A
influência platônica na teologia da criação em Filo, Basílio e nos últimos livros
das Confissões de Agostinho
Paolo
Cugini
Resumo
O presente artigo analisa a influência do pensamento platônico no debate
patrístico sobre a criação do mundo, traçando um percurso conceitual que vai da
fusão inicial entre judaísmo e helenismo em Filo de Alexandria até a maturidade
especulativa cristã em Basílio Magno e Santo Agostinho. O foco central
concentra-se nos livros XI, XII e XIII das Confissões de Agostinho, onde
a exegese teológica do relato do Gênesis é profundamente moldada pelas
categorias da tradição platonista e neoplatonista. Examina-se como a teoria das
Ideias, a distinção entre a eternidade imutável e a temporalidade fluida, e o
conceito de matéria informe foram ressignificados sob o escopo da criação ex
nihilo. Demonstra-se que a patrística operou uma depuração metafísica do
platonismo, convertendo o cosmos ontologicamente independente em uma realidade
radicalmente contingente e sustentada pelo Verbo Divino.
Palavras-chave: Criação.
Platonismo. Patrística. Filo de Alexandria. Basílio Magno. Agostinho (Confissões).
1. Introdução
A formulação da doutrina cristã da criação nos primeiros séculos da Era
Cristã constitui um dos fenômenos intelectuais mais complexos da história da
filosofia ocidental. Ao depararem-se com as narrativas do Gênesis, os
teólogos cristãos não apenas buscavam elucidar o sentido literal e espiritual
das Escrituras, mas também responder às contestações intelectuais das escolas
helenísticas rivais. O materialismo determinista dos estoicos, o dualismo
cosmológico dos gnosticismos e a eternidade do mundo preconizada por
Aristóteles exigiam uma contraofensiva teórica sólida.
Nesse horizonte apologético e especulativo, o platonismo — especialmente
o modelo cosmológico exposto no diálogo Timeu e as releituras promovidas
pela tradição neoplatônica posterior — forneceu o arcabouço conceitual e o
instrumental metafísico indispensáveis para a estruturação conceitual da
doutrina da criação. A distinção platônica entre o mundo inteligível das Formas
e o mundo sensível das aparências mutáveis ofereceu aos padres da Igreja o
vocabulário adequado para salvaguardar a transcendência absoluta de Deus face à
finitude e contingência do cosmos.
Este artigo propõe-se a mapear essa influência através de uma trajetória
progressiva e aprofundada em três eixos autorais. Inicia-se com a transição
helenística operada por Filo de Alexandria, que estabelece os fundamentos da
exegese alegórica e a internalização das Ideias na mente do próprio Deus. Em
seguida, examina-se a contribuição da patrística capadócia com Basílio Magno,
cujas homilias sobre o Hexameron convertem a física e a harmonia
cosmológica grega em um monumento de louvor à pedagogia e providência divina.
Por fim, o artigo dedica seu núcleo analítico aos capítulos finais das Confissões
de Santo Agostinho (Livros XI, XII e XIII). Nesses textos culminantes, a
exegese do Gênesis é elevada a uma profunda meditação ontológica sobre o
tempo, a eternidade, a matéria informe (informitas) e a formação do
mundo pelo Verbo eterno, evidenciando o apogeu e a superação crítica da
metafísica platônica pelo pensamento cristão latino.
2. Filo de Alexandria: a filosofia mosaica e a reconfiguração
do Logos
Embora cronologicamente situado no início do século I d.C. e pertencente
à tradição do judaísmo helenístico, Filo de Alexandria funciona como o
verdadeiro elo metodológico e metafísico sem o qual a teologia patrística da
criação seria incompreensível. A tese central de Filo reside na convicção de
que a filosofia grega clássica, e de modo eminente o pensamento de Platão, nada
mais era do que o desdobramento racional e analítico das verdades profundas já
reveladas por Moisés no Pentateuco.
