Paolo Cugini (org.)
1. A posição de Xenófanes com relação aos eleatas
[...] ao invés,
a nossa seita eleata, que começou com Xenófanes e mesmo antes, considera que o
que se chama o universo é uno [...][1]
2. Crítica da concepção dos Deuses e destruição do
pressuposto da religião tradicional
Mas se os bois,
os cavalos e os leões tivessem mãos
ou pudessem
pintar e realizar as obras que os homens realizam com as
[mãos,
os cavalos pintaram imagens dos deuses
semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois, e plasmariam os corpos dos
deuses semelhantes ao aspecto que tem cada um deles[2].
E mais:
Os etíopes dizem
que os seus deuses são negros e têm o nariz achatado, os trácios dizem, ao
invés, que têm olhos azuis e cabelos ruivos[3].
Aos deuses
Homero e Hesíodo atribuem
tudo o que para
os homens é desonra e vergonha:
roubar, cometer
adultério, enganar-se mutuamente[4].
Mas os mortais
consideram que os deuses nascem,
que têm vestes,
voz e figura com eles[5].
Sempre no mesmo
lugar permanece sem mover-se absolutamente,
mas se lhe
atribui o deslocamento ora para um lugar, ora para outro[6].
A que chamam
Íris é, ao invés, também ela uma nuvem,
purpúrea,
violácea, esverdeada aos nossos olhos[7].
3. Deus e Divino segundo Xenófanes
Uno, Deus, sumo
entre os deuses e os homens,
nem por figura
nem por pensamento semelhante aos homens[8].
Xenófanes, que
antes mesmo destes [Parmênides e Melisso] afirmou a unidade do todo [...], não
dá nenhum esclarecimento [sobre a natureza desse uno, se ele é material ou
formal] [...], mas, estendendo a sua consideração a todo o universo, afirma que
o uno é Deus[9].
O universo [...]
é uno, Deus, sumo entre os deuses e os homens, nem por figura nem por
pensamento semelhante aos homens[10].
Todo inteiro vê,
todo inteiro pensa, todo inteiro ouve[11].
E ainda:
Mas sem fadiga,
com a força da mente, tudo faz vibrar[12].
5. Idéias morais
Mas se alguém
conquistasse a vitória com a velocidade do seus pés
ou conquistasse
vitória no pentatlo, lá onde está o recinto sagrado de Zeus,
junto às
torrentes do Pisa em Olímpia, ou lutando
ou mostrando-se
hábil no cruel pugilato
e com aquela
terrível disputa que chamamos pancrácio,
este se
tornaria, aos olhos do seus concidadãos, mais glorioso que antes
e obteria o
lugar de honra nos espetáculos públicos
e seria
sustentado pelas reservas públicas
da Cidade ou
receberia um dom a ser conservado qual cimélio;
e também se
conseguisse vitória com os cavalos, obteria todas essas honras,
mesmo não sendo
digno como eu o sou. De fato, superior à força
dos homens e dos
cavalos é a nossa sabedoria.
Mas isso é
avaliado desproporcionalmente, nem é justo
antepor a força
ao valor da sabedoria.
E, de fato,
embora houvesse entre o povo um valente pugilista
ou algum valente
no pentatlo e na luta
ou na velocidade
dos pés (que é a mais elevada em honra
entre as provas
de força que os homens afrontam em disputas),
não por isso a
Cidade teria uma ordem melhor.
E bem pouca
alegria teria a Cidade,
se alguém
competido vencesse nas torrentes do Pisa:
essas coisas não
enriquecem os tesouros da cidade.
[1] Cf. Platão, Sofista, 242 c-d (= DK, 21 A 29).
[2] Diels-kranz, 21 B 15.
[3] Diels-kranz, 21 B 16.
[4] Diels-kranz, 21 B 11.
[5] Diels-kranz, 21 B 14.
[6] Diels-kranz, 21 B 26.
[7] Diels-kranz, 21 B 31.
[8] Para as contrastantes exegeses do fragmento cf. Zeller-Reale, pp.
84-88.
[9] Aristóteles, Metafísica, A 5, 986 b 21 ss. (=Diels-kranz, 21 A 30).
[10] Cf. Zeller-Reale, pp. 87s.
[11] Diels-kranz, 21 B 24; cf.
Zeller-Reale, pp. 79ss.
[12] Diels-kranz, 21 B 25; sobre o fragmento, interpretado
diferentemente, cf. Zeller-Reale, pp. 80s.
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