segunda-feira, 9 de março de 2026

A FÍSICA DE ARISTÓTELES

 



 

 

Texto: Giovanni Reale

Síntese: Paolo Cugini

 

A segunda ciência teorética para Aristóteles é a física ou “filosofia segunda”, que tem por objetivo de pesquisa a realidade sensível, intrinsecamente caracterizada pelo movimento, assim como a metafísica tinha por objetivo a realidade supra-sensível, intrinsecamente caracterizada pela falta absoluta de movimento.

A distinção de uma problemática metafísica e de uma problemática física, depois das aquisições da “segunda navegação” platônica, impunha-se estruturalmente: se são dois os planos da realidade ou, para nos exprimir em termos mais aristotélicos, se existem dois gênero diferentes de substâncias estruturalmente distintos, o gênero supra-sensível e o gênero sensível, estão necessariamente diferentes, deverão ser as ciências que têm essas duas realidades por objeto de pesquisa. A distinção entre metafísica e física comportará a definitiva superação do horizonte da filosofia dos pré-socráticos e também uma radical mudança do antigo sentido de physis, que, em vez de significar a totalidade do ser, passará agora a significar o ser sensível, e, natureza quererá dizer, predominantemente, natureza sensível (mas um sensível no qual a forma permanece como princípio dominante). Comparada á física moderna, a de Aristóteles resulta, mais que uma ciência, uma ontologia ou metafísica do sensível.

Não é de admirar que se encontrem nos livros de Metafísica amplas considerações físicas (no sentido precisado) e, vice-versa, nos livros de Física abundantes considerações de caráter metafísico, pois os âmbitos das duas ciências são estruturalmente intercomunicastes: o supra-sensível é causa e razão do sensível, e no supra-sensível termina tanto a pesquisa metafísica como (embora em sentido diferente) a própria pesquisa física; e, além disso, também o método de estudo aplicado nas duas ciências é idêntico.

A mudança e o movimento

O movimento tornou-se problema filosófico só depois de ter sido negado como aparência ilusória pelos eleatas.

O movimento é um dado de fato originário, que não pode ser posto em dúvida. Mas como se justifica? Sabemos (pela metafísica) que o ser tem muitos significados e quem um grupo desses significados é dado pelo par ser como potência e ser como ato. Com relação ao ser-em-ato, o ser-em-potência pode ser dito não-ser, precisamente não-ser-em-ato; mas é claro que se trata de um não-ser-relativo, pois a potência é real, porque é real a capacidade e efetiva possibilidade de chegar ao ato. Ora, vindo ao ponto que nos interessa, o movimento ou mudança em geral é, precisamente, a passagem do ser em potência ao ser em ato. Portanto, o movimento não supõe absolutamente o não-ser parmenidiano, porque se desenvolve no álveo do ser e é passagem de ser (potencial) a ser (atual):

Restam as categorias 1) da substância, 2) da qualidade, 3) da quantidade, 4) do lugar, e é justamente segundo essas categorias que ocorre a mudança. A mudança segundo a substância é a geração e a corrupção; segundo a qualidade é a alteração; segundo a quantidade é o aumento e a diminuição, e, segundo o lugar é a translação. Mudança é termo genérico que corresponde a essas quatro formas, movimento, ao invés, é termo que designa as últimas três, particularmente, a última.

Em todas as suas formas, o devir supõe um substrato (que é o ser potencial), que passa de um oposto a outro: na primeira forma, de um contraditório a outro contraditório, e, nas outras três formas, de um contrário a outro contrário. A geração consiste na assunção da forma pela matéria, a corrupção em perder a forma; a alteração é uma mudança da qualidade, enquanto o aumento e a diminuição são uma passagem do pequeno ao grande e vice-versa; o movimento local é passagem de um ponto a outro. Só os sínolos de matéria e forma podem mudar, porque só a matéria implica potencialidade: a estrutura hilemórfica da realidade sensível, que implica necessariamente matéria e potencialidade é, pois, a raiz de todo movimento. 

Essas considerações remetem-nos ao problema das quatro causas, que já conhecemos. Matéria e forma são causas intrínsecas do devir. Causa externa é, ao invés, o agente ou causa eficiente: nenhuma mudança tem lugar sem essa causa, porque não pode haver passagem da potencia ao ato sem que haja um motor já em ato. Enfim, é preciso a causa final, que é o escopo e a razão do devir. A causa final indica, substancialmente, o sentido positivo de todo devir que, aos olhos de Aristóteles, é fundamentalmente um progredir para a forma e uma realização da forma. Longe de ser entrada no nada, o devir aparece a Aristóteles como a via que leva á plenitude do ser, isto é, a via que as coisas percorrem para atuar-se, para ser plenamente o que são, para realizar a sua essência ou forma (e, nesse sentido, compreende-se bem por que a physis aristotélica é, em ultima análise, essa forma).

O espaço e o vazio

Os conceitos de espaço, vazio e tempo ligam-se ao conceito de movimento. Os objetos não estão no não-ser, que não existe, mas estão em um onde, em um lugar.

Ademais, a experiência mostra que existe um “lugar natural” ao qual cada um dos elementos tende, quando não encontra obstáculo: fogo e ar tendem para cima, terra e água para baixo. O em cima e o embaixo não são algo relativo a nós, mas algo objetivo, são determinações naturais: 

O lugar, por uma parte, é aquele comum no qual estão todos os corpos, por outra, é aquele particular no qual imediatamente está um corpo [...] e se o lugar é aquilo é aquilo que imediatamente contém cada corpo, ele será, então, um certo limite [...].

