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segunda-feira, 6 de abril de 2026

O Positivismo e o Neopositivismo

 




 

Positivismo (século XIX) e o Neopositivismo (século XX) compartilham a adoração pela ciência, mas diferem no "como" validam o conhecimento.

Aqui estão os pontos centrais de cada um:

Características do Positivismo (Auguste Comte)

  • Cientificismo: Acredita que o método das ciências naturais é o único caminho para a verdade.
  • Lei dos Três Estados: A humanidade evolui do teológico (religião) e metafísico (filosofia abstrata) para o positivo (ciência).
  • Ordem e Progresso: Valoriza a estabilidade social e o desenvolvimento técnico-industrial.
  • Foco na Observação: Baseia-se em fatos concretos e leis imutáveis da natureza, ignorando causas ocultas ou espirituais. 

 

Características do Neopositivismo (Círculo de Viena)

  • Empirismo Lógico: Une a observação científica ao rigor da lógica matemática.
  • Critério de verificabilidade: Uma frase só faz sentido se puder ser provada experimentalmente. Se não puder ser testada, é considerada "pseudo-problema".
  • Antimetafísica radical: Rejeita a ética e a religião não apenas como "atrasadas", mas como linguisticamente sem sentido. 

Principais Diferenças

Característica 

Positivismo (Comte)

Neopositivismo (Círculo de Viena)

Foco Principal

Organização social e história da ciência.

Linguagem e análise lógica.

Metafísica

Vista como uma etapa ultrapassada do conhecimento.

Vista como um erro de linguagem (frases sem significado).

Ferramenta

Observação direta dos fatos.

Lógica simbólica aplicada aos fatos.

Objetivo

Reformar a sociedade e criar uma "religião da humanidade".

Purificar a ciência de termos ambíguos e abstratos.

O Positivismo era mais uma filosofia social e política, enquanto o Neopositivismo focou quase inteiramente na epistemologia (teoria do conhecimento) e na estrutura das frases científicas.

 

O Iluminismo

 




O Iluminismo foi um movimento intelectual do século XVIII que colocou a razão como a principal ferramenta para entender o mundo, rompendo com o domínio absoluto das tradições religiosas e da monarquia. 

Aqui estão os pontos fundamentais e como eles transformaram a ciência:

Pontos Fundamentais

  • Racionalismo: A crença de que a razão humana é a única via para alcançar a verdade e o progresso.
  • Empirismo: A ideia de que o conhecimento deve ser baseado na observação e em experiências práticas, não em dogmas.
  • Liberdade e Autonomia: Defesa da liberdade de expressão, pensamento e a separação entre Igreja e Estado (laicismo).
  • Progresso Inevitável: A convicção de que a humanidade, guiada pela ciência e educação, tenderia a evoluir constantemente. 

 

Incidência no campo científico

O Iluminismo não apenas incentivou a ciência, ele a sistematizou. Os impactos principais foram: 

  1. Método Científico: Estabeleceu-se o rigor da experimentação. Cientistas como Isaac Newton (física) e Antoine Lavoisier (química) consolidaram a ideia de que a natureza funciona sob leis universais e matemáticas.
  2. Sistematização do Saber: O maior exemplo foi a Enciclopédia (de Diderot e D’Alembert), que buscou reunir e organizar todo o conhecimento humano produzido até então sob uma ótica racional.
  3. Ciências Sociais: O pensamento crítico foi aplicado à sociedade, dando origem ao estudo "científico" da economia (Adam Smith) e da política (Montesquieu).
  4. Avanços na medicina e biologia: O foco na observação permitiu o início da classificação das espécies (Linnaeus) e o avanço nos estudos de anatomia, afastando explicações sobrenaturais para doenças. 

O Iluminismo tirou a ciência das mãos de poucos e a transformou em um projeto de utilidade pública para melhorar a vida humana

 

segunda-feira, 23 de março de 2026

SISTEMA GEOCÊNTRICO E SISTEMA HELIOCÊNTRICO

 




 

sistema geocêntrico é uma antiga teoria astronômica que coloca a Terra como o centro do universo

Nesse modelo, acreditava-se que o Sol, a Lua, os planetas e todas as estrelas giravam em torno da Terra em órbitas circulares. Ele foi a visão dominante por muitos séculos, sendo defendido por nomes como Aristóteles e refinado por Ptolemeu (100-170 d.C.) até ser substituído pelo modelo heliocêntrico (Sol no centro) a partir do século XVI. 

