Jurgem Habermas, Martins Fontes, A
Ética da Discussão e a Questão da Verdade, São Paulo, 2004
Síntese Paolo Cugini
Digitação: Jaciara Souza Pereira
UM DEBATE COM JURGEM HEBERMAS – Paris
IV (Sorbonne), 1º. De fevereiro de
2001
Alain Renaut
Até certo ponto, o fato do pluralismo
cultural também significa que o mundo se revela e é interpretado de modo
diferente segundo as perspectivas dos diversos indivíduos e grupos – pelo menos
num primeiro momento. Uma espécie de
pluralismo interpretativo afeta a visão de mundo e a autocompreensão, bem como
a percepção dos valores e dos interesses de pessoas cuja histórias individual
tem suas raízes em determinadas tradições e formas de vida e é por elas
moldada.
É essa multiplicidade de perspectivas
interpretativas que explica por que o sentido do princípio de universalização
não se esgota numa reflexão monológica
segundo a qual determinadas máximas seriam aceitáveis como leis
universais do meu ponto de vista. É só na qualidade de participantes de um
diálogo abrangente e voltado para o
consenso que somos chamados a exercer a virtude cognitiva da empatia em relação
ás nossas diferenças recíprocas na percepção de uma mesma situação. Devemos
então procurar saber como cada um dos demais participantes procuraria, a partir
do seu próprio ponto de vista, proceder e universalização de todos os
interesses envolvidos. O discurso prático pode, assim, ser compreendido como
uma nova forma específica de aplicação
do Imperativo Categórico. Aqueles que participam de um tal discurso não podem
chegar a um acordo que atenda aos interesses de todos, a menos que todos façam
o exercício de “adotar os pontos de vista uns dos outros”, exercício que leva
ao que Piaget chama de uma progressiva “descentralização” Da compreensão egocêntrica
e etnocêntrica que cada qual tem de si mesmo e do mundo. (p. 9 e 10)
A única questão que poderia ainda ser
motivo de controvérsia é a seguinte: se devemos ou não conceber esses dois
aspectos a partir dos quais pudéssemos abstrair elementos dotados de uma
relação interna entre si e que constituíssem reciprocamente um ao outro. Se
admitirmos isso, não poderemos senão
conceber os “indivíduos” como pessoas que se individualizam pela socialização;
tampouco poderemos rejeitar a estratégia pela qual conceituamos a
“subjetividade” como uma realização das
relações epistêmicas e práticas da pessoa consigo mesma, relações essas que
nascem das relações da pessoa com os outros e encaixam-se no quadro destas.
(p.11 e 12)
Quanto á liberdade subjetiva, não é
difícil imaginar que algumas pessoas possam gozar da liberdade e outros não, ou
que algumas possam ser mais livres do que outras. A autonomia, ao contrario,
não é um conceito distributivo e não pode ser alcançada individualmente. Nesse
sentido enfático, uma pessoa só pode ser livre se todas as demais o forem
igualmente. A idéia que quero sublinhar é a seguinte: com sua noção de
autonomia, o próprio Kant já introduz um conceito que só pode explicitar-se
plenamente dentro de uma estrutura intersubjetivista. E como essa idéia está
indissociavelmente ligada ao conceito de razão prática, e ambas colaboram para
constituir o conceito de pessoalidade, parece-me que só podemos preservar a
substância mesma da filosofia de Kant dentro de uma estruturas que nos impeça
de desenvolver a concepção de subjetividade independentemente de quaisquer relações internas desta com a
intersubjetividade. (p. 13 e 14)
É evidente que a autoconsciência e a
capacidade da pessoa de assumir uma posição refletida e deliberada quanto ás
próprias crenças, desejos, valores e princípios, mesmo quanto ao projeto de
toda a sua vida, é um dos requisitos necessários para o discurso prático. Há um
outro requisito, porém, tão importante quanto esse. Os participantes, no
momento mesmo em que encetam uma tal prática argumentativa, têm de estar
dispostos a antender á exigência de cooperar uns com os outros na busca de
razões aceitáveis para outros; e, mais ainda, têm de estar dispostos a
deixar-se afetar e motivar, em suas decisões afirmativas e negativas, por essas
razões e somente por elas.