O lugar é o limite do corpo continente, enquanto este é contíguo ao conteúdo. 

Aristóteles esclarece ainda que o lugar não deve ser confundido com o recipiente: o primeiro é imóvel, enquanto o segundo é móvel; o lugar é o recipiente imóvel, enquanto o recipiente é um lugar móvel: 

E dessa definição do lugar segue não é pensável um lugar fora do universo nem um lugar no qual esteja o universo:. Mas se prescindimos de todo o universo, não há qualquer coisa fora do todo, e por isso todas as coisas estão no céu: pois o céu, entende-se, é o todo!

E assim o movimento do céu como totalidade só será possível no sentido da circularidade sobre si mesmo, não havendo lugar para uma translação. Da definição de lugar segue também a impossibilidade do vazio. O vazio fora entendido como “lugar no qual não há nada” ou “lugar no qual não há nenhum corpo”.

O tempo 

Dado que o tempo implica ta estreitamente o movimento, pode ser considerado uma afecção ou propriedade dele. O movimento, que é sempre movimento através de um espaço contínuo, é, também ele, por conseqüência, contínuo ser o tempo, porque a quantidade de tempo transcorrida é sempre proporcional ao movimento. E no continuo distinguem-se o antes e o depois, que, conseqüentemente, têm um correlativo no movimento e, portanto, no tempo:

Tempo é a mediada do movimento segundo o antes e o depois. Ora, a percepção do antes e do depois, e, portanto, da medida do movimento, necessariamente supõe a alma. Se é verdade que, na natureza das coisas, só a alma ou o intelecto que está na alma têm a capacidade de numerar, torna-se impossível a existência do tempo sem a da alma.

Esse pensamento é fortemente antecipador da perspectiva agostostiniana e das concepções espiritualistas do tempo.

Aristóteles, posteriormente, esclareceu que, para medir o tempo necessita-se uma unidade de medida, assim como necessita-se uma unidade de medida para medir qualquer coisa. Esta deve ser buscada no movimento uniforme e perfeito; e dado que o movimento uniforme e perfeito só é o movimento circular, decorre, por conseqüência, que a unidade de medida é o movimento das esferas e dos corpos celestes. Deus e as inteligências motoras, assim como estão fora do espaço, enquanto imóveis, estão também fora do tempo.

O infinito

Aristóteles nega a existência de um infinito em ato. O infinito só existe como potência ou em potência. Infinito em potência é, por exemplo, o número, porque sempre é possível acrescentar a qualquer número um número ulterior. Infinito em potência é também o espaço, porque é divisível ao infinito, infinito potencial, enfim, é também o tempo, que não pode existir todo atualmente, mas transcorre e cresce sem fim.

E Aristóteles nem de longe entreviu a idéia de que o imaterial pudesse ser infinito, justamente porque ligava o infinito é categoria da quantidade, que só vale para o sensível.

A “quintessência” e a divisão do mundo sublunar e celeste

Aristóteles distinguiu a realidade sensível em duas esferas entre si nitidamente diferenciadas: de um lado, o mundo chamado sublunar e, de outro, o mundo supralunar ou celeste.

O mundo sublunar é caracterizado por todas as formas de mudança, entre as quais predominam a geração e a corrupção. Os céus, ao invés, são caracterizados só pelo movimento local e, precisamente, pelo movimento circular. Nas esferas celestes e nos astros, não pode haver geração nem corrupção, nem alteração, nem aumento, nem diminuição. A diferença entre o mundo supralunar, os quais, contudo, são igualmente sensíveis, esta na matéria da qual são constituídos:

E essa matéria, que é potência dos contrários, é dada pelos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), considerados por Aristóteles, transformáveis um no outro, justamente para dar razão, da geração e da corrupção. Ao invés, a outra matéria, que só possui a potência de passar de um ponto a outro e, portanto, só é suscetível de receber o movimento local, é o éter, chamado assim porque ocorre sempre. Ele foi também denominado “quintessência”, porque se acrescentam ás quatro essências dos outros elementos. E enquanto o movimento característico dos quatro elementos é retilíneo, o movimento do éter é, ao invés, circular. O éter é ingênito, incorruptível, não sujeito a crescimento nem alteração, nem a qualquer outra afecção que implique essas mudanças e, por esse motivo, também são incorruptíveis os céus constituídos pelo éter.

A física aristotélica é, na verdade, uma metafísica do sensível e, portanto, não se admirará o leitor de que a Física seja repleta de considerações metafísica e, até mesmo, que culmine com a demonstração da existência de um primeiro Motor imóvel: convencido radicalmente de que “se não existisse o eterno, não existiria tampouco o devir”, o Estagirita coroou as suas pesquisas físicas demonstrando exatamente a existência desse princípio. Mais uma vez manifesta-se como absolutamente determinante o êxito da “segunda navegação” platônica.

O conceito aristotélico de alma

Os seres animados diferenciam-se dos seres inanimados porque possuem um princípio que lhes dá a vida, e esse princípio é a lama.

Para responder a esta pergunta, Aristóteles remete-se á sua concepção metafísica hilemórfica da realidade. Todas as coisas em geral são compostas de matéria e forma, sendo a matéria, potência, e a forma, enteléquia ou ato. Isso vale, naturalmente, também para os seres vivos. Ora, observa o Estagirita, os corpos vivos têm vida, mas não são vida e, portanto, são como o substrato material e potencial do qual a alma é forma e ato.

 

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