Paolo
Cugini
A antropologia da mulher e, posteriormente, a antropologia feminista e
de gênero, consolidaram-se ao longo do século XX como campos fundamentais para
desnaturalizar as assimetrias entre os sexos. Longe de aceitar a subordinação
feminina como um imperativo biológico imutável, o olhar antropológico
demonstrou que a categoria "mulher" é moldada por dinâmicas
simbólicas, econômicas e políticas que variam socialmente.
Este artigo analisa as principais correntes teóricas que fundaram a
disciplina, articulando a escola anglo-saxônica, o estruturalismo francês e as
críticas decoloniais latino-americanas.
1. A Plasticidade Cultural: Margaret Mead
As fundações para a separação entre determinação biológica e
comportamento social foram lançadas no início do século XX por Margaret Mead. Integrante
da escola de "Cultura e Personalidade", Mead desafiou o determinismo
científico da época ao demonstrar que os traços de temperamento atribuídos aos
sexos não são universais nem inatos, mas construções plásticas modeladas pela
socialização.
Em sua obra referencial Male and Female: A Study of the Sexes in a
Changing World (1949), a autora investiga como diferentes sociedades
organizam as funções reprodutivas e o cuidado das crianças, concluindo que o
sexo biológico funciona como uma tela em branco para as inscrições culturais: "Somos
levados a concluir que grande parte do que chamamos de temperamento humano é
culturalmente construído e ensinado, fornecendo a cada sexo papéis que variam
drasticamente de acordo com a configuração da sociedade" (Mead, 1949, p.
124).
2. As dicotomias estruturais: natureza/cultura e doméstico/público
Na década de 1970, o lançamento da coletânea Woman,
Culture, and Society (1974), organizada por Michelle Zimbalist Rosaldo e
Louise Lamphere, marcou a chamada "segunda onda" da antropologia
feminista. O objetivo central era explicar a aparente universalidade da
subordinação feminina sem recair em justificativas genéticas.
A Equação de Sherry Ortner
No ensaio "Is Female to Male as Nature is to Culture?",
Sherry Ortner
recorre ao estruturalismo de Claude Lévi-Strauss para propor que todas as
culturas humanas operam através de binarismos, sendo o principal deles a
oposição entre a Natureza (o dado bruto, biológico) e a Cultura (a
transcendência humana por meio de símbolos e rituais). Ortner argumenta que as
mulheres são universalmente associadas ao polo da natureza devido à sua
fisiologia reprodutiva e ao envolvimento com os cuidados primários, enquanto os
homens monopolizam a esfera cultural.
"Considera-se que a mulher está em uma posição intermediária entre
a cultura e a natureza; essa diferenciação simbólica fundamenta e justifica a
sua desvalorização social em relação ao homem, que se assume como o agente puro
da transcendência cultural" (Ortner, 1974, p. 73).
A divisão de Michelle Rosaldo
No mesmo volume, Michelle Rosaldo complementou essa perspectiva
sob a ótica da organização sociopolítica, dividindo o mundo social entre os
domínios doméstico (particular, familiar e ligado à maternidade) e público
(institucional, político e coletivo).
"A assimetria social surge porque o 'público' é a arena em que
opera o poder legítimo e transformador da sociedade, ao passo que o 'doméstico'
é subsumido ou subordinado a ele, confinando a atividade feminina fora dos
eixos de autoridade formal" (Rosaldo, 1974, p. 23).
3. O estruturalismo francês e a valência diferencial
Na tradição europeia, Françoise Héritier (sucessora de
Lévi-Strauss no Collège de France) aprofundou a análise cognitiva em seu
livro marco masculino/feminino: O pensamento da diferença (1996).
Héritier defendeu que a constatação da alteridade anatômica é o primeiro dado
empírico sobre o qual o cérebro humano organiza o pensamento, classificando o
mundo em pares opositores (quente/frio, alto/baixo, ativo/passivo).
