CURSO DE FILOSOFIA POLÍTICA
Síntese de Paolo Cugini
A doutrina política da Igreja Católica evoluiu da gestão direta do poder temporal para a
formulação de uma Doutrina Social moderna.
Aqui estão os pilares e conceitos-chave desenvolvidos
ao longo do tempo:
1.
Carta
a Diogneto
2.
Pensamento
Clássico e Medieval
Agostinho de Hipona (De Civitate Dei): Distingue entre
a "Cidade de Deus" e a "Cidade dos Homens", estabelecendo
que o Estado é necessário para a ordem, mas subordinado à moral cristã.
Tomás de Aquino: Introduz o conceito de Bem Comum. Ele
argumenta que as leis humanas devem refletir a Lei Natural; se uma lei é
injusta, não é uma lei verdadeira.
3.
Doutrina Social Moderna (desde 1891)
Começa com a encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, em
resposta à Revolução Industrial, e baseia-se em quatro princípios:
a.
Dignidade
da pessoa: O ser humano é o
fim, não o meio, da economia ou da política.
b.
Subsidiariedade: O Estado não deve substituir as realidades locais ou
familiares, mas sim ajudá-las a prosperar.
c.
Solidariedade: Responsabilidade para com os mais pobres e
interdependência entre os povos.
d.
Destinação
Universal dos Bens:
A propriedade privada é um direito, mas tem uma "função social"; os
recursos da Terra pertencem a todos.
3. Desenvolvimentos Contemporâneos
Democracia e Liberdade Religiosa: Com o Concílio Vaticano II (Dignitatis Humanae), a
Igreja reconheceu plenamente a liberdade de consciência e o valor dos sistemas
democráticos.
Ecologia Integral: O Papa Francisco (Laudato si') apresentou uma
proposta política que vincula a justiça social à proteção ambiental, criticando
o "paradigma tecnocrático".
Crítica aos Sistemas: Historicamente, a Igreja se opôs tanto ao comunismo
ateu (por sua negação da transcendência e da liberdade) quanto ao capitalismo
desenfreado (quando este atropela a dignidade do trabalhador).
O PODER TEMPORAL DA IGREJA CATÓLICA: 313. d.C. -1500
De 313 d.C. a 1500, a Igreja Católica transformou seu
papel de uma comunidade religiosa tolerada em um poder político e territorial
soberano, influenciando profundamente a estrutura da Europa medieval. Durante
esse período, a Igreja Católica passou por uma profunda metamorfose: de uma
comunidade espiritual perseguida à principal instituição política e territorial
do Ocidente, culminando na figura do "Papa Rei" do Renascimento.
1. A Transição: De Culto ao Poder (313 - 754 d.C.)
313 d.C. - Édito de Milão: O imperador Constantino reconhece o cristianismo
como uma religião legítima. A Igreja começa a receber restituições de
propriedades e doações de terras, adotando a estrutura administrativa romana
(dioceses e paróquias).
Papel Substituto: Com a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.),
os bispos tornaram-se a única autoridade organizada nas cidades, assumindo
funções de governo civil, defesa e assistência para preencher o vácuo de poder.
Doação de Sutri (728 d.C.): O rei lombardo Liutprando doou o castelo de
Sutri ao Papa Gregório II. Este evento é considerado o nascimento formal dos
Estados Papais.
2. A Era Carolíngia e o Sacro Império Romano (754 -
1000 d.C.)
Promessa de Quierzy (754 d.C.): Pepino, o Breve, prometeu entregar ao
Papa os territórios tomados dos lombardos (Lácio, Romanha, Marcas), criando uma
base territorial soberana.
Coroação de Carlos Magno (800 d.C.): O Papa Leão III coroa Carlos Magno como
imperador, estabelecendo o papel do pontífice como fonte de legitimidade
política imperial.
Privilegium Othonis (962 d.C.): Oto I da Saxônia estabelece o direito
imperial de confirmar as eleições papais, submetendo temporariamente a Igreja
ao controle germânico.
3. Teocracia e o Conflito Universal (1075 - 1303 d.C.)
Questão das Investiduras: Gregório VII emite o
Dictatus Papae (1075), declarando
que somente o Papa pode nomear bispos e depor imperadores. O conflito termina
com a Concordata de Worms (1122),
um acordo que distingue entre o poder espiritual e o poder temporal.