Os pressupostos pragmáticos da
discussão mostram que ambos os requisitos podem ser satisfeitos
simultaneamente. A discussão nos faculta, com efeito, ambas as condições :
- a primeira: que cada participante
individual seja livre, no sentido de ser dotado da autoridade epistêmica da
primeira pessoa, para dizer “sim ou não” – concordo plenamente com o professor
Renaut, mas é preciso atender ainda á segunda condição;
- a segunda: que essa autoridade epistêmica
seja exercida de acordo com a busca de um acordo racional; que, portanto, só
sejam escolhidas soluções que sejam racionalmente aceitáveis para todos os
envolvidos e todos os que por elas forem afetadas.
Não se pode isolar a primeira
condição, a da liberdade comunicativa, da segunda, tampouco se pode atribuir a
ela uma propriedade sobre a segunda, que é a da busca de um consenso. (p. 15 e
16)
Jurgen Habermas
A divergência em questão se
caracteriza pela diferença entre uma noção mais forte e uma noção mais fraca de
racionalidade. Enquanto eu defendo uma noção abragente da racionalidade
comunicativa, associada a um modelo holístico da justificação (cf. Vérité et
justification, pp. 43-74), Popper prefere a versão Weberiana de uma
racionalidade finalista ou instrumental e se atém a um modelo dedutivo da
justificação. Disso decorrem duas implicações que gostaria de mencionar. (p.18
e 19)
Jurgen Habermas
Quanto a mim, faço outra idéia da
cooperação entre a filosofia e a ciência
- tenho uma visão pluralista de diversos discursos teóricos que devem,
na melhor das hipóteses, ser compatíveis entre si, sem porém que nenhum deles
possa reivindicar uma propriedade sobre os demais, quer pelo ponto de vista
fundacionalista, quer pelo ponto de vista reducionista (filosofia ou teoria
social X física, biologia ou neurofisiologia). (p. 23)
Uma teoria deontológica que explica
como devem ser justificadas e aplicadas as normas, gerais não pode admitir a
propriedade normativa de nenhum propósito particular sobre tais normas, uma vez
que a busca desse telos - por mais
elevado que seja – exige uma contemporização entre um raciocínio normativo e um
raciocínio de prudência. Penso que esse problema clássico da ética da revolução
não pode ser resolvido no âmbito da teoria moral. Pode, porém, ser difundido na
estrutura mesma de um Estado constitucional em que o reformismo democrático é
institucionalizado como parte normal da política. Os cidadãos podem então encarar
a constituição como o projeto coletivo
da realização cada vez mais ampla de um sistema já estabelecido de direitos
básicos. Os cidadãos que se dedicam á realização desse projeto conjunto podem,
com coerência, promover a melhoria das condições de acesso á política deliberativa
e participação nesta, ao mesmo tempo que podem racionalmente esperar que as
normas sejam devidamente respeitadas. (p.26 e 27)
Jurgen Habermas
É claro que cada teoria é determinada
por certos dados empíricos, mas as estruturas conceituais das teorias abrangentes exercem a sua
faculdade explicativa num nível tão alto de abstração que o controle exercido
por tais dados empíricos perde boa parte de sua eficácia. É por isso que as
pessoas que se dedicam a projetos desse tipo, pessoas como Parsons ou como eu,
interessam em acrescentar mais um elemento de controle da escolha de conceitos
básicos ou estruturas conceituais. A escolha do esquema interpretativo pode se
justificar não somente pelos dados empíricos
(se a teoria “funciona” ou não ), mas também pela verificação dos
próprios instrumentos teóricos. Para sabermos se a teoria da ação comunicativa
de que faço uso é capaz de se sustentar, temos de avaliá-la segundo dados de um
outro tipo. Assim, minha proposta de interpretação dos processos de
modernização depende de certo modo de uma teoria pragmática da linguagem que eu
tenho de defender num universo discursivo muito diferente do universo da teoria
social. Depende também de uma certa
teoria moral, a qual, por sua vez, é usada para a análise dos desenvolvimentos
jurídicos, etc. Tenho uma imagem pluralista de diversas teorias que, além de ser compatíveis com os fatos, têm de sê-lo
