Paolo Cugini (org.)
A eclesiologia no Evangelho de Mateus: a identidade e
os desafios da Ekklesía
O Evangelho de Mateus ocupa uma posição única no Novo Testamento por ser
o único evangelho sinótico a utilizar explicitamente a palavra
"Igreja" (ekklesía). Enquanto os outros evangelistas
concentram-se quase exclusivamente no anúncio do Reino de Deus, Mateus opera
uma transição teológica fundamental: ele articula como esse Reino se manifesta
historicamente na comunidade dos discípulos. Escrito em um contexto pós-70
d.C., após a destruição do Templo de Jerusalém, o texto reflete as tensões de
uma comunidade majoritariamente judaico-cristã que rompia com a sinagoga e
precisava consolidar sua própria identidade identitária e institucional.
1. A fundação e a identidade da Igreja (Mt 16,18)
A eclesiologia mateana encontra seu ápice declaratório no conhecido
episódio de Cesareia de Filipe. Após a confissão de Pedro, Jesus afirma:
"Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a
minha igreja" (Mt 16,18).
- Origem divina e propriedade de Cristo: A expressão "minha igreja" deixa claro que a comunidade
não pertence a líderes humanos, mas ao próprio Cristo. Ele é o construtor
e o fundamento último.
- O Papel de Pedro e o poder das chaves: Pedro recebe a autoridade de "ligar e desligar". No
contexto rabínico da época, isso significava o poder de declarar o que é
permitido ou proibido na interpretação da Lei, além de exercer a
autoridade disciplinar dentro da comunidade.
- A Resiliência Escatológica: A promessa de que as "portas do inferno não prevalecerão
contra ela" confere à Igreja uma garantia de sobrevivência espiritual
e histórica diante das perseguições internas e externas.
2. A vida comunitária e a prática eclesial (o discurso
do capítulo 18)
Se o capítulo 16 estabelece a estrutura teológica da Igreja, o capítulo
18 (o Discurso Eclesial) dita suas normas práticas e relacionais. Trata-se
de um manual de sobrevivência e convivência comunitária marcado por quatro
pilares:
A centralidade dos "pequeninos"
A liderança na Igreja de Mateus é radicalmente invertida. A grandeza é
medida pela humildade e pela capacidade de se fazer como criança (Mt 18,1-4). A
comunidade tem o dever absoluto de não escandalizar e de acolher os mais
vulneráveis, os marginalizados e os fracos na fé.
A busca ativa pelo desgarrado
Através da parábola da ovelha perdida (Mt 18,12-14), Mateus demonstra
que a eclesiologia não é estática. A Igreja deve ter um caráter pastoral ativo,
priorizando o resgate daquele que se desviou da comunhão antes de aplicar
medidas excludentes.
A correção fraterna e a disciplina
Mateus estabelece um processo jurídico-pastoral progressivo para lidar
com o pecado comunitário (Mt 18,15-17):
- Diálogo privado entre
os envolvidos.
- Mediação com
duas ou três testemunhas.
- Apelo à Igreja (ekklesía)
como instância final de discernimento.
Se o indivíduo recusar ouvir a comunidade, ele deve ser considerado
"como um gentio ou publicano" — o que, ironicamente no evangelho de
Mateus, significa alguém que se tornou novamente objeto do amor missionário de
Deus.
O perdão ilimitado
A resposta de Jesus a Pedro sobre perdoar "setenta vezes sete"
(Mt 18,22) estabelece a misericórdia como a lei interna fundamental da Igreja.
Uma comunidade que experimentou o perdão gratuito de Deus não pode reter o
perdão de seus semelhantes.
3. A Igreja como o verdadeiro Israel e a nova justiça
Mateus constrói sua eclesiologia em constante diálogo e ruptura com o
judaísmo formativo de sua época. A Igreja não é vista como uma abolição dos
planos originais de Deus, mas como o cumprimento e a continuidade do
verdadeiro Israel.
- A prática da verdadeira justiça: No Sermão da Montanha, Jesus exige uma "justiça que supere a
dos escribas e fariseus" (Mt 5,20). A Igreja é o espaço onde a Torá é
vivida plenamente a partir do mandamento do amor e da misericórdia, e não
do legalismo estrito.