Inocêncio III (1198-1216): O papado atinge o ápice do poder
político, atuando como o árbitro supremo dos soberanos europeus através da "teoria das duas espadas" (a supremacia do poder espiritual sobre o poder
político).
4. Crise, Cativeiro e o Renascimento (1303 - 1500
d.C.)
A Bofetada de Anagni (também
conhecida como o Atentado de Anagni) foi um episódio dramático
ocorrido em 7 de setembro de 1303, que simbolizou o declínio do poder
político universal do papado frente ao fortalecimento das monarquias nacionais,
especificamente a França.
O evento consistiu no seguinte:
- O Conflito: O Papa Bonifácio VIII e o Rei Filipe IV da França (o Belo)
estavam em um embate severo sobre a supremacia do poder papal versus o
poder real e a cobrança de impostos sobre o clero.
- O Atentado: Filipe IV enviou emissários, liderados por Guillaume
de Nogaret e apoiados pela família nobre romana Colonna (inimiga
do Papa), para capturar Bonifácio VIII em sua residência de verão em
Anagni.
- A "Bofetada": Durante a invasão, o Papa teria sido
insultado e, segundo a lenda, esbofeteado por Sciarra Colonna.
Embora o contato físico seja debatido por historiadores, o termo
"bofetada" refere-se principalmente à humilhação pública e moral
imposta ao pontífice.
- Consequência Imediata: Bonifácio VIII foi libertado pela população local após três
dias de cativeiro, mas, abalado pela humilhação, faleceu um mês depois em
Roma.
- Impacto Histórico: O episódio marcou o fim das pretensões papais de domínio
político absoluto sobre os reis europeus e abriu caminho para
o Cativeiro de Avignon, período em que a sede do papado foi
transferida para a França
Cativeiro de Avignon (1309-1377): A sede papal é transferida para a
França, resultando em uma significativa perda de prestígio e controle político
direto sobre a Itália.
Papas Príncipes (século XV): Após retornarem a Roma, os Papas (como
os Bórgias ou Júlio II) atuaram como verdadeiros soberanos renascentistas, com
exércitos, cortes suntuosas e uma política de expansão territorial com o
objetivo de consolidar os Estados Papais como uma potência italiana.
A descoberta da falsificação da Doação de Constantino,
realizada pelo humanista Lorenzo Valla em 1440, representou um terremoto intelectual que atingiu os
próprios alicerces da legitimidade política da Igreja.
1. O Colapso da Base Legal
Durante séculos, a Igreja justificou sua posse de Roma
e dos territórios italianos alegando que o Imperador Constantino, no século IV,
os havia cedido legalmente ao Papa Silvestre I. Valla demonstrou, por meio de
análise filológica (observando palavras e expressões latinas que ainda não
existiam no século IV), que o documento era uma falsificação criada no século
VIII.
Consequência: O poder territorial da Igreja deixou de ser visto
como um "direito divino ou imperial herdado", passando a ser
considerado uma construção política humana.
2. A Reação da Igreja
Apesar das evidências científicas, a Igreja não abriu
mão de seus territórios. Inicialmente, tentou ignorar ou censurar a obra de
Valla. No entanto, o argumento de Valla era tão forte que a hierarquia
eclesiástica teve que mudar de estratégia:
Da lei à história: A legitimidade dos Estados Papais
passou a ser defendida não mais com base em um "pedaço de papel" (a
Doação), mas na posse secular e na necessidade de o Papa ser politicamente
independente dos soberanos europeus para exercer seu ministério espiritual.
3. O Impacto na Reforma Protestante
As teses de Valla foram publicadas por Ulrich von
Hutten em 1517 e se tornaram uma arma fundamental para Martinho Lutero.
A acusação: Para os reformadores, a falsificação era a
prova definitiva da "corrupção" e da "ganância" de Roma.
Isso acelerou a crítica teológica à fusão da fé com a gestão do poder político.
4. O Nascimento do Método Crítico
A obra de Valla marcou o nascimento da historiografia
moderna. Ele demonstrou que nenhum poder, nem mesmo o sagrado, poderia escapar
da análise crítica de fatos e documentos. Isso enfraqueceu a autoridade
política da Igreja a longo prazo, forçando-a a justificar seu papel não mais
como "senhora do mundo", mas como guia moral.
