quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O corpo e o símbolo: a construção do feminino na antropologia estrutural, cultural e decolonial

 




Paolo Cugini

 

A antropologia da mulher e, posteriormente, a antropologia feminista e de gênero, consolidaram-se ao longo do século XX como campos fundamentais para desnaturalizar as assimetrias entre os sexos. Longe de aceitar a subordinação feminina como um imperativo biológico imutável, o olhar antropológico demonstrou que a categoria "mulher" é moldada por dinâmicas simbólicas, econômicas e políticas que variam socialmente.

Este artigo analisa as principais correntes teóricas que fundaram a disciplina, articulando a escola anglo-saxônica, o estruturalismo francês e as críticas decoloniais latino-americanas.

 

1. A Plasticidade Cultural: Margaret Mead

As fundações para a separação entre determinação biológica e comportamento social foram lançadas no início do século XX por Margaret Mead. Integrante da escola de "Cultura e Personalidade", Mead desafiou o determinismo científico da época ao demonstrar que os traços de temperamento atribuídos aos sexos não são universais nem inatos, mas construções plásticas modeladas pela socialização.

Em sua obra referencial Male and Female: A Study of the Sexes in a Changing World (1949), a autora investiga como diferentes sociedades organizam as funções reprodutivas e o cuidado das crianças, concluindo que o sexo biológico funciona como uma tela em branco para as inscrições culturais: "Somos levados a concluir que grande parte do que chamamos de temperamento humano é culturalmente construído e ensinado, fornecendo a cada sexo papéis que variam drasticamente de acordo com a configuração da sociedade" (Mead, 1949, p. 124).

 

2. As dicotomias estruturais: natureza/cultura e doméstico/público

Na década de 1970, o lançamento da coletânea Woman, Culture, and Society (1974), organizada por Michelle Zimbalist Rosaldo e Louise Lamphere, marcou a chamada "segunda onda" da antropologia feminista. O objetivo central era explicar a aparente universalidade da subordinação feminina sem recair em justificativas genéticas.

A Equação de Sherry Ortner

No ensaio "Is Female to Male as Nature is to Culture?", Sherry Ortner recorre ao estruturalismo de Claude Lévi-Strauss para propor que todas as culturas humanas operam através de binarismos, sendo o principal deles a oposição entre a Natureza (o dado bruto, biológico) e a Cultura (a transcendência humana por meio de símbolos e rituais). Ortner argumenta que as mulheres são universalmente associadas ao polo da natureza devido à sua fisiologia reprodutiva e ao envolvimento com os cuidados primários, enquanto os homens monopolizam a esfera cultural.

"Considera-se que a mulher está em uma posição intermediária entre a cultura e a natureza; essa diferenciação simbólica fundamenta e justifica a sua desvalorização social em relação ao homem, que se assume como o agente puro da transcendência cultural" (Ortner, 1974, p. 73).

A divisão de Michelle Rosaldo

No mesmo volume, Michelle Rosaldo complementou essa perspectiva sob a ótica da organização sociopolítica, dividindo o mundo social entre os domínios doméstico (particular, familiar e ligado à maternidade) e público (institucional, político e coletivo).

"A assimetria social surge porque o 'público' é a arena em que opera o poder legítimo e transformador da sociedade, ao passo que o 'doméstico' é subsumido ou subordinado a ele, confinando a atividade feminina fora dos eixos de autoridade formal" (Rosaldo, 1974, p. 23).

 

3. O estruturalismo francês e a valência diferencial

Na tradição europeia, Françoise Héritier (sucessora de Lévi-Strauss no Collège de France) aprofundou a análise cognitiva em seu livro marco masculino/feminino: O pensamento da diferença (1996). Héritier defendeu que a constatação da alteridade anatômica é o primeiro dado empírico sobre o qual o cérebro humano organiza o pensamento, classificando o mundo em pares opositores (quente/frio, alto/baixo, ativo/passivo).

