Texto:
Giovanni Reale
Síntese:
Paolo Cugini
A segunda ciência teorética para Aristóteles é a
física ou “filosofia segunda”, que tem por objetivo de pesquisa a realidade
sensível, intrinsecamente caracterizada pelo movimento, assim como a metafísica
tinha por objetivo a realidade supra-sensível, intrinsecamente caracterizada
pela falta absoluta de movimento.
A distinção de uma problemática metafísica e de uma
problemática física, depois das aquisições da “segunda navegação” platônica,
impunha-se estruturalmente: se são dois os planos da realidade ou, para nos
exprimir em termos mais aristotélicos, se existem dois gênero diferentes de
substâncias estruturalmente distintos, o gênero supra-sensível e o gênero
sensível, estão necessariamente diferentes, deverão ser as ciências que têm
essas duas realidades por objeto de pesquisa. A distinção entre metafísica e física
comportará a definitiva superação do horizonte da filosofia dos pré-socráticos
e também uma radical mudança do antigo sentido de physis, que, em vez de
significar a totalidade do ser, passará agora a significar o ser sensível, e,
natureza quererá dizer, predominantemente, natureza sensível (mas um sensível
no qual a forma permanece como princípio dominante). Comparada á física
moderna, a de Aristóteles resulta, mais que uma ciência, uma ontologia ou
metafísica do sensível.
Não é de admirar que se encontrem nos livros de
Metafísica amplas considerações físicas (no sentido precisado) e, vice-versa,
nos livros de Física abundantes considerações de caráter metafísico, pois os
âmbitos das duas ciências são estruturalmente intercomunicastes: o
supra-sensível é causa e razão do sensível, e no supra-sensível termina tanto a
pesquisa metafísica como (embora em sentido diferente) a própria pesquisa
física; e, além disso, também o método de estudo aplicado nas duas ciências é
idêntico.
A mudança e o movimento
O movimento tornou-se problema filosófico só depois de
ter sido negado como aparência ilusória pelos eleatas.
O movimento é um dado de fato originário, que não pode
ser posto em dúvida. Mas como se justifica? Sabemos (pela metafísica) que o ser
tem muitos significados e quem um grupo desses significados é dado pelo par ser
como potência e ser como ato. Com relação ao ser-em-ato, o ser-em-potência pode
ser dito não-ser, precisamente não-ser-em-ato; mas é claro que se trata de um
não-ser-relativo, pois a potência é real, porque é real a capacidade e efetiva
possibilidade de chegar ao ato. Ora, vindo ao ponto que nos interessa, o
movimento ou mudança em geral é, precisamente, a passagem do ser em potência ao
ser em ato. Portanto, o movimento não supõe absolutamente o não-ser
parmenidiano, porque se desenvolve no álveo do ser e é passagem de ser
(potencial) a ser (atual):
Restam as categorias 1) da substância, 2) da
qualidade, 3) da quantidade, 4) do lugar, e é justamente segundo essas
categorias que ocorre a mudança. A mudança segundo a substância é a geração e a
corrupção; segundo a qualidade é a alteração; segundo a quantidade é o aumento
e a diminuição, e, segundo o lugar é a translação. Mudança é termo genérico que
corresponde a essas quatro formas, movimento, ao invés, é termo que designa as
últimas três, particularmente, a última.
Em todas as suas formas, o devir supõe um substrato
(que é o ser potencial), que passa de um oposto a outro: na primeira forma, de
um contraditório a outro contraditório, e, nas outras três formas, de um
contrário a outro contrário. A geração consiste na assunção da forma pela
matéria, a corrupção em perder a forma; a alteração é uma mudança da qualidade,
enquanto o aumento e a diminuição são uma passagem do pequeno ao grande e
vice-versa; o movimento local é passagem de um ponto a outro. Só os sínolos de
matéria e forma podem mudar, porque só a matéria implica potencialidade: a
estrutura hilemórfica da realidade sensível, que implica necessariamente
matéria e potencialidade é, pois, a raiz de todo movimento.
Essas considerações remetem-nos ao problema das quatro
causas, que já conhecemos. Matéria e forma são causas intrínsecas do devir.
Causa externa é, ao invés, o agente ou causa eficiente: nenhuma mudança tem
lugar sem essa causa, porque não pode haver passagem da potencia ao ato sem que
haja um motor já em ato. Enfim, é preciso a causa final, que é o escopo e a
razão do devir. A causa final indica, substancialmente, o sentido positivo de
todo devir que, aos olhos de Aristóteles, é fundamentalmente um progredir para
a forma e uma realização da forma. Longe de ser entrada no nada, o devir
aparece a Aristóteles como a via que leva á plenitude do ser, isto é, a via que
as coisas percorrem para atuar-se, para ser plenamente o que são, para realizar
a sua essência ou forma (e, nesse sentido, compreende-se bem por que a physis
aristotélica é, em ultima análise, essa forma).
O espaço e o vazio
Os conceitos de espaço, vazio e tempo ligam-se ao
conceito de movimento. Os objetos não estão no não-ser, que não existe, mas
estão em um onde, em um lugar.
Ademais, a experiência mostra que existe um “lugar
natural” ao qual cada um dos elementos tende, quando não encontra obstáculo:
fogo e ar tendem para cima, terra e água para baixo. O em cima e o embaixo não
são algo relativo a nós, mas algo objetivo, são determinações naturais:
O lugar, por uma parte, é aquele comum no qual estão
todos os corpos, por outra, é aquele particular no qual imediatamente está um
corpo [...] e se o lugar é aquilo é aquilo que imediatamente contém cada corpo,
ele será, então, um certo limite [...].