Para a antropóloga francesa, a dominação masculina nasceu do fato de os
homens perceberem que dependiam do corpo das mulheres para reproduzir "o
semelhante" (outros homens). A expropriação desse poder gerou o conceito
que ela cunhou como valência diferencial dos sexos:
"O pensamento humano estruturou-se a partir de uma assimetria
conceitual primária. A valência diferencial dos sexos não é um produto
posterior da história econômica; ela constitui o próprio fundamento das lógicas
de parentesco, nas quais o masculino assume o estatuto de valor positivo e
ativo, e o feminino é relegado ao polo passivo e subordinado" (Héritier,
1996, p. 34).
4. Perspectivas decoloniais e interseccionais
A partir do final do século XX, as grandes narrativas universalistas
(tanto as de Ortner quanto as de Héritier) foram severamente contestadas por
antropólogas negras e decoloniais, que apontaram o viés eurocêntrico e burguês
das análises anteriores.
Lélia Gonzalez e a amefricanidade
No cenário latino-americano, a antropóloga e filósofa brasileira Léila
Gonçalez denunciou que a categoria "mulher" proposta pelo
feminismo ocidental ignorava as clivagens de raça e classe. Em seus ensaios
sobre a amefricanidade (reunidos em Por um feminismo Afro-Latino-Americano),
Gonzalez demonstra que a mulher negra no continente sofre uma tripla opressão,
operando à margem das estruturas sociais devido ao "racismo por
denegação":
"A mulher negra é a discriminada entre os discriminados. Ocupando
historicamente o lugar fixado pelo racismo e pelo sexismo — heranças da
estrutura colonial que se disfarçam sob o mito da democracia racial —, ela é
vista simultaneamente como força de trabalho superexplorada e objeto de
dominação sexual" (Gonzalez, 1983, p. 227).
Rita Segato e a guerra contra as mulheres
Alinhada à crítica da modernidade-colonialidade, a antropóloga argentina
Rita Segato propõe em La guerra contra as mujeres (2016)
uma distinção crucial: o gênero não é uma opressão secundária, mas a estrutura
fundante de todos os mandatos de poder. Segato diferencia o patriarcado de
"baixa intensidade" (existente em sociedades pré-coloniais) do
patriarcado moderno-colonial, consolidado com a expansão do Estado e do
capitalismo, que destituiu as esferas de autoridade comunitária feminina e
transformou o corpo das mulheres em um território de conquista.
"O corpo feminino transformou-se no palco de uma pedagogia da
crueldade. Na nova ordem colonial-moderna, a violência de gênero não é um crime
privado ou um excesso individual, mas um discurso de poder e soberania emitido
pela masculinidade hegemônica através da destruição do território-corpo da
mulher" (Segato, 2016, p. 58).
Conclusão
A evolução da antropologia da mulher demonstra que a opressão de gênero
não possui uma única causa de ordem biológica ou econômica. Se as primeiras
teóricas focaram em desvincular o comportamento do determinismo orgânico e
mapear os universais simbólicos da subordinação, as correntes contemporâneas
alertam para a necessidade de situar a experiência das mulheres em suas
realidades geopolíticas, históricas e raciais específicas. Entender a categoria
"mulher" na antropologia exige, portanto, cruzar o peso do símbolo
com as marcas concretas da história.
Referências
Bibliográficas
GONZALEZ,
Lélia. Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. In: Por um feminismo
afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
HÉRITIER,
Françoise. Masculino/Feminino: O Pensamento da Diferença. Lisboa: Instituto Piaget, 1996.
MEAD,
Margaret. Male and Female: A Study of the Sexes in a Changing World. New York: William Morrow & Co,
1949.
ORTner,
Sherry. Is Female to Male as Nature is to Culture? In: ROSALDO, M. Z.;
LAMPHERE, L. (Eds.). Woman, Culture, and Society. Stanford: Stanford University
Press, 1974.
ROSALDO,
Michelle Zimbalist. Woman, Culture, and Society: A Theoretical Overview. In:
ROSALDO, M. Z.; LAMPHERE, L. (Eds.). Woman, Culture, and Society. Stanford: Stanford University
Press, 1974.
SEGATO,
Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños,
2016

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