Para a antropóloga francesa, a dominação masculina nasceu do fato de os homens perceberem que dependiam do corpo das mulheres para reproduzir "o semelhante" (outros homens). A expropriação desse poder gerou o conceito que ela cunhou como valência diferencial dos sexos:

"O pensamento humano estruturou-se a partir de uma assimetria conceitual primária. A valência diferencial dos sexos não é um produto posterior da história econômica; ela constitui o próprio fundamento das lógicas de parentesco, nas quais o masculino assume o estatuto de valor positivo e ativo, e o feminino é relegado ao polo passivo e subordinado" (Héritier, 1996, p. 34).

 

4. Perspectivas decoloniais e interseccionais

A partir do final do século XX, as grandes narrativas universalistas (tanto as de Ortner quanto as de Héritier) foram severamente contestadas por antropólogas negras e decoloniais, que apontaram o viés eurocêntrico e burguês das análises anteriores.

Lélia Gonzalez e a amefricanidade

No cenário latino-americano, a antropóloga e filósofa brasileira Léila Gonçalez denunciou que a categoria "mulher" proposta pelo feminismo ocidental ignorava as clivagens de raça e classe. Em seus ensaios sobre a amefricanidade (reunidos em Por um feminismo Afro-Latino-Americano), Gonzalez demonstra que a mulher negra no continente sofre uma tripla opressão, operando à margem das estruturas sociais devido ao "racismo por denegação":

"A mulher negra é a discriminada entre os discriminados. Ocupando historicamente o lugar fixado pelo racismo e pelo sexismo — heranças da estrutura colonial que se disfarçam sob o mito da democracia racial —, ela é vista simultaneamente como força de trabalho superexplorada e objeto de dominação sexual" (Gonzalez, 1983, p. 227).

Rita Segato e a guerra contra as mulheres

Alinhada à crítica da modernidade-colonialidade, a antropóloga argentina Rita Segato propõe em La guerra contra as mujeres (2016) uma distinção crucial: o gênero não é uma opressão secundária, mas a estrutura fundante de todos os mandatos de poder. Segato diferencia o patriarcado de "baixa intensidade" (existente em sociedades pré-coloniais) do patriarcado moderno-colonial, consolidado com a expansão do Estado e do capitalismo, que destituiu as esferas de autoridade comunitária feminina e transformou o corpo das mulheres em um território de conquista.

"O corpo feminino transformou-se no palco de uma pedagogia da crueldade. Na nova ordem colonial-moderna, a violência de gênero não é um crime privado ou um excesso individual, mas um discurso de poder e soberania emitido pela masculinidade hegemônica através da destruição do território-corpo da mulher" (Segato, 2016, p. 58).

 

Conclusão

A evolução da antropologia da mulher demonstra que a opressão de gênero não possui uma única causa de ordem biológica ou econômica. Se as primeiras teóricas focaram em desvincular o comportamento do determinismo orgânico e mapear os universais simbólicos da subordinação, as correntes contemporâneas alertam para a necessidade de situar a experiência das mulheres em suas realidades geopolíticas, históricas e raciais específicas. Entender a categoria "mulher" na antropologia exige, portanto, cruzar o peso do símbolo com as marcas concretas da história.

 

Referências Bibliográficas

GONZALEZ, Lélia. Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. In: Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

HÉRITIER, Françoise. Masculino/Feminino: O Pensamento da Diferença. Lisboa: Instituto Piaget, 1996.

MEAD, Margaret. Male and Female: A Study of the Sexes in a Changing World. New York: William Morrow & Co, 1949.

ORTner, Sherry. Is Female to Male as Nature is to Culture? In: ROSALDO, M. Z.; LAMPHERE, L. (Eds.). Woman, Culture, and Society. Stanford: Stanford University Press, 1974.

ROSALDO, Michelle Zimbalist. Woman, Culture, and Society: A Theoretical Overview. In: ROSALDO, M. Z.; LAMPHERE, L. (Eds.). Woman, Culture, and Society. Stanford: Stanford University Press, 1974.

SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016

 

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