Esta era a teoria sustentada por Aristóteles, que defendia que a Terra estava imóvel no centro do universo, com os corpos celestes girando ao seu redor em esferas concêntricas. 

Ele detalhou essa visão principalmente na obra Sobre o Céu (De Caelo).  Aristóteles dividia o cosmos em duas regiões completamente distintas, separadas pela órbita da Lua:

  1. Mundo Sublunar (Terra): Abrange tudo abaixo da Lua. É o reino da imperfeição, da mudança e da corrupção. Tudo aqui é composto pela mistura de quatro elementos (terra, água, ar e fogo) que se movem em linha reta (para cima ou para baixo).
  2. Mundo Supralunar (Céus): Abrange a Lua, os planetas e as estrelas. É o reino da perfeição e da imutabilidade. Tudo é feito de um quinto elemento puro, o Éter (ou quintessência), e o movimento é sempre o círculo perfeito, que não tem início nem fim.

Para ele, os astros eram incrustados em esferas de cristal que giravam mecanicamente, movidas em última instância por um "Primeiro Motor Imóvel". Para Aristóteles, os planetas não flutuavam no vácuo; eles estavam fixos em esferas sólidas e transparentes (as esferas de cristal), como joias presas em anéis.

O problema era que, vistos da Terra, os planetas às vezes parecem andar para trás (movimento retrógrado). Para resolver isso e manter o dogma do círculo perfeito, a solução foi a física mecânica:

  • Engrenagens Celestes: Aristóteles propôs um sistema complexo de 55 esferas concêntricas.
  • Transmissão de Movimento: A esfera mais externa (das estrelas fixas) girava e transmitia seu movimento para as esferas internas.
  • Contrarrotação: Para explicar as variações de velocidade e direção, ele adicionou esferas que giravam em sentidos opostos, funcionando como um sistema de roldanas que compensava os movimentos uns dos outros.

Tudo isso era movido pelo Primeiro Motor Imóvel, que fornecia a energia inicial para a esfera mais externa, mantendo o "relógio" cósmico funcionando eternamente.

 

 

O modelo heliocêntrico é a teoria astronômica que posiciona o Sol no centro do Universo (ou do Sistema Solar), com a Terra e os outros planetas girando ao seu redor. 

  • Etimologia: O nome vem do grego Helios (Sol) e kentron (centro).
  • Contraponto:  substituiu o modelo geocêntrico, que acreditava que a Terra era o centro de tudo.
  • Protagonistas: Embora o grego Aristarco de Samos tenha sugerido a ideia na Antiguidade, foi Nicolau Copérnico quem a desenvolveu matematicamente no século XVI. Mais tarde, Galileu Galilei e Johannes Kepler comprovaram e refinaram a teoria.
  • Consequência: Essa mudança de perspectiva foi fundamental para a Revolução Científica, alterando para sempre a forma como entendemos o nosso lugar no cosmos.

Aprofundando:

  1. As Fases de Vênus: Galileu viu que Vênus passa por fases completas (como a Lua). Isso só seria possível se o planeta estivesse orbitando o Sol, e não a Terra.
  2. As Luas de Júpiter: Ele descobriu quatro corpos orbitando Júpiter. Isso provou que nem tudo no universo gira em torno da Terra, quebrando um dogma central da época.
  3. Manchas Solares: Ao observar o Sol, ele percebeu que o astro-rei girava em torno do seu próprio eixo e não era uma "esfera perfeita", reforçando que os céus eram dinâmicos e mutáveis.

Essas evidências mostraram que o modelo de Copérnico não era apenas uma teoria matemática, mas a realidade física.

