quarta-feira, 20 de maio de 2026

PAUL RICOEUR E A REVISTA ESPRIT





Paolo Cugini

 

Os contatos e relações entre o filósofo francês Paul Ricoeur e a revista Esprit foram profundos, contínuos e estruturais, estendendo-se por mais de cinquenta anos. A Esprit, fundada em 1932 por Emmanuel Mounier como órgão do movimento personalista, representou para Ricoeur não apenas uma plataforma editorial, mas um verdadeiro laboratório intelectual e político.

 

1. Amizade com Mounier e adesão ao personalismo

Na década de 1930, Ricoeur desenvolveu um contato próximo com o catolicismo social francês e o núcleo original da Esprit. Ele desenvolveu uma profunda amizade e harmonia intelectual com o fundador Emmanuel Mounier. Embora Ricoeur fosse protestante, ele compartilhava a ideia de superar tanto o individualismo liberal quanto o coletivismo marxista através da centralidade da "pessoa".

2. Ingresso no Conselho Editorial (1948)

Em 1948, após retornar da prisão na Alemanha e iniciar sua carreira acadêmica em Estrasburgo, Ricoeur ingressou oficialmente no conselho editorial da Esprit. A partir desse momento, ele se tornou uma das figuras-chave da revista, moldando seus debates filosóficos e posicionamentos cívicos.

3. Repensando a "Pessoa" (1953)

Após a morte prematura de Mounier em 1950, Ricœur assumiu a tarefa de levar o legado da revista para a segunda metade do século XX. Em 1953, ele publicou um artigo famoso e seminal na Esprit intitulado "O Personalismo Morre, a Pessoa Retorna". Neste ensaio, ele propôs abandonar o personalismo como um sistema ideológico rígido (um "-ismo"), preferindo manter a ideia de "pessoa" como uma noção aberta e ética, projetada para os desafios futuros.

4. Compromisso político e anticolonialismo

Através das páginas da revista, Ricœur manteve um constante engajamento cívico de esquerda, abordando as questões mais prementes da história francesa:

• Guerra da Argélia: Ricœur e a equipe editorial da Esprit apoiaram abertamente a descolonização e o anticolonialismo, denunciando a tortura e as tendências nacionalistas.

 

• Crítica ao Totalitarismo: A revista tornou-se um espaço de firme oposição aos regimes soviéticos na Europa Oriental.

 

• Maio de 68: Ricœur vivenciou a crise de 68 em primeira mão (tornando-se posteriormente reitor de Nanterre), e a revista ofereceu amplo espaço para a análise crítica dessas convulsões sociais.

 

5. Diálogo com o estruturalismo (1963)

A Esprit também provocou debates filosóficos históricos. Em novembro de 1963, a revista publicou uma célebre edição especial dedicada ao estruturalismo, que apresentou uma memorável entrevista-confronto entre Paul Ricœur e o antropólogo Claude Lévi-Strauss. Nessa edição, Ricœur discutiu os limites do modelo estrutural, lançando as bases para sua posterior virada hermenêutica.

6. Últimos anos e redescoberta

Mesmo em idade avançada, Ricœur permaneceu um ponto de referência para a Esprit (então dirigida por Olivier Mongin). Foi precisamente nesse contexto editorial que, no final da década de 1990, um jovem Emmanuel Macron trabalhou como assistente editorial de Ricœur na obra Memória, História e Esquecimento, antes de ingressar no conselho editorial da revista.

No total, Ricœur escreveu 95 artigos para o periódico francês, e a Revue Esprit continuou a dedicar-lhe importantes edições monográficas tanto durante a sua vida como após a sua morte em 2005 (como o dossiê de 2024 dedicado aos poderes da imaginação).

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