- Uma comunidade "Corpus Mixtum": Mateus adverte que a Igreja na terra não é perfeita. Através das
parábolas do joio e do trigo (Mt 13,24-30) e da rede de pesca (Mt
13,47-50), ele explica que bons e maus coabitam na comunidade eclesial. A
separação definitiva e o julgamento pertencem exclusivamente a Deus no fim
dos tempos.
4. O Emanuel e a grande comissão (A dimensão missionária)
A eclesiologia de Mateus é emoldurada por uma promessa cristológica: a
presença constante de Deus. O evangelho começa apresentando Jesus como o Emanuel
("Deus conosco") (Mt 1.23) e termina com a promessa de Jesus: "Eis
que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos" (Mt
28,20).
A Igreja recebe sua razão de ser na Grande Comissão (Mt
28,19-20):
- Universalidade: A
missão expande-se além das fronteiras de Israel para alcançar "todas
as nações" (panta ta ethne).
- Discipulado: A
Igreja é chamada a fazer discípulos, o que implica ensinar a guardar tudo
o que Jesus ordenou, priorizando a ortopraxia (o agir correto) em vez do
mero discurso ritual.
Conclusão
A eclesiologia do Evangelho de Mateus oferece um modelo de Igreja
estruturado, mas profundamente relacional. Ela equilibra a autoridade
institucional (o poder das chaves) com a ética do serviço, do perdão e do
cuidado com os pequeninos. Longe de ser um gueto isolado, a Igreja mateana é
uma comunidade missionária, sustentada pela presença viva do Emanuel,
encarregada de visibilizar o Reino dos Céus na história humana enquanto aguarda
a consumação escatológica.
A
eclesiologia no Evangelho de Marcos: A comunidade do caminho e do serviço
Diferente
do Evangelho de Mateus, o Evangelho de Marcos nunca utiliza a palavra
"Igreja" (ekklesía). Contudo, a ausência do termo não
significa a ausência de uma eclesiologia. Escrito provavelmente por volta do
ano 70 d.C., em um contexto de severa perseguição em Roma ou na Galileia,
Marcos desenvolve uma eclesiologia implícita, existencial e profundamente
prática. A Igreja, para Marcos, não é uma instituição jurídica ou estruturada,
mas sim a comunidade daqueles que seguem Jesus "pelo caminho" da
cruz.
1.
A Igreja como a comunidade do "Caminho" (Hodos)
Em
Marcos, a identidade eclesial é dinâmica e itinerante. O conceito de
"caminho" (hodos) serve como a principal metáfora para a vida
da comunidade.
- O chamado radical: A
Igreja nasce da iniciativa soberana de Jesus, que chama os discípulos para
"deixarem imediatamente" suas redes e o seguirem (Mc 1,16-20).
- Movimento em direção a Jerusalém: A seção central do evangelho (Mc 8,22–10,52) se passa inteiramente
"no caminho" em direção a Jerusalém. É neste percurso que Jesus
instrui sua comunidade sobre o que significa ser Igreja: aceitar o
sofrimento, a incompreensão e o martírio.
2.
O contra modelo de poder: serviço e fraternidade
Marcos
escreveu para uma comunidade cristã que sofria a opressão do Império Romano e
que, internamente, sofria com disputas de ego e poder. Por isso, a eclesiologia
marcana é um manifesto anticlerical e anti-hegemônico.
- A inversão da pirâmide social: Diante da ambição de Tiago e João por lugares de honra, Jesus
redefine radicalmente a liderança eclesial:
"Sabeis
que os que são considerados governantes das nações dominam sobre elas... Mas
entre vós não será assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre
vós, será esse o que vos sirva" (Mc
10,42-43).
- O modelo cristológico: A razão de ser da comunidade baseia-se no próprio Cristo, que "não
veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por
muitos" (Mc 10,45). A Igreja marcana é essencialmente serva.
3.
Uma Eclesiologia da fragilidade e do fracasso
Uma
das características mais marcantes de Marcos é o chamado "segredo
messiânico" e o retrato realista (e muitas vezes negativo) dos
discípulos. Eles são retratados como homens de pouca fé, que não entendem
as parábolas, dormem no Getsêmani, abandonam Jesus e o negam.
- A Igreja dos imperfeitos: Marcos ensina que a Igreja não é uma comunidade de heróis
espirituais ou de pessoas perfeitas. Ela é o espaço dos frágeis que
dependem exclusivamente da misericórdia e da graça de Deus.