 


As principais diferençasentre os dois sistemas astronomicos giram em torno de quem ocupa o "trono" do sistema e como os astros se movem. Aqui estão os pontos centrais:

  • O Centro: No Geocentrismo (Ptolemeu), a Terra é o centro imóvel. No Heliocentrismo (Copérnico), o Sol assume o centro, e a Terra passa a ser apenas mais um planeta orbitando ao redor dele.
  • Movimento da Terra: Para os geocentristas, a Terra não se movia. Para Copérnico, a Terra possui dois movimentos principais: a rotação (gira sobre si mesma, gerando dia e noite) e a translação (gira em torno do Sol, gerando as estações).
  • Complexidade das Órbitas: Para explicar por que alguns planetas pareciam "andar para trás" no céu (movimento retrógrado), o modelo geocêntrico criava círculos complexos chamados epiciclos. Copérnico simplificou isso, mostrando que esse efeito é apenas uma questão de perspectiva, já que a Terra ultrapassa outros planetas em sua órbita.
  • As Estrelas: No modelo antigo, as estrelas estavam fixas em uma "esfera" próxima. No heliocêntrico, percebeu-se que elas estão vastamente mais longe do que o Sol.

 

A reação da Igreja Católica ao heliocentrismo não foi uniforme e mudou drasticamente ao longo do tempo, passando da curiosidade inicial à censura severa e, finalmente, ao perdão histórico.

  • Aceitação Inicial (Nicolau Copérnico): Quando Copérnico publicou sua obra em 1543, a Igreja não a proibiu de imediato. O livro foi inclusive dedicado ao Papa Paulo III. Naquela época, a teoria era vista apenas como uma hipótese matemática útil para cálculos astronômicos e calendários.
  • O Conflito Teológico: A resistência cresceu porque o modelo geocêntrico estava profundamente ligado à interpretação literal da Bíblia. Passagens como a do livro de Josué, onde Deus faz o "Sol parar" no céu, eram usadas como prova de que o Sol se movia e a Terra era fixa.
  • A Condenação de Galileu Galilei: O clima mudou no século XVII. Em 1616, o heliocentrismo foi declarado "falso e contrário às Escrituras", e a obra de Copérnico entrou para o Index (lista de livros proibidos). Em 1633, Galileu foi julgado pela Inquisição por defender o heliocentrismo como uma verdade física e não apenas uma hipótese. Ele foi forçado a negar suas ideias e passou o resto da vida em prisão domiciliar.
  • Giordano Bruno: Diferente de Galileu, o filósofo Giordano Bruno foi queimado na fogueira em 1600. Embora defendesse o heliocentrismo, sua condenação deveu-se principalmente a outras heresias teológicas, como a ideia de que o universo era infinito e continha muitos mundos.
  • Retratação Histórica: A Igreja só retirou os livros heliocêntricos do Index em 1758. Séculos depois, em 1992, o Papa João Paulo II reconheceu oficialmente o erro da Igreja no caso Galileu, admitindo que houve uma interpretação equivocada das escrituras.

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

OS NUMEROS E OS QUATRO ELEMENTOS NA FILOSOFIA PITAGORICA

 




 

 

Para os pitagóricos (e mais tarde para Platão, que expandiu essa ideia), o octaedro era associado ao ar devido à sua estrutura física e propriedades geométricas. 

A lógica era baseada na mobilidade e na sensação:

  1. Forma "intermediária": O octaedro tem mais faces e ângulos mais agudos que o cubo (terra), mas é menos "rolante" que o icosaedro (água). Isso refletia a natureza do ar: algo fluido, mas que ainda possui certa leveza e "finesse".
  2. Sutileza: As pontas do octaedro sugeriam uma facilidade de movimento e uma capacidade de "penetrar", condizente com a forma como sentimos o ar ou o vento.
  3. Equilíbrio: Por ser um dos cinco sólidos platônicos (poliedros regulares), ele representava a harmonia matemática que os pitagóricos acreditavam reger os elementos fundamentais do cosmos. 

Essencialmente, eles tentavam mapear a complexidade geométrica do sólido à densidade e comportamento do elemento na natureza.

 

A água era comparada ao icosaedro (o sólido de 20 faces triangulares) por dois motivos principais: 

  1. Fluidez e Mobilidade: O icosaedro é o sólido regular que mais se aproxima de uma esfera. Por ter tantas faces e ser quase "rolante", ele representava a capacidade da água de fluir e se adaptar a diferentes recipientes.
  2. Suavidade: Diferente do tetraedro (fogo), que é pontiagudo e "corta", o icosaedro é mais "rombo" e menos cortante, o que refletia a natureza menos agressiva e mais densa da água em comparação ao fogo ou ao ar.

