelos homens – por exemplo, organizando o lanche das reuniões de colegiado e, na falta de um técnico administrativo (ou de uma técnica administrativa), a redação da ata.
Ainda é isso que se espera de nós. E sempre que não correspondemos a tais expectativas, somos e seremos mal avaliadas, porque os critérios de avaliação não mudaram. As avaliações, por sua vez, criam a imagem, a verdade a partir da qual somos tratadas. Para as pessoas mais conservadoras, nossa imagem não é agradável. Junto a isso, ainda ocupamos a filosofia com temas avaliados como não filosóficos?! Então, os descontentes e temerosos esperneiam, às vezes em silêncio, mas sempre atuando a partir dos preconceitos, que podem até serem velados, mas nem por isso sem efeito.
IHU – Por outro lado, sabemos que há avanços em relação ao passado acerca da inserção feminina na Filosofia e a conquista de espaços na academia. O que destacariam nesse sentido em termos de graduação e pós-graduação?
Maria Cristina Müller – Não havia até pouco tempo atrás o reconhecimento dos temas dos feminismos como área de pesquisa filosófica; alguns ainda torcem o nariz para a temática. Somente em 2016 e 2018, há um avanço das discussões no Brasil, quando foi criado o Grupo de Trabalho Filosofia e Gênero na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia – ANPOF. A partir daí vivemos um momento de grandes discussões sobre a temática acerca dos saberes das filósofas; discussões tratadas por mulheres filósofas. Foram criados grupos, laboratórios e centros de pesquisas sobre mulheres filósofas, principalmente nas universidades por todo o país. Para citar alguns destes grupos, podemos apresentar: a Rede Brasileira de Mulheres Filósofas, que divulga trabalhos de filósofas, promove sua participação em fóruns, debates e, por meio da publicação de postagens em redes sociais, implementa a visibilidade das produções filosóficas das mulheres; e o blog Mulheres na Filosofia, que desenvolve um trabalho sistemático sobre as filósofas.
Na ANPOF, além do GT Filosofia e Gênero também foi criado o GT Mulheres na História da Filosofia. Alguns protocolos e cartilhas foram construídos para colaborar com a prevenção da violência de gênero e do assédio e muitos PPGs em Filosofia os adotaram. O trabalho está repercutindo, pois os estudantes do Ensino Médio estão chegando às graduações com conhecimento sobre as filósofas bem maior dos que chegavam uma década atrás.
Adriana Delbó – Tem ocorrido acréscimos de temas, de problemas, de bibliografias e de pesquisas na graduação e na pós-graduação. Na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia – ANPOF há um concurso para o prêmio filósofa, o que garante que pós-graduandas tenham suas pesquisas avaliadas e selecionadas. Há grupos de trabalho da ANPOF que só pelo nome dizem da valorização das mulheres na filosofia – GT Edith Stein e o círculo de Gotinga; GT Filosofia e Gênero (desde há mais ou menos oito anos); GT Mulheres na História da Filosofia; GT Raça, Gênero e Classe. Há cinco anos há a Rede Brasileira de Mulheres Filósofas que faz a divulgação de eventos, artigos e de tantas outras produções de mulheres na filosofia, bem como organiza atividades entre elas.
IHU – A abertura do cânone com a inclusão de mais mulheres nos currículos de Filosofia é uma discussão que ganhou corpo nos últimos anos. Como veem essa revisão e reparação em nível brasileiro e internacional?
Maria Cristina Müller – Uma das vias de superação das dificuldades oriundas da restrição da presença da mulher na filosofia parece estar localizada no reconhecimento definitivo da autoridade do pensamento das mulheres filósofas e a necessidade de transmiti-lo. A invisibilidade do dizer das mulheres filósofas não pode prevalecer, pois sem a memória das mulheres filósofas e das suas produções estamos fadados, enquanto humanidade, a perder a profundidade; a filosofia recebeu a contribuição de muitas mulheres filósofas. Negar esta contribuição, invisibilizando-a, é perder a profundidade da própria filosofia.
