Paolo Cugini
O pensamento de Gilles
Lipovetsky revolucionou a sociologia contemporânea ao propor uma antropologia
do hipermodernismo, estruturada em torno do conceito de individualismo de
segunda geração. A sua proposta antropológica investiga como a perda das grandes
narrativas tradicionais deu lugar a uma sociedade centrada no consumo, no
hedonismo e na personalização em massa.
1. O Processo de personalização
e a era do vazio
A base da antropologia de
Lipovetsky estabelece-se na transição da modernidade para a pós-modernidade
(posteriormente redefinida por ele como hipermodernidade). O motor dessa
transformação é o processo de personalização, um novo modo de gestão social que
substitui a coerção disciplinar pela livre escolha individual e pelo estímulo
aos desejos.
Em sua obra de estreia, o
autor mapeia a fratura das instituições tradicionais (como a igreja, o Estado e
a família rígida) e o surgimento de um indivíduo narcisista, focado na
autorrealização psicológica. "O processo de personalização designa a linha
de força, a mutação sociológica global em curso, que atinge o conjunto dos
sectores da vida social [...] operando uma rutura fundamental com a fase
disciplinar-autoritária da modernidade." (LIPOVETSKY, Gilles. 1989.p. 13)
2. A Efemeridade como estrutura
social
Se a antropologia clássica
buscava as estruturas permanentes e os mitos estáveis das sociedades,
Lipovetsky inverte esse olhar ao colocar o efêmero e a sedução como os
verdadeiros pilares organizacionais do Ocidente contemporâneo. A forma-moda
deixa de ser um fenômeno fútil ou superficial para se tornar a lógica suprema
que rege a política, a cultura, a informação e o consumo.
O ser humano hipermoderno é
moldado pela necessidade de renovação constante e pela obsolescência
programada, não apenas dos objetos, mas também de suas próprias identidades e
laços afetivos. "A moda não é um reflexo, é um ator da dramaturgia
histórica; longe de ser uma excrescência periférica do mundo moderno, ela é um
elemento central, o motor de uma mutação global das sociedades ocidentais.” (LIPOVETSKY,
1989b. p. 11)
3. A metamorfose do consumo
e o homo consumericus
A consolidação mais madura da
sua proposta antropológica ocorre com a transição conceitual do pós-moderno
para o hipermoderno. Lipovetsky argumenta que não rompemos com a modernidade,
mas sim que a levamos ao seu paroxismo (ao excesso).
Nesse cenário, emerge o Homo
Consumericus: um agente antropológico que já não consome para exibir status
social aos outros (como ocorria no consumo de distinção do século XX), mas sim
para obter sensações íntimas, bem-estar, saúde e experiências emocionais. O
consumo passa a ser existencial e terapêutico. "O mercado conseguiu
democratizar a ambição do bem-estar individual, transformou o luxo em conforto
e a mercadoria em vetor de felicidade existencial. O Homo consumericus é um ser
que consome para si mesmo, para a sua própria estimulação emocional." (LIPOVETSKY,
2007.p. 34)
4. O Paradoxo da autonomia
e da ansiedade
A antropologia lipovetskyana é
essencialmente ambivalente. Ela recusa o pessimismo apocalíptico de críticos
que enxergam o fim da cultura, mas também afasta-se de um otimismo ingênuo.
O paradoxo central do homem
hipermoderno reside no fato de que, quanto mais livre e autônomo ele se torna
das amarras sociais e das tradições, mais ele se vê desamparado, ansioso e
dependente de suportes psicológicos, farmacológicos e mercadológicos para
gerenciar sua própria vida. A soberania individual gera, simultaneamente, uma
vulnerabilidade de massa. "A hipermodernidade caracteriza-se por um
individualismo desinstitucionalizado, onde o indivíduo é intimado a ser o autor
da sua própria vida, gerando uma angústia permanente face ao futuro e uma
obsessão pela performance e pela urgência temporal." (LIPOVETSKY, 2004.
p. 51)
Bibliografia
LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Vazio: ensaios sobre o
individualismo contemporâneo. Tradução de Miguel Serras Pereira e Ana Luísa
Faria. Lisboa: Relógio D'Água, 1989.
LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: a moda e o
seu destino nas sociedades modernas. Tradução de Maria Lucia Machado. São
Paulo: Companhia das Letras, 1989b.
LIPOVETSKY, Gilles; CHARLES, Sébastien. Os Tempos
Hipermodernos. Tradução de Mario Vilela. São Paulo: Barcarolla, 2004.
LIPOVETSKY, Gilles. A Felicidade Paradoxal: ensaio
sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo:
Companhia das Letras, 2007.
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