também umas com as outras. (p.30 e 31)
Jurgen Habermas
A recente
discussão sobre multiculturalismo fez com que o modelo clássico de uma
cidadania “incolor” sofresse uma revisão, e Will Kymlicka desenvolveu uma noção
de cidadania multicultural com a qual concordo plenamente. A cidadania é uma
posição definida pelos direitos civis. Mas temos de considerar também que os
cidadãos são pessoas que desenvolveram sua identidade pessoal no contexto de certas
tradições, em ambientes culturais específicos, e que precisam desses contextos
para conservarsua identidade. Em determinadas situações, devemos portanto,
ampliar o âmbito dos direitos civis para que inclua também os direitos
culturais. Esses são direitos que garantem igualmente a todos e a cada um dos
cidadãos o acesso a uma tradição e á participação nas comunidades culturais de
sua escolha, para que possam estabelecer sua identidade. Essa ampliação diz
respeito ao acesso a um ambiente cultural. Esse modelo, como é óbvio, leva em
si o perigo intrínseco da fragmentação. É esse, como vocês sabem, o argumento
dos républicains franceses. Uma
comunidade não pode se fragmentar na multiplicidade de suas subculturas, e
penso que isso só pode ser permitido sob a condição de que todos os cidadãos
possam se reconhecer numa única cultura política que transcenda as fronteiras
de suas diversas subculturas. Para tanto, é preciso que a cultura política seja
menos um pouco separada das diversas subculturas. Esta questão é, por assim
dizer, mais pertinente naqueles processos em que culturas minoritárias estão
entrando em conflito com culturas majoritárias. Do ponto de vista histórico, é
evidente que a cultura da maioria sempre determinou (refiro-me á França)
acultura política em geral. A partir do momento em que as subculturas
reprimidas tomam consciência de suas tradições especificas e uma cultura supostamente
homogênea dá lugar a uma sociedade cada vez mais “multicultural” (no sentido
atual do termo), as pressões de adaptação tendem pelo menos a uma certa
separação entre a cultura política e a cultura majoritária. Quanto a mim, não
sou mais liberal do que sou republicano – é algo que afirmo em Droit et
démocratie. (p. 34, 35 e 36)
Jürgen
Habermas
Grosso modo, penso que as sociedades
complexas contemporâneas se integram até certo ponto através de três veículos
ou mecanismos. O “dinheiro” enquanto veículo
está, por assim dizer, institucionalizado no mercado; o “poder” enquanto
veículo está institucionalizado nas organizações; e a “solidariedade” é gerada
pelas normas, pelos valores e pela comunicação. (p. 38)
Penso que o mecanismo do mercado se
institucionaliza em função dos elementos básicos do direito privado (contrato e
propriedade). Essa institucionalização jurídica é concebida – permita- me
descrevê-la deste modo – para que os participantes do mercado possam agir
estrategicamente. Eles são livres para fazerem o que quiserem. Calculam, pensam
no quanto vão ganhar e no quanto vão perder. É claro que sei que a economia
política nasceu da filosofia moral. (p.38 e 39)
Jürgen Habermas
Em primeiro lugar, penso que a
paradigma linguístico é uma alternativa ao paradigma mentalista, ao passo que
outros o tomam como uma simples espécie de inovação metodológica. Estes
simplesmente empregam as ferramentas da semântica formal e da analise lógica
para resolver os antigos problemas de Hume e Kant (estou citando Rorty). Se,
pelo bem da argumentação, o senhor me conceder essa distinção entre um sentido
forte e um sentido fraco do viés lingüístico, afirmo então que nem Quine nem
Carnap assumem um novo paradigma, mas que o único que faz isso, pelo menos a
princípio, é Wittgenstein faz essa mudança quando escreve que a gramática da linguagem é a essência do mundo. Como afirma Dummett em
seu livro sobre a história da filosofia analítica, foi só com esse movimento
que os pensamentos foram colocados “fora da mente”. Se os significados “não estão na cabeça”, como quer Putnam, só a
linguagem pode ser o veículo intersubjetivo pelo qual esses significados tomam
corpo. É uma mudança de perspectiva com a qual Carnap jamais teria concordado.