Essa visão fazia parte da busca deles por uma explicação matemática para a constituição do universo: se a matemática era a base de tudo, os elementos fundamentais precisariam ter formas geométricas perfeitas

Fogo: O Tetraedro

O fogo era associado ao tetraedro (pirâmide de 4 faces triangulares): 

  • Forma Pontiaguda: Por ter o menor número de faces e ângulos muito agudos, o tetraedro é o mais "afiado" dos sólidos. Isso simbolizava o poder de penetração do fogo e sua natureza "cortante" ou dolorosa ao toque.
  • Mobilidade: Sendo o menor e mais leve dos poliedros, ele representa a rapidez e a leveza das chamas que sobem. 
  •  

Terra: O Hexaedro (Cubo)

A terra era associada ao hexaedro ou cubo (6 faces quadradas): 

  • Estabilidade: O cubo é o sólido mais estável e difícil de rolar devido às suas bases quadradas e largas. Isso reflete a solidez, a firmeza e a natureza imóvel do elemento terra.
  • Preenchimento de Espaço: Para os gregos, a forma cúbica permitia um empilhamento perfeito, o que explicava a densidade e a resistência dos materiais terrestres.

 

A FÍSICA DE ARISTÓTELES

 



 

 

Texto: Giovanni Reale

Síntese: Paolo Cugini

 

A segunda ciência teorética para Aristóteles é a física ou “filosofia segunda”, que tem por objetivo de pesquisa a realidade sensível, intrinsecamente caracterizada pelo movimento, assim como a metafísica tinha por objetivo a realidade supra-sensível, intrinsecamente caracterizada pela falta absoluta de movimento.

A distinção de uma problemática metafísica e de uma problemática física, depois das aquisições da “segunda navegação” platônica, impunha-se estruturalmente: se são dois os planos da realidade ou, para nos exprimir em termos mais aristotélicos, se existem dois gênero diferentes de substâncias estruturalmente distintos, o gênero supra-sensível e o gênero sensível, estão necessariamente diferentes, deverão ser as ciências que têm essas duas realidades por objeto de pesquisa. A distinção entre metafísica e física comportará a definitiva superação do horizonte da filosofia dos pré-socráticos e também uma radical mudança do antigo sentido de physis, que, em vez de significar a totalidade do ser, passará agora a significar o ser sensível, e, natureza quererá dizer, predominantemente, natureza sensível (mas um sensível no qual a forma permanece como princípio dominante). Comparada á física moderna, a de Aristóteles resulta, mais que uma ciência, uma ontologia ou metafísica do sensível.

Não é de admirar que se encontrem nos livros de Metafísica amplas considerações físicas (no sentido precisado) e, vice-versa, nos livros de Física abundantes considerações de caráter metafísico, pois os âmbitos das duas ciências são estruturalmente intercomunicastes: o supra-sensível é causa e razão do sensível, e no supra-sensível termina tanto a pesquisa metafísica como (embora em sentido diferente) a própria pesquisa física; e, além disso, também o método de estudo aplicado nas duas ciências é idêntico.

A mudança e o movimento

O movimento tornou-se problema filosófico só depois de ter sido negado como aparência ilusória pelos eleatas.

O movimento é um dado de fato originário, que não pode ser posto em dúvida. Mas como se justifica? Sabemos (pela metafísica) que o ser tem muitos significados e quem um grupo desses significados é dado pelo par ser como potência e ser como ato. Com relação ao ser-em-ato, o ser-em-potência pode ser dito não-ser, precisamente não-ser-em-ato; mas é claro que se trata de um não-ser-relativo, pois a potência é real, porque é real a capacidade e efetiva possibilidade de chegar ao ato. Ora, vindo ao ponto que nos interessa, o movimento ou mudança em geral é, precisamente, a passagem do ser em potência ao ser em ato. Portanto, o movimento não supõe absolutamente o não-ser parmenidiano, porque se desenvolve no álveo do ser e é passagem de ser (potencial) a ser (atual):

Restam as categorias 1) da substância, 2) da qualidade, 3) da quantidade, 4) do lugar, e é justamente segundo essas categorias que ocorre a mudança. A mudança segundo a substância é a geração e a corrupção; segundo a qualidade é a alteração; segundo a quantidade é o aumento e a diminuição, e, segundo o lugar é a translação. Mudança é termo genérico que corresponde a essas quatro formas, movimento, ao invés, é termo que designa as últimas três, particularmente, a última.

