segunda-feira, 2 de março de 2026

XENÓFANES (570-475 a.C.)

 



 

Paolo Cugini (org.)

 

1. A posição de Xenófanes com relação aos eleatas

 

[...] ao invés, a nossa seita eleata, que começou com Xenófanes e mesmo antes, considera que o que se chama o universo é uno [...][1]

 

2. Crítica da concepção dos Deuses e destruição do pressuposto da religião tradicional

 

Mas se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos

ou pudessem pintar e realizar as obras que os homens realizam com as

[mãos,

 os cavalos pintaram imagens dos deuses semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois, e plasmariam os corpos dos deuses semelhantes ao aspecto que tem cada um deles[2].

E mais:

Os etíopes dizem que os seus deuses são negros e têm o nariz achatado, os trácios dizem, ao invés, que têm olhos azuis e cabelos ruivos[3].

 

Aos deuses Homero e Hesíodo atribuem

tudo o que para os homens é desonra e vergonha:

roubar, cometer adultério, enganar-se mutuamente[4].

 

Mas os mortais consideram que os deuses nascem,

que têm vestes, voz e figura com eles[5].

 

Sempre no mesmo lugar permanece sem mover-se absolutamente,

mas se lhe atribui o deslocamento ora para um lugar, ora para outro[6].

 

A que chamam Íris é, ao invés, também ela uma nuvem,

purpúrea, violácea, esverdeada aos nossos olhos[7].

 

3. Deus e Divino segundo Xenófanes

 

Uno, Deus, sumo entre os deuses e os homens,

nem por figura nem por pensamento semelhante aos homens[8].

 

Xenófanes, que antes mesmo destes [Parmênides e Melisso] afirmou a unidade do todo [...], não dá nenhum esclarecimento [sobre a natureza desse uno, se ele é material ou formal] [...], mas, estendendo a sua consideração a todo o universo, afirma que o uno é Deus[9].

O universo [...] é uno, Deus, sumo entre os deuses e os homens, nem por figura nem por pensamento semelhante aos homens[10].

 

Todo inteiro vê, todo inteiro pensa, todo inteiro ouve[11].

E ainda:

Mas sem fadiga, com a força da mente, tudo faz vibrar[12].

 

5. Idéias morais

 

Mas se alguém conquistasse a vitória com a velocidade do seus pés

ou conquistasse vitória no pentatlo, lá onde está o recinto sagrado de Zeus,

junto às torrentes do Pisa em Olímpia, ou lutando

ou mostrando-se hábil no cruel pugilato

e com aquela terrível disputa que chamamos pancrácio,

este se tornaria, aos olhos do seus concidadãos, mais glorioso que antes

e obteria o lugar de honra nos espetáculos públicos

e seria sustentado pelas reservas públicas

da Cidade ou receberia um dom a ser conservado qual cimélio;

e também se conseguisse vitória com os cavalos, obteria todas essas honras,

mesmo não sendo digno como eu o sou. De fato, superior à força

dos homens e dos cavalos é a nossa sabedoria.

Mas isso é avaliado desproporcionalmente, nem é justo

antepor a força ao valor da sabedoria.

E, de fato, embora houvesse entre o povo um valente pugilista

ou algum valente no pentatlo e na luta

ou na velocidade dos pés (que é a mais elevada em honra

entre as provas de força que os homens afrontam em disputas),

não por isso a Cidade teria uma ordem melhor.

E bem pouca alegria teria a Cidade,

se alguém competido vencesse nas torrentes do Pisa:

essas coisas não enriquecem os tesouros da cidade.

 

 



[1] Cf. Platão, Sofista, 242 c-d (= DK, 21 A 29).

[2] Diels-kranz, 21 B 15.

[3] Diels-kranz, 21 B 16.

[4] Diels-kranz, 21 B 11.

[5] Diels-kranz, 21 B 14.

[6] Diels-kranz, 21 B 26.

[7] Diels-kranz, 21 B 31.

[8] Para as contrastantes exegeses do fragmento cf. Zeller-Reale, pp. 84-88.

[9] Aristóteles, Metafísica, A 5, 986 b 21 ss. (=Diels-kranz, 21 A 30).

[10] Cf. Zeller-Reale, pp. 87s.

[11] Diels-kranz, 21 B 24; cf. Zeller-Reale, pp. 79ss.

[12] Diels-kranz, 21 B 25; sobre o fragmento, interpretado diferentemente, cf. Zeller-Reale, pp. 80s.

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