(p.44 e 45)
(1) O viés pragmático
A mudança de paradigma, da filosofia
mentalista para a lingüística, realizou-se de duas maneiras bastante diferentes
mas complementares. Elas abordam a
linguagem segundo aspectos apostos. Ao passo que Frege e a tradição analítica
em geral se interessam antes de tudo pela função representativa da linguagem e
pela estrutura propositiva de sentenças afirmativas simples, enfocando assim a
relação entre a sentença e o fato, Heidegger e os filósofos hermeneutas analisam
a função por meio da qual a linguagem comum revela o mundo e procuram encontrar
as visões de mundo inscritas nas características gramaticais da linguagem. Os
dois partidos usam meios diferentes: os instrumentos da análise lógica, de um
lado, e o método da lingüística do conteúdo, de outro. Apesar disso, ambos –
tanto a abordagem elementarista da semântica da forma quanto a abordagem
holística da semântica do conteúdo – cometem a mesma falácia abstrativa:
desconsideram os aspectos pragmáticos do diálogo, que, para Humboldt,
constituíam o próprio lugar da racionalidadecomunicativa. (p. 51 e 52)
A narrativa que faço da situação da
filosofia alemã no pós-guerra tenciona explicar algumas das motivações
intelectuais que levaram Karl-Otto Apel e eu a adotar esse mesmo tipo de
abordagem, uma pragmática transcendental ou formal. (p. 53 e 54)
(3) Realismo sem representação
O pragmatismo Kantiano explica ambas
as coisas: a experiência de senso comum de ter de lidar com a resistência de
uma realidade decepcionante e o fato de que não temos nenhum acesso imediato a
uma realidade não interpretada ou “. Há duas idéias que têm de ser integradas na mesma estrutura
conceitual. Por um lado, o viés pragmático não nos permite duvidar da
existência de um mondo percebido independentemente de nossas descrições e visto
como o mesmo para todos nós. Por outro lado,não nos é possível sair do círculo
da “nossa” linguagem, de modo que nosso conhecimento falível não pode ter
justificações fundamentais. Permitam-me distinguir os três passos do argumento:
- O pragmatismo
kantiano, como a filosofia transcendental, ainda está em busca de condições
supostamente universais – condições necessárias para as práticas e realizações
básicas de um sujeito que fala e age, bem como para as estruturas profundas dos
mundos vitais partilhados intersubjetivamente nos quais esses sujeitos se
socializam. (p. 55 e 56)
- A inserção da busca dos traços universais de
nossas competências mais básicas num pano de fundo naturalista não combina com
uma imagem representacionista do
conhecimento humano como o “espelho da natureza”. O conhecimento resulta de
três processos simultâneos, que se corrigem entre si: a atitude de resolver
problemas diante dos riscos impostos por um ambiente complexo, a justificação
das alegações de validade diante de um argumento opostos e um aprendizado cumulativo
que depende do reexame dos próprios erros. Se o crescimento do conhecimento é
uma função desses processos que interagem entre si, é errôneo postular uma separação entre o momento “passivo” do “descobrir” e os momentos
“ativos” de construir, interpretar e justificar. Não há necessidade nem possibilidade de “limpar” o
conhecimento humano dos elementos subjetivos e das mediações intersubjetivas,
ou seja, dos interesses práticos e dos matizes da linguagem. – Isso não deve conduzir á negação da verdade