Parece que a filosofia tem uma tarefa a realizar: reconhecer, preservar e transmitir o legado das mulheres filósofas. Vejam: a tarefa é política! Como cumprir esta tarefa? Pesquisando, escrevendo sobre elas, incluindo seus textos nas bibliografias dos currículos, ministrando aulas sobre suas filosofias. Deste modo, a revisão e reparação é o caminho. Este movimento é mundial; em alguns países já iniciou na década de 1980. A americana Mary Ellen Whaithe, no fim da década de 1980 início de 1990, listou na obra em quatro volumes intitulada A History of Women Philosophers, onde ela listou as 118 filósofas desde a Antiguidade clássica. Hoje sabemos que o número é ainda maior.
Adriana Delbó – Revisão e reparação urgente e ainda muito deficitária. As instituições de ensino que ainda não estão revendo seus currículos para incluir neles a produção das mulheres na filosofia estão sendo coniventes com o patriarcalismo, com o preconceito e a misoginia, a despeito de toda defesa que provavelmente devem fazer de princípios republicanos, e apesar de todo o vocabulário comumente acionado nos projetos pedagógicos dos cursos, tais como: “formação para a autonomia”, “formação para a cidadania”, “exercício da reflexão e do pensamento crítico”, “exercício da democracia”, “reflexão crítica da realidade”.
As mulheres sabem que, muitas vezes, são convidadas para eventos e publicações para compor números e evitar a acusação de falta de equidade. Porém, mais do que saber quantas são as mulheres que aparecem, é necessário garantir que a produção das mulheres seja lida, estudada e, portanto, valorizada do ponto de vista intelectual e filosófico.
IHU – Como analisam a crescente procura das mulheres nesse campo que foi, por longo período, majoritariamente masculino?
Maria Cristina Müller – Hoje as mulheres predominam nas mais diversas áreas; na educação, os índices se repetem; no estado do Paraná, por exemplo, nos cursos de graduação, 57,2% do corpo estudantil é formado por alunas, chegando a 57,8% no mestrado e 53,4% no doutorado. No entanto, a realidade na área da Filosofia não é a mesma. Conforme a professora Carolina Araújo (UFRJ) (13) revela, apenas 28% das pessoas que estudam filosofia nas graduações no Brasil são mulheres; na pós-graduação em Filosofia apenas 27% são mulheres; ao analisar o corpo docente dos PPGs este percentual cai para 20%.
Como exposto acima, há um forte movimento no Brasil, na última década, impulsionando a presença das mulheres na filosofia de modo mais direto e como pauta prioritária. Este movimento começa a colher frutos, como o que estão a observar no PPGFIL na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Esta colheita é real e permanecerá.
Na década de 1990, estudar uma filósofa era algo raro na área da filosofia; Hannah Arendt figurou, por muito tempo, como uma das poucas filósofas estudadas na pós-graduação na área, com dissertações e teses defendidas. No entanto, os pioneiros relatam, e eu me incluo, que antes de iniciarem suas comunicações e palestras sobre a filósofa, precisavam justificá-la como pertencente à área. Hoje isto soa ridículo.
Os preconceitos parecem que estão sendo superados, ao menos com a consideração de algumas filósofas e com a temática do feminismo; muitos outros preconceitos ainda precisam ser vencidos, como é o caso da violência contra a mulher e o assédio moral e sexual. Estamos no caminho certo e precisamos nos manter vigilantes. Deste modo, a preocupação do IHU com o tema das mulheres filósofas é louvável e merece todo nosso respeito.
Adriana Delbó – A crescente procura de mulheres pelas pesquisas de mulheres e sobre mulheres se deve à compreensão de que não é mais admissível a exclusão delas, nem a exclusão escancarada nem a dissimulada. A tradição filosófica até pouco tempo atrás quase não assumia nem sequer a produção de Simone de Beauvoir (14) e de Hannah Arendt e, quando muito, incluía apenas esses dois nomes. Em algumas instituições nem elas são estudadas. O reconhecimento de que as mulheres fazem parte da filosofia durante todo o seu percurso histórico já é fruto de pesquisas de mulheres. Não é razoável esperarmos que aqueles que estão acomodados e satisfeitos mexerão nas estruturas que os acomodam e os satisfazem. Não só alterar o cenário, mas sobretudo o funcionamento da filosofia excludente são “coisas de mulher”.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Maria Cristina Müller – É preciso construir muitos espaços de reflexão e discussão sobre a mulher. Talvez se possa alterar o imaginário simbólico e a linguagem comum que justificam e naturalizam a inferiorização da mulher e que, ao mesmo tempo, que constroem uma identidade deturpada do sexo feminino.