- A Restauração pela graça: O evangelho não termina com o triunfo institucional dos doze, mas
com a promessa de reconciliação: "Ide, dizei a seus discípulos e a
Pedro que ele vai adiante de vós para a Galileia" (Mc 16,7). A
Igreja é o lugar onde o fracasso humano encontra o recomeço divino.
4.
A Nova família de Jesus e a inclusão dos marginais
Marcos
redefine os laços familiares e de parentesco da época, substituindo os laços de
sangue pela obediência à vontade de Deus.
- A família escatológica: Quando a mãe e os irmãos de Jesus o procuram, ele olha para os que
estão sentados ao seu redor e diz: "Qualquer que fizer a vontade
de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe" (Mc 3,35). A Igreja é essa
nova família inclusiva.
- Ruptura de fronteiras: A comunidade de Marcos é provocada a acolher os marginalizados da
pureza ritual judaica: os leprosos, os pagãos (como a mulher siro-fenícia)
e os publicanos. Na cruz, quem reconhece Jesus como Filho de Deus não é um
discípulo judeu, mas um centurião romano (Mc 15,39), consolidando a
eclesiologia universal e gentílica do evangelho.
Conclusão
A
eclesiologia do Evangelho de Marcos é uma eclesiologia da cruz. Ela
desmistifica o poder, rejeita o triunfalismo e coloca a comunidade no seu
devido lugar: aos pés do mestre, servindo aos menores. Para Marcos, a Igreja só
cumpre sua missão quando renuncia a si mesma, toma a sua cruz e segue o
crucificado até a Galileia do cotidiano.
A Eclesiologia no Evangelho de Lucas: a comunidade guiada
pelo Espírito e a inclusão dos marginais
Diferente
de Mateus, o Evangelho de Lucas não utiliza o termo técnico ekklesía
(Igreja). Contudo, ele projeta uma eclesiologia profunda e estruturada. Como
Lucas é o autor de uma obra em dois volumes (o Evangelho e o livro de Atos dos
Apóstolos), o seu evangelho funciona como o fundamento histórico e teológico
da Igreja que irá se expandir pelo mundo romano. Para Lucas, a comunidade
dos discípulos é o espaço histórico da salvação, caracterizada pela ação do
Espírito Santo, pela oração, pela alegria e, acima de tudo, pela inclusão
radical dos marginalizados.
1.
A Igreja como fruto e instrumento do Espírito Santo
Na
eclesiologia lucana, o Espírito Santo é o verdadeiro protagonista e o motor que
move a comunidade. A Igreja não nasce de um plano humano, mas de um
transbordamento do Espírito.
- continuidade teológica: O mesmo Espírito que concebe Jesus (Lc 1,35) e o unge para o
ministério (Lc 4,18) é Aquele que ressuscita Jesus e capacita a comunidade
para a missão.
- A promessa do alto: No
final do Evangelho, Jesus instrui os discípulos a permanecerem na cidade
até que fossem "revestidos da força do alto" (Lc 24,49). A
Igreja, portanto, só existe e atua plenamente quando submetida à condução
pneumatológica (do Espírito).
2.
A Eclesiologia da hospitalidade e da inclusão radical
Se
Marcos foca na cruz e Mateus na justiça, Lucas constrói uma eclesiologia
baseada na misericórdia universal (misericordia). A Igreja lucana
é uma comunidade de portas abertas, com um olhar preferencial para os que a
sociedade da época descartava:
- Os pobres e marginalizados: No programa de Jesus em Nazaré (Lc 4,18-19), a missão da
comunidade é definida como "evangelizar os pobres" e
"libertar os oprimidos". A Igreja é o lugar teológico onde os
últimos se tornam os primeiros.
- O protagonismo das mulheres: Lucas é o evangelista que mais dá espaço às mulheres. Elas não
apenas seguem Jesus, mas sustentam o grupo com seus bens (Lc 8,1-3) e são
as primeiras testemunhas da ressurreição (Lc 24,10). A comunidade é um
espaço de igualdade e ruptura de barreiras de gênero.
- A mesa comunitária: A
comunhão de mesa é uma metáfora central. Jesus come com publicanos,
pecadores e fariseus (Lc 5,30; 7,36). A eclesiologia de Lucas é,
essencialmente, uma "eclesiologia da mesa", antecipando a
partilha do pão que caracterizará as primeiras comunidades cristãs em
Atos.