e da objetividade. Enquanto lidamos com problemas dos quais não podemos
escapar, temos de pressupor, não só na fala como também na ação, um mundo
objetivo que não foi construído por nós e que é em grande parte o mesmo para
todos nós. Decerto concordo com Putnan quando diz que não existe uma linguagem
do mundo – um livro da natureza que se imporia aos nossos espíritos. Só existem
as linguagens que inventamos a partir de diversos pontos de vista. E,
dependendo das linguagens teóricas que escolhemos, pode haver descrições
diferentes – capazes de se referir, porém, ás mesmas coisas. Assim, o mundo não
deve ser concebido como a totalidade dos fatos dependentes da linguagem, mas
como a totalidade dos objetos. A esse conceito semântico do mundo como um
sistema de referências possíveis corresponde o conceito epistemológico do mundo
como a totalidade dos constrangimentos que se impõem implicitamente sobre as
diversas maneiras pelas quais podemos vir a saber o que está acontecendo no
próprio mundo. (p.57 e 58)
(4)
Verdade e justificação
O conceito de conhecimento como
representação é indissociável do conceito de verdade como correspondência. Não
podemos abrir mão do primeiro sem perder também o segundo. Se a linguagem e a realidade se interpenetram de uma maneira
que para nós é indissolúvel, a verdade de uma sentença só pode ser justificada
com a ajuda de outras sentenças já tidas como verdadeiras. Esse fato aponta
para uma concepção antifundacionalista
do conhecimento e da justificação e, ao mesmo tempo, para a noção de
verdade como coerência. Entretanto, se concebêssemos a verdade como uma
possibilidade justificada de afirmação (justified assertbility),
descconsideraríamos um aspecto
importante daquilo que nós efetivamente fazemos quando alegamos a verdade de
algo: a verdade que alegamos para uma proposição aqui e agora, no nosso
contexto e na nossa linguagem, deve transcender qualquer contexto dado de justificação. Segundo uma
forte intuição que nós temos, a verdade é uma propriedade que as proposições
não podem perder - uma vez que uma
proposição é verdadeira, ela é verdadeira para sempre e para qualquer público,
não só para nós. Por outro lado, as asserções bem justificadas podem se revelar
falsas, nós associamos á verdade de uma proposição uma alegação que aponta para
além de todos os dados justificativos disponíveis.
Assim, o pragmatismo Kantiano tem de
explicar o vínculo interno entre a justificabilidade e a verdade – explicar por que, á luz das
razões disponíveis, nós podemos mesmo assim fazer uma alegação de validade
incondicional que vai além de nossas melhores justificativas. Até há pouco
tempo, eu procurava explicar a verdade em função de uma justificabilidade
ideal. De lá para cá, percebi que essa assimilação não pode dar certo.
Reformulei o antigo conceito discursivo de verdade, que não é errado, mas pelo
menos incompleto. A redenção discursiva de uma alegação de verdade conduz á
aceitabilidade racional, não á verdade. Embora nossa mente falível não possa ir
além disso, não devemos confundir as duas coisas. Resta-nos assim a tarefa de
explicar por que os participantes de uma discussão sentem-se autorizados – e
supostamente o são de fato - a aceitar
como verdadeira uma proposição controversa, bastando para isso que tenham, em
condições quase ideais, esgotando todas as razões disponíveis a favor e contra
essa proposição e assim estabelecido a aceitabilidade racional dela.