Em todas as suas formas, o devir supõe um substrato (que é o ser potencial), que passa de um oposto a outro: na primeira forma, de um contraditório a outro contraditório, e, nas outras três formas, de um contrário a outro contrário. A geração consiste na assunção da forma pela matéria, a corrupção em perder a forma; a alteração é uma mudança da qualidade, enquanto o aumento e a diminuição são uma passagem do pequeno ao grande e vice-versa; o movimento local é passagem de um ponto a outro. Só os sínolos de matéria e forma podem mudar, porque só a matéria implica potencialidade: a estrutura hilemórfica da realidade sensível, que implica necessariamente matéria e potencialidade é, pois, a raiz de todo movimento. 

Essas considerações remetem-nos ao problema das quatro causas, que já conhecemos. Matéria e forma são causas intrínsecas do devir. Causa externa é, ao invés, o agente ou causa eficiente: nenhuma mudança tem lugar sem essa causa, porque não pode haver passagem da potencia ao ato sem que haja um motor já em ato. Enfim, é preciso a causa final, que é o escopo e a razão do devir. A causa final indica, substancialmente, o sentido positivo de todo devir que, aos olhos de Aristóteles, é fundamentalmente um progredir para a forma e uma realização da forma. Longe de ser entrada no nada, o devir aparece a Aristóteles como a via que leva á plenitude do ser, isto é, a via que as coisas percorrem para atuar-se, para ser plenamente o que são, para realizar a sua essência ou forma (e, nesse sentido, compreende-se bem por que a physis aristotélica é, em ultima análise, essa forma).

O espaço e o vazio

Os conceitos de espaço, vazio e tempo ligam-se ao conceito de movimento. Os objetos não estão no não-ser, que não existe, mas estão em um onde, em um lugar.

Ademais, a experiência mostra que existe um “lugar natural” ao qual cada um dos elementos tende, quando não encontra obstáculo: fogo e ar tendem para cima, terra e água para baixo. O em cima e o embaixo não são algo relativo a nós, mas algo objetivo, são determinações naturais: 

O lugar, por uma parte, é aquele comum no qual estão todos os corpos, por outra, é aquele particular no qual imediatamente está um corpo [...] e se o lugar é aquilo é aquilo que imediatamente contém cada corpo, ele será, então, um certo limite [...].

O lugar é o limite do corpo continente, enquanto este é contíguo ao conteúdo. 

Aristóteles esclarece ainda que o lugar não deve ser confundido com o recipiente: o primeiro é imóvel, enquanto o segundo é móvel; o lugar é o recipiente imóvel, enquanto o recipiente é um lugar móvel: 

E dessa definição do lugar segue não é pensável um lugar fora do universo nem um lugar no qual esteja o universo:. Mas se prescindimos de todo o universo, não há qualquer coisa fora do todo, e por isso todas as coisas estão no céu: pois o céu, entende-se, é o todo!

E assim o movimento do céu como totalidade só será possível no sentido da circularidade sobre si mesmo, não havendo lugar para uma translação. Da definição de lugar segue também a impossibilidade do vazio. O vazio fora entendido como “lugar no qual não há nada” ou “lugar no qual não há nenhum corpo”.

O tempo 

Dado que o tempo implica ta estreitamente o movimento, pode ser considerado uma afecção ou propriedade dele. O movimento, que é sempre movimento através de um espaço contínuo, é, também ele, por conseqüência, contínuo ser o tempo, porque a quantidade de tempo transcorrida é sempre proporcional ao movimento. E no continuo distinguem-se o antes e o depois, que, conseqüentemente, têm um correlativo no movimento e, portanto, no tempo:

Tempo é a mediada do movimento segundo o antes e o depois. Ora, a percepção do antes e do depois, e, portanto, da medida do movimento, necessariamente supõe a alma. Se é verdade que, na natureza das coisas, só a alma ou o intelecto que está na alma têm a capacidade de numerar, torna-se impossível a existência do tempo sem a da alma.