3.
O Discipulado como caminho de oração, renúncia e alegria
Lucas
desenha o perfil do membro da comunidade cristã através de exigências práticas
cotidianas, moldando a espiritualidade eclesial:
- A oração incessante: Jesus
é apresentado orando em todos os momentos decisivos (Lc 3,21; 6,12; 9,18).
A Igreja lucana é uma comunidade orante, que aprende com o Mestre a
depender do Pai através da prece constante.
- A renúncia diária: Ao
falar sobre tomar a cruz, Lucas adiciona uma palavra crucial: "tome a
sua cruz cada dia" (Lc 9,23). O discipulado não é um heroísmo
de um momento, mas a fidelidade na rotina diária.
- O perigo das riquezas: Lucas adverte severamente contra a avareza (Lc 12,15). A
comunidade eclesial deve praticar o desapego material e a partilha dos
bens para que não haja necessitados entre eles.
- A cultura da alegria: O
evangelho começa e termina no Templo com louvor e grande alegria (Lc 1,14;
24,52-53). A comunidade lucana celebra a salvação que já chegou.
4.
Testemunhas da Ressurreição: a transição para as nações
O
Evangelho de Lucas prepara a comunidade para o seu salto missionário global. No
relato dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35), Lucas resume a dinâmica eclesial
pós-ressurreição:
- A palavra e a fração do pão: Os olhos dos discípulos se abrem ao escutar a explicação das
Escrituras e ao participar da fração do pão. Esta é a liturgia básica da
Igreja.
- O envio universal: Jesus
ressuscitado abre a mente dos discípulos e declara que "em seu nome
se pregaria o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações,
começando por Jerusalém" (Lc 24,47). A Igreja é o corpo histórico
encarregado de levar essa mensagem ao mundo inteiro.
Conclusão
A
eclesiologia do Evangelho de Lucas projeta uma comunidade profética, alegre e
profundamente humana. Ela recusa o fechamento institucional e o legalismo
excludente, preferindo ser uma comunidade de caminho, curadora e acolhedora.
Sob a brisa e o fogo do Espírito Santo, a Igreja em Lucas é o laboratório do
Reino de Deus, onde a salvação se traduz em partilha, perdão e inclusão de
todos os povos.
A
eclesiologia no Evangelho de João: a comunidade do amor e da unidade orgânica
Diferente
de Mateus, o Evangelho de João não utiliza o termo técnico ekklesía
(Igreja). Contudo, o quarto evangelho possui uma das eclesiologias mais
profundas, místicas e originais do Novo Testamento. Escrito no final do
primeiro século (por volta de 90-100 d.C.) em um contexto de dolorosa expulsão
dos cristãos das sinagogas (aposynagogos), João não foca em estruturas
hierárquicas, cargos ou leis institucionais. Em vez disso, ele projeta uma eclesiologia
existencial, relacional e orgânica, onde a Igreja é definida pela união
íntima e vital com a pessoa de Jesus Cristo.
1.
A Igreja como Corpo Orgânico: a metáfora da videira (Jo 15)
A
principal imagem eclesiológica de João não é um edifício ou uma instituição
jurídica, mas um organismo vivo. Na alegoria da Videira Verdadeira, Jesus
define a natureza profunda da comunidade:
"Eu
sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto;
porque sem mim nada podeis fazer" (Jo 15,5).
- União vital e imanência recíproca: A Igreja existe apenas na medida em que permanece em Cristo. A
seiva que alimenta a comunidade é a própria vida divina fluindo através
dos discípulos.
- Igualdade radical: Na
videira, todos os ramos compartilham do mesmo status e dependem
diretamente do tronco. Não há uma hierarquia piramidal; a liderança
eclesial em João baseia-se na capacidade de permanecer no amor e dar
frutos.
2.
A Comunidade dos amigos e do Mandamento novo (O discurso de despedida)
Nos
capítulos de 13 a 17, durante a Última Ceia, Jesus molda a identidade
relacional e a ética interna da sua comunidade através de dois gestos e
ensinamentos fundamentais:
O
Lava-pés como Lei fundamental (Jo 13,1-17)
Ao
lavar os pés dos discípulos, Jesus realiza um ato reservado aos escravos mais
humildes. Ele inverte totalmente o conceito de autoridade. A Igreja joanina é
uma comunidade de iguais que servem uns aos outros. O poder
institucional é substituído pela diaconia (serviço) mútua.
