De 19 a 2 2 de maio 2026 em Campo Grande, capital do
Estado de Mato Grosso do Sul, aconteceu o II Ateliê Ricoeur na América Latina organizado
pela Rede Brasil-Ricoeur. O ateliê, que viu a participação dos maiores estudiosos
latino-americanos do filosofo francês Paul Ricoeur (1913-2005), teve como
objetivo aprofundar a interpretação ricoeuriana sobre Sigmund Freud, sobretudo
aprofundando o texto de Ricoeur: Da interpretação: ensaio sobre Freud,
publicado no 1965.
Aqui em seguida uma breve síntese do conteúdo que saiu
nestes dias, destacando aquilo que mais me chamou atenção.
Introdução
Para Paul Ricoeur, Sigmund Freud não criou apenas uma
psicologia clínica, mas sim uma revolução filosófica que abalou a forma como o
ser humano compreende a si mesmo. Em sua obra seminal de 1965, Da
Interpretação: ensaio sobre Freud (publicada em francês como: De
l'interprétation. essai sur Freud), Ricoeur insere a psicanálise no
campo da hermenêutica a teoria da interpretação de textos e símbolos.
No cenário filosófico do século XX, Paul Ricoeur
propôs uma virada metodológica ao aproximar a psicanálise da filosofia da
linguagem. Em vez de tratar o inconsciente como uma realidade puramente
biológica, Ricoeur o define como um texto que precisa ser decifrado. Ele
posiciona Freud ao lado de Karl Marx e Friedrich Nietzsche como um dos
"mestres da suspeita", pensadores que desmascararam a falsa clareza
da consciência humana.
1. A Escola da suspeita e o descentralramento do
sujeito
Ricoeur argumenta que Freud destrói a ilusão
cartesiana de que a consciência é transparente para si mesma. O cogito
("penso, logo existo") dá lugar a um sujeito que desconhece suas
próprias motivações básicas. "Três mestres dominam a escola da suspeita:
Marx, Nietzsche e Freud. [...] Todos os três começam a partir da suspeita em
relação às ilusões da consciência" (RICOEUR, 1965, p. 42).
Nessa perspectiva, o papel de Freud não é destruir o
sujeito, mas purificá-lo de suas falsas certezas. A consciência deixa de ser
uma origem dada e passa a ser uma tarefa a ser conquistada através da
interpretação.
2. A Dupla dimensão de Freud: energética vs.
hermenêutica
O cerne da tese de Ricoeur sobre Freud reside em uma
tensão dialética essencial. Por um lado, Freud usa uma linguagem de forças
físicas, fluidos e cargas (a "energética" ou economia da mente). Por
outro lado, ele trabalha com o sentido, com relatos de sonhos, lapsos e
símbolos (a "hermenêutica"). "O que o discurso freudiano
apresenta é uma articulação constante da força e do sentido, da energética e da
hermenêutica" (RICOEUR, 1965, p. 77).
Ricoeur demonstra que um desejo humano nunca se
apresenta de forma pura; ele sempre se expressa mediado por uma linguagem
simbólica. O sintoma neurótico ou o sonho são textos distorcidos que demandam
tradução.
3. A Arqueologia e a teleologia do sujeito
Para Ricoeur, a interpretação freudiana é
fundamentalmente uma "arqueologia". Ela escava o passado do
indivíduo, buscando na infância e nas pulsões primitivas a causa das
manifestações atuais. "A psicanálise se apresenta como uma arqueologia do
sujeito; ela nos remete sempre ao arcaico, ao infantil, ao inconsciente como o
fundamento esquecido" (RICOEUR, 1965, p. 441).
Contudo, Ricoeur complementa que uma hermenêutica
puramente arqueológica seria redutiva. Ele propõe uma dialética com a
"teleologia" (inspirada em Hegel), sugerindo que o ser humano não é
apenas determinado pelo seu passado (arqueologia), mas também se move em
direção a um sentido futuro, autoconsciente e espiritual (teleologia). O
sujeito se descobre no movimento entre o que o determinou e o que ele projeta
ser.
4. O Símbolo como expressão do desejo
Na leitura ricoeuriana, o analista e o paciente
trabalham sobre o símbolo. O símbolo possui uma estrutura de duplo sentido:
existe um significado literal (o manifesto) e um significado oculto (o
latente). Freud é o mestre que ensina a decifrar essa linguagem cifrada do
desejo.
"O símbolo é a estrutura de significação onde um
sentido direto, primário, literal, designa além disso um outro sentido
indireto, secundário, figurado, que só pode ser apreendido através do
primeiro" (RICOEUR, 1965, p. 25).
Conclusão
Paul Ricoeur não aceitou a psicanálise como uma
ciência natural exata, mas validou-a como uma rigorosa disciplina de
interpretação do sentido humano. Ao ler Freud sob uma lente hermenêutica,
Ricoeur salvou o pensamento freudiano do reducionismo materialista,
transformando a psicanálise em uma via indispensável para a filosofia da
existência e para o autoconhecimento.
Referências Bibliográficas
RICOEUR, Paul. De l'interprétation. Essai sur Freud. Paris: Éditions
du Seuil, 1965.
RICOEUR, Paul. Da
Interpretação: Ensaio sobre Freud.




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