Esse pensamento é fortemente antecipador da perspectiva agostostiniana e das concepções espiritualistas do tempo.

Aristóteles, posteriormente, esclareceu que, para medir o tempo necessita-se uma unidade de medida, assim como necessita-se uma unidade de medida para medir qualquer coisa. Esta deve ser buscada no movimento uniforme e perfeito; e dado que o movimento uniforme e perfeito só é o movimento circular, decorre, por conseqüência, que a unidade de medida é o movimento das esferas e dos corpos celestes. Deus e as inteligências motoras, assim como estão fora do espaço, enquanto imóveis, estão também fora do tempo.

O infinito

Aristóteles nega a existência de um infinito em ato. O infinito só existe como potência ou em potência. Infinito em potência é, por exemplo, o número, porque sempre é possível acrescentar a qualquer número um número ulterior. Infinito em potência é também o espaço, porque é divisível ao infinito, infinito potencial, enfim, é também o tempo, que não pode existir todo atualmente, mas transcorre e cresce sem fim.

E Aristóteles nem de longe entreviu a idéia de que o imaterial pudesse ser infinito, justamente porque ligava o infinito é categoria da quantidade, que só vale para o sensível.

A “quintessência” e a divisão do mundo sublunar e celeste

Aristóteles distinguiu a realidade sensível em duas esferas entre si nitidamente diferenciadas: de um lado, o mundo chamado sublunar e, de outro, o mundo supralunar ou celeste.

O mundo sublunar é caracterizado por todas as formas de mudança, entre as quais predominam a geração e a corrupção. Os céus, ao invés, são caracterizados só pelo movimento local e, precisamente, pelo movimento circular. Nas esferas celestes e nos astros, não pode haver geração nem corrupção, nem alteração, nem aumento, nem diminuição. A diferença entre o mundo supralunar, os quais, contudo, são igualmente sensíveis, esta na matéria da qual são constituídos:

E essa matéria, que é potência dos contrários, é dada pelos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), considerados por Aristóteles, transformáveis um no outro, justamente para dar razão, da geração e da corrupção. Ao invés, a outra matéria, que só possui a potência de passar de um ponto a outro e, portanto, só é suscetível de receber o movimento local, é o éter, chamado assim porque ocorre sempre. Ele foi também denominado “quintessência”, porque se acrescentam ás quatro essências dos outros elementos. E enquanto o movimento característico dos quatro elementos é retilíneo, o movimento do éter é, ao invés, circular. O éter é ingênito, incorruptível, não sujeito a crescimento nem alteração, nem a qualquer outra afecção que implique essas mudanças e, por esse motivo, também são incorruptíveis os céus constituídos pelo éter.

A física aristotélica é, na verdade, uma metafísica do sensível e, portanto, não se admirará o leitor de que a Física seja repleta de considerações metafísica e, até mesmo, que culmine com a demonstração da existência de um primeiro Motor imóvel: convencido radicalmente de que “se não existisse o eterno, não existiria tampouco o devir”, o Estagirita coroou as suas pesquisas físicas demonstrando exatamente a existência desse princípio. Mais uma vez manifesta-se como absolutamente determinante o êxito da “segunda navegação” platônica.

O conceito aristotélico de alma

Os seres animados diferenciam-se dos seres inanimados porque possuem um princípio que lhes dá a vida, e esse princípio é a lama.

Para responder a esta pergunta, Aristóteles remete-se á sua concepção metafísica hilemórfica da realidade. Todas as coisas em geral são compostas de matéria e forma, sendo a matéria, potência, e a forma, enteléquia ou ato. Isso vale, naturalmente, também para os seres vivos. Ora, observa o Estagirita, os corpos vivos têm vida, mas não são vida e, portanto, são como o substrato material e potencial do qual a alma é forma e ato.

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

XENÓFANES (570-475 a.C.)

 



 

Paolo Cugini (org.)

