segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O ANTROPOCENO E O DESMONTE DAS LEIS AMBIENTALISTAS NA ÉRA DE JAIR BOLSONARO 2019-2022

 




 

As políticas ambientais adotadas durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022) resultaram em retrocessos significativos na preservação do ecossistema brasileiro, com impactos severos na Amazônia, onde o desmatamento aumentou cerca de 60% no período. O Supremo Tribunal Federal (STF) chegou a reconhecer juridicamente que houve um "estado de coisas inconstitucional" decorrente de um desmonte estrutural na proteção da floresta.

Em vez de grandes reformas votadas no Congresso, a estratégia principal do governo utilizou medidas infralegais (decretos presidenciais, portarias e despachos) para flexibilizar a fiscalização sem a necessidade de aprovação legislativa — uma prática que ficou conhecida politicamente pela expressão "passar a boiada".

 

Principais mecanismos e tipos de atos normativos

O enfraquecimento das salvaguardas da Amazônia ocorreu por meio de três frentes normativas principais:

1. Decretos de reestruturação e esvaziamento de órgãos colegiados

Estes atos alteraram a governança ambiental, removendo a participação da sociedade civil e de governantes locais das tomadas de decisão.

  • Extinção de comitês do Fundo Amazônia: Logo no início da gestão, decretos presidenciais extinguiram de forma unilateral o Comitê Orientador (COFA) e o Comitê Técnico (CTFA) do Fundo Amazona. Isso paralisou bilhões de reais em doações da Alemanha e da Noruega destinados a projetos de conservação.

  • Desmonte do CONAMA (Decreto nº 9.806/2019): Reduziu drasticamente o número de assentos destinados a organizações não governamentais e ambientalistas no Conselho Nacional do Meio Ambiente, centralizando o controle regulatório no Executivo.

  • Esvaziamento do Conselho da Amazônia Legal: Mudanças via decretos excluíram os governadores dos estados amazônicos da governança direta do conselho.

  • Nota Jurídica: Em abril de 2022, o STF derrubou três desses decretos presidenciais, determinando a reintegração da sociedade civil e dos governadores aos comitês.

2. Alterações no Processo de fiscalização e aplicação de multas (Atos Infralegais)

Medidas administrativas criaram barreiras burocráticas que inviabilizaram a punição a crimes ambientais executada por fiscais do Ibama.

  • Decreto das "Audiências de Conciliação" (Decreto nº 9.760/2019): Instituiu a obrigatoriedade de uma etapa de conciliação antes da validação de qualquer multa ambiental. Na prática, o processo gerou um gargalo administrativo imenso, paralisando a cobrança de milhares de infrações e elevando o risco de prescrição de mais de 50 mil multas em todo o país.

  • Despachos e portarias sobre apreensão de madeira: Normativas internas fragilizaram os ritos de fiscalização de cargas e dificultaram a destruição de equipamentos e maquinários (como tratores e dragas) flagrados em desmatamento ilegal ou garimpo em terras indígenas.

3. Flexibilização territorial e Leis de uso do solo

Mudanças legislativas e normativas sancionadas abriram margem para a ocupação e exploração de áreas vulneráveis.

  • Margens de rios em áreas urbanas (Lei nº 14.285/2021): Sancionada no final de 2021, essa lei alterou o Código Florestal para repassar aos municípios o poder de definir a largura das Áreas de Preservação Permanente (APPs) ao redor de cursos d’água em áreas urbanas. Especialistas apontaram que a medida desprotegeu matas ciliares essenciais contra o assoreamento nas bacias hidrográficas amazônicas.

  • Instrução Normativa nº 9/2020 da Funai: Permitiu que propriedades privadas fossem certificadas e registradas sobre terras indígenas ainda não homologadas formalmente, estimulando indiretamente conflitos fundiários e invasões

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O antropoceno e a defesa do meio ambiente nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva

    A defesa do meio ambiente nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva é estruturada em dois momentos principais: o período histórico de se...