segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A aliança sutil: quando o trono e o altar consagram o patriarcado

 



 

Paulo Cugini

 

Há uma aliança sutil que se insinua ao longo da história. Ela não faz barulho, não se apresenta como agressão, mas, ao contrário, muitas vezes se reveste de palavras reconfortantes: ordem, tradição, identidade, proteção. Contudo, onde se impõe, deixa para trás escombros e desastres. É a aliança entre os sistemas políticos tradicionais que defendem os valores de "Deus, Pátria e Família" e os movimentos cristãos tradicionalistas, tanto católicos quanto evangélicos, que fazem da interpretação literal da Bíblia um baluarte intransponível. Considerados separadamente, esses dois mundos podem parecer distantes: um fala a linguagem do poder, o outro a da fé. Mas quando se encontram e se apoiam mutuamente, nasce algo muito mais forte do que a soma das partes: uma ordem social que se apresenta como desejada por Deus e, precisamente por isso, inquestionável.

O ponto mais delicado dessa aliança diz respeito às mulheres. Quando política e religião se fundem nesse nível, o patriarcado deixa de ser um mero hábito cultural, um resquício do passado que pode ser corrigido com o tempo e a educação: ele se torna soberano, imparável, porque é sacralizado. E diante do sagrado, a igualdade feminina acaba se revelando uma reivindicação ilegítima, quase uma rebelião contra a ordem da criação. No fim, nada resta da igualdade.

Tudo começa com uma leitura. A história do fruto proibido no terceiro capítulo do Gênesis é interpretada literalmente e transformada em um julgamento: foi a mulher quem pecou primeiro e foi ela quem induziu o homem a fazer o mesmo. Quando tal afirmação é colocada na boca de Deus, quando é apresentada não como uma história simbólica, produto de uma cultura e de uma época, mas como uma verdade revelada e histórica, o passo em direção aos fatos é curto. Não é preciso muito para considerar a mulher a fonte e a origem do pecado, a tentadora natural, aquela de quem se deve ter cautela e manter sob controle.

A história do cristianismo está bem ciente dessa tendência. Durante séculos, parte da tradição considerou as mulheres como "a porta de entrada do diabo", seres mais frágeis e mais suscetíveis à sedução do mal. Isso levou a consequências muito concretas: exclusão do discurso público, suspeita em relação ao corpo feminino, necessidade de proteção masculina, silêncio imposto nas assembleias. Essas não são questões abstratas: cada vez que uma falha é atribuída a um gênero inteiro, esse gênero é relegado a uma condição de minoria permanente.

Se acrescentarmos outra narrativa seguindo a mesma linha literal, o quadro se completa. O segundo capítulo do Gênesis nos diz que o homem foi criado primeiro, depois a mulher, ambas originadas da costela do mesmo homem. Lida literalmente, a narrativa se torna uma hierarquia ontológica: o homem vem primeiro, a mulher depois; o homem é a origem, a mulher é derivada; o homem é o todo, a mulher uma parte. E se a mulher foi criada pelo homem e para o homem, então seu lugar é ao lado dele, mas um passo atrás.

Combinando as duas narrativas, o resultado é claro: a mulher é a segunda na ordem da criação e a primeira na ordem da culpa. Segunda em dignidade, primeira em responsabilidade pelo mal. Ela não tem escolha a não ser obedecer. A obediência ao marido, ao pai, à autoridade religiosa e, por extensão, à autoridade política, é apresentada como o caminho para a virtude, como a forma pela qual a mulher pode redimir suas origens e sua culpa.

Enquanto essa visão permanecer confinada a um sermão ou catecismo, ela poderá ser contestada, debatida e anulada pela consciência dos fiéis. O problema surge quando encontra um braço político disposto a traduzi-la em normas, programas, leis e políticas públicas. É aí que a aliança demonstra toda a sua força. O político tradicionalista ganha legitimidade moral e um consenso no mundo religioso; o movimento religioso ganha, por meio do poder político, a capacidade de impor sua própria interpretação das Escrituras a todos. Cada um oferece ao outro o que não teria sozinho.