 

1. A posição de Xenófanes com relação aos eleatas

 

[...] ao invés, a nossa seita eleata, que começou com Xenófanes e mesmo antes, considera que o que se chama o universo é uno [...][1]

 

2. Crítica da concepção dos Deuses e destruição do pressuposto da religião tradicional

 

Mas se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos

ou pudessem pintar e realizar as obras que os homens realizam com as

[mãos,

 os cavalos pintaram imagens dos deuses semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois, e plasmariam os corpos dos deuses semelhantes ao aspecto que tem cada um deles[2].

E mais:

Os etíopes dizem que os seus deuses são negros e têm o nariz achatado, os trácios dizem, ao invés, que têm olhos azuis e cabelos ruivos[3].

 

Aos deuses Homero e Hesíodo atribuem

tudo o que para os homens é desonra e vergonha:

roubar, cometer adultério, enganar-se mutuamente[4].

 

Mas os mortais consideram que os deuses nascem,

que têm vestes, voz e figura com eles[5].

 

Sempre no mesmo lugar permanece sem mover-se absolutamente,

mas se lhe atribui o deslocamento ora para um lugar, ora para outro[6].

 

A que chamam Íris é, ao invés, também ela uma nuvem,

purpúrea, violácea, esverdeada aos nossos olhos[7].

 

3. Deus e Divino segundo Xenófanes

 

Uno, Deus, sumo entre os deuses e os homens,

nem por figura nem por pensamento semelhante aos homens[8].

 

Xenófanes, que antes mesmo destes [Parmênides e Melisso] afirmou a unidade do todo [...], não dá nenhum esclarecimento [sobre a natureza desse uno, se ele é material ou formal] [...], mas, estendendo a sua consideração a todo o universo, afirma que o uno é Deus[9].

O universo [...] é uno, Deus, sumo entre os deuses e os homens, nem por figura nem por pensamento semelhante aos homens[10].

 

Todo inteiro vê, todo inteiro pensa, todo inteiro ouve[11].

E ainda:

Mas sem fadiga, com a força da mente, tudo faz vibrar[12].

 

5. Idéias morais

 

Mas se alguém conquistasse a vitória com a velocidade do seus pés

ou conquistasse vitória no pentatlo, lá onde está o recinto sagrado de Zeus,

junto às torrentes do Pisa em Olímpia, ou lutando

ou mostrando-se hábil no cruel pugilato

e com aquela terrível disputa que chamamos pancrácio,

este se tornaria, aos olhos do seus concidadãos, mais glorioso que antes

e obteria o lugar de honra nos espetáculos públicos

e seria sustentado pelas reservas públicas

da Cidade ou receberia um dom a ser conservado qual cimélio;

e também se conseguisse vitória com os cavalos, obteria todas essas honras,

mesmo não sendo digno como eu o sou. De fato, superior à força

dos homens e dos cavalos é a nossa sabedoria.

Mas isso é avaliado desproporcionalmente, nem é justo

antepor a força ao valor da sabedoria.

E, de fato, embora houvesse entre o povo um valente pugilista

ou algum valente no pentatlo e na luta

ou na velocidade dos pés (que é a mais elevada em honra

entre as provas de força que os homens afrontam em disputas),

não por isso a Cidade teria uma ordem melhor.

E bem pouca alegria teria a Cidade,

se alguém competido vencesse nas torrentes do Pisa:

essas coisas não enriquecem os tesouros da cidade.

 

 



[1] Cf. Platão, Sofista, 242 c-d (= DK, 21 A 29).

[2] Diels-kranz, 21 B 15.

[3] Diels-kranz, 21 B 16.

[4] Diels-kranz, 21 B 11.

[5] Diels-kranz, 21 B 14.

[6] Diels-kranz, 21 B 26.

[7] Diels-kranz, 21 B 31.

[8] Para as contrastantes exegeses do fragmento cf. Zeller-Reale, pp. 84-88.

[9] Aristóteles, Metafísica, A 5, 986 b 21 ss. (=Diels-kranz, 21 A 30).

[10] Cf. Zeller-Reale, pp. 87s.

[11] Diels-kranz, 21 B 24; cf. Zeller-Reale, pp. 79ss.

[12] Diels-kranz, 21 B 25; sobre o fragmento, interpretado diferentemente, cf. Zeller-Reale, pp. 80s.

PLAYLISTS COM OS VÍDEOS DOS CURSOS

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