O poder político
da Igreja Católica do Concilio de Trento (1560) até o Concílio Vaticano II
(1962)
A evolução do poder político da Igreja Católica entre
o Concílio de Trento e o Concílio Vaticano II reflete a mudança de uma
estrutura de defesa doutrinal e centralização monárquica para uma de diálogo
aberto com a modernidade e o pluralismo.
As principais etapas desse processo incluem:
O Concílio de Trento (1545-1563): Marca o nascimento da Igreja da
Contrarreforma. Consolidou o poder central do Papa, reafirmou a autoridade do
Magistério e fortaleceu instrumentos de controle, como a Inquisição e o Índice
de Livros Proibidos, para defender a ortodoxia dos ataques protestantes.
A Era do Absolutismo e do "Tridentinismo": Nos séculos seguintes, a Igreja adotou um modelo de
uniformidade e centralização romana, no qual os decretos tridentinos se
tornaram o único filtro através do qual todos os assuntos institucionais e
doutrinais eram tratados. O papado manteve um papel fundamental como juiz na
vida política e civil da sociedade europeia.
O Primeiro Concílio Vaticano (1869-1870): Embora interrompido pela captura de
Roma, representou o ápice da centralização hierárquica com a proclamação dos
dogmas da primazia papal e da infalibilidade papal, levando inicialmente ao
isolamento político e espiritual da Igreja no mundo moderno.
Os Pactos de Latrão (1929): (Um fato histórico fundamental não
explicitamente declarado no texto, mas implícito na evolução das relações entre
Igreja e Estado) resolveram a "Questão Romana", definindo o status
político da Igreja na Itália e garantindo a soberania do Estado da Cidade do
Vaticano.
O Segundo Concílio Vaticano (1962-1965): Marcou uma virada histórica, passando de
uma postura defensiva para uma de "aggiornamento" (atualização).
Documentos como Gaudium et Spes redefiniram a relação entre a Igreja e o mundo
contemporâneo, baseando-a no diálogo.
Liberdade religiosa: Com a declaração Dignitatis Humanae, a Igreja aceitou
o princípio da liberdade religiosa garantida pelo Estado, renunciando à
reivindicação de proteção privilegiada como a única religião
"verdadeira".
Ecumenismo: O decreto Unitatis Redintegratio abriu caminho para
uma nova relação de igualdade e diálogo com outras denominações cristãs.
Dignidade humana: A Igreja estabeleceu a dignidade da pessoa humana,
criada à imagem de Deus, como fundamento de seu ensinamento social no mundo
moderno.
A Questão Romana
Foi o longo conflito político e diplomático entre o
Reino da Itália e a Santa Sé, que durou de 1861 a 1929, relativo ao papel de
Roma e à soberania temporal do Papa. As etapas cruciais do conflito foram:
A Unificação da Itália (1861): Com a proclamação do Reino, Roma foi
declarada a "capital moral", mas permaneceu sob o controle do Papa e
protegida pelas tropas francesas de Napoleão III.
A Invasão da Porta Pia (20 de setembro de 1870): Aproveitando-se da queda de
Napoleão III na Guerra Franco-Prussiana, o exército italiano entrou em Roma.
Este evento marcou o fim dos Estados Papais e do poder temporal dos papas.
A Lei das Garantias (1871): O Estado italiano tentou regular as relações
unilateralmente, garantindo ao Papa a inviolabilidade e a posse dos palácios do
Vaticano. O Papa Pio IX rejeitou a lei, declarando-se "prisioneiro no
Vaticano" e proibindo os católicos de participarem da vida política
italiana com o decreto Non Expedit.
Os Pactos de Latrão (11 de fevereiro de 1929): A
disputa foi oficialmente resolvida com os acordos assinados entre Benito
Mussolini e o Cardeal Pietro Gasparri. Resultados dos Pactos de Latrão:
Tratado Internacional: Criação do Estado da Cidade do Vaticano como uma
entidade soberana e independente.
Concordata: Regulamentação das relações civis e religiosas entre
a Igreja e o Governo (por exemplo, a validade civil do casamento religioso).
Convenção Financeira: Compensação financeira à Santa Sé pela perda dos
territórios papais.
Para refletir: DESCENDENDO DO SAGRADO IMPÉRIO ROMANO
(Paolo Cugini)
https://matutan.blogspot.com/2024/08/descendendendo-do-sagrado-imperio-romano.html
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