Para harmonizar a transcendência absoluta do Deus de Israel com o ato
criador, Filo recorre à teoria das Ideias de Platão, mas introduz uma inovação
que alteraria de forma perene o curso da filosofia ocidental: a reclassificação
do mundo inteligível (cosmos noetos). No platonismo clássico, as Formas
ou Ideias subsistem de modo autônomo, constituindo uma realidade metafísica
independente à qual o Demiurgo recorre como modelo externo para moldar o mundo
material. Filo recusa essa dualidade primordial ao asseverar que o mundo das
Ideias não possui existência externa a Deus, mas está situado no próprio
intelecto divino, identificado conceitualmente como o Logos (Verbo ou
Razão Divina).
Em sua obra referencial A Criação do Mundo, Filo recorre à
célebre analogia arquitetônica para clarificar essa interiorização:
"Quando um rei resolve fundar uma cidade, um arquiteto habilidoso
concebe previamente em sua mente o desenho de todas as partes da cidade a ser
erguida... Como a cidade criada pelo arquiteto não tinha lugar fora, mas estava
impressa na alma do artesão, do mesmo modo o mundo das Ideias não poderia ter
outro lugar senão o Logos divino, que ordenou estas coisas." (FILO, De
Opificio Mundi, §19, p. 55).
Dessa forma, a criação divina opera-se em dois momentos perfeitamente
articulados. O primeiro momento consiste na gestação interna do plano ideal e
inteligível dentro do Logos divino — um cosmos arquetípico, puramente
espiritual e incorpóreo. O segundo momento constitui a exteriorização desse
plano na matéria visível, originando o mundo sensível (cosmos aisthetos).
Através dessa reformulação, Filo preserva a soberania absoluta de Deus, elimina
a independência ontológica das Formas e fornece à patrística posterior a chave
hermenêutica para ler o relato bíblico à luz da racionalidade grega.
3. Basílio Magno: a harmonização cosmológica no Hexameron
No século IV, a patrística grega atinge sua maturação teológica e
literária face aos desafios internos da ortodoxia cristã. Basílio de Cesareia
(Basílio Magno), em suas célebres nove homilias estruturadas sob o título de Hexameron,
depara-se com o desafio de explicar os seis dias da criação narrados no Gênesis
a um público culto, familiarizado com as especulações físicas e astronômicas da
Academia e do Liceu.
A postura de Basílio é de uma apropriação eminentemente crítica. Ele
rejeita com vigor os pressupostos cosmológicos pagãos que ameaçam a doutrina
cristã, tais como a eternidade da matéria prima ou a ideia platônica de que o
Criador é mero ordenador de um caos preexistente e independente (chora).
Para Basílio, Deus é o criador universal: gera simultaneamente a matéria e a
forma, de modo que o ato criador é absoluto e radicalmente ex nihilo.
Contudo, uma vez salvaguardado o princípio da criação do nada, Basílio
não hesita em utilizar toda a física elementar e a estética cosmológica
derivadas do Timeu de Platão para descrever o funcionamento, a ordem e a
arquitetura íntima do universo material. O cosmos basílico é um organismo vivo
e harmonioso, cujas partes díspares são unidas por uma proporção matemática e
uma simpatia cósmica que remetem diretamente às intuições platônicas sobre a
alma do mundo:
"O mundo foi criado com uma harmonia tão perfeita que todas as suas
partes estão ligadas por uma afinidade indissolúvel, de modo que o conjunto
forma um único corpo ordenado. Unindo elementos contrários em uma paz perpétua,
o Criador fez com que a terra, a água, o ar e o fogo cooperassem para a
estabilidade do todo." (BASÍLIO, Hexameron, I, 7, p. 112).
A influência platônica manifesta-se decisivamente na transposição da
dialética visível-invisível. Para Basílio, o mundo material não é uma ilusão
desprezível, mas um espelho reflexo da Beleza Inteligível. A contemplação da
ordenação cósmica opera como uma autêntica paideia (educação) da alma
humana: através dos vestígios sensíveis da harmonia do universo, o intelecto é
gradualmente elevado à adoração e ao conhecimento do Deus invisível. A ordem
física do Hexameron é, fundamentalmente, uma manifestação visível da
bondade essencial do Criador.
