A
Bíblia, uma única narração
Robert
Louis Wilken
Tradução:
Paolo Cugini
Hilário
de Poitiers argumentou que a ordem espiritual das Escrituras é
preservada nos eventos. A Bíblia é vasta e confusa se considerada simplesmente
como um livro, como qualquer um pode constatar ao tentar lê-la desde o primeiro
capítulo de Gênesis. No entanto, o núcleo de sua narrativa é bastante fácil de
resumir. É a história, para usar o jargão da teologia medieval, de um
afastamento de Deus e um retorno a Deus. Irineu a resume assim:
E
esta é a disposição e a ordem da nossa fé. Deus, o Pai, incriado, ilimitado,
invisível, um só Deus, criador de todas as coisas: este é o primeiro artigo da
nossa fé. E o segundo artigo é este: a Palavra de Deus, o Filho de Deus, nosso
Senhor Jesus Cristo, que apareceu aos profetas. Foi ele quem, no fim dos
tempos, para cumprir e compreender todas as coisas, se fez homem entre os
homens, visível e tangível, para destruir a morte e manifestar a vida, e para
realizar a comunhão e a união de Deus e do homem. O terceiro artigo é este: O
Espírito Santo, por quem os profetas profetizaram, e os pais foram instruídos
no conhecimento de Deus, e os justos foram guiados no caminho da justiça; que,
no fim dos tempos, se espalhou de uma nova maneira sobre a humanidade, por toda
a terra, renovando o homem para Deus.
A
síntese de Irineu lembra o que mais tarde se tornaria o Credo dos Apóstolos. Em
sua época, não havia um verdadeiro credo: no batismo, os catecúmenos respondiam
a uma série de perguntas que tomavam a forma de uma simples declaração de fé
cristã, ou regra de fé: Você crê em Deus Pai Todo-Poderoso? Você crê em Jesus
Cristo, seu único filho, nosso Senhor? Você crê no Espírito Santo? Essa regra
de fé tinha uma estrutura trinitária que identificava Deus através do que
estava registrado nas Escrituras: a criação do mundo, a inspiração dos
profetas, a encarnação de Cristo, a vinda do Espírito Santo. A regra de fé, que
era derivada da Bíblia, por sua vez, refletia-se na Bíblia como a chave para
sua interpretação. Na prática, porém, acabou se separando das Escrituras para
se tornar uma profissão de fé transmitida pela tradição e recitada no batismo
durante a liturgia da Páscoa. Uma estrutura de entendimento uniu a
prática da Igreja e o que era lido nas Escrituras.
Embora
o evento central que mantém a narrativa bíblica unida seja a vinda de
Cristo, sua morte e sua ressurreição, Irineu sempre situa a vinda
de Cristo no contexto da criação. Entre suas expressões favoritas está
o par "renovar" e "restaurar". Inspirando-se na carta de
São Paulo aos Efésios, ele argumenta que Cristo recapitula ou centraliza em si
a humanidade de todos: quando se encarnou e se tornou homem, recapitula em si a
longa história da humanidade, proporcionando-nos assim a salvação, para que
pudéssemos recuperar em Cristo Jesus o que havíamos perdido em Adão — isto é,
ser à imagem e semelhança de Deus.
Embora
Irineu sustente que o que foi perdido em Adão foi recuperado em Cristo,
sugerindo que a redenção é um retorno a um estado original, ele tem o cuidado
de salientar que a perfeição trazida por Cristo nunca foi concedida a
Adão. Adão era apenas uma criança que, para alcançar a perfeição plena,
precisava crescer e se tornar um homem maduro. Da perspectiva de Irineu, a
Queda é uma etapa necessária para a conquista da maturidade, e toda a história
da humanidade é uma longa jornada da infância à idade adulta. Cristo não apenas
restaurou o que foi perdido com a Queda: ele também completou o que era parcial
e incompleto.
Assim,
a Bíblia está orientada para um futuro que está se cumprindo. Cristo, segundo
Irineu, não apenas recapitula todas as gerações anteriores, mas também traz
consigo a ordem futura da raça humana. Para reiterar um ponto já mencionado, a
Bíblia cristã começa no princípio e termina com um fim que não é a aniquilação.
