Paolo Cugini
Os contatos e relações entre o filósofo francês Paul
Ricoeur e a revista Esprit foram profundos, contínuos e estruturais,
estendendo-se por mais de cinquenta anos. A Esprit, fundada em 1932 por
Emmanuel Mounier como órgão do movimento personalista, representou para Ricoeur
não apenas uma plataforma editorial, mas um verdadeiro laboratório intelectual
e político.
1. Amizade com Mounier e adesão ao personalismo
Na década de 1930, Ricoeur desenvolveu um contato
próximo com o catolicismo social francês e o núcleo original da Esprit. Ele
desenvolveu uma profunda amizade e harmonia intelectual com o fundador Emmanuel
Mounier. Embora Ricoeur fosse protestante, ele compartilhava a ideia de superar
tanto o individualismo liberal quanto o coletivismo marxista através da
centralidade da "pessoa".
2. Ingresso no Conselho Editorial
(1948)
Em 1948, após retornar da prisão na Alemanha e iniciar
sua carreira acadêmica em Estrasburgo, Ricoeur ingressou oficialmente no
conselho editorial da Esprit. A partir desse momento, ele se tornou uma das
figuras-chave da revista, moldando seus debates filosóficos e posicionamentos
cívicos.
3. Repensando a "Pessoa"
(1953)
Após a morte prematura de Mounier em 1950, Ricœur
assumiu a tarefa de levar o legado da revista para a segunda metade do século
XX. Em 1953, ele publicou um artigo famoso e seminal na Esprit intitulado
"O Personalismo Morre, a Pessoa Retorna". Neste ensaio, ele propôs
abandonar o personalismo como um sistema ideológico rígido (um
"-ismo"), preferindo manter a ideia de "pessoa" como uma
noção aberta e ética, projetada para os desafios futuros.
4. Compromisso político e anticolonialismo
Através das páginas da revista, Ricœur manteve um
constante engajamento cívico de esquerda, abordando as questões mais prementes
da história francesa:
• Guerra da Argélia: Ricœur e a equipe editorial da
Esprit apoiaram abertamente a descolonização e o anticolonialismo, denunciando
a tortura e as tendências nacionalistas.
• Crítica ao Totalitarismo: A revista tornou-se um
espaço de firme oposição aos regimes soviéticos na Europa Oriental.
• Maio de 68: Ricœur vivenciou a crise de 68 em
primeira mão (tornando-se posteriormente reitor de Nanterre), e a revista
ofereceu amplo espaço para a análise crítica dessas convulsões sociais.
5. Diálogo com o estruturalismo
(1963)
A Esprit também provocou debates filosóficos
históricos. Em novembro de 1963, a revista publicou uma célebre edição especial
dedicada ao estruturalismo, que apresentou uma memorável entrevista-confronto
entre Paul Ricœur e o antropólogo Claude Lévi-Strauss. Nessa edição, Ricœur
discutiu os limites do modelo estrutural, lançando as bases para sua posterior
virada hermenêutica.
6. Últimos anos e redescoberta
Mesmo em idade avançada, Ricœur permaneceu um ponto de
referência para a Esprit (então dirigida por Olivier Mongin). Foi precisamente
nesse contexto editorial que, no final da década de 1990, um jovem Emmanuel
Macron trabalhou como assistente editorial de Ricœur na obra Memória, História
e Esquecimento, antes de ingressar no conselho editorial da revista.
No total, Ricœur escreveu 95 artigos para o periódico
francês, e a Revue Esprit continuou a dedicar-lhe importantes edições
monográficas tanto durante a sua vida como após a sua morte em 2005 (como o
dossiê de 2024 dedicado aos poderes da imaginação).
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