4. Santo Agostinho: a doutrina da criação nos livros finais
das Confissões
Se em Filo encontramos o início da síntese e em Basílio a sua aplicação
cosmológica grega, é na obra de Santo Agostinho de Hipona que o encontro entre
o pensamento platônico (particularmente através das traduções das Enéadas
de Plotino por Porfírio) e a revelação cristã alcança seu apogeu metafísico e
sua articulação exegética mais sofisticada. Esse movimento culmina de forma
dramática e especulativa nos três últimos livros das Confissões (XI, XII
e XIII), textos fundamentais para a compreensão de sua ontologia da criação.
4.1. O Livro XI: tempo, eternidade e a criação pelo
Verbo
No Livro XI das Confissões, Agostinho depara-se com a clássica e
provocadora objeção dos maniqueus e dos filósofos pagãos: "O que Deus
fazia antes de criar o céu e a terra? Se Deus mudou de vontade para criar, como
pode ser imutável?". Para responder a essa aporia, Agostinho opera uma
radical distinção entre a eternidade (aeternitas) divina e a
temporalidade (tempus) criatural, uma clivagem que herda diretamente da
distinção platônica entre o Inteligível imutável e o Sensível em perpétuo
devir.
Agostinho demonstra que a própria pergunta "o que Deus fazia antes"
carece de sentido lógico, pois o tempo não existia antes da criação. O tempo é
uma criatura, uma condição intrínseca do mundo mutável. Deus não cria o mundo no
tempo, mas cria o mundo com o tempo. A eternidade divina não é um tempo
infinitamente estendido (um erro das concepções materialistas), mas um
"hoje" imutável, um presente eterno onde nada passa e nada é futuro.
"Não havia tempo antes que fizésseis o tempo. Se, pois, o tempo
começou a existir com o céu e a terra, como se pode perguntar o que fazíeis
'então'? Onde não há tempo, não há 'então'." (AGOSTINHO, Confissões,
XI, 13, p. 294).
O mecanismo metafísico desse ato criador dá-se inteiramente por meio do
Verbo Eterno (Verbum), que corresponde ao Logos platônico-filoniano.
É no Verbo que residem as razões eternas de todas as coisas vivas e inertes.
Deus fala eternamente, e nessa palavra única e perene, tudo o que é criado
subsiste na imutabilidade divina antes de manifestar-se na imperfeição do fluxo
temporal:
"No vosso Verbo, todas as coisas são ditas eterna e
simultaneamente, e tudo o que é dito subsiste de forma imutável."
(AGOSTINHO, Confissões, XI, 7, p. 285).
4.2. O Livro XII: a matéria Informe e o Céu do Céu (Caelum
Caeli)
O Livro XII aprofunda a exegese teológica de Gênesis 1,1-2 ("No
princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava invisível e
informe"). Agostinho investiga a natureza profunda dessa "terra
informe" e desse "céu". Para elucidar tais conceitos, ele
recorre a dois polos ontológicos marcadamente influenciados pela tradição
neoplatônica: a matéria informe (materia informis) e o céu do céu (caelum
caeli).
A "terra informe" é identificada por Agostinho como uma
quase-nada ontológica (prope nihil), uma pura potencialidade de ser que
carece de qualquer forma, beleza ou determinação. É o correspondente cristão à chora
do Timeu de Platão, porém despida de sua eternidade mítica. A matéria
informe agostiniana não preexiste cronologicamente à criação; ela é criada por
Deus a partir do nada para servir de substrato receptivo sobre o qual as formas
e determinidades divinas serão impressas.
"Criastes algo a partir do nada, uma matéria informe que, embora
não seja o nada absoluto, está tão próxima do nada pela sua total privação de
forma que se encontra na fronteira do ser." (AGOSTINHO, Confissões,
XII, 3, p. 312).
No extremo oposto dessa escala ontológica da criação, Agostinho situa o caelum
caeli (o céu do céu). Trata-se de uma criatura intelectual e puramente
espiritual, que embora mutável por sua própria natureza de criatura, contempla
a face de Deus de modo tão contínuo e absorto que jamais se desvia para a
mutabilidade temporal. É a inteligência angélica pura, o ápice da criação
espiritual que reflete perfeitamente a imutabilidade do mundo inteligível
platônico, sem se confundir com a divindade em si mesma:
"O céu do céu é a vossa criatura intelectual que, participando de
vossa eternidade, mantém-se firme na vossa contemplação, sem sofrer a
vicissitude dos tempos." (AGOSTINHO, Confissões, XII, 11, p. 321).