Seus capítulos finais, contidos no Apocalipse, descrevem a cidade de Deus, e
Irineu conclui sua obra contra os gnósticos com a visão da restauração final de
todas as coisas. Ele retorna a toda a história bíblica, cita São Paulo,
afirmando que chegará o tempo em que a criação será libertada do cativeiro da
corrupção, e menciona:
o
único e mesmo Deus Pai, que formou o homem e prometeu a herança da terra aos
pais, que a dará à ressurreição dos justos e cumprirá as promessas no Reino de
seu Filho e então oferece, paternalmente, aquelas coisas boas que os olhos não
viram e agora os olhos não ouviram nem entraram no coração do homem, de modo
que naquele dia Deus será tudo em todos.
Para
Irineu, as Escrituras são o fundamento e o pilar da nossa fé. Se a Bíblia for
manipulada em nome de uma agenda teológica alheia e seus textos forem
rearranjados arbitrariamente, como fizeram os gnósticos, as Sagradas Escrituras
permanecem um livro fechado, e a verdade não pode ser encontrada nelas. Sem a
compreensão do fio condutor que conecta suas partes, a Bíblia fica vazia, como
um mosaico cujas peças foram remontadas aleatoriamente, desconsiderando o
projeto original, ou como um poema construído pela remixagem de versos da
Ilíada e da Odisseia, e que ainda assim se afirma ser um poema homérico. Em Clemente
de Alexandria, o esquema bíblico é implícito, sugerido aqui por uma
palavra, ali por uma frase; em Irineu, ele é explicitado. A abordagem de
Irineu para interpretar a Bíblia foi tão bem-sucedida que influenciou todas as
interpretações subsequentes. Quer se leia Atanásio contra Ário, Agostinho
contra Pelágio ou Cirilo de Alexandria contra Nestório, todos partem do
pressuposto de que as passagens individuais devem ser lidas à luz da
narrativa que dá sentido ao todo.
Em
sermões e obras teológicas, em orações e comentários sobre os livros da Bíblia,
o cerne da exposição — a ordenação da nossa fé, para usar a expressão de Irineu
— permeia o pensamento cristão sobre Deus, Cristo, o mundo, a humanidade, a
Igreja e a vida moral e espiritual. Séculos mais tarde, esse cerne foi expresso
com clareza e concisão exemplares por Hugo de São Vítor, um monge que
viveu na Paris medieval:
O
tema de toda a Sagrada Escritura são as obras de restauração da humanidade.
Pois há duas obras nas quais tudo o que foi feito está contido: a primeira é a
obra da Fundação; a segunda é a da restauração. A obra da Fundação é o que traz
à existência coisas que não existiam. A obra da restauração é o que restaura à
boa ordem as coisas que foram arruinadas. Portanto, a criação do mundo em todos
os seus elementos foi obra da Fundação. A encarnação do Verbo com todos os seus
sacramentos, aqueles que existiram desde o princípio dos tempos e aqueles que
vieram depois até o fim do mundo, é uma obra de restauração.
A
Alegoria Inevitável
O
Império Romano incorporava uma cultura de retórica, uma sociedade apaixonada
pela palavra, especialmente pela palavra falada. Até mesmo as trocas de cartas
entre conhecidos eram oportunidades para demonstrar virtuosismo expressivo. O
destinatário não deixaria de ler a carta para os amigos para que pudessem
saborear sua musicalidade, vocabulário e imagens. A maioria dos Padres da
Igreja estava familiarizada com a retórica e a oratória, além de
compartilhar a paixão romana pela palavra. Nos primeiros escritos e sermões
cristãos, as palavras da Bíblia sustentam ideias. Começam com uma passagem
específica, então uma palavra dessa passagem se conecta a outras passagens, às
vezes previsíveis, às vezes inesperadas; as palavras dessas passagens, por sua
vez, moldam o pensamento do autor.
Essa
técnica deve muito a São Paulo. Por exemplo, em Romanos 10, ele
cita Isaías 53:1: "Senhor, quem ouviu nossa mensagem?". A
palavra "ouviu" sugere que algo foi dito, e São Paulo afirma que o
que foi ouvido provém das palavras de Cristo. Isso, por sua vez, o faz lembrar
da palavra "palavras" do Salmo 19: "A sua voz ressoou por
toda a terra, e as suas palavras até os confins do mundo". Assim,
embora o Salmo celebre os céus declarando a glória de Deus e simplesmente
afirme que não há linguagem nem palavras, São Paulo o interpreta
como uma referência aos Apóstolos, que saem pelo mundo para pregar a palavra do
Evangelho. Sua interpretação se desvia do significado puro e simples do Salmo;
contudo, encontrou seu lugar na oração cristã.