Adriana Delbó – Quero acrescentar a atenção que precisamos ter quanto ao modo de sermos e de nos relacionarmos dentro e fora das instituições. Penso que o modo como aparecemos e nos sentimos no mundo é o que mais diz sobre a construção de si ou da nossa infeliz inalterabilidade. Como expus acima, as pesquisas estão saindo do padrão conservador que a filosofia há muito se manteve. No entanto, considero que o modo de se relacionar se dê ainda nos moldes masculinos.
Na filosofia, apontar a falta ainda é o principal resultado das avaliações. O falocentrismo é muito atuante em vários tipos de corpos, a despeito do gênero e da pesquisa realizada e da cadeira ocupada nas universidades. “Falta isso”, “falta aquilo”, “não fez isso”, “não fez aquilo”, “não é bom o suficiente”. Alguém que se autointitula bom está sempre avaliando para informar sobre aquilo que falta no outro. Isso não é algo tipicamente falocêntrico?
O exibicionismo e as disputas ainda prevalecem nas relações. Apontar o dedo e dizer o que a outra deve fazer são atitudes comuns. A crueldade é naturalizada. Por isso, avalio que os modos de conquistas de lugares e de reconhecimentos são absolutamente masculinos. Se a compreensão do poder é masculina, como poderiam ser diferentes as maneiras de ocupar lugares de poder (digo: de lugar, de fala, de escrita e de outras elaborações)? Há muito a ser desaprendido.
Notas
(1) Rosa Luxemburgo (1870-1919): filósofa e economista marxista polonesa-alemã. Tornou-se mundialmente conhecida pela militância revolucionária ligada à Social-Democracia da Polônia (SDKP), ao Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e ao Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD). Participou da fundação do grupo de tendência marxista do SPD, que viria a se tornar mais tarde o Partido Comunista da Alemanha (KPD).
(2) Christine de Pizan (1364-1430): poetisa e filósofa italiana que viveu na França durante a primeira metade do século XV. Era conhecida por criticar a misoginia presente no meio literário da época, predominantemente masculino, e defender o papel vital das mulheres na sociedade. Foi a primeira mulher francesa de letras a viver do seu trabalho.
(3) Sueli Carneiro (1950-): filósofa, escritora e ativista antirracismo do movimento social negro brasileiro. É fundadora e atual diretora do Geledés — Instituto da Mulher Negra e considerada uma das principais autoras do feminismo negro no Brasil. Possui doutorado em Educação (na área de Filosofia da Educação) pela Universidade de São Paulo USP. Foi a primeira mulher negra a receber o título de doutora honoris causa da Universidade de Brasília.
(4) Olimpia de Gouges (1748-1793): dramaturga, ativista política, feminista e abolicionista francesa de importante atuação na Revolução Francesa. Os escritos feministas de sua autoria alcançaram enorme audiência. Foi uma defensora da democracia e dos direitos das mulheres. Na sua obra Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã de setembro de 1791, opôs-se ao patriarcado da época e ao modo pelo qual a relação entre homem e mulher se expressava na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, durante a Revolução Francesa. Devido aos seus escritos e atitudes pioneiras, foi guilhotinada.
(5) bell hooks (1952-2021): autora, professora, teórica feminista, artista e ativista antirracista estadunidense. hooks publicou mais de trinta livros e numerosos artigos acadêmicos, apareceu em vários filmes e documentários, e participou de várias palestras públicas. Sua obra incide principalmente sobre a interseccionalidade de raça, capitalismo e gênero, e aquilo que hooks descreve como a capacidade destes para produzir e perpetuar sistemas de opressão e dominação de classe. hooks teve uma perspectiva pós-moderna e foi influenciada pela pedagogia crítica de Paulo Freire. Em 2014, fundou o The bell hooks Institute com sede no Berea College, em Berea, Kentucky.