O
estatuto dos amigos (Jo 15,13-15)
Jesus
eleva a relação com seus discípulos: eles não são servos (douloi), mas
amigos (philoi), porque receberam a revelação total dos segredos do Pai.
A Igreja é, portanto, a comunidade dos amigos de Jesus, unidos por laços
de afeto, transparência e intimidade espiritual.
O
Mandamento Novo (Jo 13,34-35)
O
critério de identificação da Igreja diante do mundo não são os ritos, dogmas ou
roupas: "Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos
amardes uns aos outros". O amor mútuo (agape) é o cartão de
identidade e a apologética da comunidade joanina.
3.
O Bom Pastor e o rebanho universal (Jo 10)
Através
da metáfora do Bom Pastor, João aborda a segurança, o cuidado pastoral e a
catolicidade (universalidade) da comunidade:
- Conhecimento Íntimo: O
Pastor chama suas ovelhas "pelo nome" e elas "conhecem a
sua voz" (Jo 10,3-4). A eclesiologia é personalizada e baseada no
discernimento espiritual da Palavra de Jesus.
- Ecumenismo e expansão: Diante das divisões da época, Jesus afirma: "Ainda tenho
outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar
estas... e haverá um só rebanho e um só Pastor" (Jo 10,16). A
Igreja é chamada a romper fronteiras exclusivistas para abraçar a
universalidade dos que creem.
4.
O Espírito Paráclito e a missão no mundo
Na
eclesiologia joanina, a transição entre o Jesus histórico e a era da comunidade
é realizada pelo Espírito Santo, a quem João chama de Paráclito
(Consolador, Defensor, Advogado).
- A presença do ausente: O Paráclito (Jo 14,16.26) guia a Igreja na verdade completa,
ajudando-a a recordar, reinterpretar e atualizar as palavras de Jesus
diante dos novos desafios da história.
- O envio missionário: No
dia da ressurreição, Jesus sopra sobre os discípulos e diz: "Assim
como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós" (Jo 20,21). A
eclesiologia de João é essencialmente missionária. A comunidade prolonga
no tempo a missão encarnatória do Filho, levando ao mundo o perdão e a
reconciliação.
5.
A Oração Sacerdotal e a utopia da unidade (Jo 17)
O
ápice da teologia eclesial de João encontra-se na oração de Jesus pela unidade
dos seus discípulos. A unidade da Igreja não é um acordo burocrático ou
uniformidade institucional, mas um reflexo da comunhão trinitária:
"Para
que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles
sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste"
(Jo 17,21).
A
unidade eclesial tem uma finalidade estritamente missionária e
credibilizadora. Uma Igreja dividida sabota o próprio Evangelho; uma Igreja
unida no amor trinitário torna-se o sinal visível da presença de Deus no mundo.
Conclusão
A
eclesiologia do Evangelho de João oferece um contrapeso místico e vital para
qualquer tentação de clericalismo ou institucionalismo rígido. Ela nos lembra
que a essência da Igreja não está nas suas estruturas visíveis, mas na sua
união invisível e profunda com Cristo (a Videira). Caracterizada pelo serviço
mútuo (o lava-pés), orientada pelo Paráclito e unida pelo amor recíproco, a
comunidade joanina é chamada a ser um espaço de amizade e comunhão, cujo único
objetivo é fazer o mundo crer no amor do Pai.
A
eclesiologia de São Paulo: o Corpo de Cristo e a teologia da comunhão
Se
os Evangelhos lançaram os fundamentos históricos e teológicos da comunidade dos
discípulos, foi o Apóstolo Paulo quem desenvolveu a primeira e mais robusta eclesiologia
sistemática do Cristianismo primitivo. Em suas cartas, escritas entre as
décadas de 50 e 60 d.C., Paulo não teoriza sobre uma instituição abstrata; ele
responde a crises reais de comunidades gentílico-cristãs imersas no Império
Romano. Para Paulo, a ekklesía é a assembleia dos santos, o espaço
escatológico onde as divisões humanas são superadas pela união mística e social
com o Cristo Ressuscitado.
1.