Ainda
hoje, a leitura do Salmo 19 é uma das orações da Igreja nos dias que comemoram
um apóstolo. Nos tempos modernos, chegou-se a um certo consenso entre os
estudiosos da Bíblia sobre a tese de que as palavras têm apenas um significado
e que a tarefa da exegese bíblica é determinar o significado original dos
termos bíblicos. Com o tempo, a alegoria tornou-se quase universalmente aceita
como uma forma de interpretar o Antigo Testamento a partir de uma perspectiva
cristã.
Orígenes
foi o primeiro pensador cristão a abordar diretamente
como os cristãos deveriam interpretar o Antigo Testamento. Em uma homilia sobre
o livro do Êxodo, ele observa que São Paulo mostrou aos cristãos como a igreja
reunida entre os gentios deveria interpretar os livros da lei. O texto que ele
escolhe como exemplo é o capítulo 10 da Primeira Carta aos Coríntios, onde
Paulo afirma:
"Irmãos,
não quero que vocês ignorem que todos os nossos pais estiveram debaixo da
nuvem, todos atravessaram o mar, todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no
mar, todos comeram do mesmo alimento espiritual e todos beberam da mesma bebida
espiritual; pois bebiam da rocha espiritual que os acompanhava, e essa rocha
era Cristo."
A
interpretação paulina do Êxodo e da peregrinação dos judeus no deserto difere,
segundo Orígenes, do significado literal do texto. O que os
judeus interpretaram como a travessia do mar, escreve ele, Paulo chama de
batismo; o que eles tomaram por nuvem, Paulo diz ser o Espírito Santo. No
entanto, Paulo cita apenas algumas passagens, e o Antigo Testamento é muito
extenso. Portanto, Orígenes propõe que os poucos exemplos que Paulo oferece
sejam usados como modelos para que os cristãos compreendam o
restante do Antigo Testamento. Eles devem simplesmente lembrar o que aprenderam
com Paulo e aplicar isso a outras passagens. Agostinho, que também cita a
primeira carta aos Coríntios, capítulo 10, apresenta o mesmo argumento: ao
explicar uma passagem, Paulo nos mostra como interpretar as outras.
A
questão da alegoria, ou seja, a interpretação espiritual da Bíblia, é vasta
demais para ser abordada em poucas páginas. Mas a abordagem adotada pela igreja
primitiva nos ajuda a entender por que a versão de 70 se tornou tão importante
para o pensamento cristão. Com a ajuda da alegoria, os cristãos
aprenderam a ler a Bíblia como um único livro sobre Cristo. Falando
sobre a exegese patrística do Antigo Testamento, Henri de Lubac
escreveu:
Jesus
Cristo é a fonte da unidade das Escrituras, porque Ele é a culminação e a
plenitude das Escrituras. Tudo nas Escrituras está conectado a Ele, seu
objetivo final; Ele é o seu único objeto. Portanto, Ele é também, por assim
dizer, a sua única exegese.
Em
suma, Cristo é o sujeito da interpretação bíblica. Desta perspectiva, as
palavras da Escritura são os sinais dados à Igreja para a compreensão do
mistério de Deus encarnado na pessoa de Jesus Cristo. Somente se conhecermos o
sujeito da Escritura é que as suas palavras se tornarão compreensíveis. Santo
Agostinho escreve:
Se,
de fato, a alma conhecesse apenas a existência de uma palavra e não soubesse
que ela significa algo, não procuraria mais nada depois de ter percebido,
através da sensação, na medida do possível, o som sensível.