No quadro de uma crítica ao
contextualismo de Richard Rorty, ofereci
uma imagem “em duas camadas” da inserção do discurso racional, ou seja, da
pratica da argumentação, no contexto do mundo vital das práticas cotidianas. As
crenças desempenham diferentes papéis e têm sua verdade provada de diferentes
maneiras na ação e no discurso. Em seu mundo vital, os agentes dependem das
certezas e reagem ás surpresas e decepções. Têm de lidar co um mundo que
presume objetivo, e, em virtude desse pressuposto, operam segundo uma distinção
de senso comum entre o conhecimento e a opinião – entre o que é verdade e o que
só parece sê-lo. No decurso de nossa rotina cotidiana, temos a necessidade
prática de confiar intuitivamente naquilo que consideramos incondicionalmente
verdadeiro. (p. 59, 60, 61 e 62)
Para dirigir o carro ou atravessar
uma ponte, não partimos de uma atitude hipotética, refletindo a cada passo
sobre a confiabilidade do know-how tecnológico ou estatístico dos projetistas.
Na mesma medida em que esses hábitos e certezas
são postos em xeque e tornam-se questionáveis, temos a opção de passar
do envolvimento direto nas rotinas de fala e ação para o nível reflexivo do raciocínio, onde buscamos saber se algo é
verdadeiro ou não.
Aqui, no nível do discurso racional,
o modo performativo caracterizado por uma suposição incondicional de verdade é
posto em suspenso e transformado na peculiar ambivalência dos participantes de
um discurso. Eles assumem uma atitude hipotética e falibilista em relação a
alegações que, na medida em que são
problemáticas, precisam ser justificadas,
mas que, por outro lado, na medida em que pretendem, uma validade incondicional, apontam para além
do contexto dado de justificação. Essa referência transcendente a algo situado
no mundo objetivo lembra os participantes que o conhecimento em pauta surgiu em
primeiro lugar do conhecimento das pessoas enquanto agentes; assim, ele não se
esquecem do papel transitório desempenhado
pela argumentação no contexto mais amplo do mundo vital. A relação intrínseca
entre verdade e justificação é revelada pela função pragmática de conhecimento
que oscila entre as práticas cotidianas e os discursos. Os discursos são como
máquinas de lavar: filtram aquilo que é racionalmente aceitável para todos.
Separam as crenças questionáveis e desqualificadas daquelas que, por um certo
tempo, recebem licença para voltar ao status de conhecimento não-problematico.
(p. 62 e 63)
(5)
Construtivismo moral
A ética do discurso explica o
conteúdo cognitivo de sentenças referentes ao dever sem fazer apelo a uma ordem
evidente de fato morais que se ofereceria á nossa contemplação. Os enunciados
morais, que nos dizem o que fazer,não devem ser equiparados a afirmações
descritivas que nos dizem como as coisas se articulam entre si. A razão prática
é uma faculdade de cognição moral sem representação. A partir de um conceito
discursivo da verdade, é fácil interpretar a justiça das normas e juízos morais
como um análogo da verdade, sem por isso incorrer em implicações realistas. Á
luz de uma nação epistêmica da verdade, “encaixar-se nos fatos” não é o mesmo
que corresponder aos fatos. Entretanto, depois de formular o conceito discursivo
da verdade, tenho de enfrentar mais uma vez a questão da vardade moral. (p. 63
e 64)
A objetividade do protesto de um outro espírito é feita de um material diferente do que compõe a objetividade de uma realidade surpreendente. Não é contingência cega das circunstâncias decepcionantes que assinala o fracasso dos juízos e normas, mas antes a dor ofendidos, cuja voz se faz ouvir na contradição e na indignação dos adversários que esposam orientações de valor diferentes. Esses fracasso exige uma série de processos de aprendizado pelos quais as partes conflitantes chegam a descentralizar suas perspectivas egocêntricas e etnocêntricas de tal modo que possam incluir-se reciprocamente uma outra na construção conjunta de um mundo mais amplo de relações interpessoais legitimas. Cabe á ética do discurso provar que a necessária dinâmica de “cada qual ver pressupostos pragmáticos do próprio discurso prático. (p.66 e 67)
Nenhum comentário:
Postar um comentário