As consequências são visíveis no cotidiano das mulheres: na forma como a família é vista como uma instituição em que os papéis são fixos e imutáveis; na desconfiança em relação à autonomia econômica e profissional feminina; na dificuldade em reconhecer e combater a violência doméstica, frequentemente relegada a um "assunto privado"; no controle sobre os corpos e as escolhas das mulheres; e na marginalização daquelas que não se encaixam no modelo preestabelecido. Quando a hierarquia entre homens e mulheres é apresentada como vontade divina, qualquer tentativa de questioná-la é vista como um ataque à fé, à nação e à família como um todo. Assim, o patriarcado não precisa mais se defender: basta que se declare sagrado.

No entanto, a própria Bíblia oferece as ferramentas para desmantelar essa construção. O primeiro capítulo de Gênesis, que precede a história da costela, afirma que Deus criou os seres humanos à sua imagem: "homem e mulher os criou" (Gênesis 1:27). Não há precedência, nem hierarquia: a imagem de Deus é dada em conjunto, em diferença e reciprocidade. Mesmo na segunda narrativa, o Adão inicial é, antes de tudo, "o terráqueo", a criatura feita da terra, e somente com o aparecimento da mulher é que o homem e a mulher são mencionados como dois que se reconhecem. A mulher é definida como "uma auxiliadora que lhe é adequada", uma expressão também usada na Bíblia Hebraica para o próprio Deus e que não indica subordinação, mas sim aliança e correspondência.

A própria história do pecado, lida com atenção, não atribui um pecado maior à mulher: o homem está com ela, participa, e quando chamado por Deus, transfere a culpa para a mulher e, em última instância, para o próprio Deus ("a mulher que puseste ao meu lado"). É precisamente essa transferência de responsabilidade, e não a presumida inferioridade da mulher, que é o sinal do pecado. A dominação do homem sobre a mulher, anunciada em Gênesis 3:16, não é uma ordem divina, mas a descrição de uma consequência do pecado: é um mundo ferido, não o mundo desejado por Deus.

E depois há o Evangelho. Jesus é acompanhado por discípulas; ele conversa com a mulher samaritana, rompendo com as convenções da época; defende a adúltera do apedrejamento, questionando a hipocrisia dos homens; confia a Maria Madalena a primeira proclamação da ressurreição, a ponto de a tradição a chamar de "apóstola dos apóstolos". Paulo, embora um homem de seu tempo, chega a escrever que em Cristo "não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher" (Gálatas 3:28). Aqueles que leem a Bíblia literalmente, selecionando apenas as passagens que confirmam a hierarquia, traem essa própria novidade.

O literalismo bíblico se apresenta como fidelidade absoluta à Palavra, mas, na realidade, muitas vezes é uma escolha seletiva e motivada por interesses próprios. Ninguém, nem mesmo o fundamentalista mais rigoroso, aplica todas as prescrições das Escrituras ao pé da letra. Eles escolhem, enfatizam, silenciam. E o que escolhem tomar literalmente quase sempre confirma uma ordem de poder já existente. É por isso que o literalismo é tão valioso para um certo tipo de política: oferece respostas simples, limites claros, inimigos definidos e, sobretudo, elimina as hierarquias sociais da discussão, colocando-as em uma origem sagrada e imutável.

As Escrituras, por outro lado, são uma palavra viva que exige ser interpretada, contextualizada e ouvida dentro da história das comunidades que a escreveram e transmitiram. Renunciar à interpretação não significa ser mais fiel a Deus: significa entregar a Sua Palavra àqueles que buscam usá-la para legitimar o seu próprio domínio.

Quando religião e política se aliam nesses níveis, a ordem social patriarcal reina suprema. Mas o que foi construído por seres humanos pode ser desconstruído por seres humanos. O primeiro passo é desmascarar o engano: não é Deus quem deseja a subjugação das mulheres; são os homens que colocaram seus próprios medos e interesses na boca de Deus. O segundo passo é restaurar o poder libertador das Escrituras, lendo-as não como um código de dominação, mas como a história de um Deus que ouve o clamor dos oprimidos e chama cada pessoa, homem e mulher, à igualdade de dignidade. Para os crentes, esta não é uma batalha contra a fé, mas a favor da fé. Uma fé que abençoa a desigualdade não é fiel ao Evangelho; uma política que usa Deus para manter as mulheres em seu lugar não defende nem a Deus, nem a pátria, nem a família. Defende apenas a si mesma. Romper essa aliança tênue é uma das tarefas mais urgentes hoje, para a Igreja e para a sociedade: porque onde as mulheres não são livres, ninguém o é verdadeiramente.

 

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