Bastarão
alguns exemplos. O verbo latino adharere, permanecer perto, não se
separar, aparece repetidamente nos escritos de Agostinho. Vem do Salmo 73:28. O
meu bem é estar perto de Deus. Não expressa esta única palavra, estar
perto, adharere, tudo o que o apóstolo diz sobre o amor? pergunta
Agostinho. Nenhuma outra palavra bíblica parece representar tão bem todo o
mistério da fé. No entanto, a interpretação de Agostinho sobre adharere
não pode ser extraída diretamente do texto do Salmo 73. Agostinho explica o
versículo à luz da promessa no livro de Levítico: "Andarei entre vós,
serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo" (Levítico 26:12). São
Paulo, no Novo Testamento, já havia relacionado as palavras de Levítico à
aliança com Deus (2 Coríntios 6:14, 7, 1). Seguindo Paulo, Agostinho escreve:
Esta
passagem de Levítico, "Serei o vosso Deus", é a recompensa da qual o
salmista fala em sua oração: "O meu bem é estar perto de Deus". Não
pode haver bem maior, nem felicidade maior do que esta: viver para Deus, viver
a partir de Deus, que é a fonte da vida e em cuja luz veremos a luz. Sobre essa
luz, o próprio Deus diz: "Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, o
único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (João 17:3).
Esta é a sua promessa aos que o amam: "Quem tem os meus mandamentos e os
guarda, esse é o que me ama. Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei
e me manifestarei a ele" (João 14:21).
Para
Agostinho, o Salmo 73:28 evoca a Palavra de Deus aos judeus em Levítico e
antecipa as palavras de Jesus no Evangelho de João. O versículo convida a uma
explicação trinitária; na verdade, exige-a, porque somente pela descida do
Espírito Santo os homens podem amar a Deus e estar perto dele. Para fundamentar
sua interpretação, Agostinho cita Romanos 5:5: O amor de Deus
foi derramado em nossos corações por meio do Espírito Santo que nos foi dado.
Aqui, o amor é entendido por Agostinho como nosso amor por Deus, porque é
somente por meio do amor dado pelo Espírito Santo que podemos entrar em uma
aliança com Deus. Além dos mandamentos que explicam como viver, cada pessoa
também recebe o Espírito Santo, por meio de quem a alegria e o amor por Deus, o
bem supremo e imutável, crescem em sua alma. O impulso de se aproximar de seu
Criador pode ser aceso em seu coração, enquanto sua mente é impelida a se
aproximar do esplendor da verdadeira luz e, assim, receber o único e verdadeiro
bem-estar da fonte de sua existência.
Para
Agostinho e outros intérpretes cristãos antigos, o significado do Salmo 73 só
pode ser encontrado analisando a noção de aproximar-se em sua forma bíblica
hebraica ou grega, ou reconstruindo o contexto histórico em que o Salmo foi
escrito. Se o Salmo 73 foi escrito para nossa instrução, ele também deve ser
interpretado à luz do que sabemos de Deus por meio de sua revelação em Cristo e
do envio do Espírito Santo. Por meio da exegese, os intérpretes cristãos
descobrem nas palavras e imagens das Escrituras os sinais dados por Deus, as
coisas celebradas na liturgia da Igreja, ouvidas na pregação, aprendidas na
catequese e proclamadas na profissão de fé.
A
interpretação diz respeito ao contexto. Como modernos, estamos tão acostumados
a imaginar o contexto como literário ou histórico que nos esquecemos de que as
palavras das Escrituras nos alcançam de muitas maneiras. Considere como um
versículo nos afeta de forma diferente dependendo se ele é cantado ou recitado
na liturgia. Por exemplo, na oração da liturgia de São Marcos, imediatamente
antes da primeira leitura, o Salmo 43:3 é recitado: envia a tua verdade e a tua
luz. No Salmo, a frase faz parte de uma oração pela salvação, mas na liturgia,
serve como introdução à leitura da Bíblia.
Paul
Ricoeur observa que a liturgia gera um novo "nós",
criando um contexto de significado diferente do histórico ou literário. Quando
o texto é ritualizado em seu novo contexto, ocorre uma troca entre as palavras
do texto e a ação litúrgica. Como afirma Ricoeur, ocorre, portanto, uma troca
entre o rito e o poema. O primeiro abre o espaço do mistério sacramental para o
segundo, o segundo fornece ao primeiro a relevância de uma palavra apropriada.
As verdades teológicas e as realidades espirituais conhecidas e vivenciadas
dentro da Igreja investem as palavras da Bíblia com significados diferentes —
isto é, alegóricos — do sentido original, mas, com o tempo, tornam-se aquilo
que o texto significa. Seja qual for o significado original do Salmo 19, ele é
agora inquestionavelmente um Salmo sobre os apóstolos, assim como o Salmo 22 é
um Salmo sobre a Paixão de Cristo.
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