(6) Carol Hanisch: jornalista e ativista do feminismo radical. Formada em Jornalismo pela Universidade Drake, se voluntariou, em 1965, no Movimento de Direito Civil do Mississippi onde percebeu a força da união em lutas de minorias contra a opressão. É fundadora do grupo New York Radical Women, também editou o livro Redstockings, Feminist Revolution, publicado em 1975 e criou a revista Meeting Ground, um impresso que circulou de 1978 até 1992. Uma de suas ações mais importantes foi o protesto contra o concurso Miss América em 1968. Carol foi uma das quatro mulheres que interrompeu o processo. A tensão criada atraiu muita atenção para o Movimento de Libertação da Mulher. Hanisch participou também de diversas outras lutas, tais como as contra o racismo, o apartheid na África do Sul e o imperialismo americano. Seu slogan mais conhecido é o “Pessoal é Político” (The Personal is Political) em um ensaio com o mesmo nome publicado em 1969.
(7) Hannah Arendt (1906-1975): filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século XX. A privação de direitos e perseguição de pessoas de origem judaica ocorrida na Alemanha a partir de 1933, assim como o seu breve encarceramento nesse mesmo ano, forçaram Arendt a emigrar. O regime nazista retirou-lhe a nacionalidade em 1937, o que a tornou apátrida até conseguir a nacionalidade norte-americana em 1951. Trabalhou como jornalista e professora universitária e publicou obras importantes sobre filosofia política. Contudo, recusava ser classificada como “filósofa” e também se distanciava do termo “filosofia política”; preferia que suas publicações fossem classificadas dentro da “teoria política”.
(8) Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (1957): pesquisadora oxunista nigeriana e professora associada de sociologia na Universidade Stony Brook. Frequentou a Universidade de Ibadan e a Universidade da Califórnia em Berkeley. A autora estabelece duras críticas ao feminismo, em especial em sua obra A invenção das mulheres. Sua importante contribuição no campo da sociologia de gênero está pautada na análise da sociedade yorubá, propondo o oxunismo no lugar do feminismo como um caminho de superação dos papéis de gênero coloniais. Sua tese de doutoramento de 1993 verteu-se em livro em 1997, com o título A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero, ganhou o prêmio da American Sociological Association de 1998 por distinção na categoria de gênero e sexualidade. No livro, ela oferece uma crítica pós-colonial e para além das imposições do predomínio ocidental, pautada nos Estudos Africanos.
(9) Aline Matos da Rocha: doutora em Metafísica pela Universidade de Brasília – UnB, na linha de pesquisa Ontologias Contemporâneas (2023), com tese de doutorado vencedora do Prêmio CAPES de Tese como a melhor tese na área de Filosofia de 2024. Mestra em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás – UFG, na linha de pesquisa Ética e Filosofia Política (2018). Especialista em Ensino de Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas – UFPel (2024). Graduada em Filosofia com habilitação em licenciatura e bacharel pela Universidade de Brasília – UnB (2014-2015). Licenciada em Sociologia pelo Centro Universitário Internacional – UNINTER (2023). É pós-doutoranda no PPG em Metafísica da UnB, com Bolsa Prêmio Capes de Tese (Edital n. 04/2024) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Desde a graduação, desenvolve pesquisas articulando conhecimentos das áreas de Filosofia, Filosofia Africana. Dentre os temas de investigação acadêmica, interessa-se por Ensino de Filosofia; Filosofia Africana; Metafísica; Ontologias Contemporâneas; Ética e Filosofia Política; Filosofia da Educação; Educação das Relações Étnico-raciais; Sociologia do Conhecimento; As interseções entre Raça, Gênero e Classe em interfaces com a Filosofia e Sociologia. Integra o Núcleo de Estudos de Filosofia Africana Exu do Absurdo (NEFA) da UnB na linha de pesquisa Filosofia Africana e Educação, e também integra o GT de Filosofia e Raça da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF).