O lugar é o limite do corpo continente, enquanto este
é contíguo ao conteúdo.
Aristóteles esclarece ainda que o lugar não deve ser
confundido com o recipiente: o primeiro é imóvel, enquanto o segundo é móvel; o
lugar é o recipiente imóvel, enquanto o recipiente é um lugar móvel:
E dessa definição do lugar segue não é pensável um
lugar fora do universo nem um lugar no qual esteja o universo:. Mas se
prescindimos de todo o universo, não há qualquer coisa fora do todo, e por isso
todas as coisas estão no céu: pois o céu, entende-se, é o todo!
E assim o movimento do céu como totalidade só será
possível no sentido da circularidade sobre si mesmo, não havendo lugar para uma
translação. Da definição de lugar segue também a impossibilidade do vazio. O
vazio fora entendido como “lugar no qual não há nada” ou “lugar no qual não há
nenhum corpo”.
O tempo
Dado que o tempo implica ta estreitamente o movimento,
pode ser considerado uma afecção ou propriedade dele. O movimento, que é sempre
movimento através de um espaço contínuo, é, também ele, por conseqüência,
contínuo ser o tempo, porque a quantidade de tempo transcorrida é sempre
proporcional ao movimento. E no continuo distinguem-se o antes e o depois, que,
conseqüentemente, têm um correlativo no movimento e, portanto, no tempo:
Tempo é a mediada do movimento segundo o antes e o
depois. Ora, a percepção do antes e do depois, e, portanto, da medida do
movimento, necessariamente supõe a alma. Se é verdade que, na natureza das
coisas, só a alma ou o intelecto que está na alma têm a capacidade de numerar,
torna-se impossível a existência do tempo sem a da alma.
Esse pensamento é fortemente antecipador da
perspectiva agostostiniana e das concepções espiritualistas do tempo.
Aristóteles, posteriormente, esclareceu que, para
medir o tempo necessita-se uma unidade de medida, assim como necessita-se uma
unidade de medida para medir qualquer coisa. Esta deve ser buscada no movimento
uniforme e perfeito; e dado que o movimento uniforme e perfeito só é o
movimento circular, decorre, por conseqüência, que a unidade de medida é o
movimento das esferas e dos corpos celestes. Deus e as inteligências motoras,
assim como estão fora do espaço, enquanto imóveis, estão também fora do tempo.
O infinito
Aristóteles nega a existência de um infinito em ato. O
infinito só existe como potência ou em potência. Infinito em potência é, por
exemplo, o número, porque sempre é possível acrescentar a qualquer número um
número ulterior. Infinito em potência é também o espaço, porque é divisível ao
infinito, infinito potencial, enfim, é também o tempo, que não pode existir
todo atualmente, mas transcorre e cresce sem fim.
E Aristóteles nem de longe entreviu a idéia de que o
imaterial pudesse ser infinito, justamente porque ligava o infinito é categoria
da quantidade, que só vale para o sensível.
A “quintessência” e a divisão do mundo sublunar e
celeste
Aristóteles distinguiu a realidade sensível em duas
esferas entre si nitidamente diferenciadas: de um lado, o mundo chamado
sublunar e, de outro, o mundo supralunar ou celeste.
O mundo sublunar é caracterizado por todas as formas
de mudança, entre as quais predominam a geração e a corrupção. Os céus, ao
invés, são caracterizados só pelo movimento local e, precisamente, pelo
movimento circular. Nas esferas celestes e nos astros, não pode haver geração
nem corrupção, nem alteração, nem aumento, nem diminuição. A diferença entre o
mundo supralunar, os quais, contudo, são igualmente sensíveis, esta na matéria
da qual são constituídos:
E essa matéria, que é potência dos contrários, é dada
pelos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), considerados por Aristóteles,
transformáveis um no outro, justamente para dar razão, da geração e da
corrupção. Ao invés, a outra matéria, que só possui a potência de passar de um
ponto a outro e, portanto, só é suscetível de receber o movimento local, é o
éter, chamado assim porque ocorre sempre. Ele foi também denominado
“quintessência”, porque se acrescentam ás quatro essências dos outros
elementos. E enquanto o movimento característico dos quatro elementos é
retilíneo, o movimento do éter é, ao invés, circular. O éter é ingênito,
incorruptível, não sujeito a crescimento nem alteração, nem a qualquer outra
afecção que implique essas mudanças e, por esse motivo, também são
incorruptíveis os céus constituídos pelo éter.
A física aristotélica é, na verdade, uma metafísica do
sensível e, portanto, não se admirará o leitor de que a Física seja repleta de
considerações metafísica e, até mesmo, que culmine com a demonstração da
existência de um primeiro Motor imóvel: convencido radicalmente de que “se não
existisse o eterno, não existiria tampouco o devir”, o Estagirita coroou as
suas pesquisas físicas demonstrando exatamente a existência desse princípio.
Mais uma vez manifesta-se como absolutamente determinante o êxito da “segunda
navegação” platônica.
O conceito aristotélico de alma
Os seres animados diferenciam-se dos seres inanimados
porque possuem um princípio que lhes dá a vida, e esse princípio é a lama.
Para responder a esta pergunta, Aristóteles remete-se
á sua concepção metafísica hilemórfica da realidade. Todas as coisas em geral
são compostas de matéria e forma, sendo a matéria, potência, e a forma,
enteléquia ou ato. Isso vale, naturalmente, também para os seres vivos. Ora,
observa o Estagirita, os corpos vivos têm vida, mas não são vida e, portanto,
são como o substrato material e potencial do qual a alma é forma e ato.
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