A Igreja como o Corpo de Cristo (Soma Christou)
A
metáfora mais célebre e original da eclesiologia paulina é a da Igreja como o Corpo
de Cristo (1Co 12; Rm 12; Ef 1). Esta imagem opera em duas dimensões
simultâneas:
Diversidade
na unidade (1Co 12,12-27)
Paulo
utiliza a analogia do corpo humano para combater o orgulho e as divisões na
comunidade de Corinto.
- Interdependência: O
olho não pode dizer à mão "não preciso de ti". Na Igreja, a
saúde do todo depende da harmonia entre as partes.
- Igualdade de Dignidade: Os membros que parecem mais fracos ou menos honrosos são, na
verdade, os mais necessários. Paulo subverte a pirâmide social romana,
exigindo que haja o mesmo cuidado mútuo entre todos.
A
dimensão mística e corporativa
A
Igreja não é apenas uma associação de pessoas que pensam de forma parecida; ela
é a extensão visível e viva do próprio Cristo na terra. Através do
Batismo e da Eucaristia, os crentes são incorporados à existência de Cristo: "Vós
sois o corpo de Cristo e, individualmente, membros desse corpo" (1Co
12,27). Em Efésios e Colossenses, essa teologia se expande: Cristo é
explicitamente apresentado como a Cabeça (Kephale) que governa,
nutre e unifica todo o corpo (Ef 1,22-23; Cl 1,18).
2.
A Ruptura de Barreiras e a Nova Humanidade
A
eclesiologia paulina é revolucionária em sua dimensão sociológica. Em um mundo
rigidamente estratificado por raça, status e gênero, a Igreja surge como um
laboratório de uma nova criação.
O
grande manifesto dessa igualdade eclesial está em Gálatas:
"Não
há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque
todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl 3,28).
Para
Paulo, a cruz de Cristo derrubou o "muro de separação" que dividia a
humanidade (Ef 2,14). A Igreja não elimina as identidades biológicas ou
culturais, mas anula o seu poder de exclusão, transformando antigos inimigos em
"concidadãos dos santos e membros da família de Deus" (Ef 2,19).
3.
Os Carismas e a Edificação Comunitária
Diferente
de uma estrutura burocrática baseada em cargos estáticos, a Igreja paulina é
essencialmente carismática. Os ministérios e funções dentro da
comunidade não provêm de ambição pessoal, mas são dons gratuitos (charismata)
distribuídos pelo Espírito Santo.
- A Finalidade do Dom: Paulo
enfatiza que nenhum carisma é dado para o orgulho ou exibição individual.
O critério supremo para validar qualquer dom espiritual é a edificação
(oikodome) da comunidade (1Co 14,12).
- A Supremacia do Amor: No
ápice da discussão sobre os dons, Paulo insere o hino ao amor (1Co 13). O
amor (agape) não é apenas mais um carisma, mas o "caminho
sobremodo excelente", a força que amalgama todos os dons e impede que
a diversidade se transforme em caos.
4.
O Templo do Espírito e a Noiva de Cristo
Além
da imagem do corpo, Paulo recorre a outras metáforas veterotestamentárias e
culturais para enriquecer sua eclesiologia:
- O Templo Vivo:
Contrapondo-se aos templos de pedra de Jerusalém ou das divindades pagãs,
Paulo afirma que a comunidade cristã é o verdadeiro Templo de Deus,
habitado pelo Espírito Santo (1Co 3,16-17). Isso confere à Igreja um
caráter de extrema santidade: destruir a comunidade com divisões é
profanar o santuário divino.
- A Noiva de Cristo: Em
Efésios 5,22-33, a relação entre Cristo e a Igreja é ilustrada pelo
matrimônio. Cristo ama a Igreja a ponto de se entregar por ela,
purificando-a para apresentá-la a si mesmo como uma "Igreja gloriosa,
sem mácula, nem ruga".
Conclusão
A
eclesiologia de São Paulo oferece o equilíbrio perfeito entre a mística e a
práxis. A Igreja paulina não é um clube social, mas o corpo místico do
Ressuscitado; por outro lado, ela não se isola em um espiritualismo alienado,
mas se manifesta historicamente na partilha, no acolhimento mútuo e na
superação das injustiças estruturais. Para Paulo, ser Igreja significa viver em
comunhão (koinonia), sob o senhorio de Cristo e a condução do Espírito,
antecipando no cotidiano a reconciliação universal que Deus operará no fim dos
tempos.
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