(10) Judith Butler (1956-): filósofa pós-estruturalista de origem estadunidense, tendo composto umas das principais teorias contemporâneas do feminismo e teoria queer. Butler também escreve sobre filosofia política e ética. Atualmente, ocupa o cargo de professora do departamento de retórica e literatura comparada da Universidade da Califórnia em Berkeley. Desde 2006, ocupa o posto honorificamente intitulado “Hannah Arendt” na European Graduate School. Butler é uma pessoa não binária, que em inglês usa os pronomes “they/them”.
(11) Lélia Gonzales (1935-1994): intelectual, autora, ativista, professora, filósofa e antropóloga brasileira. É uma referência nos estudos e debates de gênero, raça e classe no Brasil, América Latina e pelo mundo, sendo considerada uma das principais autoras do feminismo negro no país. Ademais, foi pioneira em pesquisas sobre Cultura Negra no Brasil e cofundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro (IPCN-RJ) e do Movimento Negro Unificado (MNU). Lélia teve uma importante presença tanto na academia quanto no mundo político, tendo circulado por diversos espaços. Seus trabalhos abordaram perspectivas interseccionais quando o conceito em si ainda não tinha sido criado, atuando contra o sexismo e o racismo na sociedade e cunhando conceitos como o de “amefricanidade” e “pretuguês”.
(12) Hipátia de Alexandria (351/370-415): filósofa neoplatônica do Egito romano. Foi a primeira mulher documentada como tendo sido matemática. Como chefe da escola platônica em Alexandria, também lecionou filosofia e astronomia. Como neoplatonista, pertencia à tradição matemática da Academia de Atenas, representada por Eudoxo de Cnido, e era da escola intelectual do pensador Plotino, que a incentivou a estudar Lógica e Matemática, no lugar de se dedicar à investigação empírica, e a estudar Direito, em vez de ciências da natureza. De acordo com a única fonte contemporânea, Hipátia foi assassinada por uma multidão de cristãos depois de ser acusada de exacerbar um conflito entre duas figuras proeminentes em Alexandria: o governador Orestes e o bispo de Alexandria, Cirilo de Alexandria.
(13) Carolina Araújo: professora titular do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro permanente do PPG de Lógica e Metafísica (PPGLM-UFRJ), pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), Cientista do Nosso Estado (FAPERJ), diretora da Cátedra Quantas Filósofas? no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE). Possui graduação em Filosofia pela UFRJ (1998), mestrado em Filosofia pela UFRJ (2000), doutorado em Filosofia pela UFRJ (2005) e pós-doutorado em Filosofia pela University of Ottawa (2012), onde também esteve como professor visitante (2020). Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Filosofia Antiga, Metafilosofia e Mulheres na Filosofia. É membro do Comitê Editorial da International Plato Society e representante da América Latina na Diretoria da International Society for Socratic Studies. Foi vice-presidente (2014-2017) e presidente (2017-2021) da Associação Latino-Americana de Filosofia Antiga. É membro e coadministradora da Rede Brasileira de Mulheres Filósofas e coeditora da Enciclopédia Mulheres na Filosofia.
(14) Simone de Beauvoir (1908-1986): escritora, intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa. Embora não se considerasse uma filósofa, Beauvoir teve uma influência significativa tanto no existencialismo feminista quanto na teoria feminista. Escreveu romances, contos, ensaios, biografias, autobiografia e monografias sobre filosofia, política e questões sociais. Ela é conhecida por seu tratado O Segundo Sexo, de 1949, uma análise detalhada da opressão das mulheres e um tratado fundamental do feminismo contemporâneo, além de seus romances A Convidada e Os Mandarins. Ela lecionou em várias instituições escolares no período entre 1931 e 1943. Nos anos 1940 integrava um círculo de filósofos literatos que conferiam ao existencialismo um aspecto literário, sendo que seus livros enfocavam os elementos mais importantes da filosofia existencialista.
Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/650249-uma-das-maiores-contribuicoes-das-mulheres-para-a-filosofia-politica-e-demonstrar-que-questoes-de-genero-sao-problemas-filosoficos-entrevista-especial-com-maria-cristina-mueller-e-adriana-delbo