4.3. O Livro XIII: A harmonização pelo Espírito e a alegoria
teológica
No derradeiro livro das Confissões, Agostinho eleva a exegese do Gênesis
a uma grande alegoria teológica e mística sobre a ordem, o repouso e a
consumação escatológica da criação. A figura do Espírito de Deus que
"pairava sobre as águas" (Gn 1,2) é interpretada à luz do
dinamismo neoplatônico de conversão (epistrophe) e amor.
Para Agostinho, a matéria informe e as criaturas desordenadas tendem
naturalmente para o abismo da não-existência e do caos se não forem atraídas de
volta pela força do Amor Divino, personificado no Espírito Santo. O Espírito
atua como o princípio de atração metafísica que ordena o caos primordial,
infundindo peso, medida e número (pondus, mensura et numerus) nas
criaturas, garantindo que cada ser encontre seu lugar natural na arquitetura do
universo:
"O meu peso é o meu amor; por ele sou levado para onde quer que
seja levado. Pelo vosso Dom [o Espírito Santo], somos inflamados e levados para
o alto; ascendemos e cantamos os degraus das subidas." (AGOSTINHO, Confissões,
XIII, 9, p. 362).
A criação em Agostinho, portanto, reflete a estrutura triádica da
processão e do retorno típica do neoplatonismo: tudo emana do Pai através da
ideação inteligível do Filho (Verbo) e tudo retorna e se estabiliza na forma e
na ordem adequadas pelo dinamismo amoroso do Espírito Santo. O universo
material e o humano, embora mutáveis e imersos no tempo, trazem em si as marcas
indeléveis das Ideias imutáveis de Deus.
6. Conclusão
A investigação desenvolvida demonstra de forma inequívoca que o tema da
criação no debate patrístico é inteligível apenas quando compreendido em sua
íntima relação dialética com o pensamento platônico. A apropriação filosófica
operada pela patrística, contudo, esteve longe de ser um sincretismo ingênuo ou
uma helenização passiva do cristianismo. Pelo contrário, assistiu-se a uma
autêntica conversão e depuração metafísica das categorias gregas.
Filo de Alexandria ofereceu o passo inicial decisivo ao situar o cosmos
inteligível de Platão no bojo do Logos eterno. Basílio Magno converteu a ordem
natural em um hino cosmológico de caráter pedagógico e litúrgico, ressaltando a
bondade intrínseca do mundo físico contra o dualismo gnóstico. Finalmente,
Santo Agostinho, nos livros finais de suas Confissões, consolidou a mais
sofisticada síntese ontológica do período: o tempo e a matéria informe deixaram
de ser princípios cósmicos independentes ou marcas de uma queda ontológica para
tornarem-se dimensões constitutivas de uma criação radicalmente contingente,
moldada no Verbo imutável e sustentada pela ordenação amorosa do Espírito
Santo. Ao afirmar a absoluta transcendência de Deus e a total dependência
ontológica da criatura, a teologia patrística subverteu as aporias do
platonismo clássico, erguendo os alicerces imperecíveis sobre os quais repousa
toda a tradição filosófica e teológica do Ocidente cristão.
Referências
Bibliográficas
AGOSTINHO,
Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina.
São Paulo: Paulus,
2002.
AGOSTINHO,
Santo. De Genesi ad Litteram (A Criação sobre a Letra). Tradução de Nair de Assis Oliveira.
São Paulo: Paulus, 2010.
BASÍLIO
MAGNO, Santo. Homilias sobre o Hexameron. Tradução de M. S. de Carvalho.
Braga: Editorial
Apostolado da Oração, 1998.
FILO
DE ALEXANDRIA. De Opificio Mundi. Introduction, translation, and
commentary by David T. Runia. Leiden:
Brill, 2001.
PLATÃO.
Timeu - Crítias. Tradução de Rodolfo Lopes. Coimbra: Centro de Estudos
Clássicos e Humanísticos, 2011.
PLOTINO.
Tratados das Enéadas. Tradução de Américo Somme. Madrid: Gredos, 1992.

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